É curioso ver como a morte parece um fantasma quase permanentemente a pairar sobre contos cujo tema proposto seria simplesmente o objeto a que a secular sucessão de acasos que foi construindo a língua portuguesa acabou por dar o nome, sempre provisório, de cadeira. A Cadeira do Pai tem esse título porque o pai morre e deixa uma cadeira, que um dos filhos vai ser obrigado a ocupar. Literal, sim, mas sobretudo figurativamente.
São dois, os filhos. Um, o mais novo, segundo cujo ponto de vista o brasileiro Vinicius Jatobá conta a história em primeira pessoa, nunca saiu da pequena cidade natal e, em vez de estudar, foi trabalhar no negócio da família. Por isso é competente no que faz. Já o outro, não só partiu para a cidade grande para estudar, como não mostrou nisso grande empenho, preferindo outras atividades. História velha como o tempo.
Mas o pai morre e o mais velho regressa "para ajudar". Claro que não ajuda. Não só porque percebe menos do negócio do que o irmão, mas porque é até mais imaturo. É isso que o conto transmite, e o tema da antologia é praticamente ignorado. A cadeira, aqui, é sobretudo alegórica, um símbolo do lugar do pai morto. Um irmão irá sentar-se nela, figurativamente falando, sobretudo, apesar do objeto existir mesmo, e o conto discute qual deles e porquê.
Não foi conto que me tivesse agradado muito. Estas histórias de irmãos de personalidades mais ou menos opostas já foram contadas inúmeras vezes, e o estilo literário de Jatobá não é dos que mais me agradam. Não é um mau conto, até pode ser que seja bom, mas soube-me a pouco.
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quarta-feira, 20 de maio de 2020
terça-feira, 19 de maio de 2020
David Langford: Éfeso Logradouro
Traduzir este conto deve ter sido um pequeno pesadelo. Felizmente é muito curto. O ambiente já é dado pelo título: o que raio é um Éfeso Logradouro (bibliografia)? E o conto/doença segue por aí fora depois do título, num delírio linguístico completamente absurdo, conseguindo David Langford apesar disso transmitir algumas coisas a quem o lê.
Nomeadamente, o gozo. Este conto é um gozo descarado àqueles escritores que procuram o hermetismo da prosa, trancando-a em palavreado incomum e quantas vezes mal utilizado. É que é disso que a doença consiste, aparentemente: de uma incapacidade de escrever — e falar também, quiçá? — de forma acessível ou até, em casos graves, minimamente compreensível. E claro que, mais uma vez, o médico que descreve a doença é também dela padecente, o que explica o arrazoado que, como digo de início, deve ter sido um pequeno pesadelo de traduzir.
Mas o resultado é divertido. Valha-nos isso.
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Nomeadamente, o gozo. Este conto é um gozo descarado àqueles escritores que procuram o hermetismo da prosa, trancando-a em palavreado incomum e quantas vezes mal utilizado. É que é disso que a doença consiste, aparentemente: de uma incapacidade de escrever — e falar também, quiçá? — de forma acessível ou até, em casos graves, minimamente compreensível. E claro que, mais uma vez, o médico que descreve a doença é também dela padecente, o que explica o arrazoado que, como digo de início, deve ter sido um pequeno pesadelo de traduzir.
Mas o resultado é divertido. Valha-nos isso.
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Isaac Asimov: A Salvação da Humanidade
Para mim, uma das coisas mais interessantes nestes contos sobre o demónio Azazel, bastante mais que a maior parte dos enredos, o demónio, o resto das personagens ou o humor, é a forma metamorfoseada como neles ressurgem algumas ideias que Isaac Asimov desenvolveu mais aprofundadamente noutros sítios. Neste A Salvação da Humanidade (bibliografia), por exemplo, aparecem os computadores como ameaça à humanidade (ou pelo menos vistos como tal), um dos fios condutores de toda a série sobre os robôs positrónicos. E também aparece outra característica dos contos sobre robôs positrónicos: a resolução de um problema, inteiramente lógica mas talvez inesperada.
A história é sobre um desgraçado que é perseguido pelo azar. Ou pelo desastre, talvez mais propriamente. Sim, que a coisa é de tal forma intensa que ele se sente culpado por todas as pessoas que vitimizou involuntariamente devido às consequências da sua falta de sorte. Eis senão quando confessa a quem tem o poder de invocar o demónio Azazel que o que mais desejava era poder compensar a humanidade por todo o mal que lhe causou. Isso, claro, e livrar-se da má sorte. E o homem lá invoca o demónio, e este lá resolve o problema, embora não, claro, sem que a solução tenha consequências não inteiramente agradáveis.
Este é um conto que regressa à fórmula comum à maioria destas histórias, o que me leva a não gostar lá muito dele, mas também é um conto que apresenta um problema lógico e a sua resolução, o que sempre lhe confere algum interesse. Gosto bastante mais dos contos de robôs que têm por base o mesmo tipo de problemas — até porque os próprios problemas são mais adequados em contos com personagens mecânicas — mas acabei por gostar mais desta história do que de algumas das anteriores.
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A história é sobre um desgraçado que é perseguido pelo azar. Ou pelo desastre, talvez mais propriamente. Sim, que a coisa é de tal forma intensa que ele se sente culpado por todas as pessoas que vitimizou involuntariamente devido às consequências da sua falta de sorte. Eis senão quando confessa a quem tem o poder de invocar o demónio Azazel que o que mais desejava era poder compensar a humanidade por todo o mal que lhe causou. Isso, claro, e livrar-se da má sorte. E o homem lá invoca o demónio, e este lá resolve o problema, embora não, claro, sem que a solução tenha consequências não inteiramente agradáveis.
Este é um conto que regressa à fórmula comum à maioria destas histórias, o que me leva a não gostar lá muito dele, mas também é um conto que apresenta um problema lógico e a sua resolução, o que sempre lhe confere algum interesse. Gosto bastante mais dos contos de robôs que têm por base o mesmo tipo de problemas — até porque os próprios problemas são mais adequados em contos com personagens mecânicas — mas acabei por gostar mais desta história do que de algumas das anteriores.
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segunda-feira, 18 de maio de 2020
Irmãos Grimm: O Ganso Dourado
Sim, estou de volta aos contos dos Irmãos Grimm, e para recomeçar esta longa maratona (só nesta etapa são 91... e estas histórias tendem a incluir muitos elementos repetitivos, pelo que desta vez decidi fazer umas pausas sempre que começar a fartar-me como aconteceu no fim do primeiro volume) quem organizou a recolha escolheu O Ganso Dourado.
Trata-se de mais um daqueles contos que os Grimm sintetizaram a partir de várias histórias, ainda que desta vez sejam apenas dois contos que parecem ser variantes um do outro. E são mais uma variação (ou duas) dos contos em que de três irmãos só o mais simples e bondoso se sai bem de uma série de testes, ficando os irmãos arrogantes pelo caminho. O desta história até se chama Tolo e tudo, o que também não é a primeira vez.
No entanto, ao contrário de muitas outras variantes esta tem um pendor claramente humorístico. Por exemplo, o ganso dourado, adequadamente mágico, tem o poder de deixar coladas a ele — ou a alguma pessoa colada a ele, ou a uma pessoa colada a ele, etc. — todas as mãos que tentem cobiçosamente pegar-lhe, e às tantas lá anda o irmão Tolo, de ganso dourado debaixo do braço, seguido por uma extensa procissão de aldeões. É um conto engraçado, este.
