Forças do Mercado (bib.) é um romance de ficção científica de Richard Morgan, ambientado num futuro próximo no qual a sociedade britânica se transformou no sonho molhado dos neoliberais. O Estado, basicamente, não existe, pois mesmo o pouco que dele ainda vai subsistindo formalmente não passa de uma marioneta nas mãos de interesses corporativos. A sociedade, quer a britânica, quer a generalidade das restantes, embora não exatamente da mesma forma, é dominada por um punhado de corporações privadas nas quais impera a ética do guerreiro. No mundo corporativo vale tudo desde que se dê lucro à empresa. O lucro traz-te promoções, faças o que fizeres para o obter. O falhanço em obtê-lo, bem, esse traz-te a morte.
E a morte pode chegar vinda de uma série de sítios diferentes, mas em geral toma a forma de um espalhafatoso acidente numa auto-estrada vazia. É que os executivos de topo neste mundo de Morgan são guerreiros do asfalto, gladiadores ao volante de automóveis topo de gama, artilhados com o último grito da tecnologia de blindagem, de travões, de motor, etc. Há que se ser rápido de reflexos. Há que se ser impiedoso. Há que se saber explorar os pontos fracos dos adversários assim que surja a mínima oportunidade. Cair sobre a jugular assim que esta se mostre, sem hesitações nem misericórdia. Porque só assim se ganham contratos (os quais geralmente envolvem a manipulação política e militar, e portanto económica, em países do Terceiro Mundo) e porque só assim se ascende na escada empresarial.
E porque só ascendendo na escada empresarial se pode evitar cair nas zonas, que é onde vive a generalidade da população neste radioso paraíso empresarial, zonas degradadas e abandonadas à violência dos gangues, onde as pessoas fazem o que têm a fazer para sobreviver mergulhadas em miséria e doenças, presos a esses guetos económicos e sociais tanto pelos preconceitos dos privilegiados, como pela sua própria miséria. Mas sempre há quem vá conseguindo abandonar esse mundo ou erguer-se acima dele. Através de truques e artimanhas, nos casos mais éticos. Por via do crime violento nos que o são menos.
Chris Faulkner, o protagonista do romance, é um desses homens. Chegou ao mundo empresarial através da fraude, e aí permaneceu (e nele foi subindo) por ser rápido e decidido. Um self made man, disposto a tudo apesar de atormentado por uma consciência que aos outros parece faltar. E por uma mulher inconvencional, que vive uma relação cada vez mais difícil com o que ele faz para ganhar dinheiro, e que assiste de uma forma cada vez mais repugnada às alterações que ele vai sofrendo. É este conflito, entre uma humanidade que ainda vai resistindo, apesar de tudo, e um ambiente que a tenta destruir com o máximo de violência, que empresta ao romance a grande força que ele tem.
Esse conflito e os aterradores paralelismos entre a situação que ele descreve e aquela que hoje vivemos. Porque estamos na antecâmara desse mundo, dominados por gente que põe os interesses privados, deles e dos amigos, acima de quaisquer outros, governados por gente sem valores nem um pingo de decência humana, gente que acha normal recorrer-se a qualquer baixaria para levar a sua avante. Se esta gente vencer, o mundo que nos espera é o que Morgan descreve neste romance. Não será tal e qual, não o imitará em todos os detalhes, mas em linhas gerais será isto, sim. É este o resultado da redução do Estado a quase nada. É este o resultado de entregar tudo às forças do mercado. E é isso que Morgan aqui nos mostra.
Forças do Mercado é um grande livro. Um belo romance de ficção científica que, como sempre acontece com a melhor ficção científica, fala do futuro para falar do presente. E por isso mesmo deve ter vendido muito mal. As ovelhas detestam quem as tenta alertar para estarem a ser levadas para o matadouro.
Este livro foi comprado.
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sábado, 19 de janeiro de 2013
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Lido: Cobra de Fogo
Cobra de Fogo (bib.) é uma longa noveleta de Sid Castro sobre, basicamente, uma corrida. Mas uma corrida especial, à volta do mundo, entre gigantescas locomotivas de combustão interna que, apesar do nome, são uma espécie de cruzamento entre as locomotivas ferroviárias que conhecemos, os hovercrafts, e uma peculiar variedade de veículo aéreo que se socorre do efeito de solo, desenvolvido especialmente na URSS, o ecranoplano. Uma corrida em que conta não apenas a perícia dos condutores ou a qualidade tecnológica dos engenheiros que conceberam as máquinas, mas também o armamento de que estas podem dispor para eliminar a concorrência. Uma corrida entre nações, num mundo alternativo em que os Estados Confederados da América sobreviveram até meados do século XX e o Brasil se conservou império até esse momento, em que uma vez mais se espelham as tensões entre nações dominadas por uma extrema-direita racista e violentamente nacionalista e o resto das nações que, na nossa história, desembocaram na Segunda Guerra Mundial. Mas num mundo que decidiu resolver tais tensões de forma pacífica depois de passar por uma devastadora guerra de vinte anos. Como? Através da tal corrida, precisamente. E o que está em jogo desta vez? Nada mais, nada menos, que o domínio sobre a Amazónia.
Trata-se no fundamental de uma história alternativa com forte influência pulp e numerosas referências ou homenagens a figuras de primeiro plano da FC. Faz lembrar com frequência os desenhos animados dos Malucos das Máquinas Voadoras (Wacky Races no original); embora não haja aqui nenhum pombo para apanhar nem nenhum cão armado em esperto, há a corrida, as máquinas estrambólicas, as rocambolescas artimanhas e alguns Dick Dastardlies. Também faz por vezes lembrar as histórias do Rocketeer. Tem defeitos, sim. Há infodumps em excesso, nomeadamente no pano de fundo alo-histórico, há uma linha narrativa que nem sempre parece inteiramente coesa, há um desfecho apesar de tudo previsível, dado o tom de Brasil-potência que o texto toma desde o início. Mas também há com fartura daquele velho e indefinível sentido de maravilha de que tanto se fala quando se fala da boa velha (e antiquada) ficção científica. E isso, julgo, compensa em boa medida os defeitos desta história. Na verdade, ele foi tão intenso que conseguiu até fazer-me ultrapassar a minha antipatia pelo pulp. Coisa rara. Graças às locomotivas, as verdadeiras protagonistas desta história.
