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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Ponto da situação

Parafraseando "a malta", então é assim:

Os posts "semanais" na Lâmpada morreram. Paz à sua alma, etc. e tal e coiso. Foi um ar que se lhes deu. Puf.

Estou mais bem dispostinho: a família já sofre menos, embora ainda não se saiba o que causou o início de tudo isto, aquele mui assustador ataque de há semanas. Mas o tratamento vai resultando, e isso anima as pessoas. Ir-se tendo bons resultados nas análises — estão três feitas e a última marcada para amanhã, e de duas já se sabe o resultado; por agora, está quase tudo bem — também. Fica só aquele "mas que raio foi aquilo?" a remoer a mente, mas fica quase sempre sob controlo, bem guardado lá muito ao fundo do armazém de moléculas orgânicas a que chamamos memória.

As leituras vão passar a autonomizar-se. Acabo um conto ou livro, venho aqui dizer umas palavrinhas sobre ele, se tiver tempo, sem ficar à espera de que a roda da semana assente no sábado. E não, não tenho lido muito. Na verdade, tenho lido muito, muito pouco. Falta de tempo, sim, mas acima de tudo falta de disponibilidade mental. Fases.

Quem quiser saber como vão as traduções ou outros projetos, siga-me no twitter. De vez em quando sairão por lá umas notinhas sobre essas coisas. Por aqui será mais raro, mas não digo que não fale delas de vez em quando, em especial quando algum livro sair ou algum projeto for finalizado.

Ah, sim e reavivei o Thousands of Planets. Fui mais ou menos forçado a isso, conforme está explicado aqui. Se se interessam por planetas e sabem inglês, passem por lá.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Conflito e conteúdo segundo Rui Tavares

Sejam quais forem as outras qualidades que tem, que as terá certamente com fartura, Rui Tavares é acima de tudo um excelente cronista. Nos últimos tempos, sem dúvida fruto da campanha eleitoral e da montanha de trabalho que imagino que terá tido para se preparar para ocupar o seu lugar no Parlamento Europeu, tem-me parecido que tem descurado um pouco as crónicas no Público, mas na de hoje voltou ao seu melhor nível. E é de facto um nível muito elevado.

Quando a publicar no blogue, coisa que que costuma acontecer poucos dias depois da edição no jornal, farei aqui o link que lhe é devido, mas até lá não resisto a citar um par de passagens:

"Todos nós somos mais complexos individualmente do que em interacção com os outros. Quer dizer que as nossas ideias são mais vagas, mais confusas e menos concretas do que quando nos colocamos em conflito. Em conflito, de repente, já todos nós somos certezas, vontades inequívocas e dogmas. Basta haver uma discussão para nos revelarmos assim.
[...]
Não paramos para nos perguntarmos "se somos tão diferentes como pode ser que lutamos pela mesma coisa?" Não; enquanto se calcificam em nós as certezas sobre as nossas próprias qualidades, o adversário vai já adquirindo na nossa cabeça características cada vez mais condenatórias."


Como seria de esperar, ele passa destas considerações gerais para o campo político, e fá-lo de uma forma soberba. Se puderem, não deixem de ler.

Excelente, Rui. Simplesmente magnífico.

Adenda: e já lá está. Podem ir ler.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Curiosa coincidência

E no momento em que anda toda a gente a discutir pela enésima vez tudo e mais alguma coisa que tenha a ver com o fantástico português, os Blogtailors vão repescar ao baú da memória uma coleção e uma iniciativa de fidelização de há mais de 20 anos.

Um concurso cujo prémio foi uma viagem a Florença, ganho através dum sorteio a que só se teria acesso caso se apresentasse cupões obtidos em dez dos primeiros 14 números da coleção dupla, FC/policial, da Caminho. A das capas azuis e das capas pretas. De livros de bolso baratos, como era típico da edição de FC (e de policial) da época, com más encadernações e papel grosseiro, mas melhores traduções do que o costume de outras coleções, e uma variedade muitíssimo maior nos pontos de origem das obras que a constituem. Não faço ideia de qual terá sido o resultado do concurso. Sei que eu fui comprador regular desde o número 1 e tenho a coleção completa. É, aliás, a única coleção que tenho completa.