Trata-se de mais um daqueles contos que os Grimm sintetizaram a partir de várias histórias, ainda que desta vez sejam apenas dois contos que parecem ser variantes um do outro. E são mais uma variação (ou duas) dos contos em que de três irmãos só o mais simples e bondoso se sai bem de uma série de testes, ficando os irmãos arrogantes pelo caminho. O desta história até se chama Tolo e tudo, o que também não é a primeira vez.
No entanto, ao contrário de muitas outras variantes esta tem um pendor claramente humorístico. Por exemplo, o ganso dourado, adequadamente mágico, tem o poder de deixar coladas a ele — ou a alguma pessoa colada a ele, ou a uma pessoa colada a ele, etc. — todas as mãos que tentem cobiçosamente pegar-lhe, e às tantas lá anda o irmão Tolo, de ganso dourado debaixo do braço, seguido por uma extensa procissão de aldeões. É um conto engraçado, este.
Thomas H. Block: Órbita
É curioso como aqueles livros que são escritos com o olho firmemente posto no contrato cinematográfico são tão fáceis de identificar. Há um certo estilo, um certo ambiente que quem tenha visto filmes da série B (ou C) identifica com bastante precisão, especialmente os que tenham sido realizados mais ou menos na mesma época em que esses livros (que são sempre romances razoavelmente curtos, duzentas e muitas, trezentas e poucas páginas) foram publicados.
É, obviamente, o caso deste Órbita (bibliografia), que possivelmente terá frustrado o autor, Thomas H. Block, uma vez que parece não ter conseguido o almejado contrato, ao contrário de pelo menos outro livro seu, tal como este um thriller e tal como este centrado no mundo da aviação, mas só depois de ter sido reescrito (provavelmente atualizado) por ele em conjunto com outro autor.
Mas este tipo de livro tende a vender bem, pelo que a frustração não terá sido muita. Nunca percebi lá muito bem porquê, francamente: a novidade é pouca, a escrita é frequentemente tosca ou no máximo correta, as personagens são estereotipadas e unidimensionais, os enredos são formulaicos, sabendo-se sempre de antemão que no fim tudo fica bem, que todos os problemas que se acumulam, cada vez mais impossíveis, vão acabar por ser resolvidos num desfecho apoteótico graças a algum rasgo de génio mais ou menos milagroso. Para mim, o acumular de sarilhos torna a manipulação demasiado óbvia, o que corrói fortemente a suspensão da descrença, e o fim óbvio dá cabo da expetativa sobre o que irá acabar por acontecer. Mas a malta parece que gosta...
Neste caso, o thriller é de ficção científica de futuro próximo... tanto à época em que foi escrito, quanto hoje. O desenho do avião que aparece na capa parece-se com o Concorde, e não será por acaso: havia nos anos 70 e 80 do século passado (este livro é de 1982) um otimismo tecnológico sobre o desenvolvimento da aviação que as realidades energéticas e económicas condenaram à condição de utopia irrealizada, e o futuro de viagens intercontinentais hipersónicas que aqui surge continua hoje tão distante como naquela época.
Claro que, para que o livro seja um thriller, as coisas têm de correr mal. O avião deveria realizar um voo suborbital mas, por algum motivo misterioso, os motores não se desligam no momento certo e o aparelho entra em órbita (sim, daí o título), aparentemente sem meios para voltar a descer. É que o combustível é esgotado na subida e à altitude a que vai parar, com a atmosfera tão rarefeita, as superfícies de controlo são totalmente inúteis. Ainda por cima, é certo que o avião é pressurizado mas as reservas de oxigénio foram calculadas para um voo intercontinental relativamente curto, não para uma estadia indefinida em órbita baixa.
Morte iminente para todos a bordo, claro. O que gera as expectáveis cenas de pânico e exacerba alguns conflitos latentes na tripulação, que o piloto e o copiloto nem se podem ver. Há aqui vários momentos em que quase se etreveem as rodas dentadas na mente do autor enquanto ele pensa "como é que eu vou meter estes tipos na pior situação possível?" Aqui e não só, porque também em Terra as coisas não correm propriamente sobre rodas quando uma equipa da empresa de aviação é reunida à pressa e enviada para um centro de controlo da NASA, onde vão tentar fazer um lançamento de emergência do vaivém (também ele entretanto transformado em artefacto histórico) para, pelo menos, se levar oxigénio ao avião acidentado.
É essa tentativa de salvamento de emergência (não muito detalhada, é certo), a tentativa de compreender o que aconteceu ao avião (que rapidamente desagua de forma algo apressada na explicação de sabotagem) e os conflitos e acontecimentos no interior do avião, que faz mover o enredo. Poder-se-á pensar que são elementos com fartura para uma história interessante, mas na verdade ela não o é muito, e pior fica quando tudo se resolve com um autêntico deus ex-machina e os ocupantes do avião se salvam (quase todos, pelo menos) pelos seus próprios meios.
Este livro lê-se? Lê-se. Distrai, que no fundo é mais ou menos a única coisa que pretende fazer. Isso faz com que cumpra os objetivos, suponho. Mas está muito longe de ser bom, muito longe mesmo. É literatura-chiclete: masca-se durante uns tempos mas depressa perde o sabor e não alimenta.
Este livro foi comprado.
É, obviamente, o caso deste Órbita (bibliografia), que possivelmente terá frustrado o autor, Thomas H. Block, uma vez que parece não ter conseguido o almejado contrato, ao contrário de pelo menos outro livro seu, tal como este um thriller e tal como este centrado no mundo da aviação, mas só depois de ter sido reescrito (provavelmente atualizado) por ele em conjunto com outro autor.
Mas este tipo de livro tende a vender bem, pelo que a frustração não terá sido muita. Nunca percebi lá muito bem porquê, francamente: a novidade é pouca, a escrita é frequentemente tosca ou no máximo correta, as personagens são estereotipadas e unidimensionais, os enredos são formulaicos, sabendo-se sempre de antemão que no fim tudo fica bem, que todos os problemas que se acumulam, cada vez mais impossíveis, vão acabar por ser resolvidos num desfecho apoteótico graças a algum rasgo de génio mais ou menos milagroso. Para mim, o acumular de sarilhos torna a manipulação demasiado óbvia, o que corrói fortemente a suspensão da descrença, e o fim óbvio dá cabo da expetativa sobre o que irá acabar por acontecer. Mas a malta parece que gosta...
Neste caso, o thriller é de ficção científica de futuro próximo... tanto à época em que foi escrito, quanto hoje. O desenho do avião que aparece na capa parece-se com o Concorde, e não será por acaso: havia nos anos 70 e 80 do século passado (este livro é de 1982) um otimismo tecnológico sobre o desenvolvimento da aviação que as realidades energéticas e económicas condenaram à condição de utopia irrealizada, e o futuro de viagens intercontinentais hipersónicas que aqui surge continua hoje tão distante como naquela época.
Claro que, para que o livro seja um thriller, as coisas têm de correr mal. O avião deveria realizar um voo suborbital mas, por algum motivo misterioso, os motores não se desligam no momento certo e o aparelho entra em órbita (sim, daí o título), aparentemente sem meios para voltar a descer. É que o combustível é esgotado na subida e à altitude a que vai parar, com a atmosfera tão rarefeita, as superfícies de controlo são totalmente inúteis. Ainda por cima, é certo que o avião é pressurizado mas as reservas de oxigénio foram calculadas para um voo intercontinental relativamente curto, não para uma estadia indefinida em órbita baixa.
