E se acham que é só com autores inexperientes que me fica a sensação de ideias interessantes mal aproveitadas desenganem-se, pois aqui está este conto de Jay Caselberg, autor australiano com um currículo muito respeitável, para demonstrar o contrário. Ele poderia ter desenvolvido de uma forma tão interessante a ideia que levou a esta Encefalite Bufónica (bibliografia)... mas limitou-se a uma descrição seca da enfermidade imaginada, acompanhada por dois ou três gags não muito bem sucedidos.
E a ideia era prometedora: uma doença causada pelo desenvolvimento de uma pedra preciosa no cérebro, com uma série de sintomas interessantes e proveniente de contacto próximo entre pessoas e uma determinada espécie de sapo, em cujos cérebros essas pedras também se desenvolveriam. É das tais ideias que dão pano para mangas, mesmo no restrito contexto de um manual médico (alegadamente). Mas Caselberg ficou-se pela manga curta. É pena.
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quinta-feira, 21 de maio de 2020
quarta-feira, 20 de maio de 2020
Som: O Abduzido
Histórias de raptos por alienígenas são uma espécie de lenda urbana tão prevalente, em especial nos Estados Unidos, que foram chegando a tudo quanto foi cultura de massas ao longo da segunda metade do século XX, influenciando-se umas às outras até gerarem um padrão razoavelmente uniforme no que toca ao que acontece, com que tipo de intervenientes, e em que sequência. Em Portugal não há muito o hábito de se criar FC com base nessas histórias, embora não seja inaudito, mas no Brasil a FC ufológica está bem desenvolvida, ainda que de uma forma geral a sua qualidade deixe bastante a desejar (na verdade, até nos EUA a qualidade de muita FC ufológica deixa bastante a desejar). Assim, não é surpresa que este continho ufológico venha do Brasil.
O grande problema é que o grau de originalidade deste O Abduzido (bibliografia) é zero. Quase há mais originalidade no pseudónimo de Som, que o autor escolheu para assinar, do que na história propriamente dita. Quem já tenha tomado contacto com alguma história de rapto por ET sabe precisamente o que se encontra neste pequeno texto, e não é o facto de Som o ter transplantado para a Bahia que altera alguma coisa. Bastaria meia dúzia de pequenos ajustes e passar-se-ia no Kansas sem o menor problema.
Some-se a isso um português que não é dos melhores e o resultado é mais um conto bastante fracote.
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O grande problema é que o grau de originalidade deste O Abduzido (bibliografia) é zero. Quase há mais originalidade no pseudónimo de Som, que o autor escolheu para assinar, do que na história propriamente dita. Quem já tenha tomado contacto com alguma história de rapto por ET sabe precisamente o que se encontra neste pequeno texto, e não é o facto de Som o ter transplantado para a Bahia que altera alguma coisa. Bastaria meia dúzia de pequenos ajustes e passar-se-ia no Kansas sem o menor problema.
Some-se a isso um português que não é dos melhores e o resultado é mais um conto bastante fracote.
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terça-feira, 19 de maio de 2020
David Langford: Éfeso Logradouro
Traduzir este conto deve ter sido um pequeno pesadelo. Felizmente é muito curto. O ambiente já é dado pelo título: o que raio é um Éfeso Logradouro (bibliografia)? E o conto/doença segue por aí fora depois do título, num delírio linguístico completamente absurdo, conseguindo David Langford apesar disso transmitir algumas coisas a quem o lê.
Nomeadamente, o gozo. Este conto é um gozo descarado àqueles escritores que procuram o hermetismo da prosa, trancando-a em palavreado incomum e quantas vezes mal utilizado. É que é disso que a doença consiste, aparentemente: de uma incapacidade de escrever — e falar também, quiçá? — de forma acessível ou até, em casos graves, minimamente compreensível. E claro que, mais uma vez, o médico que descreve a doença é também dela padecente, o que explica o arrazoado que, como digo de início, deve ter sido um pequeno pesadelo de traduzir.
Mas o resultado é divertido. Valha-nos isso.
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Nomeadamente, o gozo. Este conto é um gozo descarado àqueles escritores que procuram o hermetismo da prosa, trancando-a em palavreado incomum e quantas vezes mal utilizado. É que é disso que a doença consiste, aparentemente: de uma incapacidade de escrever — e falar também, quiçá? — de forma acessível ou até, em casos graves, minimamente compreensível. E claro que, mais uma vez, o médico que descreve a doença é também dela padecente, o que explica o arrazoado que, como digo de início, deve ter sido um pequeno pesadelo de traduzir.
Mas o resultado é divertido. Valha-nos isso.
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Isaac Asimov: A Salvação da Humanidade
Para mim, uma das coisas mais interessantes nestes contos sobre o demónio Azazel, bastante mais que a maior parte dos enredos, o demónio, o resto das personagens ou o humor, é a forma metamorfoseada como neles ressurgem algumas ideias que Isaac Asimov desenvolveu mais aprofundadamente noutros sítios. Neste A Salvação da Humanidade (bibliografia), por exemplo, aparecem os computadores como ameaça à humanidade (ou pelo menos vistos como tal), um dos fios condutores de toda a série sobre os robôs positrónicos. E também aparece outra característica dos contos sobre robôs positrónicos: a resolução de um problema, inteiramente lógica mas talvez inesperada.
A história é sobre um desgraçado que é perseguido pelo azar. Ou pelo desastre, talvez mais propriamente. Sim, que a coisa é de tal forma intensa que ele se sente culpado por todas as pessoas que vitimizou involuntariamente devido às consequências da sua falta de sorte. Eis senão quando confessa a quem tem o poder de invocar o demónio Azazel que o que mais desejava era poder compensar a humanidade por todo o mal que lhe causou. Isso, claro, e livrar-se da má sorte. E o homem lá invoca o demónio, e este lá resolve o problema, embora não, claro, sem que a solução tenha consequências não inteiramente agradáveis.
Este é um conto que regressa à fórmula comum à maioria destas histórias, o que me leva a não gostar lá muito dele, mas também é um conto que apresenta um problema lógico e a sua resolução, o que sempre lhe confere algum interesse. Gosto bastante mais dos contos de robôs que têm por base o mesmo tipo de problemas — até porque os próprios problemas são mais adequados em contos com personagens mecânicas — mas acabei por gostar mais desta história do que de algumas das anteriores.
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A história é sobre um desgraçado que é perseguido pelo azar. Ou pelo desastre, talvez mais propriamente. Sim, que a coisa é de tal forma intensa que ele se sente culpado por todas as pessoas que vitimizou involuntariamente devido às consequências da sua falta de sorte. Eis senão quando confessa a quem tem o poder de invocar o demónio Azazel que o que mais desejava era poder compensar a humanidade por todo o mal que lhe causou. Isso, claro, e livrar-se da má sorte. E o homem lá invoca o demónio, e este lá resolve o problema, embora não, claro, sem que a solução tenha consequências não inteiramente agradáveis.
Este é um conto que regressa à fórmula comum à maioria destas histórias, o que me leva a não gostar lá muito dele, mas também é um conto que apresenta um problema lógico e a sua resolução, o que sempre lhe confere algum interesse. Gosto bastante mais dos contos de robôs que têm por base o mesmo tipo de problemas — até porque os próprios problemas são mais adequados em contos com personagens mecânicas — mas acabei por gostar mais desta história do que de algumas das anteriores.
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segunda-feira, 18 de maio de 2020
Irmãos Grimm: O Ganso Dourado
Sim, estou de volta aos contos dos Irmãos Grimm, e para recomeçar esta longa maratona (só nesta etapa são 91... e estas histórias tendem a incluir muitos elementos repetitivos, pelo que desta vez decidi fazer umas pausas sempre que começar a fartar-me como aconteceu no fim do primeiro volume) quem organizou a recolha escolheu O Ganso Dourado.
Trata-se de mais um daqueles contos que os Grimm sintetizaram a partir de várias histórias, ainda que desta vez sejam apenas dois contos que parecem ser variantes um do outro. E são mais uma variação (ou duas) dos contos em que de três irmãos só o mais simples e bondoso se sai bem de uma série de testes, ficando os irmãos arrogantes pelo caminho. O desta história até se chama Tolo e tudo, o que também não é a primeira vez.
No entanto, ao contrário de muitas outras variantes esta tem um pendor claramente humorístico. Por exemplo, o ganso dourado, adequadamente mágico, tem o poder de deixar coladas a ele — ou a alguma pessoa colada a ele, ou a uma pessoa colada a ele, etc. — todas as mãos que tentem cobiçosamente pegar-lhe, e às tantas lá anda o irmão Tolo, de ganso dourado debaixo do braço, seguido por uma extensa procissão de aldeões. É um conto engraçado, este.
Trata-se de mais um daqueles contos que os Grimm sintetizaram a partir de várias histórias, ainda que desta vez sejam apenas dois contos que parecem ser variantes um do outro. E são mais uma variação (ou duas) dos contos em que de três irmãos só o mais simples e bondoso se sai bem de uma série de testes, ficando os irmãos arrogantes pelo caminho. O desta história até se chama Tolo e tudo, o que também não é a primeira vez.
No entanto, ao contrário de muitas outras variantes esta tem um pendor claramente humorístico. Por exemplo, o ganso dourado, adequadamente mágico, tem o poder de deixar coladas a ele — ou a alguma pessoa colada a ele, ou a uma pessoa colada a ele, etc. — todas as mãos que tentem cobiçosamente pegar-lhe, e às tantas lá anda o irmão Tolo, de ganso dourado debaixo do braço, seguido por uma extensa procissão de aldeões. É um conto engraçado, este.
Thomas H. Block: Órbita
É curioso como aqueles livros que são escritos com o olho firmemente posto no contrato cinematográfico são tão fáceis de identificar. Há um certo estilo, um certo ambiente que quem tenha visto filmes da série B (ou C) identifica com bastante precisão, especialmente os que tenham sido realizados mais ou menos na mesma época em que esses livros (que são sempre romances razoavelmente curtos, duzentas e muitas, trezentas e poucas páginas) foram publicados.
É, obviamente, o caso deste Órbita (bibliografia), que possivelmente terá frustrado o autor, Thomas H. Block, uma vez que parece não ter conseguido o almejado contrato, ao contrário de pelo menos outro livro seu, tal como este um thriller e tal como este centrado no mundo da aviação, mas só depois de ter sido reescrito (provavelmente atualizado) por ele em conjunto com outro autor.
