quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Lido: A Abóbada Energética

A ficção científica pulp mundial tem alguns marcos que costumam receber o qualificativo de incontornáveis (embora tudo, no fundo, seja contornável); aquelas obras, séries ou autores que se revestiram ou revestem de especial importância para o género como um todo ou para uma certa época. A esmagadora maioria desses marcos são americanos ou em muito menor escala britânicos, mas há exceções.

Uma dessas exceções, talvez a principal, é a série alemã cujo herói recebeu o nome de Perry Rhodan. Para começar, por ser a mais longa de todas, com um número de publicações que já ultrapassa largamente as três mil, o que, mesmo tendo em conta que está em publicação ininterrupta desde 8 de setembro de 1961 (há quase precisamente 56 anos, portanto), é um número impressionante. Ainda por cima não se trata propriamente de contos; a grande maioria das publicações é constituída por obras com o tamanho de novela e também existem obras mais extensas. Mesmo que elas fossem todas péssimas, portanto, a relevância desta série seria inegável e é curioso (ou nem tanto) que ela nunca tenha conseguido captar as atenções do público português. Houve uma tentativa de publicação há algumas décadas, mas aparentemente não terá pegado, visto que a coleção depressa chegou ao fim.

No Brasil, pelo contrário, a série foi alvo de publicação regular durante bastantes anos e, embora esteja hoje relegada para publicação exclusivamente eletrónica e amadora, continua ainda a existir um conjunto de fãs bastante ativo.

Ora eu, como digo sempre que tenho oportunidade, estou bem longe de ser o maior dos apreciadores de literatura pulp, seja ela de ficção científica ou de outro género qualquer. Mas como esta série é relevante, quando tive a oportunidade de agarrar umas quantas edições brasileiras não a perdi. Esta A Abóbada Energética, de K. H. Scheer (um dos dois criadores do conceito), foi a minha primeira leitura, deliberadamente fora de ordem pois também queria avaliar quão legíveis são as histórias se lidas independentemente umas das outras, e as expetativas eram, confesso, as piores.

E não é que isto não é tão mau como isso?

Trata-se, obviamente, de ficção simples e aventuresca, juvenil, com um herói claro (mas mais ambíguo do que eu esperava). Mas também é um livrinho bem estruturado, que não cai na tentação de se resumir a cenas de pancadaria e muito pouco mais, tão comum nas obras pulp originárias dos EUA, e até com um fundo político razoavelmente interessante. O enredo conta-se em dois tempos. Perry Rhodan, o herói, terá em episódios anteriores tomado posse de uma nave alienígena que estaria estacionada na Lua e regressa à Terra, pousando sem autorização no deserto de Gobi, desencadeando com isso uma violenta tempestade diplomático-militar, não só entre as desavindas potências terrestres, como entre a Humanidade e os alienígenas que tinham construído a nave e não estão propriamente impressionados com o bom do Homo sapiens. Na verdade, estão tão mal impressionados que paira no ar a ameaça de extermínio. E quanto ao lado de cá, é o costume: perante uma coisa nova e assustadoramente poderosa, a resposta imediata é a ameaça de violência.

Só que a essa violência contrapõe o herói a abóbada energética do título, um escudo de energia praticamente impenetrável (pelo menos enquanto o gerador aguentar), e alguma habilidade estratégica que o leva a resolver pacificamente a questão. E não, não estou a fazer um grande spoiler: isto é pulp. Resolverem-se as coisas no final faz parte da receita básica.

O resultado é uma história de leitura rápida e agradável de que eu, para minha surpresa, gostei. Não muito, mas sim, gostei de ler este livrinho, que acho significativamente melhor do que muitos livros muito gabados de autores anglo-saxónicos como E. E. "Doc" Smith, Edmond Hamilton e outros. Isto não quer dizer que todas as obras da série o sejam, claro. Mas este livro em concreto surpreendeu-me pela positiva.

No que toca à outra parte do teste é que a porca torce o rabo. É que embora o livro se deixe ler de forma isolada, há demasiadas pontas que ficam soltas por faltar a leitura dos dois livros anteriores. Não sei se é sempre assim, pois a série subdivide-se em subséries (chamadas "ciclos") e pode ser que estas sejam razoavelmente independentes umas das outras, mas dentro de cada um dos ciclos os livros parecem formar uma sequência que se não exige pelo menos aconselha leitura contínua. Portanto, o próximo livro de Perry Rhodan que eu ler será o primeiro.

1 comentário:

  1. Sou fã da série há muitos anos.
    Curti sua análise, espero que venha a ler novos livros e saber o que vc achou.
    Ah, numa época que as pessoas mal lêem, me peguei dia desses pensando em como a série me ajudou a ter um vocabulário legal.

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