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quinta-feira, 1 de agosto de 2019
Escrita de julho
— E então, pá?
— Hm?...
— Então, acabaste a novela?
— Ah, isso. Ná.
— Então?
— Então o quê?
— O que aconteceu? Porque é que não a acabaste?
— Porque não deu para acabar.
— Ah. Estou a ver. Voltaste a interromper a escrita, não é? Andaste a escrever durante uns meses, mas cansaste-te e voltaste a fechar a loja. Certo?
— Heh. Estás mais frio que os glaciares em derretimento da Gronelândia. Escrevi quase todos os dias do mês.
— Ah sim? Então conta lá. O que é que se passou para não acabares a novela?
— Bem, olha, para começar, porque não é uma novela.
— Então é o quê?
— Um romance.
— Mas andaste meses a falar de novela...
— Pois andei. O plano original era fazer uma noveleta, mas depressa percebi que ia sair maior. Daí falar de novela. De resto, foi essa uma das razões por que desisti de tentar aprontá-la a tempo da Solarpunk. Não a única, mas uma das.
— E?...
— E está a sair ainda maior do que eu esperava.
— Mas então isso é assim? Aprendeste com o Martin, foi?
— Engraçadinho.
— Não estou a tentar fazer piada. Porque é que isso cresce tanto?
— Olha, porque à medida que vou escrevendo vai-me parecendo que a coisa fica pouco sólida e precisa de mais um detalhe, e depois de mais outro, e depois de outro ainda. E às vezes arranjo maneiras melhores de chegar onde quero chegar, que costumam levar-me a escrever mais. E por aí fora.
— Ou seja: aprendeste com o Martin.
— Se preferes encarar as coisas assim...
— E agora quando é que tens a coisa pronta?
— Já que dizes que aprendi com o Martin, toma lá: já não faço previsões dessas. E embrulha.
— Sacana dum raio.
— Não vale a pena ter a fama sem ter o proveito, não te parece?
— Bah!
— Hihihi.
— E agora vais-me dizer que não acabaste nada, querem ver? Nem mesmo o tal capítulo que dizias que era grande.
— Não digo, não. Esse capítulo está finalmente acabado. Já estou no penúltimo. E nos entretantos também escrevi um conto e revi outro.
— Então já está mesmo grande?
— Já. Este mês foram mais quase nove mil palavras. Umas 25 páginas. Nem todas para o romance, mas quase, que o conto é pequenino. Já vai com umas 130 páginas.
— E faltam quantas?
— Querias saber, não querias? Mas não vais saber.
— Humpf!
— É a vida...
— Mas o que é isso, afinal?
— Como assim?
— Estás a escrever o quê?
— Ah. É mais uma história do Tempo das Passarolas. A história que o público aqui da Lâmpada escolheu em 2017 para eu trabalhar a seguir. Não trabalhei em 2017, mas tenho trabalhado em 2019. Antes tarde que nunca, suponho.
— Bem, desde que a acabes... desde que não fique eternamente em promessa...
— Estou a tratar disso.
— Podia era ser mais depressa.
— Não sei se podia. Se calhar este é o meu limite. Eu só uma vez escrevi tanto num ano só como já escrevi este ano: quando escrevi o Por Vós lhe Mandarei Embaixadores. E se continuar a este ritmo, o ano acaba com mais de 200 páginas escritas. Nunca aconteceu.
— Tá bem pronto. Olha, vai escrever.
— Agora não, que estive aqui a escrever isto e já cansou. Mais tarde, talvez. Ou amanhã.
— Preguiçoso!
— Tem dias.
quinta-feira, 4 de julho de 2019
Escrita de junho
Sim, é verdade, isto acelerou mesmo. Junho terminou com cerca de 9100 palavras acrescentadas à novela que tenho andado a escrever. São 25 páginas, talvez um pouco mais. É mais do que em qualquer outro mês desde que recomecei a escrever. Muito mais. Mais que o dobro, na verdade.
E no entanto, nem sequer acabei o capítulo que já vinha dos meses anteriores. É um capítulo muito grande, o maior de todos, e de longe, e provavelmente acabará por sofrer algum desbaste. Mas não muito: é central, sob vários aspetos. O que quer dizer que isto arrisca-se fortemente a deixar de ser novela e passar a romance, pelo menos em tamanho (porque a estrutura continua a ser de novela). Está com mais de 35 mil palavras, mais de 80 páginas de manuscrito, as quais são um pouco maiores que as de um livro médio, pelo que num livro isto teria já quase 100 páginas. O mais certo é que não chegue a ser tão grande como Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, que tem 47 mil palavras, mas é possível que não fique muito longe. Afinal, faltam ainda dois capítulos...
Já não me arrisco é a fazer previsões quanto a quando terei isto acabado. Era para já ter, mas não esperava que crescesse tanto. Acho que me falta mais ou menos tanto quanto escrevi este mês, mas pode ser que acabe por escrever mais. Portanto, olhem: se calhar acabo em julho, se calhar só em agosto, e se a coisa continuar a inchar pode ser que só em setembro. Veremos.
Daqui a um mês digo como foi.
segunda-feira, 3 de junho de 2019
Escrita de maio
Então, pá, acabaste a tal novela? Acabaste? Hã? Hã?, pergunta, ansiosíssimo, ninguém.
Não, não acabei. Nem um capítulo dela acabei durante o mês de maio, apesar de lhe ter acrescentado mais de 3900 palavras. Umas 12 páginas. É possível que este capítulo venha a precisar de sofrer algum desbaste durante a(s) revisão(ões), até porque ainda está bem longe de terminar. A produção do ano vai numas 50 páginas, nem todas pertencentes a este texto, mas a vasta maioria sim. Essa é a parte boa. Essa e o facto de já ir no sexto mês consecutivo de escrita regular. E de já ter escrito mais só este ano do que tudo o que escrevi desde 2013.
A parte má é que isto de escrever à volta de quatro mil palavras por mês é demasiado lento para me ver livre em tempo útil de algumas das histórias que tenho na cabeça. Há por aqui pelo menos dois romances, e assim nem daqui a dez anos. Mas pronto, é melhor que nada. E, agora que acabei uma tradução (falta a revisão), vou ter mais tempo livre, pelo que pode ser que a coisa acelere.
No fim de junho veremos se acelerou mesmo, e quanto. Até lá.
Ah, sim, ia-me esquecendo. Decidi que quando acabar isto vai haver uma surpresazinha. Não sei bem ainda qual, nem o modo concreto de a concretizar, passe o pleonasmo, mas é mais uma cenourinha para espevitar o burrico. Arre bicho!
quarta-feira, 1 de maio de 2019
Escrita de abril
Abril voltou a ser um mês de escrita não muito abundante mas significativa. Este truque de escrever um parágrafo de vez em quando nos intervalos de outras coisas parece ter estabilizado a produção em volta de três a quatro mil palavras, salvo meses particularmente maus, como março último. Abril terminou com pouco mais de 3700 palavras escritas, e teria sido mais se não me tivesse magoado no dia 25 à conta de uma aventurazinha meio tola. Nada de sério mas o suficiente para ficar sem posição para dormir (com as habituais dói), o que me prejudica os sonos ao ponto de se me esgotar o combustível ainda na fase do trabalho. Ou seja: para trabalhar dá; para mais do que isso, nem por isso.
Mesmo assim deu para concluir um capítulo da novela, iniciar outro, escrever mais um conto curto e rever outro.