Uma década mais tarde, a coleção começava a morrer. Não sei se o que veio primeiro foi a queda nas vendas, se a mudança de formato e de preço, mas o que é certo é que a decadência veio de mão dada com livros de formato maior, papel bastante melhor e um preço 3-4 vezes mais elevado. Os livros, que até aí saíam com uma periodicidade regular, passaram a ser editados (e distribuídos, também) duma forma irregular, todos os anos menos. Até que a coleção fechou portas sem glória, a meio da trilogia Xenogénese da Octavia Butler, deixando por publicar não só o último volume dessa trilogia (que, segundo consta, até já estava traduzido e tudo) como também vários livros premiados no concurso que a editora promovia. Para a história ficaram alguns dos melhores livros que li na vida (e que se lixe a fraca qualidade do papel ou das encadernações — os livros eram em geral bons), e a mais importante série de livros lusófonos de FC já publicada seja onde for.

E ainda hoje provavelmente haverá fãs portugueses de FC que nem sequer sabem que a coleção existiu. Foi precisamente essa uma das primeiras coisas que me surpreendeu desagradavelmente quando comecei a conhecê-los, há coisa de 10 anos: que alguns nem sequer conhecessem uma das melhores coleções de FC que alguma vez existiu em Portugal.

terça-feira, 7 de julho de 2009

And now for something completely different

Já vimos como o twitter pode ser mal utilizado, e os blogues podem servir para dar voz ao que de mais rasca existe na natureza de certos homens, mas para que a lição fique completa vejamos um exemplo do contrário. Começa com um tuito da @canochinha_: "1.ª Guerra Mundial a cores", seguido dum link para este fotoblogue, e mais especificamente para este post.

Não sei qual a origem da cor naquelas fotografias. Podem ser mesmo fotografias a cores, visto que a tecnologia já existe desde a segunda metade do século XIX, mas também podem ser velhas fotos monocromáticas "pintadas" com um qualquer programa moderno de edição de imagem. Ou talvez haja ali uma mistura das duas técnicas. Não sei.

Mas sei que a soma da cor a uma tragédia (ou estupidez) que estamos acostumados a ver a preto e branco lhe dá uma dimensão inesperada.

Aquelas fotos impressionaram-me.

Impressionou-me, antes de mais, o facto de serem retratos dum mundo despovoado. Mesmo quando mostram situações aparentemente quotidianas, ou quando reproduzem grupos razoavelmente numerosos de pessoas, há neles uma sensação de distância e silêncio. Talvez quem viva no campo reconheça essa sensação, mas para nós, os urbanitas que somos quase todos, rodeados de ruídos, movimento e gente vinte e quatro horas sobre vinte e quatro, é algo que se vai tornando cada vez mais profundamente alienígena. Uma Terra esvaziada de gente por um cataclismo qualquer seria muito semelhante àquilo, e não conheço ninguém que tenha descrito essa sensação melhor do que Ballard, nas suas histórias pós-apocalípticas. Acho que foi só agora que compreendi mesmo de onde lhe vem essa qualidade. A guerra que ele experimentou foi outra, e noutras geografias, em princípio muito mais densamente povoadas do que o norte de França ou a Bélgica, pois deverão ser estes os lugares mais representados nas fotografias. Mas é provável que tenha passado pessoalmente por algo de muito parecido.

E impressionou-me o verde. Foi esse o grande impacto que aquelas fotos tiveram em mim. O verde, em imagens que costumo imaginar cinzentas ou, por influência dos campos de batalha mais recentes, de um amarelo esbatido, torna-se insólito. Como que lhes reduz o impacto ao mesmo tempo que o aumenta. Como que diz que independentemente do que os homens façam uns aos outros, movidos por ambição descontrolada ou estupidez igualmente fora de controlo, a vida continua. É quase certo que a maior parte daquelas fotos tenha sido tirada ao som do chilrear das aves.