Mas este tipo de livro tende a vender bem, pelo que a frustração não terá sido muita. Nunca percebi lá muito bem porquê, francamente: a novidade é pouca, a escrita é frequentemente tosca ou no máximo correta, as personagens são estereotipadas e unidimensionais, os enredos são formulaicos, sabendo-se sempre de antemão que no fim tudo fica bem, que todos os problemas que se acumulam, cada vez mais impossíveis, vão acabar por ser resolvidos num desfecho apoteótico graças a algum rasgo de génio mais ou menos milagroso. Para mim, o acumular de sarilhos torna a manipulação demasiado óbvia, o que corrói fortemente a suspensão da descrença, e o fim óbvio dá cabo da expetativa sobre o que irá acabar por acontecer. Mas a malta parece que gosta...
Neste caso, o thriller é de ficção científica de futuro próximo... tanto à época em que foi escrito, quanto hoje. O desenho do avião que aparece na capa parece-se com o Concorde, e não será por acaso: havia nos anos 70 e 80 do século passado (este livro é de 1982) um otimismo tecnológico sobre o desenvolvimento da aviação que as realidades energéticas e económicas condenaram à condição de utopia irrealizada, e o futuro de viagens intercontinentais hipersónicas que aqui surge continua hoje tão distante como naquela época.
Claro que, para que o livro seja um thriller, as coisas têm de correr mal. O avião deveria realizar um voo suborbital mas, por algum motivo misterioso, os motores não se desligam no momento certo e o aparelho entra em órbita (sim, daí o título), aparentemente sem meios para voltar a descer. É que o combustível é esgotado na subida e à altitude a que vai parar, com a atmosfera tão rarefeita, as superfícies de controlo são totalmente inúteis. Ainda por cima, é certo que o avião é pressurizado mas as reservas de oxigénio foram calculadas para um voo intercontinental relativamente curto, não para uma estadia indefinida em órbita baixa.
Morte iminente para todos a bordo, claro. O que gera as expectáveis cenas de pânico e exacerba alguns conflitos latentes na tripulação, que o piloto e o copiloto nem se podem ver. Há aqui vários momentos em que quase se etreveem as rodas dentadas na mente do autor enquanto ele pensa "como é que eu vou meter estes tipos na pior situação possível?" Aqui e não só, porque também em Terra as coisas não correm propriamente sobre rodas quando uma equipa da empresa de aviação é reunida à pressa e enviada para um centro de controlo da NASA, onde vão tentar fazer um lançamento de emergência do vaivém (também ele entretanto transformado em artefacto histórico) para, pelo menos, se levar oxigénio ao avião acidentado.
É essa tentativa de salvamento de emergência (não muito detalhada, é certo), a tentativa de compreender o que aconteceu ao avião (que rapidamente desagua de forma algo apressada na explicação de sabotagem) e os conflitos e acontecimentos no interior do avião, que faz mover o enredo. Poder-se-á pensar que são elementos com fartura para uma história interessante, mas na verdade ela não o é muito, e pior fica quando tudo se resolve com um autêntico deus ex-machina e os ocupantes do avião se salvam (quase todos, pelo menos) pelos seus próprios meios.
Este livro lê-se? Lê-se. Distrai, que no fundo é mais ou menos a única coisa que pretende fazer. Isso faz com que cumpra os objetivos, suponho. Mas está muito longe de ser bom, muito longe mesmo. É literatura-chiclete: masca-se durante uns tempos mas depressa perde o sabor e não alimenta.
Este livro foi comprado.
É, obviamente, o caso deste Órbita (bibliografia), que possivelmente terá frustrado o autor, Thomas H. Block, uma vez que parece não ter conseguido o almejado contrato, ao contrário de pelo menos outro livro seu, tal como este um thriller e tal como este centrado no mundo da aviação, mas só depois de ter sido reescrito (provavelmente atualizado) por ele em conjunto com outro autor.
Mas este tipo de livro tende a vender bem, pelo que a frustração não terá sido muita. Nunca percebi lá muito bem porquê, francamente: a novidade é pouca, a escrita é frequentemente tosca ou no máximo correta, as personagens são estereotipadas e unidimensionais, os enredos são formulaicos, sabendo-se sempre de antemão que no fim tudo fica bem, que todos os problemas que se acumulam, cada vez mais impossíveis, vão acabar por ser resolvidos num desfecho apoteótico graças a algum rasgo de génio mais ou menos milagroso. Para mim, o acumular de sarilhos torna a manipulação demasiado óbvia, o que corrói fortemente a suspensão da descrença, e o fim óbvio dá cabo da expetativa sobre o que irá acabar por acontecer. Mas a malta parece que gosta...
Neste caso, o thriller é de ficção científica de futuro próximo... tanto à época em que foi escrito, quanto hoje. O desenho do avião que aparece na capa parece-se com o Concorde, e não será por acaso: havia nos anos 70 e 80 do século passado (este livro é de 1982) um otimismo tecnológico sobre o desenvolvimento da aviação que as realidades energéticas e económicas condenaram à condição de utopia irrealizada, e o futuro de viagens intercontinentais hipersónicas que aqui surge continua hoje tão distante como naquela época.
Claro que, para que o livro seja um thriller, as coisas têm de correr mal. O avião deveria realizar um voo suborbital mas, por algum motivo misterioso, os motores não se desligam no momento certo e o aparelho entra em órbita (sim, daí o título), aparentemente sem meios para voltar a descer. É que o combustível é esgotado na subida e à altitude a que vai parar, com a atmosfera tão rarefeita, as superfícies de controlo são totalmente inúteis. Ainda por cima, é certo que o avião é pressurizado mas as reservas de oxigénio foram calculadas para um voo intercontinental relativamente curto, não para uma estadia indefinida em órbita baixa.
Morte iminente para todos a bordo, claro. O que gera as expectáveis cenas de pânico e exacerba alguns conflitos latentes na tripulação, que o piloto e o copiloto nem se podem ver. Há aqui vários momentos em que quase se etreveem as rodas dentadas na mente do autor enquanto ele pensa "como é que eu vou meter estes tipos na pior situação possível?" Aqui e não só, porque também em Terra as coisas não correm propriamente sobre rodas quando uma equipa da empresa de aviação é reunida à pressa e enviada para um centro de controlo da NASA, onde vão tentar fazer um lançamento de emergência do vaivém (também ele entretanto transformado em artefacto histórico) para, pelo menos, se levar oxigénio ao avião acidentado.
É essa tentativa de salvamento de emergência (não muito detalhada, é certo), a tentativa de compreender o que aconteceu ao avião (que rapidamente desagua de forma algo apressada na explicação de sabotagem) e os conflitos e acontecimentos no interior do avião, que faz mover o enredo. Poder-se-á pensar que são elementos com fartura para uma história interessante, mas na verdade ela não o é muito, e pior fica quando tudo se resolve com um autêntico deus ex-machina e os ocupantes do avião se salvam (quase todos, pelo menos) pelos seus próprios meios.
Este livro lê-se? Lê-se. Distrai, que no fundo é mais ou menos a única coisa que pretende fazer. Isso faz com que cumpra os objetivos, suponho. Mas está muito longe de ser bom, muito longe mesmo. É literatura-chiclete: masca-se durante uns tempos mas depressa perde o sabor e não alimenta.
Este livro foi comprado.
Pedro Preto: O Resgate
Pedro Preto é mais um autor que, se ignorarmos uma ou outra fragilidade daquelas que se resolvem com uma revisão, até escreve bem. Mas é também mais um autor que enfia numa extensão demasiado curta uma história que dava pano para mangas muito mais longas, o que tem como resultado um conto fraco porque, ao ser absolutamente descritivo, se torna bastante aborrecido.
Trata-se de uma história de fundo mitológico, sem que se perceba lá muito bem se Preto pretende levá-la mais para o lado do horror ou da fantasia. A história básica é um rapto por mouros da encarnação da deusa cartaginesa Tanit, que o protagonista vai resgatar, numa longa viagem desde o norte de Portugal (não se percebe muito bem se já sob controlo cristão, se ainda nos tempos dos reinos visigóticos ou durante a ocupação islâmica da península) ao coração do império árabe. E daí o título de O Resgate (bibliografia). Mas isto, que é o que de facto é relevante no conto, é relatado como reminiscência, e em duas ou três penadas para que o conto se mantenha curto, sendo o presente ficcional quase totalmente irrelevante para a história.
Este é mais um caso de ideia com bastante potencial mas muito mal desenvolvida porque o autor não acertou na extensão certa para contar a história. Há neste livro demasiados casos destes.
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Trata-se de uma história de fundo mitológico, sem que se perceba lá muito bem se Preto pretende levá-la mais para o lado do horror ou da fantasia. A história básica é um rapto por mouros da encarnação da deusa cartaginesa Tanit, que o protagonista vai resgatar, numa longa viagem desde o norte de Portugal (não se percebe muito bem se já sob controlo cristão, se ainda nos tempos dos reinos visigóticos ou durante a ocupação islâmica da península) ao coração do império árabe. E daí o título de O Resgate (bibliografia). Mas isto, que é o que de facto é relevante no conto, é relatado como reminiscência, e em duas ou três penadas para que o conto se mantenha curto, sendo o presente ficcional quase totalmente irrelevante para a história.
Este é mais um caso de ideia com bastante potencial mas muito mal desenvolvida porque o autor não acertou na extensão certa para contar a história. Há neste livro demasiados casos destes.
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domingo, 17 de maio de 2020
Leiturtugas #59
E eis que, após um mês de pausa, mais coisa, menos coisa, e de alguma turbulência na minha vida internética (que se espalhou pela não internética, ainda que não muito), volta a haver Leiturtugas por aí a voar e eu volto a estar aqui para as apanhar.
Graças a quem? Graças à Cristina Alves, que publicou uma opinião sobre um álbum português de BD. Homem na Lua, assim se chama a obra, de um autor chamado Onofre Varela, este livro foi publicado no ano passado pela Book Cover, e é uma edição comemorativa das primeiras alunagens. Não tem FC, mas mesmo se tivesse contaria sempre como "sem", uma vez que é BD. A Cristina arranca, pois, com 0c1s.
Não sei bem quando, mas sei que vai haver mais movimento nas leiturtugas ainda no decorrer deste mês. Talvez seja já para a semana, talvez seja só para a outra. Veremos. Seja como for, lá nos encontraremos.