Mas acho que é já garantido que a novela não vai ficar pronta antes do verão. Teria de acelerar mesmo muito para despachar os dois capítulos e quase um terceiro que faltam entre maio e metade de junho. Agora o objetivo é que fique pronta antes do outono, e isso julgo que será razoavelmente fácil, até porque prevejo ter tempo livre depois do fim da tradução que tenho em mãos.
De qualquer forma, a coisa avança. Devagarinho mas com segurança.
E por agora é só. Até junho.
quarta-feira, 3 de abril de 2019
Escrita de março
Pois é. Já se previa, e eu em fevereiro já o anunciava, e de facto não só se concretizou a complicação de março como ela foi ainda pior do que eu esperava. Além de tudo o que estava previsto, as obras, o início da tradução, as consultas e as análises, ainda apanhei com uma avaria no computador que me forçou a um upgrade, seguido pelo inevitável e muito demorado (e chatíssimo!) processo de reinstalar software até deixar tudo funcional. O qual, de resto, ainda prossegue.
Com tudo isto, a escrita, que já normalmente seria pouco abundante, reduziu-se ainda mais. Mas houve. Trabalhei mais um pouco na tal novela, fazendo-a crescer umas sete páginas. Ou seja, escrevi mais ou menos tanto quanto tinha escrito em dezembro, cerca de 2 mil palavras, todas do mesmo capítulo. O total do ano vai numas 9500. Começo é a achar que ela não vai ficar pronta antes do verão como era meu objetivo. Com 21600 palavras, é já o segundo texto mais longo que tenho incompleto (e está muito perto do primeiro), mas ainda falta acabar este capítulo e escrever mais três. Desconfio que só se acelerar significativamente conseguirei escrever tudo até julho. E duvido que acelere assim tanto.
Mas veremos. Daqui a um mês dir-vos-ei como foi. Até lá.
sexta-feira, 1 de março de 2019
Escrita de fevereiro
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| imagem de Sergey Nivens |
Mas sempre deu para acabar duas coisas. Não, a novela que ando a escrever não foi uma dessas coisas. Mas acabei um dos seus capítulos, o mais longo até agora, e depois disso interrompi o trabalho nesse texto para escrever um conto curto. Este, que já está terminado e devidamente guardado na gaveta para marinar durante umas semanas (ou uns meses), ficou com pouco mais de 2500 palavras. E contando com a novela o total do mês ultrapassou ligeiramente as 4000. Continua a ser pouco? Continua, claro. São só umas 12 páginas, mais ou menos. Mas é mais, só em fevereiro, que ao longo de todo o ano de 2018.
(E 2018 tinha sido melhor que 2017, que por sua vez tinha sido melhor que 2016 e 2016 foi ligeiramente melhor que 2015. E em 2014 também escrevi menos que durante este mês. Tenho de regressar a 2013 para encontrar um ano mais produtivo do que o mês de fevereiro de 2019, e mesmo assim não muito mais: em 2019, com dois meses decorridos e dez no futuro, já escrevi mais que em todo o ano de 2013. A minha fase seca durou meia década. É muito por isso que estas parcas 4 mil palavras são para mim uma conquista.)
Para março as coisas afiguram-se complicadas. Obras em casa, o início de uma nova tradução, consultas e análises. É natural que os números recuem. Mas a ver vamos. Daqui a um mês cá estará outro post destes a dizer como foi.
Até lá.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
Escrita de janeiro
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| imagem de Lukas Gojda |
E correu bem, para um mês de trabalho intenso daquele que põe a comida na mesa. Foram mais 3200 as palavras (i.e., cerca de 10 páginas) acrescentadas a A Escolha de Diop, que já não está só planeada como novela: já tem dimensão de novela, com cerca de 50 páginas. Ainda faltam quase outras tantas (acho; isto de escrever tem surpresas), mas a coisa avança, e agora que vou entrar numa fase menos intensa em termos de trabalho o mais certo é que passe a avançar mais depressa. E se tivermos em conta que estas 3200 palavras de janeiro são quase tantas como as que escrevi no ano de 2018 completo, então...
Em março cá nos encontraremos para ver como correu fevereiro. Até lá.
sábado, 5 de janeiro de 2019
Escritas de dezembro
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| imagem de Drew Coffmann |
Este dezembro percebi que esses "um motivo ou outro" eram apenas um: uma atitude errada relativamente ao que é necessário para criar.
Antes, procurava sossego, cabeça limpa, calma e tempo livre antes de me sentar a escrever qualquer coisa. E como ora não tinha uma coisa, ora não tinha outra, ora não tinha nenhuma delas, não escrevia. Dizia a mim próprio, e aos outros, que estava bloqueado, seco, apesar de continuar a ter as mesmas histórias de sempre (e algumas novas) a passear-me pela cabeça. Algumas há décadas. E este dezembro percebi que não era nada disso. O resultado?
O resultado foi ter escrito cerca de 2200 palavras ao longo de dezembro, fechando o ano com 3700 (tinha escrito uns quantos contos muito curtos entre março e maio). Não é muito, longe disso; é o equivalente a umas sete páginas (para o ano: 11). Mas havia pelo menos cinco anos que não escrevia tanto num só mês.
Pelo que isto é para continuar. A ver se acabo A Escolha de Diop antes do verão e parto depois para outras coisas. Para já, vai com quase 15 mil palavras, e é texto para chegar a umas 25 mil. Mais coisa menos coisa. Veremos. No início de fevereiro (sim, decidi fazer isto mensalmente), logo vos digo o que este mês rendeu. Até lá.
sábado, 15 de dezembro de 2018
Finalmente voltei a escrever
É... é isso que o título diz. Finalmente, depois de anos de quase completa seca, voltei a escrever.
Começou em agosto, quando, depois de ter tido aqui a Lâmpada parada durante mais de um mês por causa do trabalho, com toda a acumulação de textos atrasados que isso implicou, resolvi fazer uma experiência: e se em vez de esperar até ter tempo e disponibilidade para escrever textos razoavelmente longos de uma assentada, como era meu hábito e tem levado ao longo dos anos a interrupções mais ou menos longas em tudo o que não tenha diretamente a ver com o trabalho sempre que este aperta, eu começasse a escrever um parágrafo aqui, outro ali, nos intervalos das traduções? Coisinhas rápidas, de cinco, dez minutos de cada vez? Resultaria? Isto é: conseguiria eu ir escrevendo o que tenho para escrever sem pôr em causa o trabalho que paga?
Como sabe quem costuma visitar a Lâmpada, a coisa resultou bastante bem. Desde agosto, com esta técnica de ir escrevendo um parágrafo de vez em quando, descongelei a Lâmpada, recuperei quase por completo o imenso atraso de que as minhas opiniões literárias vinham sofrendo há anos, escrevi mais algumas coisas não diretamente relacionadas com aquilo que vou lendo, e tudo no meio de um período de trabalho intenso (que continua e só terminará em fevereiro), sem que este tenha sofrido minimamente com isso.
Quando me apercebi de que a ideia estava a resultar, perguntei aos meus botões: "e resultará também com a ficção?" No início deste mês resolvi-me a fazer o teste.
De modo que peguei n'A Escolha de Diop, texto que os leitores aqui do blogue escolheram há ano e meio como aquele que gostariam de ver primeiro, revi o que já estava escrito, mais para voltar a situar-me do que propriamente para fazer uma revisão em termos, e pus-me a acrescentar texto novo. Um parágrafo de cada vez.
Nestes 15 dias, entre revisão e texto novo, a novela (ainda não o é, mas vai ser) cresceu 741 palavras. Duas páginas, mais coisa, menos coisa. É pouco, pois é, mas bate aos pontos o zero palavras por mês que tem sido habitual. Há vários anos que não produzia tanto em 15 dias.
