Em 2010, ainda que não regressando propriamente ao meu normal de mais de 50 livros lidos por ano, já me aproximei bastante, apesar de tudo. Não se compara com a miséria do ano passado: li muito mais. Leituras ecléticas, como devem ser sempre, com preponderância de FC na primeira metade do ano e de outas coisas na segunda.
Os livros propriamente ditos, lidos por lazer mas todos comentados na Lâmpada ao longo do ano, somaram 39. A lista completa é a seguinte:
1- Conduzindo às Cegas, de Ray Bradbury (contos de fantasia e mainstream);
2- Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (romance de FC; distopia política);
3- E Tudo o Tempo Levou, de Ward Moore (romance de história alternativa e FC);
4- Na Praia de Chesil, de Ian McEwan (romance mainstream);
5- Relatório Minoritário, de Philip K. Dick (noveleta de FC);
6- A Ignorância, de Milan Kundera (romance mainstream);
7- O Terror, de Arthur Machen (uma novela e uma noveleta de horror);
8- Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson (um romance e contos de horror);
9- À Espera do Ano Passado, de Philip K. Dick (romance de FC);
10- O Menino de Cabul, de Khaled Hosseini (romance mainstream);
11- Crónicas Marcianas, de Ray Bradbury (coleção de contos interligados de FC);
12- O Hotel "A Queda do Alpinista", de Arkadi e Boris Strugatski (romance de FC policial);
13- O Vírus Entranhado, de Arsénio Mota (contos fantásticos e mainstream);
14- Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?, de António Lobo Antunes (romance mainstream);
15- Crônicas, de Gerson Lodi-Ribeiro (contos de FC);
16- Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira (romance fantástico);
17- Nação Crioula, de José Eduardo Agualusa (romance mainstream);
18- A Mão de Midas, de Jack London (contos fantásticos e mainstream);
19- Eis o Homem, de Michael Moorcock (novela de FC; viagem no tempo);
20- Uma Nova História Universal da Infâmia, de Rhys Hughes (contos surrealistas e borgesianos);
21- O Império do Medo, de Brian Stableford (romance misto de FC, horror e história alternativa);
22- Histórias de Mistério e Imaginação, de Edgar Allan Poe (contos de horror, aventuras e policial);
23- Rock'n'roll Altitude, de vários autores (contos temáticos, sobre rock, de HA e fantasia);
24- Uma Noite não São Dias, de Mário Zambujal (novela de antecipação e humor);
25- Carbono Alterado, de Rochard Morgan (romance de FC);
26- Histórias Fantásticas (Inglesas e Americanas), de vários autores, org. por Cabral do Nascimento (contos fantásticos, especialmente de fantasmas);
27- Quantas Madrugadas Tem a Noite, de Ondjaki (romance mainstream/fantástico);
28- Por Outros Mundos, de A. A. Attanasio (romance alegadamente de FC);
29- As Intermitências da Morte, de José Saramago (romance fantástico);
30- Outros Brasis, de Gerson Lodi-Ribeiro (coletânea de história alternativa);
31- A Feiticeira do Douro, de Eduardo Augusto de Faria (novela de fantasia);
32- A Casa Quieta, de Rodrigo Guedes de Carvalho (romance mainstream);
33- Deste Mundo e do Outro, de José Saramago (crónicas e pequenos contos, a maioria fantásticos);
34- O Livro do Deslumbramento, de Lorde Dunsany (contos de fantasia);
35- Contos Acrónicos, de António Eça de Queiroz (romance mainstream com toques fantásticos);
36- Firmin, de Sam Savage (romance fantástico);
37- A Conspiração dos Abandonados, de António de Macedo (contos fantásticos e de horror);
38- O Anibaleitor, de Rui Zink (novela fantástica);
39- The melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories, de Tim Burton (livro de poesia insólita e de horror)
A acrescentar aos livros li também revistas, que funcionam praticamente como se fossem antologias periódicas e portanto também contam para o total. E já tinha dito isto no ano passado. São mais 4:
40- Ficções, nº 11 (contos mainstream e fantásticos);
41- Asimov's, nº 323 (contos e poemas de FC);
42- Scarium, nº 21 (contos de horror e FC baseados na obra de Lovecraft);
43- Asimov's, nº 321-322 (contos e poemas de FC e história alternativa)
Por fim, e de novo tal como no ano passado, também li alguns livros por obrigação laboral. Também estes foram quatro, o que faz com que o total de leituras chegue a 47. Quase 4 por mês:
44- Dune, de Frank Herbert (romance de FC);
45- Dreamsongs, de George R. R. Martin (contos e novelas de FC, horror e fantasia; parte foi lida sem obrigação laboral);
46- Fool's Errand, de Robin Hobb (romance de fantasia épica);
47- Golden Fool, de Robin Hobb (romance de fantasia épica)
O melhor do ano? De caras e sem qualquer dúvida Quantas Madrugadas Tem a Noite, de Ondjaki. O podium completa-se com as velhinhas Crónicas Marcianas, de Bradbury, e As Intermitências da Morte, de Saramago, embora tenha havido outros livros de que gostei o suficiente para quase desalojarem um destes dois. Em especial Dreamsongs, do Martin, e Admirável Mundo Novo, de Huxley. Na verdade, são talvez uns 10 os livros lidos este ano que se podem agrupar numa pilhazinha de leituras bastante agradáveis, e algumas delas com surpresa. Livros de que gostei bastante mais do que estava à espera.
Mas também li livros maus, ou melhor, livros de que não gostei mesmo nada ou gostei muito pouco. O pior, de novo de caras e sem a mínima hesitação, foi A Feiticeira do Douro, de Eduardo Augusto de Faria. Bem melhores, mas mesmo assim suficientemente desagradáveis ao meu palato para se juntarem a este no trio de piores leituras do ano, temos Uma Noite Não São Dias, de Mário Zambujal, e A Conspiração dos Abandonados, de António de Macedo. A Ignorância de Kundera esteve mesmo vai-não-vai para vir aqui parar, e Contos Acrónicos, de António Eça de Queiroz, também.
