Uma vida não é uma máquina. Prova disso é a minha, que a meio da leitura deste livro (e não só deste; não era o único que eu estava a ler nessa altura) resolveu encher-se de cambalhotas que levaram a que passasse a ler pouco ou nada e a ter passado longos meses sem lhe pegar. De todo. Isso teve um efeito curioso: quando voltei à leitura não me lembrava de quase nada do que tinha ficado para trás e tive de ir folhear umas quantas páginas para tentar perceber outra vez quem raio era aquele chato do Walser e o que andava a fazer ali. Não é vulgar: costumo ter uma memória bastante vívida daquilo que leio, pelo menos a médio prazo (a longo prazo a história é outra), bastando-me pegar num livro e recomeçar a lê-lo, mesmo depois de um mês de pausa, para me lembrar do que aconteceu até aí. Mas este foi uma exceção.
Isto, ao mesmo tempo que é sintoma de um certo desinteresse por esta história e por estas personagens, que senti do princípio ao fim, também é causa, pelo menos parcial, de alguma dificuldade para chegar ao substrato do romance. Talvez assim não fosse se já antes tivesse tido contacto com a escrita, os temas e a filosofia a eles subjacente de Gonçalo M. Tavares. Mas esta foi, ainda por cima, a primeira vez que li algo dele, portanto era tudo novo para mim. Mas vamos por partes.
A Máquina de Joseph Walser passa-se num país não identificado da Europa Central, por alturas de uma guerra também não identificada mas com todo o ar de ser a primeira ou a segunda das mundiais. O protagonista, Joseph Walser, é um chato. Um indivíduo miudinho, repleto de rotinas e banalidades mesmo naquilo em que é excêntrico. Trabalha numa fábrica, a controlar uma máquina, também ela misteriosa porque nunca se chega a saber para que serve e o que faz. Além disso tem uma coleção de pequenas peças mecânicas, que analisa, mede e classifica com meticulosidade mecânica. E tem um jogo semanal de cartas com os amigos (amigos?). E tem uma mulher, que obviamente não ama porque é pessoa alheia a essa coisa estranha chamada sentimento. Tudo muito organizadinho. Teutonicamente organizadinho. Ja.
O orabolas da coisa é que às tantas rebenta uma guerra e a cidade do bom do Walser é ocupada, o que lhe vai perturbar as rotinas. Chatice com consequências, até para a sua integridade física, até para a integridade do seu casamento.
Tudo isto (que na verdade não é muito) escrito com uma prosa enxuta e de qualidade, capítulos curtos divididos em subcapítulos que por vezes nem uma página ocupam. Não fiz as contas, mas não me surpreenderia se esta obra nem chegasse às 40 mil palavras que nas convenções dos prémios de FC separam as novelas dos romances. E esta teia de brevidades é boa, pelo menos para mim: é o que faz com que, apesar do desinteresse no chato do Walser e na história dele, da sua máquina e das suas manias, o livro acabe por se deixar ler bem. Apesar do desinteresse e do desagrado que me causa um certo ludismo que me pareceu encontrar em Tavares, uma ideia de que é na máquina que reside a raiz de todas as desumanizações, da guerra às traições domésticas, passando pelas políticas, uma ideia de que a tecnologia é, no fundo, coisa daninha, coisa que subverte a condição humana.
Esses desinteresse e desagrado são os principais motivos para esta não ter sido leitura que me tenha agradado por aí além. Tavares é um bom narrador mas isso não me chega, e este livro deixou-me basicamente indiferente. Mas não posso deixar de reconhecer que é inteiramente possível que as vicissitudes pessoais que acompanharam esta leitura sejam um fator relevante para esta opinião menos favorável. Posso simplesmente ter lido este livro em má altura. Acontece.
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segunda-feira, 16 de abril de 2018
quarta-feira, 11 de abril de 2018
Lido: Além do Tempo e do Espaço
Há quem pense que as antologias de ficção científica são moda recente e as olhe de soslaio, entre a desconfiança e a rejeição devidas às manobras editoriais pouco claras. Mas quem assim pensa engana-se redondamente, pois a verdade é que as antologias de FC são desde há muito tempo uma das formas mais utilizadas para dar a conhecer novos autores ao público apreciador do género e/ou para apresentar apanhados da produção no género durante um determinado período. E este Além do Tempo e do Espaço faz disso boa prova.
Publicada no Brasil há mais de meio século, no já algo longínquo ano de 1965, e sem apresentar informação sobre quem terá sido responsável pela edição e seleção de contos e autores, esta é uma antologia de FC bastante típica da realidade lusófona, agregando histórias muito díspares em termos de temática e qualidade. A par de alguns contos excelentes (na verdade, alguns são tão bons que me surpreenderam bastante, ultrapassando de longe qualquer coisa que eu conheça e tenha sido produzida em Portugal até essa época), inclui não só outros que não passam do fraco ou do razoável como até dois ou três realmente maus.
Não sendo uma antologia temática, não havendo portanto nenhuma unidade temática ou estilística entre os contos que a constituem, não é nem melhor nem pior do que a soma destes. E eles, variando como variam entre o ótimo e o péssimo, transformam-na numa antologia mediana, ainda que situada na parte mais elevada desse intervalo. Mas é, julgo eu, um bom retrato da FC que se produziu no Brasil até aos anos 60 do século passado (estão aqui incluídos contos criados desde os anos 40, pelo menos, portanto não reúne apenas a produção contemporânea), e esse tipo de apanhado é sempre útil e interessante em si mesmo. O que é pena, na verdade, é ser tão raro entre nós. Uma publicação regular, editada de x em x anos, das melhores histórias de FC produzidas nos países de língua portuguesa, seja isolados, seja em conjunto, seria de toda a utilidade. Mas ninguém parece muito interessado nisso, infelizmente.
Seja como for, e como eu digo sempre, basta que uma publicação (antologia, revista, etc.) inclua pelo menos um conto muito bom ou dois ou três bons para que a sua publicação valha plenamente a pena. E é o caso desta, sem qualquer dúvida. Histórias como Água de Nagasáqui, Da Mayor Speriencia ou O Elo Perdido são histórias que mereceriam maior divulgação e ser conhecidas por mais gente. Mereciam ser republicadas com alguma regularidade para chegarem a novas gerações de leitores. São boas o suficiente para isso. E mais que bastam para justificar este livro.
Eis o que achei dos contos individualmente considerados
Publicada no Brasil há mais de meio século, no já algo longínquo ano de 1965, e sem apresentar informação sobre quem terá sido responsável pela edição e seleção de contos e autores, esta é uma antologia de FC bastante típica da realidade lusófona, agregando histórias muito díspares em termos de temática e qualidade. A par de alguns contos excelentes (na verdade, alguns são tão bons que me surpreenderam bastante, ultrapassando de longe qualquer coisa que eu conheça e tenha sido produzida em Portugal até essa época), inclui não só outros que não passam do fraco ou do razoável como até dois ou três realmente maus.
Não sendo uma antologia temática, não havendo portanto nenhuma unidade temática ou estilística entre os contos que a constituem, não é nem melhor nem pior do que a soma destes. E eles, variando como variam entre o ótimo e o péssimo, transformam-na numa antologia mediana, ainda que situada na parte mais elevada desse intervalo. Mas é, julgo eu, um bom retrato da FC que se produziu no Brasil até aos anos 60 do século passado (estão aqui incluídos contos criados desde os anos 40, pelo menos, portanto não reúne apenas a produção contemporânea), e esse tipo de apanhado é sempre útil e interessante em si mesmo. O que é pena, na verdade, é ser tão raro entre nós. Uma publicação regular, editada de x em x anos, das melhores histórias de FC produzidas nos países de língua portuguesa, seja isolados, seja em conjunto, seria de toda a utilidade. Mas ninguém parece muito interessado nisso, infelizmente.
Seja como for, e como eu digo sempre, basta que uma publicação (antologia, revista, etc.) inclua pelo menos um conto muito bom ou dois ou três bons para que a sua publicação valha plenamente a pena. E é o caso desta, sem qualquer dúvida. Histórias como Água de Nagasáqui, Da Mayor Speriencia ou O Elo Perdido são histórias que mereceriam maior divulgação e ser conhecidas por mais gente. Mereciam ser republicadas com alguma regularidade para chegarem a novas gerações de leitores. São boas o suficiente para isso. E mais que bastam para justificar este livro.
Eis o que achei dos contos individualmente considerados
sexta-feira, 30 de março de 2018
Lido: Acho que Posso Ajudar
Conto após conto, esta coleção de contos digitais publicada pelo DN e pela Escrit'orio foi reduzindo a expetativa para o seguinte, à medida que, depois da agradável surpresa inicial com a do JP Simões, se foram sucedendo histórias que no melhor dos casos me mereceram uma encolhedela de ombros de indiferença, fazendo prever que a qualidade média iria deixar muito a desejar.
Eis senão quando me aparece à frente este Acho que Posso Ajudar, de mais um autor que nunca tinha lido, David Machado. E eu fiquei feliz, porque é o segundo conto realmente bom deste conjunto. Ainda por cima dificilmente podia ser mais diferente do primeiro.
Enquanto o conto de JP Simões é adulto até à medula, David Machado apresenta um conto infantil concebido em jeito de conto popular (e muito bem ilustrado por Mafalda Milhões, com ilustrações que por vezes são animadas, aproveitando assim da melhor forma as potencialidades da publicação eletrónica), completo com elementos de lengalenga e tudo. A história é sobre um rapaz de oito anos que tenta ajudar a avó, a qual tinha um problema: queria sair à rua mas não podia porque o vento lhe iria de certeza destruir o novo penteado. O que fazer? Ora, basta armar uma armadilha ao vento e depois trancá-lo num barracão, claro.
Só que esse ato original de auxílio e resolução de um problema vai causar uma catadupa de outros problemas, os quais o rapaz vai ter de resolver, não só porque gosta de ajudar mas também porque se sente responsável por os ter gerado. A história acaba convoluta, metendo monstros, balões, nuvens, bruxas e mais uma série de outras coisas, mas tão bem escrita, com um ritmo tão perfeito, que tudo parece estar no lugar que lhe é próprio, sem tirar nem pôr.
E é precisamente essa a mensagem que David Machado pretende transmitir: a de que todas as coisas têm o lugar que lhes é próprio, e qualquer tentativa para as manipular, por mais bem intencionada que seja, acaba por causar uma série de consequências indesejadas, para as quais será depois necessário encontrar respostas. E transmite essa ideia com total clareza sem para isso ter a necessidade de a esfregar na cara do leitor, o que só sublinha a qualidade da obra.
(Já agora, em relação à moral da história, eu concordo e discordo: concordo porque sim, é absoluta verdade que mexer em equilíbrios delicados pode redundar em desastre, mas discordo porque não, a resposta não é remeter-nos à inação e à promoção da imutabilidade das coisas. Porque elas, as coisas, mudam sempre, queiramos ou não; é essa a natureza do Universo, é assim que funciona tudo isto que nos rodeia e constitui: através da permanente mudança. A resposta tem de ser, portanto, a ação informada, porque só a informação e o conhecimento, só sabermos o melhor possível o que estamos a fazer, é capaz de reduzir a possibilidade de causarmos algum desastre com o que fizermos. Ou com o que deixarmos por fazer, pois também a inação pode ter consequências desastrosas.)