Ou seja: o truque também resulta com a ficção. E vou continuar com isto e vou fazer outros posts como este a dar notícia do andamento da coisa. Ou das coisas, que é possível que vá também escrevendo outras coisas a par desta. Provavelmente uma vez por mês, talvez de quinze em quinze dias. Ainda não decidi. Tenho um mês para decidir.
Começou em agosto, quando, depois de ter tido aqui a Lâmpada parada durante mais de um mês por causa do trabalho, com toda a acumulação de textos atrasados que isso implicou, resolvi fazer uma experiência: e se em vez de esperar até ter tempo e disponibilidade para escrever textos razoavelmente longos de uma assentada, como era meu hábito e tem levado ao longo dos anos a interrupções mais ou menos longas em tudo o que não tenha diretamente a ver com o trabalho sempre que este aperta, eu começasse a escrever um parágrafo aqui, outro ali, nos intervalos das traduções? Coisinhas rápidas, de cinco, dez minutos de cada vez? Resultaria? Isto é: conseguiria eu ir escrevendo o que tenho para escrever sem pôr em causa o trabalho que paga?
Como sabe quem costuma visitar a Lâmpada, a coisa resultou bastante bem. Desde agosto, com esta técnica de ir escrevendo um parágrafo de vez em quando, descongelei a Lâmpada, recuperei quase por completo o imenso atraso de que as minhas opiniões literárias vinham sofrendo há anos, escrevi mais algumas coisas não diretamente relacionadas com aquilo que vou lendo, e tudo no meio de um período de trabalho intenso (que continua e só terminará em fevereiro), sem que este tenha sofrido minimamente com isso.
Quando me apercebi de que a ideia estava a resultar, perguntei aos meus botões: "e resultará também com a ficção?" No início deste mês resolvi-me a fazer o teste.
De modo que peguei n'A Escolha de Diop, texto que os leitores aqui do blogue escolheram há ano e meio como aquele que gostariam de ver primeiro, revi o que já estava escrito, mais para voltar a situar-me do que propriamente para fazer uma revisão em termos, e pus-me a acrescentar texto novo. Um parágrafo de cada vez.
Nestes 15 dias, entre revisão e texto novo, a novela (ainda não o é, mas vai ser) cresceu 741 palavras. Duas páginas, mais coisa, menos coisa. É pouco, pois é, mas bate aos pontos o zero palavras por mês que tem sido habitual. Há vários anos que não produzia tanto em 15 dias.
Ou seja: o truque também resulta com a ficção. E vou continuar com isto e vou fazer outros posts como este a dar notícia do andamento da coisa. Ou das coisas, que é possível que vá também escrevendo outras coisas a par desta. Provavelmente uma vez por mês, talvez de quinze em quinze dias. Ainda não decidi. Tenho um mês para decidir.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
Organizando a prosa
Por estranho que pareça, nunca tinha feito isto que fiz hoje: ir vasculhar nos baús e nas gavetas da criação literária e ver quantas coisas tenho completas, quantas estão por completar, quantas publicadas, quantas inéditas, quantas publicáveis e assim por diante.
É coisa útil para se fazer. Para quê, por exemplo, manter-se histórias incompletas a ocupar espaço nas gavetas e na imaginação? Pois descobri que tenho 29. Não vos parecem demasiadas? A mim parecem, mesmo que muitas sejam daquelas histórias com ideias mal definidas, começadas para participar em concursos ou antologias temáticas, e que nunca chegaram verdadeiramente a ganhar corpo. Pouco mais que ideias vagas anotadas no bloco das ideias vagas. Mas digamos que o sejam metade. Ainda ficam umas 15 histórias com pernas para andar. Porque não andam?
Bem, algumas vão andando.
Devagarinho.
Em todo o caso, 29 histórias pouco são quando comparadas com as que tenho completas. Estas são 165. Sim, 165. Eu também me admirei. Mesmo havendo aí, como há, grande número de historietas com menos de mil palavras, dariam para uns 5 ou 6 livros com mais de 200 páginas cada, se bem que nem todas me pareçam publicáveis. Pelo menos sem umas revisões suficientemente grandes para as transformar em coisa decente. E algumas nem assim.
Em todo o caso, mais de 70 dessas histórias foram sendo publicadas de uma forma ou de outra, por aqui e por ali. Literalmente: parte delas só foi publicada aqui mesmo na Lâmpada. Mas 70 histórias publicadas em 165 querem dizer mais de 90 inéditas. Porque é que continuam inéditas? Porque publicar, para mim, nunca foi o objetivo principal; basta considerar que as minhas primeiras histórias razoáveis datam dos anos 80 e, tirando uns velhíssimos jogos florais escolares em que participei (e ganhei, com perdão da imodéstia) e que resultaram numa edição manhosíssima em fotocópias, foi só em 1998 que publiquei o primeiro conto. O objetivo principal, como aliás já disse por aqui, sempre foi libertar-me das histórias que imagino.
E eis outra utilidade disto que fiz hoje: já tenho perdido oportunidades de participar em antologias temáticas por julgar que não tenho nada já escrito que se ajuste ao tema, e nem tempo nem ideias para escrever de novo. Em certos casos é verdade. Mas noutros só julgo que assim é porque me esqueço do que está aqui a ganhar pó na gaveta.
Vale a pena?
Não, não vale. Porque mesmo que publicar não seja o mais importante, não deixa de ser agradável. Até porque há por aí quem goste do que eu escrevo. Não muito, talvez, nem muitas pessoas, mas há. Por que não dar-lhes a oportunidade de lerem mais algum continho? Para quê mantê-los engavetados e, pior, esquecidos?
Outra coisa que obtive disto não poderei dizer que me tenha surpreendido: sou um escritor de coisas curtas, embora cada vez o seja menos. Das tais 165 histórias completas, quase 100 têm menos de mil palavras. Houve uma fase em que produzia historietas assim curtinhas em catadupa, mas, ainda que continuem a surgir-me ideias para pequenuras destas, nos últimos tempos tenho-me cansado da brevidade extrema (até porque raramente me sai bem), tem-me apetecido explanar e expandir mais os meus textos, até interligá-los, juntá-los em séries. Inclusive alguns destes pequenos. Algumas destas historietas acabaram por servir de base para coisas bem maiores, e na verdade há nesta centena e meia de histórias alguns casos de pais e filhos, ou até de pais, filhos e netos. Histórias desenvolvidas a partir de outras histórias invariavelmente mais curtas. Conto-as como histórias diferentes porque o são, mesmo que a ideia base seja a mesma. Não é possível escrever a mesma história numa noveleta e num miniconto.
Esse é, aliás, um motivo comum para a não publicação de algumas destas ficções. Não é tão raro como talvez devesse ser que acabe uma história e me ponha a pensar se não seria melhor expandi-la, juntar-lhe outras coisas, transformá-la de conto curto em noveleta ou de noveleta em romance. Por vezes reescrevê-la de cima a baixo, sob outro ponto de vista, experimentando outra técnica, talvez até mudando-lhe o género.
Sim, nem sempre me consigo libertar delas mesmo quando as escrevo.
Mas é pior quando não as escrevo. De modo que escrevo.
Mas enfim, a moral da história é que já devia ter feito um apanhado como este há bastante tempo. Ah, mas isto tudo é só a prosa. Depois há os versos. Pois. Os versos. Só na spamesia são 366 textos, e há muitos, muitos mais guardados por aqui.
Quer isso dizer que vou fazer algo de semelhante com os versos?
Ná! Nem pensar em tal coisa.