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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
domingo, 2 de janeiro de 2011
Lido: Na Guerra com Bruxas
Na Guerra com Bruxas é um conto de horror de Richard Matheson que descreve o que acontece quando, numa guerra com tudo para ser convencional, surge uma peculiar arma secreta: um grupo de sete (claro!) bruxas, suficientemente poderosas para subverter por completo o desfecho das batalhas. Mas é também um conto de humor porque, quando não estão a fazer os seus feitiços, as bruxas se comportam precisamente como aquelas teenagers muito patetas, muito fúteis, muito donas de uma crueldade gigantesca e indiferente, que não há ex-adolescente que não conheça. Precisamente. O que não é, decerto, por acaso. Gostei bastante.
E assim se conclui o ano de 2010 no que às minhas leituras diz respeito.
E assim se conclui o ano de 2010 no que às minhas leituras diz respeito.
Lido: Tempestade Solar
Tempestade Solar (bib.) é mais um conto de Italo Calvino protagonizado pelo seu eterno extraterrestre Qfwfq. Desta feita, Qfwfq é capitão de um navio presume-se que mercante quando uma tempestade solar o encontra, depois de muito tempo de busca. Tempestade solar? Encontra? Sim, estamos no mundo de Calvino onde até as tempestades solares são antropomorfizadas. Esta, uma tempestade magnética em forma de mulher e gigantesca, Rah de seu nome (e decerto que a semelhança com o do deus-Sol egípcio, Rá, não é coincidência), é casada com Qfwfq e vai causar a sua demissão do posto de capitão do navio que comandava, após o que lhe causa também variados problemas quando se instala em terra. Porque, como é óbvio, ninguém compreende uma relação entre algo que parece ser um homem e uma perturbação magnética que tem o condão de estragar todos os aparelhos elétricos que houver nas redondezas e de deixar as bússulas doidas. É um conto profundamente poético, belo e triste, muitíssimo bem concebido e executado. Magnífico.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Lido: Discurso Inaugural
Discurso Inaugural é um conto de ficção científica do argentino Fabián Labeau, já com uns aninhos em cima, que é precisamente aquilo que o título indica: o discurso de um cientista de renome que inaugura uma conferência. Como todos os contos do género, trata-se de infodump puro, e aí reside a sua principal fraqueza, embora haja bem pior. O orador conta, para benefício da plateia, a história de uma peculiar família de moléculas que terão a propriedade de causar nas pessoas distúrbios comportamentais violentos e que teriam sido usadas no dinheiro durante boa parte do século XX. Quem acha que a FC se resume a ideia talvez goste desta história... ou não, no caso de achar a dita disparatada. Eu, confesso, não acho que a ideia seja das melhores e não gosto mesmo nada (e cada vez gosto menos) deste tipo de contos. Não gostei. Quem tiver curiosidade, encontra-o aqui.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Lido: Noite de Paz
Noite de Paz é um conto curto de Nuno Markl, escrito em jeito de sketch como seria de esperar dos antecedentes do autor, no qual o Pai Natal e o Menino Jesus se encontram inopinadamente numa dada casa nas vésperas do natal e se põem a discutir um com o outro sobre qual deles teria direito a dar ali presentes. É, topa-se à légua, um texto de Markl, repleto das peculiaridades que o autor põe no que escreve para a rádio e a TV. É um texto escrito para ter piada, não para ter valor enquanto objeto literário. E tem alguma, mas confesso que não lhe achei muita. A culpa, nisso? É tanto minha como do conto, parece-me.
Lido: O Mundo de Jon
O Mundo de Jon (bib.) é uma noveleta de Philip K. Dick sobre viagens no tempo. Como muitas vezes acontece, o motor da história é a vontade, por parte de um grupo de cientistas, de regressar a um ponto do passado e alterar um acontecimento crucial que terá desencadeado uma sucessão de outros acontecimentos que terão desembocado num presente de pesadelo. Neste caso, presente deles, futuro nosso. Já todos vimos variações desta história no cinema e na TV (nos filmes da série Terminator e na série Sarah Connor Chronicles, por exemplo), e é bem sabido que quando isso acontece estamos já no reino do cliché. Ora, o facto de ter no seu fulcro um cliché tantas vezes utilizado reduz significativamente o impacto desta história de Dick, mesmo sabendo-se que ela tem já mais de meio século de existência e que a transformação das ideias em cliché foi posterior.
Mas mesmo descontando esse fator não me parece que esta seja uma das boas histórias de Dick. Porque o forte de Dick, aquilo que o içou à condição de monstro sagrado da FC, é a criação de uma atmosfera paranoica e os enredos complexos e imprevisíveis, e aqui não encontramos nem uma coisa nem a outra. De facto, a história é bastante previsível desde o início, o que só é amplificado pelas visões de que o filho do protagonista sofre, filho esse que só aparece na história para, precisamente, nos "mostrar" as tais visões, uma opção que me parece algo contraproducente. Como além do mais há uma série de diálogos tão didáticos que roçam a velha pecha de muita FC que é o como-sabes-Bob, acabei por achar o todo bastante insatisfatório.
