Eis a segunda-feira.
Vou começar por um pouco de história pessoal, se não se importam. Quem quiser ir directamente para os finalmentes sem passar pelo meu umbigo, é favor saltar os próximos dois parágrafos.
No final de 2002, perdi o emprego em que tinha ganho a vida durante os dois anos anteriores, um emprego bastante mal pago mas razoavelmente interessante - em grande medida porque me permitia ganhar a vida escrevendo - como jornalista num jornal algarvio. Apesar de parte dessa perda de emprego ter sido de minha responsabilidade (o chefe queria que eu continuasse, passando a trabalhar menos e a ganhar metade do salário, e eu recusei), fiz a mesma pergunta que faz muita gente quando perde um emprego: "E agora, faço o quê?"
Lá fiz aquelas coisas que se espera que um recém-desempregado faça: tentei sondar o mercado de trabalho para ver o que nele haveria disponível que me pudesse dar a ganhar a vida e inscrevi-me no centro de emprego. E, como é costume acontecer, coleccionei nãos e horas de espera por contactos que nunca chegaram.
Muita gente, chegada a este ponto, entra em depressão. Mas eu pus-me a escrever. Escrevi para me distrair, para me divertir, uma história que me desse para sorrir ou até, se possível, rir em voz alta, uma história muito louca sobre o que aconteceria se um emissário de uma espécie extraterrestre chegasse à Terra e deparasse com políticos mais interessados em saber se mantinham os cargos ou não do que no que o raio do "bicho" tinha a dizer. E escrevi, e escrevi, e escrevi.
Cerca de dois meses depois, tinha nas mãos um pequeno romance, uma sátira de ficção científica em que a ordem dos factores não é irrelevante porque é primeiro sátira e só depois FC (sim, caros puristas, vocês não vão gostar). Chamei-lhe Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, um verso dos Lusíadas, por motivos que compreenderão quando o lerem. O livro cumpriu o seu desígnio: divertiu-me numa altura complicada da minha vida, e continua a divertir-me hoje quando lhe passo os olhos por cima. Mas será que diverte mais alguém?
Só o tentei publicar uma vez. Enviei-o para a Presença, pensando que talvez quisessem incluí-lo na colecção Viajantes do Tempo, mas veio de volta com a nota de que tinha muito humor e pouca FC, o que não me desapontou minimamente porque é verdade. Depois disso, olhei à volta e não encontrei nenhuma colecção ou editora em que achasse que o livro se enquadrava bem e não voltei a tentar publicá-lo. A não ser, talvez, a Antígona, esses anarcas, mas por lá não se aceitam propostas de originais, o que me deixou na mesma.
Mas deixá-lo eternamente na gaveta também não é ideia que me agrade. De modo que aqui o têm. Será publicado ao ritmo de um capítulo por semana, às segundas-feiras, no blogue criado para o efeito. O blogue está configurado por forma a ter apenas o último capítulo na página inicial; se quiserem ler os anteriores terão de ir vasculhar nos arquivos. E lá para fins de Setembro, princípios de Outubro, conto ter também à venda o romance em papel, para quem o preferir assim, com uma paginação decente, um posfácio, e, espero, uma capa catita.
Para já, têm disponível o primeiro capítulo. Não serão todos tão pequenos, não se preocupem; este primeiro capítulo é, provavelmente, o mais curto de todos. Mas são quase 30, de modo que temos paródia para bastante tempo.
Espero que se divirtam.
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segunda-feira, 28 de julho de 2008
domingo, 25 de maio de 2008
Pensando melhor...
Pensando melhor, o plano que expus aqui em baixo nunca iria resultar:
- Os madeirenses nunca votariam "naqueles cubanos do Contnent";
- Os açorianos ficariam o tempo todo à espera de ver aparecer a Nelly Furtado e quando descobrissem que ela afinal não ia cantar já se teria acabado o prazo para a votação, altura em que resmungariam qualquer coisa ininteligível e rogariam uma praga ao espírito santo;
- Os algarvios só votariam no Reino Unido, Alemanha, Holanda e Suécia, para não chatear as "mulas";
- A Cova da Moura não votaria porque lá ninguém tem dinheiro para pagar a conta do telefone;
- Os países pequeninos, quando nos vissem chegar em massa, com as camisolas da selecção, os garrafões de tintol e os couratos, aos gritos de "Cristianooo Ronaldooo", fugiriam da Europa e iriam pedir asilo político à Ásia. Com terramotos, tsunamis, tufões e tudo;
- Os caboverdianos só votariam no representante da Cova da Moura;
- E no estado em que estão as finanças lusas, cortar os telefones aos imigrantes de Leste significaria privar o país de uma importante fonte de receitas, fundos que de outro modo seriam encaminhados directamente para a Rússia, Ucrânia, Roménia ou Moldávia.
Ou seja, o meu brilhante plano de seis pontos só daria bronca. É pena.
- Os madeirenses nunca votariam "naqueles cubanos do Contnent";
- Os açorianos ficariam o tempo todo à espera de ver aparecer a Nelly Furtado e quando descobrissem que ela afinal não ia cantar já se teria acabado o prazo para a votação, altura em que resmungariam qualquer coisa ininteligível e rogariam uma praga ao espírito santo;
- Os algarvios só votariam no Reino Unido, Alemanha, Holanda e Suécia, para não chatear as "mulas";
- A Cova da Moura não votaria porque lá ninguém tem dinheiro para pagar a conta do telefone;
- Os países pequeninos, quando nos vissem chegar em massa, com as camisolas da selecção, os garrafões de tintol e os couratos, aos gritos de "Cristianooo Ronaldooo", fugiriam da Europa e iriam pedir asilo político à Ásia. Com terramotos, tsunamis, tufões e tudo;
- Os caboverdianos só votariam no representante da Cova da Moura;
- E no estado em que estão as finanças lusas, cortar os telefones aos imigrantes de Leste significaria privar o país de uma importante fonte de receitas, fundos que de outro modo seriam encaminhados directamente para a Rússia, Ucrânia, Roménia ou Moldávia.
Ou seja, o meu brilhante plano de seis pontos só daria bronca. É pena.
sábado, 24 de maio de 2008
Plano para ganhar o festival da canção
É fácil. Para ganhar o festival da canção, ou Portugal ou um país congénere, basta:
1) Dar a independência à Madeira
2) Dar a independência aos Açores
3) Dar a independência ao Algarve
3½) Dar a independência à Cova da Moura
4) Emigrar em grande número para países pequeninos (Malta, São Marino, Liechtenstein, Islândia, etc.)
5) Convencer a Eurovisão a integrar Cabo Verde
6) Votarmos todos uns nos outros.
Para cumprir o ponto 6 convém cortar durante um par de horas os telefones dos imigrantes ucranianos, que de há uns anos para cá fazem com que Portugal dê sempre a vitória à Ucrânia, o que é chato. Cumprido este plano (e o corte de telefone), a vitória é nossa.
Agora a sério: quem é que ainda leva a sério o festival da eurovisão? No meio de todo aquele eurolixo houve três ou quatro canções que se podiam ouvir, em especial a da Turquia. E a luso-croata também. O resto... entre a pop requentada e o pimba lá deles venha o diabo e escolha.
1) Dar a independência à Madeira
2) Dar a independência aos Açores
3) Dar a independência ao Algarve
3½) Dar a independência à Cova da Moura
4) Emigrar em grande número para países pequeninos (Malta, São Marino, Liechtenstein, Islândia, etc.)
5) Convencer a Eurovisão a integrar Cabo Verde
6) Votarmos todos uns nos outros.
Para cumprir o ponto 6 convém cortar durante um par de horas os telefones dos imigrantes ucranianos, que de há uns anos para cá fazem com que Portugal dê sempre a vitória à Ucrânia, o que é chato. Cumprido este plano (e o corte de telefone), a vitória é nossa.
Agora a sério: quem é que ainda leva a sério o festival da eurovisão? No meio de todo aquele eurolixo houve três ou quatro canções que se podiam ouvir, em especial a da Turquia. E a luso-croata também. O resto... entre a pop requentada e o pimba lá deles venha o diabo e escolha.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
A gralha deturpadora
No mundo dos corvídeos textuais, há gralhas e há gralhas. Há gralhas, as grqlhas, que são óbvias e evidentes. Fáceis de detectar, são ainda mais fáceis de eliminar porque não fogem, não se escondem, limitam-se a ficar ali, garridamente coloridas, como toureiros a dar a capa ao touro. Depois há um segundo tipo de gralha, a grslha, ou gralha camuflada, que é simples de corrigir quando detectada, mas nem sempre é fácil de detectar. É que se esconde, muito quieta entre o ruído de fundo, sem um movimento, sem soltar um som, dir-se-ia que sem respirar. E há ainda um terceiro tipo, a gralha deturpadora, ou grelha. Estas são as piores. Não só se escondem como se chegam mesmo a mascarar daquilo que não são. Não só tentam escapar ao caçador pelo imobilismo como fogem e se esgueiram para a toca, vestidas de coelhos ou toupeiras. Astutas e terríveis, as gralhas deturpadoras exigem atenção e rapidez no gatilho e não se compadecem com cansaços e noites mal dormidas. Chegam mesmo a aproveitar-se delas.
Matei uma recentemente. No livro que acabei hoje de traduzir uma personagem reflecte sobre a sua necessidade de matar um homem. Tenta convencer-se a fazê-lo, apesar de isso ir contra a sua consciência, porque precisa de ganhar a confiança das pessoas que o acompanham e que lhe exigem que o faça. E para isso pensa: "O homem está morto. Que importa que seja a minha mão a matá-lo?"
Mas antes da gralha morta, o que a personagem pensava era: "O homem está morto. Que importa que seja a minha mãe a matá-lo?" O que é algo de muito diferente. Muito diferente mesmo.
Matei uma recentemente. No livro que acabei hoje de traduzir uma personagem reflecte sobre a sua necessidade de matar um homem. Tenta convencer-se a fazê-lo, apesar de isso ir contra a sua consciência, porque precisa de ganhar a confiança das pessoas que o acompanham e que lhe exigem que o faça. E para isso pensa: "O homem está morto. Que importa que seja a minha mão a matá-lo?"
Mas antes da gralha morta, o que a personagem pensava era: "O homem está morto. Que importa que seja a minha mãe a matá-lo?" O que é algo de muito diferente. Muito diferente mesmo.
terça-feira, 22 de abril de 2008
A origem das espécies linguísticas
A-ha! Mais um dia em que o trabalho acaba e a minha cabeça ainda não está em pleno toque de finados! Devia aproveitar para saboreá-lo, pois tem sido coisa rara. Mas não. Em vez disso venho para aqui mandar mais uma posta de pescada.
Desta vez não é sobre o acordo, mas tem a ver com aquilo que lhe subjaz: a própria língua. E tem a ver com umas contestações que apareceram na caixa de comentários, principalmente com esta:
Nunca afirmei que a diversidade dialectal fosse função da vastidão geo ou demográfica. O que afirmei foi:
O que eu queria dizer com isto, e pelos vistos não fui suficientemente claro, é que só é possível criar uma ortografia fonética em línguas que obedeçam simultaneamente a todas aquelas condições. Isto é, línguas que: 1) sejam pequenas, 2) sejam faladas por pouca gente, 3) estejam concentradas em territórios restritos e 4) tenham pouca variação fonética. Estas condições estão interligadas, influenciam-se, mas não se determinam umas às outras. E se referi estas condições foi para deixar claro que a língua portuguesa, por não obedecer a nenhuma delas, não poderá nunca ter uma escrita fonética; terá sempre de ter uma escrita que resulte de um equilíbrio entre as várias fonéticas que incorpora, a história das palavras e a pura convenção.
Estamos de acordo?
Já agora, visto que me desviei do caminho principal para uma estrada secundária que tem pouca relevância para o acordo em concreto, vou segui-la até um pouco mais à frente. Tenho umas ideiazitas extra a deixar aqui. Não as vou explorar muito, que nem tenho tempo nem este é o lugar certo, mas é capaz de valer a pena esboçá-las.
Como é que se originam as línguas? Salvo casos especiais, em que existe uma intervenção criadora de um pequeno grupo de indivíduos que depois se espalha para grupos maiores (caso das línguas construídas, basicamente), as línguas têm uma evolução muito semelhante à das espécies biológicas (e a maior parte de vocês acabou neste momento de entender o título do post). Evoluem naturalmente umas das outras, através de uma sucessão de pequenas mudanças que se vão acumulando com o tempo até gerar grandes diferenças. Uma diferença importante relativamente à analogia biológica é que as línguas, salvo em circunstâncias muito particulares, estão constantemente em processo de fertilização cruzada, transferindo conceitos e fenómenos linguísticos de umas para outras, o que em geral não acontece com a vida. Mas a maior parte dos motores da evolução são idênticos. As línguas, tal como as espécies, também necessitam de isolamento para se diferenciarem, o que aliás é óbvio se olharmos para um mapa das línguas do mundo e constatarmos que as regiões onde existe um número maior de línguas por unidade de área são regiões que dificultam os movimentos ao bicho-homem, nomeadamente regiões montanhosas, florestas densas, etc. O mesmo acontece, em menor escala, dentro das línguas, com os seus dialectos, subdialectos e sotaques.