É coisa útil para se fazer. Para quê, por exemplo, manter-se histórias incompletas a ocupar espaço nas gavetas e na imaginação? Pois descobri que tenho 29. Não vos parecem demasiadas? A mim parecem, mesmo que muitas sejam daquelas histórias com ideias mal definidas, começadas para participar em concursos ou antologias temáticas, e que nunca chegaram verdadeiramente a ganhar corpo. Pouco mais que ideias vagas anotadas no bloco das ideias vagas. Mas digamos que o sejam metade. Ainda ficam umas 15 histórias com pernas para andar. Porque não andam?
Bem, algumas vão andando.
Devagarinho.
Em todo o caso, 29 histórias pouco são quando comparadas com as que tenho completas. Estas são 165. Sim, 165. Eu também me admirei. Mesmo havendo aí, como há, grande número de historietas com menos de mil palavras, dariam para uns 5 ou 6 livros com mais de 200 páginas cada, se bem que nem todas me pareçam publicáveis. Pelo menos sem umas revisões suficientemente grandes para as transformar em coisa decente. E algumas nem assim.
Em todo o caso, mais de 70 dessas histórias foram sendo publicadas de uma forma ou de outra, por aqui e por ali. Literalmente: parte delas só foi publicada aqui mesmo na Lâmpada. Mas 70 histórias publicadas em 165 querem dizer mais de 90 inéditas. Porque é que continuam inéditas? Porque publicar, para mim, nunca foi o objetivo principal; basta considerar que as minhas primeiras histórias razoáveis datam dos anos 80 e, tirando uns velhíssimos jogos florais escolares em que participei (e ganhei, com perdão da imodéstia) e que resultaram numa edição manhosíssima em fotocópias, foi só em 1998 que publiquei o primeiro conto. O objetivo principal, como aliás já disse por aqui, sempre foi libertar-me das histórias que imagino.
E eis outra utilidade disto que fiz hoje: já tenho perdido oportunidades de participar em antologias temáticas por julgar que não tenho nada já escrito que se ajuste ao tema, e nem tempo nem ideias para escrever de novo. Em certos casos é verdade. Mas noutros só julgo que assim é porque me esqueço do que está aqui a ganhar pó na gaveta.
Vale a pena?
Não, não vale. Porque mesmo que publicar não seja o mais importante, não deixa de ser agradável. Até porque há por aí quem goste do que eu escrevo. Não muito, talvez, nem muitas pessoas, mas há. Por que não dar-lhes a oportunidade de lerem mais algum continho? Para quê mantê-los engavetados e, pior, esquecidos?
Outra coisa que obtive disto não poderei dizer que me tenha surpreendido: sou um escritor de coisas curtas, embora cada vez o seja menos. Das tais 165 histórias completas, quase 100 têm menos de mil palavras. Houve uma fase em que produzia historietas assim curtinhas em catadupa, mas, ainda que continuem a surgir-me ideias para pequenuras destas, nos últimos tempos tenho-me cansado da brevidade extrema (até porque raramente me sai bem), tem-me apetecido explanar e expandir mais os meus textos, até interligá-los, juntá-los em séries. Inclusive alguns destes pequenos. Algumas destas historietas acabaram por servir de base para coisas bem maiores, e na verdade há nesta centena e meia de histórias alguns casos de pais e filhos, ou até de pais, filhos e netos. Histórias desenvolvidas a partir de outras histórias invariavelmente mais curtas. Conto-as como histórias diferentes porque o são, mesmo que a ideia base seja a mesma. Não é possível escrever a mesma história numa noveleta e num miniconto.
Esse é, aliás, um motivo comum para a não publicação de algumas destas ficções. Não é tão raro como talvez devesse ser que acabe uma história e me ponha a pensar se não seria melhor expandi-la, juntar-lhe outras coisas, transformá-la de conto curto em noveleta ou de noveleta em romance. Por vezes reescrevê-la de cima a baixo, sob outro ponto de vista, experimentando outra técnica, talvez até mudando-lhe o género.
Sim, nem sempre me consigo libertar delas mesmo quando as escrevo.
Mas é pior quando não as escrevo. De modo que escrevo.
Mas enfim, a moral da história é que já devia ter feito um apanhado como este há bastante tempo. Ah, mas isto tudo é só a prosa. Depois há os versos. Pois. Os versos. Só na spamesia são 366 textos, e há muitos, muitos mais guardados por aqui.
Quer isso dizer que vou fazer algo de semelhante com os versos?
Ná! Nem pensar em tal coisa.
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Uma minúscula janelinha sobre um grande território
Esta imagem que aqui veem ao lado é a capa da Antologia Fénix, Volume I, uma antologia de vinhetas e mini-contos, em ebook, que pode ser descarregada ou lida aqui. Tenho lá uma vinhetazinha, concluída em menos de uma hora de trabalho total, entre conceção, escrita e revisões. Provavelmente precisaria de mais algum tempo para ficar inteiramente a meu gosto, mas o prazo era curtíssimo, o espaço também, e não deu para melhor.
Para já.
Nada me impede de fazer uma segunda versão. Ou uma terceira, ou as que forem precisas.
É uma história de ficção científica, intitulada Miel Lê, sobre... alguém que lê. Mas a leitura do Miel não é exatamente a leitura que vocês estão a fazer agora, muito menos aquela que fazemos todos quando tiramos os olhos de écrans e os fazemos cair sobre papel. É outra coisa.
Uma hora, disse-vos eu? Sim, foi uma hora, mas não está nessa hora contida toda a história. É que aí só cabe uma minúscula parte de um todo muito, muitíssimo, maior.
Acontece que há anos ando a desenvolver aos poucos um cenário de FC bastante vasto, distribuído por vários mundos e até por várias estrelas. Ainda me falta arranjar um bom nome para esse universo; por vezes parece que já está, de outras surge-me outra ideia que me parece melhor, mas pouco depois já não a acho grande coisa e volto à primitiva. Ou a outra. Mas o nome é o menos; há bastante worldbuilding já feito e até várias histórias ambientadas nesse cenário, umas já parcialmente passadas a texto, outras ainda exclusivamente guardadas no grande e empoeirado baú de histórias que é esta minha cabeça. Mas até este momento eram todas histórias razoavelmente grandes. E isso comigo significa que levam eternidades a ficarem concluídas. Ou seja: ainda não concluí nenhuma.
Até este momento. Miel Lê — curiosamente a primeira ideia que tive para uma história passada no planeta Bemia... que foi um dos primeiros a serem caracterizados — inaugura a fase de revelação. Talvez seja um estímulo para me dedicar mais às outras.
E uma delas até é romance e tudo...
Para já.
Nada me impede de fazer uma segunda versão. Ou uma terceira, ou as que forem precisas.
É uma história de ficção científica, intitulada Miel Lê, sobre... alguém que lê. Mas a leitura do Miel não é exatamente a leitura que vocês estão a fazer agora, muito menos aquela que fazemos todos quando tiramos os olhos de écrans e os fazemos cair sobre papel. É outra coisa.
Uma hora, disse-vos eu? Sim, foi uma hora, mas não está nessa hora contida toda a história. É que aí só cabe uma minúscula parte de um todo muito, muitíssimo, maior.
Acontece que há anos ando a desenvolver aos poucos um cenário de FC bastante vasto, distribuído por vários mundos e até por várias estrelas. Ainda me falta arranjar um bom nome para esse universo; por vezes parece que já está, de outras surge-me outra ideia que me parece melhor, mas pouco depois já não a acho grande coisa e volto à primitiva. Ou a outra. Mas o nome é o menos; há bastante worldbuilding já feito e até várias histórias ambientadas nesse cenário, umas já parcialmente passadas a texto, outras ainda exclusivamente guardadas no grande e empoeirado baú de histórias que é esta minha cabeça. Mas até este momento eram todas histórias razoavelmente grandes. E isso comigo significa que levam eternidades a ficarem concluídas. Ou seja: ainda não concluí nenhuma.