Mas mesmo descontando esse fator não me parece que esta seja uma das boas histórias de Dick. Porque o forte de Dick, aquilo que o içou à condição de monstro sagrado da FC, é a criação de uma atmosfera paranoica e os enredos complexos e imprevisíveis, e aqui não encontramos nem uma coisa nem a outra. De facto, a história é bastante previsível desde o início, o que só é amplificado pelas visões de que o filho do protagonista sofre, filho esse que só aparece na história para, precisamente, nos "mostrar" as tais visões, uma opção que me parece algo contraproducente. Como além do mais há uma série de diálogos tão didáticos que roçam a velha pecha de muita FC que é o como-sabes-Bob, acabei por achar o todo bastante insatisfatório.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Lido: The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories
The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories é um pequeno (115 páginas) livro de Tim Burton que tem desde 2007 edição portuguesa, mas eu li no original. Trata-se de um livro de pequenos poemas que contam histórias igualmente pequenas sobre bizarras criaturinhas cheias de desespero existencial. Crianças, quase todas, e quase todas dotadas de uma ou mais características insólitas que as separam da vulgaridade e as transformam em párias. O rapaz que é meio ostra do título, a rapariga feita de lixo, a outra que é uma boneca de vodu, a que olha fixamente, etc.
Há horror nestas historinhas. E melancolia e insólito com fartura. E o desespero existencial de que falei acima. Mas o que achei mais interessante no livro foi a estranha mistura entre um ritmo e uma atmosfera tão sugestivos das histórias e rimas infantis com o humor bem negro que perpassa por quase todos os poemas e historietas. Um exemplo muito curtinho, traduzido por mim agora mesmo num instante:
Independentemente disso, esta não é propriamente a minha praia. Julgo que gostei o mais que me seria possível gostar de um livro deste tipo, mas não o terminei com aquela sensação de satisfação emocional que se obtém das leituras de que gostamos mesmo. Ou talvez tenha sido uma questão de timing. Talvez na altura em que o li não estivesse com abertura de espírito para este tipo de macabro, que por mais doce que seja não deixa de ser isso mesmo: macabro. Talvez. O certo é que gostei, mas não muito.
Há horror nestas historinhas. E melancolia e insólito com fartura. E o desespero existencial de que falei acima. Mas o que achei mais interessante no livro foi a estranha mistura entre um ritmo e uma atmosfera tão sugestivos das histórias e rimas infantis com o humor bem negro que perpassa por quase todos os poemas e historietas. Um exemplo muito curtinho, traduzido por mim agora mesmo num instante:
JamesEstão a ver, não é? São pequenos textos muito sugestivos, muitos dos quais resultariam igualmente bem em verso e em prosa, independentemente das rimas que contêm. E além disso, todos estão profusamente ilustrados pelo próprio Burton, com desenhos que, não raro, dão às historinhas uma camada adicional de significado. É um livro muito bom. Compreendo perfeitamente quem o adora.
Insensatamente, o Pai Natal ofereceu a James um ursinho de peluche, sem saber que
ele tinha sido mutilado por um urso pardo alguns meses antes.
Independentemente disso, esta não é propriamente a minha praia. Julgo que gostei o mais que me seria possível gostar de um livro deste tipo, mas não o terminei com aquela sensação de satisfação emocional que se obtém das leituras de que gostamos mesmo. Ou talvez tenha sido uma questão de timing. Talvez na altura em que o li não estivesse com abertura de espírito para este tipo de macabro, que por mais doce que seja não deixa de ser isso mesmo: macabro. Talvez. O certo é que gostei, mas não muito.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Lido: O Anibaleitor
O Anibaleitor é uma curta novela de Rui Zink que acompanha as desventuras e o crescimento de um jovem aventureiro e ignorante, o qual, depois de se ver obrigado a embracar por causa de uns mal-entendidos com a polícia (mal-entendidos nenhuns; o puto era larápio), vem a descobrir que o navio em que se engaja tem um comandante enlouquecido, à Ahab, o qual tem por único objetivo na vida a captura de um estranho animal gigantesco e mitológico, que ele afirma a pés juntos que existe, e que se chama "anibaleitor".
Depois não há propriamente o naufrágio das histórias de aventuras, mas o protagonista é atirado ao mar por uma onda enorme e claro que vai mesmo encontrar o tal anibaleitor, que se vem a revelar um gorila gigantesco, falante, sem paciência para parvoíces e amante da literatura que obtém dos livros que vão dando à costa na sua ilha.
A partir daí, a história transforma-se num hino à leitura e à literatura, numa autêntica aula sobre o que significa ler, a sua utilidade, qual a relação que existe entre o escritor, o que ele escreve e o que o leitor vai ler, a subjetividade inerente ao ato de leitura e o que é, de facto, a qualidade. Uma aula a que muita gente muito senhora do seu nariz, que anda por aí a debitar disparates sobre estas coisas, teria toda a urgência em assistir. Tudo muito cheio de referências, claro, começando pelo próprio Anibaleitor, que é uma versão muito zinkiana do King Kong.
À semelhança de Firmin, aqui comentado há um par de meses, é mais um livro que se socorre do fantástico para tecer comentários sobre a sociedade em que vivemos e, também como em Firmin, fá-lo através da relação entre a nossa sociedade e os homens que a constituem, por um lado, e os livros pelo outro. Ainda como em Firmin, está também aqui tratado o tema da aceitação da diferença ou da intolerância para com ela. Mas as semelhanças acabam aí. O livro de Zink é mais divertido e menos melancólico, apesar de também ter a sua dose de melancolia, em especial na visão do mundo que o Anibaleitor tem (bastante cínica, e quem pode censurá-lo?) e no desenlace da história.
Tudo somado, gostei bastante. Não é nenhuma obra-prima, tem um tipo de humor que nem sempre ressoa bem com o meu mas que quando ressoa chega a ser capaz de me pôr a gargalhar. Além disso tem conteúdo, e um conteúdo francamente interessante, o que nem sempre acontece. E lê-se duma penada, com a fluidez e limpidez dum riacho de montanha. Recomendo.
