sábado, 5 de agosto de 2017

Os estudos do Pedro Reis

Uma das consequências de eu ter criado e passado dez anos a alimentar o Bibliowiki (até agora) é ter desviado parte das leituras para responder à curiosidade sobre se a publicação Xis ou Ípsilon tem alguma coisa a ver com literatura fantástica e, portanto, se se pode ou não inclui-la no site.

Outra consequência é gastar algum do tempo dedicado ao site a fazer pesquisas na net. Pesquisas sobre as edições deste ou daquele livro, pesquisas sobre termos específicos, enfim, pesquisas sobre as coisas mais variadas. E muitas vezes, dessas pesquisas resultam achados inesperados. Coisas que encontro enquanto procuro outras coisas.

Alguns desses achados são rapidamente enquadráveis. Outros há, contudo, que são gravados no meu disco e lá ficam à espera que eu tenha tempo ou me lembre de lhes prestar atenção. Normalmente durante longos anos.

Vem isto a propósito de um artigo científico que descobri há anos e anos, intitulado "O diagnóstico de concepções sobre os cientistas através da análise e discussão de histórias de ficção científica redigidas pelos alunos" e assinado por Pedro Reis e Cecília Galvão. Mais científico do que este título? Impossível. Talvez tenha sido em parte por isso que ficou a marinar.

Recentemente, peguei nele e li-o. É precisamente sobre o que o título diz, faltando-lhe só explicitar que se trata de alunos do fim do ensino secundário e que as histórias de FC escritas por eles serviram como sintoma indicativo da imagem da ciência e dos cientistas entre a população dessas idades, o que não impediu que eu me sentisse surpreendido. Convenhamos: não é todos os dias que vemos a ficção científica ser usada num estudo académico, especialmente quando não é caso único.

É que depois de ler este artigo (que pode ser encontrado aqui, já agora) fui escavar mais e descobri que o mesmo Pedro Reis, agora acompanhado por Sara Rodrigues e Filipa Santos, publicou um outro, com um título igualmente comprido: "Concepções sobre os cientistas em alunos do 1º ciclo do Ensino Básico: “Poções, máquinas, monstros, invenções e outras coisas malucas”". Encontra-se aqui, e foi daí que saquei o desenho que decora este post.

Este artigo não é especificamente sobre FC, mas o género faz a sua aparição, o que aliás o próprio título já sugere. E analisa as ideias de miúdos bastante mais novos, entre os sete e os dez anos, sobre essa coisa de cientistas e ciência.

Também encontrei aquilo que mais que provavelmente terá dado origem a toda a linha de investigação, a tese de doutoramento em Educação - Didática das Ciências do Pedro Reis. O título deste é mais curto, mas vem acompanhado de subtítulo. A nós basta-nos o título: "Controvérsias Sócio-Científicas: Discutir ou não Discutir?" Está aqui. Esta tese não li (são 488 páginas, calma!... talvez um dia), mas folheei-a o suficiente para perceber que dela consta a investigação que deu origem ao primeiro dos dois artigos, incluindo os contos publicados nele e mais alguns.

Imagino que a tese de doutoramento seja um bocadinho indigesta, porque é o que as teses de doutoramento geralmente são, mas os artigos são leitura muito interessante. Não só pelos contos que, apesar de literariamente maus, como seria de esperar (são miúdos que muito provavelmente nunca antes tinham escrito ficção, alunos que não foram escolhidos por mostrarem alguma predisposição específica para a literatura mas por terem a disciplina de Ciências da Terra e da Vida (os mais velhos) ou por pertencerem às turmas selecionadas (os mais novos)... e de resto, a generalidade dos contos que eu escrevi nessas idades também eram literariamente maus. Digo, muito maus. E ó, o engraçadinho aí da fila de trás a dizer que ainda são! Eu ouvi.), têm de facto interesse, extraliterário, digamos, mas por tudo o que transparece dos estudos e pelas conclusões que o Pedro Reis (e coautores) deles tiram. Mas vamos por partes.

Comecemos pelos contos dos miúdos.

Para quem escreve e aprecia FC, como eu, ler os contos dos miúdos (em especial dos mais velhos) fornece uma panóplia de informações sobre os conceitos que eles têm do que é, afinal, isso de ficção científica. Nada de muito inesperado: eles olham a FC com olhos de cinema, televisão e jogos de computador, não da literatura. Não sei se algum deles leu algum livro de FC antes de escrever a sua história mas, francamente, não parece. E, francamente, é naturalíssimo que assim seja: quantos livros de ficção científica, identificados como tal, veem vocês à venda na vossa livraria favorita? Zero, certo? Pois. Mas é interessante ver que histórias eles arranjaram e o que associam à FC. Interessante e de certa forma também um pouco surpreendente pela antiguidade dos conceitos. As histórias dos miúdos estão muito mais próximas da FC do início do século XX do que daquela que se faz hoje. Porquê? Boa pergunta, a que o amigo Reis não responde porque não é esse o foco do seu estudo, mas aposto que a culpa cai redondinha nos jogos de computador e nos desenhos animados (é que nem o cinema de FC atual usa conceitos tão antiquados) a que aquela malta é exposta enquanto vai crescendo, a par da própria escola. Essa ideia, aliás, fica reforçada com o artigo sobre os miúdos mais novos, onde se encontram mais ou menos os mesmos conceitos, igualmente antiquíssimos.

Estes artigos deixaram-me a pensar. O Pedro Reis queixa-se, com absoluta razão, e como é evidente já estou a falar das conclusões, de que o material a que os miúdos são expostos distorce profundamente a conceção que fazem da atividade científica e de quem são e como trabalham os que a ela se dedicam. E alerta que isso pode ter consequências graves tanto na compreensão futura da ciência, como no eventual desenvolvimento de tendências anticientíficas e anti-intelectuais, com o que isso pode ter de catastrófico para o futuro das nossas sociedades. Imaginem os EUA de hoje, mas em pior.

E deixaram-me a pensar também que se calhar nós, os que nos dedicamos mais a sério à ficção científica, por menos poder que individualmente tenhamos no grande esquema das coisas, temos ainda assim alguma responsabilidade de não ceder a fórmulas antigas, distorcidas e fáceis e apresentar a atividade científica mais como ela é na realidade: feita por gente, não por títeres de papelão, feita em equipa, não por génios tresloucados enfiados sozinhos na cave, feita por homens e mulheres, não exclusivamente por homens de cabelos brancos enfiados em batas igualmente brancas. É que continuam, ainda hoje, a ser produzidas ficções assim. E se calhar, só se calhar, está mais que na hora de enterrar de uma vez por todas o cientista frio, solitário, solipsista e sociopático, ou pelo menos de usar esse velhíssimo cliché para o virar contra si mesmo.

Para já, parece-me que seria bom se os que escrevem e editam FC lessem estes artigos do Pedro Reis. Tenho quase a certeza de que a maioria acabaria por aprender qualquer coisa com eles. Eu certamente aprendi.

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