Contos anteriores deste livro:
Trata-se no fundamental de uma história alternativa com forte influência pulp e numerosas referências ou homenagens a figuras de primeiro plano da FC. Faz lembrar com frequência os desenhos animados dos Malucos das Máquinas Voadoras (Wacky Races no original); embora não haja aqui nenhum pombo para apanhar nem nenhum cão armado em esperto, há a corrida, as máquinas estrambólicas, as rocambolescas artimanhas e alguns Dick Dastardlies. Também faz por vezes lembrar as histórias do Rocketeer. Tem defeitos, sim. Há infodumps em excesso, nomeadamente no pano de fundo alo-histórico, há uma linha narrativa que nem sempre parece inteiramente coesa, há um desfecho apesar de tudo previsível, dado o tom de Brasil-potência que o texto toma desde o início. Mas também há com fartura daquele velho e indefinível sentido de maravilha de que tanto se fala quando se fala da boa velha (e antiquada) ficção científica. E isso, julgo, compensa em boa medida os defeitos desta história. Na verdade, ele foi tão intenso que conseguiu até fazer-me ultrapassar a minha antipatia pelo pulp. Coisa rara. Graças às locomotivas, as verdadeiras protagonistas desta história.
Contos anteriores deste livro:
Lido: História do Futuro
A História do Futuro, do Padre António Vieira, é um livro incompleto, escrito pouco depois do fim do domínio filipino, numa época em que Portugal procurava reafirmar a sua independência contra as pretensões castelhanas (que subsistiram durante muito tempo e tomaram por várias vezes a forma de invasões e guerras), embora só publicado quase 20 anos depois da morte do autor, após ser atentamente examinado — e talvez amputado — pela Inquisição, e que consiste de um longo exercício de retórica destinado a defender a tese de que está profetizado em vários textos sagrados para a Igreja Católica que o futuro a deus pertence e que o agente de deus nesse futuro é, precisamente, Portugal.Removendo a densa camada religiosa, é fácil ver neste livro o que ele é: uma ardente defesa do direito à existência do reino de Portugal, destinada àquele que à época ainda era o mais poderoso poder político da Europa ocidental, apesar de já ter perdido o controlo sobre os territórios protestantes: o Papa. E, por extensão, todo o clero católico, extremamente influente em ambos os reinos envolvidos na disputa, o português e o castelhano. Para esse fim, Vieira vai vasculhar nos textos sagrados em busca de trechos que possam ser interpretados de forma favorável à sua tese: a de que foi profetizado que no mundo haverá cinco grandes impérios, e que o último é o império de Cristo, indistinguível do império de Portugal.
A minha motivação para ler este livro foi bastante peculiar em relação ao que é típico nos seus leitores. É que tem vindo a ser defendida a tese de que a História do Futuro é o primeiro texto utópico escrito em língua portuguesa, e que por conseguinte se trata de um percursor de alguma da literatura fantástica posterior, nomeadamente a ficção científica, a qual sempre incluiu uma vertente de obras utópicas. Depois de o ter lido, contudo, parece-me que esta ideia é seriamente equivocada. E explico porquê:
Na obra que deu o nome à literatura utópica, Utopia, Thomas More inventa uma ilha com o mesmo nome, cuja sociedade se organiza da forma que a More parece mais certa. Embora o seu objetivo fosse primariamente político e o livro de More seja no fundamental um tratado filosófico, estão nele presentes muitas das características da ficção fantástica posterior: a criação de uma espécie de mundo secundário, que reflete e contrasta com o do autor e dos seus leitores, a criação de uma sociedade cujas diferenças com a do autor são exacerbadas para que melhor se compreendam as insuficiências desta última, e até algo de semelhante a uma história.
Na História do Futuro, por outro lado, o Padre António Vieira não faz nada disso. Sustenta-se numa tradição profética católica e procura criar a sua própria profecia. É através desta que pretende conseguir a sua influência política com um único argumento: o de que "está escrito". Está escrito que Portugal é o país do futuro, está escrito que o Quinto Império, o império de Cristo, chegará através de Portugal, está escrito. Portanto para que vos esforçais, ó senhores de outros domínios, se os vossos esforços serão frustrados pelo destino? Acalmai-vos, reduzi-vos à vossa insignificância, pois por mais problemático que o presente se nos afigure, o futuro será nosso. Vieira não descreve qualquer espécie de utopia, não fala de como será a sociedade nesse fabuloso quinto império, limita-se a dizer que ele acontecerá e que será bom. Como pode não o ser, se se está a falar do império de Cristo?
Ora uma utopia, para que o seja de facto, não pode ficar-se por dizer que o futuro será (ou o presente ou o passado, algures, é ou foi) radioso. Tem de explicar como, tem de mostrar essa radiância, que formas ela toma, tomou ou tomará. E, embora talvez fosse essa a intenção de Vieira para este livro, a verdade é que aquilo que dele nos chegou não inclui nada do género. Portanto não, não me parece que se trate de um exemplar de literatura utópica e muito menos que seja percursor de qualquer ramo da nossa literatura fantástica. É um texto teológico e político, nada mais. Vieira tem muito mais a ver com Bandarra do que com More.
Questão diferente é analisá-lo enquanto influência. Aí, sim, trata-se de um texto bastante influente, porque criou ou impulsionou alguns dos mais duradouros mitos da cultura portuguesa (e também brasileira), que foram mais tarde integrados por uma miríade de outros autores nas suas obras, fantásticas ou não. Embora inclua poucas referências a D. Sebastião, e nenhuma declaradamente sebastianista, é um texto indissociável do sebastianismo enquanto filosofia; na verdade é um dos principais textos dessa filosofia. O futuro radioso que "está escrito" está intimamente ligado ao futuro radioso que depende de um rei que "regressará num dia de nevoeiro". E o sebastianismo permeia toda a cultura portuguesa, e as que por ela foram influenciadas ou dela se originaram; consequentemente também permeia todas as literaturas lusófonas, quer haja nelas algo de fantástico, quer não haja.
Faço um parêntesis para dizer que o sebastianismo é, aliás, um dos principais motivos do nosso reiterado fracasso enquanto nação, porque gerou ou incentivou uma atitude de daixa-andar que faz com que fiquemos para trás. O mesmo argumento que Vieira utiliza para levar os príncipes estrangeiros a abandonar os seus esforços para conquistar Portugal, serve para levar os próprios portugueses a baixar os braços. Se o futuro é nosso, faça eu o que fizer, para que me vou esforçar? O destino encarregar-se-á de se fazer cumprir, como é evidente. Onde esta atitude leva é fácil compreender: à estagnação bocejante e indiferente. E o país do futuro permanecerá para sempre país do futuro. É algo que se costuma dizer do Brasil, mas que se aplica como uma luva ao Portugal que Vieira descreve e em que os sebastianistas acreditam. Ou não fôssemos, brasileiros e portugueses, um só povo separado por um oceano.
Voltando ao curso desta opinião, sim, a História do Futuro é sem dúvida um texto muito influente. Mas influência é diferente de percurso; será quanto muito o relevo que obriga o percurso a seguir um determinado caminho. E se formos chamar percursores a todos os textos que influenciaram algum aspeto das literaturas da imaginação, teríamos de afirmar que só há dois tipos de literatura: a que já é fantástica e a que ainda só é sua percursora, o que é manifestamente absurdo.