Ou seja, historicamente, quando uma determinada população se isolava de outras populações que lhe eram afins, geravam-se as condições para a divergência. Foi isso, aliás, que aconteceu com as línguas latinas, todas elas derivadas do latim comum que se falava há dois mil anos ao longo da vastidão do Império Romano. Com o fim deste, com a criação de uma multiplicidade de estados independentes, a limitação de contactos entre eles e o desaparecimento da elite romana que tendia a uniformizar a língua no Império, os vários latins vulgares começaram a divergir (provavelmente a partir de sotaques e dialectos existentes ainda nos tempos romanos) e resultaram neste grande grupo de línguas que conhecemos hoje (e mais algumas que entretanto se extinguiram), que segundo o Ethnologue são 48, faladas hoje por cerca de setecentos milhões de pessoas um pouco por todo o planeta, mas essencialmente na Europa, nas Américas e em África.
Foi também assim que surgiram as variantes do português. Todas elas, não apenas a dicotomia mais básica entre o português de Portugal e o do Brasil. Mais básica e mais preguiçosa, pois não só existem variantes de português fora dos dois principais países da lusofonia, também é facto que quer num quer noutro existem vários dialectos, muitas vezes incorporando construções linguísticas que se costuma imaginar serem características da língua falada do outro lado do oceano.
E se assim surgiram, dir-se-ia, assim continuariam a divergir até que, algures no futuro, se transformariam em línguas diferentes com uma raiz comum, como aconteceu com o latim. Há muita gente, incluindo, receio, a generalidade dos linguistas, que dá por adquirido que assim será.
Pois é, mas eu acho que não.
É que vivemos hoje num mundo que, em termos de comunicação, não tem rigorosamente nada a ver com aquele em que as variantes do português se desenvolveram. Hoje já não é necessário o contacto físico para haver transferência de padrões linguísticos entre as pessoas. Hoje, a comunicação é global e praticamente instantânea. A língua que falamos é tão determinada pela televisão como pelos nossos pais, família e vizinhos, e começa também a ser determinada pela internet. Hoje, os falantes de português em todo o planeta, por mais afastados que estejam fisicamente, estão mais próximos do que nunca, e tenderão a aproximar-se ainda mais no futuro.
É por isso que eu penso que a tendência, longe da diversificação, será a longo prazo de reunificação e uniformização. Já vejo isso a acontecer com a atenuação dos sotaques e falares regionais no português de Portugal, e também com uma aproximação visível do português de Portugal ao do Brasil desde que as telenovelas brasileiras passaram a fazer parte do dia-a-dia das nossas famílias. E julgo que é um fenómeno inevitável e imparável, precisamente devido ao desaparecimento do isolamento que é necessário à diversificação.
Que tem isto a ver com o acordo ortográfico? Muito pouco. Mas se procurarem bem, verão que até tem alguma coisa. Em todo o caso, prometo regressar a coisas que dizem respeito mais directamente a ele no próximo post.
Desta vez não é sobre o acordo, mas tem a ver com aquilo que lhe subjaz: a própria língua. E tem a ver com umas contestações que apareceram na caixa de comentários, principalmente com esta:
A diversidade dialectal não é função da vastidão geográfica ou demográfica. Veja-se o caso basco, p.ex.: Apesar de haver, feliz e finalmente, uma ortografia única — o euskera batua (que é eficiente, coerente, e vastamente utilizada), existe (e continua a existir, também felizmente) uma diversidade dialectal muito grande.
Nunca afirmei que a diversidade dialectal fosse função da vastidão geo ou demográfica. O que afirmei foi:
Embora uma ortografia seja sempre um compromisso entre a história da língua escrita e o estado actual da língua falada, em línguas pequenas, faladas por pouca gente concentrada em territórios restritos e com pouca variação fonética, a ortografia pode seguir a fonética de perto, se bem que nem sempre o faça. Porém, é fácil compreender que em línguas maiores, e em especial nas grandes línguas de dimensão planetária como a nossa, isso é totalmente impossível.
O que eu queria dizer com isto, e pelos vistos não fui suficientemente claro, é que só é possível criar uma ortografia fonética em línguas que obedeçam simultaneamente a todas aquelas condições. Isto é, línguas que: 1) sejam pequenas, 2) sejam faladas por pouca gente, 3) estejam concentradas em territórios restritos e 4) tenham pouca variação fonética. Estas condições estão interligadas, influenciam-se, mas não se determinam umas às outras. E se referi estas condições foi para deixar claro que a língua portuguesa, por não obedecer a nenhuma delas, não poderá nunca ter uma escrita fonética; terá sempre de ter uma escrita que resulte de um equilíbrio entre as várias fonéticas que incorpora, a história das palavras e a pura convenção.
Estamos de acordo?
Já agora, visto que me desviei do caminho principal para uma estrada secundária que tem pouca relevância para o acordo em concreto, vou segui-la até um pouco mais à frente. Tenho umas ideiazitas extra a deixar aqui. Não as vou explorar muito, que nem tenho tempo nem este é o lugar certo, mas é capaz de valer a pena esboçá-las.
Como é que se originam as línguas? Salvo casos especiais, em que existe uma intervenção criadora de um pequeno grupo de indivíduos que depois se espalha para grupos maiores (caso das línguas construídas, basicamente), as línguas têm uma evolução muito semelhante à das espécies biológicas (e a maior parte de vocês acabou neste momento de entender o título do post). Evoluem naturalmente umas das outras, através de uma sucessão de pequenas mudanças que se vão acumulando com o tempo até gerar grandes diferenças. Uma diferença importante relativamente à analogia biológica é que as línguas, salvo em circunstâncias muito particulares, estão constantemente em processo de fertilização cruzada, transferindo conceitos e fenómenos linguísticos de umas para outras, o que em geral não acontece com a vida. Mas a maior parte dos motores da evolução são idênticos. As línguas, tal como as espécies, também necessitam de isolamento para se diferenciarem, o que aliás é óbvio se olharmos para um mapa das línguas do mundo e constatarmos que as regiões onde existe um número maior de línguas por unidade de área são regiões que dificultam os movimentos ao bicho-homem, nomeadamente regiões montanhosas, florestas densas, etc. O mesmo acontece, em menor escala, dentro das línguas, com os seus dialectos, subdialectos e sotaques.
Ou seja, historicamente, quando uma determinada população se isolava de outras populações que lhe eram afins, geravam-se as condições para a divergência. Foi isso, aliás, que aconteceu com as línguas latinas, todas elas derivadas do latim comum que se falava há dois mil anos ao longo da vastidão do Império Romano. Com o fim deste, com a criação de uma multiplicidade de estados independentes, a limitação de contactos entre eles e o desaparecimento da elite romana que tendia a uniformizar a língua no Império, os vários latins vulgares começaram a divergir (provavelmente a partir de sotaques e dialectos existentes ainda nos tempos romanos) e resultaram neste grande grupo de línguas que conhecemos hoje (e mais algumas que entretanto se extinguiram), que segundo o Ethnologue são 48, faladas hoje por cerca de setecentos milhões de pessoas um pouco por todo o planeta, mas essencialmente na Europa, nas Américas e em África.
Foi também assim que surgiram as variantes do português. Todas elas, não apenas a dicotomia mais básica entre o português de Portugal e o do Brasil. Mais básica e mais preguiçosa, pois não só existem variantes de português fora dos dois principais países da lusofonia, também é facto que quer num quer noutro existem vários dialectos, muitas vezes incorporando construções linguísticas que se costuma imaginar serem características da língua falada do outro lado do oceano.
E se assim surgiram, dir-se-ia, assim continuariam a divergir até que, algures no futuro, se transformariam em línguas diferentes com uma raiz comum, como aconteceu com o latim. Há muita gente, incluindo, receio, a generalidade dos linguistas, que dá por adquirido que assim será.
Pois é, mas eu acho que não.
É que vivemos hoje num mundo que, em termos de comunicação, não tem rigorosamente nada a ver com aquele em que as variantes do português se desenvolveram. Hoje já não é necessário o contacto físico para haver transferência de padrões linguísticos entre as pessoas. Hoje, a comunicação é global e praticamente instantânea. A língua que falamos é tão determinada pela televisão como pelos nossos pais, família e vizinhos, e começa também a ser determinada pela internet. Hoje, os falantes de português em todo o planeta, por mais afastados que estejam fisicamente, estão mais próximos do que nunca, e tenderão a aproximar-se ainda mais no futuro.
É por isso que eu penso que a tendência, longe da diversificação, será a longo prazo de reunificação e uniformização. Já vejo isso a acontecer com a atenuação dos sotaques e falares regionais no português de Portugal, e também com uma aproximação visível do português de Portugal ao do Brasil desde que as telenovelas brasileiras passaram a fazer parte do dia-a-dia das nossas famílias. E julgo que é um fenómeno inevitável e imparável, precisamente devido ao desaparecimento do isolamento que é necessário à diversificação.
Que tem isto a ver com o acordo ortográfico? Muito pouco. Mas se procurarem bem, verão que até tem alguma coisa. Em todo o caso, prometo regressar a coisas que dizem respeito mais directamente a ele no próximo post.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Acordo ortográfico - orto grafias
Ora bem, cá estamos de novo, com algum tempo livre e a cabeça razoavelmente desanuviada.
Antes da breve interrupção zinkiana, tínhamos ficado na candente questão de as mudanças na oralidade implicarem, ou não, mudanças na ortografia. Mas ainda antes de tratarmos da candência, vamos fazer mais um pequeno desvio para mais alguns factos.
Já vimos que uma ortografia é um conjunto de normas altamente abstractas para exprimir uma determinada oralidade. Mas, em parte porque são abstractas, nem todas as formas de escrever seguem a mesma filosofia. Algumas formas de escrever, como os ideogramas chineses, por exemplo, nem sequer representam sons, preferindo-se a representação de conceitos e ideias (daí o nome, né?). Outras formas de escrever representam sílabas, noutras, como o hebraico, escrevem-se apenas as consoantes deixando as vogais subentendidas, etc. Nas línguas escritas em alfabetos derivados do grego, como a nossa, cada letra tende a representar um som, embora haja, como todos sabemos, sinais especiais que alteram o significado básico da letra, combinações de letras que representam um único som... ou letras que não representam som algum.
Além disso, línguas diferentes têm abordagens diferentes quanto à adaptação da escrita à fala. Embora uma ortografia seja sempre um compromisso entre a história da língua escrita e o estado actual da língua falada, em línguas pequenas, faladas por pouca gente concentrada em territórios restritos e com pouca variação fonética, a ortografia pode seguir a fonética de perto, se bem que nem sempre o faça. Porém, é fácil compreender que em línguas maiores, e em especial nas grandes línguas de dimensão planetária como a nossa, isso é totalmente impossível. O compromisso tem, pois, de existir sempre.
Algumas dessas línguas, como o inglês e o francês, resolveram esse problema adoptando uma ortografia mais atenta à origem e história escrita das palavras, à sua etimologia, do que à fonética. É por isso que em francês algo que se diz "uázô" se escreve "oiseaux", algo que se diz "ô" se escreve "eau" e "pré" se escreve "prêt". E é por isso que palavras inglesas tão diferentes como "dou" e "taf" se escrevem "though" e "tough", respectivamente, é por isso que "tchec" se escrever "czech" enquanto que "china" não se diz "caina" mas sim "tchaina", entre muitas, muitas outras rasteiras que a língua inglesa nos reserva.
Esta abordagem tem a vantagem de exigir mudanças na ortografia mínimas e espaçadas no tempo, embora tenha a clara desvantagem de ir tornando a escrita crescentemente incoerente, de modo que ao fim de algum tempo acaba à mesma por ser preciso fazer reformas ortográficas, a menos que se queira continuar a escrever numa língua que na prática é uma língua diferente daquela que se fala (e isto acontece em algumas línguas, como o grego).
O português que se escrevia no século XIX seguia também esta abordagem. Era devido à etimologia de "farmácia" que a palavra se escrevia "pharmacia". Era por causa da etimologia que nunca ninguém praticava a escrita, mas sim a "escrypta". Era devido à etimologia que os campos se cobriam de "hervas" na primavera. E etc., e etc., e etc. Pegue-se numa publicação anterior a 1911 e encontrar-se-ão páginas e mais páginas de etimologias que hoje têm um sabor positivamente arcaico. Porquê?
Porque a implantação da República, em 1910, trouxe com ela a vontade de simplificar a escrita do português, tornando-a mais consentânea com a sua fonética, que não fazia distinção entre os f expressos com "f" e expressos com "ph", os i expressos com "i" ou com "y" ou os p expressos com "p" ou com "pp", que emudecera uma quantidade razoável de consoantes, que não pronunciava nada que se parecesse a um z em Portuguez, etc., etc. E assim, a ortografia do português foi pela primeira vez afastada da abordagem etimológica clássica, e foi pela primeira vez quebrada a unidade ortográfica da língua, porque o Brasil, nem tido nem achado na reforma de 1911, continuou ainda a escrever à antiga.
Mas isso ficará para uma próxima oportunidade, que hoje já se foram bem mais do que cinco minutos e a hora começa a pesar.
Antes da breve interrupção zinkiana, tínhamos ficado na candente questão de as mudanças na oralidade implicarem, ou não, mudanças na ortografia. Mas ainda antes de tratarmos da candência, vamos fazer mais um pequeno desvio para mais alguns factos.
