sábado, 12 de novembro de 2016

Lido: Planeta Incorruptível

Planeta Incorruptível (bibliografia) é também, à semelhança do de Bradbury de que falo aqui por baixo, um conto de fundo cristão e com base, pelo menos em parte, na ficção científica. Mas as semelhanças acabam aí. Ao contrário de Bradbury, que tem na poesia da prosa e na filosofia do texto os seus principais pontos de apoio, Richard Diegues, o autor desta história, inspira-se muito mais nos thrillers de fundo religioso que tão populares têm sido ao longo das últimas duas décadas, e nas histórias sobre o arrebatamento cristão. Uma inspiração muito mais desinteressante, convenhamos.

A história que conta parte de uma invasão alienígena cujo objetivo é exterminar a humanidade a fim de se apropriar da Terra e dos seus recursos. Uma invasão alienígena bem sucedida, sublinhe-se, que só tem um verdadeiro percalço quando é descoberto em Nevers, França, o corpo incorrupto de Santa Bernardete. Para os menos versados na mitologia católica (como eu; tive de me ir informar), Bernadette Soubirous foi a responsável pelas aparições marianas de Lourdes e o seu corpo ter-se-á mumificado, o que levou à lenda de incorruptibilidade que lhe é atribuída. Ora, Diegues explica essa lenda com a permanência da alma no corpo (os ETs têm uns aparelhómetros que detetam a presença das almas), e isso vai ser muito, muito mau para os mauzões dos invasores.

Não é grande coisa, este conto. O texto é competente mas disso não passa, e a estrutura perde por uma incompreensão fundamental do que é a base de um thriller: a criação de uma ligação emocional entre o leitor e as personagens, que aqui pura e simplesmente não existe. Ainda por cima, há a velha pecha das ficções cristãs: tornar-se muito depressa óbvio que, por mais voltas que se dê ao texto, no fim deus resolve. Talvez resolva à sua maneira, mas acaba por resolver. E isso, como se sabe, torna todas as reviravoltas bem menos apelativas do que se o final estivesse realmente em suspenso.

Em suma: um conto dispensável.

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