Por fim, também me impressionou o contraste. Hoje, não há fotorreportagem dos teatros de guerra que não foque a atenção no sangue, no fogo, em cadáveres desmembrados. Ali, só se vêem ruínas, apesar dessa guerra ter terminado com mais de oito milhões de mortes directas e bastante mais de 50 milhões de mortes causadas pela fome e por doenças que a guerra ajudou a tornar mais mortíferas. Não sei se foi escolha propositada de quem faz o blogue — não faltam imagens de mortos na primeira guerra mundial, embora eu não conheça nenhuma que seja a cores — mas se foi, parabéns. Faz com que as de hoje pareçam piores, embora na verdade não o sejam, e acentua a impressão de que nada aprendemos com a história, bem pelo contrário.

É o que acontece a quem é demasiado arrogante para reconhecer os erros que comete. Está condenado a repetir uma e outra vez as mesmíssimas cretinices.

Portugal, globalmente considerado, é assim. E se calhar o mundo também.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Os meninos crescidos

Quando os meninos que ainda não são crescidos fazem asneiras, e estas chegam ao conhecimento dos pais, costumam defender-se apontando para o irmão e dizendo "foi ele". Julgam assim evitar o açoite ou o ir para a cama mais cedo, ou no mínimo obterem companheiro para a desgraça. Às vezes, esta estratégia resulta, e quando os meninos crescem nunca deixam de fazer isso, como bem temos visto, por exemplo, no caso BCP. Ficam assim uns meninos pequeninos em corpo de grande, e continuam a amuar e a dizer "foi ele", ainda que com mais sisudez e gravatas.

Mas há meninos que crescem mesmo. E parte desse crescimento revela-se na capacidade de assumir as asneiras que fazem.

Ao longo do último fim de semana fiz várias.

A primeira, maior e fundamental porque foi a que deu origem às outras foi não ter em nenhum momento parado para pensar "espera lá, rapaz, tu estás doente, com febre, dói-te o corpo, a cabeça e a garganta, sentes-te mal e estás irritável, não achas que devias deixar isto para mais tarde?" Se o tivesse feito, o mais certo seria não reagir quando o Seixas pôs no blogue que "o Jorge Candeias [se dedica] em exclusivo à tradução", como se o Bibliowiki e todo o trabalho que dá não existissem, como se não houvessem aqui mesmo neste blogue, todas as semanas, pequenas opiniões sobre aquilo que vou lendo, em boa parte literatura fantástica, como se não estivesse envolvido no Odisseias Fantásticas. O mais certo teria sido ignorar mais esta pequena provocação como mais uma. Afinal, até quando ele atacou directamente a credibilidade do Bibliowiki só reagi depois de haver insistência, e isso foi muito mais sério do que esta insidiazinha insignificante de há dias.

Mas não. Cometi primeiro a asneira de lhe dar troco e depois a de lhe dar troco duma forma contaminada pelo modo como eu próprio vejo a questão da propalada ausência de público para a FC. De facto, relendo o que ele escreveu agora que já me passou a febre tenho de admitir que "Eu acho espantoso que o Seixas se queixe da ausência de edição de FC em Portugal. Dir-se-ia que ele não tem uma editora..." (o conteúdo do meu tuíto) tem mais a ver com a minha opinião de que se a FC vende pouco é porque as nossas editoras ainda não encontraram forma de chegar aos leitores que andam por aí do que com o que ele realmente escreveu. Eu de facto penso que proclamar a inexistência de público é uma forma fácil de evitar ter o trabalho de o encontrar ou de tentar ocultar o falhanço na estratégia que se segue, quando existe alguma. E essa opinião contaminou de tal forma o modo como li o texto dele que, somando-se à irritação pela provocaçãozinha, e a uma irritação antiga com a Livros de Areia por ter feito aquele que é, de longe, o seu pior trabalho de edição com o único livro de FC que editou (é preciso ter olhos de águia para conseguir ler-se o livro), me levou a algum enviesamento no alvo do tuito. Neste ponto, e apenas neste ponto, o Seixas tem razão.