Já vimos que uma ortografia é um conjunto de normas altamente abstractas para exprimir uma determinada oralidade. Mas, em parte porque são abstractas, nem todas as formas de escrever seguem a mesma filosofia. Algumas formas de escrever, como os ideogramas chineses, por exemplo, nem sequer representam sons, preferindo-se a representação de conceitos e ideias (daí o nome, né?). Outras formas de escrever representam sílabas, noutras, como o hebraico, escrevem-se apenas as consoantes deixando as vogais subentendidas, etc. Nas línguas escritas em alfabetos derivados do grego, como a nossa, cada letra tende a representar um som, embora haja, como todos sabemos, sinais especiais que alteram o significado básico da letra, combinações de letras que representam um único som... ou letras que não representam som algum.
Além disso, línguas diferentes têm abordagens diferentes quanto à adaptação da escrita à fala. Embora uma ortografia seja sempre um compromisso entre a história da língua escrita e o estado actual da língua falada, em línguas pequenas, faladas por pouca gente concentrada em territórios restritos e com pouca variação fonética, a ortografia pode seguir a fonética de perto, se bem que nem sempre o faça. Porém, é fácil compreender que em línguas maiores, e em especial nas grandes línguas de dimensão planetária como a nossa, isso é totalmente impossível. O compromisso tem, pois, de existir sempre.
Algumas dessas línguas, como o inglês e o francês, resolveram esse problema adoptando uma ortografia mais atenta à origem e história escrita das palavras, à sua etimologia, do que à fonética. É por isso que em francês algo que se diz "uázô" se escreve "oiseaux", algo que se diz "ô" se escreve "eau" e "pré" se escreve "prêt". E é por isso que palavras inglesas tão diferentes como "dou" e "taf" se escrevem "though" e "tough", respectivamente, é por isso que "tchec" se escrever "czech" enquanto que "china" não se diz "caina" mas sim "tchaina", entre muitas, muitas outras rasteiras que a língua inglesa nos reserva.
Esta abordagem tem a vantagem de exigir mudanças na ortografia mínimas e espaçadas no tempo, embora tenha a clara desvantagem de ir tornando a escrita crescentemente incoerente, de modo que ao fim de algum tempo acaba à mesma por ser preciso fazer reformas ortográficas, a menos que se queira continuar a escrever numa língua que na prática é uma língua diferente daquela que se fala (e isto acontece em algumas línguas, como o grego).
O português que se escrevia no século XIX seguia também esta abordagem. Era devido à etimologia de "farmácia" que a palavra se escrevia "pharmacia". Era por causa da etimologia que nunca ninguém praticava a escrita, mas sim a "escrypta". Era devido à etimologia que os campos se cobriam de "hervas" na primavera. E etc., e etc., e etc. Pegue-se numa publicação anterior a 1911 e encontrar-se-ão páginas e mais páginas de etimologias que hoje têm um sabor positivamente arcaico. Porquê?
Porque a implantação da República, em 1910, trouxe com ela a vontade de simplificar a escrita do português, tornando-a mais consentânea com a sua fonética, que não fazia distinção entre os f expressos com "f" e expressos com "ph", os i expressos com "i" ou com "y" ou os p expressos com "p" ou com "pp", que emudecera uma quantidade razoável de consoantes, que não pronunciava nada que se parecesse a um z em Portuguez, etc., etc. E assim, a ortografia do português foi pela primeira vez afastada da abordagem etimológica clássica, e foi pela primeira vez quebrada a unidade ortográfica da língua, porque o Brasil, nem tido nem achado na reforma de 1911, continuou ainda a escrever à antiga.
Mas isso ficará para uma próxima oportunidade, que hoje já se foram bem mais do que cinco minutos e a hora começa a pesar.
terça-feira, 8 de abril de 2008
Acordo ortográfico - Tipo, a cena evolui, tás a ver?
Olá. Como os mais atentos ou astutos terão já entendido, voltei a ter cinco minutos de liberdade com a cabeça razoavelmente funcional, e consequentemente aqui estou a falar-vos do malfadado acordo ortográfico. Mas antes, permitam-me que chame um homem tantas vezes desconsiderado, tão escarnecido, mas que às vezes se faz tão necessário. Apresento-vos Jacques II de Chabannes, aristocrata francês do século XVI mais conhecido por Monsieur de La Palisse. Jacques, voici mes lecteurs.
Apresentados que estão um aos outros e vice-versa, vamos ao que interessa.
A lapalissada da noite é: epá, tipo, a cena evolui, tás a ver? A cena, tipo, a língua, topas? Iá.
Dito isto de outra forma, pode parecer uma evidência tão grande que dispensa ser expressa, mas a verdade é que as línguas evoluem, que o digam os velhos imperialistas romanos que se se apanhassem um dia a tentar decifrar a algaraviada que falam estes seus longínquos descendentes se veriam decididamente em palpos de aranha e protestariam exuberantemente, como era seu timbre, não sei bem é em que declinação.
Porque é que vale a pena dizer isto? Ora, elementar, meus caros: porque a esmagadora maioria das pessoas que têm participado da discussão sobre o acordo ortográfico parece partir do princípio de que uma língua é uma coisa estática e imóvel. Não é, e isto não é opinião: é facto. Hoje não se fala como há 50 anos, há 50 anos não se falava como há 100 anos, e assim sucessivamente.
Mas que tem isto a ver com o acordo ortográfico?
Nada.
E tudo.
Mais alguns factos: a ortografia é uma forma altamente abstracta de colocar em símbolos gráficos a linguagem oral, que já de si é uma coisa bastante abstracta. É porque a linguagem é abstracta que os significados das palavras mudam com o tempo e/ou que as mesmas noções vão sendo expressas por associações diferentes de sons. E quando se passa do oral para o escrito, é colocada uma nova camada de abstracção sobre a abstracção pré-existente. Porque é que o símbolo "a", em português, corresponde ao naipe de sons que conhecemos? Por nenhum motivo além de alguém ter determinado que assim seria. Uma sucessão de alguéns, mais propriamente, que vai do longínquo e anónimo inventor do alfabeto até quem fez a última reforma ortográfica antes desta (que não tocou no valor do a, já agora; tal como esta não tocará). O símbolo, em si, não tem nenhum significado intrínseco: tem apenas o significado que nós lhe damos, por pura convenção.
Ora bem, se a língua oral evolui e se a ortografia é uma convenção que serve para exprimir essa língua oral, será que a ortografia evolui quando a oralidade evolui?
Pode evoluir e pode não evoluir, depende. Mas isso vai ter de ficar para outro dia, que os meus cinco minutos já chegaram e já partiram. Até lá, rapazes. Jacques, a bientôt. On aura encore besoin de toi, j'en suis sûr.
Apresentados que estão um aos outros e vice-versa, vamos ao que interessa.
A lapalissada da noite é: epá, tipo, a cena evolui, tás a ver? A cena, tipo, a língua, topas? Iá.
Dito isto de outra forma, pode parecer uma evidência tão grande que dispensa ser expressa, mas a verdade é que as línguas evoluem, que o digam os velhos imperialistas romanos que se se apanhassem um dia a tentar decifrar a algaraviada que falam estes seus longínquos descendentes se veriam decididamente em palpos de aranha e protestariam exuberantemente, como era seu timbre, não sei bem é em que declinação.
Porque é que vale a pena dizer isto? Ora, elementar, meus caros: porque a esmagadora maioria das pessoas que têm participado da discussão sobre o acordo ortográfico parece partir do princípio de que uma língua é uma coisa estática e imóvel. Não é, e isto não é opinião: é facto. Hoje não se fala como há 50 anos, há 50 anos não se falava como há 100 anos, e assim sucessivamente.
Mas que tem isto a ver com o acordo ortográfico?
Nada.
E tudo.
Mais alguns factos: a ortografia é uma forma altamente abstracta de colocar em símbolos gráficos a linguagem oral, que já de si é uma coisa bastante abstracta. É porque a linguagem é abstracta que os significados das palavras mudam com o tempo e/ou que as mesmas noções vão sendo expressas por associações diferentes de sons. E quando se passa do oral para o escrito, é colocada uma nova camada de abstracção sobre a abstracção pré-existente. Porque é que o símbolo "a", em português, corresponde ao naipe de sons que conhecemos? Por nenhum motivo além de alguém ter determinado que assim seria. Uma sucessão de alguéns, mais propriamente, que vai do longínquo e anónimo inventor do alfabeto até quem fez a última reforma ortográfica antes desta (que não tocou no valor do a, já agora; tal como esta não tocará). O símbolo, em si, não tem nenhum significado intrínseco: tem apenas o significado que nós lhe damos, por pura convenção.
Ora bem, se a língua oral evolui e se a ortografia é uma convenção que serve para exprimir essa língua oral, será que a ortografia evolui quando a oralidade evolui?
Pode evoluir e pode não evoluir, depende. Mas isso vai ter de ficar para outro dia, que os meus cinco minutos já chegaram e já partiram. Até lá, rapazes. Jacques, a bientôt. On aura encore besoin de toi, j'en suis sûr.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Acordo ortográfico - chega de parvoíce, não?
Tenho andado a assistir, entre o impávido, o divertido e o horrorizado, ao monumental manancial de disparate e burrice que esta celeuma sobre o acordo ortográfico desencadeou. Volta e meia, sinto-me tentado a entrar na bagunça, e cinco voltas e um quarto tenho mesmo entrado, quase sempre com textozitos rápidos deixados por aí. Não há tempo para mais, infelizmente. Se houvesse, encheria nas calmas vinte páginas ou mais. Em times new roman, tamanho 12, espaço e meio, como é de praxe. Mas como se vão arranjando 5 minutos de vez em quando para ir deixando por aí umas bocas, já agora deixo de as deixar por aí e passo a deixá-las aqui na Lâmpada, separando muito bem, porque é necessário e não vejo muita gente a fazê-lo, aquilo que é facto daquilo que é opinião.
Começo hoje, com a seguinte opinião:
Meus caros amigos, toda esta discussão é profundamente idiota.
E é idiota por dois motivos. O primeiro, e fundamental, é o facto de que Portugal já ratificou o bendito acordo ortográfico. Fê-lo logo em 1991 e foi, aliás, o único país a fazê-lo dentro dos prazos estipulados. Os outros três países que ratificaram (Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe) só o fizeram mais tarde. Portugal, tal como estes três países, também ratificou o primeiro protocolo modificativo ao acordo, que se limitava a remover os prazos, passando a exigir apenas a ratificação dos países signatários. O que isto significa é que bastará que os países que faltam ratifiquem o acordo e este primeiro protocolo para que Portugal esteja por ele obrigado. Sem ter de fazer nada além do que já fez.
Ou seja: esta discussão é idiota porque é extemporânea. Deveria ter acontecido há quase 20 anos, aquando da ratificação original, não agora.
E é idiota devido à atitude da esmagadora maioria dos opinadores que pipocaram por todo o lado, que não se coíbem de dar opiniões apesar de não terem a mais pequena noção daquilo que o acordo é, de quem assinou ou ratificou e quando, daquilo que muda ou deixa de mudar, etc., etc., etc. Há até quem faça gala de não ter lido o acordo, nem tencionar lê-lo, e ser contra. É-se contra porque "não se está para mudar a forma como se fala" ou porque "não se quer passar a escrever em português do Brasil" ou porque "só o Brasil e Cabo Verde ratificaram e por isso não vale", ou por tantas outras cretinices que têm sido postas em letra de imprensa por este país fora, até por membros destacados da nossa intelligenzia. Da nossa mui deprimente intelligenzia.
Entendamo-nos: há bons motivos para se ser contra o acordo, tal como há bons motivos para se ser a favor. Mas nem uns nem outros dispensam que as pessoas que querem ter e emitir opinião saibam alguma coisa sobre aquilo que opinam. Até porque a informação está aí, disponível, e apesar do acordo estar redigido em gramatiquês não é propriamente física quântica. Quem, apesar disso, insiste em alardear à primeira oportunidade a sua completa ignorância, coloca-se numa posição semelhante à dos criacionistas, que querem discutir biologia sem a mínima noção sobre o funcionamento dos seres vivos ou à daquelas pessoas muito senhoras do seu nariz que não se coíbem de emitir opinião sobre livros (ou géneros literários inteiros) que nunca leram. Estúpido, não? Pois é. Mas tem solução: calem-se por um bocadinho, vão informar-se e depois voltem sabendo finalmente daquilo que falam.
Acabaram-se os 5 minutos de hoje. Continua um destes dias.
Começo hoje, com a seguinte opinião:
Meus caros amigos, toda esta discussão é profundamente idiota.
E é idiota por dois motivos. O primeiro, e fundamental, é o facto de que Portugal já ratificou o bendito acordo ortográfico. Fê-lo logo em 1991 e foi, aliás, o único país a fazê-lo dentro dos prazos estipulados. Os outros três países que ratificaram (Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe) só o fizeram mais tarde. Portugal, tal como estes três países, também ratificou o primeiro protocolo modificativo ao acordo, que se limitava a remover os prazos, passando a exigir apenas a ratificação dos países signatários. O que isto significa é que bastará que os países que faltam ratifiquem o acordo e este primeiro protocolo para que Portugal esteja por ele obrigado. Sem ter de fazer nada além do que já fez.
Ou seja: esta discussão é idiota porque é extemporânea. Deveria ter acontecido há quase 20 anos, aquando da ratificação original, não agora.
