sábado, 19 de novembro de 2016

Lido: Fuga no Tempo

Poucas coisas há mais adequadas para histórias nostálgicas de um tempo idealizado do que as viagens no tempo. Fuga no Tempo (bibliografia), conto curto de Ray Bradbury, é uma dessas histórias, regressando a vários temas recorrentes na sua obra: a cidadezinha quintessencialmente americana, a nostalgia da infância, o apelo ao deslumbramento e o elogio do folclore relacionado com as histórias de horror e o Halloween, em oposição a uma atitude mais racional perante a vida e o mundo, um passado feito de doçura por oposição a um futuro frio e deprimente, por aí fora.

Aqui vamos encontrar um futuro desprovido de toda a poesia do passado mas possuidor de tecnologias avançadas como a da máquina do tempo. De facto, estas máquinas não só existem como são banais o suficiente para serem até usadas na escola para visitas de estudo. E é precisamente o que aqui temos, uma visita de estudo ao ano longínquo de 1928, ano em que, não por coincidência, Bradbury tinha 8 anos, mais ou menos a idade dos seus protagonistas. Uma visita de estudo em que os miúdos deparam primeiro com um circo — outra aparição frequente nos contos de Bradbury —, depois com os fogos de artifício do 4 de Julho e por fim com as brincadeiras macabras do Dia das Bruxas, ficando tão fascinados com tudo que fogem do professor e da máquina do tempo, preferindo ficar no passado longínquo a voltar para casa.

A história, como é costume, está muito bem escrita. Também está bastante bem elaborada, embora depressa se torne previsível para quem já conhecer razoavelmente bem Bradbury. E é este o seu principal ponto fraco: quem depressa percebe o que vai aqui encontrar não só perde parte do interesse na leitura como também percebe depressa que o autor tem outras histórias bastante melhores sobre os mesmos temas. É o lado mau de se ter escrito obras primas: o que é meramente razoável, ou até bom, acaba por parecer insuficiente.

Contos anteriores deste livro:

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