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sexta-feira, 5 de julho de 2019

Davi Araújo: Alter et Idem / Liberdade de Expressão

Já disse por aqui muitas vezes, e repito mais uma vez: não percebo grande coisa de poesia. Tenho umas luzes, mas são de poucos lúmen (que com a variedade de económicas os watts deixaram de ser úteis para ter ideia da luminosidade). E por isso é sempre com um certo embaraço que falo aqui de poemas.

Especialmente de poemas como estes. Davi Araújo faz poemas formalmente corretos, com ritmo, com prosápia, com palavras bem escolhidas e postas nos seus lugares, mas que falham em estabelecer uma ligação comigo, emocional ou qualquer outra. Por isso não sei bem que diga deles. Descrevê-los? Bem... Alter et Idem é um poema sobre o efeito que a literatura tem sobre o eu, ou pelo menos sobre um eu possível, e Liberdade de Expressão mais parece uma brincadeira em que a musicalidade das palavras é muito mais relevante do que o seu significado.

Basta?

Provavelmente não, mas é o que temos.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Valter Marques: Interplanetas

Eu pertenço assumidamente àquele grupo de leitores que entre a forma literária e o conteúdo da literatura pendem para este último. Mas não sou radical. Ou seja, sou perfeitamente capaz de apreciar uma peça literária sobretudo pela sua forma, desde que o conteúdo não seja nulo ou absolutamente desinteressante. E, mais importante do que isso, pela parte que me toca há poucas coisas que mais contribuem para destruir a fruição de uma história do que as falhas no manejo da linguagem. Isto é, eu prefiro o conteúdo à forma, sim, mas há um limiar mínimo de forma abaixo do qual as coisas pura e simplesmente não funcionam.

E uma das coisas que mais me irrita a experiência de leitura são os saltos contínuos e sem qualquer justificação entre tempos narrativos. Sem qualquer justificação, sublinhe-se: por vezes há efeitos literários que necessitam desse tipo de salto, justificando-o; uma analepse pode ser escrita no pretérito mais-que-perfeito, por exemplo, funcionando como bolha num texto genericamente escrito noutro pretérito ou no presente. Mas quando não existe justificação para a história andar constantemente a saltar entre narrativa no presente e no passado, eu trepo paredes.

E sim, foi precisamente isso o que aconteceu neste Interplanetas (bibliografia). Um exemplo ao calhas (itálicos meus), entre muitos possíveis: «BRUUM! Dolores desperta com o estrondo. Escuta. Agora que estava acordada, começou a ter dúvidas se ouvira o tal barulho ou se fora um produto do seu sonho.»

Esta é uma falha que para mim é grave na prosa de Valter Marques. E não é a única; apesar de se tratar de um autor com algum potencial, esse potencial não estava ainda desenvolvido quando escreveu e publicou esta história, tanto em termos de prosa propriamente dita, como no que toca ao desenvolvimento do enredo, pois esta história deixa uma enorme sensação de coisa indecisa, que não sabe bem o que quer ser.

Começa como conto intimista, sobre uma mulher que está farta da vida que leva e resolve simplesmente partir para parte incerta. A páginas tantas transforma-se em história de terror mas sem realmente conseguir criar uma ligação emocional com quem lê (ou pelo menos com este leitor), quando ela entra numa estranha carruagem de um estranho comboio, na qual inicialmente se acha sozinha e da qual não consegue sair, e onde algum tempo mais tarde recebe a companhia de lobisomens. Mais adiante aparecem os ares de ficção científica que explicam o título: aquilo onde a mulher entrara, afinal, é a "composição ferroviária InterPlanetas, com destino à Grande Nebulosa de Fartolon". E o conto termina de forma desastrosa, com o autor a inserir-se nele sem qualquer motivo, a não ser ironizar-se autor famoso e peneirento.

O resultado de tudo isto é uma história que tem alguns elementos interessantes mas é muito pior do que esses elementos a poderiam levar a ser. Um conto bastante mauzinho.

Conto anterior desta publicação:

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Lido: The Last Akialoa

A Fantasy & Science Fiction tem o costume de fazer anteceder as histórias que publica por pequenas introduções escritas, presumivelmente, por um ou outro dos editores. Costumam ter alguma utilidade para enquadrar os textos que introduzem, embora por vezes sejam um pouco redundantes. E de outras vezes, mais raras, são algo discutíveis.

Esta, por exemplo, é algo discutível. Começa por aconselhar os puristas a passar à frente, e explica que o faz porque esta história de Alan Dean Foster não é nem ficção científica nem fantasia, uma vez que se podia perfeitamente passar hoje.

E eu, provavelmente por não ser purista, discordo. The Last Akialoa é uma história passada numa região de chuva intensa e persistente numa das ilhas havaianas, um pântano situado na caldeira de um vulcão extinto. As personagens são ornitólogos (e um guia) que penetram nessa região à procura de uma ave que se julga poder estar extinta, o akialoa. Problema: expedições anteriores resultaram invariavelmente no desaparecimento e presumível morte de parte da expedição, porque as condições são de tal forma inóspitas que nem as comunicações modernas lá funcionam nem a tecnologia de busca e salvamento lá consegue chegar com um mínimo de eficácia.