Graças a quem? Graças à Cristina Alves, que publicou uma opinião sobre um álbum português de BD. Homem na Lua, assim se chama a obra, de um autor chamado Onofre Varela, este livro foi publicado no ano passado pela Book Cover, e é uma edição comemorativa das primeiras alunagens. Não tem FC, mas mesmo se tivesse contaria sempre como "sem", uma vez que é BD. A Cristina arranca, pois, com 0c1s.
Não sei bem quando, mas sei que vai haver mais movimento nas leiturtugas ainda no decorrer deste mês. Talvez seja já para a semana, talvez seja só para a outra. Veremos. Seja como for, lá nos encontraremos.
Rhys Hughes: Ebercitas
E cá está mais uma doença a fazer referência direta a Jorge Luis Borges, sublinhando uma vez mais todo o substrato borgesiano deste livro. Mas à sisudez de Borges, Rhys Hughes contrapõe um humor razoavelmente delirante, carregado de trocadilhos que nem sempre é possível verter para português, e um romantismo que pouco ou nada tem a ver com a frieza erudita dos contos mais propriamente borgesianos.
Sim, pois Ebercitas (bibliografia) é uma doença de amor. Ou, mais precisamente, uma loucura sentimental, contagiosa, que leva os infelizes pacientes a fazer aquelas tolices típicas das histórias de amor romântico, na tentativa de impressionar uma argentina chamada Eber. Não sei se esta Eber é real, mas há alguns sinais de que possa ser; Hughes atribui o primeiro caso da maleita a um tal Orejitas Entrerroscas, e quem conheça o autor das suas andanças pela web na primeira década do século XXI reconhece este Orejitas de algum lado. Se assim for, este conto funciona como uma declaração ficcionada de amor (ou uma declaração de amor ficcionado?), e não seria o único — veja-se A Sereia de Curitiba.
É curioso que tantas destas doenças sejam descritas por pessoas por elas afetadas; até parece que os autores se combinaram, embora não creia que tal tenha realmente acontecido. E sim, esta é mais uma. Um texto mais longo que a maioria dos restantes deu a Hughes espaço para várias subtilezas francamente interessantes, desenvolvendo melhor a sua ideia e lançando ironias em várias direções. Consequência: gostei mais desta história, porque de uma verdadeira história se trata, do que tem sido hábito neste livro.
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Sim, pois Ebercitas (bibliografia) é uma doença de amor. Ou, mais precisamente, uma loucura sentimental, contagiosa, que leva os infelizes pacientes a fazer aquelas tolices típicas das histórias de amor romântico, na tentativa de impressionar uma argentina chamada Eber. Não sei se esta Eber é real, mas há alguns sinais de que possa ser; Hughes atribui o primeiro caso da maleita a um tal Orejitas Entrerroscas, e quem conheça o autor das suas andanças pela web na primeira década do século XXI reconhece este Orejitas de algum lado. Se assim for, este conto funciona como uma declaração ficcionada de amor (ou uma declaração de amor ficcionado?), e não seria o único — veja-se A Sereia de Curitiba.
É curioso que tantas destas doenças sejam descritas por pessoas por elas afetadas; até parece que os autores se combinaram, embora não creia que tal tenha realmente acontecido. E sim, esta é mais uma. Um texto mais longo que a maioria dos restantes deu a Hughes espaço para várias subtilezas francamente interessantes, desenvolvendo melhor a sua ideia e lançando ironias em várias direções. Consequência: gostei mais desta história, porque de uma verdadeira história se trata, do que tem sido hábito neste livro.
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sexta-feira, 15 de maio de 2020
Serenidade: O Homenzinho do Bosque, Eu e os Sonhos
Lê-se um título como O Homenzinho do Bosque, Eu e os Sonhos (bibliografia) e pensa-se: conto infantil. E pensa-se bem, pois é isso mesmo que a autora (bem... é a Serenidade, portanto suponho que seja autora...) que escolheu Serenidade como pseudónimo aqui apresenta: um conto infantil sobre um miúdo que mergulha no bosque atrás de um homenzinho do tamanho de um pé e aí encontra um sentido para a vida.
Há muito em comum entre esta história e O Raio de Sol, aqui mencionado recentemente. Não só ambas as histórias são infantis, como em ambas está presente o típico tom moralista cheio de boas intenções, aqui com um viés razoavelmente ecológico, de regresso à pureza da natureza, ambos têm poesia e fantasia em doses adequadas e ambos estão bem escritos, ainda que a escrita de Serenidade talvez beneficiasse de um certo encurtamento das frases, demasiado convolutas e complexas para o público que escolheu como alvo.
Mas, de novo, este é um conto perfeitamente publicável.
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Há muito em comum entre esta história e O Raio de Sol, aqui mencionado recentemente. Não só ambas as histórias são infantis, como em ambas está presente o típico tom moralista cheio de boas intenções, aqui com um viés razoavelmente ecológico, de regresso à pureza da natureza, ambos têm poesia e fantasia em doses adequadas e ambos estão bem escritos, ainda que a escrita de Serenidade talvez beneficiasse de um certo encurtamento das frases, demasiado convolutas e complexas para o público que escolheu como alvo.
Mas, de novo, este é um conto perfeitamente publicável.
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António Bettencourt Viana: No Resplendor da Luz Perpétua
Seria provavelmente inevitável que num livro tão orientado para a pedagogia como este declaradamente é aparecesse um conto que é basicamente uma aula. Uma aula sobre nós, seres humanos, quando vistos sob um ponto de vista alienígena, apesar de aqui estarmos implícitos, não explícitos. O problema é que é mesmo muito difícil fazer este tipo de história bem. Será possível, calculo (embora de momento não me esteja a lembrar de nenhum exemplo), mas muito, muito difícil. Não só a história fica necessariamente muito expositiva, como a tarefa de arranjar um ponto de vista realmente alienígena que a possa tornar credível (e mais interessante) está muito longe de ser trivial. Mesmo assim, António Bettencourt Viana arriscou. E o resultado não é brilhante. Pun intended.
O conto passa-se entre alienígenas naturais de um planeta que gira em volta de uma estrela integrante de um dos aglomerados globulares que orbitam a Via Láctea. É essa a razão do título de No Resplendor da Luz Perpétua (bibliografia), pois a proximidade das estrelas nesses aglomerados e a ausência de poeiras faz com que o céu noturno de eventuais planetas que as orbitem seja perfeitamente espetacular, uma caixinha de joias brilhantes. É um desses planetas que Viana imagina, habitado por uma espécie inteligente cujos professores e adolescentes, a despeito de estarem divididos em três sexos e não nos nossos (e nos das espécies inferiores deles) dois, se comportam tal e qual como professores e adolescentes humanos.
É essa uma das grandes fragilidades deste conto: a ausência de qualquer coisa minimamente alienígena no comportamento dos ETs. Há culturas humanas em que os jovens se comportam de uma forma mais estranha ao nosso quotidiano do que os jovens deste planeta longínquo. O autor bem tenta fugir com o rabo à seringa numa introdução em que explica que quando diz que os seus ETs estão a rir não estão realmente a rir, mas é pouco e pouco eficaz.
Mas há mais fragilidades. O conto divide-se em duas aulas, uma sobre as diferenças entre ter três sexos e só dois, outra sobre a existência ou não de inteligência no corpo principal da galáxia. Em ambas, Viana passa mais tempo a falar de nós do que dos seus ETs (aproveitando a primeira para lançar uma série de ideias um tanto ou quanto duvidosas sobre os papéis sexuais humanos), em longos infodumps didáticos com pouca ou nenhuma novidade para quem tenha um conhecimento minimamente razoável da matéria, o que faz com que o conto se torne bastante chato para o leitor comum. Se ao menos houvesse alguma história exterior à exposição professoral talvez fosse possível sustentar o interesse. Mas não há. E em resultado disso, este conto é bastante mauzinho.
Contos anteriores deste livro:
O conto passa-se entre alienígenas naturais de um planeta que gira em volta de uma estrela integrante de um dos aglomerados globulares que orbitam a Via Láctea. É essa a razão do título de No Resplendor da Luz Perpétua (bibliografia), pois a proximidade das estrelas nesses aglomerados e a ausência de poeiras faz com que o céu noturno de eventuais planetas que as orbitem seja perfeitamente espetacular, uma caixinha de joias brilhantes. É um desses planetas que Viana imagina, habitado por uma espécie inteligente cujos professores e adolescentes, a despeito de estarem divididos em três sexos e não nos nossos (e nos das espécies inferiores deles) dois, se comportam tal e qual como professores e adolescentes humanos.
É essa uma das grandes fragilidades deste conto: a ausência de qualquer coisa minimamente alienígena no comportamento dos ETs. Há culturas humanas em que os jovens se comportam de uma forma mais estranha ao nosso quotidiano do que os jovens deste planeta longínquo. O autor bem tenta fugir com o rabo à seringa numa introdução em que explica que quando diz que os seus ETs estão a rir não estão realmente a rir, mas é pouco e pouco eficaz.
Mas há mais fragilidades. O conto divide-se em duas aulas, uma sobre as diferenças entre ter três sexos e só dois, outra sobre a existência ou não de inteligência no corpo principal da galáxia. Em ambas, Viana passa mais tempo a falar de nós do que dos seus ETs (aproveitando a primeira para lançar uma série de ideias um tanto ou quanto duvidosas sobre os papéis sexuais humanos), em longos infodumps didáticos com pouca ou nenhuma novidade para quem tenha um conhecimento minimamente razoável da matéria, o que faz com que o conto se torne bastante chato para o leitor comum. Se ao menos houvesse alguma história exterior à exposição professoral talvez fosse possível sustentar o interesse. Mas não há. E em resultado disso, este conto é bastante mauzinho.
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quinta-feira, 14 de maio de 2020
Em abril falou-se de...