OK, mas gostei do que li? Nem por isso, não. Vieira era um grande retórico e um bom escritor, é certo. Mas os grandes retóricos tendem a construir grandes edifícios retóricos, cheios de floreados e decorações barrocas, mas muito vazios de conteúdo. E eu detesto isso. Figadalmente. E entre as ideias que ele defende, poucas são as que não acho profundamente erradas, quando não mesmo daninhas. Portanto não, não foi leitura que me tivesse agradado particularmente. Mas foi instrutiva, isso foi.
Este livro foi obtido na internet há mais de 10 anos. Li uma edição brasileira, em PDF, com bastantes erros de reconhecimento de caracteres, preparada pela Universidade Federal do Amazonas. Procurando, julgo que ainda se conseguirá encontrá-la, algures, mas há outras disponíveis. Incluindo esta, do Wikisource.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Lido: De «A Cordial Botelha»
De «A Cordial Botelha» é um poema (quiçá um fragmento?) de Alexandre O'Neill, em quatro partes, que ironiza sobre outros tantos portuguesismos. Com ironia da boa, está bem de ver. Não resisto a citar uma dessas partes porque está tão atual que até irrita, apesar de ter sido escrita há mais de quarenta anos. Aqui vai:
Tome cuidado, senão
fazem-no Dr. do pé prà mão.
Mas se Dr. não diz que é,
fazem-no cão da mão prò pé.
Perceberam? É isto.
Tome cuidado, senão
fazem-no Dr. do pé prà mão.
Mas se Dr. não diz que é,
fazem-no cão da mão prò pé.
Perceberam? É isto.
Lido: O Menino Morto à Tua Janela
O Menino Morto à Tua Janela (bib.) é mais um conto curto de fantasia, desta vez pintalgada de horror, de Bruce Holland Rogers. Começa por parecer uma história sobre amor maternal e sobre negação. Um menino nasce morto, e a mãe recusa-se a admitir que o bebé que acabara de dar à luz não vive. E portanto ele vive, ainda que morto. E cresce. Não porque viva e por isso se desenvolva, mas porque o pai constrói uma armação para o ir esticando. Até que um belo dia de vento uns rufias resolvem fazer dele papagaio de papel, e o resultado é inesperado: ele voa, e, voando, acaba por chegar a uma terra cheia de outros mortos como ele, que no entanto não são exatamente como ele porque lá chegaram depois de terem vivido. Trata-se de mais um belo conto, com ressonâncias de lenda, de conto popular, de história exemplar. Francamente bom.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Lido: A Atracção Principal
A Atracção Principal (bib.) é mais um dos contos que Steven Bauer adapta a partir de histórias criadas por outros, desta vez por Steven Spielberg. A história é uma sucessão de clichés atrás de clichés; uma daquelas típicas histórias liceais americanas, com os seus joguinhos de popularidade, os seus jocks, os seus nerds, os riquinhos e os pobretanas. Toda a gente está farta de conhecer histórias destas, e toda a gente já está farta de saber que, como os escritores, os criadores, os cineastas, passaram quase sempre a escola encerrados na timidez e na impopularidade, aprendendo aquilo que mais tarde vão usar para se tornarem escritores, criadores e cineastas, enquanto as cabeças ocas da popularidade se resumem a isso, no fim o jock acaba humilhado e o nerd vingado. Banalidade total. O tom de comédia sem piada só piora, o enredo movido a "meteoritos magnéticos" é, basicamente, idiota, e a tradução desfaz o resto. Péssimo.
Contos anteriores deste livro:
Contos anteriores deste livro:
Leituras de 2012
Em 2012, mais uma vez, não li tanto como nos antigamentes em que não traduzia, embora tenha lido mais do que no ano anterior, ano que, por sua vez, teve leituras mais abundantes do que no que o antecedeu. Desta vez, o número relativamente escasso de livros lidos é culpa de um inverno e um início de primavera de leituras muito pouco abundantes, atrasadas por um par de romances compridos e muito chatos — até entrar maio tinha lido apenas três livros, menos de um por mês. Depois disso, as coisas entraram num ritmo mais acelerado, ainda que não tanto como nos bons velhos tempos. Mas acabo o ano com uma porção de livros meio lidos que são um belo avanço das "leituras de 2013". Na verdade, se somar as páginas já lidas de todos os livros que tenho em leitura é bem capaz de chegar às duas mil. E esse é outro motivo para o número relativamente baixo de livros lidos este ano: há uma dezena que transita para o ano que vem.
No que toca a géneros foi um ano variado, com um pouco de muita coisa, ainda que tenha pendido mais para a ficção científica do que para o resto. Também li mais horror do que costumava ser hábito, quase todo clássico (ou neoclássico). E li BD, o que já não fazia há anos e anos, embora não por iniciativa própria. A verdade, contudo, é que nada se sobrepôs realmente ao resto: nem os livros de FC, que foram a maioria, chegaram à maioria absoluta. E isso é bom.
Os livros propriamente ditos, lidos por lazer mas todos comentados na Lâmpada ao longo do ano, foram bastante mais do que no ano passado, tendo somado 29. A lista completa é a seguinte:
1- O Tesouro da Rainha do Sabá, de Nuno Júdice (noveleta surrealista);
2- Vaporpunk, org. por Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva (contos e novelas steampunk);
3- O Mistério da Estrada de Sintra, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão (romance mainstream com toques de policial);
4- A Erva Vermelha, de Boris Vian (romance com aspetos de mainstream, ficção científica e surrealismo);
5- Ensaio Sobre a Lucidez, de José Saramago (romance fantástico com toques de ficção científica);
6- Titus: O Herdeiro de Gormenghast, de Mervyn Peake (romance de fantasia fortemente surrealista);
7- A Peste Negra, de Gomes Leal (ficção curta fantástica);
8- Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa (romance de ficção científica distópica);
9- Terrortório, de vários (contos de terror);
10- O Silmarillion, de J. R. R. Tolkien (um romance e vários contos de fantasia);
11- Contos Galácticos, de James Blish (contos de ficção científica);
12- Contos Espantosos, de vários autores (contos fantásticos e mainstream);
13- A Noite e o Sobressalto, de Pedro Medina Ribeiro (contos de horror);
14- Contos Encantados, de vários autores (contos de fantasia e mainstream);
15- Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho (romance histórico);
16- Antologia de Contos Temáticos, organizada por Henry Alfred Bugalho (contos fantásticos e mainstream);
17- Anjos Pistoleiros, de Paul McAuley (romance de ficção científica);
18- O Planeta Vermelho, de Russ Winterbotham (romance de ficção científica);
19- À Boleia Pela Galáxia, de Douglas Adams (romance de ficção científica humorística);
20- Antologia do Conto Fantástico Português, org. por E. M. de Melo e Castro e Fernando Ribeiro de Mello (contos fantásticos);
21- Os Jogos do Capricórnio, de Robert Silverberg (contos de ficção científica);
22- Contos Lendários, de vários autores (contos de fantasia);
23- Invasores Terrestres, de Robert Silverberg (romance de ficção científica);
24- O Melhor do Desafio Operário, org. Ana Cristina Rodrigues (contos de ficção científica e fantasia);
25- O Fim do Sr. Y, de Scarlett Thomas (romance fantástico);
26- Julieta, de Pinheiro Chagas (conto de horror);
27- Contos Misteriosos, de vários (contos fantásticos e mainstream);
28- Forças do Mercado, de Richard Morgan (romance de ficção científica);
29- História do Futuro, do Padre António Vieira (texto retórico e teológico)
A acrescentar aos livros li também revistas, que funcionam praticamente como se fossem antologias periódicas e portanto também contam para o total. E já tinha dito isto no ano passado. Foram é metade das do ano passado; duas em vez de quatro:
30- E-zine BBDE, nº 1 (fanzine com contos e poemas fantásticos e mainstream);
31- Asimov's, nº 326 (revista com contos e poemas de ficção científica e alguma fantasia)
Por fim, e de novo tal como no ano passado, li alguns livros por obrigação laboral. No ano anterior tinham sido dois, este último ano foram cinco. Ei-los:
32- The Hedge Knight, de George R. R. Martin, Ben Avery, Mike S. Miller e Mike Crowell (BD de fantasia medieval);
33- Sworn Sword, de George R. R. Martin, Ben Avery e Mike S. Miller (BD de fantasia medieval);
34- Windhaven, de George R. R. Martin e Lisa Tuttle (romance de ficção científica)
Espera lá, deve estar o belo do leitor atento a dizer neste momento, não eram cinco? Eram, pois eram. Mas há dois de que só vos falarei para o ano. Porquê? É cá comigo.
