segunda-feira, 14 de maio de 2018

Lido: Phenomenae

Um escritor com potencial mas ainda incapaz de o realizar por completo precisa frequentemente de um editor, entendendo eu aqui não a pessoa que compra o livro, o publica e distribui, passando para as mãos do autor uma pequena percentagem do preço de venda, mas um editor, alguém capaz de trabalhar o livro em conjunto com o autor e de ajudar a limpar-lhe as arestas. É verdade que a existência dessas pessoas constitui sempre um risco, pois são necessárias algumas características muito específicas para se ser capaz de retirar de um livro e autor o máximo que eles podem dar num dado momento sem se ser intrusivo ao ponto de se começar a substituir a visão artística do autor pela do editor, e não são muitos os que as possuem. Mas sem editor há autores que pura e simplesmente não chegam lá.

Nas últimas décadas, infelizmente, com a mercantilização cada vez maior da indústria editorial, cada vez mais afastada da sua componente cultural e cada vez mais preocupada com o lucro imediato, que afasta do primeiro plano da tomada de decisões a qualidade e a substitui pelo rendimento económico, e também com o surgimento de mecanismos cada vez mais eficientes e/ou predatórios de autoedição, assumida ou encapotada, os editores praticamente desapareceram, substituídos por contabilistas e gente do marketing, quando chegam a ser substituídos por alguém. O resultado são livros como este Phenomenae.

Ricardo Lopes Moura é (ou era; o livro data de 1996 e desde então só parece ter publicado mais um livro, dois anos depois) um escritor com potencial. Neste seu livro de contos há pelo menos uma história realmente boa (Dia do Pai), há uma história eficaz (A Sagração da Primavera), e depois há uma série de outras histórias em que falha qualquer coisa. Na maior parte dos casos, o que falha é consequência de uma mistura de fragilidades no domínio da língua portuguesa, na maioria dos casos facilmente resolúveis com um trabalho de edição atento (ou, em certos casos, uma simples revisão razoavelmente competente), com o uso inadequado ou excessivo de clichés do horror, o que é mais difícil de solucionar e exigiria uma colaboração estreita e possivelmente prolongada entre o escritor e um editor consciente desses clichés.

Mas é muito claro que esse trabalho não existiu. Que o livro foi publicado tal como chegou à editora, eventualmente com alterações mínimas. A consequência é um livro que tem muito mais potencial do que aquilo que apresenta mas o desaproveita ao ponto de se tornar globalmente fraco. A edição acabou por valer a pena por incluir um conto bom, é certo, mas não deixa de ser um bom bocado descoroçoante encontrar aqui tanto potencial mal aproveitado. Descoroçoante, provavelmente, até para o próprio autor, que depois dos dois livros em finais do século passado ainda surgiu até ao princípio deste com algumas traduções em seu nome mas depressa parece ter desistido da literatura, pois desapareceu de circulação.

Enfim... fica o que fica.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Este livro foi comprado.

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