Seja como for, não me parece que haja alguma justificação para a tempestade que se seguiu, para a chuva de provocações e insultos, cada um mais insidioso do que o outro, e aí o meu maior erro foi ter continuado a alimentá-la, e tê-lo feito durante algum tempo no twitter, com mensagens que nos seus 140 caracteres nunca chegaram nem perto de conseguir transmitir por completo a minha opinião. A questão do amador/profissional, por exemplo, nasceu num tuíto em que eu me interrogava sobre qual era o objectivo da editora porque "ganhar dinheiro não seria", querendo com isto referir-me a dinheiro suficiente para que os editores se tornassem (lá está) profissionais, ou seja, vivessem primordialmente dessa actividade. Ao primeiro estrondo do trovão, devia ter transferido a conversa para o blogue onde tenho todo o espaço do mundo para explicar as minhas ideias até ao fim. Ou antes, devia ter esperado até ficar em condições, com a cabeça livre de febre, dores e comprimidos, para sustentar uma discussão complicada, cheia
de veneno desde o princípio, que só piorou quando o Seixas publicou esta coisa inqualificável, seguida por isto, igualmente inqualificável não tanto pelo desmascarar da desonestidade do Seixas, que assumo por completo e nenhum remorso me causa, mas pela forma completamente bronca como o fiz. Como disse nesse mesmo post, o que não deixa de encerrar uma triste ironia, é precisamente este tipo de merdas (não têm outro nome) que descredibiliza o género e os seus actores, e eu também ganhei para mim um lugarzinho na tal câmara de vácuo.

Prefiro é que seja numa diferente da que o Seixas ocupa, se não se importam. Só por causa cá duns quinhentos...

Eis um artigo com que não concordo

Num contraste evidente com acontecimentos recentes e outras personagens (eu próprio incluído, sem dúvida), há quem tenha gasto o tempo a escrever o melhor artigo sobre a FC que eu li desde há muito tempo. E nem sequer concordo com ele.

Oh, não há dúvida de que a FC americana é dominante a nível mundial. Isso não tem discussão. Mas não me parece que os motivos sejam exactamente os que o Luís aponta. Há outros. A força de Hollywood, principalmente, que impôs no mundo todo uma forma de contar histórias na qual a FC americana se insere, tornando-nos, cá fora, mais receptivos a ela. Mais eficaz do que as outras num dado momento, sem dúvida. Mas melhor? Aí já tenho dúvidas.

E a história das pilhas é gira, mas sofre duma injustiça básica: todos nós consumimos FC norte-americana desde pequenos, porque, com raras excepções (raríssimas se excluirmos os autores britânicos), era essa a FC que se traduzia e traduz, foi essa a FC que formou o gosto de muita gente, foi entre essa FC que foram encontrados os primeiros autores preferidos. Em contraste, da polaca temos apenas o Lem. Da russa os Strugatsky. Da francesa, Verne e pouco mais. E das outras, nada.

Sem conhecer não podemos escolher. Se não temos acesso às coisas não podemos saber se são melhores ou piores do que aquelas a que temos acesso. E é precisamente por isso que eu escolheria a pilha do resto do mundo: a americana já conheço e levo-a comigo na cabeça. Que arda. Prefiro salvar os mundos de todos os outros. Os mundos que ainda não conheço.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

As notas de rodapé, seja onde for

A Helena Pitta dá hoje, no Blogtailors, a sua opinião relativamente às notas de rodapé na tradução. Como é disso que vivo e já tive, naturalmente, de me confrontar com a decisão de colocar, ou não, notas de rodapé nas coisas que traduzo, o título despertou-me o interesse e fui ler.

E dificilmente conseguiria discordar mais.

Um tradutor, tal como um escritor, aliás, é, antes de mais, um leitor. E muitas das opções que toma no seu ofício são, em grande medida, determinadas por aquilo que lhe agrada ver, ou não, naquilo que vai lendo. É evidente, pelo que diz, que a Helena Pitta gosta de ler notas de rodapé, e provavelmente sempre gostou. Gosta de ser arrancada ao fluxo da narrativa e dispersar-se por linhas e mais linhas de letrinhas miudinhas, cheias de informações que considera relevantes. Já eu, detesto.