Livro do ano? Desta vez é fácil: Forças do Mercado, do Morgan. Já decidir quem o acompanha no habitual trio de leituras em destaque é mais difícil. Provavelmente escolheria Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde e o Ensaio Sobre a Lucidez, com O Fim do Sr. Y e Barroco Tropical não muito atrás. Curiosamente, são só romances... embora Vaporpunk também estivesse nesta lista caso não contivesse uma novela minha.
Quanto às piores leituras do ano, não li nenhum daqueles livros sem qualidades que se destacam claramente dos demais. Mesmo aquela publicação que de facto se destaca das demais, o E-zine BBDE, nº1, contém algumas coisas interessantes. Tirando este ezine, e embora tenha havido vários outros livros de que não gostei, os piores deste ano que passou são todos melhores do que os piores de 2011. Mesmo assim, a escolha de três não é fácil. O Planeta Vermelho tem de constar da lista, suponho, mas quanto ao outro... hesito. Talvez A Peste Negra, seguida de perto pela Antologia de Contos Temáticos e pelo Tesouro da Rainha de Sabá.
E quanto a 2012 estamos conversados. Venha 2013.
No que toca a géneros foi um ano variado, com um pouco de muita coisa, ainda que tenha pendido mais para a ficção científica do que para o resto. Também li mais horror do que costumava ser hábito, quase todo clássico (ou neoclássico). E li BD, o que já não fazia há anos e anos, embora não por iniciativa própria. A verdade, contudo, é que nada se sobrepôs realmente ao resto: nem os livros de FC, que foram a maioria, chegaram à maioria absoluta. E isso é bom.
Os livros propriamente ditos, lidos por lazer mas todos comentados na Lâmpada ao longo do ano, foram bastante mais do que no ano passado, tendo somado 29. A lista completa é a seguinte:
1- O Tesouro da Rainha do Sabá, de Nuno Júdice (noveleta surrealista);
2- Vaporpunk, org. por Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva (contos e novelas steampunk);
3- O Mistério da Estrada de Sintra, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão (romance mainstream com toques de policial);
4- A Erva Vermelha, de Boris Vian (romance com aspetos de mainstream, ficção científica e surrealismo);
5- Ensaio Sobre a Lucidez, de José Saramago (romance fantástico com toques de ficção científica);
6- Titus: O Herdeiro de Gormenghast, de Mervyn Peake (romance de fantasia fortemente surrealista);
7- A Peste Negra, de Gomes Leal (ficção curta fantástica);
8- Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa (romance de ficção científica distópica);
9- Terrortório, de vários (contos de terror);
10- O Silmarillion, de J. R. R. Tolkien (um romance e vários contos de fantasia);
11- Contos Galácticos, de James Blish (contos de ficção científica);
12- Contos Espantosos, de vários autores (contos fantásticos e mainstream);
13- A Noite e o Sobressalto, de Pedro Medina Ribeiro (contos de horror);
14- Contos Encantados, de vários autores (contos de fantasia e mainstream);
15- Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho (romance histórico);
16- Antologia de Contos Temáticos, organizada por Henry Alfred Bugalho (contos fantásticos e mainstream);
17- Anjos Pistoleiros, de Paul McAuley (romance de ficção científica);
18- O Planeta Vermelho, de Russ Winterbotham (romance de ficção científica);
19- À Boleia Pela Galáxia, de Douglas Adams (romance de ficção científica humorística);
20- Antologia do Conto Fantástico Português, org. por E. M. de Melo e Castro e Fernando Ribeiro de Mello (contos fantásticos);
21- Os Jogos do Capricórnio, de Robert Silverberg (contos de ficção científica);
22- Contos Lendários, de vários autores (contos de fantasia);
23- Invasores Terrestres, de Robert Silverberg (romance de ficção científica);
24- O Melhor do Desafio Operário, org. Ana Cristina Rodrigues (contos de ficção científica e fantasia);
25- O Fim do Sr. Y, de Scarlett Thomas (romance fantástico);
26- Julieta, de Pinheiro Chagas (conto de horror);
27- Contos Misteriosos, de vários (contos fantásticos e mainstream);
28- Forças do Mercado, de Richard Morgan (romance de ficção científica);
29- História do Futuro, do Padre António Vieira (texto retórico e teológico)
A acrescentar aos livros li também revistas, que funcionam praticamente como se fossem antologias periódicas e portanto também contam para o total. E já tinha dito isto no ano passado. Foram é metade das do ano passado; duas em vez de quatro:
30- E-zine BBDE, nº 1 (fanzine com contos e poemas fantásticos e mainstream);
31- Asimov's, nº 326 (revista com contos e poemas de ficção científica e alguma fantasia)
Por fim, e de novo tal como no ano passado, li alguns livros por obrigação laboral. No ano anterior tinham sido dois, este último ano foram cinco. Ei-los:
32- The Hedge Knight, de George R. R. Martin, Ben Avery, Mike S. Miller e Mike Crowell (BD de fantasia medieval);
33- Sworn Sword, de George R. R. Martin, Ben Avery e Mike S. Miller (BD de fantasia medieval);
34- Windhaven, de George R. R. Martin e Lisa Tuttle (romance de ficção científica)
Espera lá, deve estar o belo do leitor atento a dizer neste momento, não eram cinco? Eram, pois eram. Mas há dois de que só vos falarei para o ano. Porquê? É cá comigo.