E é idiota devido à atitude da esmagadora maioria dos opinadores que pipocaram por todo o lado, que não se coíbem de dar opiniões apesar de não terem a mais pequena noção daquilo que o acordo é, de quem assinou ou ratificou e quando, daquilo que muda ou deixa de mudar, etc., etc., etc. Há até quem faça gala de não ter lido o acordo, nem tencionar lê-lo, e ser contra. É-se contra porque "não se está para mudar a forma como se fala" ou porque "não se quer passar a escrever em português do Brasil" ou porque "só o Brasil e Cabo Verde ratificaram e por isso não vale", ou por tantas outras cretinices que têm sido postas em letra de imprensa por este país fora, até por membros destacados da nossa intelligenzia. Da nossa mui deprimente intelligenzia.
Entendamo-nos: há bons motivos para se ser contra o acordo, tal como há bons motivos para se ser a favor. Mas nem uns nem outros dispensam que as pessoas que querem ter e emitir opinião saibam alguma coisa sobre aquilo que opinam. Até porque a informação está aí, disponível, e apesar do acordo estar redigido em gramatiquês não é propriamente física quântica. Quem, apesar disso, insiste em alardear à primeira oportunidade a sua completa ignorância, coloca-se numa posição semelhante à dos criacionistas, que querem discutir biologia sem a mínima noção sobre o funcionamento dos seres vivos ou à daquelas pessoas muito senhoras do seu nariz que não se coíbem de emitir opinião sobre livros (ou géneros literários inteiros) que nunca leram. Estúpido, não? Pois é. Mas tem solução: calem-se por um bocadinho, vão informar-se e depois voltem sabendo finalmente daquilo que falam.
Acabaram-se os 5 minutos de hoje. Continua um destes dias.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
2007 em capas
O ano passado correu-me razoavelmente bem. Eis porquê:



(deixem o rato pairar um pouco sobre cada uma das capas se quiserem saber que intervenção tive nelas)
(deixem o rato pairar um pouco sobre cada uma das capas se quiserem saber que intervenção tive nelas)
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
Como olhar para o copo
Estou farto, mas farto até aos cabelos, de Calimeros. Apesar de ter "república portuguesa" no BI não me revejo no fado. Estou-me cada vez mais nas tintas para arautos da desgraça. Se fosse eu o ditador universal de todos os universos (título propositadamente ridículo para o caso de haver alguém por aí suficientemente palerma para o levar a sério) mandava-os fuzilar a todos, sem excepção. Aliás, fuzilar talvez não fosse o suficiente: um empalamento em massa satisfar-me-ia melhor o ódio, desde que se conseguisse encontrar um número suficiente de estacas.
Os Calimeros são o cancro do país. Não um cancro; o. Alimentam-se de estupidez, ignorância, um balofo e muito inchado sentido de auto-importância que os leva a considerar-se acima da "piolheira" generalizada e uma completa ausência de sentido de orientação, de consciência dos caminhos a percorrer. E o pior que tudo é que estão por todo o lado, fazem estragos em tudo quanto é sítio. Um Calimero de Primeiro Nível é uma poderosa força destruidora capaz de arrasar quarteirões, certificando-se assim de que realmente fica tudo mal, tal como passam a vida a choramingar.
Vem isto a propósito, por estranho que pareça, de ter acabado ontem de madrugada a tradução do mais difícil capítulo do livro que tenho entre mãos, quase vinte páginas de pura dor de cabeça. Nos meus tempos de Calimero renitente (nunca mergulhei por completo na farsa calimérica, mas tenho de admitir, com vergonha, que andei perto) provavelmente não teria chegado a acabá-lo, passando depois os meses seguintes a choramingar que era muito difícil, que era impossível de traduzir, e, já agora, para compor o ramalhete, que todos os tradutores que de facto acabam o que começam são umas nulidades que só fazem disparates e cometem erros atrás de erros. Atrás de erros. Agora, em convalescença mas ainda combalido, queixo-me durante o processo, ah pois queixo. Mas chego ao fim, e chegado ao fim lanço o olhar pelo que falta ainda fazer.
É que depois de terminar aquele capítulo, o objectivo final ficou um pouco mais próximo e o caminho a percorrer encurtou. Portanto, pés à estrada, que o futuro espera mas não fica à espera.
Os Calimeros são o cancro do país. Não um cancro; o. Alimentam-se de estupidez, ignorância, um balofo e muito inchado sentido de auto-importância que os leva a considerar-se acima da "piolheira" generalizada e uma completa ausência de sentido de orientação, de consciência dos caminhos a percorrer. E o pior que tudo é que estão por todo o lado, fazem estragos em tudo quanto é sítio. Um Calimero de Primeiro Nível é uma poderosa força destruidora capaz de arrasar quarteirões, certificando-se assim de que realmente fica tudo mal, tal como passam a vida a choramingar.
Vem isto a propósito, por estranho que pareça, de ter acabado ontem de madrugada a tradução do mais difícil capítulo do livro que tenho entre mãos, quase vinte páginas de pura dor de cabeça. Nos meus tempos de Calimero renitente (nunca mergulhei por completo na farsa calimérica, mas tenho de admitir, com vergonha, que andei perto) provavelmente não teria chegado a acabá-lo, passando depois os meses seguintes a choramingar que era muito difícil, que era impossível de traduzir, e, já agora, para compor o ramalhete, que todos os tradutores que de facto acabam o que começam são umas nulidades que só fazem disparates e cometem erros atrás de erros. Atrás de erros. Agora, em convalescença mas ainda combalido, queixo-me durante o processo, ah pois queixo. Mas chego ao fim, e chegado ao fim lanço o olhar pelo que falta ainda fazer.
É que depois de terminar aquele capítulo, o objectivo final ficou um pouco mais próximo e o caminho a percorrer encurtou. Portanto, pés à estrada, que o futuro espera mas não fica à espera.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
O tratado
Foi hoje assinado, com pompa, circunstância, assobios e um ou dois "porreiro, pá" um documento composto por coisas como a seguinte:
Isto é, claramente, uma parvoíce. É óbvio que o artigo 39º do título VI devia ter sido substituído pelos capítulos 1, 2 e 3 do título IV da Parte III, e que o artigo 30º deveria por seu turno ter sido substituído pelos artigos 69º-A a 69º-Z, além do artigo 69º e meio. Qualquer um vê isso. Entra pelos olhos dentro do menos experiente nestas coisas.
Assim sendo, não concebo que se porreire-pá a propósito disto. Cá para mim, os nossos dirigentes da União Europeia andam a usar em demasia o tradutor automático do Google.
Os artigos 29.º a 39.º do Título VI, relativos à cooperação judiciária em matéria penal e à cooperação policial, são substituídos pelas disposições dos Capítulos 1, 4 e 5 do Título IV da Parte III do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia. Como se indica a seguir nos pontos 64), 67) e 68) do artigo 2.º do presente Tratado, o artigo 29.° é substituído pelo artigo 61.° do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, o artigo 30.° é substituído pelos artigos 69.°-F e 69.°-G do referido Tratado, o artigo 31.° é substituído pelos artigos 69.°-A, 69.°-B e 69.°-D do referido Tratado, o artigo 32.° é substituído pelo artigo 69.°-H do referido Tratado, o artigo 33.º é substituído pelo artigo 61.°-E do referido Tratado e o artigo 36.° é substituído pelo artigo 61.°-D do referido Tratado. É suprimida a denominação do título e o seu número passa a ser o do título relativo às disposições finais.
Isto é, claramente, uma parvoíce. É óbvio que o artigo 39º do título VI devia ter sido substituído pelos capítulos 1, 2 e 3 do título IV da Parte III, e que o artigo 30º deveria por seu turno ter sido substituído pelos artigos 69º-A a 69º-Z, além do artigo 69º e meio. Qualquer um vê isso. Entra pelos olhos dentro do menos experiente nestas coisas.
Assim sendo, não concebo que se porreire-pá a propósito disto. Cá para mim, os nossos dirigentes da União Europeia andam a usar em demasia o tradutor automático do Google.
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
A Antologia

Estão a ver o boneco aqui ao lado? É a capa de um projecto com mais de dois anos que finalmente viu a luz do dia há pouco mais de uma semana.
Nasceu de uma irritação. A irritação de ver que neste país, sistematicamente, as coisas se fazem com base na panelinha, e que em todas as antologias de contos ligadas à ficção científica e ao fantástico que são publicadas os autores não submetem as suas obras à apreciação dos editores, mas são convidados a participar, por critérios que até podem ser honestos mas não se livram da suspeita de se regerem mais por amiguismos e cumplicidades do que pela qualidade. Especialmente porque o resultado é invariavelmente que as antologias que acabam por ser publicadas são coisas coxas e estropiadas, com um punhado de contos bons, quando os têm, ao lado de outros tão maus que de outra forma nunca seriam publicados. É praga já antiga e que não parecia haver meio de solucionar, tendo atacado todas as antologias que conheço, da velha O Atlântico tem Duas Margens, da Caminho, às mais recentes antologias publicadas pela Chimpanzé Intelectual e pela "minha" Saída de Emergência (a antologia lovecraftiana seria muito boa com metade daqueles contos), passando pelas iniciativas mais ou menos simétricas que viram a luz do dia nos entretantos.
A irritação não me atacou só a mim, mas de todos os outros irritados só o Luís Filipe Silva respondeu ao desafio que lancei de fazer qualquer coisa a respeito. E deitámos os dois mãos à obra, construindo a antologia à vista de toda a gente, centralizando o trabalho num blogue, sem fazer um único convite, e em vez disso avaliando o material original que nos era enviado de moto próprio por escritores de ambos os lados do Atlântico. A participação excedeu as nossas expectativas, apesar da notória ausência de alguns dos nomes mais sonantes no género, em especial em Portugal (imagina-se que estariam desconfiados de que o processo nunca chegaria ao fim... ou então que estão demasiado confortáveis com a cegarrega dos convites para se arriscarem a ter o seu trabalho avaliado antes de ser aceite). E apesar de algumas peripécias pelo caminho, quatro meses mais tarde tínhamos uma antologia pronta para ser anunciada no Fórum Fantástico de 2005, e que poderia ter sido editada dois ou três meses mais tarde.
Não foi. E os motivos por que não foi dariam uma história demasiado longa e triste para ser contada aqui. Mete narizes a bater na porta de editoras atrás de editoras, antes ainda de ler uma palavra, só à menção da terrível expressão "ficção científica", prazos sucessivos e sucessivamente quebrados, telefonemas por atender, mails por responder e uma cada vez maior impaciência de minha parte (e, naturalmente, de parte de pelo menos alguns dos autores que ma faziam chegar porque era principalmente eu quem contactava com eles). Até que acabei por bater calmamente com a porta. A intenção? Forçar a uma clarificação de parte do parceiro: se quisesse mesmo avançar com o processo, que fizesse alguma coisa por isso; se não, que ficasse ele com essa responsabilidade, caso em que eu planeava pegar nas coisas onde ele as tivesse deixado.
Felizmente, ele decidiu levar as coisas adiante. Ano e meio depois do que seria desejável, mais de um ano depois do que seria possível, oito ou nove meses depois do que tínhamos combinado, mas como nestas coisas não existem tardes demais, o projecto está agora de novo nos eixos, e o Luís até está a fazer um bom trabalho de divulgação do produto final.
E que produto final é esse? Está descrito aqui e aqui. São 14 contos de 13 autores, mais uma introdução do Luís. Três são contos fantásticos, dois são de terror, um é história alternativa e os outros oito são de ficção científica (tornando, portanto, a capa enganadora, mas não muito). Um pertence a um universo partilhado brasileiro que já gerou também uma antologia em papel, muitos outros contos e pelo menos um romance. Um outro é sequela de um conto nomeado para um grande prémio internacional. Um conto é uma colaboração de pai e filho, algo que tanto quanto sei é inédito na FC&F portuguesa. Outro é, ao que sei, a única incursão na FC&F adulta até agora de uma autora experiente na literatura para a infância e juventude. Vários outros são estreias, por um motivo ou por outro, primeiro conto aceite para um livro, primeira publicação em livro, primeira publicação em livro em Portugal, primeira publicação em Portugal, etc. E embora haja, naturalmente, contos de que os seleccionadores gostam mais e outros de que gostam menos, embora talvez nenhum deles seja uma das obras-primas que nos deixam com aquele uau na boca depois de ler, nenhum é um mau conto, e estão todos bem acima dos impublicáveis que teimam em surgir nas antologias feitas por convite.
Chama-se Por Universos Nunca Dantes Navegados e vale muito a pena ler. Bem sei que sou suspeito para dizer isto, mas vão por mim que não se enganam. E depois de o lerem, digam o que acharam. Estou muito curioso com as vossas opiniões.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
A morte do ficcao.online
Eis um post incomum neste blogue... um comunicado of sorts.
Olá a todos.
O ficcao.online morreu e desta vez não ressuscita. Paz à sua alma e adeus, definitivamente adeus.
A história conta-se duma penada: aqui há anos, um idiota qualquer decidiu que para se ter acesso a um endereço .pt eram necessárias uma série de burocracias que restringiam, na prática, o acesso a domínios em .pt às empresas. Mas, como é óbvio, muita gente tinha conteúdos para colocar na rede mas não tinha os documentos necessários para isso, e houve duas fugas possíveis: ou se contratava um domínio internacional, nomeadamente .com, ou .net, ou se usava um serviço de subdomínios que algumas empresas forneciam. Uma dessas empresas era a Caleida, e um dos subdomínios que ela fornecia era o online.pt.
