terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Lido: Os Vespões de Ouro

Os Vespões de Ouro, do belga Peter Randa, é um romance planetário já bem antiguinho (data de 1960) e bastante pulpesco que, não obstante, ainda mantém alguns motivos de interesse.

Como é timbre dos romances planetários, este desenrola-se num mundo distante, ao qual, depois de uma viagem aparentemente rápida, o que é bem típico da FC pulp, que só raramente quer saber da imensidão das distâncias espaciais e da consequente dificuldade e demora de ir de um sítio a outro, chega uma nave saturnina tripulada por humanoides oriundos de outros mundos do Sistema Solar, Vénus, Saturno, etc., mas cujo herói é, obviamente um terrestre, Ariézi. É este o protagonista e é pelos seus olhos, embora não em primeira pessoa, que vamos tomando contacto com o novo mundo.

Este assemelha-se em tudo à Terra, o que também é muito típico da literatura pulp, cuja falta de imaginação chega por vezes a ser confrangedora: plantas verdes, animais, céu azul e gente. Gente quase idêntica à terrestre, claro, ou pelo menos mais parecida com o protagonista do que com os restantes tripulantes da nave. Mas apesar disso estranha, com uma estranheza que não é física, mas sim de comportamento, pois reage de maneiras que deixam todos os tripulantes da nave perplexos.

Estranhos também são os vespões de ouro com que os recém-chegados depressa deparam. Insetos de grandes dimensões, muito semelhantes a vespões dourados, mas, também eles, mostrando um comportamento à primeira vista pouco compreensível. Mas só à primeira vista.

Um dos pontos mais fracos do romance reside aqui: um leitor com alguma experiência de ler FC, a qual nem sequer precisa de ser muita, compreende os traços gerais do que se passa muito antes de alguém na nave o fazer. Não é bom para a suspensão da descrença, e por conseguinte para a qualidade da experiência, quando durante a leitura começamos a pensar coisas como "mas será que estes tipos são todos estúpidos?"

No entanto, o livro também tem os seus pontos positivos. A história está contada em bom ritmo, com eficácia, até, caso consigamos ultrapassar ou ignorar os piores ataques à verosimilhança, e não é tão básica como seria de supor num livro deste género. O pulp é muitas vezes vazio, limitando-se a histórias formulaicas de aventuras, carregadas de ação, com vencedores predeterminados pelo papel que cada personagem representa na história e com pouco ou nenhum conteúdo além desse. E esta história é, até certo ponto, tudo isso: uma história formulaica de aventuras, com vencedores predeterminados pelo papel de cada personagem. No entanto, não se concentra exclusivamente na ação, não é esta que a move. O seu motor principal é o desvendar do grande mistério do planeta e dos vários mistérios subsidiários que dele dependem.

E, melhor um pouco, está clara neste pequeno romance uma crítica ao militarismo e à corrida aos armamentos, coisa de toda a relevância no momento em que o livro foi escrito e publicado, no auge da Guerra Fria. Basta lembrar que o momento em que o nosso mundo mais próximo esteve da aniquilação global, a Crise dos Mísseis de Cuba, estava só dois anos no futuro quando Randa publicou este seu romance. Esta é, portanto, uma ficção científica que, sob uma primeira camada de superficialidade e escapismo futurista, esconde uma segunda camada atenta ao presente do autor e dos seus primeiros leitores. É essa a sua grande qualidade.

Não chega para tornar este romance bom, mas chega para o tornar razoável.

Este livro foi comprado.

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