Livro do ano? Desta vez é fácil: Forças do Mercado, do Morgan. Já decidir quem o acompanha no habitual trio de leituras em destaque é mais difícil. Provavelmente escolheria Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde e o Ensaio Sobre a Lucidez, com O Fim do Sr. Y e Barroco Tropical não muito atrás. Curiosamente, são só romances... embora Vaporpunk também estivesse nesta lista caso não contivesse uma novela minha.
Quanto às piores leituras do ano, não li nenhum daqueles livros sem qualidades que se destacam claramente dos demais. Mesmo aquela publicação que de facto se destaca das demais, o E-zine BBDE, nº1, contém algumas coisas interessantes. Tirando este ezine, e embora tenha havido vários outros livros de que não gostei, os piores deste ano que passou são todos melhores do que os piores de 2011. Mesmo assim, a escolha de três não é fácil. O Planeta Vermelho tem de constar da lista, suponho, mas quanto ao outro... hesito. Talvez A Peste Negra, seguida de perto pela Antologia de Contos Temáticos e pelo Tesouro da Rainha de Sabá.
E quanto a 2012 estamos conversados. Venha 2013.
sábado, 29 de dezembro de 2012
Lido: Auto do Extermínio
Auto do Extermínio (bib.) é uma longa noveleta de Cirilo S. Lemos que se pode enquadrar naquele retrofuturismo mais fiel à história alternativa, apesar de conter alguns elementos de outros géneros. E é, diga-se desde já, uma excelente noveleta. Ambientada no Brasil, como aliás tem sido quase sempre o caso no livro em que se insere, mostra-nos o país em plena convulsão política, nos últimos estertores de uma monarquia prolongada até bem dentro do século XX, agitado por comunistas por um lado e fascistas pelo outro, com o exército, republicano, a constituir uma quarta fação, talvez a mais poderosa, talvez a que mais cordelinhos puxa, dominada por um tal general Protásio Vargas que além de ambição pessoal pode, ou não, ser também movido por interesses estrangeiros.
A história em si mesma é uma história sobre a conquista do poder, sobre atentados e movimentações de bastidores, sobre armas secretas sofisticadas (para o nível tecnológico de meados do século XX, entenda-se, embora também haja um clone metido ao barulho) e assassinos orientados por capacidades premonitórias especiais. Uma história cheia de peripécias e reviravoltas, como costumam ser as histórias de todas as revoluções, e que portanto tem do princípio ao fim esse interesse, o interesse de se saber quem sairá vencedor. Mas é, sobretudo, uma história muito bem escrita — salvo um par e meio de erros de revisão —, com um magnífico ritmo e pormenores cheios de algo a que só posso chamar literatura. Tudo, ou quase, muito bom.
Contos anteriores deste livro:
A história em si mesma é uma história sobre a conquista do poder, sobre atentados e movimentações de bastidores, sobre armas secretas sofisticadas (para o nível tecnológico de meados do século XX, entenda-se, embora também haja um clone metido ao barulho) e assassinos orientados por capacidades premonitórias especiais. Uma história cheia de peripécias e reviravoltas, como costumam ser as histórias de todas as revoluções, e que portanto tem do princípio ao fim esse interesse, o interesse de se saber quem sairá vencedor. Mas é, sobretudo, uma história muito bem escrita — salvo um par e meio de erros de revisão —, com um magnífico ritmo e pormenores cheios de algo a que só posso chamar literatura. Tudo, ou quase, muito bom.
Contos anteriores deste livro:
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Lido: Contos Misteriosos
Contos Misteriosos é mais uma das pequenas antologias temáticas publicadas com o Diário de Notícias no verão do ano passado. Já não é a primeira que aqui aparece e está longe de ser a última. Desta feita, o tema é bastante vago, o que permite uma grande variedade nos contos escolhidos. Alguns são contos fantásticos, outros de fantástico nada têm, e as abordagens e objetivos que os cinco autores pretendem com eles atingir são os mais diversos possível. O que, julgo, não é lá muito bom, tendo em conta a proposta subjacente a fazer uma antologia temática.
O certo é que nenhum me encheu as medidas. Todos têm características que me agradaram, e todos têm características que me desagradaram. Na verdade, a coisa foi mais longe: aquele que me pareceu literariamente mais forte, portanto de certa forma o melhor dos cinco, foi aquele que menos me agradou: Roubo. Em menor grau, o mesmo aconteceu com vários dos outros, o que me deixou com uma perplexidade ao acabar a leitura: terei eu gostado desta antologia?
Normalmente é-me fácil responder a este tipo de pergunta. Se uma antologia não tem contos maus e os tem bons, ou pelo menos tem destes em número consideravelmente superior àqueles, gosto de a ler. O gostar de ler está dependente de acabar a leitura com satisfação, de achar em geral bem gasto o tempo nela dispendido, e isso normalmente fica claro ao fechar o livro, e por vezes bem antes de chegar a esse ponto. Mas aqui não. Aqui acabei-a um pouco perplexo, a perguntar aos meus botões se o que tinha acabado de ler tinha valido a pena.
Acabei por concluir que sim. Que suponho que sim. Com dúvidas. É que aprendi com alguns destes contos e tomei contacto com alguns autores que desconhecia — Collier, Coates e Porter, basicamente — e que me deixaram curioso sobre o que poderão ter escrito além do que aqui li. E isso é bom. Suponho.
Eis o que achei de cada um dos contos:
Este livro foi comprado.
O certo é que nenhum me encheu as medidas. Todos têm características que me agradaram, e todos têm características que me desagradaram. Na verdade, a coisa foi mais longe: aquele que me pareceu literariamente mais forte, portanto de certa forma o melhor dos cinco, foi aquele que menos me agradou: Roubo. Em menor grau, o mesmo aconteceu com vários dos outros, o que me deixou com uma perplexidade ao acabar a leitura: terei eu gostado desta antologia?
Normalmente é-me fácil responder a este tipo de pergunta. Se uma antologia não tem contos maus e os tem bons, ou pelo menos tem destes em número consideravelmente superior àqueles, gosto de a ler. O gostar de ler está dependente de acabar a leitura com satisfação, de achar em geral bem gasto o tempo nela dispendido, e isso normalmente fica claro ao fechar o livro, e por vezes bem antes de chegar a esse ponto. Mas aqui não. Aqui acabei-a um pouco perplexo, a perguntar aos meus botões se o que tinha acabado de ler tinha valido a pena.