Na FC portuguesa seguiram-se as duas abordagens: O tecnofantasia, por exemplo, escolheu um endereço .com. Eu, para os meus sites, preferi endereços em .pt e contratei o ficcao.online.pt
Há três dias, sem o mínimo sinal de aviso, o online.pt simplesmente desapareceu. Diz a entidade reguladora, a FCCN, que a Caleida foi avisada com meses de antecedência de que, por falta de documentação, não podia continuar a explorar esse domínio. Se é verdade ou não, não sei (mas, conhecendo a Caleida, com quem só continuava porque não me apetecia perder TODOS os links para os meus sites, não me custa nada a crer que sim), mas sei, e garanto, que da Caleida não se ouviu um pio acerca deste assunto. Silêncio absoluto.
Alguém aqui se comportou como um bebé irresponsável e devia apanhar uns valentes açoites. Certamente que a Caleida, porque o mínimo que uma empresa digna desse nome devia fazer era avisar os clientes da situação para que pudessem tomar medidas paliativas se assim entendessem, e provavelmente também a FCCN, pois não se entende porque é que depois destes anos todos se lembram de repente que a Caleida não pode explorar aqueles domínios, atirando para o lixo virtual centenas de sites por este país fora.
Mas quem se lixa é sempre o mexilhão, que apanha com as ondas em cheio na cara, sem hipótese de fugir.
E eu, mexilhão, vi-me de um momento para o outro sem sites e sem endereços de email. O ficcao.online foi um ar que se lhe deu.
Mas sou um tipo teimoso, e durante os últimos dias tenho andado absorvido com as burocracias e finanças daquilo que é preciso para que das cinzas do extinto ficcao.online nasça uma fénix com bom aspecto. E é isso o que posso agora anunciar.
Portanto, a partir de hoje, o site noticioso sobre a FC e o fantástico portugueses muda de nome e endereço. Os novos são:
ficcao com pt - http://ficcao.com.pt
Também a partir de hoje, o E-nigma passa a ter domínio próprio:
E-nigma - http://e-nigma.com.pt
Quanto ao Bibliowiki, amanhã ou depois estará também disponível em endereço próprio, que já está contratado, falta apenas que seja activado:
Bibliowiki - http://bibliowiki.com.pt
Quanto aos endereços de email, todos os de ficcao.online.pt estão mortos, claro. Ao longo dos próximos dias, consoante o tempo de que disponha (um tipo, afinal, trabalha), irei configurando novas contas e actualizando essa informação nos vários sites. Por enquanto, podem contactar-me pelo endereço do gmail, que é o único a funcionar.
Peço que se faça a maior difusão possível desta mensagem, para que os links que se quebraram sejam rapidamente reparados. E, embora vítima de irresponsabilidades e incompetências alheias (filme que conheço bem demais), peço-vos também desculpa pelo incómodo.
Obrigado
Jorge Candeias
Olá a todos.
O ficcao.online morreu e desta vez não ressuscita. Paz à sua alma e adeus, definitivamente adeus.
A história conta-se duma penada: aqui há anos, um idiota qualquer decidiu que para se ter acesso a um endereço .pt eram necessárias uma série de burocracias que restringiam, na prática, o acesso a domínios em .pt às empresas. Mas, como é óbvio, muita gente tinha conteúdos para colocar na rede mas não tinha os documentos necessários para isso, e houve duas fugas possíveis: ou se contratava um domínio internacional, nomeadamente .com, ou .net, ou se usava um serviço de subdomínios que algumas empresas forneciam. Uma dessas empresas era a Caleida, e um dos subdomínios que ela fornecia era o online.pt.
Na FC portuguesa seguiram-se as duas abordagens: O tecnofantasia, por exemplo, escolheu um endereço .com. Eu, para os meus sites, preferi endereços em .pt e contratei o ficcao.online.pt
Há três dias, sem o mínimo sinal de aviso, o online.pt simplesmente desapareceu. Diz a entidade reguladora, a FCCN, que a Caleida foi avisada com meses de antecedência de que, por falta de documentação, não podia continuar a explorar esse domínio. Se é verdade ou não, não sei (mas, conhecendo a Caleida, com quem só continuava porque não me apetecia perder TODOS os links para os meus sites, não me custa nada a crer que sim), mas sei, e garanto, que da Caleida não se ouviu um pio acerca deste assunto. Silêncio absoluto.
Alguém aqui se comportou como um bebé irresponsável e devia apanhar uns valentes açoites. Certamente que a Caleida, porque o mínimo que uma empresa digna desse nome devia fazer era avisar os clientes da situação para que pudessem tomar medidas paliativas se assim entendessem, e provavelmente também a FCCN, pois não se entende porque é que depois destes anos todos se lembram de repente que a Caleida não pode explorar aqueles domínios, atirando para o lixo virtual centenas de sites por este país fora.
Mas quem se lixa é sempre o mexilhão, que apanha com as ondas em cheio na cara, sem hipótese de fugir.
E eu, mexilhão, vi-me de um momento para o outro sem sites e sem endereços de email. O ficcao.online foi um ar que se lhe deu.
Mas sou um tipo teimoso, e durante os últimos dias tenho andado absorvido com as burocracias e finanças daquilo que é preciso para que das cinzas do extinto ficcao.online nasça uma fénix com bom aspecto. E é isso o que posso agora anunciar.
Portanto, a partir de hoje, o site noticioso sobre a FC e o fantástico portugueses muda de nome e endereço. Os novos são:
ficcao com pt - http://ficcao.com.pt
Também a partir de hoje, o E-nigma passa a ter domínio próprio:
E-nigma - http://e-nigma.com.pt
Quanto ao Bibliowiki, amanhã ou depois estará também disponível em endereço próprio, que já está contratado, falta apenas que seja activado:
Bibliowiki - http://bibliowiki.com.pt
Quanto aos endereços de email, todos os de ficcao.online.pt estão mortos, claro. Ao longo dos próximos dias, consoante o tempo de que disponha (um tipo, afinal, trabalha), irei configurando novas contas e actualizando essa informação nos vários sites. Por enquanto, podem contactar-me pelo endereço do gmail, que é o único a funcionar.
Peço que se faça a maior difusão possível desta mensagem, para que os links que se quebraram sejam rapidamente reparados. E, embora vítima de irresponsabilidades e incompetências alheias (filme que conheço bem demais), peço-vos também desculpa pelo incómodo.
Obrigado
Jorge Candeias
sábado, 1 de setembro de 2007
Os fãs
Sabe-se da objectividade dos fãs. Conhece-se bem até onde podem chegar na distorção da realidade para justificar os seus gostos. E por isso, em tudo o que mete fã, dá-se desconto. Tem de ser. É a única forma de se poder conversar com eles.
Para o fã, o seu ídolo é o maior. Pode ter a cara cheia de verrugas, que é invariavelmente lindo. Pode escrever ou proferir as maiores cretinices, que tem sempre razão. O fã não pensa: justifica. A realidade só faz sentido quando vista através de um filtro.
Por esse motivo, um jornalista não pode ser um fã. Ou por outra: pode sê-lo, mas na "vida civil"; assim que chega perto da profissão tem de deixar-se de fanzices. Caso contrário, arrisca-se, e seriamente, a cair no ridículo.
Vem isto a propósito da mais recente entrada de Nuno Galopim sobre FC, no blog que partilha com João Lopes, sound + vision. Depois de uma série de notas que, apesar de alguns erros de facto sobre a edição portuguesa (e que simples teria sido corrigi-los caso se soubesse informar onde a informação está disponível), são no essencial correctas, chega a nota sobre Heinlein. E o fã revela-se em todo o seu dúbio esplendor.
Arranca o Galopim a nota da seguinte forma:
E um tipo que saiba alguma coisa sobre o assunto começa-se logo a rir. Ah o Heinlein fez isto?
Vejamos: a carreira de Heinlein inicia-se em 1939, tendo editado o primeiro livro em 1941. É um dos chamados autores da "golden age", um grupo de autores norte-americanos e alguns ingleses que desenvolvia a sua actividade literária, essencialmente, nas revistas baratas (os pulps) da época. Não eram, no entanto, nem os primeiros autores nem os únicos autores de ficção científica. Bem antes da Golden Age, gente como Verne e Wells, entre outros, tinha desenvolvido o género com uma qualidade literária muito acima da que Heinlein alguma vez atingiu, e com uma plausibilidade científica, tendo em conta o estado de desenvolvimento científico da sua época, que em nada fica a dever ao melhor Heinlein.
OK, dirão vocês, mas ele referia-se à FC organizada enquanto género literário, não à proto-FC do tempo de Wells e Verne. Meus caros, respondo eu, não é isso que ele escreve, mas dando de barato que têm razão, vamos então cavar mais fundo.
E cavamos mais fundo, por exemplo, olhando para outros autores da mesma época. Ray Bradbury, por exemplo, iniciou a carreira nos pulps em 1943, tendo publicado o primeiro livro em 1947. A de Arthur C. Clarke arrancou em 1937, com o primeiro livro a sair só em 1951. Asimov também publicou os primeiros contos ainda nos anos 30, embora só tenha livros seus já nos anos 50.
Se algo se pode dizer a respeito de Heinlein é que foi o primeiro a conhecer sucesso. Não por especiais qualidades do que escrevia, mas porque as suas histórias estavam mais próximas do gosto militarista do público americano da época. Afinal, estava-se em guerra, ou recém-saídos dela. Porque se pensarmos em qualidade literária, Heinlein nem chega a ser uma unha no pé de Bradbury (e também é muito pior que Clarke), ao passo que a "linha dura" esteve sempre muito melhor servida por Clarke do que por Heinlein, que tem mesmo algumas histórias de fantasia, sem qualquer ciência mas cheias de magia. Clarke tem no currículo um número considerável de verdadeiras invenções, algumas tão relevantes para todos nós como o satélite de comunicações; a única coisa semelhante de que Heinlein se pode gabar é o remoto, descrito na novela (novela mesmo e não, como tantas vezes aparece, a tradução errada de "novel", que se traduz correctamente como romance) Waldo.
Heinlein foi, no máximo, o melhor dos escritores medíocres da "Golden Age" pulp. As suas histórias estão repletas dos defeitos característicos da FC comercial da época (personagens sem profundidade, enredos esquemáticos e formulaicos, etc.) e só raramente têm algo de redentor que as salve da mais banal das medianias. Pior: enquanto outros autores da "Golden Age" chegaram aos anos 60 e evoluíram, casos de Dick, Pohl, Silverberg e tantos outros, Heinlein ficou teimosa e conservadoramente no mesmo sítio, a produzir romancezinhos juvenis sem ponta de interesse, em tom vaga ou não tão vagamente de space opera, com as mesmas personagens estereotipadas, narcisistas e machistas dos anos 40. Salva-se um par de coisas, não mais.
Mas há um certo tipo de adolescente que gosta daquilo. Ainda hoje. E que depois de adulto não é capaz de aprofundar um pouco a análise.
Caso do Galopim, ao que tudo indica.
É que, ainda por cima, na mesma nota lê-se isto:
Pondo de lado o facto, esse sim objectivo, de que o militarismo é, na essência, e em si mesmo, fascizante, o nosso jornalista acha que quem vilipendia aquele romance (que é, realmente, uma enorme porcaria, e por motivos que vão bem mais fundo que a mera política) são "alguns detractores" que se "confundiram". Achará, porventura, o Galopim que gente como o autor de FC e veterano do Vietname Joe Haldeman não é capaz de compreender onde quer um livro como aquele chegar. E quem fala de Haldeman pode falar de Moorcock e de muitos outros (sim, não são "alguns"; são bem mais), que leram esse romance mas também leram os livros que Heinlein cometeu depois, nos quais as mesmas opiniões são reiteradas uma e outra vez, embora nunca mais com a crueza presente nos Troopers.
Ora, ora, Galopim!... Manda mais postais, que com esse não vais lá.
Para o fã, o seu ídolo é o maior. Pode ter a cara cheia de verrugas, que é invariavelmente lindo. Pode escrever ou proferir as maiores cretinices, que tem sempre razão. O fã não pensa: justifica. A realidade só faz sentido quando vista através de um filtro.
Por esse motivo, um jornalista não pode ser um fã. Ou por outra: pode sê-lo, mas na "vida civil"; assim que chega perto da profissão tem de deixar-se de fanzices. Caso contrário, arrisca-se, e seriamente, a cair no ridículo.
Vem isto a propósito da mais recente entrada de Nuno Galopim sobre FC, no blog que partilha com João Lopes, sound + vision. Depois de uma série de notas que, apesar de alguns erros de facto sobre a edição portuguesa (e que simples teria sido corrigi-los caso se soubesse informar onde a informação está disponível), são no essencial correctas, chega a nota sobre Heinlein. E o fã revela-se em todo o seu dúbio esplendor.
Arranca o Galopim a nota da seguinte forma:
Um dos mais destacados e importantes autores de ficção científica de “linha dura”, elevou consideravelmente a fasquia da plausibilidade factual e científica nestes domínios da ficção, tendo igualmente contribuído enormemente para a sua valorização literária.
E um tipo que saiba alguma coisa sobre o assunto começa-se logo a rir. Ah o Heinlein fez isto?
Vejamos: a carreira de Heinlein inicia-se em 1939, tendo editado o primeiro livro em 1941. É um dos chamados autores da "golden age", um grupo de autores norte-americanos e alguns ingleses que desenvolvia a sua actividade literária, essencialmente, nas revistas baratas (os pulps) da época. Não eram, no entanto, nem os primeiros autores nem os únicos autores de ficção científica. Bem antes da Golden Age, gente como Verne e Wells, entre outros, tinha desenvolvido o género com uma qualidade literária muito acima da que Heinlein alguma vez atingiu, e com uma plausibilidade científica, tendo em conta o estado de desenvolvimento científico da sua época, que em nada fica a dever ao melhor Heinlein.