Morte iminente para todos a bordo, claro. O que gera as expectáveis cenas de pânico e exacerba alguns conflitos latentes na tripulação, que o piloto e o copiloto nem se podem ver. Há aqui vários momentos em que quase se etreveem as rodas dentadas na mente do autor enquanto ele pensa "como é que eu vou meter estes tipos na pior situação possível?" Aqui e não só, porque também em Terra as coisas não correm propriamente sobre rodas quando uma equipa da empresa de aviação é reunida à pressa e enviada para um centro de controlo da NASA, onde vão tentar fazer um lançamento de emergência do vaivém (também ele entretanto transformado em artefacto histórico) para, pelo menos, se levar oxigénio ao avião acidentado.
É essa tentativa de salvamento de emergência (não muito detalhada, é certo), a tentativa de compreender o que aconteceu ao avião (que rapidamente desagua de forma algo apressada na explicação de sabotagem) e os conflitos e acontecimentos no interior do avião, que faz mover o enredo. Poder-se-á pensar que são elementos com fartura para uma história interessante, mas na verdade ela não o é muito, e pior fica quando tudo se resolve com um autêntico deus ex-machina e os ocupantes do avião se salvam (quase todos, pelo menos) pelos seus próprios meios.
Este livro lê-se? Lê-se. Distrai, que no fundo é mais ou menos a única coisa que pretende fazer. Isso faz com que cumpra os objetivos, suponho. Mas está muito longe de ser bom, muito longe mesmo. É literatura-chiclete: masca-se durante uns tempos mas depressa perde o sabor e não alimenta.
Este livro foi comprado.
Pedro Preto: O Resgate
Pedro Preto é mais um autor que, se ignorarmos uma ou outra fragilidade daquelas que se resolvem com uma revisão, até escreve bem. Mas é também mais um autor que enfia numa extensão demasiado curta uma história que dava pano para mangas muito mais longas, o que tem como resultado um conto fraco porque, ao ser absolutamente descritivo, se torna bastante aborrecido.
Trata-se de uma história de fundo mitológico, sem que se perceba lá muito bem se Preto pretende levá-la mais para o lado do horror ou da fantasia. A história básica é um rapto por mouros da encarnação da deusa cartaginesa Tanit, que o protagonista vai resgatar, numa longa viagem desde o norte de Portugal (não se percebe muito bem se já sob controlo cristão, se ainda nos tempos dos reinos visigóticos ou durante a ocupação islâmica da península) ao coração do império árabe. E daí o título de O Resgate (bibliografia). Mas isto, que é o que de facto é relevante no conto, é relatado como reminiscência, e em duas ou três penadas para que o conto se mantenha curto, sendo o presente ficcional quase totalmente irrelevante para a história.
Este é mais um caso de ideia com bastante potencial mas muito mal desenvolvida porque o autor não acertou na extensão certa para contar a história. Há neste livro demasiados casos destes.
Textos anteriores deste livro:
Trata-se de uma história de fundo mitológico, sem que se perceba lá muito bem se Preto pretende levá-la mais para o lado do horror ou da fantasia. A história básica é um rapto por mouros da encarnação da deusa cartaginesa Tanit, que o protagonista vai resgatar, numa longa viagem desde o norte de Portugal (não se percebe muito bem se já sob controlo cristão, se ainda nos tempos dos reinos visigóticos ou durante a ocupação islâmica da península) ao coração do império árabe. E daí o título de O Resgate (bibliografia). Mas isto, que é o que de facto é relevante no conto, é relatado como reminiscência, e em duas ou três penadas para que o conto se mantenha curto, sendo o presente ficcional quase totalmente irrelevante para a história.
Este é mais um caso de ideia com bastante potencial mas muito mal desenvolvida porque o autor não acertou na extensão certa para contar a história. Há neste livro demasiados casos destes.
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domingo, 17 de maio de 2020
Mia Couto: Lénine na Cabeceira
A primeira edição do livro onde se incluem estas crónicas/contos data de 1988, época em que o mundo se encontrava em processo de mudança e os partidos e países baseados no modelo soviético se iam reinventando alguns, outros pura e simplesmente desaparecendo. É disso que Mia Couto aqui fala, por intermédio de uma história bastante irónica de atropelamento.
É um mendigo quem é atropelado, embora sem por isso sofrer danos. Fim de história? Alguém que apanha com um carro em cima, fica incólume e vai à sua vida. Não, pois alguém repara que o mendigo não vinha tão de mãos a abanar como seria típico da sua posição e logo soa a suspeita: será ladrão? Mais se adensam as suspeitas quando reparam que o saco — era um saco — está cheio de livros, livros políticos, livros marxistas. E vai daí vão perguntar ao homem que nas redondezas poderia possuir tais livros se por acaso não lhe teriam sido roubados. Mas não, que o homem já não queria ter Lénine na Cabeceira e os dera, simplesmente. Que por favor não lhos devolvessem. E assim lá se esclarece o assunto e lá fica o mendigo com todo aquele papel. Que de papel para ele não passa, pois não tem como compreender o que nele vem escrito.
Não é muito frequente Mia Couto ser tão intensamente político. Naquilo que tenho lido, ele nunca abdicou de fazer comentário social nas entrelinhas, mas julgo que nunca tinha lido nada dele em que haja uma referência tão direta à ideologia. Apesar, claro, de esta ser também aqui sujeita a interpretação: terá o homem que se livrou dos livros realmente mudado de referências, ou é apenas um vira-casacas, a mudar de camisa com as mudanças do vento? Mia Couto deixa o leitor tirar as suas próprias conclusões, e leitores diferentes concluirão coisas diferentes. No fundo, o que mais importa é o texto em si e a forma como a história se constrói, e isso é Mia Couto. Ainda algo inicial, é certo, mas Mia Couto.
Contos anteriores deste livro:
É um mendigo quem é atropelado, embora sem por isso sofrer danos. Fim de história? Alguém que apanha com um carro em cima, fica incólume e vai à sua vida. Não, pois alguém repara que o mendigo não vinha tão de mãos a abanar como seria típico da sua posição e logo soa a suspeita: será ladrão? Mais se adensam as suspeitas quando reparam que o saco — era um saco — está cheio de livros, livros políticos, livros marxistas. E vai daí vão perguntar ao homem que nas redondezas poderia possuir tais livros se por acaso não lhe teriam sido roubados. Mas não, que o homem já não queria ter Lénine na Cabeceira e os dera, simplesmente. Que por favor não lhos devolvessem. E assim lá se esclarece o assunto e lá fica o mendigo com todo aquele papel. Que de papel para ele não passa, pois não tem como compreender o que nele vem escrito.
Não é muito frequente Mia Couto ser tão intensamente político. Naquilo que tenho lido, ele nunca abdicou de fazer comentário social nas entrelinhas, mas julgo que nunca tinha lido nada dele em que haja uma referência tão direta à ideologia. Apesar, claro, de esta ser também aqui sujeita a interpretação: terá o homem que se livrou dos livros realmente mudado de referências, ou é apenas um vira-casacas, a mudar de camisa com as mudanças do vento? Mia Couto deixa o leitor tirar as suas próprias conclusões, e leitores diferentes concluirão coisas diferentes. No fundo, o que mais importa é o texto em si e a forma como a história se constrói, e isso é Mia Couto. Ainda algo inicial, é certo, mas Mia Couto.
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Rhys Hughes: Ebercitas
E cá está mais uma doença a fazer referência direta a Jorge Luis Borges, sublinhando uma vez mais todo o substrato borgesiano deste livro. Mas à sisudez de Borges, Rhys Hughes contrapõe um humor razoavelmente delirante, carregado de trocadilhos que nem sempre é possível verter para português, e um romantismo que pouco ou nada tem a ver com a frieza erudita dos contos mais propriamente borgesianos.