Se eu vos disser que o mês voltou a ser fraquinho, vocês certamente respondem-me qualquer coisa como vá, e agora diz-nos algo que não saibamos já. Bem, não posso fazer isso ainda porque tenho de despachar aquela conversa do costume dedicada aos eventuais descuidados que se esqueçam de abrir o paraquedas e venham cair aqui, pumba, abriu buraco no chão entre as palavras e o que vale é que não é duro, só terá deixado uma ou outra nódoa negra psicológica e nada mais sério do que isso. Portanto cá vai, a tal conversa:
Caros paraquedistas, isto é uma coisa que eu faço já há algum tempo e está explicada no primeiro post de todos. Que é dele, perguntam? Está aqui. É só clicar, ler e voltar. E se por acaso vos der na telha irem ver mês a mês o que foi sendo dito e listado nos restantes posts, basta irem à tag que os reúne a todos, a leituras fc (onde já não poderão encontrar posts futuros se cá vierem dar daqui a um mês ou mais porque este será o último destes posts), e investirem nisso o tempo que vos der na real gana. Mais perguntas? Há comentários; façam-nas aí. E siga para as listas.
Ficção portuguesa:
No Brasil, pelo contrário, parece que o confinamento, a quarentena, como quiserem chamar-lhe lhes deu para lerem FC. A FC deles, nomeadamente, embora não só, que a grande maioria de opiniões sobre FC internacional também de lá veio. Destacam-se Luiz Bras, com duas opiniões a um só título, A. Z. Cordenonsi, com três opiniões sobre dois títulos, Fausto Luciano Panicacci (ainda a colher os resultados da leitura coletiva), Carina Rissi e Gabriel G. Sampaio, todos com duas opiniões sobre um só título, e Lidia Zuin, com opiniões sobre quatro títulos, uma cada.
As opiniões a material não lusófono voltaram a ultrapassar os 100 títulos, e não porque os contos tenham sido muitos. Asimov é destaque do mês, com 6 comentários a 5 títulos diferentes, mas o principal destaque é Margaret Atwood, graças a 12 comentários a 4 títulos diferentes. Outros autores que se destacaram foram Stephen King, com 5 comentários a outros tantos títulos, e Matt Ruff, com 6 comentários a um só título.
Por fim, apareceu uma raridade, um comentário sobre uma obra portuguesa de não-ficção, e as opiniões sobre não-ficção internacional mais ou menos relevante continuaram a ser relativamente abundantes, com um total de 7 títulos e Mark R. Hillegas a merecer destaque dado ter sido o único autor repetente.
E assim chega ao fim esta série de posts. Deram trabalho mas achei-os úteis, e parece que quem cá vem ao blogue também achou porque costumavam estar sempre entre os posts mais vistos do mês. Mas o fim do FCL faz com que se torne impossível continuar, pelo que o ponto final que encerrará esta frase é mesmo final.
Caros paraquedistas, isto é uma coisa que eu faço já há algum tempo e está explicada no primeiro post de todos. Que é dele, perguntam? Está aqui. É só clicar, ler e voltar. E se por acaso vos der na telha irem ver mês a mês o que foi sendo dito e listado nos restantes posts, basta irem à tag que os reúne a todos, a leituras fc (onde já não poderão encontrar posts futuros se cá vierem dar daqui a um mês ou mais porque este será o último destes posts), e investirem nisso o tempo que vos der na real gana. Mais perguntas? Há comentários; façam-nas aí. E siga para as listas.
Ficção portuguesa:
- 24 de Abril, Corte e Costura, de João Cerqueira
- A Anos-Luz, de Carmen Garcia
- Blindness / Ensayo Sobre la Ceguera / L'Aveuglement / Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago (8x)
- Casi un Objeto, de José Saramago
- A Taverna, nº 3, ed. ??
- Epílogo, de Victor Allenspach
- As Duas Faces do Destino, de Landulfo Almeida
- Exo, de Mário Bentes (conto)
- A Nova Ordem, de Eduardo Borsato
- Canis Majoris, de Eduardo Bragança
- Anacrônicos, de Luiz Bras (2x)
- Serpentário, de Felipe Castilho
- La Dame Chevalier e a Mesa Perdida de Salomão, de A. Z. Cordenonsi (2x)
- O Mistério dos Planos Roubados, de A. Z. Cordenonsi
- Mundo Sombrio, de Day Fernandes
- As Coisas que Encontramos, de Denise Flaibam
- História de Joia, de Guilherme Gontijo Flores
- A Rainha do Ignoto, de Emília Freitas
- Corpos Secos, de Luísa Geisler, Marcelo Rocha Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado
- Cyberpunk, org. Cirilo S. Lemos e Erick Santos Cardoso
- Quem é Helen Books?, de Delson Neto
- Ninguém Nasce Herói, de Eric Novello
- Às Moscas, Armas, de Nelson de Oliveira
- Uma Tempestade Determinística, de Marlon Ortiz (conto)
- O Silêncio dos Livros, de Fausto Luciano Panicacci (2x)
- Perdida, de Carina Rissi (2x)
- Abismo do Mal, de Gabriel G. Sampaio (2x)
- Tanto Tempo Dirigindo sem Ninguém no Retrovisor, de Fabio Shiva
- A Realidade de Madhu, de Melissa Tobias
- A Máquina Sonha Deus, de Lidia Zuin (conto)
- Deus Sonha o Homem, de Lidia Zuin (conto)
- Dies Irae, de Lidia Zuin (conto)
- O Homem Sonha a Máquina, de Lidia Zuin (conto)
- Be Water, de Antía Yáñez
- Interzone, nº 285, ed. ??
- More Short Trips, org. ??
- Mundos Apocalípticos, org. John Joseph Adams
- A Morte da Terra, de J. H. Rosny Aîné
- Hopscotch, de Kevin J. Anderson
- Como se Divertiam, de Isaac Asimov (conto)
- Fundação, de Isaac Asimov
- Fundação e Império, de Isaac Asimov (2x)
- Histórias de Robôs, de Isaac Asimov
- Segunda Fundação, de Isaac Asimov
- MadAddão, de Margaret Atwood
- O Conto da Aia / The Handmaid's Tale, de Margaret Atwood (2x)
- Oryx e Crake, de Margaret Atwood
- Os Testamentos / The Testaments, de Margaret Atwood (8x)
- Sob o Véu do Tempo, de Anna Belfrage
- Farenheit 451, de Ray Bradbury (2x)
- Darkover Landfall, de Marion Zimmer Bradley
- A Marcha dos Zumbis, de Max Brallier (3x)
- Who?, de Algis Budrys
- Laranja Mecânica, de Anthony Burgess
- A Peste, de Albert Camus (2x)
- Antologia da Literatura Fantástica, org. Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo
- A Escolha, de Kiera Cass
- A Formatura, de Joelle Charbonneau
- Exhalation, de Ted Chiang
- Cidade nas Trevas, de Adam Christopher (2x)
- Doença de Ledru, de Michael T. Cisco (conto)
- Jogador nº 1, de Ernest Cline
- A Página em Chamas, de Genevieve Cogman
- Medo Mortal, de Robin Cook
- O Mundo Perdido, de Michael Crichton
- Recursão, de Blake Crouch (3x)
- Vox, de Christina Dalcher
- Mais Fortes, Mais Velozes, Mais Belos, de Arwen Elys Dayton
- Ruído Branco, de Don DeLillo
- Ubik, de Philip K. Dick
- Players, de Terrance Dicks
- Soldier for the Empire, de William C. Dietz
- Quarantine, de Greg Egan
- O Resgate no Mar, de Diana Gabaldon
- Os Tambores de Outono, de Diana Gabaldon
- Deuses Americanos, de Neil Gaiman
- Seres Mágicos & Histórias Sombrias, org. Neil Gaiman e Al Sorrantino (2x)
- Senhor das Moscas, de William Golding
- Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
- Revan, de Drew Karpyshyn
- Flores para Algernon, de Daniel Keyes (2x)
- O Mundo Perdido Entre Nós, de Caitlín R. Kiernan
- Celular, de Stephen King
- Insônia, de Stephen King
- O Bazar dos Sonhos Ruins, de Stephen King
- O Instituto, de Stephen King
- O Pistoleiro, de Stephen King
- Revival, de Stephen King
- Terror a Bordo, org. Stephen King e Bev Vincent
- Uma Força Medonha, de C. S. Lewis
- O Ano da Graça, de Kim Liggett
- A Tumba e Outras Histórias, de H. P. Lovecraft
- Beyond the Wall of Sleep, de H. P. Lovecraft (conto)
- O Despertar de Cthulhu, de H. P. Lovecraft
- Caixa de Pássaros, de Josh Malerman
- A Sabedoria dos Mortos, de Rodolfo Martínez
- Cyberstorm, de Matthew Mather
- Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson
- Esperarei por Ti Toda a Vida, de Megan Maxwell (2x)
- A Hospedeira, de Stephenie Meyer
- Os Tempos do Ódio, de Rosa Montero
- Deuses Renascidos, de Sylvain Neuvel
- As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, de Claire North
- A Convenção do Medo, de K. M. O'Donnell
- 1984, de George Orwell (3x)
- Matrix, de Robert Perry e Mike Tucker
- A Bússola de Ouro, de Philip Pullman
- A Faca Sutil, de Philip Pullman
- A Luneta Âmbar, de Philip Pullman
- Os Reinos do Norte, de Philip Pullman
- Waste Tide, de Chen Qiufan
- A Quinta, de Joanne Ramos (2x)
- Ligações, de Rainbow Rowell
- Território Lovecraft, de Matt Ruff (6x)
- As Brigadas Fantasma, de John Scalzi
- Vilão, de V. E. Schwab
- Frankenstein, ou O Prometeu Moderno, de Mary Shelley (2x)
- UnDivided, de Neal Shusterman
- Seca, de Neal Shusterman e Jarrod Shusterman
- X-Wing: The Bacta War, de Michael A. Stackpole
- X-Wing: The Kryptos Trap, de Michael A. Stackpole
- X-Wing: Wedge's Gamble, de Michael A. Stackpole
- O Médico e o Monstro e Outros Experimentos, de Robert Louis Stevenson (3x)
- Reiniciados, de Teri Terry
- A Máquina Infernal do Engenheiro Gárin, de Alexei Tolstói
- Aniquilação, de Jeff VanderMeer
- Através do Vazio, de S. K. Vaughn (2x)
- 20.000 Léguas Submarinas, de Jules Verne
- Viagem ao Centro da Terra, de Jules Verne (2x)
- Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne
- Fragmentos do Tempo, de Rysa Walker (2x)
- Viajantes do Tempo, de Rysa Walker
- The New Accelerator, de H. G. Wells (conto)
- Gladiator, de Philip Wylie
- A Última Estrela, de Rick Yancey
- Nós, de Ievguéni Zamiátin
- Superávit Educacional — Direitos Humanos Versus Políticas Educativas, de Ana S. Moura, João Seixas, M. Natália D. S. Cordeiro e João Barreiros
- Science Fiction and the Idea of Progress, de Mark R. Hillegas
- Science Fiction as Cultural Phenomenon: a Re-Evaluation, de Mark R. Hillegas
- H. P. Lovecraft: Contra o Mundo, Contra a Vida, de Michel Houellebecq
- A Física do Futuro, de Michio Kaku
- On Writing, de Stephen King
- A Vida de C. S. Lewis, de Alister McGrath
- Logo, Logo, de Kelly e Zach Weinersmith
No Brasil, pelo contrário, parece que o confinamento, a quarentena, como quiserem chamar-lhe lhes deu para lerem FC. A FC deles, nomeadamente, embora não só, que a grande maioria de opiniões sobre FC internacional também de lá veio. Destacam-se Luiz Bras, com duas opiniões a um só título, A. Z. Cordenonsi, com três opiniões sobre dois títulos, Fausto Luciano Panicacci (ainda a colher os resultados da leitura coletiva), Carina Rissi e Gabriel G. Sampaio, todos com duas opiniões sobre um só título, e Lidia Zuin, com opiniões sobre quatro títulos, uma cada.