Até este momento. Miel Lê — curiosamente a primeira ideia que tive para uma história passada no planeta Bemia... que foi um dos primeiros a serem caracterizados — inaugura a fase de revelação. Talvez seja um estímulo para me dedicar mais às outras.
E uma delas até é romance e tudo...
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Cenas da escrita
Quando a vida me deixa algum tempo livre e me aparece uma dessas coisas à frente, gosto de ler com um sorrisinho irónico ao canto dos olhos aqueles conselhos muito sisudos (ou às vezes, nos melhores dos casos, nem tanto) que escritores de que muitas vezes nunca ouvi falar dão a escritores ainda mais obscuros do que eles, ou àquela massa que se limita a ter ambições.
(Emparentesando, eis outra coisa que me dá vontade de rir, isto das ambições literárias. Mas adiante. Desemparentesemos.)
Importância, não lhes ligo nenhuma. O único conselho realmente válido que se pode dar a alguém que escreve ou queira escrever é este: nunca dês importância a conselhos de escrita. Porque as pessoas são todas diferentes, os escritores são todos pessoas, logo os escritores são todos diferentes. O que resulta para um não resulta para o do lado e vice-versa. Cada qual tem de descobrir o seu próprio caminho. Aliás, escrever é isso mesmo: descobrir um caminho. E quem acha que o achou está acabado como escritor. Muitas vezes antes mesmo de começar.
Não, importância não lhes ligo nenhuma. Mas acho-lhes piada. Porquê? Por causa daquilo que revelam acerca da personalidade de cada um desses conselheiros.
Normalmente, a primeira coisa que tais listas de conselhos me dizem é que quem as faz se acha muito mais importante do que na realidade é. Mas não é isso que mais me interessa — até porque aí há tão pouca variedade que o interesse sofre logo. O que mais me interessa são as motivações, que quando não vêm claramente expressas vêm sempre nas entrelinhas, que levam cada um a passar longas horas em frente de um papel, real ou virtual, e aí empilhar palavras.
São milhentas.
Há quem retire do manuseio da língua um prazer de malabarista.
Há quem seja apenas ego e só procure admiração.
Há quem — no estrangeiro, quase só no estrangeiro, em especial na América; a maior parte dos portugueses têm alguma consciência das realidades do seu país — queira enriquecer, sonhe com contratos cinematográficos e listas de best-sellers.
Há os mesquinhos, que procuram pequenas vinganças, arrasar os desafetos.
Há quem se esconda atrás da escrita como de máscaras.
Há quem se transborde na escrita, revelando até o que não sabia conter.
Há quem procure escrevendo entender o mundo.
Há quem procure escrevendo entender-se a si próprio.
Há...
Pronto, basta. Vocês já entenderam. Todos os escritores são diferentes. E não são só os seus caminhos que são diferentes; o ponto em que começam também.
E há alguns que são mais ou menos como eu. Eu escrevo porque tenho a cabeça cheia de histórias, que em geral não me largam até que as passe a escrita. Não importa se as ideias são boas, se são más, se são assim-assim: ou as escrevo, ou me levam a azucrinar o juízo anos a fio. Tenho histórias na cabeça há décadas. Normalmente as mais complexas, as mais difíceis, as que exigem mais trabalho, disponibilidade e atenção. Porque as mais simples, as mais rápidas, aquelas que se baseiam em ideias que até nem são grande coisa ou que provavelmente alguém já teve antes, algures, essas escrevo depressa, vejo-me livre delas, liberto-me. É muito por isso que tenho tantos contos escritos e só um romance, e que mesmo este é bastante curto. É por isso que muitas das minhas histórias são coisinhas pequenas e despretensiosas, provavelmente insignificantes. E é também por isso que além das cerca de quarenta histórias que tenho ido publicando, há por aqui outras tantas que nunca viram a luz do dia. Porque publicar não é o mais importante. Na verdade, nem necessário é. O motor de tudo é a necessidade de libertação.
Sim, há alguns escritores que são mais ou menos assim. Mas, ou os que o são não têm por hábito andar por aí a dar conselhos aos outros, ou então são uma pequena minoria entre os colecionadores de palavras. E isso nem é bom nem mau, apenas é.
(Emparentesando, eis outra coisa que me dá vontade de rir, isto das ambições literárias. Mas adiante. Desemparentesemos.)
Importância, não lhes ligo nenhuma. O único conselho realmente válido que se pode dar a alguém que escreve ou queira escrever é este: nunca dês importância a conselhos de escrita. Porque as pessoas são todas diferentes, os escritores são todos pessoas, logo os escritores são todos diferentes. O que resulta para um não resulta para o do lado e vice-versa. Cada qual tem de descobrir o seu próprio caminho. Aliás, escrever é isso mesmo: descobrir um caminho. E quem acha que o achou está acabado como escritor. Muitas vezes antes mesmo de começar.
Não, importância não lhes ligo nenhuma. Mas acho-lhes piada. Porquê? Por causa daquilo que revelam acerca da personalidade de cada um desses conselheiros.
Normalmente, a primeira coisa que tais listas de conselhos me dizem é que quem as faz se acha muito mais importante do que na realidade é. Mas não é isso que mais me interessa — até porque aí há tão pouca variedade que o interesse sofre logo. O que mais me interessa são as motivações, que quando não vêm claramente expressas vêm sempre nas entrelinhas, que levam cada um a passar longas horas em frente de um papel, real ou virtual, e aí empilhar palavras.
São milhentas.
Há quem retire do manuseio da língua um prazer de malabarista.
Há quem seja apenas ego e só procure admiração.
Há quem — no estrangeiro, quase só no estrangeiro, em especial na América; a maior parte dos portugueses têm alguma consciência das realidades do seu país — queira enriquecer, sonhe com contratos cinematográficos e listas de best-sellers.
Há os mesquinhos, que procuram pequenas vinganças, arrasar os desafetos.
Há quem se esconda atrás da escrita como de máscaras.
Há quem se transborde na escrita, revelando até o que não sabia conter.
Há quem procure escrevendo entender o mundo.
Há quem procure escrevendo entender-se a si próprio.
Há...
Pronto, basta. Vocês já entenderam. Todos os escritores são diferentes. E não são só os seus caminhos que são diferentes; o ponto em que começam também.
E há alguns que são mais ou menos como eu. Eu escrevo porque tenho a cabeça cheia de histórias, que em geral não me largam até que as passe a escrita. Não importa se as ideias são boas, se são más, se são assim-assim: ou as escrevo, ou me levam a azucrinar o juízo anos a fio. Tenho histórias na cabeça há décadas. Normalmente as mais complexas, as mais difíceis, as que exigem mais trabalho, disponibilidade e atenção. Porque as mais simples, as mais rápidas, aquelas que se baseiam em ideias que até nem são grande coisa ou que provavelmente alguém já teve antes, algures, essas escrevo depressa, vejo-me livre delas, liberto-me. É muito por isso que tenho tantos contos escritos e só um romance, e que mesmo este é bastante curto. É por isso que muitas das minhas histórias são coisinhas pequenas e despretensiosas, provavelmente insignificantes. E é também por isso que além das cerca de quarenta histórias que tenho ido publicando, há por aqui outras tantas que nunca viram a luz do dia. Porque publicar não é o mais importante. Na verdade, nem necessário é. O motor de tudo é a necessidade de libertação.