Sim, pois Ebercitas (bibliografia) é uma doença de amor. Ou, mais precisamente, uma loucura sentimental, contagiosa, que leva os infelizes pacientes a fazer aquelas tolices típicas das histórias de amor romântico, na tentativa de impressionar uma argentina chamada Eber. Não sei se esta Eber é real, mas há alguns sinais de que possa ser; Hughes atribui o primeiro caso da maleita a um tal Orejitas Entrerroscas, e quem conheça o autor das suas andanças pela web na primeira década do século XXI reconhece este Orejitas de algum lado. Se assim for, este conto funciona como uma declaração ficcionada de amor (ou uma declaração de amor ficcionado?), e não seria o único — veja-se A Sereia de Curitiba.
É curioso que tantas destas doenças sejam descritas por pessoas por elas afetadas; até parece que os autores se combinaram, embora não creia que tal tenha realmente acontecido. E sim, esta é mais uma. Um texto mais longo que a maioria dos restantes deu a Hughes espaço para várias subtilezas francamente interessantes, desenvolvendo melhor a sua ideia e lançando ironias em várias direções. Consequência: gostei mais desta história, porque de uma verdadeira história se trata, do que tem sido hábito neste livro.
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Sim, pois Ebercitas (bibliografia) é uma doença de amor. Ou, mais precisamente, uma loucura sentimental, contagiosa, que leva os infelizes pacientes a fazer aquelas tolices típicas das histórias de amor romântico, na tentativa de impressionar uma argentina chamada Eber. Não sei se esta Eber é real, mas há alguns sinais de que possa ser; Hughes atribui o primeiro caso da maleita a um tal Orejitas Entrerroscas, e quem conheça o autor das suas andanças pela web na primeira década do século XXI reconhece este Orejitas de algum lado. Se assim for, este conto funciona como uma declaração ficcionada de amor (ou uma declaração de amor ficcionado?), e não seria o único — veja-se A Sereia de Curitiba.
É curioso que tantas destas doenças sejam descritas por pessoas por elas afetadas; até parece que os autores se combinaram, embora não creia que tal tenha realmente acontecido. E sim, esta é mais uma. Um texto mais longo que a maioria dos restantes deu a Hughes espaço para várias subtilezas francamente interessantes, desenvolvendo melhor a sua ideia e lançando ironias em várias direções. Consequência: gostei mais desta história, porque de uma verdadeira história se trata, do que tem sido hábito neste livro.
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sexta-feira, 15 de maio de 2020
Serenidade: O Homenzinho do Bosque, Eu e os Sonhos
Lê-se um título como O Homenzinho do Bosque, Eu e os Sonhos (bibliografia) e pensa-se: conto infantil. E pensa-se bem, pois é isso mesmo que a autora (bem... é a Serenidade, portanto suponho que seja autora...) que escolheu Serenidade como pseudónimo aqui apresenta: um conto infantil sobre um miúdo que mergulha no bosque atrás de um homenzinho do tamanho de um pé e aí encontra um sentido para a vida.
Há muito em comum entre esta história e O Raio de Sol, aqui mencionado recentemente. Não só ambas as histórias são infantis, como em ambas está presente o típico tom moralista cheio de boas intenções, aqui com um viés razoavelmente ecológico, de regresso à pureza da natureza, ambos têm poesia e fantasia em doses adequadas e ambos estão bem escritos, ainda que a escrita de Serenidade talvez beneficiasse de um certo encurtamento das frases, demasiado convolutas e complexas para o público que escolheu como alvo.
Mas, de novo, este é um conto perfeitamente publicável.
Textos anteriores deste livro:
Há muito em comum entre esta história e O Raio de Sol, aqui mencionado recentemente. Não só ambas as histórias são infantis, como em ambas está presente o típico tom moralista cheio de boas intenções, aqui com um viés razoavelmente ecológico, de regresso à pureza da natureza, ambos têm poesia e fantasia em doses adequadas e ambos estão bem escritos, ainda que a escrita de Serenidade talvez beneficiasse de um certo encurtamento das frases, demasiado convolutas e complexas para o público que escolheu como alvo.
Mas, de novo, este é um conto perfeitamente publicável.
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António Bettencourt Viana: No Resplendor da Luz Perpétua
Seria provavelmente inevitável que num livro tão orientado para a pedagogia como este declaradamente é aparecesse um conto que é basicamente uma aula. Uma aula sobre nós, seres humanos, quando vistos sob um ponto de vista alienígena, apesar de aqui estarmos implícitos, não explícitos. O problema é que é mesmo muito difícil fazer este tipo de história bem. Será possível, calculo (embora de momento não me esteja a lembrar de nenhum exemplo), mas muito, muito difícil. Não só a história fica necessariamente muito expositiva, como a tarefa de arranjar um ponto de vista realmente alienígena que a possa tornar credível (e mais interessante) está muito longe de ser trivial. Mesmo assim, António Bettencourt Viana arriscou. E o resultado não é brilhante. Pun intended.
O conto passa-se entre alienígenas naturais de um planeta que gira em volta de uma estrela integrante de um dos aglomerados globulares que orbitam a Via Láctea. É essa a razão do título de No Resplendor da Luz Perpétua (bibliografia), pois a proximidade das estrelas nesses aglomerados e a ausência de poeiras faz com que o céu noturno de eventuais planetas que as orbitem seja perfeitamente espetacular, uma caixinha de joias brilhantes. É um desses planetas que Viana imagina, habitado por uma espécie inteligente cujos professores e adolescentes, a despeito de estarem divididos em três sexos e não nos nossos (e nos das espécies inferiores deles) dois, se comportam tal e qual como professores e adolescentes humanos.
É essa uma das grandes fragilidades deste conto: a ausência de qualquer coisa minimamente alienígena no comportamento dos ETs. Há culturas humanas em que os jovens se comportam de uma forma mais estranha ao nosso quotidiano do que os jovens deste planeta longínquo. O autor bem tenta fugir com o rabo à seringa numa introdução em que explica que quando diz que os seus ETs estão a rir não estão realmente a rir, mas é pouco e pouco eficaz.
Mas há mais fragilidades. O conto divide-se em duas aulas, uma sobre as diferenças entre ter três sexos e só dois, outra sobre a existência ou não de inteligência no corpo principal da galáxia. Em ambas, Viana passa mais tempo a falar de nós do que dos seus ETs (aproveitando a primeira para lançar uma série de ideias um tanto ou quanto duvidosas sobre os papéis sexuais humanos), em longos infodumps didáticos com pouca ou nenhuma novidade para quem tenha um conhecimento minimamente razoável da matéria, o que faz com que o conto se torne bastante chato para o leitor comum. Se ao menos houvesse alguma história exterior à exposição professoral talvez fosse possível sustentar o interesse. Mas não há. E em resultado disso, este conto é bastante mauzinho.
Contos anteriores deste livro:
O conto passa-se entre alienígenas naturais de um planeta que gira em volta de uma estrela integrante de um dos aglomerados globulares que orbitam a Via Láctea. É essa a razão do título de No Resplendor da Luz Perpétua (bibliografia), pois a proximidade das estrelas nesses aglomerados e a ausência de poeiras faz com que o céu noturno de eventuais planetas que as orbitem seja perfeitamente espetacular, uma caixinha de joias brilhantes. É um desses planetas que Viana imagina, habitado por uma espécie inteligente cujos professores e adolescentes, a despeito de estarem divididos em três sexos e não nos nossos (e nos das espécies inferiores deles) dois, se comportam tal e qual como professores e adolescentes humanos.
É essa uma das grandes fragilidades deste conto: a ausência de qualquer coisa minimamente alienígena no comportamento dos ETs. Há culturas humanas em que os jovens se comportam de uma forma mais estranha ao nosso quotidiano do que os jovens deste planeta longínquo. O autor bem tenta fugir com o rabo à seringa numa introdução em que explica que quando diz que os seus ETs estão a rir não estão realmente a rir, mas é pouco e pouco eficaz.