Acabei por concluir que sim. Que suponho que sim. Com dúvidas. É que aprendi com alguns destes contos e tomei contacto com alguns autores que desconhecia — Collier, Coates e Porter, basicamente — e que me deixaram curioso sobre o que poderão ter escrito além do que aqui li. E isso é bom. Suponho.
Eis o que achei de cada um dos contos:
Este livro foi comprado.
Lido: Que Vergonha, Rapazes
Que Vergonha, Rapazes é um hilariante poema (soneto?) de Alexandre O'Neil sobre... bem, sobre esta vidinha à portuguesa que não anda nem desanda por culpa de tudo e mais dumas botas. Não-recomendadíssimo aos puristas da orthographia, que terão uma síncope logo ao primeiro verso ("pràqui"?! T'arrenego, abrenúncio!), muito recomendado a todos os que saibam alguma coisa sobre a língua tal como ela é, bem viva nas bocas dos seus falantes. E em especial a quem tenha sentido de humor, naturalmente.
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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
Lido: Guizos
Guizos (bib.), de Bruce Holland Rogers, é mais um conto curto fantástico contado, na primeira pessoa, por um sonho. Não um sonho vulgar, daqueles que se sonham incoerentemente à noite e desaparecem mal o sonhador acorda. Mas um sonho que em tempos tinha sido homem, e que fora transformado em sonho pela violência de uma guerra de conquista. Mas esse sonho muda hábitos, costumes, culturas, até línguas, de modo que quando a guerra acaba — se é que chega a acabar algum dia — não se percebe bem quem é conquistador e quem fica conquistado. Mais um conto magnífico, pleno de subtileza, que se socorre do fantástico para fazer pensar em coisas bem concretas do mundo que nos rodeia. Como acontece quando ele é bem usado. Muito bom.
Lido: O Sr. Magia
O Sr. Magia (bib.) é mais um conto de Steven Bauer, desta feita adaptando um argumento de Joshua Brand e John Falsey. Bastante bom, por sinal. Trata-se de uma história fantástica e melancólica sobre um velho ilusionista que perdeu o jeito e, com ele, o carinho do público. Ganhando a vida em espetáculos quase vazios de assistência numa casa barata, por caridade do dono, o protagonista vê que até isso ameaça fugir-lhe. É então que decide investir em novo material e acaba por comprar um baralho de cartas realmente mágicas, que lhe permitem um derradeiro fulgor de sucesso. Mas nem estas duram para sempre. É uma história muito humana sobre o envelhecimento e a degenerescência e sobre como lidar com eles.
O texto de Bauer parece tratar bem a história em que se baseia e a tradutora até parece não ter cometido argoladas tão grandes como em contos anteriores do livro, de modo que a leitura flui razoavelmente bem. O melhor conto do livro até ao momento.
Contos anteriores deste livro:
O texto de Bauer parece tratar bem a história em que se baseia e a tradutora até parece não ter cometido argoladas tão grandes como em contos anteriores do livro, de modo que a leitura flui razoavelmente bem. O melhor conto do livro até ao momento.
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Lido: Ídolo
Ídolo é um conto curto de John O'Hara, autor americano com quem ainda não tinha tomado contacto. O conto passa-se em Washington e parece descrever apenas uma entrevista entre dois velhos conhecidos dos tempos da faculdade, um deles subsecretário de qualquer coisa, o outro à procura de emprego. Com bons diálogos, é uma história sobre o tráfico de influências nas mais altas esferas, sobre o que se pode e o que não se pode dizer, sobre a hipocrisia. Soa interessante, não é? Pois, mas para mim não foi. O'Hara não tem culpa, que escreveu isto em meados do século XX, mas a verdade é que basta assistir de olhos abertos a um episódio de The West Wing ou, num registo bem diferente, a um do Yes, Minister, para deixar de ter ilusões acerca do que realmente se passa nos corredores do poder. E em comparação este conto sabe a muito, muito pouco. A única coisa que retirei desta leitura foi um rotundo meh.
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Lido: O Teste
O Teste (bib.), conto curto de ficção científica de João Barreiros, é ao mesmo tempo sátira e desabafo. Num futuro indeterminado, num Portugal mergulhado no caos e na hiperviolência, um professor prepara-se para arriscar a vida — que pouco vale — para fazer uma avaliação aos seus alunos; o teste do título. Mas, para seu horror, vai descobrir que as coisas não vão correr como espera, embora seja isso mesmo o que o leitor já espera dado tratar-se de um conto de Barreiros. Apesar de seguir um esquema que o autor já usou bastante, o conto é bastante bom: estilo, enredo e dimensão conjugam-se na perfeição e, embora seja previsível que as coisas corram mal, a forma concreta como isso acontece não o é. Já tenho mais dúvidas quanto às ideias que estão por trás deste conto. É que a noção de que a escola caminha para se transformar em zona de guerra povoada por professores que tentam fazer o melhor que podem e sabem mas estão de mãos atadas por um sistema ineficaz e rodeados por hordas de imbecis armados até aos dentes contribuiu decisivamente para a aberração em curso corporizada por um tal Nuno Crato. E o pior é que os dados de comparação internacional entre as nossas escolas e as dos outros — ou melhor, entre os nossos alunos e os dos outros — desmentem essa ideia com grande veemência. Ou seja: este conto, sendo bom, mostra as coisas como poderiam ser se fossem muitíssimo diferentes do que são. Apesar de ser compreensível que um "stor" cansado e farto do que faz se possa sentir assim de vez em quando, especialmente se lhe calharem em sorte aquelas turmas problemáticas que todos bem conhecemos, cheias de miúdos sem quaisquer perspetivas de futuro, sem qualquer sombra de motivação e/ou curiosidade intelectual.
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terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Lido: Ao Perdedor, as Baratas
Ao Perdedor, as Baratas (bib.) é uma noveleta algo estranha de Antonio Luiz M. C. Costa, em parte história alternativa, em parte aventura pulp, em parte utopia política e em parte fantasia kafkiana. Passa-se num mundo alternativo, com um ponto de divergência que nunca fica inteiramente claro mas é antigo, data pelo menos de vários séculos antes dos presentes, tanto o ficcional (que parece situar-se por volta de meados do século XX) como o real. Nesse mundo, a América não se chama assim mas Colômbia — o que, até que o leitor deslinda a diferença das Colômbias, a real e a ficcional, causa alguma confusão — e a sua metade norte não foi colonizada pelos ingleses, mas pelos holandeses. Não é, contudo, aí que se desenrola a história, embora esse facto tenha importância por ser um cidadão da Colômbia do Norte o protagonista da história, e por esse país se encontrar em fase de resvalamento para um regime muito semelhante ao regime nazi da Alemanha da nossa realidade, com todas as implicações que esse facto tem. O protagonista, aliás, não se limita a ser cidadão: é também agente secreto, e tem uma mentalidade muito semelhante à dos nazis. Por seu lado, o Brasil, lugar onde a história se ambienta, é uma república democrática, industrializada e culturalmente integrada, misturando num todo, ainda que não inteiramente pacífico e coeso, as suas heranças índia, portuguesa e africana. O início da história vai encontrar este país em plena campanha eleitoral para umas eleições presidenciais nas quais um candidato comunista (e indigenista) leva vantagem. A tarefa do protagonista é precisamente mudar o rumo da campanha brasileira, impedindo o triunfo da esquerda. Como? Através de um atentado perpetrado por uma arma secreta.