Sim, há alguns escritores que são mais ou menos assim. Mas, ou os que o são não têm por hábito andar por aí a dar conselhos aos outros, ou então são uma pequena minoria entre os colecionadores de palavras. E isso nem é bom nem mau, apenas é.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Problemas de sono
Esta noite dormi mal. Acordei três horas cedo demais, com aquele nervoso muidinho típico de quando se tem um pesadelo obsessivo. E suor. E o lençol todo enrodilhado debaixo do corpo. Não me lembro dele, o que é uma chatice, mas sei que o tive. Normalmente, quando isto me acontece, fico na ronha e acabo por adormecer depois de acalmar, aí uma hora depois. Hoje, não. Hoje, a cabeça não parava de inventar pormenores para três histórias diferentes que me andam a chatear há uma porção de tempo. Melhor dizendo: duas andam a chatear-me há uma porção de tempo; a terceira é nova, tem menos de uma semana.
Tenho a imaginação em overdrive, é o que é.
E está visto que vou ter mesmo de escrever qualquer coisinha em breve. Senão, corro o risco de se continuarem a acumular. E então é que não durmo mesmo. Nada.
Tenho a imaginação em overdrive, é o que é.
E está visto que vou ter mesmo de escrever qualquer coisinha em breve. Senão, corro o risco de se continuarem a acumular. E então é que não durmo mesmo. Nada.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Conselhos para escritores
0. Kuidado com a hórtografia os, sinais de pontuaçao e não te esqueças de que a claridade cristalina das águas é a melhor forma de demonstrar que és um grande escritor.
1. A primeira coisa hé conhesser beim a hortografia.
2. Cuide a concordância, o qual são necessária para que você não caiam naqueles erros chatos.
3. E nunca comece com uma conjunção.
4. Evite as repetições, evitando assim repetir e repetir o que já tinha antes repetido.
5. Use; correctamente. Os sinais: de, pontuação.
6. Trate de ser claro; não use hieráticos, herméticos ou errabundos gongorismos que possam depreciar as melhores ideias.
7. Imaginando, criando, planificando, um escritor não deve aparecer enganando-se, abusando dos gerúndios.
8. Correcto para ser na construção, cair evite em transposições.
9. Pegue o touro pelos cornos e não caia em lugares comuns.
10. Se você fala e escreve em português, OK.
11. Coa breca!... juro a pés juntos que devem evitar-se os arcaísmos.
12. Se algum lugar é inadequado na frase para pendurar um verbo, o final de um parágrafo é-o.
13. Por amor de Deus!, não abuse das exclamações.
14. Tende cuidado com as conjugações quando escrevas.
15. Não utilize nunca a dupla negação.
16. É importante usar os apóstrofo's correctamente.
17. Procurar nunca os infinitivos separar demasiado.
18. Releia sempre o que escreve, e veja se palavras.
19. Relativamente a frases fragmentadas.
Traduzido de uma piada de internet em castelhano. Desconheço quem seja o autor. Mas dou-lhe os parabéns.
1. A primeira coisa hé conhesser beim a hortografia.
2. Cuide a concordância, o qual são necessária para que você não caiam naqueles erros chatos.
3. E nunca comece com uma conjunção.
4. Evite as repetições, evitando assim repetir e repetir o que já tinha antes repetido.
5. Use; correctamente. Os sinais: de, pontuação.
6. Trate de ser claro; não use hieráticos, herméticos ou errabundos gongorismos que possam depreciar as melhores ideias.
7. Imaginando, criando, planificando, um escritor não deve aparecer enganando-se, abusando dos gerúndios.
8. Correcto para ser na construção, cair evite em transposições.
9. Pegue o touro pelos cornos e não caia em lugares comuns.
10. Se você fala e escreve em português, OK.
11. Coa breca!... juro a pés juntos que devem evitar-se os arcaísmos.
12. Se algum lugar é inadequado na frase para pendurar um verbo, o final de um parágrafo é-o.
13. Por amor de Deus!, não abuse das exclamações.
14. Tende cuidado com as conjugações quando escrevas.
15. Não utilize nunca a dupla negação.
16. É importante usar os apóstrofo's correctamente.
17. Procurar nunca os infinitivos separar demasiado.
18. Releia sempre o que escreve, e veja se palavras.
19. Relativamente a frases fragmentadas.
Traduzido de uma piada de internet em castelhano. Desconheço quem seja o autor. Mas dou-lhe os parabéns.
domingo, 2 de novembro de 2008
Escrever, para quem?
De tudo o que aqui é dito (refiro-me, naturalmente, ao filme) uma coisa, acima de todas, vale a pena reter. Está mesmo no fim. Bradbury descobriu a dado ponto da sua carreira que o escritor não escreve para Fulano ou Beltrano; escreve para si próprio.
Por mais que custe aos egos dos leitores, que gostam de estabelecer uma relação quase pessoal com o escritor que escreve aquelas coisas que os tocam, por vezes, tão profundamente, é isso mesmo. Escritor que tente escrever para os outros é escritor que nunca deixará de ser medíocre, que nunca deixará de se limitar à superfície das coisas. Só escrevendo para si próprio é possível atingir a grandeza. Não que escrever para si a torne inevitável, longe disso, mas é a única coisa que a torna possível.
O mistério da escrita é muitas vezes esse. Como é que se passa de algo feito para si próprio, de algo capaz de satisfazer o crítico interno, capaz de tocar o nosso próprio âmago, para algo que desperte a curiosidade, o interesse, a apreciação e, nos casos mais bem sucedidos, a devoção, de outras pessoas. Desvendar este mistério tornaria a vida de toda a gente envolvida no grande mundo da literatura muito mais fácil. Falo por mim, que apesar de ter já passado por experiências semelhantes à que o Bradbury descreve, de terminar um conto e não propriamente rebentar em lágrimas mas sentir aquele aperto no peito que é o estágio imediatamente anterior (com este conto, por exemplo; aquela avó deve andar mesmo pelo lugar para onde vão as coisas que desaparecem), nunca consegui uma ligação tão forte, nem de perto nem de longe, como a que ele consegue estabelecer com os seus leitores. E escrevo para mim. Ou seja, sou a prova viva de que isso é importante, mas não chega.
Mesmo quando escrevo disparates, escrevo-os para mim. O Por Vós lhe Mandarei Embaixadores foi escrito para me divertir (e divertiu e continua a divertir), e também para resolver um velho trauma que a escola me causou ao obrigar-me à particularmente estúpida actividade de dividir orações nos Lusíadas. Resta saber é se diverte mais alguém. E se toda aquela brincadeira em volta do Camões tem interesse para alguém além de mim.
Por mais que custe aos egos dos leitores, que gostam de estabelecer uma relação quase pessoal com o escritor que escreve aquelas coisas que os tocam, por vezes, tão profundamente, é isso mesmo. Escritor que tente escrever para os outros é escritor que nunca deixará de ser medíocre, que nunca deixará de se limitar à superfície das coisas. Só escrevendo para si próprio é possível atingir a grandeza. Não que escrever para si a torne inevitável, longe disso, mas é a única coisa que a torna possível.