Oh, bem sei que por vezes são inevitáveis. Quando traduzi O Dilema de Shakespeare (ou Ruled Britannia, no original) vi-me obrigado a explicar trocadilhos intraduzíveis porque, sem a explicação, havia partes da tradução que deixavam de fazer sentido. Também usei as notas de rodapé para deixar ao leitor a possibilidade de ler o original de alguns poemas que surgem no texto e que, naturalmente, traduzi. E, se bem me lembro, houve um único detalhe histórico que achei conveniente explicar. Mas se tivesse usado uma nota de rodapé por cada poema, por cada trocadilho, ou por cada peculiaridade histórica de eventual interesse, provavelmente teria transformado as suas 477 páginas em 774.

De modo que vejo utilidade nas notas de rodapé, não digo que não. Mas só quando são inevitáveis. Quando o tradutor tem de reconhecer as limitações da sua arte e engenho, tem de reconhecer que não é capaz de transformar este ou aquele trecho em português inteligível. É para isso que servem as notas de rodapé, segundo o meu modo de ver as coisas. Para mais nada.

Porque quando se tenta pô-las a fazer mais coisas, cai-se geralmente em ratoeiras que estão sempre prontas a caçar os incautos. Cai-se na ratoeira de mostrar ignorância quando se usam notas de rodapé para explicar coisas que toda a gente sabe, tornando evidente que só o tradutor é que teve de ir à procura daquela informação para conseguir compreender o texto. Cai-se na ratoeira de mostrar arrogância, ao partir-se do princípio que quem vai ler é ignorante sobre o tema da nota. E cai-se na ratoeira de começar a irritar solenemente o leitor que até sabe as coisas que o tradutor acha que não sabe e não está disposto a ser arrancado ao fluxo da narrativa por causa de irrelevâncias. Anos de leitura de argonautas, em que os tradutores achavam, de vez em quando, boa ideia explicar detalhes de física, química ou biologia que aprendi no secundário, e quantas vezes com explicações cheias de erros, levaram-me a nutrir uma salutar antipatia por tais sintomas de falhanço na arte de contar histórias.

Sim, porque, excepto quando se pretende com elas gerar precisamente o tipo de texto dispersivo e fragmentário que as notas originam, o que é em si mesmo um objectivo literário inteiramente válido no qual as notas são também literatura, elas são sempre um sintoma de falhanço. Um bom contador de histórias é capaz de integrar no fluxo da narrativa, e sem perda de interesse para o leitor, todas as informações de que esse leitor necessita para apreciar e compreender aquilo que está a ler. Alguém que tem de recorrer a notas de rodapé para fornecer a informação necessária é alguém que conhece mal a arte que supostamente domina.

Isto, naturalmente, na minha modestíssima opinião.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Antes que o dia acabe...

Antes que o dia acabe, deixem-me roubar uns segundos ao avanço inexorável do tempo para assinalar algo de que fui recordado pelo serviço público que é este blogue: a Lâmpada faz hoje 6 anos. Para o ano já vai para a escola.

E agora com licença, que vou ali pô-la a soprar velas.

sábado, 18 de abril de 2009

The stars, my destiny

OK, o título do post é uma brincadeira que reutiliza o título de um belíssimo romande de ficção científica de Alfred Bester, publicado em Portugal em duas traduções diferentes em 1977 e 1985. Ou de um dos títulos, porque teve dois, sendo o outro Tiger! Tiger! Vivamente recomendável. Mas não é disso que vos quero falar; é do Nuno Galopim.

O Nuno Galopim resolveu fazer uma breve visita ao centro russo de treino de astronautas, e eu acho muitíssimo bem, ainda por cima por ter feito também uma brincadeira com o título de outra obra marcante na ficção científica duma certa geração: a série Espaço: 1999.

O que já não me parece bem é ter-lhe chamado "Star City".