E já sem contar com uma cena, perto do desfecho, que pode perfeitamente servir para enquadrar esta história tanto na fantasia (se for essa a perspetiva do leitor) quanto no fantástico todoroviano (pois existe uma clara ambiguidade quanto à realidade ou irrealidade do que é descrito), uma coisa é certa: existe um elemento claro de tensão e morte iminente que pode perfeitamente ser encarado como horror psicológico, e existe uma referência que me pareceu igualmente clara a um conto de ficção científica de Bradbury, A Longa Chuva. Pelo que a inclusão da história numa revista como esta faz todo o sentido. Nada a ver com a crónica de viagem da outra senhora num dos números da Paradoxo (e esta devem contar-se pelos dedos duma mão os que entenderão).

Mas isso, no fundo é secundário. O que é realmente importante é saber se o conto é bom. E a meu ver até é, mas não muito. Consegue criar a atmosfera de tensão pretendida, é contado com a mão segura de um autor carregadinho de experiência, mas falta-lhe um certo... como explicar? Falta-lhe conseguir que o leitor (ou este leitor, pelo menos) mergulhe realmente na história, se interesse realmente pelo destino das personagens e/ou pela descoberta que estas pretendem fazer. E falta-lhe também ser menos previsível, pois o desfecho vai tendo demasiados prenúncios ao longo da narrativa.

Contos anteriores desta publicação:

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Lido: Rodamoinho, Talvez

E na sequência do que disse sobre o texto anterior, eis mais um conto/poema de Luiz Bras cuja mais fundamental natureza é o hibridismo.

Hibridismo, para começar, devido à sua natureza híbrida entre a prosa e a poesia. Hibridismo, também, por situar-se declaradamente num território entre a fantasia de sabor mágico-realista e a ficção científica. Hibridismo, ainda, por fazer a ponte entre a "literatura" tal como é entendida em certos círculos e o género, ou aquilo a que esses círculos chamam a "paraliteratura". E por fim hibridismo porque Rodamoinho, Talvez, é em si mesmo um texto híbrido, uma vez que não existe (ou existe de forma muito amputada, pelo menos) sem a obra literária a que faz referência direta: Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez.

E é isso o que tem de mais interessante, a meu ver: a forma como este conto/poema reinterpreta o grande romance de Garcia Márquez à luz da ficção científica, ou de uma certa abordagem à FC, entre a homenagem ao grande escritor e à sua obra e um erguer de bandeira ativista em prol da ideia de que a ficção científica tudo pode permear. Muito bom.

Textos anteriores deste livro:

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Lido: Naturalmente Feliz

Alguém com um nome como Alexandra Pereira que começa um conto com "a senhora dona escritora sentou-se no café" corre sérios riscos de que quem o leia o suspeite autobiográfico. Especialmente se o que se segue a esse início é uma daquelas tipicíssimas histórias contemplativas de escritor-a-escrever-sobre-escritor, repletas de observação da banalidade do quotidiano e de reflexões sobre este ou aquele aspeto desse quotidiano (ou dessa banalidade?). Naturalmente Feliz é um risco desses; um conto sobre uma "senhora dona escritora," já entradota, que se senta num café a observar o que a rodeia, aquela típica vida de café que praticamente todos os portugueses conhecem bem, mas em especial uma jovem, entre o divertimento, a curiosidade e a inveja. É também um conto bem escrito, como a maioria dos outros, mas é banal, limitando-se a repetir situações e ideias já expressos numa miríade de outros contos realistas de escritor-a-escrever-sobre-escritor que o umbiguismo de tantos escritores foi produzindo ao longo das décadas. Só uma coisa, na verdade, se destaca: o fim. O fim é interessante (e não, não vou revelá-lo), o suficiente para arrancar esta história à maior das medianias. Mas mesmo assim há histórias bem melhores neste volume.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 7 de outubro de 2017

Lido: Anthology of European Speculative Fiction

Há cerca de um ano, quando fui pela segunda vez nomeado para um prémio da European Science Fiction Society, escrevi que "tenho alguma simpatia pelo voluntarismo dos prémios da ESFS. [...] Mas a verdade é que a relevância do prémio é praticamente nula, e será sempre nula enquanto não existir mesmo um mínimo de contacto entre o que se vai fazendo no campo da ficção especulativa nos vários países europeus, o que está muito, muito longe de acontecer." Poderia ter acontecido, mas não aconteceu, que alguém me tivesse vindo mostrar esta Anthology of European Speculative Fiction como prova de que esse mínimo de contacto já existe, o que teria tido como resposta uma rotunda negativa. Não que iniciativas como esta não possam ser semente de qualquer coisa, mas são no máximo só semente, não são a própria coisa. Quando eu falo em "um mínimo de contacto" refiro-me a edições regulares e variadas, mesmo se escassas, de obras de ficção especulativa europeia nas várias línguas da Europa, que possam servir para termos todos alguma noção, ainda que vaga, do que se vai fazendo nos outros países. Uma antologia em inglês não basta, uma publicação regular em inglês como a ISF Magazine, que coeditou este ebook, também não. Poderão ser um início. Mas, como se viu, nem isso terão sido. Parece faltar por completo uma condição determinante para uma iniciativa destas ter alguma hipótese de dar frutos: interesse.