Depois não há propriamente o naufrágio das histórias de aventuras, mas o protagonista é atirado ao mar por uma onda enorme e claro que vai mesmo encontrar o tal anibaleitor, que se vem a revelar um gorila gigantesco, falante, sem paciência para parvoíces e amante da literatura que obtém dos livros que vão dando à costa na sua ilha.
A partir daí, a história transforma-se num hino à leitura e à literatura, numa autêntica aula sobre o que significa ler, a sua utilidade, qual a relação que existe entre o escritor, o que ele escreve e o que o leitor vai ler, a subjetividade inerente ao ato de leitura e o que é, de facto, a qualidade. Uma aula a que muita gente muito senhora do seu nariz, que anda por aí a debitar disparates sobre estas coisas, teria toda a urgência em assistir. Tudo muito cheio de referências, claro, começando pelo próprio Anibaleitor, que é uma versão muito zinkiana do King Kong.
À semelhança de Firmin, aqui comentado há um par de meses, é mais um livro que se socorre do fantástico para tecer comentários sobre a sociedade em que vivemos e, também como em Firmin, fá-lo através da relação entre a nossa sociedade e os homens que a constituem, por um lado, e os livros pelo outro. Ainda como em Firmin, está também aqui tratado o tema da aceitação da diferença ou da intolerância para com ela. Mas as semelhanças acabam aí. O livro de Zink é mais divertido e menos melancólico, apesar de também ter a sua dose de melancolia, em especial na visão do mundo que o Anibaleitor tem (bastante cínica, e quem pode censurá-lo?) e no desenlace da história.
Tudo somado, gostei bastante. Não é nenhuma obra-prima, tem um tipo de humor que nem sempre ressoa bem com o meu mas que quando ressoa chega a ser capaz de me pôr a gargalhar. Além disso tem conteúdo, e um conteúdo francamente interessante, o que nem sempre acontece. E lê-se duma penada, com a fluidez e limpidez dum riacho de montanha. Recomendo.
domingo, 19 de dezembro de 2010
Lido: A Conspiração dos Abandonados
A Conspiração dos Abandonados (bib.), livro de "contos neogóticos" de António de Macedo, conforme se esclarece à laia de subtítulo, contém as seis ficções listadas abaixo, com links para as opiniões sobre cada uma. Apesar da unidade sugerida pelo título da coletânea e pelos títulos das histórias, estas são bastante diferentes umas das outras e vão desde registos próximos ao conto tradicional até exercícios que se achegam ao horror cósmico à Lovecraft, passando pela recuperação de temas e ambientes que o autor já antes tinha explorado.
É um livro em que as qualidades e defeitos das prosas de Macedo estão bem patentes. Como acontece quase sempre, agradaram-me muito mais as histórias em que Macedo se dedica a um fantástico mais tradicional do que aquelas em que trilha outros caminhos, sempre mais ou menos esotéricos. Curiosamente, ou talvez não, aquelas são as histórias mais curtas que este livro contém e o grosso do volume é composto por estas. Para o meu gosto pessoal isso é problema sério e faz com que, embora tenha mais ou menos gostado de dois dos contos não tenha gostado do livro como um todo. Gostos diferentes terão opiniões diferentes, como é natural. Mas há um problema que é mais objetivo e teria sempre impedido que eu tivesse gostado muito deste livro: os diálogos. Com raras exceções, falta aos diálogos de Macedo a naturalidade, o saber usar o registo oral, que lhes daria vida e interesse. Todas as personagens falam da mesma forma, e todas soam insuportavelmente presunçosas. E eu cada vez gosto menos de quando isso acontece.
Quanto às histórias, são estas:
É um livro em que as qualidades e defeitos das prosas de Macedo estão bem patentes. Como acontece quase sempre, agradaram-me muito mais as histórias em que Macedo se dedica a um fantástico mais tradicional do que aquelas em que trilha outros caminhos, sempre mais ou menos esotéricos. Curiosamente, ou talvez não, aquelas são as histórias mais curtas que este livro contém e o grosso do volume é composto por estas. Para o meu gosto pessoal isso é problema sério e faz com que, embora tenha mais ou menos gostado de dois dos contos não tenha gostado do livro como um todo. Gostos diferentes terão opiniões diferentes, como é natural. Mas há um problema que é mais objetivo e teria sempre impedido que eu tivesse gostado muito deste livro: os diálogos. Com raras exceções, falta aos diálogos de Macedo a naturalidade, o saber usar o registo oral, que lhes daria vida e interesse. Todas as personagens falam da mesma forma, e todas soam insuportavelmente presunçosas. E eu cada vez gosto menos de quando isso acontece.
Quanto às histórias, são estas:
Lido: A Cidade Abandonada
A Cidade Abandonada (bib.) é uma noveleta de António de Macedo que ressoa com a miríade de histórias que foram sendo escritas ao longo dos séculos XIX e XX sobre escavações arqueológicas e as coisas diabólicas, perigosas e/ou inesperadas que os imprudentes arqueólogos ou caçadores de tesouros nelas encontram. Tem, contudo, a originalidade e o interesse (note-se que este interesse é genérico; não significa necessariamente que me tenha interessado a mim) de passar-se no Iraque, entre portugueses, na época que se sucedeu à guerra e em que esteve estacionada no país, concretamente em Nassíria, uma companhia da GNR. Tem também a originalidade e o interesse de acabar por envolver viagens no tempo, com paradoxo e tudo. E tem também, naturalmente, aquelas coisas habituais no autor: uma dose elevada de hermetismo, dimensões paralelas e criaturas sobrenaturais, e diálogos que eu acho quase sempre demasiado explicativos e forçados. Para quem gosta dos temas e escrita do autor, esta noveleta deve ser um belo acepipe altamente recomendável. Eu, que só raramente gosto, achei-a chatíssima (e não há nada mais subjetivo do que o que é chato ou deixa de o ser), não só porque o tema propriamente dito não me interessou, mas também porque me pareceu tratado de forma demasiado demorada e arrastada. É bastante provável que este segundo porquê seja em boa medida consequência do primeiro. E quanto ao primeiro, o problema está mais em mim do que em António de Macedo: não me lembro de ter lido alguma história deste género que me tivesse realmente despertado o interesse, fosse qual fosse o autor. Arqueologias amaldiçoadas despertam-me sempre vontade de bocejar.