Não, Nuno, aquilo não se chama Star City. Se quisermos ser pernósticos e dar-lhe um nome em estrangeiro, então chamemos-lhe pelo seu nome russo: Звёздный городок, o que se poderia transcrever em português como Zviozdni Gorodok. Star City é, tão-só, a tradução inglesa desse nome, e se vamos usar uma tradução pois que se use a portuguesa, já que o resto do texto é em português. Sim, embora Звёздный городок não signifique precisamente Cidade das Estrelas, é esse o nome comum do lugar em português, provavelmente por adaptação da designação inglesa. Portanto é essa a designação que se deve usar em textos portugueses. Cidade das Estrelas, não Star City.

Mesmo no caso de não haver já uma designação comum na nossa língua, nunca seria boa ideia chamar ao lugar Star City. A Rússia não é um país anglófono. Ou se usava a transcrição do russo, ou então traduzia-se directamente para português. E a tradução mais correcta, nesse caso, seria "Vila das Estrelas", visto que cidade em russo é город (gorod), não городок (gorodok). Городок quer dizer, textualmente, "cidadezinha".

Tá bem?

terça-feira, 24 de março de 2009

Acontecem coisas estranhas com as minhas críticas

Agora foi uma crítica publicada há sete anos, no E-nigma, sobre o romance de Clifford D. Simak Estação de Trânsito que apareceu parcialmente republicada num blogue afiliado à biblioteca do Instituto Politécnico de Bragança. Como? Porquê? Não sei, visto que ninguém me contactou, ninguém me disse nada, ninguém me pediu autorização (embora este tipo de republicação possa estar abrangido pelo conceito de fair use). Em princípio, não tenho nada a opor a que as minhas críticas surjam noutros sítios, mas gostaria de saber antecipadamente onde e porquê, especialmente num caso como este em que ela surge pela metade. E embora registe com agrado que o nome do autor está lá, o que nem sempre acontece (há muita, muita falta de ética por aí), gostaria que também estivesse uma ligação para a publicação de onde ela foi retirada, até para que quem quisesse a pudesse consultar na íntegra.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A entrevista

Quem está a ler isto no Odisseias Fantásticas provavelmente já sabe, visto que a coisa está publicada dois posts abaixo. Mas quem lê na Lâmpada ou nalgum feed RSS próprio provavelmente ainda não, de modo que cá vai.

Foi publicada ontem à noite (ou hoje de madrugada, não sei bem), no Correio do Fantástico, uma entrevista comigo. Nela fala-se de literatura fantástica em geral e do meu romance, Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, de blogues e de publicação electrónica, de influências e atracções. Se quiserem saber o que penso sobre esses assuntos, basta seguir os links. Ou parte do que penso. Não é numa entrevista só que o tema se esgota, e ao relê-la não consegui evitar pensar "aqui podia ter dito mais isto ou aquilo" e "isto ficava mais claro se tivesse sido expresso assim ou assado". Mas uma coisa é certa, e aí temos uma vantagem inegável da publicação electrónica sobre a publicação em papel, ou mesmo a rádio e televisão: tudo o que eu escrevi em resposta às perguntas que me foram enviadas está lá, sem cortes nem amputações. Não são muitas as entrevistas dadas a outros meios em que se pode dizer o mesmo.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Odisseias Fantásticas

Como provavelmente já saberão quase todos os leitores deste blogue mais interessados nestas coisas, tornei-me editor do Odisseias Fantásticas. Para quem não sabe, trata-se de um blogue que agrega aquilo que se vai postando noutros blogues ligados de uma forma ou de outra ao fantástico, sob todas as suas vertentes. E eu, enquanto editor, o que tenho de fazer é gerir as pertenças: verificar se os candidatos reúnem condições para se tornarem membros, identificar novos blogues com potencial, lidar com blogues inactivos ou extintos, esse tipo de coisa. Não é muito trabalho, espero — não tenho tempo para coisas que me dêem muito trabalho (como o estado meio dormente da própria Lâmpada atesta, aliás) — embora ainda seja algum nesta fase inicial, até as coisas entrarem em velocidade de cruzeiro. Seja como for, já sabem: se conhecem ou têm algum blogue que julguem poder inserir-se ali bem, avisem. O editor agradece.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Não participo

Não, não vou participar nisto. Por uma questão de princípio. Têm categorias para tudo e mais alguma coisa, até para o mais recente modismo com uma implantação insignificante: os booktrailers. Mas para os tradutores?