O mistério da escrita é muitas vezes esse. Como é que se passa de algo feito para si próprio, de algo capaz de satisfazer o crítico interno, capaz de tocar o nosso próprio âmago, para algo que desperte a curiosidade, o interesse, a apreciação e, nos casos mais bem sucedidos, a devoção, de outras pessoas. Desvendar este mistério tornaria a vida de toda a gente envolvida no grande mundo da literatura muito mais fácil. Falo por mim, que apesar de ter já passado por experiências semelhantes à que o Bradbury descreve, de terminar um conto e não propriamente rebentar em lágrimas mas sentir aquele aperto no peito que é o estágio imediatamente anterior (com este conto, por exemplo; aquela avó deve andar mesmo pelo lugar para onde vão as coisas que desaparecem), nunca consegui uma ligação tão forte, nem de perto nem de longe, como a que ele consegue estabelecer com os seus leitores. E escrevo para mim. Ou seja, sou a prova viva de que isso é importante, mas não chega.
Mesmo quando escrevo disparates, escrevo-os para mim. O Por Vós lhe Mandarei Embaixadores foi escrito para me divertir (e divertiu e continua a divertir), e também para resolver um velho trauma que a escola me causou ao obrigar-me à particularmente estúpida actividade de dividir orações nos Lusíadas. Resta saber é se diverte mais alguém. E se toda aquela brincadeira em volta do Camões tem interesse para alguém além de mim.
terça-feira, 8 de junho de 2004
Críticas e catalogações
Um par de comentários do Boemius (é sina ;) ) a este post deu-me vontade de escrever umas coisas sobre "críticas e catalogações", como ele lhes chamou.
Do modo como eu vejo estas coisas, quer uma quer a outra são úteis para um enquadramento mas não são absolutas. Que quero eu dizer com isto?
Que, por exemplo, a crítica pode ter, para o escritor, a vantagem de lhe colocar à frente intepretações e problemas da sua obra de que poderia não estar consciente à partida, o que o ajuda a ajustar melhor o que escreve, e como escreve o que escreve, àquilo que pretende escrever, mas que não é absoluta na medida em que nunca é totalmente verdadeira. Seja ou não arrasadora, seja ou não ultra-elogiosa, dê ou não no cravo e na ferradura. Também para os leitores, a crítica não é absoluta, porque o gosto e a sensibilidade de cada um determinam em grande medida aquilo que obtém de uma obra. Mas pode dar dicas importantes, especialmente se o leitor tem afinidades com o crítico e sabe disso.
(é por isto, já agora, que é tão importante que a crítica seja honesta: um crítico que adapte as suas críticas às conveniências do momento não tem utilidade para ninguém, a não ser, talvez, para si próprio)
Quanto a críticas desenvolvidas vs. gosto/não gosto, do meu ponto de vista nem sempre é mais útil uma crítica desenvolvida. Já me têm sido mais úteis críticas de leitores que não sabem muito de determinado assunto ou género mas que foram capazes de me dizer se gostaram ou não e de me explicar porquê do que críticas muito desenvolvidas por pessoas muito conhecedoras. É aqui que bate o ponto principal: no porquê. Quando não existem porquês, a utilidade não é muita, mas quando existem, tudo muda.
Neste caso, por acaso, não é bem isso que acontece: a crítica desenvolvida do Luís foi-me muito útil: permitiu-me pensar um bocado mais profundamente no que quero e posso fazer com esta aventura meio inconsciente em que me meti. E de a explicar melhor, também, a quem lê.
Quanto aos rótulos, passa-se algo de semelhante. Parece-me que a maior parte das pessoas encara rótulos como caixinhas onde se metem as obras que, depois de serem lá enfiadas já não podem ir para nenhum lado. Esta categorização absoluta parece-me muito errada. Para mim, um rótulo é uma de muitas categorizações possíveis, e dizer que determinado texto é FC não exclui de modo algum que ele possa também ser uma série de outras coisas. É preciso aplicar aqui um pouco de teoria de conjuntos.
Para ilustrar o que quero dizer, costumo servir-me de uma analogia: Em Terragrande havia uma série de árvores, uma das quais, um ulmeiro, crescia junto ao riacho. Esse ulmeiro pertencia ao conjunto dos ulmeiros, obviamente, que é um subconjunto do conjunto das árvores. Também pertencia ao conjunto das árvores que cresciam em Terragrande (outro subconjunto das árvores). Como servia para os putos da terra mergulharem no riacho, pertencia também ao conjunto dos auxiliares de brincadeira. O Zé, quando se apaixonou pela Mafalda, deixou gravado na casca do ulmeiro a primeira mensagem de amor, a que se seguiram mais vinte e sete, transformando o ulmeiro num membro do conjunto dos meios de comunicação. E etc. Aquele ulmeiro, apesar de ser ulmeiro era também uma vasta série de outras coisas.
Assim são os meus contos, espero: FC, mas também uma série de outras coisas.
Do modo como eu vejo estas coisas, quer uma quer a outra são úteis para um enquadramento mas não são absolutas. Que quero eu dizer com isto?
Que, por exemplo, a crítica pode ter, para o escritor, a vantagem de lhe colocar à frente intepretações e problemas da sua obra de que poderia não estar consciente à partida, o que o ajuda a ajustar melhor o que escreve, e como escreve o que escreve, àquilo que pretende escrever, mas que não é absoluta na medida em que nunca é totalmente verdadeira. Seja ou não arrasadora, seja ou não ultra-elogiosa, dê ou não no cravo e na ferradura. Também para os leitores, a crítica não é absoluta, porque o gosto e a sensibilidade de cada um determinam em grande medida aquilo que obtém de uma obra. Mas pode dar dicas importantes, especialmente se o leitor tem afinidades com o crítico e sabe disso.
(é por isto, já agora, que é tão importante que a crítica seja honesta: um crítico que adapte as suas críticas às conveniências do momento não tem utilidade para ninguém, a não ser, talvez, para si próprio)
Quanto a críticas desenvolvidas vs. gosto/não gosto, do meu ponto de vista nem sempre é mais útil uma crítica desenvolvida. Já me têm sido mais úteis críticas de leitores que não sabem muito de determinado assunto ou género mas que foram capazes de me dizer se gostaram ou não e de me explicar porquê do que críticas muito desenvolvidas por pessoas muito conhecedoras. É aqui que bate o ponto principal: no porquê. Quando não existem porquês, a utilidade não é muita, mas quando existem, tudo muda.
Neste caso, por acaso, não é bem isso que acontece: a crítica desenvolvida do Luís foi-me muito útil: permitiu-me pensar um bocado mais profundamente no que quero e posso fazer com esta aventura meio inconsciente em que me meti. E de a explicar melhor, também, a quem lê.
Quanto aos rótulos, passa-se algo de semelhante. Parece-me que a maior parte das pessoas encara rótulos como caixinhas onde se metem as obras que, depois de serem lá enfiadas já não podem ir para nenhum lado. Esta categorização absoluta parece-me muito errada. Para mim, um rótulo é uma de muitas categorizações possíveis, e dizer que determinado texto é FC não exclui de modo algum que ele possa também ser uma série de outras coisas. É preciso aplicar aqui um pouco de teoria de conjuntos.
Para ilustrar o que quero dizer, costumo servir-me de uma analogia: Em Terragrande havia uma série de árvores, uma das quais, um ulmeiro, crescia junto ao riacho. Esse ulmeiro pertencia ao conjunto dos ulmeiros, obviamente, que é um subconjunto do conjunto das árvores. Também pertencia ao conjunto das árvores que cresciam em Terragrande (outro subconjunto das árvores). Como servia para os putos da terra mergulharem no riacho, pertencia também ao conjunto dos auxiliares de brincadeira. O Zé, quando se apaixonou pela Mafalda, deixou gravado na casca do ulmeiro a primeira mensagem de amor, a que se seguiram mais vinte e sete, transformando o ulmeiro num membro do conjunto dos meios de comunicação. E etc. Aquele ulmeiro, apesar de ser ulmeiro era também uma vasta série de outras coisas.
