domingo, 3 de junho de 2018

Lido: The Cure

Às vezes surgem na ficção científica histórias que quase parecem proféticas. Curiosamente, ou talvez não, elas são mais comuns na FC mais politizada do que naquela que se preocupa principalmente com as grandes mudanças tecnológicas que poderão vir a ocorrer num futuro mais ou menos próximo. Isto acontece por um motivo: a sociedade e as suas dinâmicas estão menos sujetas do que a ciência e a tecnologia a grandes e revolucionárias mudanças de paradigma. Por outras palavras, mudam mais devagar e só depois dos agentes de mudança estarem visíveis durante bastante tempo.

Tempo suficiente para os autores repararem neles e elaborarem as suas histórias à sua volta.

The Cure, de Robert Reed, é uma dessas histórias. Protagonizada por um escritor fracassado que tem um sucesso repentino e é obrigado a enfrentar as consequências desse sucesso, é uma história que, por entre ironias sobre o mundo editorial e algumas tendências que Reed vê na sociedade sua contemporânea, delineia uma teoria da conspiração baseada num plano para levar o público a perder a confiança nas instituições.

É uma abordagem claramente de direita: Reed insurge-se, entre outras coisas, contra o "politicamente correto," esse papão que tão útil tem sido a tanta gente, sugerindo que será daí que virá a vaga de irracionalidade a varrer a nação, para grande benefício de uns demagogos que não chegam a deixar-se identificar. Mas isso só contribui para a derradeira ironia de ter sido precisamente a direita e as suas fake news a pôr em prática algo de muito semelhante ao que Reed aqui descreve e que acabou por desembocar no trumpismo (ironia essa que muito provavelmente não lhe terá passado despercebida; Reed não faz segredo do desprezo que a dita "alt-right" lhe provoca).

Esta é uma boa história. Muito boa? Não, apenas boa. Uma daquelas histórias que se servem da ironia para transmitir opiniões muito sérias acerca do mundo. Uma história relevante, talvez mais nos dias de hoje do que quando foi publicada, em 2005.

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