sábado, 12 de dezembro de 2015

Lido: O Tempo do Impossível

O Tempo do Impossível (bibliografia) é um romance de ficção científica de John D. MacDonald, já bastante velhinho (data de 1951), que no entanto continua a funcionar bem hoje em dia, muito por ser uma espécie de Philip K. Dick antes de Dick.

Há livros que mostram com completa clareza que muito na obra de um autor, mesmo quando este é dos melhores, tem a ver com o momento cultural específico de onde ele brota. Este é um desses livros. Teria Dick lido este romance de MacDonald? Tê-lo-ia influenciado? É possível. Mas é igualmente provável que não, que os temas e abordagens que Dick explorou mais tarde com a qualidade que universalmente se lhe reconhece estivessem simplesmente à espera de ser aproveitados, como que flutuando no caldo cultural da época.

Explorá-los é também o que John D. MacDonald faz neste livro, que conta como um tal Dake Lorin, jovem jornalista promissor, vê a sua vida virada de pantanas por investigar o que não deve e que leva muito tempo a compreender. Com uma qualidade literária invulgar nos romances de ficção científica da época, este livro começa como uma espécie de thriller vagamente policial, vagamente de espionagem, ainda que se passe num futuro mais ou menos longínquo (ainda que muito semelhante, em muitas coisas, com os anos 50 do século passado) relativamente à época em que foi escrito, no qual as tensões internacionais parecem aproximar-se de um ponto de rotura que poderá levar a uma terceira guerra mundial.

Dick entrevê-se a cada virar de página. A natureza alucinatória da realidade, aqui deturpada por um grupo de pessoas (serão pessoas? Talvez o sejam) dotadas de capacidades telepáticas e capazes de implantar ilusões em cérebros desprotegidos, o homem sozinho que luta obstinadamente contra forças muito mais fortes do que ele e que mal compreende, ou não compreende de todo, a grande conspiração maligna (ou será benigna? Uma mistura das duas coisas, talvez?) cujo objetivo é dominar o mundo (só esse?), tudo isto, que tão fulcral veio a ser mais tarde nas melhores ficções dickianas, é também fulcral neste romance.

E as reviravoltas no enredo, nunca nada ser exatamente o que parece, os aliados que afinal são adversários e vice-versa, todos os pequenos pormenores aparentemente insignificantes que mais tarde se vêm a revelar importantes e que tornam tão difícil que se fale das histórias por tanto nelas depender das surpresas com que o leitor vai deparando no avançar da trama. Tudo isto, que é ingrediente em O Tempo do Impossível, é também profundamente dickiano.

Este é um romance sobre um homem em busca do seu lugar no mundo e, acima de tudo, de respostas sobre a natureza desse mundo. Algo com que muitos leitores se identificarão sem grande dificuldade, tanto hoje como nos anos 50, mesmo que as suas circunstâncias pouco tenham a ver com as extraordinárias circunstâncias do protagonista desta história. É também um romance que reflete com uma profundidade bastante razoável sobre o conflito, a sua natureza e as suas consequências, o que ele tem de mau mas também o que traz de bom. É um romance com ideias dentro, o que nem sempre se pode dizer desta forma literária a que muitos gostam de chamar a literatura das ideias (como se as outras não as tivessem também). É um romance que consegue não ser particularmente machista, o que é um feito para a FC escrita, por homens, na época. Tudo somado, portanto, é um bom romance. Não um romance excelente, talvez, mas um bom romance.

Este livro foi comprado.

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