Mas há mais fragilidades. O conto divide-se em duas aulas, uma sobre as diferenças entre ter três sexos e só dois, outra sobre a existência ou não de inteligência no corpo principal da galáxia. Em ambas, Viana passa mais tempo a falar de nós do que dos seus ETs (aproveitando a primeira para lançar uma série de ideias um tanto ou quanto duvidosas sobre os papéis sexuais humanos), em longos infodumps didáticos com pouca ou nenhuma novidade para quem tenha um conhecimento minimamente razoável da matéria, o que faz com que o conto se torne bastante chato para o leitor comum. Se ao menos houvesse alguma história exterior à exposição professoral talvez fosse possível sustentar o interesse. Mas não há. E em resultado disso, este conto é bastante mauzinho.
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quinta-feira, 14 de maio de 2020
Gaspar Coutinho: Auto de Insolvência
Eu nunca publicaria alguns dos contos que saíram nesta antologia por falta de qualidade mínima no manejo da língua portuguesa, mas o problema deste Auto de Insolvência (bibliografia) não é falta de qualidade no português, que Gaspar Coutinho escreve bastante bem. No entanto, eu também nunca publicaria este conto numa antologia que se propõe publicar literatura fantástica, e por um motivo bastante simples: ele nada tem a ver com literatura fantástica, a menos que se faça uma interpretação altamente criativa da condição do protagonista (e com interpretações altamente criativas tudo é literatura fantástica, o que faz com que nada o seja).
E dito isso, tudo o resto passa a ser secundário e sim, vêm aí spoilers. O conto consiste numa diatribe de um empresário que sente que o mundo (com os mariolas dos sindicalistas à cabeça, que o "senhor doutor" é desses) está contra ele, levando-o a perder tudo. Daí a "insolvência" do título. Mas o "auto" não é propriamente coisa legal e burocrática como se percebe no fim. Sim, que (lembram-se de que avisei sobre spoilers?) acabamos por descobrir que o homem está moribundo, depois de se ter estampado no carrão, acabando por bater a bota quando os socorristas chegam para tentar salvá-lo.
O melhor que este conto tem é mesmo a escrita. Da adequação ao tema da antologia estamos conversados, e quanto à história propriamente dita, enfim... digamos que está muito longe de me entusiasmar. É possível que não haja outra forma de escrever uma história ante mortem como esta (e daí, não subestimemos a criatividade humana), mas o fluxo de consciência não é das minhas técnicas favoritas porque me parece muito difícil mantê-lo interessante. Isto do interesse tem a ver com o tema, claro está, e é inerentemente subjetivo, pelo que o que me desinteressa decerto interessará a outros, mas o facto é que esta história me aborreceu, mesmo sendo tão curta.
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E dito isso, tudo o resto passa a ser secundário e sim, vêm aí spoilers. O conto consiste numa diatribe de um empresário que sente que o mundo (com os mariolas dos sindicalistas à cabeça, que o "senhor doutor" é desses) está contra ele, levando-o a perder tudo. Daí a "insolvência" do título. Mas o "auto" não é propriamente coisa legal e burocrática como se percebe no fim. Sim, que (lembram-se de que avisei sobre spoilers?) acabamos por descobrir que o homem está moribundo, depois de se ter estampado no carrão, acabando por bater a bota quando os socorristas chegam para tentar salvá-lo.
O melhor que este conto tem é mesmo a escrita. Da adequação ao tema da antologia estamos conversados, e quanto à história propriamente dita, enfim... digamos que está muito longe de me entusiasmar. É possível que não haja outra forma de escrever uma história ante mortem como esta (e daí, não subestimemos a criatividade humana), mas o fluxo de consciência não é das minhas técnicas favoritas porque me parece muito difícil mantê-lo interessante. Isto do interesse tem a ver com o tema, claro está, e é inerentemente subjetivo, pelo que o que me desinteressa decerto interessará a outros, mas o facto é que esta história me aborreceu, mesmo sendo tão curta.
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Jeffrey Thomas: Doença da Tatuagem Internalizada
Esta é mais uma descrição de doença que não contém propriamente uma história o que, como sempre acontece nesses casos (ou quase sempre, vá), me leva a não gostar lá muito do resultado. Sinto sempre (ou quase) que há na ideia uma história por explorar e que é pena ela ter ficado por explorar. Uma ou mais. Ela ou elas. São coisas.
E como também acontece com alguma frequência, o título revela desde logo a ideia. Doença da Tatuagem Internalizada (bibliografia) é isso mesmo, uma doença, benigna, que consiste na criação psicossomática de tatuagens nos órgãos internos do corpo. Jeffrey Thomas fica-se pela descrição da doença e da sua descoberta, mas eu enquanto ia lendo identifiquei pelo menos um ponto fraco nessa descrição — ele diz que a doença só foi identificada recentemente porque só recentemente se desenvolveram as técnicas da autópsia... mas há séculos que o homem esventra o homem, pelo que seria de esperar que alguém tivesse reparado em tatuagens internas, apesar do sangue e de outros fluidos — e imaginei logo uma história baseada nesta ideia. A descrição tem a sua graça, que tem, mas soube-me a pouco.
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E como também acontece com alguma frequência, o título revela desde logo a ideia. Doença da Tatuagem Internalizada (bibliografia) é isso mesmo, uma doença, benigna, que consiste na criação psicossomática de tatuagens nos órgãos internos do corpo. Jeffrey Thomas fica-se pela descrição da doença e da sua descoberta, mas eu enquanto ia lendo identifiquei pelo menos um ponto fraco nessa descrição — ele diz que a doença só foi identificada recentemente porque só recentemente se desenvolveram as técnicas da autópsia... mas há séculos que o homem esventra o homem, pelo que seria de esperar que alguém tivesse reparado em tatuagens internas, apesar do sangue e de outros fluidos — e imaginei logo uma história baseada nesta ideia. A descrição tem a sua graça, que tem, mas soube-me a pouco.
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quarta-feira, 13 de maio de 2020
Isaac Asimov: O Surdo Ribombar
É engraçado como isto acontece com uma certa frequência: mal um gajo pensa detetar um padrão, uma fórmula inamovível e por isso mesmo aborrecida, um baralhar para voltar a dar as mesmas cartas, lá vem o autor e mete umas cartas novas no baralho, como quem diz "ah julgas-te espertinho, é? Achas que me topaste? Então toma lá, para ver se aprendes".
Sim, Isaac Asimov trocou-me as voltas. Este O Surdo Ribombar (bibliografia) não segue a fórmula de histórias anteriores, e o facto de o demoniozinho Azazel mal aparecer nem é o principal motivo para tal. Na verdade, e apesar da presença do demónio e dos seus atos não deixar que o seja por completo, esta história aproxima-se bastante de um dos seus contos de ficção científica: numa conversa entre duas pessoas, uma delas revela um fenómeno inusitado, e vamos aos poucos descobrindo o que o causa, sendo essa descoberta o que faz mover a história, não as tentativas mais ou menos bem sucedidas de humor em volta do infernal bicharoco.