Assim são os meus contos, espero: FC, mas também uma série de outras coisas.
terça-feira, 25 de maio de 2004
O que está incompleto na spam fiction?
Um comentário do Boemius sugeriu-me a necessidade de concretizar um pouco melhor o que eu entendo por "esboço que ainda precisa de muito trabalho para virar obra" quando me refiro à spam fiction. Para quem não leu, ele pediu que se publicasse já o primeiro spam fiction, que permanece incompleto, porque, como tudo isto é um trabalho em progresso, não fazem grande diferença umas palavrinhas a mais.
Pois, mas eu acho que fazem.
A minha forma de escrever envolve várias fases: uma primeira fase em que efectivamente escrevo, voltando com frequência atrás para me voltar a sintonizar com a história e fazer correcções, uma segunda fase em que termino o que escrevo, e várias fases subsequentes em que revejo o que ficou escrito. E aqui há muito trabalho. Só para dar um exemplo, no princípio do ano passado escrevi um romance (que é capaz de ser publicado ainda este ano, já agora) em dois meses... e depois andei quase quatro a revê-lo. São questões como uniformizar o tom da escrita, ajustar melhor estrutura do que se conta ao que se quer contar, evitar descontinuidades espúrias e incoerências mais subtis, etc., etc. Muita coisa.
Ora bem, nas spam fictions omito as revisões. Faço, no máximo, uma única revisão global para remover incoerências graves e erros crassos de português (espera-se). Mas as histórias têm de estar completas, porque, se me irrita como irrita ler histórias incompletas, não vou propô-las a quem me visita o blog.
Completas, mas não definitivas. Essas estarão no tal livro (que, se continuar a fazer coisas tão grandes, serão mas é dois).
Pois, mas eu acho que fazem.
A minha forma de escrever envolve várias fases: uma primeira fase em que efectivamente escrevo, voltando com frequência atrás para me voltar a sintonizar com a história e fazer correcções, uma segunda fase em que termino o que escrevo, e várias fases subsequentes em que revejo o que ficou escrito. E aqui há muito trabalho. Só para dar um exemplo, no princípio do ano passado escrevi um romance (que é capaz de ser publicado ainda este ano, já agora) em dois meses... e depois andei quase quatro a revê-lo. São questões como uniformizar o tom da escrita, ajustar melhor estrutura do que se conta ao que se quer contar, evitar descontinuidades espúrias e incoerências mais subtis, etc., etc. Muita coisa.
Ora bem, nas spam fictions omito as revisões. Faço, no máximo, uma única revisão global para remover incoerências graves e erros crassos de português (espera-se). Mas as histórias têm de estar completas, porque, se me irrita como irrita ler histórias incompletas, não vou propô-las a quem me visita o blog.
Completas, mas não definitivas. Essas estarão no tal livro (que, se continuar a fazer coisas tão grandes, serão mas é dois).
domingo, 9 de maio de 2004
Fast Fiction? Not for me!
OK, agora que já viram o que saiu da minha tentativa de seguir o "método" da senhora Roberta Allen para escrever ficção em cinco minutos, aqui ficam as minhas impressões da experiência e do conceito. Diz ela que o método origina escrita "espontânea" que ao ultrapassar o "crítico interior" permite à "nossa voz" uma expressão mais completa e o surgimento de "imagens e associações surpreendentes". Que assim a escrita se torna "menos intimidante" e mais poderosa e precisa.
Bem, devo dizer que gosto muito do meu inner critic, thank you very much. É ele que me diz quando a associação surpeendente que me aparece ao correr da pena resulta e quando não resulta. È ele que me diz que uma frase, um parágrafo ou uma história inteira não presta e que há que procurar a voz certa num sítio mais profundo. É ele que me diz "isto tá porreiro, fica", ou "isto tá uma bosta, lixo". É ele que muitas vezes me faz parar, perguntando-me "mas afinal que queres tu dizer com isto?" É ele, enfim, que, ao fim da segunda, terceira, quarta, quinta revisão me diz que uma história está finalmente legível e que se pode tentar publicá-la.
Eu sei que há muita gente que acha que escrever é deixar-se ir, deixar-se levar pelo inconsciente e desnudar a alma, seja isso o que for. Não é. Pelo menos para mim não é. O acto de escrever é um acto pensado e, de preferência, inteligente, em que a comunicação é mais importante que a expressão, e em que a alma, que acaba sempre, de qualquer maneira, por se desnudar um pouco sozinha, fica, mesmo assim tapada. Até porque não há nada mais sedutor do que um corpo mais sugerido do que revelado e o binómio escrita/leitura é, acima de tudo, um acto de sedução.
Ora, em escrita semi-automática, que é o que a srª Allen propõe, não há grande espaço para algo mais do que expressão. Ou então para o aparecimento de coisitas fúteis e descartáveis, capazes de entreter durante menos de um minuto e pouco mais. Isso não é "voz" interior: é apenas pele e um pouco de cosmética a tapar algumas rugas.
Ou seja: fast fiction (e não me refiro à que é lida depressa mas sim a esta, a que é feita depressa) é assim como a fast food da ficção: insípida e não muito boa para a saúde. Prefiro a minha comida lenta. E a ficção também.
Quanto aos cinco medíocres continhos que saíram daquilo, ficam como ideias em bruto. Talvez — é pouco provável mas não impossível — os transforme em slow fiction, de muito maior qualidade, mais tarde. Se isso acontecer, já serviram para alguma coisa.
Bem, devo dizer que gosto muito do meu inner critic, thank you very much. É ele que me diz quando a associação surpeendente que me aparece ao correr da pena resulta e quando não resulta. È ele que me diz que uma frase, um parágrafo ou uma história inteira não presta e que há que procurar a voz certa num sítio mais profundo. É ele que me diz "isto tá porreiro, fica", ou "isto tá uma bosta, lixo". É ele que muitas vezes me faz parar, perguntando-me "mas afinal que queres tu dizer com isto?" É ele, enfim, que, ao fim da segunda, terceira, quarta, quinta revisão me diz que uma história está finalmente legível e que se pode tentar publicá-la.
Eu sei que há muita gente que acha que escrever é deixar-se ir, deixar-se levar pelo inconsciente e desnudar a alma, seja isso o que for. Não é. Pelo menos para mim não é. O acto de escrever é um acto pensado e, de preferência, inteligente, em que a comunicação é mais importante que a expressão, e em que a alma, que acaba sempre, de qualquer maneira, por se desnudar um pouco sozinha, fica, mesmo assim tapada. Até porque não há nada mais sedutor do que um corpo mais sugerido do que revelado e o binómio escrita/leitura é, acima de tudo, um acto de sedução.
Ora, em escrita semi-automática, que é o que a srª Allen propõe, não há grande espaço para algo mais do que expressão. Ou então para o aparecimento de coisitas fúteis e descartáveis, capazes de entreter durante menos de um minuto e pouco mais. Isso não é "voz" interior: é apenas pele e um pouco de cosmética a tapar algumas rugas.
Ou seja: fast fiction (e não me refiro à que é lida depressa mas sim a esta, a que é feita depressa) é assim como a fast food da ficção: insípida e não muito boa para a saúde. Prefiro a minha comida lenta. E a ficção também.
Quanto aos cinco medíocres continhos que saíram daquilo, ficam como ideias em bruto. Talvez — é pouco provável mas não impossível — os transforme em slow fiction, de muito maior qualidade, mais tarde. Se isso acontecer, já serviram para alguma coisa.
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