OK, dirão vocês, mas ele referia-se à FC organizada enquanto género literário, não à proto-FC do tempo de Wells e Verne. Meus caros, respondo eu, não é isso que ele escreve, mas dando de barato que têm razão, vamos então cavar mais fundo.
E cavamos mais fundo, por exemplo, olhando para outros autores da mesma época. Ray Bradbury, por exemplo, iniciou a carreira nos pulps em 1943, tendo publicado o primeiro livro em 1947. A de Arthur C. Clarke arrancou em 1937, com o primeiro livro a sair só em 1951. Asimov também publicou os primeiros contos ainda nos anos 30, embora só tenha livros seus já nos anos 50.
Se algo se pode dizer a respeito de Heinlein é que foi o primeiro a conhecer sucesso. Não por especiais qualidades do que escrevia, mas porque as suas histórias estavam mais próximas do gosto militarista do público americano da época. Afinal, estava-se em guerra, ou recém-saídos dela. Porque se pensarmos em qualidade literária, Heinlein nem chega a ser uma unha no pé de Bradbury (e também é muito pior que Clarke), ao passo que a "linha dura" esteve sempre muito melhor servida por Clarke do que por Heinlein, que tem mesmo algumas histórias de fantasia, sem qualquer ciência mas cheias de magia. Clarke tem no currículo um número considerável de verdadeiras invenções, algumas tão relevantes para todos nós como o satélite de comunicações; a única coisa semelhante de que Heinlein se pode gabar é o remoto, descrito na novela (novela mesmo e não, como tantas vezes aparece, a tradução errada de "novel", que se traduz correctamente como romance) Waldo.
Heinlein foi, no máximo, o melhor dos escritores medíocres da "Golden Age" pulp. As suas histórias estão repletas dos defeitos característicos da FC comercial da época (personagens sem profundidade, enredos esquemáticos e formulaicos, etc.) e só raramente têm algo de redentor que as salve da mais banal das medianias. Pior: enquanto outros autores da "Golden Age" chegaram aos anos 60 e evoluíram, casos de Dick, Pohl, Silverberg e tantos outros, Heinlein ficou teimosa e conservadoramente no mesmo sítio, a produzir romancezinhos juvenis sem ponta de interesse, em tom vaga ou não tão vagamente de space opera, com as mesmas personagens estereotipadas, narcisistas e machistas dos anos 40. Salva-se um par de coisas, não mais.
Mas há um certo tipo de adolescente que gosta daquilo. Ainda hoje. E que depois de adulto não é capaz de aprofundar um pouco a análise.
Caso do Galopim, ao que tudo indica.
É que, ainda por cima, na mesma nota lê-se isto:
O seu célebre romance de 1959 Starship Troopers foi vilipendiado por alguns detractores seus como sendo fascista, confusão feita com o rigor da visão militarista de um texto nascido como resposta à decisão unilateral dos americanos em abandonar testes nucleares.
Pondo de lado o facto, esse sim objectivo, de que o militarismo é, na essência, e em si mesmo, fascizante, o nosso jornalista acha que quem vilipendia aquele romance (que é, realmente, uma enorme porcaria, e por motivos que vão bem mais fundo que a mera política) são "alguns detractores" que se "confundiram". Achará, porventura, o Galopim que gente como o autor de FC e veterano do Vietname Joe Haldeman não é capaz de compreender onde quer um livro como aquele chegar. E quem fala de Haldeman pode falar de Moorcock e de muitos outros (sim, não são "alguns"; são bem mais), que leram esse romance mas também leram os livros que Heinlein cometeu depois, nos quais as mesmas opiniões são reiteradas uma e outra vez, embora nunca mais com a crueza presente nos Troopers.
Ora, ora, Galopim!... Manda mais postais, que com esse não vais lá.
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
O (grande) disparate
Anda por aí a circular uma mensagem perfeitamente pateta em tons vagamente apocalípticos que diz que Marte, a 27 de Agosto vai "ser tão grande como a Lua cheia a olho nu". Diz também que "a próxima vez que Marte irá estar tão próximo será em 2287. O curioso é que esta palermice surge todos os anos por esta altura desde 2003. Ou seja: desde 2003 que "a próxima vez que Marte estará tão grande será em 2287". Mas ninguém dá pela marosca, e todos os anos há quem enfie uma pulga aos saltos no entusiasmo à espera do grande acontecimento. Os mais prudentes perguntam se é verdade. Notem bem: não surfam a net tentando informar-se. Perguntam se é verdade.
Se surfassem a net em vez de fazer perguntas patetas, saberiam que NÃO é verdade, porque desde 2003 que muita gente por esta internet fora publica a verdade um pouco por todo o lado. Saberiam que não é verdade e que não pode ser verdade. Marte nunca se aproxima a menos de cerca de 55 MILHÕES de quilómetros da Terra, enquanto que a Lua está apenas a uns 385 MILHARES de quilómetros de nós. 55 milhões é 144 vezes mais que 385 mil. Por causa da perspectiva (sabem? aquela coisa que faz com que as pessoas ao longe fiquem do tamanho de um dedo?) para que Marte parecesse algum dia do tamanho da Lua cheia teria de ser 144 vezes maior que ela. Não é, muito longe disso. É só duas vezes maior.
Além do mais, Marte nem sequer está no ponto mais próximo de nós na sua órbita. Esteve a 27 de Agosto de 2003, mas o planeta não fica parado no mesmo sítio à espera que a Terra dê a volta ao sol e volte a passar por ele no mesmo dia do ano seguinte. Também se mexe, e como consequência, a 27 de Agosto estará a cerca de 180 MILHÕES de quilómetros da vossa garagem.
É uma viagem e pêras. Não se esqueçam de levar farnel.
Se surfassem a net em vez de fazer perguntas patetas, saberiam que NÃO é verdade, porque desde 2003 que muita gente por esta internet fora publica a verdade um pouco por todo o lado. Saberiam que não é verdade e que não pode ser verdade. Marte nunca se aproxima a menos de cerca de 55 MILHÕES de quilómetros da Terra, enquanto que a Lua está apenas a uns 385 MILHARES de quilómetros de nós. 55 milhões é 144 vezes mais que 385 mil. Por causa da perspectiva (sabem? aquela coisa que faz com que as pessoas ao longe fiquem do tamanho de um dedo?) para que Marte parecesse algum dia do tamanho da Lua cheia teria de ser 144 vezes maior que ela. Não é, muito longe disso. É só duas vezes maior.
Além do mais, Marte nem sequer está no ponto mais próximo de nós na sua órbita. Esteve a 27 de Agosto de 2003, mas o planeta não fica parado no mesmo sítio à espera que a Terra dê a volta ao sol e volte a passar por ele no mesmo dia do ano seguinte. Também se mexe, e como consequência, a 27 de Agosto estará a cerca de 180 MILHÕES de quilómetros da vossa garagem.
É uma viagem e pêras. Não se esqueçam de levar farnel.
sexta-feira, 20 de julho de 2007
Que bom que é acabar as coisas que se começam
Quem chegou aqui ao blogue ao longo dos últimos tempos, achou-o imóvel. Congelado no tempo, numa paralisia que nem chegava à anemia. Parecia-se mais com a imobilidade de um cadáver. Mais um dos milhões de blogues mortos que há por essa internet fora, milhões de monumentos à brevidade dos entusiasmos humanos. Em especial os diletantes.
A primeira entrada visível na página, láááá ao fundo, data de 6 de Março. De então para cá passaram-se quatro meses e meio em que o ritmo de posts esteve entre o eventual e o imóvel. Lamento pela meia-dúzia de visitantes que vêem cá porque gostam de facto do blogue. Mas...
... mas a verdade é que nestes entretantos se passou uma semana de estaleiro, doente, sem conseguir fazer nada a não ser estar na cama. 800 páginas traduzidas. Dois contos escritos e revistos e um deles publicado. Duas mil novas entradas no Bibliowiki. A vida banal de todos os dias com as suas exigências banais (mas exigentes) de todos os dias. E mais algumas coisas de que provavelmente vos darei conta mais tarde.
Por mais que goste disto dos blogues e de blogar, e tenho de admitir que já gostei bastante mais, o tempo não estica. Tenta-se puxar por ele e falta sempre do outro lado, como uma manta demasiado estreita numa noite fria de inverno. E assim, o blogue parou. Diletantamente. Aqui, posso dar-me ao luxo de ser irresponsável à vontade para que não o seja também noutros sítios. Para que cumpra prazos. Para que avance com projectos (pelo menos até ficar farto de sabotagens vindas de onde não deviam vir). Para acabar as coisas que começo.
É que é bom acabar as coisas que se começam. Sabe bem. É como tirar um peso de cima, como respirar uma golfada de ar fresco, como todos os lugares-comuns que se costumam dizer nestas ocasiões, que apesar de serem lugares-comuns são todos verdadeiros.
Precisamente por isso, decidi há alguns meses que não me voltarei a meter em nada que não possa acabar. Sozinho, se necessário. Claro que há coisas que não têm um fim, que estão continuamente em fluxo, a menos que se decida "OK, não faço mais, acabou-se". Este blogue, por exemplo. Ou o Bibliowiki. Mas há coisas que só são, realmente, depois de acabarem, de ficarem completas e feitas, depois do último ponto final. É dessas que falo. É nessas coisas que não participarei nunca mais a menos que saiba que se for necessário as poderei levar a cabo sozinho. Nunca mais. A menos que me paguem. Bem.
Um gato que escalda uma vez é inexperente, duas é teimoso, mais é burro. E eu já sou gato burro há demasiado tempo. Basta.
E mãos à obra. Mãos à obra de terminar coisas que ficaram pendentes em parte porque devotei tempo e esforço a coisas que achava mais importantes mas não chegaram a lado nenhum por irresponsabilidades e diletantismos alheios. E mãos à obra do mais importante: o trabalho.
É que tenho aqui 300 páginas já começadas e à espera do tal ponto final, sabem? E mais 1000 (isso mesmo, mil) à espera de vez para começar.
Portanto, é bastante provável que a Lâmpada continue no ritmo actual, entre o parado e o imóvel. Lamento, caros amigos, mas como dizia o Zarolho (de que ouvirão falar um destes dias, adianto desde já... e não, não me refiro a este Zarolho), outros valores mais altos se levantam.
A primeira entrada visível na página, láááá ao fundo, data de 6 de Março. De então para cá passaram-se quatro meses e meio em que o ritmo de posts esteve entre o eventual e o imóvel. Lamento pela meia-dúzia de visitantes que vêem cá porque gostam de facto do blogue. Mas...
... mas a verdade é que nestes entretantos se passou uma semana de estaleiro, doente, sem conseguir fazer nada a não ser estar na cama. 800 páginas traduzidas. Dois contos escritos e revistos e um deles publicado. Duas mil novas entradas no Bibliowiki. A vida banal de todos os dias com as suas exigências banais (mas exigentes) de todos os dias. E mais algumas coisas de que provavelmente vos darei conta mais tarde.
Por mais que goste disto dos blogues e de blogar, e tenho de admitir que já gostei bastante mais, o tempo não estica. Tenta-se puxar por ele e falta sempre do outro lado, como uma manta demasiado estreita numa noite fria de inverno. E assim, o blogue parou. Diletantamente. Aqui, posso dar-me ao luxo de ser irresponsável à vontade para que não o seja também noutros sítios. Para que cumpra prazos. Para que avance com projectos (pelo menos até ficar farto de sabotagens vindas de onde não deviam vir). Para acabar as coisas que começo.
É que é bom acabar as coisas que se começam. Sabe bem. É como tirar um peso de cima, como respirar uma golfada de ar fresco, como todos os lugares-comuns que se costumam dizer nestas ocasiões, que apesar de serem lugares-comuns são todos verdadeiros.
Precisamente por isso, decidi há alguns meses que não me voltarei a meter em nada que não possa acabar. Sozinho, se necessário. Claro que há coisas que não têm um fim, que estão continuamente em fluxo, a menos que se decida "OK, não faço mais, acabou-se". Este blogue, por exemplo. Ou o Bibliowiki. Mas há coisas que só são, realmente, depois de acabarem, de ficarem completas e feitas, depois do último ponto final. É dessas que falo. É nessas coisas que não participarei nunca mais a menos que saiba que se for necessário as poderei levar a cabo sozinho. Nunca mais. A menos que me paguem. Bem.
Um gato que escalda uma vez é inexperente, duas é teimoso, mais é burro. E eu já sou gato burro há demasiado tempo. Basta.
E mãos à obra. Mãos à obra de terminar coisas que ficaram pendentes em parte porque devotei tempo e esforço a coisas que achava mais importantes mas não chegaram a lado nenhum por irresponsabilidades e diletantismos alheios. E mãos à obra do mais importante: o trabalho.
É que tenho aqui 300 páginas já começadas e à espera do tal ponto final, sabem? E mais 1000 (isso mesmo, mil) à espera de vez para começar.