Traduquem?

Portanto não, não participo. E se, como eu, acharem inaceitável que o trabalho dos tradutores continue a ser sistematicamente esquecido (salvo quando é para deitar abaixo), o apelo que faço é para não participarem também.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Mania de meterem deus onde não é chamado

Conhecem o The Big Picture? Se não conhecem, façam um favor a vós próprios e passem urgentemente a conhecer. Trata-se de um blogue fenomenal que nos apresenta o mundo através do poder da fotografia.

Quem diz o mundo diz também o universo, pois eles não se limitam a este cantinho do todo em que vivemos e raramente hesitam em nos deixarem espreitar os outros. Foi o caso deste conjunto de imagens do Hubble, cuja função é espreitar tudo aquilo que fica fora do nosso cantinho do todo.

So far so good, lá diriam os paquistaneses. O problema é o teor dos comentários beatos, que raiam o insultuoso. Confrontados com a beleza das imagens, o beatério não tem uma palavra para quem construiu os aparelhos que lhes permitem apreciá-las, não tem um agradecimento a fazer às gerações de cientistas que acumularam o conhecimento que nos permite hoje ter um telescópio em órbita, computadores e internet. Não. Para eles, vidas inteiras de labor humano são irrelevantes. Aquela beleza é fruto de deus, como se as imagens lhes aparecessem à frente do nariz por milagre divino.

Lá tive de deixar um comentário, que traduzo aqui:

A beleza está nos olhos de quem a vê. Nós achamos estas imagens belas porque é esse o resultado do modo como estamos constituídos. E porque as pessoas que enquadraram as imagens e, por vezes, escolheram as cores (sim, algumas destas imagens mostram cores falsas) são... bem... pessoas. Não há qualquer deus nisso: há apenas as nossas mentes a trabalhar como evoluíram para trabalhar. Se tivessem evoluído de outra forma, as imagens aqui exibidas seriam diferentes, e no entanto essas pessoas alteradas fitá-las-iam maravilhadas, tal como nós.
Para terminar, nós podemos ver esta beleza não porque um bando qualquer de ascetas místicos rezou com muita força, mas porque algumas pessoas abandonaram os dogmas e se puseram a sondar a verdadeira natureza das coisas. Chamamos-lhes cientistas, e são eles o motivo de termos um telescópio em órbita, computadores nas nossas casas e a internet que traz as imagens desse telescópio aos nossos computadores. Também nisso não há qualquer deus.
Claro que sei que não serve de muito. O beatério nem sequer se dá conta do insulto implícito em deitar para o lixo todo o trabalho de quem criou as imagens e os meios para as obter e disponibilizar. Lêem isto e só conseguem ver um ateu a dizer que deus não existe, cegos perante as subtilezas daquilo que eu realmente estou a dizer. Mas não importa. Alguém há de entender, e na verdade basta que uma pessoa entenda para já valer a pena.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Exemplar

Esta crónica do Rui Tavares é absolutamente exemplar. Uma leitura particularmente útil a todos aqueles que, ao lê-la, enfiarem a carapuça.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Byblos

A blogosfera literária (e não só) anda por aí toda com qualquer coisa aos saltos por causa do encerramento da Byblos. E eu, como também gostava de ter qualquer coisa aos saltos, resolvi também fazer o meu comentário a esse momento de transcendental importância. Nada como estar na moda. Portanto cá vai:

Nunca lá pus os pés.

domingo, 2 de novembro de 2008

Escrever, para quem?

De tudo o que aqui é dito (refiro-me, naturalmente, ao filme) uma coisa, acima de todas, vale a pena reter. Está mesmo no fim. Bradbury descobriu a dado ponto da sua carreira que o escritor não escreve para Fulano ou Beltrano; escreve para si próprio.