Fim de parêntesis que mostra que este conto, além de tudo o mais, ainda por cima convida à reflexão. O que mais lhe poderíamos pedir? Este é mesmo um conto francamente bom.
Eis senão quando me aparece à frente este Acho que Posso Ajudar, de mais um autor que nunca tinha lido, David Machado. E eu fiquei feliz, porque é o segundo conto realmente bom deste conjunto. Ainda por cima dificilmente podia ser mais diferente do primeiro.
Enquanto o conto de JP Simões é adulto até à medula, David Machado apresenta um conto infantil concebido em jeito de conto popular (e muito bem ilustrado por Mafalda Milhões, com ilustrações que por vezes são animadas, aproveitando assim da melhor forma as potencialidades da publicação eletrónica), completo com elementos de lengalenga e tudo. A história é sobre um rapaz de oito anos que tenta ajudar a avó, a qual tinha um problema: queria sair à rua mas não podia porque o vento lhe iria de certeza destruir o novo penteado. O que fazer? Ora, basta armar uma armadilha ao vento e depois trancá-lo num barracão, claro.
Só que esse ato original de auxílio e resolução de um problema vai causar uma catadupa de outros problemas, os quais o rapaz vai ter de resolver, não só porque gosta de ajudar mas também porque se sente responsável por os ter gerado. A história acaba convoluta, metendo monstros, balões, nuvens, bruxas e mais uma série de outras coisas, mas tão bem escrita, com um ritmo tão perfeito, que tudo parece estar no lugar que lhe é próprio, sem tirar nem pôr.
E é precisamente essa a mensagem que David Machado pretende transmitir: a de que todas as coisas têm o lugar que lhes é próprio, e qualquer tentativa para as manipular, por mais bem intencionada que seja, acaba por causar uma série de consequências indesejadas, para as quais será depois necessário encontrar respostas. E transmite essa ideia com total clareza sem para isso ter a necessidade de a esfregar na cara do leitor, o que só sublinha a qualidade da obra.
(Já agora, em relação à moral da história, eu concordo e discordo: concordo porque sim, é absoluta verdade que mexer em equilíbrios delicados pode redundar em desastre, mas discordo porque não, a resposta não é remeter-nos à inação e à promoção da imutabilidade das coisas. Porque elas, as coisas, mudam sempre, queiramos ou não; é essa a natureza do Universo, é assim que funciona tudo isto que nos rodeia e constitui: através da permanente mudança. A resposta tem de ser, portanto, a ação informada, porque só a informação e o conhecimento, só sabermos o melhor possível o que estamos a fazer, é capaz de reduzir a possibilidade de causarmos algum desastre com o que fizermos. Ou com o que deixarmos por fazer, pois também a inação pode ter consequências desastrosas.)
Fim de parêntesis que mostra que este conto, além de tudo o mais, ainda por cima convida à reflexão. O que mais lhe poderíamos pedir? Este é mesmo um conto francamente bom.
segunda-feira, 26 de março de 2018
Lido: A Cerimónia
Nunca tinha ouvido falar de João Bonifácio antes de pegar neste conto, uma parede de texto contínua que preenche todas as (abençoadamente escassas) páginas que ele ocupa, efeito contra o qual nada tenho, por princípio, até porque pode ser usado com grande eficácia para transmitir uma impressão de torrencialidade de discurso, de urgência, de sufoco, mas que neste A Cerimónia depressa se torna muitíssimo cansativo, para não dizer chato, porque, parece-me, a história não tem interesse algum e portanto nada existe que leve o leitor a ter gosto em fazer o esforço de leitura acrescido a que o artifício obriga.
Trata-se no fundamental de um estudo de personagem, e de uma personagem razoavelmente desaparafusada, muito burguesa mas aparentemente endividada, que procura convencer alguém a aceitar um disco como pagamento dessas dívidas. Mas um disco cujo valor é sentimental e portanto íntimo, o que não faz sentido nenhum a não ser para si própria. Isto no meio de um denso matagal de apartes e parêntesis e que de repente acaba sem
E aquilo que fica ao terminar a leitura é um redondo meh. OK, a língua portuguesa não sai disto maltratada, 'tá certo que há alguma ironia, crítica social e etc. e tal, mas no fundo... meh. É um exercício de estilo, do parágrafo único ao final interrompido, daqueles que têm bastante mais interesse para quem os faz do que para quem os lê, e eu, estando do lado de cá da leitura, solto um meh e depressa o esqueço.
É mau? Não, não creio que seja. Mas coisas destas, para realmente resultarem, precisam de histórias fortes, de histórias que causem verdadeiro impacto. E esta está muito, muito longe de a ter. Por conseguinte, é simplesmente esquecível.
Trata-se no fundamental de um estudo de personagem, e de uma personagem razoavelmente desaparafusada, muito burguesa mas aparentemente endividada, que procura convencer alguém a aceitar um disco como pagamento dessas dívidas. Mas um disco cujo valor é sentimental e portanto íntimo, o que não faz sentido nenhum a não ser para si própria. Isto no meio de um denso matagal de apartes e parêntesis e que de repente acaba sem
E aquilo que fica ao terminar a leitura é um redondo meh. OK, a língua portuguesa não sai disto maltratada, 'tá certo que há alguma ironia, crítica social e etc. e tal, mas no fundo... meh. É um exercício de estilo, do parágrafo único ao final interrompido, daqueles que têm bastante mais interesse para quem os faz do que para quem os lê, e eu, estando do lado de cá da leitura, solto um meh e depressa o esqueço.
É mau? Não, não creio que seja. Mas coisas destas, para realmente resultarem, precisam de histórias fortes, de histórias que causem verdadeiro impacto. E esta está muito, muito longe de a ter. Por conseguinte, é simplesmente esquecível.
domingo, 25 de março de 2018
Lido: Pulp Feek, nº 1
Tempos houve em que, por limitações de espaço, e numa tentativa de fidelizar leitores pagantes, as publicações comerciais ligadas à ficção científica e à fantasia tinham por norma incluir entre os contos completos que publicavam algumas histórias mais extensas (geralmente novelas longas ou pequenos romances) subdivididas em várias partes publicadas em números sucessivos. Era compreensível que assim fosse: para lá da já referida questão da fidelização, essa era a única forma de publicar essas histórias mais extensas em revistas com um número padronizado de páginas que por um lado era frequente serem menos do que as necessárias para a publicação da história completa e por outro dificilmente alguém arriscaria ocupar todas (ou quase) com uma só história, por receio de desagradar demasiado aos leitores que dela não gostassem.
Estes fatores compensavam claramente o principal problema desta abordagem: a chatice que era para os leitores (e para os autores, diga-se) ficarem com histórias incompletas nas mãos, tendo de esperar um mês ou mais pela continuação (ou para sempre se a publicação fechasse, o que era sempre uma possibilidade a ter em conta). Ou apanhando as histórias a meio se por acaso calhassem comprar pela primeira vez uma revista a meio de uma publicação dessas.
Mas se isto se compreende nas publicações comerciais em papel, já me custa perceber o que leva alguém a apostar nesta forma de edição quando a publicação em questão é um ficheiro digital, que por definição não tem limitações físicas, muito em especial quando, ainda por cima, é distribuído gratuitamente na internet. Com toda a certeza, a mera procura de fidelização não compensa os incómodos que a prática origina.
Já perceberam que foi isso mesmo o que se fez nesta Pulp Feek, nº 1, não é verdade? Pois. Não só foi isso o que se fez no número 1, como essa é praticamente toda a proposta da publicação, a par com a abordagem pulp às histórias (isto não é bem verdade, mas por agora fica assim porque para explicar o resto é melhor esperar pela leitura e comentário ao nº 2). Este número da publicação, dedicado à fantasia épica e espada e magia, é constituído por dois inícios de duas histórias, por um conto completo e não muito extenso e por dois artigos. Ah, e um texto que não se assume como editorial mas funciona como tal. Nada mais.
Não falarei dos inícios das histórias para além de dizer que a língua portuguesa não sai deles lá muito bem tratada: o início de uma história pode fornecer pistas para o que a história será quando completa, certamente, mas a obra só é realmente obra quando está completa. O conto completo? É fraco, opinião que desenvolvo mais no texto que lhe dediquei (ver mais abaixo). E quanto aos artigos, são artigos de caráter didático sobre escrita criativa e sobre o que é, ao certo, o pulp, claramente dirigidos à formação de autores iniciantes, o que é bastante interessante. O outro lado da moeda, claro, é o foco ser a escrita de ficções mais ou menos pulp, como não poderia deixar de ser dada a abordagem da iniciativa. Ora, a minha opinião sobre o pulp é bem conhecida por qualquer pessoa que leia o que aqui escrevo com alguma regularidade. Apesar disso, os artigos são a parte mais interessante desta publicação... o que também dá uma ideia da opinião com que fiquei a respeito dos dois inícios de história.
Ou seja, saí desta leitura muito longe de estar satisfeito. Na verdade, quem leu o balanço do ano de 2017 já sabe que esta foi a minha pior leitura do ano. Pois. Está tudo dito, não está? Não gostei da ficção, não gosto da abordagem e não me parece que o estilo de publicação faça grande sentido no contexto da publicação digital.
E aqui está o que achei do único conto completo:
Estes fatores compensavam claramente o principal problema desta abordagem: a chatice que era para os leitores (e para os autores, diga-se) ficarem com histórias incompletas nas mãos, tendo de esperar um mês ou mais pela continuação (ou para sempre se a publicação fechasse, o que era sempre uma possibilidade a ter em conta). Ou apanhando as histórias a meio se por acaso calhassem comprar pela primeira vez uma revista a meio de uma publicação dessas.
Mas se isto se compreende nas publicações comerciais em papel, já me custa perceber o que leva alguém a apostar nesta forma de edição quando a publicação em questão é um ficheiro digital, que por definição não tem limitações físicas, muito em especial quando, ainda por cima, é distribuído gratuitamente na internet. Com toda a certeza, a mera procura de fidelização não compensa os incómodos que a prática origina.
Já perceberam que foi isso mesmo o que se fez nesta Pulp Feek, nº 1, não é verdade? Pois. Não só foi isso o que se fez no número 1, como essa é praticamente toda a proposta da publicação, a par com a abordagem pulp às histórias (isto não é bem verdade, mas por agora fica assim porque para explicar o resto é melhor esperar pela leitura e comentário ao nº 2). Este número da publicação, dedicado à fantasia épica e espada e magia, é constituído por dois inícios de duas histórias, por um conto completo e não muito extenso e por dois artigos. Ah, e um texto que não se assume como editorial mas funciona como tal. Nada mais.
