domingo, 11 de março de 2018

Lido: A Enjeitada

Se o mundo da literatura em geral está (ao contrário do que por vezes se pensa) longe de estar vazio de histórias aparentadas com outras histórias, seja por derivação, seja por reutilização das mesmas ideias, seja por abordagens independentes mas comuns ao tema x ou y, isso é significativamente mais habitual no mundo da literatura tradicional que, pela sua própria natureza, a de literatura de transmissão oral que depende mais da memória do que da criatividade dos contadores de histórias para sobreviver, se presta ao surgimento de múltiplas variações, ramificações, amputações, ampliações ou fusões de histórias, o que, se alguém algum dia conseguir mapear todas as ligações e influências existentes entre os contos que se contavam entre os vários povos, redundaria numa rede de interligações quase tão complexa como aquela que nos junta a todos.

Vem isto a propósito das óbvias semelhanças entre este conto recolhido por Adolfo Coelho, A Enjeitada, e a célebre história da Cinderela. Especialmente no início. Como a Cinderela, a Enjeitada está em casa alheia e é vítima dos desmandos e crueldades de uma mãe e uma filha, que a maltratam. Como a Cinderela, também a Enjeitada acaba noiva, embora não de um príncipe, e tal como à Cinderela também à Enjeitada as mulheres más que com ela vivem tentam roubar o noivo. E claro que não conseguem, embora não pela intervenção mágica do sapatinho de cristal, que aqui não existe. Mas há magia envolvida, naturalmente.

Este é outro dos tais contos que parecem estar a pedir que alguém neles pegue e os desenvolva, mesmo apesar das parecenças com uma história célebre.

Contos anteriores deste livro:

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