Por mais que custe aos egos dos leitores, que gostam de estabelecer uma relação quase pessoal com o escritor que escreve aquelas coisas que os tocam, por vezes, tão profundamente, é isso mesmo. Escritor que tente escrever para os outros é escritor que nunca deixará de ser medíocre, que nunca deixará de se limitar à superfície das coisas. Só escrevendo para si próprio é possível atingir a grandeza. Não que escrever para si a torne inevitável, longe disso, mas é a única coisa que a torna possível.

O mistério da escrita é muitas vezes esse. Como é que se passa de algo feito para si próprio, de algo capaz de satisfazer o crítico interno, capaz de tocar o nosso próprio âmago, para algo que desperte a curiosidade, o interesse, a apreciação e, nos casos mais bem sucedidos, a devoção, de outras pessoas. Desvendar este mistério tornaria a vida de toda a gente envolvida no grande mundo da literatura muito mais fácil. Falo por mim, que apesar de ter já passado por experiências semelhantes à que o Bradbury descreve, de terminar um conto e não propriamente rebentar em lágrimas mas sentir aquele aperto no peito que é o estágio imediatamente anterior (com este conto, por exemplo; aquela avó deve andar mesmo pelo lugar para onde vão as coisas que desaparecem), nunca consegui uma ligação tão forte, nem de perto nem de longe, como a que ele consegue estabelecer com os seus leitores. E escrevo para mim. Ou seja, sou a prova viva de que isso é importante, mas não chega.

Mesmo quando escrevo disparates, escrevo-os para mim. O Por Vós lhe Mandarei Embaixadores foi escrito para me divertir (e divertiu e continua a divertir), e também para resolver um velho trauma que a escola me causou ao obrigar-me à particularmente estúpida actividade de dividir orações nos Lusíadas. Resta saber é se diverte mais alguém. E se toda aquela brincadeira em volta do Camões tem interesse para alguém além de mim.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Mania das odisseias que esta malta tem

A malta da FC tem a mania das odisseias. Não que o Homero faça parte da malta da FC, note-se... embora se calhar até fizesse, se fosse vivo hoje. Mas há qualquer coisa em odisseias que parece apelar ao córtex pré-frontal dos feceítas. Ou ao sistema límbico, não sei bem.

Seja como e porque for, o certo é que apareceu por aí mais uma. Ou várias, porque em vez de Odisseia é Odisseias. Fantásticas, claro.

Está aqui, e é um blogue agregador de blogues de gente ligada, de uma forma ou de outra, ao chamado fandom português. Escritores, tradutores, editores, críticos, organizadores de eventos, consumidores, estamos por lá já vários e como o blogue está muito no início e é assumidamente um trabalho em andamento o mais certo é que daqui a uns meses sejamos bastante mais. Eu pessoalmente conheço vários outros blogues que podiam perfeitamente entrar também no bando. E se se começar a incluir também brasileiros, mais um pouco.

A Lâmpada por lá anda, evidentemente. O que é giro. Porque este post, que fala do Odisseias Fantásticas, vai aparecer não tarda no... Odisseias Fantásticas. De cá liga-se para lá, e de lá para cá, sendo que "cá" e "lá" são relativos ao local onde este texto for lido.

É o chamado post circular.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

domingo, 5 de outubro de 2008

Alerta de Bandeira!

Em Maio, o Bandeira fechou o blogue. Na altura não disse nada, porque não adiantava dizer nada. Comprovei-o nas várias vezes que os autores de blogues que seguia com prazer resolveram acabar com eles, explicita ou implicitamente, pois nunca vi nenhum deles ser demovido por fosse o que fosse escrito por mim, ou pelos outros bloguistas e comentadores que se referiram ao facto.

De modo que fiquei calado quando o Bandeira fechou o blogue. Já há tristezas mais que suficientes por aí sem andarmos todos a poluir a blogosfera com tristezinhas deste calibre.

Ah, mas agora que o reabriu, não! Agora que voltou às lides, agora que regressou para junto de nós, não me calo! Porque agora é tempo de exprimir alegria.

Bem-vindo de volta, pá!