Não falarei dos inícios das histórias para além de dizer que a língua portuguesa não sai deles lá muito bem tratada: o início de uma história pode fornecer pistas para o que a história será quando completa, certamente, mas a obra só é realmente obra quando está completa. O conto completo? É fraco, opinião que desenvolvo mais no texto que lhe dediquei (ver mais abaixo). E quanto aos artigos, são artigos de caráter didático sobre escrita criativa e sobre o que é, ao certo, o pulp, claramente dirigidos à formação de autores iniciantes, o que é bastante interessante. O outro lado da moeda, claro, é o foco ser a escrita de ficções mais ou menos pulp, como não poderia deixar de ser dada a abordagem da iniciativa. Ora, a minha opinião sobre o pulp é bem conhecida por qualquer pessoa que leia o que aqui escrevo com alguma regularidade. Apesar disso, os artigos são a parte mais interessante desta publicação... o que também dá uma ideia da opinião com que fiquei a respeito dos dois inícios de história.
Ou seja, saí desta leitura muito longe de estar satisfeito. Na verdade, quem leu o balanço do ano de 2017 já sabe que esta foi a minha pior leitura do ano. Pois. Está tudo dito, não está? Não gostei da ficção, não gosto da abordagem e não me parece que o estilo de publicação faça grande sentido no contexto da publicação digital.
E aqui está o que achei do único conto completo:
sexta-feira, 23 de março de 2018
Lido: A Casa do Eremita
Há já longos anos li um livro português que roçava pela ficção científica, visto passar-se num futuro razoavelmente distante, mas na realidade era uma alegoria com umas roupagens vagamente ciencioficcionais. Chamava-se esse livro, uma novela, A Cidade da Luz, e mostrava num Portugal invertido com capital na Cidade da Luz, uma espécie de Aldeia da Luz sob o efeito de esteroides, não aquela que foi submergida pelo reservatório do Alqueva, mas a que foi reconstruída a uma cota mais elevada.
Não gostei, como facilmente compreenderá quem for dar à opinião que na altura escrevi para o velho e-nigma.
Opinião publicada, e José Murta Lourenço, o autor, contactou-me para, além de corrigir uma imprecisão no meu texto, me perguntar se podia enviar-me um outro livro seu, para que eu o lesse e sobre ele opinasse. Disse-lhe que podia enviar-mo e eu o leria quando tivesse oportunidade, mas atenção, pois era provável que demorasse algum tempo, talvez anos. Murta Lourenço não se deixou intimidar e este A Casa do Eremita lá me chegou à caixa de correio, após o que foi parar ao fundo de uma das minhas pilhas de livros para ler, em parte por puro acaso, em parte porque a leitura do primeiro livro, de facto, não me deixou com muita vontade de voltar a experimentar as prosas do autor (nem de voltar a escrever uma opinião tão negativa como a que está no e-nigma e seria inevitável se voltasse a não gostar).
Passaram-se os anos e a pilha em que estava A Casa do Eremita foi sendo lida aos poucos e poucos. De profundamente soterrado, este livro chegou quase à superfície e por fim, por descargo de consciência e porque queria perceber se o livro também teria lugar no Bibliowiki, peguei mesmo nele para o ler. Sem grandes expetativas.
E fiquei agradavelmente surpreendido.
A prosa continua a não ser perfeita, é certo. Não há em Murta Lourenço aquela precisão linguística que faz as delícias de quem se interessa por literatura, especialmente pela sua vertente mais realista. Mas esta é uma obra significativamente mais bem construída, mais complexa e até mais divertida do que A Cidade da Luz. Trata-se, no essencial, de um romance histórico, desenvolvido em dois tempos diferentes. Um, o inicial, é o presente, ou um passado recente, no qual um tal Viriato chega a um velho casarão abandonado e dele toma posse, começando lentamente a investigá-lo e recuperá-lo. Trata-se da Casa do Eremita do título, o qual está bem escolhido pois é essa casa que liga o tempo de Viriato a um outro tempo mais antigo, em meados do século, no qual é narrada a história da família que mandou construir a casa, por entre breves (ou nem tanto) regressos ao tempo de Viriato para irmos acompanhando o que ele anda a fazer e a forma como se vai integrando na sociedade da região.
Mas é de facto a parte histórica que predomina, não só em extensão mas também em conteúdo. Somos apresentados à família, uma família burguesa e bem comportada, apesar das suas excentricidades artísticas. O filho da família faz-se engenheiro e, depois de um período a trabalhar em Lisboa, parte para Angola, onde as condições coloniais e a forma como as populações indígenas são tratadas vão causar um despertar da consciência política em vários dos membros da família. Talvez não total, pois já antes de partirem para África tinha havido contactos e desagrados com as injustiças sociais em Portugal, mas pelo menos um despertar mais rápido. A partir desse momento, a história ganha contornos mais trágicos e ligações à luta antifascista, onde a presença do Partido Comunista é quase sempre subtil mas existente, intercaladas por muito corrosivas (e por vezes bastante divertidas) bocas do autor a Salazar e aos seus acólitos.
O resultado é um livro bastante interessante. Está longe de ser um livro perfeito, talvez até nem seja propriamente um livro bom, mas também está longe de ser um mau livro. É um livro razoável, cuja leitura acabou por me agradar, contrariamente aos receios que eu tinha ao começar, e mesmo prejudicada por uma encadernação que é daquelas que se desfazem com um sopro, coisa de que o autor não é culpado mas vítima.
E quanto à questão que contribuiu para esta leitura, se desta vez José Murta Lourenço escreveu algo que tenha lugar no Bibliowiki, a resposta é não.
Não gostei, como facilmente compreenderá quem for dar à opinião que na altura escrevi para o velho e-nigma.
Opinião publicada, e José Murta Lourenço, o autor, contactou-me para, além de corrigir uma imprecisão no meu texto, me perguntar se podia enviar-me um outro livro seu, para que eu o lesse e sobre ele opinasse. Disse-lhe que podia enviar-mo e eu o leria quando tivesse oportunidade, mas atenção, pois era provável que demorasse algum tempo, talvez anos. Murta Lourenço não se deixou intimidar e este A Casa do Eremita lá me chegou à caixa de correio, após o que foi parar ao fundo de uma das minhas pilhas de livros para ler, em parte por puro acaso, em parte porque a leitura do primeiro livro, de facto, não me deixou com muita vontade de voltar a experimentar as prosas do autor (nem de voltar a escrever uma opinião tão negativa como a que está no e-nigma e seria inevitável se voltasse a não gostar).
Passaram-se os anos e a pilha em que estava A Casa do Eremita foi sendo lida aos poucos e poucos. De profundamente soterrado, este livro chegou quase à superfície e por fim, por descargo de consciência e porque queria perceber se o livro também teria lugar no Bibliowiki, peguei mesmo nele para o ler. Sem grandes expetativas.
E fiquei agradavelmente surpreendido.
A prosa continua a não ser perfeita, é certo. Não há em Murta Lourenço aquela precisão linguística que faz as delícias de quem se interessa por literatura, especialmente pela sua vertente mais realista. Mas esta é uma obra significativamente mais bem construída, mais complexa e até mais divertida do que A Cidade da Luz. Trata-se, no essencial, de um romance histórico, desenvolvido em dois tempos diferentes. Um, o inicial, é o presente, ou um passado recente, no qual um tal Viriato chega a um velho casarão abandonado e dele toma posse, começando lentamente a investigá-lo e recuperá-lo. Trata-se da Casa do Eremita do título, o qual está bem escolhido pois é essa casa que liga o tempo de Viriato a um outro tempo mais antigo, em meados do século, no qual é narrada a história da família que mandou construir a casa, por entre breves (ou nem tanto) regressos ao tempo de Viriato para irmos acompanhando o que ele anda a fazer e a forma como se vai integrando na sociedade da região.
Mas é de facto a parte histórica que predomina, não só em extensão mas também em conteúdo. Somos apresentados à família, uma família burguesa e bem comportada, apesar das suas excentricidades artísticas. O filho da família faz-se engenheiro e, depois de um período a trabalhar em Lisboa, parte para Angola, onde as condições coloniais e a forma como as populações indígenas são tratadas vão causar um despertar da consciência política em vários dos membros da família. Talvez não total, pois já antes de partirem para África tinha havido contactos e desagrados com as injustiças sociais em Portugal, mas pelo menos um despertar mais rápido. A partir desse momento, a história ganha contornos mais trágicos e ligações à luta antifascista, onde a presença do Partido Comunista é quase sempre subtil mas existente, intercaladas por muito corrosivas (e por vezes bastante divertidas) bocas do autor a Salazar e aos seus acólitos.
O resultado é um livro bastante interessante. Está longe de ser um livro perfeito, talvez até nem seja propriamente um livro bom, mas também está longe de ser um mau livro. É um livro razoável, cuja leitura acabou por me agradar, contrariamente aos receios que eu tinha ao começar, e mesmo prejudicada por uma encadernação que é daquelas que se desfazem com um sopro, coisa de que o autor não é culpado mas vítima.
E quanto à questão que contribuiu para esta leitura, se desta vez José Murta Lourenço escreveu algo que tenha lugar no Bibliowiki, a resposta é não.
sábado, 10 de março de 2018
Lido: Antologia Fénix I
No rarefeito mundo da ficção especulativa portuguesa volta e meia surgem antologias temáticas em que aos autores é proposto que desenvolvam à sua maneira o tema x ou y. Há quem lhes torça um pouco o nariz, preferindo que aos autores seja dada a liberdade de proporem para publicação a melhor história que conseguirem escrever, independentemente do tema, mas creio que são mais os que as preferem, com base na ideia de que um livro (físico ou eletrónico, pouco importa) multiautoral que disponha de alguma unidade temática tem condições para ser mais interessante do que um que não a tenha. Eu não concordo nem com uns nem com os outros: acho que, salvo casos particulares em que o projeto é tão específico que fica indiscutivelmente maior do que a soma das partes (caso da antologia sobre a pulp fiction portuguesa, ou do universo partilhado construído em volta das histórias do João Barreiros inspiradas por Lisboa no Ano 2000 de Melo de Matos) tudo depende dos contos em si: se estes são bons, o resultado é bom; se não são...
Este primeiro volume da Antologia Fénix, organizado por Marcelina Gama Leandro e Álvaro de Sousa Holstein, teve dois pontos explícitos de limitação: as histórias tinham de ser elaboradas em volta dos livros e não podiam ultrapassar o tamanho de vinheta, embora houvesse uma certa flexibilidade (João Ventura, por exemplo, apresentou um conjunto de três minicontos). O género era livre, dentro dos parâmetros da ficção especulativa, e há contos de fantasia, ficção científica, terror (ou algo de semelhante) e fantástico mais todoroviano.