Assim, ficam as obras em si mesmas. E esta, organizada pelo romeno Cristian Tamas e pelo português Roberto Mendes, não é má, até porque inclui alguns bons contos (sobretudo o de Aliette de Bodard e, a alguma distância, o de Jetse de Vries), mas é muito irregular. Muito irregular.

O que me causa mais estranheza são algumas opções tomadas pelos organizadores. Não sei se terá havido constrangimentos relacionados com as histórias que foram propostas para a antologia e com autores que poderiam ter participado mas não quiseram fazê-lo, mas parece-me que uma antologia deste tipo, que tem claramente a ambição de servir de montra internacional do que se faz atualmente na Europa, deveria esforçar-se por apresentar a melhor ficção possível. Não sei se se esforçou e não conseguiu. Mas o facto é que a par de boas histórias, escritas por autores experientes e de qualidade, surgem histórias bastante amadoras, que ainda por cima nem sequer representam adequadamente o que se faz nos respetivos países, o que se comprova por haver aqui histórias muito melhores de autores das mesmas nacionalidades.

E também me causam uma certa estranheza as ausências. Há três autores romenos, duas portuguesas, dois britânicos, um que talvez seja holandês ou belga, um finlandês, um ucraniano e até dois que nasceram nos EUA, um dos quais com nome italiano e a outra com nome, vivência e nacionalidade franceses. Mas onde estão os espanhóis? Os polacos? Os alemães? Os russos? Tudo nacionalidades que, à parte talvez os espanhóis, têm tradições fortes e reconhecidas na ficção especulativa mundial e no entanto não parecem ter mostrado o menor interesse por esta iniciativa. Que é delas? Como é que uma iniciativa como esta pode prescindir de autores destes países?

São questões que me ficaram ao terminar esta leitura. Possivelmente haverá excelentes respostas para elas, mas parece-me que uma mostra da FC&F europeia só ficaria mais forte se fosse mais abrangente e consistente em termos de qualidade.

Por outro lado, como digo sempre que tenho oportunidade, a publicação de uma antologia já vale a pena desde que inclua pelo menos um conto muito bom ou dois ou três "meramente" bons. E esta inclui, portanto ainda bem que existe.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Este livro eletrónico foi distribuído gratuitamente.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Lido: Almanaque Steampunk 2012

Os almanaques são um tipo de publicação caída em desuso que faz todo o sentido ressuscitar no contexto retrofuturista inerente ao steampunk. Misto de revista e livro, têm — os exemplos físicos que conheço, pelo menos — deste a encadernação e daquela o tipo de conteúdo genérico que não se limita à típica sucessão de histórias, por vezes intercaladas por ilustrações, da maior parte das antologias.

O Almanaque Steampunk, aqui na edição de 2012, faz, portanto, todo o sentido. Constituído por contos e por uma série de outros textos que vão do horóscopo ao artigo jornalístico, passando pela crónica de costumes e pelos anúncios, os quais no fundo são quase todos outras tantas obras de ficção curta (contos, portanto) com estruturas incomuns, reproduz fielmente a estrutura dos almanaques de antanho e traz como brinde a publicação de alguns textos de qualidade. Mesmo que inclua também outros bastante fracos.

Mas a sensação que estes textos mais deixaram foi a de potencial desaproveitado, a de que as ideias neles contidas, se bem aproveitadas, dariam textos mais longos muito mais interessantes do que as ficções muito curtas que acabaram por ser mesmo produzidas. Bem sei que a publicação não se prestava a textos mais longos do que os que foram nela publicados, e bem sei também, até por experiência própria, que é mais fácil, que dá uma satisfação mais imediata, gastar um quarto de hora ou meia hora a escrever uma vinhetazinha de uma página ou duas (ou cinco minutos num miniconto) do que gastar dias ou meses às voltas com as complexidades de uma noveleta ou novela (ou até anos, por vezes, no caso de romances) que, ainda por cima, não há nenhuma garantia de acabarem por se ver publicadas e lidas. Mas mesmo assim, o travo que fica é um bocado amargo.

Outra insuficiência desta publicação, que no entanto reconheço ser de difícil solução, é a da incoerência (até ortográfica) entre os vários textos, que destrói a pretendida ilusão de se tratar de publicação feita num virar de século XIX-XX tecnologicamente ultradesenvolvido. Um almanaque deste tipo funcionaria bastante melhor num sistema de universo partilhado do que neste esquema, em que cada autor faz a sua proposta baseada no seu próprio worldbuilding. Quando estes chocam, e fazem-no com frequência, a publicação entra em dissonância e isso faz com que o todo acabe por ser pior do que a soma das partes.