Lido: Enquanto Durar o Sol
Enquanto Durar o Sol (bib.) é mais um conto de Italo Calvino protagonizado pelo eterno extraterrestre Qfwfq, embora neste caso talvez seja mais correto dizer-se que é protagonizado pela família do eterno extraterrestre Qfwfq, pois o conto debruça-se sobre as desavenças conjugais entre o avô de Qfwfq e a avó, a pretexto da decisão sobre onde passar a residir depois de a família inteira ter sido expulsa do anterior local de residência pela explosão duma supernova. Passa-se isto nos primórdios do sistema solar, na época em que a própria estrela ainda se ia condensando a partir da sua nebulosa original, e a talhe de foice Calvino vai transmitindo aos leitores umas noções elementares de cosmologia que até nem distorce muito, para variar. Apesar disso e da ironia "familiar", ou talvez por causa de ambas as coisas, não gostei por aí além deste conto.
domingo, 31 de outubro de 2010
Lido: Bruce en la Casetera
Bruce en la Casetera é um conto já algo antigo de Pablo J. Muñoz que pode ser encontrado aqui. Trata-se de uma história pós-apocalíptica ambientada ou na Argentina ou no Chile e centrada à volta de três personagens: o protagonista, que se chama Nico, outro homem chamado "el Taino", e Marisol, uma rapariga que é encontrada semimorta por Nico e el Taino bastante depois destes dois, julgando-se os únicos sobreviventes de um holocausto nuclear, pelo menos nas redondezas, terem encetado uma relação homossexual. El Taino, ao que parece, é mesmo homossexual, ao passo que para Nico aquele foi o seu primeiro amante do mesmo sexo, com o qual tem uma relação que parece obedecer à máxima "quem não tem cão caça com gato". Isto é importante para o desenrolar da história visto que o aparecimento de alguém do sexo oposto vai criar um triângulo que a empurra para o desenlace.
Não sendo uma grande história de ficção científica (enquanto FC até deixa algo a desejar; não se percebe bem, por exemplo, onde eles estão e como é que tanto tempo depois do holocausto que destrói a civilização ainda há eletricidade para os eletrodomésticos e os jogos de vídeo), é uma boa história, bastante bem escrita, com personagens bem construídas e credíveis, e uma situação que é ao mesmo tempo banal e iconoclasta dada a idade do conto. E o fim é muito, muito bom. Está aprovado.
Não sendo uma grande história de ficção científica (enquanto FC até deixa algo a desejar; não se percebe bem, por exemplo, onde eles estão e como é que tanto tempo depois do holocausto que destrói a civilização ainda há eletricidade para os eletrodomésticos e os jogos de vídeo), é uma boa história, bastante bem escrita, com personagens bem construídas e credíveis, e uma situação que é ao mesmo tempo banal e iconoclasta dada a idade do conto. E o fim é muito, muito bom. Está aprovado.
Lido: Nanny
Nanny (bib.) é um conto de Philip K. Dick que faz lembrar um pouco os contos dos Superbrinquedos do Brian Aldiss ou alguns contos de Bradbury, especialmente aquele sobre o quarto holográfico, A Selva. Todos estes contos têm como premissa a entrega do ato de cuidar dos filhos, em todo ou em parte, a dispositivos automáticos, em especial robots. Mas Dick leva o seu conto num sentido bem diferente, como seria de esperar. Nanny é, como já terão entendido, um robot. É sua a responsabilidade pelos filhos de um casal, cabendo-lhe discipliná-los, acompanhá-los e protegê-los. Mas a sociedade é ferozmente capitalista, e as nannies são construídas por várias corporações rivais. Ora, qual é o objetivo primário duma corporação? Maximizar o lucro, evidentemente. E que melhor forma haverá para maximizar o lucro do que destruir as nannies produzidas pelos rivais, reduzindo a competição, aumentando a procura e melhorando a imagem de qualidade? Afinal, qualquer pai vai querer para os filhos a melhor nanny do mercado, ou não será assim?
Só não é um conto excelente porque sofre demasiado do fator "como sabes, Bob". Dick põe demasiadas vezes as personagens a dar umas às outras informação que ambas conhecem, para benefício exclusivo do leitor. Mas ainda assim, é uma ótima crítica ao capitalismo e às consequências da corrida aos armamentos que tanto obcecava a América durante os anos 50. Boa e muito recomendável leitura nestes tempos de roubalheira desenfreada.
Só não é um conto excelente porque sofre demasiado do fator "como sabes, Bob". Dick põe demasiadas vezes as personagens a dar umas às outras informação que ambas conhecem, para benefício exclusivo do leitor. Mas ainda assim, é uma ótima crítica ao capitalismo e às consequências da corrida aos armamentos que tanto obcecava a América durante os anos 50. Boa e muito recomendável leitura nestes tempos de roubalheira desenfreada.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Lido: Firmin
Firmin (bib.) é um romance do escritor americano Sam Savage. Firmin é, também, o nome do protagonista desse romance. Firmin é, ainda, uma ratazana.
