sábado, 5 de dezembro de 2015

Lido: A Cidade do Céu

A Cidade do Céu (bibliografia) é um romance de ficção científica de Curt Siodmak sobre uma espécie de pequena guerra em órbita terrestre. E não é um mau romance, embora também não seja bom. Porquê?

Começa logo por ser prejudicado por uma ideia base disparatada: a de que a melhor forma para a Terra (que aqui é retratada como um lugar que continua a ter as suas intensas tensões internacionais, mas no entanto consegue um grau de cooperação suficiente para grandes projetos globais) se livrar de criminosos particularmente perigosos, ou pelo menos particularmente incómodos, é encerrá-los numa estação espacial em órbita. É uma ideia com amplo pedigree, pois o desterro foi usado por quase todas as potências coloniais do passado mais ou menos recente e há até países inteiros que lhe devem a existência, mas a verdade é que os desterrados dispunham quase sempre, nos locais de desterro, de alguma forma de prover localmente à sua subsistência, total ou parcialmente, não estando dependentes para tudo de produtos enviados da metrópole. Não é o que acontece em órbita, tanto nas várias estações espaciais que temos tido na vida real, como em quase todas estas estações de ficção: tudo tem de ser levado da Terra, o que faz com que a manutenção de prisioneiros em órbita seja um disparate tão monumental como os custos que algo assim teria.

Mas a cidade do céu a que o título se refere não é a prisão orbital. É outra estação espacial, muito maior, gerida como um empreendimento turístico de ultraluxo e chamada Cidade Internacional do Céu (CIC). Esta faz mais sentido, o que já contribui para o romance não ser mau. Mas o que mais contribui para isso é Siodmak ter conseguido criar uma história com o seu interesse, envolvendo uma revolta e fuga na prisão orbital (cheia de perigosíssimos criminosos, mas também de presos políticos) e a invasão da CIC por parte dos revoltosos, com a consequente tomada de alguns dos mais valiosos reféns do mundo e arredores. Melhor: em vez de se ficar por um mero enredo de ação à Hollywood, Siodmak aproveita para introduzir aqui e ali algumas reflexões com algum interesse sobre a liberdade e o poder. Nada de muito profundo, naturalmente, que não se quer estragar uma história movimentada com intelectualices, mas é sempre agradável quando os autores recusam reduzir tudo à banalidade maniqueísta do costume.

Trata-se, portanto, de uma história razoável, já um pouco datada mas ainda aceitável enquanto ficção científica de um futuro não muito distante, que seria bem mais verosímil sem a tolice de colocar uma prisão em órbita mas que, na verdade, só com ela funciona. É um busílis, que no entanto teria sido possível solucionar de outra forma. Uma prisão espacial faria sentido, por exemplo, para criminosos demasiado adaptados à vida em órbita para poderem ser levados em segurança para o planeta, ou então como módulo isolado de uma estação espacial muito maior e autossuficiente. Siodmak teria podido, portanto, fazer uma história melhor com estes ingredientes. É pena que não a tenha feito.

Ah, sim, e há uma personagem portuguesa. Coisa rara. Mas não rejubilemos: é um tipo insuportável, vá-se lá saber porquê.

Este livro foi comprado.

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