Como sempre acontece em compilações multiautorais de histórias (e até nas de um só autor), a qualidade destas é variável, mas pode-se dizer em seu favor que não há nenhuma que seja decididamente má, o que é mais do que algumas antologias publicadas em papel por editoras profissionais se podem gabar. Há algumas histórias fracas, ou bastante fracas (em especial a de Manuel Mendonça), mas situam-se mais no campo do medíocre do que no do mau. Por outro lado, também não há obras-primas e as histórias realmente boas são escassas. Mas existem, e entre elas destacaria as de Raquel da Cal, de Inês Montenegro, de Diana Sousa e, talvez, de Ana C. Nunes, embora a maior parte destas quatro histórias pouco acima esteja de um conjunto de outras seis ou sete no que toca à qualidade. Curiosamente, as autoras são todas mulheres. É absoluta coincidência esta opinião (muito atrasada) sair logo depois do 8 de Março, mas calhou bem.
No que toca aos passos em falso, há várias histórias que falham por a ambição da ideia se adequar mal à dimensão exigida para os contos. Não foram nem duas nem três as que exigiriam uma extensão maior (e por vezes muito maior) para os autores poderem realmente explorar as ideias a contento. Sintoma de falta de hábito e inexperiência na escrita de ficção ultracurta, parece-me, ou talvez, em certos casos, de falta de tempo para arranjarem ideias mais apropriadas; afinal, os próprios organizadores admitem na introdução que o prazo concedido foi curto. Essa inexperiência resolver-se-ia com o tempo, caso houvesse lugares para publicação regular deste tipo de ficções (e de outras mais extensas) e algo muitíssimo importante: mais leitores dispostos a fazer leituras críticas e com capacidade para as fazer. Mas aparentemente não temos nada disso, portanto a inexperiência só poderá agravar-se. É pena. Há aqui autores com potencial que assim, muito provavelmente, nunca conseguirão desenvolvê-lo.
E quanto a apreciação geral é tudo o que tenho a dizer. Eis agora o que achei das histórias individualmente consideradas, exceto uma, sobre a qual não opinei:
Este primeiro volume da Antologia Fénix, organizado por Marcelina Gama Leandro e Álvaro de Sousa Holstein, teve dois pontos explícitos de limitação: as histórias tinham de ser elaboradas em volta dos livros e não podiam ultrapassar o tamanho de vinheta, embora houvesse uma certa flexibilidade (João Ventura, por exemplo, apresentou um conjunto de três minicontos). O género era livre, dentro dos parâmetros da ficção especulativa, e há contos de fantasia, ficção científica, terror (ou algo de semelhante) e fantástico mais todoroviano.
Como sempre acontece em compilações multiautorais de histórias (e até nas de um só autor), a qualidade destas é variável, mas pode-se dizer em seu favor que não há nenhuma que seja decididamente má, o que é mais do que algumas antologias publicadas em papel por editoras profissionais se podem gabar. Há algumas histórias fracas, ou bastante fracas (em especial a de Manuel Mendonça), mas situam-se mais no campo do medíocre do que no do mau. Por outro lado, também não há obras-primas e as histórias realmente boas são escassas. Mas existem, e entre elas destacaria as de Raquel da Cal, de Inês Montenegro, de Diana Sousa e, talvez, de Ana C. Nunes, embora a maior parte destas quatro histórias pouco acima esteja de um conjunto de outras seis ou sete no que toca à qualidade. Curiosamente, as autoras são todas mulheres. É absoluta coincidência esta opinião (muito atrasada) sair logo depois do 8 de Março, mas calhou bem.
No que toca aos passos em falso, há várias histórias que falham por a ambição da ideia se adequar mal à dimensão exigida para os contos. Não foram nem duas nem três as que exigiriam uma extensão maior (e por vezes muito maior) para os autores poderem realmente explorar as ideias a contento. Sintoma de falta de hábito e inexperiência na escrita de ficção ultracurta, parece-me, ou talvez, em certos casos, de falta de tempo para arranjarem ideias mais apropriadas; afinal, os próprios organizadores admitem na introdução que o prazo concedido foi curto. Essa inexperiência resolver-se-ia com o tempo, caso houvesse lugares para publicação regular deste tipo de ficções (e de outras mais extensas) e algo muitíssimo importante: mais leitores dispostos a fazer leituras críticas e com capacidade para as fazer. Mas aparentemente não temos nada disso, portanto a inexperiência só poderá agravar-se. É pena. Há aqui autores com potencial que assim, muito provavelmente, nunca conseguirão desenvolvê-lo.
E quanto a apreciação geral é tudo o que tenho a dizer. Eis agora o que achei das histórias individualmente consideradas, exceto uma, sobre a qual não opinei:
- Cuidado! Leituras Perigosas
- Flip-Flip Crack-Crack
- Mutação
- Livro do Tempo
- A Passagem Secreta
- Libris in Ténebris
- Portas do Conhecimento
- Viagens ao Futuro
- O Tomo de M
- Escotilha
- Miel Lê (conto meu, obviamente sem opinião)
- Silverfish, o Último Inquilino
- Leituras
- Felicidade
- Eles Andam Aí
- Leitura Entre Lençóis
- Manuais Escolares
- Mundos em Mundos
- Livros que não deviam ter sido escritos – XIV
- O Iluminiaturista
- Uma Demanda Literária
- Relatos Verídicos
quinta-feira, 8 de março de 2018
Lido: Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa
Na minha constante busca por literatura que possa ser enquadrada nalguma das vertentes do fantástico, em que mergulhei desde que me meti a fazer o Bibliowiki, por vezes pego em livros e textos em que antes disso nunca pegaria. Exemplo disso é esta obra de Manuel Ferreira, um ensaio sobre as Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa publicado logo a seguir às independências dos PALOP, em 1977.
Li estes dois livros com o fito quase exclusivo de descobrir o que haveria de fantástico nessas literaturas, sabendo de antemão que não encontraria neles nem Agualusa nem Mia Couto nem nenhum dos outros autores africanos mais ou menos modernos que têm vindo a lidar com o fantástico, de uma forma ou de outra, nas décadas mais recentes. Falta-me a competência para analisar esta obra segundo o contexto em que foi produzida, o do ensaio académico, e portanto nem começarei a tentar fazê-lo. O que aqui irão encontrar é apenas a impressão com que fiquei no contexto do objetivo que me levou à leitura e nada mais do que isso.
E essa impressão não foi boa; terminei a leitura muito desapontado.
É que de fantástico quase não se encontra aqui nem sinal. A exceção é um par de autores de Cabo Verde, que parece terem tido alguma atividade dentro do género e por isso foram os únicos a fazer com que esta leitura tenha valido a pena. Porque, de resto, o deserto é total.
E não sei porquê. Não sei eles foram de facto os únicos a cultivar essa abordagem à literatura, se existiram outros mas a obra os esquece. É que Manuel Ferreira quase poderia ter intitulado esta sua obra "Poesias Africanas de Expressão Portuguesa", de tal forma se concentra na poesia em detrimento da prosa. Pode ser que fosse a poesia a forma literária predominante naqueles territórios e por isso se justifique essa abordagem, mas a verdade é que enquanto os poetas se veem extensamente analisados, incluindo até republicação de poemas, inteiros ou em excerto, quando chega a hora de falar da prosa, esta é despachada em dois tempos, quase sem citações ou exemplos.
E existe também uma outra questão que me faz ter saído desta leitura sem certezas quanto à existência ou inexistência de fantástico literário nos países africanos de expressão portuguesa. É que este livro tem uma abordagem marcadamente ideológica à questão sobre o que é, ao certo, "literatura africana". Manuel Ferreira parte do princípio, inteiramente compreensível, de resto, de que só é realmente africana a literatura que protesta contra o colonialismo ou a dominação do europeu, pondo portanto de parte toda a literatura (ou quase) que possa ter sido produzida em África antes das independências mas não se enraíze nessa luta pela autodeterminação e/ou dignidade dos povos africanos. Esta não seria literatura africana mas sim literatura colonial, animal de outra espécie.
É uma abordagem que tem a sua razão de ser, mas também tem um problema: pode levar a ignorar obras que não são explícitas nessas ideias mas onde elas existem de uma forma implícita ou discreta. E, sem saber se assim é ou não, parece-me plausível que algumas dessas obras possam ser fantásticas. Porquê? Porque tanto na Europa como nas Américas existiu e continua a existir uma corrente nos nacionalismos literários que leva os autores em busca de tradições e lendas dos respetivos povos para as elevar a literatura e contribuir assim para a dignificação das suas culturas ancestrais. Não será uma forma explícita de combater opressões estrangeiras, não será literatura de intervenção, mas é uma forma de dizer "nós estamos aqui, já cá estávamos antes, criámos estas histórias e temos orgulho delas". Ora, sendo as lendas e as tradições o que são, fácil se torna perceber por que motivo muita da literatura que daí resulta é fantástica (em sentido lato, não todoroviano).
É possível que em África não se tenha dado o mesmo fenómeno? É. África tem, mais agudamente do que outros territórios colonizados, o problema de ter fronteiras traçadas pelas potências coloniais em completo desrespeito pelos povos autóctones, o que resulta num conflito latente entre as nações modernas, pós-coloniais e culturalmente mestiças, e os povos originais. É possível que a recuperação das tradições antigas seja vista como problemática por poder despertar velhos fantasmas em nações multiétnicas e por isso mesmo frágeis, o que já se deveria fazer sentir na época colonial entre as elites capazes de produzir literatura em português. Portanto sim, é possível que isto tenha levado os autores a ignorar as lendas que se contavam em volta das fogueiras.
Mas, francamente, não me parece provável. O encanto dessas histórias parece-me demasiado forte para poderem ser ignoradas. A verdade completa, porém, é que não sei se assim é ou não. Fica a desconfiança, mas esta é apenas um achismo. O que é certo é que neste livro Manuel Ferreira não faz qualquer referência a isso, e para já tenho de me contentar com esse facto.
O que achei do livro? Bem, acho-o muito interessante para quem estiver interessado nas poesias africanas até às independências, significativamente menos para quem tiver interesse pelas respetivas prosas e quase nada para os que se interessam por literatura fantástica. Eu aprendi algumas coisas mas muito menos do que gostaria de ter aprendido. E saí da leitura cheio de dúvidas.
Este livro foi disponibilizado gratuitamente pelo Instituto Camões e pode ser descarregado, em PDF, aqui.
Li estes dois livros com o fito quase exclusivo de descobrir o que haveria de fantástico nessas literaturas, sabendo de antemão que não encontraria neles nem Agualusa nem Mia Couto nem nenhum dos outros autores africanos mais ou menos modernos que têm vindo a lidar com o fantástico, de uma forma ou de outra, nas décadas mais recentes. Falta-me a competência para analisar esta obra segundo o contexto em que foi produzida, o do ensaio académico, e portanto nem começarei a tentar fazê-lo. O que aqui irão encontrar é apenas a impressão com que fiquei no contexto do objetivo que me levou à leitura e nada mais do que isso.
E essa impressão não foi boa; terminei a leitura muito desapontado.
É que de fantástico quase não se encontra aqui nem sinal. A exceção é um par de autores de Cabo Verde, que parece terem tido alguma atividade dentro do género e por isso foram os únicos a fazer com que esta leitura tenha valido a pena. Porque, de resto, o deserto é total.
