quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Lido: A Guardiã da Espada

A Guardiã da Espada (bibliografia) é um romance de Bruno Martins Soares que mistura ficção científica e fantasia de uma forma que não fica particularmente clara ao longo do texto. Esta falta de clareza é, aliás, a grande pecha de todo o romance, e aquilo que mais contribui para que a leitura não decorra com a fluidez mais desejável.

Mas vamos por partes.

O romance é ambicioso, talvez em demasia. A história é complexa, a narrativa está entrecortada por saltos muito rápidos no espaço e no tempo, avançando numa frenética sucessão de cenas de uma ou duas páginas, raramente mais, ocasionalmente menos ainda, que saltitam entre um Marte futuro em cuja colónia humana rebenta uma guerra e vários locais de um planeta distante e ainda mais futuro mas cujo nível civilizacional é medieval. Não medieval especificamente europeu, atenção, pois nele se entrecruzam culturas claramente inspiradas não só pela europeia mas também pela árabe e pela chinesa. E se alguém ao ler a expressão "planeta distante" imaginou alienígenas de estranhas fisiologias, desengane-se. Toda a gente ali pertence, claramente, à espécie Homo sapiens.

Esse frenesi, repleto de ação, tem várias consequências.

Provavelmente agradará a quem aprecie descrições de combates e de batalhas, pois estas compreendem uma proporção considerável do texto no qual transparece um fascínio do autor, julgo que genuíno, pelas artes marciais e pela estratégia militar de séculos pretéritos. Proporção não maioritária, mas considerável. Não contei páginas, nem nada que se pareça, mas terminei a leitura com a sensação de que entre um quinto e um terço do texto corresponde a esse tipo de conteúdo. Convenhamos: é muito.

Quem, por outro lado, de bom grado trocaria a pirotecnia por um pouco de solidez provavelmente acaba desapontado. As personagens atropelam-se umas às outras em grande número, tornando impossível ou extremamente difícil ficarmos realmente a saber quem é quem e por que motivo faz o que faz. A exceção é só uma: Alex 9, a protagonista de toda a história, a única personagem caracterizada com alguma solidez.

Com mais exceções, mas ainda poucas, as razões por trás dos acontecimentos são totalmente misteriosas, o que cria a impressão de que muito daquilo é gratuito, um mero truque para manter um ritmo elevado e conservar a atenção dos leitores mais superficiais. Manda a justiça que se faça a ressalva de que é perfeitamente possível que o desenrolar da história no resto da série venha a contradizer esta impressão. Na verdade, embora este romance tenha tido publicação independente, ele não termina de uma forma minimamente conclusiva, o que faz suspeitar de que no fundo pouco passa de preâmbulo e, apesar disso, no fecho do epílogo surge-nos a informação mais relevante de todo o texto, a qual coloca algumas das coisas que mais me andavam a roer a suspensão da descrença sob uma luz mais benévola.

Há quem goste de escrever assim as séries, mas eu confesso que não sou fã. George R. R. Martin, por exemplo, fá-lo ocasionalmente, ainda que prefira estruturar os seus livros em volta de arcos narrativos secundários que permitem que haja no fim de quase todos uma espécie de pequena conclusão numa história que continua, o que me satisfaz muito mais enquanto leitor. De resto, Martin é um tremendo escritor; mesmo quando deixa finais escancarados fá-lo quase o melhor que é possível fazê-lo. Soares, porém, não parece ter nenhum arco narrativo para fechar no final desta primeira parte (os seus arcos narrativos são vários, mas parecem manter-se todos abertos para o volume seguinte) e está muito longe desse nível enquanto escritor; tem as inseguranças naturais da inexperiência e uma prosa com algumas falhas e alguns ridículos (um homem que grita já se entende em pleno — e quando não se entende há outras palavras mais enfáticas que se podem usar em vez de "gritar"; pô-lo a "gritar AAAAAAAAAHHHHHH" é um bocadito pateta) que não ajudam. Ou seja: ajuizando por esta primeira parte, a publicação dos três romances em volume único terá sido, provavelmente, a melhor ideia que a editora teve.

Sim, porque se eu tivesse lido este primeiro romance na sua edição autónoma provavelmente não teria pegado nos outros. Não creio que seja um mau romance, propriamente, mas está de tal forma cheio de pontas soltas, de personagens unidimensionais, de confusão narrativa e de potencial (ainda?) desaproveitado que seria com desconfiança e relutância que encararia os livros seguintes. Assim, com tudo num livro só, tendo a dar mais importância aos sinais de que, na história que ainda aí vem, as coisas vão melhorar. Também existem, a começar por aquele bocadinho fulcral de informação de que falo mais acima. Portanto prossigo a leitura, já menos confuso do que andei durante toda esta primeira parte, e esperançado numa experiência melhor.

Veremos se a esperança se confirma.

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