domingo, 15 de janeiro de 2017

Lido: A Frio

Está um tipo sossegadamente a ler, no seu casarão, enquanto lá fora o mundo se desfaz em chuva, quando lhe vem bater à porta um miúdo, ensopado que nem um pinto, e assustado porque estaria a ser perseguido. O que faz o tipo? Bem, vocês não sei o que fariam, mas o dono deste casarão em concreto, o protagonista de A Frio, já parece ter o esquema todo montado.

É um conto curioso, este. Mas não passa disso. Ricardo Lopes Moura deixa uma ou duas pontas demasiado soltas na sua narrativa e faz uso muito pouco irónico (isto é, com muito pouca consciência aparente de que está a usar clichés) de alguns clichés para que eu consiga achar o conto bom.

O pior é que sem esses clichés o truque que usa para desviar as atenções do que se estava ali a passar resultaria em pleno. Sem tantas referências ao imaginário do terror, o leitor acreditaria na generosidade do dono da casa quando deixa o miúdo sair da chuva e obter refúgio de um qualquer perigo iminente. Mas com elas, a sensação de que há qualquer coisa que não está bem e a suspeita, quase imediata, de qual é a coisa que não está bem, surge demasiado depressa. E assim, a leitura acaba com um "ora bolas" de oportunidade perdida.

Ora bolas.

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