As opiniões a material não lusófono voltaram a ultrapassar os 100 títulos, e não porque os contos tenham sido muitos. Asimov é destaque do mês, com 6 comentários a 5 títulos diferentes, mas o principal destaque é Margaret Atwood, graças a 12 comentários a 4 títulos diferentes. Outros autores que se destacaram foram Stephen King, com 5 comentários a outros tantos títulos, e Matt Ruff, com 6 comentários a um só título.
Por fim, apareceu uma raridade, um comentário sobre uma obra portuguesa de não-ficção, e as opiniões sobre não-ficção internacional mais ou menos relevante continuaram a ser relativamente abundantes, com um total de 7 títulos e Mark R. Hillegas a merecer destaque dado ter sido o único autor repetente.
E assim chega ao fim esta série de posts. Deram trabalho mas achei-os úteis, e parece que quem cá vem ao blogue também achou porque costumavam estar sempre entre os posts mais vistos do mês. Mas o fim do FCL faz com que se torne impossível continuar, pelo que o ponto final que encerrará esta frase é mesmo final.
Jeffrey Thomas: Doença da Tatuagem Internalizada
Esta é mais uma descrição de doença que não contém propriamente uma história o que, como sempre acontece nesses casos (ou quase sempre, vá), me leva a não gostar lá muito do resultado. Sinto sempre (ou quase) que há na ideia uma história por explorar e que é pena ela ter ficado por explorar. Uma ou mais. Ela ou elas. São coisas.
E como também acontece com alguma frequência, o título revela desde logo a ideia. Doença da Tatuagem Internalizada (bibliografia) é isso mesmo, uma doença, benigna, que consiste na criação psicossomática de tatuagens nos órgãos internos do corpo. Jeffrey Thomas fica-se pela descrição da doença e da sua descoberta, mas eu enquanto ia lendo identifiquei pelo menos um ponto fraco nessa descrição — ele diz que a doença só foi identificada recentemente porque só recentemente se desenvolveram as técnicas da autópsia... mas há séculos que o homem esventra o homem, pelo que seria de esperar que alguém tivesse reparado em tatuagens internas, apesar do sangue e de outros fluidos — e imaginei logo uma história baseada nesta ideia. A descrição tem a sua graça, que tem, mas soube-me a pouco.
Textos anteriores deste livro:
E como também acontece com alguma frequência, o título revela desde logo a ideia. Doença da Tatuagem Internalizada (bibliografia) é isso mesmo, uma doença, benigna, que consiste na criação psicossomática de tatuagens nos órgãos internos do corpo. Jeffrey Thomas fica-se pela descrição da doença e da sua descoberta, mas eu enquanto ia lendo identifiquei pelo menos um ponto fraco nessa descrição — ele diz que a doença só foi identificada recentemente porque só recentemente se desenvolveram as técnicas da autópsia... mas há séculos que o homem esventra o homem, pelo que seria de esperar que alguém tivesse reparado em tatuagens internas, apesar do sangue e de outros fluidos — e imaginei logo uma história baseada nesta ideia. A descrição tem a sua graça, que tem, mas soube-me a pouco.
Textos anteriores deste livro:
quarta-feira, 13 de maio de 2020
Isaac Asimov: O Surdo Ribombar
É engraçado como isto acontece com uma certa frequência: mal um gajo pensa detetar um padrão, uma fórmula inamovível e por isso mesmo aborrecida, um baralhar para voltar a dar as mesmas cartas, lá vem o autor e mete umas cartas novas no baralho, como quem diz "ah julgas-te espertinho, é? Achas que me topaste? Então toma lá, para ver se aprendes".
Sim, Isaac Asimov trocou-me as voltas. Este O Surdo Ribombar (bibliografia) não segue a fórmula de histórias anteriores, e o facto de o demoniozinho Azazel mal aparecer nem é o principal motivo para tal. Na verdade, e apesar da presença do demónio e dos seus atos não deixar que o seja por completo, esta história aproxima-se bastante de um dos seus contos de ficção científica: numa conversa entre duas pessoas, uma delas revela um fenómeno inusitado, e vamos aos poucos descobrindo o que o causa, sendo essa descoberta o que faz mover a história, não as tentativas mais ou menos bem sucedidas de humor em volta do infernal bicharoco.
O fenómeno é, claro, o surdo ribombar do título, resultado de uma estranha formação numa caverna que o descobridor apelida de saser, ou laser sónico. Certamente já veem de que forma esta história soa a FC, mas soa ainda mais do que isso, pois o que se segue é uma série de investigações sobre o funcionamento da coisa. Que a revelam perigosa, capaz dos mais variados efeitos, inclusivamente a destruição de certas espécies químicas através da frequência (e potência, claro) da vibração. É aqui que entramos firmemente no território do cientista maluco e vilanesco, pois o homem procura descobrir a frequência que destroi o ADN humano porque considera os seus semelhantes uma praga que há que destruir. E só não o faz porque revela as suas intenções ao homem que tem contacto direto com o demónio Azazel, e é a solução que estes dois engendram que afasta o conto da FC propriamente dita.
Não tenho bem a certeza, mas acho que este é o conto do Azazel que mais me agradou até agora.
Contos anteriores deste livro:
Sim, Isaac Asimov trocou-me as voltas. Este O Surdo Ribombar (bibliografia) não segue a fórmula de histórias anteriores, e o facto de o demoniozinho Azazel mal aparecer nem é o principal motivo para tal. Na verdade, e apesar da presença do demónio e dos seus atos não deixar que o seja por completo, esta história aproxima-se bastante de um dos seus contos de ficção científica: numa conversa entre duas pessoas, uma delas revela um fenómeno inusitado, e vamos aos poucos descobrindo o que o causa, sendo essa descoberta o que faz mover a história, não as tentativas mais ou menos bem sucedidas de humor em volta do infernal bicharoco.
O fenómeno é, claro, o surdo ribombar do título, resultado de uma estranha formação numa caverna que o descobridor apelida de saser, ou laser sónico. Certamente já veem de que forma esta história soa a FC, mas soa ainda mais do que isso, pois o que se segue é uma série de investigações sobre o funcionamento da coisa. Que a revelam perigosa, capaz dos mais variados efeitos, inclusivamente a destruição de certas espécies químicas através da frequência (e potência, claro) da vibração. É aqui que entramos firmemente no território do cientista maluco e vilanesco, pois o homem procura descobrir a frequência que destroi o ADN humano porque considera os seus semelhantes uma praga que há que destruir. E só não o faz porque revela as suas intenções ao homem que tem contacto direto com o demónio Azazel, e é a solução que estes dois engendram que afasta o conto da FC propriamente dita.
Não tenho bem a certeza, mas acho que este é o conto do Azazel que mais me agradou até agora.
Contos anteriores deste livro:
Sandro William Junqueira: As Cebolas Tornam-nos Maus
Cebolas, botas ortopédicas e outros tipos de sapatos, gabardines e cadeiras. É de objetos inanimados que se faz em grande medida este conto de Sandro William Junqueira. Mas é a violência o seu tema. Ou talvez a maldade. A crueldade do homem pelo homem, por mais que tente esquivar-se atribuindo as culpas a algo exterior a si próprio. A cebolas, digamos. As Cebolas Tornam-nos Maus. Tornarão?
Há em todo o conto uma atmosfera entre o fantasmagórico e o horror existencial, com toques de realismo mágico, apesar de nada do que nele é descrito se afaste realmente das possibilidades da vivência quotidiana. Um casal discute porque o marido se esqueceu de trazer cebolas do supermercado, e a discussão leva à violência. Doméstica, está bem de ver-se. Um cantor de rua é assassinado a tiro por alguém que parece ser só botas e gabardina (e arma), por motivos que não chegamos a conhecer. No pós-pancadaria, no apartamento do casal desavindo, uma cadeira pesada é atirada pela janela. No pós-homicídio, o assassino põe-se em fuga pela cidade fora. E no desfecho, assassino (ou apenas as coisas que o envolvem) e cadeira encontram-se no mesmo ponto do tempo e do espaço.
É como quem diz, sim, somos umas bestas, uns montes de trampa sempre prontos para nos atacarmos uns aos outros, mas no fundo, no fim de contas, o universo arranjará sempre maneira de levar o castigo devido a quem é devido. Ou talvez nem sempre, nem a todos. Só aos piores, talvez. É um conto incómodo, este, e é-o propositadamente. Estou mesmo a ver muitos leitores a torcer-lhe o nariz por isso mesmo. Eu gostei. Não me incomoda o incómodo, e a história está bastante bem escrita.
Contos anteriores deste livro:
Há em todo o conto uma atmosfera entre o fantasmagórico e o horror existencial, com toques de realismo mágico, apesar de nada do que nele é descrito se afaste realmente das possibilidades da vivência quotidiana. Um casal discute porque o marido se esqueceu de trazer cebolas do supermercado, e a discussão leva à violência. Doméstica, está bem de ver-se. Um cantor de rua é assassinado a tiro por alguém que parece ser só botas e gabardina (e arma), por motivos que não chegamos a conhecer. No pós-pancadaria, no apartamento do casal desavindo, uma cadeira pesada é atirada pela janela. No pós-homicídio, o assassino põe-se em fuga pela cidade fora. E no desfecho, assassino (ou apenas as coisas que o envolvem) e cadeira encontram-se no mesmo ponto do tempo e do espaço.