E não sei porquê. Não sei eles foram de facto os únicos a cultivar essa abordagem à literatura, se existiram outros mas a obra os esquece. É que Manuel Ferreira quase poderia ter intitulado esta sua obra "Poesias Africanas de Expressão Portuguesa", de tal forma se concentra na poesia em detrimento da prosa. Pode ser que fosse a poesia a forma literária predominante naqueles territórios e por isso se justifique essa abordagem, mas a verdade é que enquanto os poetas se veem extensamente analisados, incluindo até republicação de poemas, inteiros ou em excerto, quando chega a hora de falar da prosa, esta é despachada em dois tempos, quase sem citações ou exemplos.
E existe também uma outra questão que me faz ter saído desta leitura sem certezas quanto à existência ou inexistência de fantástico literário nos países africanos de expressão portuguesa. É que este livro tem uma abordagem marcadamente ideológica à questão sobre o que é, ao certo, "literatura africana". Manuel Ferreira parte do princípio, inteiramente compreensível, de resto, de que só é realmente africana a literatura que protesta contra o colonialismo ou a dominação do europeu, pondo portanto de parte toda a literatura (ou quase) que possa ter sido produzida em África antes das independências mas não se enraíze nessa luta pela autodeterminação e/ou dignidade dos povos africanos. Esta não seria literatura africana mas sim literatura colonial, animal de outra espécie.
É uma abordagem que tem a sua razão de ser, mas também tem um problema: pode levar a ignorar obras que não são explícitas nessas ideias mas onde elas existem de uma forma implícita ou discreta. E, sem saber se assim é ou não, parece-me plausível que algumas dessas obras possam ser fantásticas. Porquê? Porque tanto na Europa como nas Américas existiu e continua a existir uma corrente nos nacionalismos literários que leva os autores em busca de tradições e lendas dos respetivos povos para as elevar a literatura e contribuir assim para a dignificação das suas culturas ancestrais. Não será uma forma explícita de combater opressões estrangeiras, não será literatura de intervenção, mas é uma forma de dizer "nós estamos aqui, já cá estávamos antes, criámos estas histórias e temos orgulho delas". Ora, sendo as lendas e as tradições o que são, fácil se torna perceber por que motivo muita da literatura que daí resulta é fantástica (em sentido lato, não todoroviano).
É possível que em África não se tenha dado o mesmo fenómeno? É. África tem, mais agudamente do que outros territórios colonizados, o problema de ter fronteiras traçadas pelas potências coloniais em completo desrespeito pelos povos autóctones, o que resulta num conflito latente entre as nações modernas, pós-coloniais e culturalmente mestiças, e os povos originais. É possível que a recuperação das tradições antigas seja vista como problemática por poder despertar velhos fantasmas em nações multiétnicas e por isso mesmo frágeis, o que já se deveria fazer sentir na época colonial entre as elites capazes de produzir literatura em português. Portanto sim, é possível que isto tenha levado os autores a ignorar as lendas que se contavam em volta das fogueiras.
Mas, francamente, não me parece provável. O encanto dessas histórias parece-me demasiado forte para poderem ser ignoradas. A verdade completa, porém, é que não sei se assim é ou não. Fica a desconfiança, mas esta é apenas um achismo. O que é certo é que neste livro Manuel Ferreira não faz qualquer referência a isso, e para já tenho de me contentar com esse facto.
O que achei do livro? Bem, acho-o muito interessante para quem estiver interessado nas poesias africanas até às independências, significativamente menos para quem tiver interesse pelas respetivas prosas e quase nada para os que se interessam por literatura fantástica. Eu aprendi algumas coisas mas muito menos do que gostaria de ter aprendido. E saí da leitura cheio de dúvidas.
Este livro foi disponibilizado gratuitamente pelo Instituto Camões e pode ser descarregado, em PDF, aqui.
quarta-feira, 7 de março de 2018
Lido: A Dança das Letras
E para terminar o livro, Ana C. Nunes apresenta A Dança das Letras, um continho não tão curto como a generalidade dos outros (mas muito curto na mesma) em que nos diz que qualquer livro pode encontrar o leitor certo (e vice-versa, qualquer pessoa terá algures um livro certo para si) por intermédio de uma mulher que se vê como que invadida pela apresentação de um livro, enquanto se refugia da chuva num café. Sim, que a abordagem é bastante magico-realista e algo que se assemelha a magia — a magia dos livros, lá está — invade a banalidade do quotidiano, a banalidade da própria protagonista, acabando por ter sobre esta um efeito profundo.
É uma história bonita, bem concebida e bem escrita que, não sendo perfeita, acaba por constituir um dos pontos altos da antologia em que se insere.
Contos anteriores deste livro:
É uma história bonita, bem concebida e bem escrita que, não sendo perfeita, acaba por constituir um dos pontos altos da antologia em que se insere.
Contos anteriores deste livro:
terça-feira, 6 de março de 2018
Lido: Lisboa no Ano 2000
Justamente considerada uma das primeiras obras de ficção científica propriamente dita escrita em Portugal, Lisboa no Ano 2000 (bibliografia - a precisar urgentemente de atualização) é um texto curioso por vários motivos. Em termos de extensão, trata-se de uma noveleta, mas quando a lemos deparamos com um texto híbrido, entre o documental e o ficcional. Melo de Matos, o autor, parece hesitar entre apresentar-se como engenheiro, futurista, inventor, cheio de projetos mais ou menos mirabolantes para uma Lisboa quase 100 anos no futuro (o texto data de 1906), e escritor, alguém que cria uma obra ficcional, com enredo e personagens e não apenas cenário.
E ao chegarmos ao fim, feitas as contas, ganha o engenheiro.
O cenário é inegavelmente fascinante. A Lisboa do ano 2000 que nos é apresentada é uma megalópole cosmopolita, economicamente próspera e politicamente influente à escala global, intensamente influenciada pelo progresso fabril que era a ideia de progresso em absoluto predominante na viragem do século XIX para o XX, antes de deixar de ser possível ignorar os problemas, ambientais mas não só, causados pelos desenvolvimentos da Revolução Industrial. Existe uma ingenuidade cativante nesse cenário utópico, pelo menos até ao momento em que se começam a entrever as condições sociais que se escondem por detrás dele.
Melo de Matos não fornece muitas pistas quanto a essas condições. A leitura deixa claro que isso não o preocupava minimamente, ou pelo menos que o mesmo tipo de ingenuidade que o leva a extrapolar a Fábrica e o capitalismo selvagem de 1900 para cem anos mais tarde o leva também a postular que os fundamentos da sociedade não iriam sofrer quaisquer alterações ao longo desse século. E é aqui que quem conhecer alguma coisa sobre as condições em que viviam as várias classes sociais no apogeu da sociedade fabril clássica se arrepia um bocadinho (ou um bocadão) com a ideia de cem anos de mais do mesmo, só que mais intenso. Já para não falar de algo que está implícito: o domínio europeu, e por conseguinte português, sobre vastas extensões do globo não sofre quaisquer alterações. É bem sabido que os progressistas europeus da época eram quase sempre profundamente colonialistas e estavam convictos de que a superioridade tecnológica europeia gerada pelos séculos de inovações que acabaram por desembocar na Revolução Industrial e na reorganização fabril da sociedade lhes conferia uma espécie de "missão civilizadora" cujo objetivo era arrancar à "selvajaria" os povos colonizados. Na ficção científica, encontramos essas ideias em Júlio Verne, por exemplo. E só muito raramente elas vinham acompanhadas pela consciência de que essa "missão" chegava sempre de braço dado com grandes doses de opressão e violência.
Tudo isto, no entanto, é fruta da época. O pensamento europeu era quase sempre assim, e Melo de Matos não constitui nenhuma exceção. Adiante; falemos de literatura propriamente dita.
Literariamente, a obra é fraca. Como o objetivo principal era apresentar grandes ideias para grandes projetos de engenharia, personagens, enredo, diálogos e tudo o mais que constitui a literatura, embora existam, são secundarizados e pouco importantes. Não é nada que desconheçamos na ficção científica, mas Matos exagera porque não se limita a sacrificar as personagens à Ideia, como fazem tantas obras de FC, em especial as mais antigas, sacrifica-lhe também o enredo ao ponto de o tornar inconsistente.
E além disso, parece incompleta. A publicação de Lisboa no Ano 2000 fez-se em forma de folhetim, tendo saído quatro partes na revista Ilustração Portugueza e, no fim da quarta, há fortes indicações de que o autor pretendia prolongá-la, descrevendo mais das maravilhas tecnológicas com que sonhava, pelo menos os estaleiros do Seixal. No entanto, por motivos desconhecidos, esta continuação nunca chegou a ver a luz do dia, chegando-nos uma obra que parece amputada de um final propriamente dito.
E apesar de todas estas falhas, o que nos chegou é realmente interessante, podendo ser mesmo inspirador. E para o provar nem teria sido preciso que João Barreiros tivesse tido a ideia de pegar nas ideias de Melo de Matos e desenvolvê-las à sua maneira, agregando outros autores para compor a antologia homónima. Existe neste tecnoutopismo de Matos qualquer coisa que enche o cérebro criativo de vontade de o explorar, nem que seja para expor os pés de barro em que assenta. E isso é uma inegável qualidade.
Mas esta não é uma obra de qualidade; limita-se a ser uma obra com qualidades, algumas. E é também uma obra fundamental para qualquer pessoa que tenha algum interesse pela ficção científica portuguesa.
E além disso, pode ser obtida gratuitamente, em ebook, através do Projeto Adamastor.
E ao chegarmos ao fim, feitas as contas, ganha o engenheiro.
O cenário é inegavelmente fascinante. A Lisboa do ano 2000 que nos é apresentada é uma megalópole cosmopolita, economicamente próspera e politicamente influente à escala global, intensamente influenciada pelo progresso fabril que era a ideia de progresso em absoluto predominante na viragem do século XIX para o XX, antes de deixar de ser possível ignorar os problemas, ambientais mas não só, causados pelos desenvolvimentos da Revolução Industrial. Existe uma ingenuidade cativante nesse cenário utópico, pelo menos até ao momento em que se começam a entrever as condições sociais que se escondem por detrás dele.
Melo de Matos não fornece muitas pistas quanto a essas condições. A leitura deixa claro que isso não o preocupava minimamente, ou pelo menos que o mesmo tipo de ingenuidade que o leva a extrapolar a Fábrica e o capitalismo selvagem de 1900 para cem anos mais tarde o leva também a postular que os fundamentos da sociedade não iriam sofrer quaisquer alterações ao longo desse século. E é aqui que quem conhecer alguma coisa sobre as condições em que viviam as várias classes sociais no apogeu da sociedade fabril clássica se arrepia um bocadinho (ou um bocadão) com a ideia de cem anos de mais do mesmo, só que mais intenso. Já para não falar de algo que está implícito: o domínio europeu, e por conseguinte português, sobre vastas extensões do globo não sofre quaisquer alterações. É bem sabido que os progressistas europeus da época eram quase sempre profundamente colonialistas e estavam convictos de que a superioridade tecnológica europeia gerada pelos séculos de inovações que acabaram por desembocar na Revolução Industrial e na reorganização fabril da sociedade lhes conferia uma espécie de "missão civilizadora" cujo objetivo era arrancar à "selvajaria" os povos colonizados. Na ficção científica, encontramos essas ideias em Júlio Verne, por exemplo. E só muito raramente elas vinham acompanhadas pela consciência de que essa "missão" chegava sempre de braço dado com grandes doses de opressão e violência.