E por aí vai.
Basta esta introdução, que nem chega a falar de muitos outros detalhes importantes para a história, para se perceber que esta noveleta está repleta de conteúdo. Esse, aliás, é o seu maior defeito: não se limita a estar repleta de conteúdo, mas transborda. Tem tanta coisa, é um tal turbilhão de ideias, personagens, ambientação ucrónica, tudo e mais alguma coisa, que o autor se vê obrigado a deixar as personagens mal caracterizadas e a entrecortar a trama com digressões algo longas para situar o leitor na história — e mesmo assim não evita algumas confusões, como no supracitado caso da Colômbia do Norte — enquanto mantém a extensão do texto suficientemente curta para o reduzir a noveleta. O material é simplesmente demasiado. Tudo o que aqui se encontra, explorado de uma forma mais aprofundada, daria para uma novela, e não das mais curtas. Acrescentando-lhe um ou dois arcos de história (ou talvez uns "ramais", umas analepses, uns saltos no tempo, coisas dessas) facilmente se chegaria ao romance. E eu julgo que a história ficaria melhor assim.
Porque não consegui deixar de sentir, ao acabar a leitura, aquela sensação de potencial imenso mas insuficientemente explorado que por vezes sentimos ao lermos ficções curtas que facilmente dariam longas. Porque quis conhecer melhor várias daquelas personagens que fazem aparições fugidias ao longo da trama e até o próprio protagonista, também ele pouco tridimensional. Porque a alternativa histórica me pareceu potencialmente muito rica. Porque, em suma, tudo aquilo me interessou bastante e acabou depressa demais deixando uma sensação de incompletude. Esta poderia ser uma boa novela, até um bom romance. Mas não me parece que seja uma boa noveleta. Sou de opinião que cada história tem um tamanho certo, aquele tamanho que realmente lhe faz justiça, e acho que o desta não é este. Fica a esperança de que o autor um dia o encontre. Porque julgo que a história o merece.
Ah, e Kafka, onde fica? Nas baratas, pois claro. E mais não digo, que isto já vai longo.
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E por aí vai.
Basta esta introdução, que nem chega a falar de muitos outros detalhes importantes para a história, para se perceber que esta noveleta está repleta de conteúdo. Esse, aliás, é o seu maior defeito: não se limita a estar repleta de conteúdo, mas transborda. Tem tanta coisa, é um tal turbilhão de ideias, personagens, ambientação ucrónica, tudo e mais alguma coisa, que o autor se vê obrigado a deixar as personagens mal caracterizadas e a entrecortar a trama com digressões algo longas para situar o leitor na história — e mesmo assim não evita algumas confusões, como no supracitado caso da Colômbia do Norte — enquanto mantém a extensão do texto suficientemente curta para o reduzir a noveleta. O material é simplesmente demasiado. Tudo o que aqui se encontra, explorado de uma forma mais aprofundada, daria para uma novela, e não das mais curtas. Acrescentando-lhe um ou dois arcos de história (ou talvez uns "ramais", umas analepses, uns saltos no tempo, coisas dessas) facilmente se chegaria ao romance. E eu julgo que a história ficaria melhor assim.
Porque não consegui deixar de sentir, ao acabar a leitura, aquela sensação de potencial imenso mas insuficientemente explorado que por vezes sentimos ao lermos ficções curtas que facilmente dariam longas. Porque quis conhecer melhor várias daquelas personagens que fazem aparições fugidias ao longo da trama e até o próprio protagonista, também ele pouco tridimensional. Porque a alternativa histórica me pareceu potencialmente muito rica. Porque, em suma, tudo aquilo me interessou bastante e acabou depressa demais deixando uma sensação de incompletude. Esta poderia ser uma boa novela, até um bom romance. Mas não me parece que seja uma boa noveleta. Sou de opinião que cada história tem um tamanho certo, aquele tamanho que realmente lhe faz justiça, e acho que o desta não é este. Fica a esperança de que o autor um dia o encontre. Porque julgo que a história o merece.
Ah, e Kafka, onde fica? Nas baratas, pois claro. E mais não digo, que isto já vai longo.
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terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Lido: «O Acto Sexual é Para Ter Filhos» — Disse Ele
«O Acto Sexual é Para Ter Filhos» — Disse Ele é um famosíssimo e hilariante poema satírico de Natália Correia que transformou em alvo de chacota nacional um tal João Morgado, ao tempo deputado do CDS na Assembleia da República. Morgado defendia em pleno hemicilo a velha e bafienta ideia puritana de que o único fim do sexo é a procriação — a qual, por bafienta e ridícula que seja, continua ainda hoje a assomar aqui e ali —, e Natália Correia improvisou uma resposta em 16 versos que constituem um dos poemas mais poderosos que alguma vez se fizeram em língua portuguesa. Pelo menos entre os que não se destinam a ser musicados. Foi um momento de absoluto brilhantismo, e ainda hoje é impossível não ler estas palavras sem rir dos Morgados que por aí andam. Podem ser lidas na net em vários sítios. Este, por exemplo. Mas o que eu li veio num livro.
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Lido: O Conquistador
O Conquistador (bib.) é mais um conto curto de Bruce Holland Rogers. Desta feita estamos no reino da fantasia, entre trolls — ou troles, como o tradutor os aportuguesa —, que um belo dia (ou noite; não se sabe bem pois rezam as histórias que o troll é criatura que habita na escuridão eterna das cavernas) sonham com um deus novo chamado Conquistador. Este promete-lhes uma vida mais fácil, à superfície, aquela vida que os homens vivem na sua cidade. Para a obterem, basta-lhes terem nele fé, prestarem-lhe homenagem e fazerem o que lhes ordenasse. Ah, e chamarem-no de vez em quando pelo seu verdadeiro nome. Em troca, ele trataria de os ajudar a conquistar essa nova vida. E os trolls assim fazem, e o deus cumpre o prometido. Mas um deus chamado Conquistador é capaz de não ser inteiramente digno de confiança.
Trata-se de mais uma boa história, com fartas quantidades de conteúdo para quem o souber entender, em especial tendo em conta que Rogers é americano e que se há no mundo de hoje país que tende a ceder aos caprichos do deus Conquistador, esse país chama-se Estados Unidos da América. Não acho que seja dos melhores contos do livro, mas é bom.
