sábado, 6 de janeiro de 2018

Lido: Era uma Vez um Mundo

Os escritores que se aventuram a escrever história alternativa, não raro, mostram uma singular apetência para colocar nos ambientes alternativos que criam pessoas históricas e célebres no mundo real. Sempre achei essa prática bastante violentadora da minha capacidade para suspender a descrença e mergulhar nos respetivos mundos ficcionais alternativos; sempre achei que não faz o mínimo sentido. Com exceções: histórias que se desenrolam pouco tempo depois do ponto de divergência com a história real (uma história alternativa passada nos anos 50, com um ponto de divergência na II Guerra Mundial, por exemplo) podem perfeitamente incluir no enredo todas as personagens do mundo real que o autor bem entenda. Mas uma história que se desenrola décadas ou sobretudo séculos mais tarde? Uma história cujo ponto de divergência se situa antes do nascimento dessas pessoas? Não.

Não, porque não consigo convencer-me de que um acontecimento com o poder de alterar sociedades inteiras não é capaz de alterar não só a união da mulher X com o homem Y, como o momento exato em que essa união se efetua, logo o espermatozoide específico que nesse momento está mais capaz de vencer a corrida para fecundar o óvulo. E isso mantém-se sempre presente ao fundo da minha mente enquanto vou lendo. Há sempre uma vozinha chata e irritante a murmurar lá atrás "bah!bah!bah!bah!bah!" E se nas histórias alternativas mais bem concebidas (à parte esse pormenor) consigo de certa forma abafar essa vozinha, nas que não o são é-me completamente impossível.

O caso agrava-se quando não aparecem só duas ou três personagens históricas no meio de uma quantidade de outras personagens que não o são, mas o autor parece ter o objetivo expresso de juntar numa mesma história o máximo possível de celebridades, independentemente de isso fazer algum sentido ou não. E é precisamente o que Antonio Luiz M. C. Costa faz neste Era uma Vez um Mundo (bibliografia).

E o pior é que a ideia tinha potencial para resultar numa história interessante: numa América Latina futura, integrada pacificamente numa Federação Mundial utópica e socialista, resultante de um ponto de divergência situado aparentemente algures durante a época colonial pois Palmares parece ter-se tornado uma nação preponderante nessa linha temporal (à semelhança do que Gerson Lodi-Ribeiro imaginou para a sua série dos Três Brasis), um grupo de terroristas de extrema-direita tenta rebentar com o status quo. Literalmente. Dando à história espaço para respirar, e apesar do pecado original apresentado acima, Costa poderia ter conseguido criar aqui uma obra fascinante, realmente capaz de fazer uma reflexão política sólida, ao mesmo tempo que criava um enredo de tensão quase policial, quase de espionagem, capaz de sustentar o interesse.

Mas não foi nada disso o que fez. Dedicou-se a atafulhar o máximo de celebridades e referências do mundo real que conseguiu no espaço de uma noveleta, polvilhou-a com pausas para discursos ideológicos despidos de grande profundidade, deixou por explicar as origens daquele mundo e despachou apressadamente a parte do enredo que envolve real ação. O resultado não é mau; a noveleta está bem escrita e tem alguns pontos de interesse. Mas é muito pior do que podia ter sido. Esta história, para conter tudo e todas as personagens que Costa lá quis pôr, teria de ser uma novela. Não é. E a consequência é haver aqui um grande potencial desaproveitado. Pena.

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