Sim, trata-se de um romance protagonizado por uma ratazana e mais: trata-se também de um romance narrado por uma ratazana, pois está escrito na primeira pessoa. Mas não é uma ratazana qualquer. É uma ratazana bibliófila e, ocasionalmente, bibliófaga, que nasceu e viveu a vida toda num velho edifício em cujo andar térreo funciona um alfarrabista. E é essa contingência da existência que vai solidificar na ratazana protagonista um amor pelos livros (e também, até certo ponto, pelo cinema, pois no mesmo bairro há também um velho, gasto e porco cinema onde a ratazana vai alimentar-se) que nada fica a dever a qualquer de nós, os macacos bípedes que normalmente os lemos.
A história acompanha toda a vida de Firmin e, através dela, a decadência final do bairro, condenado para ceder lugar a grandes investimentos imobiliários. E em parte também a decadência de uma certa forma de relacionamento quer entre as pessoas e a cidade, quer entre as pessoas e a palavra escrita e os locais a ela consagrados na cidade. É também uma história de paixões, pois é de paixão em paixão que a nossa ratazana vai vivendo a sua vida. Primeiro pelos livros, depois pelo dono da livraria, mais tarde por um escritor de ficção científica que mora por cima da livraria e sobrevive vendendo ele próprio os livros que escreve e publica em edições de autor, e assim sucessivamente. E é uma história sobre a diferença e a solidão, porque a ratazana, com os seus modos de rato sábio, vai tornar-se estranha para a sociedade das ratazanas, mas não vai nunca conseguir ser aceite pelos seus irmãos de espírito humanos pelo facto inalterável de ser uma ratazana.
E é isto o que o livro tem de melhor: esta multiplicidade de camadas e de temas.
Basta isso para me parecer ser um bom livro, embora nem tenha gostado muito dele. O estilo de Savage não me enche propriamente as medidas, e parece-me, aqui e ali, que o ritmo narrativo fraqueja um pouco. Nada de grave, e embora não tenha gostado assim muito, gostei desta leitura. Não acho o livro uma obra-prima, mas é um livro simpático, que se lê com um certo gosto. Uma fábula moderna muito ligada a este vício de virar páginas para ver o que acontece naquela que vem a seguir. Não será livro imprescindível, mas julgo ser livro recomendável.
Sim, trata-se de um romance protagonizado por uma ratazana e mais: trata-se também de um romance narrado por uma ratazana, pois está escrito na primeira pessoa. Mas não é uma ratazana qualquer. É uma ratazana bibliófila e, ocasionalmente, bibliófaga, que nasceu e viveu a vida toda num velho edifício em cujo andar térreo funciona um alfarrabista. E é essa contingência da existência que vai solidificar na ratazana protagonista um amor pelos livros (e também, até certo ponto, pelo cinema, pois no mesmo bairro há também um velho, gasto e porco cinema onde a ratazana vai alimentar-se) que nada fica a dever a qualquer de nós, os macacos bípedes que normalmente os lemos.
A história acompanha toda a vida de Firmin e, através dela, a decadência final do bairro, condenado para ceder lugar a grandes investimentos imobiliários. E em parte também a decadência de uma certa forma de relacionamento quer entre as pessoas e a cidade, quer entre as pessoas e a palavra escrita e os locais a ela consagrados na cidade. É também uma história de paixões, pois é de paixão em paixão que a nossa ratazana vai vivendo a sua vida. Primeiro pelos livros, depois pelo dono da livraria, mais tarde por um escritor de ficção científica que mora por cima da livraria e sobrevive vendendo ele próprio os livros que escreve e publica em edições de autor, e assim sucessivamente. E é uma história sobre a diferença e a solidão, porque a ratazana, com os seus modos de rato sábio, vai tornar-se estranha para a sociedade das ratazanas, mas não vai nunca conseguir ser aceite pelos seus irmãos de espírito humanos pelo facto inalterável de ser uma ratazana.
E é isto o que o livro tem de melhor: esta multiplicidade de camadas e de temas.
Basta isso para me parecer ser um bom livro, embora nem tenha gostado muito dele. O estilo de Savage não me enche propriamente as medidas, e parece-me, aqui e ali, que o ritmo narrativo fraqueja um pouco. Nada de grave, e embora não tenha gostado assim muito, gostei desta leitura. Não acho o livro uma obra-prima, mas é um livro simpático, que se lê com um certo gosto. Uma fábula moderna muito ligada a este vício de virar páginas para ver o que acontece naquela que vem a seguir. Não será livro imprescindível, mas julgo ser livro recomendável.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Lido: O Caixão Abandonado
O Caixão Abandonado (bib.) é um conto de António de Macedo sobre um homem, alcoólico, que trabalha como jardineiro num convento por ser o único lugar que conseguiu arranjar e um belo dia (ou nem por isso) encontra abandonado no jardim um caixão em perfeito estado de conservação. Após a descoberta inicial, durante o resto do conto decorre uma lenta procura de informação sobre o caixão, o convento, as freiras, etc. Apesar do desfecho ser algo óbvio, é um conto com interesse, que a meu ver vale sobretudo pela construção do protagonista e é algo estragado por algum humor que me pareceu deslocado na atmosfera agoirenta que sem ele seria construída. Coisas como a barbuda piadola que transforma hackers em ácaros, para dar um exemplo entre vários possíveis. Não tendo desgostado, portanto, também não se pode dizer que tenha gostado.