Tudo isto, no entanto, é fruta da época. O pensamento europeu era quase sempre assim, e Melo de Matos não constitui nenhuma exceção. Adiante; falemos de literatura propriamente dita.
Literariamente, a obra é fraca. Como o objetivo principal era apresentar grandes ideias para grandes projetos de engenharia, personagens, enredo, diálogos e tudo o mais que constitui a literatura, embora existam, são secundarizados e pouco importantes. Não é nada que desconheçamos na ficção científica, mas Matos exagera porque não se limita a sacrificar as personagens à Ideia, como fazem tantas obras de FC, em especial as mais antigas, sacrifica-lhe também o enredo ao ponto de o tornar inconsistente.
E além disso, parece incompleta. A publicação de Lisboa no Ano 2000 fez-se em forma de folhetim, tendo saído quatro partes na revista Ilustração Portugueza e, no fim da quarta, há fortes indicações de que o autor pretendia prolongá-la, descrevendo mais das maravilhas tecnológicas com que sonhava, pelo menos os estaleiros do Seixal. No entanto, por motivos desconhecidos, esta continuação nunca chegou a ver a luz do dia, chegando-nos uma obra que parece amputada de um final propriamente dito.
E apesar de todas estas falhas, o que nos chegou é realmente interessante, podendo ser mesmo inspirador. E para o provar nem teria sido preciso que João Barreiros tivesse tido a ideia de pegar nas ideias de Melo de Matos e desenvolvê-las à sua maneira, agregando outros autores para compor a antologia homónima. Existe neste tecnoutopismo de Matos qualquer coisa que enche o cérebro criativo de vontade de o explorar, nem que seja para expor os pés de barro em que assenta. E isso é uma inegável qualidade.
Mas esta não é uma obra de qualidade; limita-se a ser uma obra com qualidades, algumas. E é também uma obra fundamental para qualquer pessoa que tenha algum interesse pela ficção científica portuguesa.
E além disso, pode ser obtida gratuitamente, em ebook, através do Projeto Adamastor.
domingo, 4 de março de 2018
Lido: Procura-se Homem para Satisfazer Dona de Casa
O longo título de Procura-se Homem para Satisfazer Dona de Casa deixa de imediato claro que o que Ana Ferreira pretende com este conto é sobretudo fazer sorrir. E ao ler-se o conto, essa ideia vê-se justificada, pois o que a autora faz é pegar no 50 Shades of Grey e numa das donas de casa que são o público de eleição dessa opus (ha!) e satisfazer a fantasia de leitora sexualmente carente, cuja maior ambição seria, aparentemente, que a história se tornasse real consigo como protagonista. Pelo menos até certo ponto.
E é o que acontece, numa série de metamorfoses que primeiro a espantam e logo a levam ao êxtase.
A historinha, não sendo particularmente original, é razoavelmente divertida, sim. E até está razoavelmente bem estruturada. O problema está no português, demasiado fraco mesmo para uma publicação amadora. Frases como "Olha lá mete os óculos, o que vez aqui?", com falhas de pontuação e a troca de "vês" por "vez" (e não falo da estranheza do "meter", porque isto é uma fala e em discurso direto aceitam-se todas as incorreções lexicais), não são admissíveis, pura e simplesmente. É certo que parte da responsabilidade cabe à inexistência de uma revisão eficaz, mas a responsabilidade maior por coisas destas é sempre do autor porque o erro inicial é seu.
Ou seja, este é mais um continho medíocre, que podia ser bastante melhor se tivesse havido mais competência no manejo da língua.
Contos anteriores deste livro:
E é o que acontece, numa série de metamorfoses que primeiro a espantam e logo a levam ao êxtase.
A historinha, não sendo particularmente original, é razoavelmente divertida, sim. E até está razoavelmente bem estruturada. O problema está no português, demasiado fraco mesmo para uma publicação amadora. Frases como "Olha lá mete os óculos, o que vez aqui?", com falhas de pontuação e a troca de "vês" por "vez" (e não falo da estranheza do "meter", porque isto é uma fala e em discurso direto aceitam-se todas as incorreções lexicais), não são admissíveis, pura e simplesmente. É certo que parte da responsabilidade cabe à inexistência de uma revisão eficaz, mas a responsabilidade maior por coisas destas é sempre do autor porque o erro inicial é seu.
Ou seja, este é mais um continho medíocre, que podia ser bastante melhor se tivesse havido mais competência no manejo da língua.
Contos anteriores deste livro:
sexta-feira, 2 de março de 2018
Lido: Continhos de Alfarrobeira
"Continhos" é a palavra certa para intitular este Continhos de Alfarrobeira, porque, apesar de nem todos os textos contidos no livro se poderem designar com propriedade como "continhos", a grande maioria pode. São vinte e quatro textos, entre os quais se contam dois artigos ou crónicas, quase todos com uma dimensão que os situa entre a vinheta e o conto curto, só ocasionalmente se estendendo mais do que isso. Tematicamente são diversos, como é natural em qualquer coletânea de contos, mas existe uma clara preponderância do registo irónico e de uma abordagem entre o realista e o fantástico-realista, ainda que por vezes se encontrem também elementos de outros géneros. Pode mesmo dizer-se que este livro de Alexandra Pereira é sobretudo um livro de literatura fantástica, pois a abordagem fantástica marca presença em mais de metade destas histórias.
Os contos estão em geral bem escritos, ainda que a autora tenha um problema demasiado comum nos escritores portugueses quando chega a hora de escrever diálogos: só muito raramente estes conseguem transmitir a voz própria das personagens, ficando-se quase sempre por trechos rebuscados que em nada se distinguem da parte descritiva das histórias. Por vezes, isto é tão intenso que consegue estragar os contos respetivos, mas quando Alexandra Pereira consegue evitar cair nessa armadilha é capaz de escrever textos de leitura bastante agradável. Ela não tem uma prosa perfeita, há algumas falhas aqui e ali, mas escreve bem. E feitas as contas são mais os bons contos que aqui apresenta do que os maus, mesmo que alguns dos primeiros não correspondam propriamente às minhas preferências literárias e outros me pareçam um bom bocado inconsequentes. Ora, como eu repito com frequência, basta uma compilação de histórias conter várias boas ou nem que seja uma muito boa para valer a pena a publicação e a leitura, e é claramente o caso desta.
Em suma: não se tratando de nenhuma obra-prima, este é um livro que quem gosta de contos deverá achar interessante, e quem gosta de conhecer a literatura fantástica portuguesa, especialmente aquela que se situa na vertente mais mainstream do espectro, tem aqui algumas obras que merecem claramente leitura.
Eis o que achei de cada um dos contos e artigos:
Os contos estão em geral bem escritos, ainda que a autora tenha um problema demasiado comum nos escritores portugueses quando chega a hora de escrever diálogos: só muito raramente estes conseguem transmitir a voz própria das personagens, ficando-se quase sempre por trechos rebuscados que em nada se distinguem da parte descritiva das histórias. Por vezes, isto é tão intenso que consegue estragar os contos respetivos, mas quando Alexandra Pereira consegue evitar cair nessa armadilha é capaz de escrever textos de leitura bastante agradável. Ela não tem uma prosa perfeita, há algumas falhas aqui e ali, mas escreve bem. E feitas as contas são mais os bons contos que aqui apresenta do que os maus, mesmo que alguns dos primeiros não correspondam propriamente às minhas preferências literárias e outros me pareçam um bom bocado inconsequentes. Ora, como eu repito com frequência, basta uma compilação de histórias conter várias boas ou nem que seja uma muito boa para valer a pena a publicação e a leitura, e é claramente o caso desta.
Em suma: não se tratando de nenhuma obra-prima, este é um livro que quem gosta de contos deverá achar interessante, e quem gosta de conhecer a literatura fantástica portuguesa, especialmente aquela que se situa na vertente mais mainstream do espectro, tem aqui algumas obras que merecem claramente leitura.
Eis o que achei de cada um dos contos e artigos:
- Alfarrobeiras em Flor
- Feitiço de Dona Divina
- O Músico Naufragado
- O Índio de Vilacamba
- O Maior Espectáculo do Mundo
- Yakutuba
- A Groselha que Pariu um Rato Ou O Violãotista Mimado
- A Respiração
- Ana
- Cristais Como Nós
- Boca da Trompete
- O Buda de Lisboa
- A Décima-Terceira História
- Ibêje-Ìbeji
- A Maldição de Hemingway
- Linguagem Óptica
- A Hora do Lagarto
- A Alegoria da Gaiola
- Na Metade do Meio
- Naturalmente Feliz
- Posição Yoguística
- O Espelho Antropomórfico
- O Passarão Invisível
- Um Tuaregue e Dois Cavalos
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
Lido: Pulsação
Inês Montenegro apresenta um continho bastante interessante, uma espécie de fábula contada sob o ponto de vista de um livro. O título, Pulsação, só se compreende verdadeiramente no fim da história que narra o trajeto de "vida" de um livro desde a livraria ao momento em que é comprado, lido e depois arrumado, e o que acaba por suceder a esse longo período de mera existência na estante do dono. Para aqueles que gostam de sustentar até ao fim a procura das ideias contidas nos contos, eu talvez esteja a revelar demasiado dizendo que este continho é sobretudo uma declaração de amor às bibliotecas, mas julgo ser impossível falar dele sem o dizer. E também sem dizer que é um bom conto, com o tamanho certo e as palavras certas para a história que pretende contar.
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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018
Lido: Para Sempre Porque Sim
Voltamos uma derradeira vez a Alexandra Pereira e às suas histórias para falar de um continho de duas páginas sobre alguém que não lhe apetecia fazer nada, uma "mulher-renúncia", como a autora lhe chama. Até ao dia em que encontra um "homem-renúncia", sua imagem ao espelho, ao qual vai acabar por dizer Para Sempre Porque Sim. O ambiente é vagamente de realismo mágico, ou de alegoria com as suas personagens e ambientes simplificados ao extremo, a história é em parte um conto moral sobre as virtudes de dizer não, em parte uma simples história de amor que como que afirma haver sempre alguém para qualquer pessoa, por mais ouriçada que esta pareça ser à primeira vista. Sentimentos bonitos, história bem contada, tema que pessoalmente achei pouco interessante. É um bom conto do qual não gostei muito.