Trata-se de mais uma boa história, com fartas quantidades de conteúdo para quem o souber entender, em especial tendo em conta que Rogers é americano e que se há no mundo de hoje país que tende a ceder aos caprichos do deus Conquistador, esse país chama-se Estados Unidos da América. Não acho que seja dos melhores contos do livro, mas é bom.
domingo, 16 de dezembro de 2012
Lido: Julieta
Julieta (bib.), de Pinheiro Chagas, é um romanticíssimo conto de horror sobrenatural sobre um jovem que se perde de amores pelo fantasma de uma mulher de superlativa beleza. E quando digo romanticíssimo refiro-me mesmo às características (e aos ridículos) da literatura romântica: o absurdamente exagerado sentimentalismo, a inverosimilhança das paixões, a linguagem empolada e pretensiosa, tudo isso. Na prosa de Pinheiro Chagas, as personagens não falam: peroram. Também não vivem: trambolham de cascata emocional em cascata emocional sem qualquer controlo nem o mínimo sinal de inteligência. Tudo, por profundíssimo que se apresente, é duma superficialidade atroz. O protagonista desta história põe os olhos numa mulher — ou naquilo que julga ser uma mulher — e imediatamente passa a amá-la "mais do que à vida". Porquê? Porque é bela, pois então! E haverá mais alguma qualidade feminil capaz de fazer um mancebo perder-se de amores? Claro que não! Só a beleza existe, especialmente se salpicada de uma pitadinha de mistério. Quem é ela, oh, perdição do coração!, quem é?
Perfeitamente ridículo.
E no entanto...
E no entanto há neste conto certos detalhes que me levam a não o renegar completamente como simples exemplo da má literatura romântica. Pinheiro Chagas entrelaça no enredo principal pequenos toques de um humor irónico, apontado às hipocrisias e — sim — aos ridículos da sociedade do seu tempo. E há neste conto uma certa qualidade cinemática. Apesar da banalidade de boa parte do enredo, certos pormenores, certos detalhes descritivos, conseguiram levar-me a pensar em imagens. Expurgado dos exageros de linguagem, melhor explorado aqui e ali e transformado em guião, este conto não daria um filme de longa metragem porque não tem dimensão para tal, mas, bem filmado, com bons efeitos especiais (sim, precisaria deles), poderia dar um bom episódio de uma série fantástica ou uma boa curta.
E isto é uma qualidade.
Este livro foi comprado.
Perfeitamente ridículo.
E no entanto...
E no entanto há neste conto certos detalhes que me levam a não o renegar completamente como simples exemplo da má literatura romântica. Pinheiro Chagas entrelaça no enredo principal pequenos toques de um humor irónico, apontado às hipocrisias e — sim — aos ridículos da sociedade do seu tempo. E há neste conto uma certa qualidade cinemática. Apesar da banalidade de boa parte do enredo, certos pormenores, certos detalhes descritivos, conseguiram levar-me a pensar em imagens. Expurgado dos exageros de linguagem, melhor explorado aqui e ali e transformado em guião, este conto não daria um filme de longa metragem porque não tem dimensão para tal, mas, bem filmado, com bons efeitos especiais (sim, precisaria deles), poderia dar um bom episódio de uma série fantástica ou uma boa curta.
E isto é uma qualidade.
Este livro foi comprado.
sábado, 15 de dezembro de 2012
Lido: A Viagem do Sr. Culpa
A Viagem do Sr. Culpa (bib.) é a novelização por Steven Bauer de uma história de Gail e Kevin Parent. A história tem algum interesse à sua maneira delicodoce. O Sr. Culpa é isso mesmo, o senhor culpa. A personificação do sentimento de culpa, que vive uma vida de pessoa, com emprego numa espécie de corporação celestial (o qual consiste, naturalmente, em instilar sentimentos de culpa nas pessoas), hierarquia, avaliações de desempenho, enfim, o pacote completo. E férias, claro. É nessas férias que acontece a viagem do título — um cruzeiro —, e é aí que o Sr. Culpa vai deparar com o inesperado. O Amor. Assim mesmo, com inicial maiúscula. Tudo bastante aceitável, tudo construído com imaginação e, aparentemente, pelo menos alguma qualidade literária. O problema é a horrenda tradução. Um exemplo: há uma parte do texto em que Bauer faz uma referência ao ténis, e descreve uma cena como se de um jogo se tratasse. Com a correspondente evolução do resultado. Quem sabe alguma coisinha sobre o assunto, sabe que o resultado é expresso, em inglês, como "fifteen love"; "thirty love"; "fourty love". Qualquer tradutor com um mínimo de competência traduziria como "quinze nada"; "trinta nada"; "quarenta nada". Que fez a tradutora? "Quinze amores", "trinta amores", "quarenta amores."
Sim. A sério.
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Sim. A sério.
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Lido: A Lei
A Lei, de Robert M. Coates, é daqueles contos de um fantástico salpicado de humor e surrealismo que encaixariam que nem uma luva na proposta do Infinitamente Improvável. Ambientado em Nova Iorque, descreve o que acontece quando a banalidade quotidiana é interrompida por um afluxo completamente anormal de veículos a uma das pontes que ligam Manhattan a Long Island, gerando longas filas e mais longas esperas, além de um autêntico ataque de nervos aos portageiros. Este acontecimento traz para o primeiro plano do consciente coletivo outros acontecimentos semelhantes que tinham vindo a suceder nos últimos tempos, mas que haviam sido relegados para a categoria de coincidências sem importância. E segue por aí fora, ainda que não por muito tempo — o conto é curto — mostrando uma sociedade que tenta adaptar-se, a custo, à incerteza gerada por aqueles fenómenos inexplicáveis.
Gostei mais da premissa do que propriamente do conto, apesar de este não me parecer mau. Mas pareceu-me que explorou a premissa de uma forma demasiado superficial, tocando apenas pela rama as consequências de um tal acontecimento. Dir-se-ia que o autor, depois de ter a ideia, não teve espaço, tempo, vontade ou arte para a explorar com a profundidade que ela talvez merecesse, impressão que talvez seja acentuada pelo final em aberto. Parece-me que é pena. Haveria muito sumo a extrair deste naco de fruta. Mas ainda assim não desgostei.
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Gostei mais da premissa do que propriamente do conto, apesar de este não me parecer mau. Mas pareceu-me que explorou a premissa de uma forma demasiado superficial, tocando apenas pela rama as consequências de um tal acontecimento. Dir-se-ia que o autor, depois de ter a ideia, não teve espaço, tempo, vontade ou arte para a explorar com a profundidade que ela talvez merecesse, impressão que talvez seja acentuada pelo final em aberto. Parece-me que é pena. Haveria muito sumo a extrair deste naco de fruta. Mas ainda assim não desgostei.
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