sábado, 21 de maio de 2016

Lido: Conto do Rapaz que Partiu para Aprender a Ter Medo

Conto do Rapaz que Partiu para Aprender a Ter Medo é um conto popular dos Irmãos Grimm, que trata precisamente daquilo que o título indica. Um rapaz, imprestável filho mais novo de um homem sério, adota como objetivo de vida saber o que é ter medo, o que é o mesmo que dizer: arrepiar-se. Para isso, parte da casa do pai, e não nos melhores termos com o resto da família por causa de um lamentável mal entendido ocorrido com o sacristão da terra, que resultou em este ficar com uma perna partida, e vai correr o reino à procura de quem o ensine a arrepiar-se. As peripécias são múltiplas e quase sempre macabras, envolvendo frequentemente os mais variados tipos de fantasmas e criaturas demoníacas, mas o rapaz de todas sai com a mesma intrepidez destemida com que nelas entra. Acaba rico e casado com a filha do rei, a qual decide ensiná-lo a arrepiar-se da forma mais inesperada (e divertida) possível.

Se alguém ao ler estas linhas reconhecer nelas paralelismos gritantes com o romance As Aventuras de João Sem Medo de José Gomes Ferreira não se enganará. É óbvio, pela leitura do conto dos Grimm, e sobretudo das notas com que os irmãos alemães fizeram acompanhá-lo, que o que está na base de uma e outra obra é o mesmo: uma antiga história tradicional que se espalhou pela Europa, vestindo-se de roupagens diferentes nos vários pontos onde se enraizou, mas conservando sempre a mesma ideia de base: um jovem desconhecedor do medo, que um belo dia parte para tentar encontrá-lo. Não sei se José Gomes Ferreira se inspirou na história dos Grimm, se nalguma variante portuguesa que lhe possa ter chegado ao conhecimento (e numa busca rápida ao índice dos Contos Populares Portugueses do Adolfo Coelho encontra-se logo uma variante óbvia, que demonstra que as variantes portuguesas existem: O Homem que Busca Estremecer), mas a verdade é que nas notas dos Grimm se encontra menção a uma variante, que eles localizam na zona de Paderborn, na qual o personagem se chama mesmo João (i.e., Hans, a variante alemã do nome João) Sem-Medo. Por outro lado, nos Contos Populares Portugueses o nome de João é muito comum nos protagonistas, portanto pode ser apenas coincidência. Ou raiz comum. Seja como for, seja qual for a inspiração de José Gomes Ferreira, o certo é que a sátira política contida no seu romance é só dele.

Já se vê que achei este conto particularmente interessante, não é? Pois é verdade, sim senhores. Achei mesmo.

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