O fenómeno é, claro, o surdo ribombar do título, resultado de uma estranha formação numa caverna que o descobridor apelida de saser, ou laser sónico. Certamente já veem de que forma esta história soa a FC, mas soa ainda mais do que isso, pois o que se segue é uma série de investigações sobre o funcionamento da coisa. Que a revelam perigosa, capaz dos mais variados efeitos, inclusivamente a destruição de certas espécies químicas através da frequência (e potência, claro) da vibração. É aqui que entramos firmemente no território do cientista maluco e vilanesco, pois o homem procura descobrir a frequência que destroi o ADN humano porque considera os seus semelhantes uma praga que há que destruir. E só não o faz porque revela as suas intenções ao homem que tem contacto direto com o demónio Azazel, e é a solução que estes dois engendram que afasta o conto da FC propriamente dita.
Não tenho bem a certeza, mas acho que este é o conto do Azazel que mais me agradou até agora.
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Sim, Isaac Asimov trocou-me as voltas. Este O Surdo Ribombar (bibliografia) não segue a fórmula de histórias anteriores, e o facto de o demoniozinho Azazel mal aparecer nem é o principal motivo para tal. Na verdade, e apesar da presença do demónio e dos seus atos não deixar que o seja por completo, esta história aproxima-se bastante de um dos seus contos de ficção científica: numa conversa entre duas pessoas, uma delas revela um fenómeno inusitado, e vamos aos poucos descobrindo o que o causa, sendo essa descoberta o que faz mover a história, não as tentativas mais ou menos bem sucedidas de humor em volta do infernal bicharoco.
O fenómeno é, claro, o surdo ribombar do título, resultado de uma estranha formação numa caverna que o descobridor apelida de saser, ou laser sónico. Certamente já veem de que forma esta história soa a FC, mas soa ainda mais do que isso, pois o que se segue é uma série de investigações sobre o funcionamento da coisa. Que a revelam perigosa, capaz dos mais variados efeitos, inclusivamente a destruição de certas espécies químicas através da frequência (e potência, claro) da vibração. É aqui que entramos firmemente no território do cientista maluco e vilanesco, pois o homem procura descobrir a frequência que destroi o ADN humano porque considera os seus semelhantes uma praga que há que destruir. E só não o faz porque revela as suas intenções ao homem que tem contacto direto com o demónio Azazel, e é a solução que estes dois engendram que afasta o conto da FC propriamente dita.
Não tenho bem a certeza, mas acho que este é o conto do Azazel que mais me agradou até agora.
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Sandro William Junqueira: As Cebolas Tornam-nos Maus
Cebolas, botas ortopédicas e outros tipos de sapatos, gabardines e cadeiras. É de objetos inanimados que se faz em grande medida este conto de Sandro William Junqueira. Mas é a violência o seu tema. Ou talvez a maldade. A crueldade do homem pelo homem, por mais que tente esquivar-se atribuindo as culpas a algo exterior a si próprio. A cebolas, digamos. As Cebolas Tornam-nos Maus. Tornarão?
Há em todo o conto uma atmosfera entre o fantasmagórico e o horror existencial, com toques de realismo mágico, apesar de nada do que nele é descrito se afaste realmente das possibilidades da vivência quotidiana. Um casal discute porque o marido se esqueceu de trazer cebolas do supermercado, e a discussão leva à violência. Doméstica, está bem de ver-se. Um cantor de rua é assassinado a tiro por alguém que parece ser só botas e gabardina (e arma), por motivos que não chegamos a conhecer. No pós-pancadaria, no apartamento do casal desavindo, uma cadeira pesada é atirada pela janela. No pós-homicídio, o assassino põe-se em fuga pela cidade fora. E no desfecho, assassino (ou apenas as coisas que o envolvem) e cadeira encontram-se no mesmo ponto do tempo e do espaço.
É como quem diz, sim, somos umas bestas, uns montes de trampa sempre prontos para nos atacarmos uns aos outros, mas no fundo, no fim de contas, o universo arranjará sempre maneira de levar o castigo devido a quem é devido. Ou talvez nem sempre, nem a todos. Só aos piores, talvez. É um conto incómodo, este, e é-o propositadamente. Estou mesmo a ver muitos leitores a torcer-lhe o nariz por isso mesmo. Eu gostei. Não me incomoda o incómodo, e a história está bastante bem escrita.
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Há em todo o conto uma atmosfera entre o fantasmagórico e o horror existencial, com toques de realismo mágico, apesar de nada do que nele é descrito se afaste realmente das possibilidades da vivência quotidiana. Um casal discute porque o marido se esqueceu de trazer cebolas do supermercado, e a discussão leva à violência. Doméstica, está bem de ver-se. Um cantor de rua é assassinado a tiro por alguém que parece ser só botas e gabardina (e arma), por motivos que não chegamos a conhecer. No pós-pancadaria, no apartamento do casal desavindo, uma cadeira pesada é atirada pela janela. No pós-homicídio, o assassino põe-se em fuga pela cidade fora. E no desfecho, assassino (ou apenas as coisas que o envolvem) e cadeira encontram-se no mesmo ponto do tempo e do espaço.
É como quem diz, sim, somos umas bestas, uns montes de trampa sempre prontos para nos atacarmos uns aos outros, mas no fundo, no fim de contas, o universo arranjará sempre maneira de levar o castigo devido a quem é devido. Ou talvez nem sempre, nem a todos. Só aos piores, talvez. É um conto incómodo, este, e é-o propositadamente. Estou mesmo a ver muitos leitores a torcer-lhe o nariz por isso mesmo. Eu gostei. Não me incomoda o incómodo, e a história está bastante bem escrita.
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terça-feira, 12 de maio de 2020
Vítor Claudino (ed.): Magazine do Fantástico e Ficção Científica, nº 3
Uma apreciação geral deste número 3 do Magazine do Fantástico e Ficção Científica tem de começar por um ponto negativo, que de resto não é único deste número. É que, sem um tema genérico que as junte num todo coerente, as histórias valem (ou não) por si mesmas, mas existe uma coisa que é comum a todas: a tradução. A muito má tradução.
Lembram-se da coleção Argonauta? Conhecem a fama que têm as traduções da Argonauta? Pois bem: depois de ter lido já dois números desta tentativa de publicar em Portugal uma versão da revista americana Fantasy and Science Fiction posso dizer-lhes que as traduções que aqui se encontram fazem as da Argonauta parecer obras literárias de primeira água. Isso talvez baste para explicar o motivo por que a iniciativa foi abandonada ao fim de meros quatro números, embora seja provável que outros fatores também tenham influído no falhanço.
Mas se nos abstrairmos das traduções, este número da revista é bom?
E a resposta é... não. Oh, vale plenamente a pena a publicação porque estão aqui incluídos dois contos que realmente dão gosto ler — Em Tempos Havia os Bois... e Debaixo de Cerco —, e eu mantenho a opinião de que se uma publicação inclui nem que seja um conto muito bom ou pelo menos dois ou três bons já valeu a pena, mas a verdade é que os contos são nove ao todo e valer a pena é uma coisa, ser bom é outra. Há aqui demasiados contos que não ultrapassam o razoável, e até há um ou dois que só a custo lá chegam, o que impede o conjunto de ser mais do que isso mesmo: razoável. Lê-se, desfruta-se das histórias que dão para desfrutar, mas o resto da leitura é basicamente indiferente. E desconfio que o seria mesmo se a tradução fosse boa, ainda que aqui tenha de admitir que se trata apenas de especulação e que é inteiramente possível que haja aqui boa literatura de tal forma estragada pela tradução que parece ser bastante pior do que na realidade é.
Não tenho elementos que me permitam saber como foram construídos os números desta versão portuguesa da F&SF, mas sei que não se trata de tradução direta dos números da revista americana, pois os contos que aqui se incluem datam de diversos anos. Ou seja: existe participação do editor português na seleção. Não sei se houve limitações nos contos que podiam ser incluídos, e se houve quais, financeiras ou outras, mas o facto é que este número não me parece particularmente bem conseguido. É demasiado desequilibrado. Mas lá está: inclui contos bons e por isso vale a pena.