Obviamente, para fazer as coisas de outra forma os editores teriam de chamar os autores para trabalharem sobre um conjunto de ideias predefinidas (por eles ou pelos próprios autores) e manter um controlo apertado sobre a pertinência dos vários aportes que sem dúvida lhes chegariam. E isso não é nada fácil, em particular quando não há alguém universalmente respeitado que possa servir de árbitro e juiz como aconteceu na antologia Lisboa no Ano 2000. Sem isso, mais que provavelmente, a alternativa seria entre não fazer e fazer assim. Concordo que é melhor fazer assim. Mas um tipo pode sonhar.

Em suma: é uma antologia (sim, sendo quase tudo ficção eu chamo a isto antologia, mesmo com todas as ambiguidades dos almanaques) com interesse e falhas, que incluiu alguns bons contos, o que só por si faz com que a sua existência valha a pena.

Eis o que achei dos vários textos que constam do livro:

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Lido: A Abóbada Energética

A ficção científica pulp mundial tem alguns marcos que costumam receber o qualificativo de incontornáveis (embora tudo, no fundo, seja contornável); aquelas obras, séries ou autores que se revestiram ou revestem de especial importância para o género como um todo ou para uma certa época. A esmagadora maioria desses marcos são americanos ou em muito menor escala britânicos, mas há exceções.

Uma dessas exceções, talvez a principal, é a série alemã cujo herói recebeu o nome de Perry Rhodan. Para começar, por ser a mais longa de todas, com um número de publicações que já ultrapassa largamente as três mil, o que, mesmo tendo em conta que está em publicação ininterrupta desde 8 de setembro de 1961 (há quase precisamente 56 anos, portanto), é um número impressionante. Ainda por cima não se trata propriamente de contos; a grande maioria das publicações é constituída por obras com o tamanho de novela e também existem obras mais extensas. Mesmo que elas fossem todas péssimas, portanto, a relevância desta série seria inegável e é curioso (ou nem tanto) que ela nunca tenha conseguido captar as atenções do público português. Houve uma tentativa de publicação há algumas décadas, mas aparentemente não terá pegado, visto que a coleção depressa chegou ao fim.

No Brasil, pelo contrário, a série foi alvo de publicação regular durante bastantes anos e, embora esteja hoje relegada para publicação exclusivamente eletrónica e amadora, continua ainda a existir um conjunto de fãs bastante ativo.

Ora eu, como digo sempre que tenho oportunidade, estou bem longe de ser o maior dos apreciadores de literatura pulp, seja ela de ficção científica ou de outro género qualquer. Mas como esta série é relevante, quando tive a oportunidade de agarrar umas quantas edições brasileiras não a perdi. Esta A Abóbada Energética, de K. H. Scheer (um dos dois criadores do conceito), foi a minha primeira leitura, deliberadamente fora de ordem pois também queria avaliar quão legíveis são as histórias se lidas independentemente umas das outras, e as expetativas eram, confesso, as piores.

E não é que isto não é tão mau como isso?

Trata-se, obviamente, de ficção simples e aventuresca, juvenil, com um herói claro (mas mais ambíguo do que eu esperava). Mas também é um livrinho bem estruturado, que não cai na tentação de se resumir a cenas de pancadaria e muito pouco mais, tão comum nas obras pulp originárias dos EUA, e até com um fundo político razoavelmente interessante. O enredo conta-se em dois tempos. Perry Rhodan, o herói, terá em episódios anteriores tomado posse de uma nave alienígena que estaria estacionada na Lua e regressa à Terra, pousando sem autorização no deserto de Gobi, desencadeando com isso uma violenta tempestade diplomático-militar, não só entre as desavindas potências terrestres, como entre a Humanidade e os alienígenas que tinham construído a nave e não estão propriamente impressionados com o bom do Homo sapiens. Na verdade, estão tão mal impressionados que paira no ar a ameaça de extermínio. E quanto ao lado de cá, é o costume: perante uma coisa nova e assustadoramente poderosa, a resposta imediata é a ameaça de violência.

Só que a essa violência contrapõe o herói a abóbada energética do título, um escudo de energia praticamente impenetrável (pelo menos enquanto o gerador aguentar), e alguma habilidade estratégica que o leva a resolver pacificamente a questão. E não, não estou a fazer um grande spoiler: isto é pulp. Resolverem-se as coisas no final faz parte da receita básica.

O resultado é uma história de leitura rápida e agradável de que eu, para minha surpresa, gostei. Não muito, mas sim, gostei de ler este livrinho, que acho significativamente melhor do que muitos livros muito gabados de autores anglo-saxónicos como E. E. "Doc" Smith, Edmond Hamilton e outros. Isto não quer dizer que todas as obras da série o sejam, claro. Mas este livro em concreto surpreendeu-me pela positiva.