Lido: A Lua Como um Cogumelo
A Lua Como um Cogumelo (bib.) é outro conto de Italo Calvino no qual prontifica o eterno extraterrestre Qfwfq. Este trata do nascimento da Lua, e descreve uma movimentada história que começa numa Terra antiquíssima e sem Lua, coberta por um oceano pouco profundo habitado por um povo de pescadores, na qual começa a dada altura a surgir à superfície uma bolha de rocha que vai crescendo e se torna território cobiçado por um dos mais famigerados bandidos da época. Após um conjunto de peripécias mais ou menos aventurosas, essa bolha de rocha, essa maré sólida, acaba por transformar-se na Lua, deixando a Terra, cá em baixo, separada em oceanos e continentes e não já sob as águas de um oceano global. Uma história surreal e imaginativa, como costumam ser as histórias de Qfwfq, ainda que não tão divertida como algumas das outras.
domingo, 24 de outubro de 2010
Lido: Contos Acrónicos
Ao contrário do que o título parece indicar, Contos Acrónicos, de António Eça de Queiroz, não é um livro de contos, mas sim um romance. Nem sequer é um romance em mosaicos, uma coletânea de contos interligados, um romance fragmentário, como queiram chamar-lhe. É um romance, ponto.
Trata da história de um tal Lamas, bibliotecário, contada por um tal "o outro", fantasmagórico interveniente na história que em geral funciona apenas como narrador e no qual se reconhece sem qualquer dificuldade a pessoa do autor. Mas também no Lamas (com o qual, aliás, o narrador por vezes se mistura) esse reconhecimento acontece, o que dá à história um tom marcadamente autobiográfico — há, pelo menos, bastantes coincidências entre a história de vida de Lamas e o par de parágrafos biográficos sobre o autor que vêm na contracapa do livro —, se bem que falar-se aqui de história talvez seja levar o significado do termo um pouco longe demais. Com efeito, o romance é, mais que uma história, uma coleção de episódios desencontrados e em grande medida desenquadrados, historietas, pinceladas que não chegam a formar um todo coerente. O objetivo parace ter sido criar com a palavra uma espécie de retrato impressionista da personagem principal, mas não me parece ter tido sucesso, ou pelo menos esse sucesso não é mais que parcial.
Entremeados no romance, aqui e ali, aparecem toques de fantástico, de um tipo que em geral remete para o realismo mágico apesar de também surgirem por vezes referências à ficção científica. Adotando a definição todoroviana do termo que diz que fantástico é tudo aquilo que deixa dúvidas sobre se a sua natureza é real ou sobrenatural, talvez haja passagens suficientes neste livro a pretender deixar essa incerteza no ar para que se possa inscrevê-lo na literatura fantástica. Pessoalmente, porém, não é assim que penso nele. Pareceu-me um exercício não particularmente bem sucedido e bastante desconexo de romantizar uma história de vida, no qual o fantástico é introduzido como forma de a tornar menos desinteressante. É uma abordagem que não me agrada e não gostei do resultado. Foi com dificuldade, e devagarinho, que levei a leitura até ao fim, apesar da língua portuguesa não sair em nada maltratada desta centena e meia de páginas. Basta isto, julgo eu, para fazer com que haja quem aprecie esta leitura. Não foi o meu caso.
Trata da história de um tal Lamas, bibliotecário, contada por um tal "o outro", fantasmagórico interveniente na história que em geral funciona apenas como narrador e no qual se reconhece sem qualquer dificuldade a pessoa do autor. Mas também no Lamas (com o qual, aliás, o narrador por vezes se mistura) esse reconhecimento acontece, o que dá à história um tom marcadamente autobiográfico — há, pelo menos, bastantes coincidências entre a história de vida de Lamas e o par de parágrafos biográficos sobre o autor que vêm na contracapa do livro —, se bem que falar-se aqui de história talvez seja levar o significado do termo um pouco longe demais. Com efeito, o romance é, mais que uma história, uma coleção de episódios desencontrados e em grande medida desenquadrados, historietas, pinceladas que não chegam a formar um todo coerente. O objetivo parace ter sido criar com a palavra uma espécie de retrato impressionista da personagem principal, mas não me parece ter tido sucesso, ou pelo menos esse sucesso não é mais que parcial.
Entremeados no romance, aqui e ali, aparecem toques de fantástico, de um tipo que em geral remete para o realismo mágico apesar de também surgirem por vezes referências à ficção científica. Adotando a definição todoroviana do termo que diz que fantástico é tudo aquilo que deixa dúvidas sobre se a sua natureza é real ou sobrenatural, talvez haja passagens suficientes neste livro a pretender deixar essa incerteza no ar para que se possa inscrevê-lo na literatura fantástica. Pessoalmente, porém, não é assim que penso nele. Pareceu-me um exercício não particularmente bem sucedido e bastante desconexo de romantizar uma história de vida, no qual o fantástico é introduzido como forma de a tornar menos desinteressante. É uma abordagem que não me agrada e não gostei do resultado. Foi com dificuldade, e devagarinho, que levei a leitura até ao fim, apesar da língua portuguesa não sair em nada maltratada desta centena e meia de páginas. Basta isto, julgo eu, para fazer com que haja quem aprecie esta leitura. Não foi o meu caso.
Lido: O Livro do Deslumbramento
O Livro do Deslumbramento é provavelmente a mais conhecida obra do Lorde Dunsany, e é certamente aquela que o transformou num dos grandes percursores da fantasia moderna. Não este Livro do Deslumbramento que a Saída de Emergência publicou, note-se. Este é uma espécie de coletânea de coletâneas, pois reúne num só dois livros diferentes, publicados originalmente em 1912 e 1916.
A edição faz todo o sentido. O segundo livro original é uma espécie de sequela do primeiro, mantendo em grande medida o tom e o(s) ambiente(s) daquele. Mas também é verdade que há diferenças. As histórias do primeiro livro têm uma frescura e um humor, muitas vezes autorreferencial, muitas vezes fazendo pensar na possibilidade do autor se estar a referir, sinuosamente, disfarçadamente, ironicamente, a situações e personagens com que se teria ido deparando no decurso da sua vida, que em boa parte falta às do segundo. Estas são mais variadas, tanto em ambiente e atmosfera como até em extensão. As do primeiro são todas bastante curtas, e várias parecem autênticos esboços de subgéneros inteiros da fantasia que foram aprofundados mais tarde por autores como Robert E. Howard ou Fritz Leiber, ou mesmo outros que se apropriaram do lado mais surrealista destas fantasias. Ao lê-las, se por um lado se reconhece nelas um imenso potencial não explorado por Dunsany, por outro vê-se também uma frescura e novidade que estão muito para além do alcançado por autores posteriores. No segundo livro há menos de tudo isso. De frescura, como já foi dito, mas também de potencial não explorado.