É como quem diz, sim, somos umas bestas, uns montes de trampa sempre prontos para nos atacarmos uns aos outros, mas no fundo, no fim de contas, o universo arranjará sempre maneira de levar o castigo devido a quem é devido. Ou talvez nem sempre, nem a todos. Só aos piores, talvez. É um conto incómodo, este, e é-o propositadamente. Estou mesmo a ver muitos leitores a torcer-lhe o nariz por isso mesmo. Eu gostei. Não me incomoda o incómodo, e a história está bastante bem escrita.
Contos anteriores deste livro:
terça-feira, 12 de maio de 2020
Vítor Claudino (ed.): Magazine do Fantástico e Ficção Científica, nº 3
Uma apreciação geral deste número 3 do Magazine do Fantástico e Ficção Científica tem de começar por um ponto negativo, que de resto não é único deste número. É que, sem um tema genérico que as junte num todo coerente, as histórias valem (ou não) por si mesmas, mas existe uma coisa que é comum a todas: a tradução. A muito má tradução.
Lembram-se da coleção Argonauta? Conhecem a fama que têm as traduções da Argonauta? Pois bem: depois de ter lido já dois números desta tentativa de publicar em Portugal uma versão da revista americana Fantasy and Science Fiction posso dizer-lhes que as traduções que aqui se encontram fazem as da Argonauta parecer obras literárias de primeira água. Isso talvez baste para explicar o motivo por que a iniciativa foi abandonada ao fim de meros quatro números, embora seja provável que outros fatores também tenham influído no falhanço.
Mas se nos abstrairmos das traduções, este número da revista é bom?
E a resposta é... não. Oh, vale plenamente a pena a publicação porque estão aqui incluídos dois contos que realmente dão gosto ler — Em Tempos Havia os Bois... e Debaixo de Cerco —, e eu mantenho a opinião de que se uma publicação inclui nem que seja um conto muito bom ou pelo menos dois ou três bons já valeu a pena, mas a verdade é que os contos são nove ao todo e valer a pena é uma coisa, ser bom é outra. Há aqui demasiados contos que não ultrapassam o razoável, e até há um ou dois que só a custo lá chegam, o que impede o conjunto de ser mais do que isso mesmo: razoável. Lê-se, desfruta-se das histórias que dão para desfrutar, mas o resto da leitura é basicamente indiferente. E desconfio que o seria mesmo se a tradução fosse boa, ainda que aqui tenha de admitir que se trata apenas de especulação e que é inteiramente possível que haja aqui boa literatura de tal forma estragada pela tradução que parece ser bastante pior do que na realidade é.
Não tenho elementos que me permitam saber como foram construídos os números desta versão portuguesa da F&SF, mas sei que não se trata de tradução direta dos números da revista americana, pois os contos que aqui se incluem datam de diversos anos. Ou seja: existe participação do editor português na seleção. Não sei se houve limitações nos contos que podiam ser incluídos, e se houve quais, financeiras ou outras, mas o facto é que este número não me parece particularmente bem conseguido. É demasiado desequilibrado. Mas lá está: inclui contos bons e por isso vale a pena.
Eis o que achei de cada um dos contos:
Lembram-se da coleção Argonauta? Conhecem a fama que têm as traduções da Argonauta? Pois bem: depois de ter lido já dois números desta tentativa de publicar em Portugal uma versão da revista americana Fantasy and Science Fiction posso dizer-lhes que as traduções que aqui se encontram fazem as da Argonauta parecer obras literárias de primeira água. Isso talvez baste para explicar o motivo por que a iniciativa foi abandonada ao fim de meros quatro números, embora seja provável que outros fatores também tenham influído no falhanço.
Mas se nos abstrairmos das traduções, este número da revista é bom?
E a resposta é... não. Oh, vale plenamente a pena a publicação porque estão aqui incluídos dois contos que realmente dão gosto ler — Em Tempos Havia os Bois... e Debaixo de Cerco —, e eu mantenho a opinião de que se uma publicação inclui nem que seja um conto muito bom ou pelo menos dois ou três bons já valeu a pena, mas a verdade é que os contos são nove ao todo e valer a pena é uma coisa, ser bom é outra. Há aqui demasiados contos que não ultrapassam o razoável, e até há um ou dois que só a custo lá chegam, o que impede o conjunto de ser mais do que isso mesmo: razoável. Lê-se, desfruta-se das histórias que dão para desfrutar, mas o resto da leitura é basicamente indiferente. E desconfio que o seria mesmo se a tradução fosse boa, ainda que aqui tenha de admitir que se trata apenas de especulação e que é inteiramente possível que haja aqui boa literatura de tal forma estragada pela tradução que parece ser bastante pior do que na realidade é.
Não tenho elementos que me permitam saber como foram construídos os números desta versão portuguesa da F&SF, mas sei que não se trata de tradução direta dos números da revista americana, pois os contos que aqui se incluem datam de diversos anos. Ou seja: existe participação do editor português na seleção. Não sei se houve limitações nos contos que podiam ser incluídos, e se houve quais, financeiras ou outras, mas o facto é que este número não me parece particularmente bem conseguido. É demasiado desequilibrado. Mas lá está: inclui contos bons e por isso vale a pena.
Eis o que achei de cada um dos contos:
- Em Tempos Havia os Bois...
- Dois Mil e Sessenta e Um
- Debaixo de Cerco
- Ei... ii, Sai cá pr'a Fo... ora!
- Pequeno Goethe
- Segunda Hipótese
- Projecto Grande Ascenção
- Gato
- Manhã
Rita Cláudia M. Silva: O Raio de Sol
Antes de falar diretamente sobre este conto, deixem-me fazer um parêntesis. Há quem se irrite com a inclusão de uma porção razoável da literatura infantil e/ou juvenil na literatura fantástica. O motivo da irritação tem a ver com alguma tendência, em certas outras pessoas, de tratar toda a literatura fantástica como literatura infantil e/ou infantiloide (não é bem a mesma coisa), o que vai desaguar no velho preconceito contra as literaturas não mainstream. Compreendendo o que origina a irritação, julgo no entanto que ela falha o alvo. Muita literatura infantil é literatura fantástica em sentido lato, o maravilhoso faz parte da grande família das literaturas do imaginário, e por isso faz pleno sentido juntá-la aos restantes membros da família. Questão diferente é se será ou não avisado incluir contos infantis num livro com outros contos que não são, de todo, adequados para crianças, mas disso falarei mais quando falar deste livro e não das suas histórias.
Depois deste preâmbulo já terão percebido, certamente, que O Raio de Sol (bibliografia), de Rita Cláudia M. Silva, é um conto infantil. E perceberam bem. De resto, o próprio título já o indica.
E é um conto infantil bastante típico. O português é bom — se descontarmos dois ou três descuidos que se tivesse existido uma revisão teriam sido apanhados — e adequadamente simples, o tom é aquele típico tom moralista cheio de bons sentimentos de tantas histórias infantis, e há nele poesia e fantasia qb. Conta a história de um menino trasmontano, aldeão pobre, que trava amizade com um raio de sol falante e com ele descobre como melhorar o mundo. E além disso, tem a dimensão certa para a história que quer contar.
Este é um conto infantil muito razoável, perfeitamente publicável (se revisto, bem entendido), o que não se pode dizer de todos os contos presentes neste livro.
Textos anteriores deste livro:
Depois deste preâmbulo já terão percebido, certamente, que O Raio de Sol (bibliografia), de Rita Cláudia M. Silva, é um conto infantil. E perceberam bem. De resto, o próprio título já o indica.
E é um conto infantil bastante típico. O português é bom — se descontarmos dois ou três descuidos que se tivesse existido uma revisão teriam sido apanhados — e adequadamente simples, o tom é aquele típico tom moralista cheio de bons sentimentos de tantas histórias infantis, e há nele poesia e fantasia qb. Conta a história de um menino trasmontano, aldeão pobre, que trava amizade com um raio de sol falante e com ele descobre como melhorar o mundo. E além disso, tem a dimensão certa para a história que quer contar.
Este é um conto infantil muito razoável, perfeitamente publicável (se revisto, bem entendido), o que não se pode dizer de todos os contos presentes neste livro.
Textos anteriores deste livro:
Em 2019 falou-se de... ficção internacional
Sim, é verdade que este post já devia ter saído há muito, que ainda levou mais tempo a sair do que no ano passado, ano em que ameacei não voltar a fazer isto por me dar demasiado trabalho, mas desta vez o problema não foi esse, que isto deu trabalho, sim (basta o tamanho para isso ser óbvio), mas não tanto como o atraso pode levar a crer. É mais uma vítima do covid, da paragem de tudo o não essencial para tratar de perceber o que se estava a passar e, antes disso, de uma prioridade dada a outros escritos para limpar uma acumulação de material já lido mas ainda não comentado que já estava a ser demasiada.
Vai mesmo ser a última vez que faço isto, mas por outros motivos. No entanto, já que começámos, acabemos.
Ah, temos por aí distraídos? OK, então vão lá ver o post destes dedicado à ficção portuguesa, e já que estão nessa vão também cheirar o que se dedica à brasileira. Ainda fica a faltar um, dedicado a outras categorias menos abundantes, e se estão muito ansiosos por esse aviso que é capaz de demorar, mas voltem sempre, não se acanhem. Para já deixo-vos com a longa lista de toda a ficção não lusófona que foi merecendo leitura e comentário ao longo de 2019 por essa internet lusófona fora:
?? (org.)
Ao mesmo tempo, é uma gota de água no oceano do que existe. Não só do que existe publicado nas línguas originais — e aqui temos também opiniões sobre material que nunca saiu em português, e provavelmente nunca sairá — mas até do que existe publicado em português, seja do lado de cá, seja do lado de lá do Atlântico. Por cada Douglas Adams com 7 títulos comentados 22 vezes há um número que desconheço de autores que ninguém lê ou, se lê, ninguém comenta. Tal como entre os portugueses. Tal como entre os brasileiros. Nisso, pelo menos, todos os escritores de FC (ou que roçaram no género em alguma parte das suas carreiras) do planeta estão unidos num só protesto.