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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018
Lido: F de Foguete
Qualquer livro de contos que contenha clássicos absolutos, qualquer livro que contenha alguns dos melhores contos jamais escritos num determinado género, é imediatamente livro de recomendar absolutamente, sejam os restantes contos bons, medianos, maus ou até péssimos. Mais ainda quando, ao fazer-se a contabilidade final, se encontra um total de zero contos maus e vários clássicos absolutos.
F de Foguete (bibliografia) é, portanto, um livro altamente recomendável. Porque entre os seus 17 contos se contam algumas das melhores histórias que Ray Bradbury escreveu na sua longa carreira e, concomitantemente, alguns dos melhores contos de ficção científica que foram escritos até hoje. Um livro que contenha Um Som de Trovão, A Buzina da Neblina ou A Longa Chuva é um livro que deve ser lido, mesmo que os outros 14 contos que contém sejam fracos. E não são. Há alguns que são apenas medianos, mas a generalidade destas histórias encaixa-se em algum grau de bom ou de muito bom.
A maioria é também histórias de ficção científica, ainda que por vezes o sejam de uma forma muito "impura", com grandes misturas de fantasia ou horror. A maioria mas nem todas; algumas destas histórias nada têm de FC ou de qualquer outro ramo daquilo a que costuma chamar-se literatura fantástica: são histórias mainstream, muito americanas em essência e ambiente; curiosamente, ou talvez não, são também as mais desinteressantes, aquelas a que mais falta o rasgo imaginativo que tanto contribui para a experiência de leitura de Bradbury. São histórias brandas que, ao contrário das outras que podem também o ser mas incluem sempre algum tempero que lhes realce o sabor, têm muito de sensaborão, por mais bem escritas que possam estar. Se o livro fosse todo assim, seria dispensável. Bastante.
Mas não é. E por isso só não digo que é um livro indispensável porque os melhores contos que contém estão também disponíveis noutras publicações, sejam também coletâneas do autor, sejam antologias de grandes histórias de ficção científica do século XX. Os clássicos tendem a aparecer assim, um pouco por todo o lado.
Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
F de Foguete (bibliografia) é, portanto, um livro altamente recomendável. Porque entre os seus 17 contos se contam algumas das melhores histórias que Ray Bradbury escreveu na sua longa carreira e, concomitantemente, alguns dos melhores contos de ficção científica que foram escritos até hoje. Um livro que contenha Um Som de Trovão, A Buzina da Neblina ou A Longa Chuva é um livro que deve ser lido, mesmo que os outros 14 contos que contém sejam fracos. E não são. Há alguns que são apenas medianos, mas a generalidade destas histórias encaixa-se em algum grau de bom ou de muito bom.
A maioria é também histórias de ficção científica, ainda que por vezes o sejam de uma forma muito "impura", com grandes misturas de fantasia ou horror. A maioria mas nem todas; algumas destas histórias nada têm de FC ou de qualquer outro ramo daquilo a que costuma chamar-se literatura fantástica: são histórias mainstream, muito americanas em essência e ambiente; curiosamente, ou talvez não, são também as mais desinteressantes, aquelas a que mais falta o rasgo imaginativo que tanto contribui para a experiência de leitura de Bradbury. São histórias brandas que, ao contrário das outras que podem também o ser mas incluem sempre algum tempero que lhes realce o sabor, têm muito de sensaborão, por mais bem escritas que possam estar. Se o livro fosse todo assim, seria dispensável. Bastante.
Mas não é. E por isso só não digo que é um livro indispensável porque os melhores contos que contém estão também disponíveis noutras publicações, sejam também coletâneas do autor, sejam antologias de grandes histórias de ficção científica do século XX. Os clássicos tendem a aparecer assim, um pouco por todo o lado.
Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
- F de Foguete
- O Fim do Começo
- A Buzina de Neblina
- O Foguete
- O Astronauta
- Os Pomos Dourados do Sol
- Um Som de Trovão
- A Longa Chuva
- Os Exilados
- Aqui Haverá Tigres
- A Janela Cor de Morango
- O Dragão
- O Presente
- Gelo e Fogo
- Tio Einar
- A Máquina do Tempo
- O Som do Verão Correndo
domingo, 25 de fevereiro de 2018
Lido: O Rosto Vivo
Não tenho muito a dizer sobre este O Rosto Vivo de Marcelina Gama Leandro. É uma historinha daquelas que dão a ideia de que a autora não soube bem o que escrever até à última hora, ou então que não conseguiu passar eficazmente a ideia para texto. Limita-se a contar uma historieta sobre um par de irmãos que vão à biblioteca do avô em busca de um livro para ler, são apanhados e são corridos, por entre vagas sugestões de haver magia embebida nos livros, ou pelo menos em alguns. A influência de Harry Potter parece-me razoavelmente clara, mas mesmo assim esta podia dar uma história interessante se fosse mais longa e menos inconsequente no que pretende contar.
E se estivesse mais bem escrita. Há neste continho demasiados problemas com a pontuação (nomeadamente com as vírgulas) e palavras estapafúrdias como "intimado", quando se queria na verdade escrever "intimidado". Uma intimação até pode intimidar mas é coisa distinta de intimidação.
Em suma: podia ser melhor. Bastante melhor.
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E se estivesse mais bem escrita. Há neste continho demasiados problemas com a pontuação (nomeadamente com as vírgulas) e palavras estapafúrdias como "intimado", quando se queria na verdade escrever "intimidado". Uma intimação até pode intimidar mas é coisa distinta de intimidação.
Em suma: podia ser melhor. Bastante melhor.
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sábado, 24 de fevereiro de 2018
Lido: Um Tuaregue e Dois Cavalos
Cinco páginas, para aquilo que é habitual nestes contos de Alexandra Pereira, é um texto particularmente extenso, este com o título aparentemente enganador de Um Tuaregue e Dois Cavalos. Não há aqui tuaregues nem cavalos, salvo em sentido figurado; conta-se uma história de emigração, aparentemente clandestina, não se percebe bem se de regresso aos anos da ditadura salazarenta em que a sobrevivência dependia tantas vezes de passar a salto a fronteira, numa primeira etapa que levava o fugido a Espanha em viagem que só muito raramente aí terminava, pois a Europa livre ficava mais longe, se avançando para um futuro indeterminado em que essa necessidade de novo se faz premente. E é inteiramente possível que essa indefinição só exista na minha cabeça, sempre em busca de futuros prováveis, ao contrário das dos outros, que se contentam com passados.
Seja como for, isso pouco importa para o conto em si, que é sobretudo uma longa (longa, entenda-se, para o que é hábito na autora) divagação sobre o que é isto de ser português, sobre nacionalismo ou sua ausência, sobre raízes e a vontade de as arrancar; que o ambiente pidesco a pairar ao fundo seja passado concreto ou futuro eventual nada altera sobre coisa alguma no que ao conto diz respeito. Este está bem escrito e é eficaz, apesar de uma certa tendência para a divagação ensaística que o piora. Em suma: razoável.
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Seja como for, isso pouco importa para o conto em si, que é sobretudo uma longa (longa, entenda-se, para o que é hábito na autora) divagação sobre o que é isto de ser português, sobre nacionalismo ou sua ausência, sobre raízes e a vontade de as arrancar; que o ambiente pidesco a pairar ao fundo seja passado concreto ou futuro eventual nada altera sobre coisa alguma no que ao conto diz respeito. Este está bem escrito e é eficaz, apesar de uma certa tendência para a divagação ensaística que o piora. Em suma: razoável.
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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
Lido: O Velho
Entre sugestões de um Estado totalitário, Clóvis Garcia leva-nos com este seu O Velho a um futuro em que os velhos deixaram de ser uma visão comum nas ruas da cidade por se retirarem voluntariamente da sociedade, passando a viver em centros onde têm ao dispor tudo aquilo de que necessitam. Todos? Não. O velho que protagoniza esta história é uma exceção, recusando-se a essa forma de apagamento social, preferindo uma vida solitária mas livre, mesmo com dificuldades, à prisão dourada dos da sua geração. Mas o que faz mover o enredo não é isso: é o homem ter encontrado numa loja de antiguidades um velho androide, tão obsoleto como ele, mas proibitivamente caro, o que não impede que desperte uma espécie de paixão, ou simplesmente a necessidade de companheirismo, e que o velho vá passar a fazer os possíveis e os impossíveis para conseguir comprar a antiguidade.
É uma história bastante boa, esta. Há nela qualquer coisa de Bradbury, e também qualquer coisa de Asimov (fez-me lembrar um pouco O Homem Bicentenário, ainda que os enredos sejam bem diferentes), numa daquelas ficções científicas sociais cujo âmago é a condição humana. Neste caso, a parte da condição humana que se prende com o fim da vida e a solidão e desadaptação que ele acarreta. É também uma história bastante bem escrita e narrada com mão segura, que envelheceu muito bem. Muito melhor que o protagonista. Aprovado.
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É uma história bastante boa, esta. Há nela qualquer coisa de Bradbury, e também qualquer coisa de Asimov (fez-me lembrar um pouco O Homem Bicentenário, ainda que os enredos sejam bem diferentes), numa daquelas ficções científicas sociais cujo âmago é a condição humana. Neste caso, a parte da condição humana que se prende com o fim da vida e a solidão e desadaptação que ele acarreta. É também uma história bastante bem escrita e narrada com mão segura, que envelheceu muito bem. Muito melhor que o protagonista. Aprovado.
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Lido: O Som do Verão Correndo
Já aqui falei várias vezes daqueles contos centrados na infância e nas cidadezinhas do Midwest norte-americano, que Ray Bradbury escreveu com tanta frequência, quase invariavelmente ambientados no verão ou no outono. Alguns desses contos são de um horror suave, enraizando-se no imaginário do Halloween e no seu cortejo de monstros e bruxos que em Bradbury são quase sempre de bom coração. Outros aproximam-se mais da ficção científica e mostram-nos pais que lutam por apresentar o mundo a filhos sonhadores, repletos de futuro, de uma forma tal que não lhes destrua o sentido da maravilha. Outros ainda nada têm de fantasioso, são puro mainstream, conhecidas pelo termo americana.
Este O Som do Verão Correndo é uma destas últimas histórias. O protagonista é um miúdo que, ao chegar o verão, cobiça intensamente uns sapatos desportivos que vê numa sapataria. Mas os pais não nadam em dinheiro e recusam-se a comprá-los e a história conta a forma como o rapaz tenta arranjar maneira de conseguir deitar-lhes a mão. Trata-se de um conto sem grandes surpresas (ou sem nenhumas para quem já conhece razoavelmente bem a obra do escritor), cujo ponto forte é o texto de Bradbury e a poesia em que envolve as histórias mais banais, que é o que esta é. Uma história banal sobre uma situação banal, com personagens banais e sem nada de extraordinário a apimentá-la. Está bem escrita e bem concebida, mas também está muito longe do melhor que Bradbury produziu.