Portanto, é bastante provável que a Lâmpada continue no ritmo actual, entre o parado e o imóvel. Lamento, caros amigos, mas como dizia o Zarolho (de que ouvirão falar um destes dias, adianto desde já... e não, não me refiro a este Zarolho), outros valores mais altos se levantam.
segunda-feira, 14 de maio de 2007
Sotaques
Esta história dos sotaques é curiosa. Acabei de ouvir na televisão uma moça inglesa mas criada no Algarve, e achei piada a detetar nas palavras dela (em português) uma curiosa mistura dos dois sotaques, o inglês e o algarvio, uma mistura que nunca antes tinha ouvido, e que se não os conhecesse bem a ambos provavelmente teria grande dificuldade em identificar.
E é curiosa, esta coisa dos sotaques, por serem completamente involuntários. Uma pessoa cresce mergulhada num determinado ambiente linguístico e é esse ambiente que determina o seu modo de falar, sem que ela tenha voto na matéria. Se mais tarde muda de ambiente, ou se toma a decisão consciente de mudar o modo de falar (por uma questão de prestígio, por exemplo, ou por obrigação profissional) é raro que o sotaque secundário soe puro, livre das influências do original. Quando a decisão é consciente, o que envolve um esforço também consciente e uma auto-vigilância constante, assim que essa vigilância abranda, seja por que motivo for, eis que o sotaque original surge em todo o seu esplendor, ou quase.
Li ou ouvi algures que isto tem a ver com a maneira como a parte interior da boca é em parte moldada pela(s) língua(s) que se aprende(m) a falar na infância. Suponho que haja também uma moldagem semelhante nos circuitos linguísticos do cérebro, mas estou longe de ter a certeza.
Seja como for, os sotaques são fonte de infinito divertimento. Quem ainda não tentou pôr um brasileiro a falar com sotaque português? E quem não se divertiu com os resultados, invariavelmente um falhanço completo? E as infinitas piadas que envolvem a troca nortenha "dos bês pelos bês". Ou o arrastado do falar alentejano? Ou o falar típico dos ciganos... ou de Cascais? E como soaria um cigano criado em Cascais? Ou o gozo que é com os lisboetas à conta do seu "treuze" ou dos seus trejeitos repletos de fadistice?
Pena é que tendam a desaparecer, pelo menos dentro de um mesmo país, com a homogeneização criada pela televisão. Hoje, temos quase todos um sotaque híbrido, meio determinado pelo lugar onde nascemos, meio determinado por aquilo que a televisão decidiu, de forma bastante totalitária diga-se de passagem, que devia ser o "sotaque-padrão", contra o qual todos os outros perdem prestígio. Seria bom que não fosse assim. Não só para a manutenção da pluralidade cultural (porque o modo de falar também é cultura) de um país, mas também em nome do hom humor.
Pessoalmente, tenho um sotaque algarvio ligeiro: a minha mãe, embora nascida em Portimão, aprendeu a falar em Lisboa e o sotaque dela já era híbrido antes mesmo da televisão, e o meu pai é de uma aldeia cujo sotaque local é bastante menos marcado do os que o rodeiam, de modo que o meu acaba por ser também pouco marcado. Mas acarinho-o, e hei-de acarinhá-lo para sempre. Nunca farei nenhum tipo de esforço por não dizer "na" em lugar de "não", nas situações em que no falar algarvio a negativa se faz com "na" ("na sê" e não "não sei", por exemplo; comigo, hibridamente qb, é mais "na sei"), ou por pronunciar as vogais mudas do fim das palavras, em especial nos plurais terminados em "es".
É que, como grande parte dos outros fragmentos de que é composta a identidade, este também poderá ser involuntário, mas é parte daquilo que sou. Sem o meu sotaque, por ligeiro que seja, ficaria um pouco menos eu. E não me apetece que isso aconteça.
E é curiosa, esta coisa dos sotaques, por serem completamente involuntários. Uma pessoa cresce mergulhada num determinado ambiente linguístico e é esse ambiente que determina o seu modo de falar, sem que ela tenha voto na matéria. Se mais tarde muda de ambiente, ou se toma a decisão consciente de mudar o modo de falar (por uma questão de prestígio, por exemplo, ou por obrigação profissional) é raro que o sotaque secundário soe puro, livre das influências do original. Quando a decisão é consciente, o que envolve um esforço também consciente e uma auto-vigilância constante, assim que essa vigilância abranda, seja por que motivo for, eis que o sotaque original surge em todo o seu esplendor, ou quase.
Li ou ouvi algures que isto tem a ver com a maneira como a parte interior da boca é em parte moldada pela(s) língua(s) que se aprende(m) a falar na infância. Suponho que haja também uma moldagem semelhante nos circuitos linguísticos do cérebro, mas estou longe de ter a certeza.
Seja como for, os sotaques são fonte de infinito divertimento. Quem ainda não tentou pôr um brasileiro a falar com sotaque português? E quem não se divertiu com os resultados, invariavelmente um falhanço completo? E as infinitas piadas que envolvem a troca nortenha "dos bês pelos bês". Ou o arrastado do falar alentejano? Ou o falar típico dos ciganos... ou de Cascais? E como soaria um cigano criado em Cascais? Ou o gozo que é com os lisboetas à conta do seu "treuze" ou dos seus trejeitos repletos de fadistice?
Pena é que tendam a desaparecer, pelo menos dentro de um mesmo país, com a homogeneização criada pela televisão. Hoje, temos quase todos um sotaque híbrido, meio determinado pelo lugar onde nascemos, meio determinado por aquilo que a televisão decidiu, de forma bastante totalitária diga-se de passagem, que devia ser o "sotaque-padrão", contra o qual todos os outros perdem prestígio. Seria bom que não fosse assim. Não só para a manutenção da pluralidade cultural (porque o modo de falar também é cultura) de um país, mas também em nome do hom humor.
Pessoalmente, tenho um sotaque algarvio ligeiro: a minha mãe, embora nascida em Portimão, aprendeu a falar em Lisboa e o sotaque dela já era híbrido antes mesmo da televisão, e o meu pai é de uma aldeia cujo sotaque local é bastante menos marcado do os que o rodeiam, de modo que o meu acaba por ser também pouco marcado. Mas acarinho-o, e hei-de acarinhá-lo para sempre. Nunca farei nenhum tipo de esforço por não dizer "na" em lugar de "não", nas situações em que no falar algarvio a negativa se faz com "na" ("na sê" e não "não sei", por exemplo; comigo, hibridamente qb, é mais "na sei"), ou por pronunciar as vogais mudas do fim das palavras, em especial nos plurais terminados em "es".
É que, como grande parte dos outros fragmentos de que é composta a identidade, este também poderá ser involuntário, mas é parte daquilo que sou. Sem o meu sotaque, por ligeiro que seja, ficaria um pouco menos eu. E não me apetece que isso aconteça.
sábado, 12 de maio de 2007
Spamesia
Aqui está uma das tais postas grandes que ando a adiar há montes de tempo. Esta estava planeada para 29 de Abril e a ideia era comemorar assim, celebrando o melhor que a Lâmpada já teve, o quarto aniversário aqui deste veterano blogue. Não deu. A vida, essa chata, não deixou. Para quem é novo, acabou de aqui cair e não sabe, a spamesia são poemas (com ou sem pseudo) que eu fiz, durante um ano, intitulados segundo as mensagens de spam que recebia todos os dias, e inspirados pelos títulos. São portanto trezentos e sessenta e seis spamemas, que o ano de 2004 foi bissexto, e aqui fica a lista completa, com links para os conteúdos. Divirtam-se.
PSeAdL (Post-scriptum e antes da lista): Haverá por aí alguém que perceba destas coisas das poesias mais do que eu (é fácil) e que esteja na disposição de selecionar entre este material aquele que eventualmente seja publicável em papel?
1. Auto-fascinação cegante
2. Está feliz?
3. Dose digital
4. Seja
5. Novidades! Não perca!
6. Dá valor à sua saúde e bem-estar?
7. Olhe pela janela
8. Senti a tua falta
9. Nvite
10. Divirta-se
11. Thriller de casa de banho
12. Cansado?
13. iftern mudd
14. Lançamento na internet
15. Pílula azul?
16. Queres ouvir uma história?
17. Pensei que talvez precisasse disto
18. Aprovado
19. Força muscular aumentada
20. Não sei
21. Eh, tu
22. À procura do meu fósforo
23. Não sejas tonto
24. A gira estudante Sveta está muito chateada
25. Seis razões
26. Não esperes até que a tempestade se aproxime
27. Os teus problemas com o carro acabaram, amigo
28. Melhor é maior
29. Fonte da juventude
30. Contacta-a
31. De um amigo
32. Acordo
33. Papá e mamã a fazer a filhinha
34. Calhaus
35. Acerca de ontem
36. Noites solitárias
37. Onde está?
38. Grandes notícias!
39. Reservar agora
40. Oh, sim, claro
41. Problemas com dívidas?
42. Está a ser vigiado?
43. Boa ideia
44. Vermelho especial
45. Onde és tu sexy?
46. Parece que dá certo
47. Bisbilhotice privada?
48. Querem ver isto?
49. Esqueceste-te de responder
50. Olá!
51. É demasiado grande para mim
52. Vagas abertas
53. Grito por assistência
54. Não acredito que te esqueceste!
55. Confidencial
56. Tire o melhor partido da sua experiência digital
57. Tu és quente!
58. Confiança
59. Não mais bichos a morder pontos
60. Esqueceu-se do chapéu de chuva
61. Uma mulher mais velha e solitária ainda gosta de sexo
62. É altura de conheceres o novo tu
63. Precisas de uma mudança?
64. Entrega discreta
65. Instale-se na internet
66. dtldrum dedugt
67. Nunca mais percas as chaves
68. Ficção
69. Abre-me
70. Cultiva-as
71. Ouviste as notícias?
72. A solução para a poluição
73. A descoberta da juventude
74. Requere-se uma resposta
75. O recuperador de tempo
76. São possíveis melhoramentos massivos
77. Despacha-te
78. Envolvido em plástico
79. Agora
80. !