No que toca à outra parte do teste é que a porca torce o rabo. É que embora o livro se deixe ler de forma isolada, há demasiadas pontas que ficam soltas por faltar a leitura dos dois livros anteriores. Não sei se é sempre assim, pois a série subdivide-se em subséries (chamadas "ciclos") e pode ser que estas sejam razoavelmente independentes umas das outras, mas dentro de cada um dos ciclos os livros parecem formar uma sequência que se não exige pelo menos aconselha leitura contínua. Portanto, o próximo livro de Perry Rhodan que eu ler será o primeiro.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Lido: D. Pedro I e... Último

Por iniciativa de Rogério Amaral de Vasconcellos, o segundo universo partilhado mais longevo da ficção especulativa em língua portuguesa foi sendo desenvolvido no Brasil entre 2003 e 2005 (o primeiro é o da Intempol, também predominantemente brasileiro). A ideia base andava algures entre uma ficção científica mais ou menos ufológica e o misticismo: num contexto de universos paralelos, viagens no tempo e linhas históricas alternativas (ecos da Intempol?), uma entidade chamada Zelador abduzia indivíduos e com eles realizava experiências de alteração histórica. Chamava-se SLEV e foram publicados 29 ebooks em PDF, contendo ficções curtas que deverão ter dimensões entre a noveleta e a novela. Não sei com certeza porque só tive acesso a este D. Pedro I e... Último (bibliografia).

Nesta noveleta de Gabriel Bozano, carregada de ação e com uma pegada pulp muito evidente (o que, de resto, não deve ser caso único nesta série, bem pelo contrário), a intervenção alienígena vai alterar a história do Brasil mesmo no seu início enquanto estado independente quando aquele que na história verdadeira foi D. Pedro I, o primeiro imperador do Brasil, é abatido por uma arma de raios no preciso momento em que começa a dar o celebérrimo grito do Ipiranga. E como resultado surge uma linha histórica alternativa em que o Brasil se mantém colónia, sim, mas não de Portugal; da Inglaterra. Outro resultado é o desaparecimento do assassino; o primeiro paradoxo temporal a surgir na história... mas não o último.

Toma então a história uma feição bem próxima do steampunk clássico, pois de repente vemo-nos numa colónia inglesa em plena época vitoriana sem no entanto sairmos do Brasil, e até há tecnologias demasiado avançadas para a época e tudo. Aqui, o enredo torna-se ainda mais rocambolesco, envolvendo uma caçada a um pássaro gigante mais ou menos mitológico (parcialmente conduzida por pelo explorador Livingstone, nada menos), que não era bem o que parecia e a partir daí o enredo só fica mais enredado até ao fim.

Para quem gosta de histórias pulp rocambolescas, esta é um pratinho cheio. Apesar das múltiplas oportunidades para perder o fio à história, Bozano consegue amarrá-la razoavelmente bem e o final é realmente bom, rematando a história a contento e de uma forma puramente de ficção científica.

Mas nem tudo é satisfatório, por motivos objetivos e subjetivos. Pelo lado daqueles, a prosa não é a melhor, incluindo mesmo alguns erros dificilmente perdoáveis ("Há alguns metros dali", por exemplo), que demonstram a falta que faz uma revisão profissional, aqui inexistente, e incluindo também uma citação em inglês que devia ter sido passada por alguém que conhecesse bem a língua antes de ser publicada (e não, não é lá por haver escritores anglófonos de renome que estraçalham a língua portuguesa quando tentam usá-la que nós podemos pagar-lhes na mesma moeda). Os motivos subjetivos prendem-se com o meu gosto pessoal que, como quem me lê com regularidade sabe bem, não vai nada à bola com histórias pulp que não tenham qualquer coisa que as eleve acima do que é normal nessa forma de conceber ficções. Esta até tem, mas não chega. Ou por outra: chega para que eu não a classifique como uma má história, mas não chega para que a ache boa.

Este livro foi-me fornecido pelo autor.

Lido: A Lição de Inglês

Às vezes há contos enganadores. Ao abrir esta história de Maria Ondina Braga, de quem julgo só ter lido algumas histórias infantis na idade própria (e lembro-me vagamente de ter gostado) e um conto intitulado Estação Morta no ano passado, facilmente se julgaria estarmos perante uma história de terror. O ambiente está todo lá: noite escura e tempestuosa, telefonema misterioso vindo do nada, feito por uma mulher com umas tiradas que facilmente se poriam na conta de alguma espécie de fantasma ou demónio, por aí fora. Mas com o desenrolar do conto, essa impressão inicial vai-se desvanecendo no mundano de uma professora de inglês que é procurada por outra mulher que pretexta querer aprender a língua o quanto antes porque, ao que parece, houve um inglês que a fez sair da modorra insatisfatória de um casamento infeliz e a levou a querer partir para bem longe. A forma como Maria Ondina Braga vai tecendo os fios da narrativa dest'A Lição de Inglês é realmente boa, ainda que não seja difícil imaginar que um leitor particularmente apreciador das ficções sobrenaturais possa acabar por se sentir algo defraudado. Eu, que não sou grande fã de contos mundanos sobre relações amorosas, felizes ou infelizes, fiquei impressionado com essa faceta deste texto. Quanto ao resto, pareceu-me competente, mas não posso dizer que me tenha enchido as medidas. Questão de gosto pessoal.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Lido: Imaginários 1

Quando a Draco publicou em simultâneo este livrinho e o Imaginários 2 (que tem conto meu), certamente não estaria nos planos transformá-los numa série. No entanto, o sucesso comercial destas duas antologias levou a que fosse isso mesmo o que aconteceu, acabando por ser publicadas 5 entre 2009 e 2012. Fruto de uma iniciativa de Tibor Moricz, Saint-Clair Stockler e Eric Novello, todos eles escritores e todos com contos também no segundo volume (que inclui ainda histórias de mais três autores portugueses), que inicialmente era independente e só depois foi apoiada pela Draco, este Imaginários 1 (bibliografia) junta alguns dos autores mais relevantes da ficção especulativa brasileira, cada um em seu estilo, a dois ou três autores menos experientes.

