quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Lido: O Incesto

O Incesto (bibliografia) é uma novela de Mário de Sá-Carneiro que, à semelhança de Loucura..., começa muito realista mas vai tomando um tom cada vez mais bizarro, mais tenebroso, vai mergulhando mais no horror psicológico, à medida que a tragédia vai fazendo o protagonista perder a razão até um desfecho que, também ele, é idêntico. Sim, as duas histórias têm fortes pontos de contacto. A estrutura é muito semelhante, embora O Incesto seja uma obra mais extensa e, em parte por isso, mais complexa, o enredo também tem semelhanças fortes, e as próprias personagens também.

Mas também há diferenças, claro. Para começar, esta não é uma história testemunhada por um narrador a ela estranho. É uma história com narração em terceira pessoa, cujo protagonista é um dramaturgo de sucesso, cuja vida a novela segue ao longo de várias décadas. Como é da praxe de um certo tipo de romantismo de que Mário de Sá-Carneiro, aparentemente, não gostava muito de se afastar, o fulcro da história são as relações sentimentais do protagonista e as consequências que elas têm.

Primeiro, com uma atriz, por quem se apaixona perdidamente, com quem casa, com quem tem uma filha e por quem é depois abandonado quando a mulher foge com um diplomata austríaco, abandonando-o não só a ele, mas à própria filha.

Depois é a ligação de amor paternal que estabelece com a filha, e que acaba tragicamente encurtada quando a rapariga, quase a fazer-se adulta, fica tuberculosa (e quanta literatura foi escrita, numa certa época, tendo a tuberculose como força motriz de enredos!). Seguem-se as viagens, os sanatórios, o travar conhecimento com outro doente, dinamarquês, que por um acaso do destino tem uma irmã que é sósia quase perfeita da filha do protagonista, e por aí fora.

Fácil é imaginar-se o desfecho desta parte da história, ou não fosse Sá-Carneiro quem é, mas só depois é que esta novela começa realmente a fazer jus ao título. É que a filha do dramaturgo, claro, morre, mas de seguida este decide casar com a sósia dinamarquesa, e a partir daí, como vê na mulher a filha morta, começa a ser dominado por pensamentos cada vez mais perturbadores. O resto da novela é um longo calvário, que acaba por ter o desfecho que é tão omnipresente nas histórias de Sá-Carneiro que as torna previsíveis. Por isso, mas também porque o autor cede demasiadas vezes à tentação de divagar nas páginas desta novela, perdendo-se em pensamentos que por vezes pouco têm a ver com a história que está a contar, este texto não me agradou muito.

Por outro lado, está muito longe de ser um texto mau. Está tão bem escrito como seria de supor, naturalmente. Mas além disso, a abordagem feita ao tema do incesto traz consigo pinças e é interessante, mesmo tendo sido inspirada por abordagem semelhante n'A Dama das Camélias, de Dumas Filho, o que Sá-Carneiro reconhece com a vénia de citar até um trecho da adaptação teatral do romance, no francês original. Se não retomasse temas, abordagens, truques narrativos e até desfecho de obras anteriores, eu consideraria esta novela realmente boa. Mas aborrece-me quando os autores se citam demasiado a si mesmos, quando parecem estar sempre a escrever a mesma história, mesmo que o façam de forma excelente. E é o que Sá-Carneiro aqui faz, infelizmente.

Contos anteriores deste livro:

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