81. Proposta
82. Conforme solicitado
83. Anima-me
84. Pensaste no teu filho?
85. O sul, o sol, o sal
86. Melhora a tua vida
87. A chegar
88. O meu corpo nu
89. Proposta muito interessante
90. As fotografias da Florinda
91. Muito prazer
92. Crescimento
93. É altura de mudar
94. Foi bom conhecer-te
95. Direitos reservados
96. Talvez pudéssemos tentar?
97. Vital
98. Boa ideia
99. Tautologia
100. Plástico
101. Meandros
102. Pesquisei
103. O milagre contra o envelhecimento
104. Não negues
105. Gosto disso!
106. O bilhete tecnológico
107. A minha irmã
108. Detalhes
109. É simplesmente pequeno demais
110. Obrigado
111. Clube de fãs da aveleira
112. Que te aconteceu?
113. A reunião
114. Aumente o seu comprimento
115. Isto é porreiro!
116. Leia, por favor
117. Urgente
118. Queres ser um amante biónico?
119. Precisa-se gerador de dobra dimensional
120. Sucesso garantido
121. A primeira vez
122. Que se passa?
123. Parabéns, você ganhou!
124. Olá, Ujay
125. 100% Livre
126. Tenho a cura
127. Eu sei tudo isso
128. Surpreende-a
129. Desejas um futuro próspero?
130. Permanece para sempre, no quarto
131. Como passa o teu marido?
132. Combatibilidade
133. Instruções divinas
134. Incrível!
135. E porque não?
136. Lê
137. Livro
138. De que estás à espera?
139. Memorizado
140. Mensagem de erro
141. Dilúvio
142. Dará resultado?
143. Homens e burlas
144. As minhas desculpas
145. Faz as coisas à homem
146. Causador
147. Manuela
148. Infeliz com o tamanho do seu músculo do amor
149. A felicidade
150. Linguagem
151. Pense num número de sete dígitos
152. Espantoso
153. Procura
154. Vem cá amanhã
155. Melhore a qualidade do sono
156. Segredos de beleza
157. Juventude
158. Rápido como um bolo
159. Amadores
160. Bolachas e queijo
161. Desocupados
162. Poupe gasolina
163. O natal está a chegar
164. Truque de magia
165. Aprovação
166. Pagamos em dinheiro pelas suas opiniões
167. Melhores medicamentos
168. Spam
169. Aqui sentado sonhando com milhões
170. Eu tenho a cura
171. Viva a baixa
172. Por favor
173. Paixão neste cheiro
174. Protege a tua individualidade
175. Uma pergunta rápida
176. Manda um email ao mundo
177. Pústulas de vaca
178. OK
179. Exemplar
180. Um pouco de ajuda nunca fez mal a ninguém
181. A prenda ideal para o seu natal
182. O prazer dela
183. As pinturas a óleo
184. Remendo
185. Com medo da fechadura
186. Escrevi este livro
187. Enquanto o Diabo esfrega o olho...
188. Leia isto bem
189. A modos que falido de momento?
190. Há uma Lua lá fora esta noite
191. Agora?
192. Pinta essa porta de preto
193. Saudável e
194. Não apague, dê uma chance à vida!
195. Adolescentes inocentes que o fazem como putas
196. Viril
197. O sistema perfeito
198. Ouve, queres saber um segredo?
199. Pensas que é possível?
200. Quando dizes “amo-te”
201. Algo para lamentar
202. Livre durante um mês
203. Convite
204. Sabia que a violência doméstica
205. Maria
206. Informação de que necessitava
207. Cigarros
208. A loja do vidro
209. Má memória
210. Comida livre
211. Acredito em ti
212. Violino
213. Só para o pai
214. Desejamos-lhe um feliz Natal
215. Presente para a mulher que se ama
216. Ficção científica
217. Nota
218. Afrodisíaco
219. Desarrumado
220. Segunda-feira
221. Impressione-a como a luz do dia
222. No mínimo
223. Um pequeno duende tem uma mensagem para ti
224. Tempo de férias
225. U
226. Fique em forma para as festas
227. Ler para reflectir
228. Preocupado?
229. Tão doce...
230. O tempo é da essência
231. Jogos
232. Ideias para ele e para ela
233. Viagens dentro do orçamento
234. Sou eu
235. O útil óleo
236. É o Perfeito
237. Super cargas
238. Descansa, touro, eu não digo a ninguém
239. Ano novo vida nova
240. Palmada
241. Nunca morrerá
242. Grande sensação
243. O frenesi de saque no gueto
244. A sua herança
245. Colono
246. Betão
247. Mais uma vez
248. Muito raro
249. A andesina de Colombo
250. Filha com o pai
251. Ásia
252. Produto gratuito inverte o envelhecimento
253. Sexta-feira
254. Carta
255. O pato do contra
256. Onde?
257. O degrau
258. Brisa
259. Diverte
260. Genitivo
261. Bagatela corruptível
262. Não é aldrabice
263. Estudantes
264. Como vai a família?
265. O gato farfalhudo
266. Cinto
267. Fugiu
268. Erro
269. Esta informação é útil para a sua saúde
270. Teste
271. Vais adorar isto
272. Oh! A caricatura de um dingo!
273. Alerta de vírus
274. Detestas ressacas?
275. O teu ano
276. Contrito
277. Bijuteria
278. Demonstrável
279. Dá
280. Respeito por todos
281. Bernardina
282. Estás cansada?
283. Dura 36 horas
284. Teste gratuito
285. O parvalhote
286. A tua posição está confirmada
287. Acústico
288. Visibilidade
289. Frase subliminal
290. Aquele pedaço de papel
291. Que se passa QFI 95?
292. Prisão
293. Quanto maior, melhor
294. Detestação
295. Refazendo o passado
296. Membrana
297. Fantástico!
298. Roubado
299. Tintureiro
300. Falso
301. Gestalt
302. Desconhecido
303. Faz as malas
304. Duro como pedra
305. Aterrorizado
306. Tempo de jogar
307. Como queiras
308. O meu grito
309. Estatuto
310. Tentativa de ignorância
311. Pausa
312. Métrico
313. Portal para o seu
314. Correio devolvido: utilizador desconhecido
315. Irreal
316. Contrabando
317. Excepção
318. Caos
319. Sexto
320. Projectos no Médio Oriente
321. Alma gémea
322. Conversa
323. A luz das chamas
324. A economia está muito melhor agora
325. Termostato de presunção
326. O palhaço anelar
327. A exaustão da maçaneta
328. Viagem para a queda
329. Matilde felina
330. Misantropo
331. Grito
332. Iconoclasmo
333. Pornografia livre
334. Emprego de sonho
335. Cocheiros acinzentados
336. Siringe
337. Elísio
338. Quadrângulo
339. Ordem
340. Anatomia
341. Abstractor
342. Uma casa não é um lar
343. Patife
344. Pollux
345. Asa de morcego
346. Mandíbula
347. Meridional
348. Pacífico
349. Poeta
350. Tempo de vida
351. Reversão
352. Tangível
353. Limbo
354. Acastanhado
355. Tempo numa garrafa para si
356. Real
357. Ábaco
358. Tecendo o futuro
359. Ramifica
360. Documento roubado
361. Ar
362. A tua música
363. Boing (o som que faz uma pequena pílula)
364. A tua fotografia
365. Lacunas
366. Tema de mensagem
PSeAdL (Post-scriptum e antes da lista): Haverá por aí alguém que perceba destas coisas das poesias mais do que eu (é fácil) e que esteja na disposição de selecionar entre este material aquele que eventualmente seja publicável em papel?
1. Auto-fascinação cegante
2. Está feliz?
3. Dose digital
4. Seja
5. Novidades! Não perca!
6. Dá valor à sua saúde e bem-estar?
7. Olhe pela janela
8. Senti a tua falta
9. Nvite
10. Divirta-se
11. Thriller de casa de banho
12. Cansado?
13. iftern mudd
14. Lançamento na internet
15. Pílula azul?
16. Queres ouvir uma história?
17. Pensei que talvez precisasse disto
18. Aprovado
19. Força muscular aumentada
20. Não sei
21. Eh, tu
22. À procura do meu fósforo
23. Não sejas tonto
24. A gira estudante Sveta está muito chateada
25. Seis razões
26. Não esperes até que a tempestade se aproxime
27. Os teus problemas com o carro acabaram, amigo
28. Melhor é maior
29. Fonte da juventude
30. Contacta-a
31. De um amigo
32. Acordo
33. Papá e mamã a fazer a filhinha
34. Calhaus
35. Acerca de ontem
36. Noites solitárias
37. Onde está?
38. Grandes notícias!
39. Reservar agora
40. Oh, sim, claro
41. Problemas com dívidas?
42. Está a ser vigiado?
43. Boa ideia
44. Vermelho especial
45. Onde és tu sexy?
46. Parece que dá certo
47. Bisbilhotice privada?
48. Querem ver isto?
49. Esqueceste-te de responder
50. Olá!
51. É demasiado grande para mim
52. Vagas abertas
53. Grito por assistência
54. Não acredito que te esqueceste!
55. Confidencial
56. Tire o melhor partido da sua experiência digital
57. Tu és quente!
58. Confiança
59. Não mais bichos a morder pontos
60. Esqueceu-se do chapéu de chuva
61. Uma mulher mais velha e solitária ainda gosta de sexo
62. É altura de conheceres o novo tu
63. Precisas de uma mudança?
64. Entrega discreta
65. Instale-se na internet
66. dtldrum dedugt
67. Nunca mais percas as chaves
68. Ficção
69. Abre-me
70. Cultiva-as
71. Ouviste as notícias?
72. A solução para a poluição
73. A descoberta da juventude
74. Requere-se uma resposta
75. O recuperador de tempo
76. São possíveis melhoramentos massivos
77. Despacha-te
78. Envolvido em plástico
79. Agora
80. !
81. Proposta
82. Conforme solicitado
83. Anima-me
84. Pensaste no teu filho?
85. O sul, o sol, o sal
86. Melhora a tua vida
87. A chegar
88. O meu corpo nu
89. Proposta muito interessante
90. As fotografias da Florinda
91. Muito prazer
92. Crescimento
93. É altura de mudar
94. Foi bom conhecer-te
95. Direitos reservados
96. Talvez pudéssemos tentar?
97. Vital
98. Boa ideia
99. Tautologia
100. Plástico
101. Meandros
102. Pesquisei
103. O milagre contra o envelhecimento
104. Não negues
105. Gosto disso!
106. O bilhete tecnológico
107. A minha irmã
108. Detalhes
109. É simplesmente pequeno demais
110. Obrigado
111. Clube de fãs da aveleira
112. Que te aconteceu?
113. A reunião
114. Aumente o seu comprimento
115. Isto é porreiro!
116. Leia, por favor
117. Urgente
118. Queres ser um amante biónico?
119. Precisa-se gerador de dobra dimensional
120. Sucesso garantido
121. A primeira vez
122. Que se passa?
123. Parabéns, você ganhou!
124. Olá, Ujay
125. 100% Livre
126. Tenho a cura
127. Eu sei tudo isso
128. Surpreende-a
129. Desejas um futuro próspero?
130. Permanece para sempre, no quarto
131. Como passa o teu marido?
132. Combatibilidade
133. Instruções divinas
134. Incrível!
135. E porque não?
136. Lê
137. Livro
138. De que estás à espera?
139. Memorizado
140. Mensagem de erro
141. Dilúvio
142. Dará resultado?
143. Homens e burlas
144. As minhas desculpas
145. Faz as coisas à homem
146. Causador
147. Manuela
148. Infeliz com o tamanho do seu músculo do amor
149. A felicidade
150. Linguagem
151. Pense num número de sete dígitos
152. Espantoso
153. Procura
154. Vem cá amanhã
155. Melhore a qualidade do sono
156. Segredos de beleza
157. Juventude
158. Rápido como um bolo
159. Amadores
160. Bolachas e queijo
161. Desocupados
162. Poupe gasolina
163. O natal está a chegar
164. Truque de magia
165. Aprovação
166. Pagamos em dinheiro pelas suas opiniões
167. Melhores medicamentos
168. Spam
169. Aqui sentado sonhando com milhões
170. Eu tenho a cura
171. Viva a baixa
172. Por favor
173. Paixão neste cheiro
174. Protege a tua individualidade
175. Uma pergunta rápida
176. Manda um email ao mundo
177. Pústulas de vaca
178. OK
179. Exemplar
180. Um pouco de ajuda nunca fez mal a ninguém
181. A prenda ideal para o seu natal
182. O prazer dela
183. As pinturas a óleo
184. Remendo
185. Com medo da fechadura
186. Escrevi este livro
187. Enquanto o Diabo esfrega o olho...
188. Leia isto bem
189. A modos que falido de momento?
190. Há uma Lua lá fora esta noite
191. Agora?
192. Pinta essa porta de preto
193. Saudável e
194. Não apague, dê uma chance à vida!
195. Adolescentes inocentes que o fazem como putas
196. Viril
197. O sistema perfeito
198. Ouve, queres saber um segredo?
199. Pensas que é possível?
200. Quando dizes “amo-te”
201. Algo para lamentar
202. Livre durante um mês
203. Convite
204. Sabia que a violência doméstica
205. Maria
206. Informação de que necessitava
207. Cigarros
208. A loja do vidro
209. Má memória
210. Comida livre
211. Acredito em ti
212. Violino
213. Só para o pai
214. Desejamos-lhe um feliz Natal
215. Presente para a mulher que se ama
216. Ficção científica
217. Nota
218. Afrodisíaco
219. Desarrumado
220. Segunda-feira
221. Impressione-a como a luz do dia
222. No mínimo
223. Um pequeno duende tem uma mensagem para ti
224. Tempo de férias
225. U
226. Fique em forma para as festas
227. Ler para reflectir
228. Preocupado?
229. Tão doce...
230. O tempo é da essência
231. Jogos
232. Ideias para ele e para ela
233. Viagens dentro do orçamento
234. Sou eu
235. O útil óleo
236. É o Perfeito
237. Super cargas
238. Descansa, touro, eu não digo a ninguém
239. Ano novo vida nova
240. Palmada
241. Nunca morrerá
242. Grande sensação
243. O frenesi de saque no gueto
244. A sua herança
245. Colono
246. Betão
247. Mais uma vez
248. Muito raro
249. A andesina de Colombo
250. Filha com o pai
251. Ásia
252. Produto gratuito inverte o envelhecimento
253. Sexta-feira
254. Carta
255. O pato do contra
256. Onde?
257. O degrau
258. Brisa
259. Diverte
260. Genitivo
261. Bagatela corruptível
262. Não é aldrabice
263. Estudantes
264. Como vai a família?
265. O gato farfalhudo
266. Cinto
267. Fugiu
268. Erro
269. Esta informação é útil para a sua saúde
270. Teste
271. Vais adorar isto
272. Oh! A caricatura de um dingo!
273. Alerta de vírus
274. Detestas ressacas?
275. O teu ano
276. Contrito
277. Bijuteria
278. Demonstrável
279. Dá
280. Respeito por todos
281. Bernardina
282. Estás cansada?
283. Dura 36 horas
284. Teste gratuito
285. O parvalhote
286. A tua posição está confirmada
287. Acústico
288. Visibilidade
289. Frase subliminal
290. Aquele pedaço de papel
291. Que se passa QFI 95?
292. Prisão
293. Quanto maior, melhor
294. Detestação
295. Refazendo o passado
296. Membrana
297. Fantástico!
298. Roubado
299. Tintureiro
300. Falso
301. Gestalt
302. Desconhecido
303. Faz as malas
304. Duro como pedra
305. Aterrorizado
306. Tempo de jogar
307. Como queiras
308. O meu grito
309. Estatuto
310. Tentativa de ignorância
311. Pausa
312. Métrico
313. Portal para o seu
314. Correio devolvido: utilizador desconhecido
315. Irreal
316. Contrabando
317. Excepção
318. Caos
319. Sexto
320. Projectos no Médio Oriente
321. Alma gémea
322. Conversa
323. A luz das chamas
324. A economia está muito melhor agora
325. Termostato de presunção
326. O palhaço anelar
327. A exaustão da maçaneta
328. Viagem para a queda
329. Matilde felina
330. Misantropo
331. Grito
332. Iconoclasmo
333. Pornografia livre
334. Emprego de sonho
335. Cocheiros acinzentados
336. Siringe
337. Elísio
338. Quadrângulo
339. Ordem
340. Anatomia
341. Abstractor
342. Uma casa não é um lar
343. Patife
344. Pollux
345. Asa de morcego
346. Mandíbula
347. Meridional
348. Pacífico
349. Poeta
350. Tempo de vida
351. Reversão
352. Tangível
353. Limbo
354. Acastanhado
355. Tempo numa garrafa para si
356. Real
357. Ábaco
358. Tecendo o futuro
359. Ramifica
360. Documento roubado
361. Ar
362. A tua música
363. Boing (o som que faz uma pequena pílula)
364. A tua fotografia
365. Lacunas
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