O resultado é um pouco irregular, mas globalmente positivo. Farto-me de dizer que uma antologia vale a pena se incluir pelo menos um conto bom; pois esta inclui pelo menos dois contos excelentes, o da Martha Argel e o do Carlos Orsi, e vários outros contos entre o bom e o muito bom, acompanhados por alguns mais fracos. Vale, portanto, plenamente a pena.

Contrariamente ao que a capa poderia levar a crer, não se trata de uma antologia de fantasia. É uma antologia que contém fantasia, tal como contém ficção científica, horror e uma ou duas histórias mais difíceis de encaixotar. É variada, portanto, e também não tem tema comum. Há leitores que não gostam muito quando, num livro destes, cada conto é uma surpresa quase total, preferindo uma certa uniformidade temática ou de género. São gostos. Eu não me importo nada, desde que os contos sejam bons. E estes, na sua maioria, são. A antologia pode não ser mais que a soma das partes, o que por vezes acontece com as temáticas (o caso mais extremo é o desta antologia, muito mais do que a soma das partes) mas por vezes basta somar as partes para o resultado ser agradável. É o caso.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Este livro foi-me fornecido pela editora, em pagamento pelo meu conto publicado no Imaginários 2.

Lido: O Quarto

De Herberto Helder esta antologia apresenta O Quarto, um conto razoavelmente curto, com subtis elementos fantásticos e surreais, que consiste basicamente de um diálogo mais ou menos platónico no qual o protagonista explica à outra personagem que planos tem para a sua própria morte. É uma história que explora a ideia de raízes e, de certa forma, a velha noção cristã de que "do pó viemos, ao pó voltaremos." Não vale grandemente a pena escalpelizar aqui as ideias contidas no conto; elas ficam bastante claras com a leitura, com exceção das religiosas, que são contraditórias, pelo menos à superfície: o protagonista primeiro afirma que não acredita em nada para na página seguinte se afirmar religioso. Isso, no entanto, é secundário. O mais importante é que se trata aqui da morte e da espécie de morte em vida que são as crescentes limitações, por vezes autoimpostas, que nos vão sobrecarregando à medida que avançamos em idade. De raízes. Do chamamento da Terra a que acabaremos inevitavelmente por ceder. Não é um conto particularmente agradável de ler. Mas é daqueles contos que nos deixam a pensar, pelo menos até voltarmos a ser distraídos pelas campainhas multicoloridas do mundo moderno.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Lido: Nem Tudo é História

Depois de uma longa série de contos neorrealistas, ou pelo menos inspirados pelo neorrealismo, ao chegarmos à história de David Mourão-Ferreira encontramos algo de diferente. Nem Tudo é História é uma fantasia onírica, descrevendo uma rocambolesca série de peripécias que acontecem ao protagonista-narrador e a uma mulher que o acompanha "noites e noites a fio". Tudo muito carregado de imagens cinematográficas, repleto de metamorfoses e das mudanças surreais de cena em que os sonhos são pródigos. E tudo escrito e descrito de uma forma concreta e detalhada que lhe confere solidez, mesmo que o texto não desconheça a poesia, sendo a experiência de leitura temperada pelo elemento surpresa e pela interrogação sobre onde quererá o escritor chegar com tudo aquilo. Será apenas a descrição de um sonho, ou haverá por trás dessa superfície mais alguma coisa?

E então chega-se à penúltima página e descobre-se que sim, há mais alguma coisa. Há política, alguma, há um comentário sobre a forma como a História com maiúscula se interseta com as histórias pessoais de todos nós e há, no fundo, uma reflexão muito pertinente sobre a natureza da literatura, sobre os eternos ziguezagues que ela faz entre o inventado e o real. É um conto francamente interessante, este. E muito, muito bem escrito.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 30 de julho de 2017

Lido: E de Espaço

Ray Bradbury é geralmente visto como um escritor de ficção científica, mesmo quando o colocam num patamar algo especial entre os escritores de FC (há quem lhe chame, por exemplo, o poeta da FC). Essa designação tem o problema de poder levar o leitor pouco conhecedor a julgar que tudo na obra de Bradbury é ficção científica, o que está bastante longe de ser verdade. Bradbury escreveu FC, é certo, e as suas obras mais (re)conhecidas pertencem ao género (Fahrenheit 451, Crónicas Marcianas), mas escreveu também horror, tanto do verdadeiro como de uma espécie particular de horror doce, centrado na nostalgia da infância e nas brincadeiras de Halloween, que hoje provavelmente se incluiria na fantasia urbana, escreveu também fantasia, alguma da qual se fosse escrita mais tarde e por um escritor latino-americano receberia com toda a certeza o rótulo de realismo mágico, e escreveu também textos que pouca ou nenhuma relação têm com os vários géneros da ficção especulativa e geralmente se reúnem sob a designação de americana, muitas vezes juvenil. E escreveu muitas coisas que se situam algures entre estas várias vertentes da arte de criar histórias com palavras.