Contudo, há coisas que unem estas 33 histórias. O estilo do autor, claro, que pouco muda entre 1912 e 1916; Uma certa abordagem comum às histórias fantásticas, que vai buscá-las quase diretamente às lendas e aos contos populares. E o facto de quase todas terem interesse. É certo que os leitores mais dados ao aprofundar minucioso da ficção poderão sentir-se frustrados por muitas delas, as mais esboçadas, é certo que qualquer leitor com alguma experiência de fantasia já conhecerá muitas das ideias que aqui encontra, mas há sempre algo de especial na água que brota duma nascente. E várias destas histórias são muito boas. Este é um bom livro.
Para saberem o que achei de cada história, aqui têm uma lista completa:
A edição faz todo o sentido. O segundo livro original é uma espécie de sequela do primeiro, mantendo em grande medida o tom e o(s) ambiente(s) daquele. Mas também é verdade que há diferenças. As histórias do primeiro livro têm uma frescura e um humor, muitas vezes autorreferencial, muitas vezes fazendo pensar na possibilidade do autor se estar a referir, sinuosamente, disfarçadamente, ironicamente, a situações e personagens com que se teria ido deparando no decurso da sua vida, que em boa parte falta às do segundo. Estas são mais variadas, tanto em ambiente e atmosfera como até em extensão. As do primeiro são todas bastante curtas, e várias parecem autênticos esboços de subgéneros inteiros da fantasia que foram aprofundados mais tarde por autores como Robert E. Howard ou Fritz Leiber, ou mesmo outros que se apropriaram do lado mais surrealista destas fantasias. Ao lê-las, se por um lado se reconhece nelas um imenso potencial não explorado por Dunsany, por outro vê-se também uma frescura e novidade que estão muito para além do alcançado por autores posteriores. No segundo livro há menos de tudo isso. De frescura, como já foi dito, mas também de potencial não explorado.
Contudo, há coisas que unem estas 33 histórias. O estilo do autor, claro, que pouco muda entre 1912 e 1916; Uma certa abordagem comum às histórias fantásticas, que vai buscá-las quase diretamente às lendas e aos contos populares. E o facto de quase todas terem interesse. É certo que os leitores mais dados ao aprofundar minucioso da ficção poderão sentir-se frustrados por muitas delas, as mais esboçadas, é certo que qualquer leitor com alguma experiência de fantasia já conhecerá muitas das ideias que aqui encontra, mas há sempre algo de especial na água que brota duma nascente. E várias destas histórias são muito boas. Este é um bom livro.
Para saberem o que achei de cada história, aqui têm uma lista completa:
- O Livro do Deslumbramento
- A Noiva do Homem-Cavalo
- A Angustiante História de Thangobrind, o Joalheiro
- A Casa da Esfinge
- Provável Aventura de Três Homens de Letras
- As Preces Imprudentes de Pombo, o Idólatra
- A Pilhagem de Bombasharna
- A Menina Cubbidge e o Dragão das Histórias Românticas
- A Demanda Pelas Lágrimas da Rainha
- O Tesouro dos Gibbelins
- Como Nuth Teria Roubado os Gnoles
- Como Alguém Chegou, Tal Como Havia Sido Profetizado, à Cidade do Nunca
- A Coroação do Sr. Thomas Shap
- Chu-bu e Sheemish
- A Janela Maravilhosa
- O Novo Livro do Deslumbramento
- A Cidade na Charneca de Mallington
- Porque é que o Leiteiro Estremece Quando se Apercebe de que Está a Amanhecer
- A Nefasta Velha Vestida de Preto
- O Pássaro com um Olho Vesgo
- O Conto do Grande Guardião
- O Saque à Cidade de Loma
- O Segredo do Mar
- Como é que o Ali Veio Para o País Negro
- O Gabinete de Troca de Males
- Uma História de Terra e Mar
- Um Conto do Equador
- Uma Fuga à Tangente
- A Torre de Vigia
- Como Plash-Goo Chegou à Terra Indesejada
- O Gambito dos Três Marinheiros
- O Clube dos Exilados
- As Três Piadas Infernais
domingo, 10 de outubro de 2010
Lido: As Três Piadas Infernais
As Três Piadas Infernais é um conto do Lorde Dunsany sobre um pobre coitado que o narrador encontra numa estrada secundária na Escócia e que é vítima dum negócio que terá corrido terrivelmente mal. Um negócio, está bem de ver, sobrenatural. Com efeito, o protagonista desta história teria sido portador do raríssimo dom de achar todas as mulheres feias, e um diabólico estranho propusera-lhe um negócio que ele, irrefletidamente aceitara: trocar esse dom por três piadas que matariam de riso todos os que as ouvissem. Literalmente, embora o protagonista não o tenha compreendido — daí ter aceite a troca. É mais uma boa história do nosso lorde, esta com um pendor para o horror que não é pequeno, apesar de urdido com algum humor à mistura.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Lido: Realidad Esquiva
E a vigésima e última história da tal página, Realidad Esquiva de Carlos Feinstein, é ao mesmo tempo uma das mais curtas e absolutamente brilhante. Trata das consequências que a descoberta da viagem no tempo tem sobre o tecido da realidade, e o conto está executado duma forma que só posso qualificar de soberba. Não tem descrição, só lendo. Muitíssimo bom.
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