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Este O Som do Verão Correndo é uma destas últimas histórias. O protagonista é um miúdo que, ao chegar o verão, cobiça intensamente uns sapatos desportivos que vê numa sapataria. Mas os pais não nadam em dinheiro e recusam-se a comprá-los e a história conta a forma como o rapaz tenta arranjar maneira de conseguir deitar-lhes a mão. Trata-se de um conto sem grandes surpresas (ou sem nenhumas para quem já conhece razoavelmente bem a obra do escritor), cujo ponto forte é o texto de Bradbury e a poesia em que envolve as histórias mais banais, que é o que esta é. Uma história banal sobre uma situação banal, com personagens banais e sem nada de extraordinário a apimentá-la. Está bem escrita e bem concebida, mas também está muito longe do melhor que Bradbury produziu.
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domingo, 11 de fevereiro de 2018
Lido: Habitable Planets for Man
Um exercício de leitura que eu acho curioso e geralmente muito interessante é ler os livros seminais de determinadas disciplinas científicas. Não todos, claro; há alguns que são demasiada areia para a minha camioneta; não me verão tão cedo (bem, mais que provavelmente não me verão nunca) a pegar em The theory of heat radiation de Max Planck, por exemplo. Mas a leitura de livros como A Origem das Espécies, de Charles Darwin, é para mim um prazer porque conjuga várias das coisas que eu procuro na leitura, faltando-lhe apenas a pura experiência literária (que às vezes até existe; há cientistas e divulgadores de ciência que escrevem verdadeiramente bem): espevita a imaginação, treina o raciocínio, ensina-me coisas que eu não sabia (mesmo quando conheço bastante bem a disciplina há sempre alguma coisa de novo), dá-me uma perspetiva histórica da evolução dos conhecimentos na ciência em causa, por comparação entre os que vêm expressos na obra lida e o que sei sobre o estado contemporâneo da ciência, e por aí fora.
Habitable Planets for Man é um desses livros. Debruça-se sobre a exoplanetologia, ou mais especificamente sobre a parte desta disciplina que se esforça por encontrar planetas habitáveis por seres humanos em volta de outras estrelas, e faz pela primeira vez um apanhado dos conhecimentos científicos disponíveis na sua época, numa tentativa de estimar quantos planetas habitáveis haverá na nossa galáxia, a que distância será provável estar o mais próximo e, em geral, onde deverão estar.
Nota importante: o livro foi escrito em 1962 e publicado em 1964. À época, os únicos exoplanetas que se conhecia eram aqueles criados por escritores e outros autores de ficção científica, e iriam ainda passar-se trinta anos até ser realmente confirmada a existência de planetas em volta de outros astros: a primeira deteção confirmada de um exoplaneta (na verdade foram logo dois) data de 1992, mas estes planetas giram em volta de um pulsar, não de uma estrela normal. Houve que esperar mais três anos pela primeira deteção definitiva de um exopaneta na órbita de uma estrela normal, quando a publicação deste livro já tinha completado o seu 31º aniversário.
É por isso espantoso, e um testemunho da qualidade da especulação teórica disponível à época, que Stephen H. Dole tenha acertado em tanta coisa mesmo apesar da grande quantidade de surpresas com que os cientistas têm vindo a ser brindados nas últimas duas décadas de deteção de exoplanetas. Apesar de se manter preso à noção de sistemas extrassolares semelhantes ao solar, com os planetas terrestres mais perto da estrela e gasosos no sistema exterior, inteiramente dominante até que as primeiras descobertas de "júpiteres quentes" vieram pôr essa teoria de pantanas, Dole consegue fazer uma análise ainda hoje muito aplicável sobre tipos de órbitas que será possível encontrar, as relações entre estas e as massas dos planetas, os tipos de atmosferas, os intervalos de temperatura que o ambiente à superfície comporta, a presença e as quantidades de água ou a sua ausência, o efeito de estufa e a sua influência na habitabilidade, e etc. e etc., sem mesmo se esquecer de analisar casos mais exóticos como o de órbitas excêntricas ou dos planetas em sistemas múltiplos, entre outros, e chegando mesmo ao ponto de rematar o livro com um elogio de natureza quase ambientalista ao planeta Terra e às suas condições, tão propícias à nossa exigência, e a especular sobre as alterações que a humanidade poderia sofrer depois de se instalar em planetas distantes.
Nem toda a informação e teorização aqui contida sobreviveu às descobertas e às reformulações teóricas que estas forçaram, naturalmente. Mas a que sobreviveu é vasta, muito interessante e em geral bastante acessível a leigos, o que é natural se tivermos em conta que Dole escreveu não um livro propriamente dito, mas um relatório, preparado no âmbito do projeto RAND da Força Aérea dos Estados Unidos, o qual deu origem ao célebre think tank militar RAND Corporation. Ele tinha de apresentar a sua informação de forma a que os militares a conseguissem engolir... e isso faz com que ela seja hoje muito legível por qualquer pessoa com alguns conhecimentos mais ou menos básicos de planetologia, mesmo que convenha eles serem um pouco menos básicos se se quiser perceber com alguma segurança que parte do livro ainda está válida hoje em dia (a maior parte) e que parte já não está.
Uma coisa é certa: este livro é muito eficaz em dar ao leitor alguma perspetiva cósmica do nosso lugar no Universo e do quão especial é o nosso planeta. Não que adote a perspetiva pessimista da Terra rara; conclui que os planetas habitáveis deverão ser abundantes na nossa galáxia, estimando em cerca de 50 os planetas habitáveis num raio de 100 anos-luz (relembro que a Via Láctea tem uns 150 mil anos-luz de diâmetro). Mas a listagem das condições ambientais, de órbita, de distância à estrela, de características da própria estrela, de massa do planeta, e etc., e etc., é impecável a transmitir ao leitor como este mundo em que vivemos está tão perfeitamente adaptado a nele vivermos (na verdade é ao contrário; nós é que nos adaptámos perfeitamente a ele. Mas vocês percebem o que quero dizer).
Para fãs de ficção científica, este livro tem além disso o interesse adicional de lhes dar bagagem para poderem avaliar criticamente algumas ideias que surgem nas obras do género, e para escritores que queiram dedicar-se ao género, pelo menos se as histórias que pretendem escrever tiverem alguma componente extraterrestre, é uma leitura que me parece quase indispensável porque pode evitar muitas tolices. Se pertences a algum destes grupos, portanto, recomendo esta leitura; se tens curiosidade pela ciência também. Se não, podes passar adiante sem nenhum problema.
Este livro pode ser obtido legalmente na internet, em PDF, no site da RAND Corporation.
Habitable Planets for Man é um desses livros. Debruça-se sobre a exoplanetologia, ou mais especificamente sobre a parte desta disciplina que se esforça por encontrar planetas habitáveis por seres humanos em volta de outras estrelas, e faz pela primeira vez um apanhado dos conhecimentos científicos disponíveis na sua época, numa tentativa de estimar quantos planetas habitáveis haverá na nossa galáxia, a que distância será provável estar o mais próximo e, em geral, onde deverão estar.
Nota importante: o livro foi escrito em 1962 e publicado em 1964. À época, os únicos exoplanetas que se conhecia eram aqueles criados por escritores e outros autores de ficção científica, e iriam ainda passar-se trinta anos até ser realmente confirmada a existência de planetas em volta de outros astros: a primeira deteção confirmada de um exoplaneta (na verdade foram logo dois) data de 1992, mas estes planetas giram em volta de um pulsar, não de uma estrela normal. Houve que esperar mais três anos pela primeira deteção definitiva de um exopaneta na órbita de uma estrela normal, quando a publicação deste livro já tinha completado o seu 31º aniversário.
É por isso espantoso, e um testemunho da qualidade da especulação teórica disponível à época, que Stephen H. Dole tenha acertado em tanta coisa mesmo apesar da grande quantidade de surpresas com que os cientistas têm vindo a ser brindados nas últimas duas décadas de deteção de exoplanetas. Apesar de se manter preso à noção de sistemas extrassolares semelhantes ao solar, com os planetas terrestres mais perto da estrela e gasosos no sistema exterior, inteiramente dominante até que as primeiras descobertas de "júpiteres quentes" vieram pôr essa teoria de pantanas, Dole consegue fazer uma análise ainda hoje muito aplicável sobre tipos de órbitas que será possível encontrar, as relações entre estas e as massas dos planetas, os tipos de atmosferas, os intervalos de temperatura que o ambiente à superfície comporta, a presença e as quantidades de água ou a sua ausência, o efeito de estufa e a sua influência na habitabilidade, e etc. e etc., sem mesmo se esquecer de analisar casos mais exóticos como o de órbitas excêntricas ou dos planetas em sistemas múltiplos, entre outros, e chegando mesmo ao ponto de rematar o livro com um elogio de natureza quase ambientalista ao planeta Terra e às suas condições, tão propícias à nossa exigência, e a especular sobre as alterações que a humanidade poderia sofrer depois de se instalar em planetas distantes.
Nem toda a informação e teorização aqui contida sobreviveu às descobertas e às reformulações teóricas que estas forçaram, naturalmente. Mas a que sobreviveu é vasta, muito interessante e em geral bastante acessível a leigos, o que é natural se tivermos em conta que Dole escreveu não um livro propriamente dito, mas um relatório, preparado no âmbito do projeto RAND da Força Aérea dos Estados Unidos, o qual deu origem ao célebre think tank militar RAND Corporation. Ele tinha de apresentar a sua informação de forma a que os militares a conseguissem engolir... e isso faz com que ela seja hoje muito legível por qualquer pessoa com alguns conhecimentos mais ou menos básicos de planetologia, mesmo que convenha eles serem um pouco menos básicos se se quiser perceber com alguma segurança que parte do livro ainda está válida hoje em dia (a maior parte) e que parte já não está.
Uma coisa é certa: este livro é muito eficaz em dar ao leitor alguma perspetiva cósmica do nosso lugar no Universo e do quão especial é o nosso planeta. Não que adote a perspetiva pessimista da Terra rara; conclui que os planetas habitáveis deverão ser abundantes na nossa galáxia, estimando em cerca de 50 os planetas habitáveis num raio de 100 anos-luz (relembro que a Via Láctea tem uns 150 mil anos-luz de diâmetro). Mas a listagem das condições ambientais, de órbita, de distância à estrela, de características da própria estrela, de massa do planeta, e etc., e etc., é impecável a transmitir ao leitor como este mundo em que vivemos está tão perfeitamente adaptado a nele vivermos (na verdade é ao contrário; nós é que nos adaptámos perfeitamente a ele. Mas vocês percebem o que quero dizer).
Para fãs de ficção científica, este livro tem além disso o interesse adicional de lhes dar bagagem para poderem avaliar criticamente algumas ideias que surgem nas obras do género, e para escritores que queiram dedicar-se ao género, pelo menos se as histórias que pretendem escrever tiverem alguma componente extraterrestre, é uma leitura que me parece quase indispensável porque pode evitar muitas tolices. Se pertences a algum destes grupos, portanto, recomendo esta leitura; se tens curiosidade pela ciência também. Se não, podes passar adiante sem nenhum problema.
Este livro pode ser obtido legalmente na internet, em PDF, no site da RAND Corporation.
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