Pois este E de Espaço (bibliografia) é, apesar do título, um bom apanhado dessas várias vertentes da arte de contista de Bradbury. Não as mostra a todas, mas mostra a maior parte. Não procura reunir apenas os contos mais extraordinários do autor, mas inclui pelo menos um, talvez dois, a que soma um punhado de outros contos muito bons e muito poucos (talvez mesmo só um) contos abaixo do bom. Não será uma obra-prima mas é uma coletânea muito satisfatória, especialmente tendo-se em conta as datas de produção da maior parte destas histórias, o que permite captar os ecos que nelas existem da Segunda Guerra Mundial, a qual tinha decorrido poucos anos antes.

Sim, porque se é certo que a ficção científica e, em geral, todas as vertentes das literaturas do imaginário, são muitas vezes acusadas de serem escapistas, não é menos certo que essa é uma leitura extremamente superficial, pois o contexto em que são produzidas, seja histórico, seja político, seja mesmo literário ou editorial, marca-as com grande clareza para quem souber ler o que está abaixo da superfície. Mesmo quando as coisas pretendem de facto ser escapistas, contêm informação abundante sobre os contextos histórico e ideológico que são vistos pelos autores como tranquilizadores, o que, indiretamente, informa sobre o que encontram de perturbador nas circunstâncias de que pretendem ajudar a escapar.

E Bradbury não pretende ser escapista, bem pelo contrário.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:

Lido: Ode (Quase) Marítima

Aos moribundos, conta-nos o mito, passa-lhes a vida inteira perante os olhos nos momentos que antecedem a morte. É esse mito, parece, que inspirou Augusto Abelaira a escrever este solilóquio que intitulou de Ode (Quase) Marítima, no qual um homem, um velho, matuta sobre a vida que viveu enquanto o seu cérebro vai aparentemente sendo consumido por um derrame. Não foi texto que me tenha agradado por aí além. Em parte por isso mesmo, porque a ideia já está muito vista, porque solilóquios de moribundos existem aos pontapés na literatura. Em parte porque Abelaira usa aqui um estilo que com toda a franqueza me irrita, entrecortando o texto com uma quantidade apreciável de apartes entre parênteses cuja frequência, curiosamente, vai diminuindo para o fim da história, o que sugere que até ele se foi fartando. E em parte porque é história sem história, sem sombra de enredo, um longo fluxo de consciência, ou talvez de inconsciência, que poderia ser apelativo se ao menos me tivesse conseguido despertar alguma espécie de interesse pelo protagonista. Não conseguiu. Fica um bom tratamento da língua e pouco mais. Há leitores para quem isso basta. Há leitores, até, para quem isso é tudo. Não sou um desses leitores, nem dos primeiros nem muito menos dos segundos.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 29 de julho de 2017

Lido: Os Caminheiros

Os Caminheiros, de José Cardoso Pires, e apesar de nada ter de fantástico, é outro conto que me traz à memória as ficções científicas do Telmo Marçal. E não é difícil perceber porquê para quem leia estas e aquele: os caminheiros são gente mergulhada na mais profunda miséria, económica, sobretudo, mas também na miséria humana que a falta de recursos muitas vezes origina. O que aqui é descrito é a venda de um mendigo cego, que ganha a vida (as raspas dela que consegue ganhar, pelo menos) cantando modinhas acompanhadas à viola. Quem o vende é o companheiro de mendicidade, e vende-o com o mesmo tipo de atitude (e desespero) de quem vende uma peça de gado velha e doente. É um conto forte, este, muito baseado em diálogos que vão mostrando ao leitor, aos poucos, quem são e o que pensam as três personagens (o cego, o vendedor e mais tarde o comprador).

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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Lido: A Meia Hora de Sol

Em Portugal, antes do 25 de Abril, houve uma significativa atividade literária de resistência. Uma multiplicidade de autores produziram obras em que refletiam umas vezes mais diretamente, outras menos, o dia-a-dia de quem se opunha ao regime. Nesta antologia há várias dessas histórias e este A Meia Hora de Sol, de Urbano Tavares Rodrigues, é mais uma.

Neste conto, muito curto, a história que se conta é uma história de amor interrompido pela prisão. Urbano não o diz claramente, mas não é difícil adivinhar que é uma prisão política que obriga o casal a passar a comunicar esporadicamente por carta, sempre sujeita aos olhos da censura, e nas raras visitas que a mulher faz à cadeia. E isso, essa falta de privacidade, tem consequências, exacerbadas pela tendência humana para imaginar o que não se sabe e extrapolar a partir de informação insuficiente. Este é outro conto bom, ainda que me pareça demasiado curto para realmente causar impacto. A história depende da psicologia das personagens e esta é-nos dada a pinceladas que talvez sejam demasiado rápidas.