E sim, Douglas Adams é um dos destaques do ano. Mas não é nem o único nem o maior. O maior destaque tem de caber a Isaac Asimov, que recebeu um total de 68 comentários a 36 títulos (incluindo muitos contos, claro). E houve mais autores a passar os 20 comentários: Margaret Atwood teve 26 (5 títulos), Octavia E. Butler 35 (6 títulos), Philip K. Dick 40 (12 títulos), Ursula K. Le Guin 29 (8 títulos), Stephen King 42 (11 títulos), H. P. Lovecraft não passou os 20 comentários mas alcançou-os (14 títulos), Josh Malerman 30 (3 títulos), John Scalzi 21 (5 títulos), Kurt Vonnegut 22 (3 títulos) e Neal Shusterman chegou apenas a 10 comentários, mas se somarmos os outros 10 que o título que escreveu com o filho Jarrod atinge os 20 (e um total de 5 títulos). Muitos monstros sagrados, um punhado de gente mais nova, muitos autores de FC adulta e poucos de YA, o que contraria algumas ideias feitas muito espalhadas, ainda que a proveniência destes números tenha certamente influência nisso.
Hão de reparar que todos estes autores estão presentes com mais que um título, não tendo havido, em 2019, nenhum daqueles casos em que um autor explode com um livro repentino que toda a gente parece querer ler e sobre o qual parece ter de falar, desaparecendo em seguida sem deixar rasto. Quando acontece algo do género, o total de leituras e comentários não atinge esses números. Mas há alguns autores com mais de 10 comentários a obras únicas, ainda que nem todos sejam novos autores nos mercados lusófonos. Destaca-se George Orwell, com 18 comentários ao romance 1984, outros autores consagrados presentes nesta lista são Anthony Burgess (10 comentários), Daniel Keyes (11 comentários) e Ian McEwan (13 comentários), mas também lá estão Gwenda Bond (14 comentários), Hank Green (13 comentários), Patrick Ness (11 comentários) e S. K. Vaughn (11 comentários).
Se isto continuasse, para o ano teríamos números semelhantes a estes em Saramago. Mas não vai continuar, portanto nunca os teremos. Ou por outra, vai continuar ainda para o post das categorias menores, que vem aí a seguir (quando não sei, que a prioridade é bastante baixa... mas virá), e depois acabou-se. Até lá.
Vai mesmo ser a última vez que faço isto, mas por outros motivos. No entanto, já que começámos, acabemos.
Ah, temos por aí distraídos? OK, então vão lá ver o post destes dedicado à ficção portuguesa, e já que estão nessa vão também cheirar o que se dedica à brasileira. Ainda fica a faltar um, dedicado a outras categorias menos abundantes, e se estão muito ansiosos por esse aviso que é capaz de demorar, mas voltem sempre, não se acanhem. Para já deixo-vos com a longa lista de toda a ficção não lusófona que foi merecendo leitura e comentário ao longo de 2019 por essa internet lusófona fora:
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- El Tiempo no Es Tan Simple
- Histórias de Fantasmas
- Star Wars: A Trilogia (2x)
- A Vida, o Universo e Tudo Mais (3x)
- Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes! (3x)
- Cidade da Morte
- O Guia do Mochileiro das Galáxias / À Boleia Pela Galáxia (7x)
- O Restaurante no Fim do Universo (5x)
- O Salmão da Dúvida (2x)
- Praticamente Inofensiva
- Shada
- Mundos Apocalípticos (4x)
- The Goblin Emperor
- Brilliant Devices
- Her Own Devices
- Lady of Devices
- Magnificent Devices
- Imperfeitos (2x)
- O Poder (4x)
- Frankenstein Desencadenado
- Jornada de Esperança
- Zathura
- Meg
- O que Acontece Quando um Homem Cai do Céu
- Obsidiana (2x)
- Ônix
- Opala (2x)
- Opostos (4x)
- Originais (3x)
- Steamborn
- Steamforged
- Steamsworn
- Menace of the Machine
- 2.430 D.C. (conto)
- A Última Pergunta (conto)
- A Última Resposta (conto)
- As Cavernas de Aço (3x)
- Chuva, Chuva, Vá Embora! (conto)
- Eu, Robô (4x)
- Fundação (13x)
- Fundação e Império (2x)
- Fundação e Terra
- Half Breed (conto)
- Histórias de Robôs
- Liar (conto)
- Marooned Off Vesta (conto) (2x)
- O Bardo Imortal (conto)
- O Cair da Noite (conto) (2x)
- O Dia dos Caçadores (conto)
- O Fim da Eternidade (8x)
- O Sol Desvelado (2x)
- Os Robôs da Alvorada (3x)
- Os Robôs e o Império
- Pedra no Céu
- Pobres Imbecis (conto)
- Ponha o Pino A no Furo B (conto)
- Ponto Chave (conto)
- Ring Around the Sun (conto)
- Satisfação Garantida (conto)
- Segunda Fundação (2x)
- Sonhar é Assunto Particular (conto)
- The Magnificent Possession (conto)
- The Weapon, Too Dreadful to Use (conto)
- Trends (conto)
- Trilogia da Fundação (2x)
- Um Dia (conto)
- Vazio (conto)
- Visões de Robô
- Vitória Involuntária (conto)
- Coma e Emagreça com a Ficção Científica
- A História de uma Serva / O Conto da Aia / The Handmaid's Tale (15x)
- Madaddão (3x)
- O Ano do Dilúvio (2x)
- Orys e Crake (4x)
- Os Testamentos / The Testaments (2x)
- 4, 3, 2, 1
- The Peculiar
- Faca de Água (2x)
- Ship Breaker
- The Drowned Cities
- Tool of War
- Senlin Ascends
- Use of Weapons
- A Besta
- Toda a Cerveja de Marte (conto)
- Vigilance
- O Homem Demolido
- Isaac Asimov Magazine, nº 3
- Death Weeps
- Declínio
- Invasão
- Raízes do Mal / Mentes Inquietas (14x)
- A Biblioteca de Babel (conto)
- Nova Antologia Pessoal
- O Livro de Areia
- Utopia de um Homem que Está Cansado (conto)
- Antologia da Literatura Fantástica
- O Planeta dos Macacos
- Matem o Presidente
- The City of Silence (conto)
- Inesquecível (3x)
- Mentes Poderosas / Mentes Sombrias (4x)
- Os Passageiros do Tempo (2x)
- Os Viajantes (2x)
- Farenheit 451 (8x)
- Rondam Tigres (conto)
- A Chegada em Darkover
- Caçadores da Lua Vermelha
- 4 Contra o Apocalipse (7x)
- O Guia de Sobrevivência a Zumbis
- Filho Dourado
- Fúria Vermelha (3x)
- O Viajante de Negro
- A Laranja Mecânica / Laranja Mecânica (10x)
- John Carter
- Best Women's Erotica of the Year, vol. 5
- A Parábola do Semeador / Parable of the Sower (5x)
- A Parábola dos Talentos / Parable of the Talents (5x)
- Despertar (5x)
- Kindred: Laços de Sangue / Kindred (15x)
- Ritos de Passagem (4x)
- Sons da Fala (conto)
- Seres do Espaço
- História da Floresta que se Vinga (conto)
- História de Astolfo na Lua (conto)
- História do Guerreiro Sobrevivente (conto)
- O Castelo dos Destinos Cruzados
- Hiperpilosity
- The Last Evolution (conto)
- The Metal Horde (conto)
- When the Atoms Failed (conto)
- A Guerra das Salamandras (4x)
- A Rapariga que Sabia Demais / A Menina que Tinha Dons (2x)
- A União dos Universos
- A Invenção de Morel
- Antologia da Literatura Fantástica (4x)
- A Coroa
- A Herdeira
- A Seleção (2x)
- O Príncipe (conto)
- The Prince & the Guard
- The Queen
- O Mundo Resplandecente (2x)
- País das Maravilhas (conto)
- A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada (3x)
- Uma Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil (2x)
- Síndrome Fasciolar Cerebral dos Carteiros (conto)
- História da Sua Vida (conto)
- História da Sua Vida e Outros Contos (2x)
- Nova Iorque Sob Trevas
- The Deaths of Tao
- The Lives of Tao
- 2001, uma Odisseia no Espaço (2x)
- A Cidade e as Estrelas
- A Derradeira Manhã (conto)
- As Canções da Terra Distante / Canções da Terra Distante (2x)
- As Fontes do Paraíso
- Campanha Publicitária (conto)
- Encontro com Rama
- O Despertar (conto)
- O Fim da Infância (2x)
- Todo o Tempo do Mundo (conto)
- Um Dia Na Vida do Século XXI
- Richter 10
- Jogador nº 1 (2x)
- A Biblioteca Invisível (2x)
- A Trama Perdida (2x)
- A Muralha ao Redor do Mundo (conto)
- A Esperança
- Em Chamas
- Jogos Vorazes
- Los Mejores Relatos de Ciencia Ficción
- Vírus
- Cavalo-Marinho no Céu
- O Lagarto de Woz (conto)
- Tiamat's Wrath
- Timewyrm: Revelation
- Naves Espaciais, 2000 a 2100
- Jurassic Park
- O Enigma de Andrômeda
- A Armadilha do Paraíso
- A Cidade dos Espelhos
- A Passagem (3x)
- Os Doze
- Matéria Escura (4x)
- Recursão / Recursion (3x)
- Vox (40x)
- Dinosaurios
- A Terceira Potência
- O Crepúsculo dos Deuses
- The Good Doctor
- Stronger, Faster and More Beautiful
- Babel-17 (4x)
- Estrela Imperial (2x)
- Zero K
- Anarquia
- Alice no País das Armadilhas
- A Máquina Preservadora
- A Máquina Preservadora, vol. 1
- Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? / Blade Runner (6x)