Eis o que achei de cada um dos contos:
Lembram-se da coleção Argonauta? Conhecem a fama que têm as traduções da Argonauta? Pois bem: depois de ter lido já dois números desta tentativa de publicar em Portugal uma versão da revista americana Fantasy and Science Fiction posso dizer-lhes que as traduções que aqui se encontram fazem as da Argonauta parecer obras literárias de primeira água. Isso talvez baste para explicar o motivo por que a iniciativa foi abandonada ao fim de meros quatro números, embora seja provável que outros fatores também tenham influído no falhanço.
Mas se nos abstrairmos das traduções, este número da revista é bom?
E a resposta é... não. Oh, vale plenamente a pena a publicação porque estão aqui incluídos dois contos que realmente dão gosto ler — Em Tempos Havia os Bois... e Debaixo de Cerco —, e eu mantenho a opinião de que se uma publicação inclui nem que seja um conto muito bom ou pelo menos dois ou três bons já valeu a pena, mas a verdade é que os contos são nove ao todo e valer a pena é uma coisa, ser bom é outra. Há aqui demasiados contos que não ultrapassam o razoável, e até há um ou dois que só a custo lá chegam, o que impede o conjunto de ser mais do que isso mesmo: razoável. Lê-se, desfruta-se das histórias que dão para desfrutar, mas o resto da leitura é basicamente indiferente. E desconfio que o seria mesmo se a tradução fosse boa, ainda que aqui tenha de admitir que se trata apenas de especulação e que é inteiramente possível que haja aqui boa literatura de tal forma estragada pela tradução que parece ser bastante pior do que na realidade é.
Não tenho elementos que me permitam saber como foram construídos os números desta versão portuguesa da F&SF, mas sei que não se trata de tradução direta dos números da revista americana, pois os contos que aqui se incluem datam de diversos anos. Ou seja: existe participação do editor português na seleção. Não sei se houve limitações nos contos que podiam ser incluídos, e se houve quais, financeiras ou outras, mas o facto é que este número não me parece particularmente bem conseguido. É demasiado desequilibrado. Mas lá está: inclui contos bons e por isso vale a pena.
Eis o que achei de cada um dos contos:
- Em Tempos Havia os Bois...
- Dois Mil e Sessenta e Um
- Debaixo de Cerco
- Ei... ii, Sai cá pr'a Fo... ora!
- Pequeno Goethe
- Segunda Hipótese
- Projecto Grande Ascenção
- Gato
- Manhã
Rita Cláudia M. Silva: O Raio de Sol
Antes de falar diretamente sobre este conto, deixem-me fazer um parêntesis. Há quem se irrite com a inclusão de uma porção razoável da literatura infantil e/ou juvenil na literatura fantástica. O motivo da irritação tem a ver com alguma tendência, em certas outras pessoas, de tratar toda a literatura fantástica como literatura infantil e/ou infantiloide (não é bem a mesma coisa), o que vai desaguar no velho preconceito contra as literaturas não mainstream. Compreendendo o que origina a irritação, julgo no entanto que ela falha o alvo. Muita literatura infantil é literatura fantástica em sentido lato, o maravilhoso faz parte da grande família das literaturas do imaginário, e por isso faz pleno sentido juntá-la aos restantes membros da família. Questão diferente é se será ou não avisado incluir contos infantis num livro com outros contos que não são, de todo, adequados para crianças, mas disso falarei mais quando falar deste livro e não das suas histórias.
Depois deste preâmbulo já terão percebido, certamente, que O Raio de Sol (bibliografia), de Rita Cláudia M. Silva, é um conto infantil. E perceberam bem. De resto, o próprio título já o indica.
E é um conto infantil bastante típico. O português é bom — se descontarmos dois ou três descuidos que se tivesse existido uma revisão teriam sido apanhados — e adequadamente simples, o tom é aquele típico tom moralista cheio de bons sentimentos de tantas histórias infantis, e há nele poesia e fantasia qb. Conta a história de um menino trasmontano, aldeão pobre, que trava amizade com um raio de sol falante e com ele descobre como melhorar o mundo. E além disso, tem a dimensão certa para a história que quer contar.
Este é um conto infantil muito razoável, perfeitamente publicável (se revisto, bem entendido), o que não se pode dizer de todos os contos presentes neste livro.
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Depois deste preâmbulo já terão percebido, certamente, que O Raio de Sol (bibliografia), de Rita Cláudia M. Silva, é um conto infantil. E perceberam bem. De resto, o próprio título já o indica.
E é um conto infantil bastante típico. O português é bom — se descontarmos dois ou três descuidos que se tivesse existido uma revisão teriam sido apanhados — e adequadamente simples, o tom é aquele típico tom moralista cheio de bons sentimentos de tantas histórias infantis, e há nele poesia e fantasia qb. Conta a história de um menino trasmontano, aldeão pobre, que trava amizade com um raio de sol falante e com ele descobre como melhorar o mundo. E além disso, tem a dimensão certa para a história que quer contar.
Este é um conto infantil muito razoável, perfeitamente publicável (se revisto, bem entendido), o que não se pode dizer de todos os contos presentes neste livro.
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sábado, 9 de maio de 2020
Daniel João Sousa: Casa Assombrada
Mais um autor que resolveu (ou alguém resolveu por ele) assinar com o nome completo. Diverti-me com isso no início deste livro, mas há já algum tempo que não me aparecia nenhum nome longo entre os pseudónimos e as combinações simples de nome+apelido que têm dominado nos últimos tempos. Daniel João Santos Sousa tem pelo menos a vantagem de o seu nome não ser daqueles que parecem nunca mais acabar; quatro palavrinhas e está a andar. E tem outra vantagem relativamente a muitos outros dos autores desta parte do livro: só tem de perder alguns vícios para conseguir escrever bem.
Casa Assombrada (bibliografia) é um pastiche de conto oitocentista, mais um, uma história anacrónica e hiperadjetivada, carregada de velhos clichés sobre... bem... casas assombradas. É inútil descrever a história: já todos a lemos, já todos assistimos a ela em inúmeros filmes e séries de TV. Não há aqui originalidade alguma. Mas há pelo menos um português que, depois de passar pela máquina desadjetivadora, pode tornar-se agradável de ler. E precisa mesmo de passar por ela, que como está é uma tal floresta de adjetivos desnecessários que torna difícil ver-se a qualidade que tenta respirar por baixo. Se o autor quiser e conseguir libertá-la, pode vir a produzir coisas interessantes. Esta não o é.
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Casa Assombrada (bibliografia) é um pastiche de conto oitocentista, mais um, uma história anacrónica e hiperadjetivada, carregada de velhos clichés sobre... bem... casas assombradas. É inútil descrever a história: já todos a lemos, já todos assistimos a ela em inúmeros filmes e séries de TV. Não há aqui originalidade alguma. Mas há pelo menos um português que, depois de passar pela máquina desadjetivadora, pode tornar-se agradável de ler. E precisa mesmo de passar por ela, que como está é uma tal floresta de adjetivos desnecessários que torna difícil ver-se a qualidade que tenta respirar por baixo. Se o autor quiser e conseguir libertá-la, pode vir a produzir coisas interessantes. Esta não o é.
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quinta-feira, 7 de maio de 2020
Michael Bishop: Doença de Menard
Já aqui falei de um conto de Jorge Luis Borges no qual um tal Pierre Menard escreve o clássico romance de Cervantes D. Quixote de la Mancha. É precisamente nesse conto que Michael Bishop pega para descrever a doença de que padece a personagem de Borges, apropriadamente chamada Doença de Menard (bibliografia). O resultado é um texto mais que assumidamente borgesiano dentro de um livro que, em si mesmo, também o é muito.