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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Lido: Filosofia Verde

Será muito estranho ler um conto de Agustina Bessa Luís, autora das mais reconhecidas pelos bem-pensantes literários, e lembrar-me dos ambientes do Telmo Marçal, cultor de uma das mais menorizadas facetas da literatura, a ficção científica? Se é, foi o que aconteceu com esta Filosofia Verde. Trata-se de um conto macabro, mas não é bem esse o motivo por que me trouxe à memória as ficções do Marçal. Essa evocação foi questão de protagonistas e de ambiente. Nesta história, aqueles são dois homens (principalmente um) que assumiram como ofício recolher vítimas de morte súbita que caiam fulminadas na rua, numa cidade sem nome mas perigosamente fria, tratando a morte e a degradação da sua própria condição com o mesmo à-vontade fatalista que os protagonistas de Marçal apresentam. Este é uma cidade tão assolada pela morte que permite a existência de quem ganhe a vida simplesmente ficando de atalaia à espera que alguém caia de repente sem vida na rua, contando depois com as recompensas que familiares imagina-se que chocados mas certamente gratos lhes darão. Trata-se de uma ideia inerentemente fantástica, com tudo a ver com as distopias absolutas que encontramos nas histórias do Telmo Marçal, embora Agustina não torne o facto explícito. É aí que as histórias mais divergem, e também no substrato ideológico que lhes subjaz, pois ao passo que Marçal nunca dá às suas criaturas quaisquer elemento de esperança, não encontra nada que redima as suas personagens, Agustina escreve, no fundo, sobre o valor da amizade mesmo nas piores circunstâncias. E também na qualidade da prosa, pois Marçal, sendo bom no manejo da língua, não chega no entanto perto de Agustina.

Dito isto, vou ter aqui uma decisão a tomar quando chegar a altura de integrar no Bibliowiki as histórias desta antologia: serão os elementos fantásticos neste conto suficientes para merecer inclusão? Felizmente é decisão que pode ficar para mais tarde. Para já, leva a etiqueta, mas mais para não me passar ao lado por distração do que por outro motivo. Depois decidirei em definitivo.

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quarta-feira, 26 de julho de 2017

Lido: Balada

De longe vem a tentação que assalta muitos escritores para escolherem falar de animais quando na realidade estão a falar de homens. É o que faz Mário Braga neste breve conto, apesar de não seguir pelo caminho mais comum da fábula mas pelo (neo?)realismo de um conto rural cujo protagonista é um pastor pobre. Ambientado na Serra de Queiró, agreste terra ficcional que lembra a terra fria trasmontana ou talvez as alturas da Estrela, Balada passa-se num inverno intenso, sem pasto, que faz as ovelhas do pastor definharem de fome. O contraste é feito com um rico local, cujo gado não passa necessidades independentemente das intempéries. Contraste de injustiça, naturalmente; que mal fizeram as ovelhas do protagonista para morrerem de fome quando as outras vivem sãs e anafadas? Não serão no fundo todas iguais? São estas as ideias que germinam na cabeça do pastor e o levam a tomar uma atitude. Da fome das ovelhas se fala falando da fome dos homens, e da forma como o que se faz para minorar essa fome corre sempre o risco de acabar traído, não pelos donos do poder, mas por outros homens igualmente miseráveis que, em vez de se unirem para acabar com as desigualdades, são lestos em apontar o dedo aos que violam as normas.

É um conto profundamente político, este, mesmo falando-se apenas de gado. Essa obliquidade era talvez uma necessidade no Portugal de 1948. Mas a verdade é que isso melhora a obra. O óbvio raramente é bom.

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terça-feira, 25 de julho de 2017

Lido: Os Corvos

Se lida de uma certa forma, esta pequena história de Carlos de Oliveira (de que julgo nunca antes ter lido nada) é um conto de horror, e as múltiplas citações, referências e reverências a Edgar Allan Poe que a percorrem de princípio ao fim provavelmente indicam que essa é a leitura certa. Entre o lirismo e a fantasmagoria, Os Corvos descreve uma casa de penhores e Lucas, o seu dono, com uma escrita de grande qualidade. Escrito em primeira pessoa, o conto quase não tem enredo. É daqueles contos que se dedicam a cristalizar um momento especial, ou pelo menos os derradeiros minutos ou segundos que nesse momento acabarão por desembocar. Que momento? Digamos só, para não estragar a surpresa de quem não for demasiado bom entendedor, que o narrador talvez não seja propriamente humano e talvez queira do bom (ou nem por isso) do Lucas algo bem diferente de um penhor. Algo que talvez fosse a última coisa que o Lucas quereria dar.

É mais um bom conto, este. Com apenas duas páginas talvez se pudesse julgá-lo demasiado curto, mas tem a dimensão certa para o que pretende contar.

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