É um texto irónico, claro; o próprio conto de Borges já o era e Bishop só acentua o facto, entretendo-se não só com a evidente homenagem mas também a lançar piadas a alguns integrantes do meio literário de FC e fantástico americano. Mas parece-me que o ambiente de piada interna impede esta historinha de ter um apelo que ultrapasse o grupo restrito capaz de a compreender. É uma daquelas histórias de fandom e para o fandom. Gente de fora, provavelmente, limita-se a encolher os ombros. E se isso pode ser divertido para os de dentro, nada faz pela expansão da literatura fantástica a novos leitores, bem pelo contrário.
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É um texto irónico, claro; o próprio conto de Borges já o era e Bishop só acentua o facto, entretendo-se não só com a evidente homenagem mas também a lançar piadas a alguns integrantes do meio literário de FC e fantástico americano. Mas parece-me que o ambiente de piada interna impede esta historinha de ter um apelo que ultrapasse o grupo restrito capaz de a compreender. É uma daquelas histórias de fandom e para o fandom. Gente de fora, provavelmente, limita-se a encolher os ombros. E se isso pode ser divertido para os de dentro, nada faz pela expansão da literatura fantástica a novos leitores, bem pelo contrário.
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segunda-feira, 4 de maio de 2020
Joakim Santos: O Beijo da Morte
Mais um conto francamente mal escrito, este O Beijo da Morte (bibliografia) de JoaKim Santos, sem um mínimo de revisão que proteja o leitor e o autor da baixa qualidade do português utilizado. Sim, porque uma das funções de um editor é proteger o autor de ser exposto de forma demasiado violenta, e não o fazer é sinal de incompetência. Mas sobre isso falarei mais detalhadamente quando falar da antologia como um todo.
Sim, este conto está muito mal escrito. Querem ver? Eis o primeiro conjunto de frases que me apareceram debaixo dos olhos, ou seja, é um trecho ao calhas, nem o pior nem o melhor que aqui se acha: «Estava ainda a pensar no sucedido, difícil de imaginar quanto mais acreditar, com algum receio fui fechando os olhos, passados uns momentos suspirei de alívio, parecia-me que tudo tinha passado, (paf). — Ai! Novamente...». Pois.
À parte a fraca qualidade do português, esta é uma daquelas histórias sobrenaturais e razoavelmente lúgubres na qual o protagonista se vê assolado por coisas que não entende e das quais acaba por salvar-se porque, apesar do clima soturno, a mensagem do conto acaba por ser de alguma esperança. Um conto de horror esperançoso, por assim dizer. Mas muito, muito fraquinho. Quando o manuseio da língua é mau o resto tem de ser muito bom para que as coisas se salvem, e aqui estamos muito longe disso.
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Sim, este conto está muito mal escrito. Querem ver? Eis o primeiro conjunto de frases que me apareceram debaixo dos olhos, ou seja, é um trecho ao calhas, nem o pior nem o melhor que aqui se acha: «Estava ainda a pensar no sucedido, difícil de imaginar quanto mais acreditar, com algum receio fui fechando os olhos, passados uns momentos suspirei de alívio, parecia-me que tudo tinha passado, (paf). — Ai! Novamente...». Pois.
À parte a fraca qualidade do português, esta é uma daquelas histórias sobrenaturais e razoavelmente lúgubres na qual o protagonista se vê assolado por coisas que não entende e das quais acaba por salvar-se porque, apesar do clima soturno, a mensagem do conto acaba por ser de alguma esperança. Um conto de horror esperançoso, por assim dizer. Mas muito, muito fraquinho. Quando o manuseio da língua é mau o resto tem de ser muito bom para que as coisas se salvem, e aqui estamos muito longe disso.
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domingo, 3 de maio de 2020
António Bettencourt Viana: O Mistério dos Peixes Desaparecidos
Há uma série de decisões prévias à produção de um conto que vão ter um impacto fulcral no resultado do empreendimento. Não é só questão de ter uma ideia e desatar a escrever; temos de decidir que abordagem vamos dar a essa ideia, que personagens vamos pôr a lidar com ela, qual o grau de elaboração que é preferível dar a personagens, ambiente e à própria ideia, e por aí fora, mais uma série de coisas que vão do tipo de linguagem utilizada à extensão com que a história pode resultar melhor. É muito fácil que algumas destas decisões acabem por se revelar erradas. Aí, os autores têm duas alternativas: ou deitam fora e começam de novo, ou avançam com a coisa mesmo assim.
Muitos preferem avançar com a coisa mesmo assim. Percebo bem porquê; afinal, também eu o fiz por diversas vezes. Escrever dá trabalho e gasta tempo e, sem haver a certeza de que uma ou várias decisões diferentes no início desse trabalho vão necessariamente ter como resultado uma história melhor, isto é, de que vale a pena fazê-lo, a renitência em destruir e recomeçar é grande. Mas o resultado são todas aquelas histórias, e são tantas, que acabam por ficar insatisfatórias porque com outras abordagens ficariam com toda a probabilidade muito melhores.
Como esta?, perguntarão vocês. Sim, como esta. É que O Mistério dos Peixes Desaparecidos (bibliografia) não tem propriamente mistério. Não existe uma investigação, não há dúvidas, deduções, experiências, tentativa e erro. Há basicamente uma conversa entre um biólogo marinho que já sabe tudo o que há para saber e a sua mulher. O motivo da conversa é um dilema, pois o biólogo não sabe bem se deve ou não revelar ao mundo o que sabe. É que tinham andado a desaparecer peixes, e ele tem receio de que a revelação do porquê possa levar à destruição de algo de precioso... e a não revelação acabe com a sua carreira.
António Bettencourt Viana teria aqui material para uma história bastante mais interessante e bastante mais longa (e bastante mais sumarenta para mim, pessoalmente; afinal não é em vão que se tira um curso de biologia marinha), mas fica-se pela mediania. Por um conto de ficção científica que não é mau mas também não se pode propriamente dizer que é bom. Pena.
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Muitos preferem avançar com a coisa mesmo assim. Percebo bem porquê; afinal, também eu o fiz por diversas vezes. Escrever dá trabalho e gasta tempo e, sem haver a certeza de que uma ou várias decisões diferentes no início desse trabalho vão necessariamente ter como resultado uma história melhor, isto é, de que vale a pena fazê-lo, a renitência em destruir e recomeçar é grande. Mas o resultado são todas aquelas histórias, e são tantas, que acabam por ficar insatisfatórias porque com outras abordagens ficariam com toda a probabilidade muito melhores.
Como esta?, perguntarão vocês. Sim, como esta. É que O Mistério dos Peixes Desaparecidos (bibliografia) não tem propriamente mistério. Não existe uma investigação, não há dúvidas, deduções, experiências, tentativa e erro. Há basicamente uma conversa entre um biólogo marinho que já sabe tudo o que há para saber e a sua mulher. O motivo da conversa é um dilema, pois o biólogo não sabe bem se deve ou não revelar ao mundo o que sabe. É que tinham andado a desaparecer peixes, e ele tem receio de que a revelação do porquê possa levar à destruição de algo de precioso... e a não revelação acabe com a sua carreira.
António Bettencourt Viana teria aqui material para uma história bastante mais interessante e bastante mais longa (e bastante mais sumarenta para mim, pessoalmente; afinal não é em vão que se tira um curso de biologia marinha), mas fica-se pela mediania. Por um conto de ficção científica que não é mau mas também não se pode propriamente dizer que é bom. Pena.
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