- Espaço Eletrônico
- Espere Agora Pelo Ano Passado (3x)
- Lotaria Solar
- O Homem do Castelo Alto (10x)
- O Profanador
- O Tempo Desconjuntado (5x)
- Realidades Adaptadas (3x)
- Ubik (7x)
- Valis
- Deus da Fúria
- Home From the Shore
- Man After Man
- Fênix - A Ilha
- O Mundo Perdido (3x)
- O Sétimo Dia
- Alongamento Vestigial das Vértebras Caudais (conto)
- Talking to Robots
- The Bullet-Catcher's Daughter
- The Custodian of Marvels
- Unseemly Science
- Angry Candy
- The 2055 Hugo Awards (microficções)
- The World of Tiers / World of Tiers (2x)
- Terra de Lobos
- Os Herreachs
- Tempo Acelerado
- Time's Black Lagoon
- Incarceron
- Splinter of the Mind's Eye
- Uma Nova Esperança
- A Arma de um Jedi
- Os Últimos Jedi
- A Cruz de Fogo
- A Libélula no Âmbar
- Tambores de Outono / Os Tambores do Outono (2x)
- Coisas Frágeis
- Crupe dos Doenceiros (conto)
- Deuses Americanos
- Criaturas Estranhas
- Seres Mágicos & Histórias Sombrias (2x)
- Simulacron 3
- Lua de Larvas
- Os Escravos da Górgona
- The Roundheads
- Fantasy & Science Fiction, nº 645
- Transformation (conto)
- O Jardim Diabólico
- Count Zero (2x)
- Mona Lisa Overdrive
- Neuromancer (5x)
- O Periférico (5x)
- Terra das Mulheres (2x)
- Metro 2033 / Metrô 2033 (3x)
- O Império Contra-Ataca
- Senhor das Moscas
- Ficções, nº 10
- Terminais
- Crianças do Éden (5x)
- Feed
- Desafiando as Estrelas (3x)
- Estrelas Perdidas
- Um Milhão de Mundos com Você
- Uma Coisa Absolutamente Fantástica (13x)
- Vinte e Dois Passos Para o Apocalipse (conto)
- Spoonbenders
- A Mãe das Moscas
- A Cidade das Ilusões
- A Curva do Sonho (7x)
- A Mão Esquerda da Escuridão / A Mão Esquerda das Trevas (8x)
- April in Paris (conto)
- O Colar de Semley (conto)
- O Dia do Perdão
- Os Despossuídos / Os Despojados (9x)
- Planeta do Exílio
- Os Filhos Adotivos do Sol
- Como Parar o Tempo (3x)
- Os Humanos
- A Máquina do Tempo Acidental
- Guerra sem Fim / The Forever War (7x)
- Humor Cósmico
- Metrópolis
- Fatherland
- Deathworld
- O Armazém (2x)
- Herdeiro do Jedi
- O Mapa do Tempo (2x)
- O Navio Além do Tempo (2x)
- Cita en la Eternidad
- If This Goes On (conto)
- Life-Line (conto) (2x)
- Misfits (conto)
- Requiem (conto)
- Successful Operation (conto)
- Um Estranho Numa Terra Estranha (5x)
- Imortalidade (2x)
- Duna (2x)
- Filhos de Duna
- Herdeiras de Duna
- Heretics of Dune
- Imperador-Deus de Duna
- Messias de Duna (3x)
- The Godmakers
- Tempo Estranho
- Synthespians
- A Terra da Noite
- A Voz de Deus (conto)
- Serotonina (7x)
- Submissão
- The Dangerous Dimension (conto)
- A Loja do Desejo Agridoce (conto)
- Os Engonços da Quionga (conto)
- À Beira da Eternidade (7x)
- We Are the Ants
- Admirável Mundo Novo (8x)
- Não me Abandone Jamais
- Contos Clássicos de Terror
- A Quinta Estação
- O Céu de Pedra (3x)
- O Portão do Obelisco
- Farewell Horizontal
- The Edge of Human
- Illuminae
- O Legado (6x)
- Os Eternos
- Quando as Estrelas Caem (3x)
- Lords of the Sith
- Flores Para Algernon / Flowers for Algernon (11x)
- Interestelar
- A Dança da Morte
- As Terras Devastadas
- Buick 8 / Buick 8 - Um Carro Perverso (2x)
- Cell - A Chamada da Morte / Celular (4x)
- Novembro de 1963 (3x)
- O Bazar dos Sonhos Ruins (2x)
- O Concorrente (3x)
- O Instituto (22x)
- Os Justiceiros
- Os Olhos do Dragão
- Sob a Redoma (2x)
- Belas Adormecidas
- A Ascensão do Governador
- A Queda do Governador
- A Queda do Governador, vol. 1
- Aftershocks
- Contágio (2x)
- The Calculating Stars (2x)
- O Preço das Laranjas (conto)
- A Balada do Black Tom (5x)
- Justiça Ancilar
- Exo
- Solaris (3x)
- Muitas Águas
- Um Tempo Aceitável (5x)
- Uma Dobra no Tempo
- Canção de Ninar Venusiana
- Além do Planeta Silencioso (6x)
- Aquela Fortaleza Medonha (2x)
- Perelandra (4x)
- O Ano da Graça (2x)
- Nenhuma Máquina Seria Capaz Disso (conto)
- The Three-Body Problem
- A Ira dos Justos
- Os Dias Escuros
- A Cor que Caiu do Céu
- A Sombra Vinda do Tempo
- Azathoth (conto)
- Beyond the Wall of Sleep (conto)
- Celephaïs (conto)
- Medo Clássico
- Medo Clássico, vol. 1
- Nas Montanhas da Loucura
- Nas Montanhas da Loucura e Outras Histórias de Terror
- O Chamado de Cthulhu
- O Chamado de Cthulhu e Outras Histórias
- O Depoimento de Randolph Carter (conto)
- O Despertar de Cthulhu (5x)
- Os Contos Mais Arrepiantes de Howard Philips Lovecraft (3x)
- A Escolhida
- O Doador de Memórias (2x)
- A Estrela da Meia Noite
- Criaturas da Noite
- Jovens de Elite
- Legend (2x)
- O Jogo do Coringa (4x)
- Warcross
- Tudo o que Deixamos Para Trás
- Ladra de Almas (7x)
- O Corpo Dela e Outras Farras (3x)
- Defy Me
- Estilhaça-me / Shatter Me / Intocável (5x)
- Ignite Me
- Liberta-me / Unravel Me (2x)
- Restaura-me
- Reveal Me
- Shadow Me (conto)
- A Ilusão do Tempo (2x)
- Lovestar (3x)
- Alarma Galáctico
- Caminhos do Espaço
- Às Cegas / Caixa de Pássaros (17x)
- Bobby Bate à Porta (conto)
- Inspeção (12x)
- Dois Mil e Sessenta e Um (conto)
- Estação Onze (2x)
- Amanhã: Quem Tem Medo da Noite
- A Flor de Vidro (conto)
- Nightflyers (14x)
- O Começo (3x)
- Santuário dos Ventos
- Legacy of the Nautilus
- A Sabedoria dos Mortos
- Eu Sou a Lenda (2x)
- Terra da Liberdade
- A Estrada (2x)
- Odyssey
- Máquinas como Eu (13x)
- A Altura Deslumbrante (3x)
- Gather the Daughters
- Cinder (3x)
- Cress (2x)
- Renegades
- Scarlet (2x)
- Winter (4x)
- Iron Council
- Perdido Street Station
- Railsea
- The City & The City / A Cidade & a Cidade (2x)
- The Scar (2x)
- Um Conto de Natal (conto) (2x)
- A Vingança do Astronauta
- Estação nas Estrelas
- Kenobi
- Um Cântico para Leibowitz
- The Forgotten Army
- Brumas do Tempo
- Os Seis Finalistas (2x)
- Tainted
- Utopia (4x)
- Light Years (2x)
- Os 100
- Os Escolhidos
- Revolta
- Carbono Alterado (2x)
- 1Q84 (2x)
- Eight o'Clock in the Morning
- Mundo em Caos (11x)
- Autonomous
- The Malice
- A Mulher do Viajante no Tempo
- Quarta-Feira Submersa
- A Súbita Aparição de Hope Arden
- As Primeiras Quinze Vidas de Henry August
- Binti (2x)
- Home
- Quem Teme a Morte (2x)
- The Night Masquerade
- Sobrevive
- Antes de Vos Deixar
- 1984 (18x)
- Zoo (2x)
- W ou a Memória da Infância
- Sombras do Império
- Contos de Imaginação e Mistério
- Histórias Extraordinárias
- Medo Clássico, v. 2 (2x)
- Esperando os Olimpianos (conto)
- The Anubis Gates
- A Terra Longa
- Blasfémia
- Starters (3x)
- The Prestige
- A Bússola de Ouro
- Os Reinos do Norte
- A Revolta de Atlas
- Engenhos Mortíferos / Máquinas Mortais (4x)
- O Ouro do Predador
- Intruso
- Felicidade Para Humanos
- System Shock
- The Deviant Strain
- The Sands of Time
- Wake me After the Apocalypse
- A Resistência Renasce
- Trail of Lightning
- Origem Mortal
- Sedução Mortal
- Sobrevivência Mortal
- Traição Mortal
- Ano Um (7x)
- Nova York 2140
- Red Mars
- A Chave Maldita
- A Ordem Negra
- Amazónia (2x)
- O Labirinto de Ossos (2x)
- O Mapa de Ossos
- Crave a Marca (3x)
- Destinos Divididos (5x)
- Divergente
- We Can Be Mended (conto)
- The Beetle Horde
- Em Tempos Havia os Bois... (conto)
- As Escalas da Injustiça
- Nerve
- Contato (2x)
- O Pequeno Príncipe / O Principezinho (3x)
- História Verdadeira
- Calamidade (3x)
- Coração de Aço (2x)
- Skyward (8x)
- Tormenta de Fogo
- 2084
- Brilhantes
- Guerracivilância em Mau Declínio
- Flashforward (2x)
- Mindscan
- A Reação Adversa do Caos
- A Última Colônia (8x)
- As Brigadas Fantasma (3x)
- Encarcerados (3x)
- Guerra do Velho (6x)
- The Consuming Fire
- A Abóbada Energética
- Missão Stardust
- Troopers da Morte
- Vilão (3x)
- Amor & Cia (conto)
- A Serpente do Velho Nilo (conto)
- Between the Strokes of Night
- Sight of Proteus
- Frankenstein / Frankenstein, ou o Prometeu Moderno (9x)
- A Nuvem (5x)
- Desintegrados
- Fragmentados
- Scythe / O Ceifador (3x)
- Seca (10x)
- Moscas (conto)
- Nascer do Sol em Mercúrio (conto)
- O Homem que Jamais Esquecia (conto)
- O Sexto Palácio (conto)
- Os Desajustados (conto)
- Outros Tempos, Outros Mundos (2x)
- Mundos Sem Fim
- Solitária
- A Lente de Marbury
- Selva de Gafanhotos
- Arkwright
- Tempo Fechado
- O Médico e o Monstro / O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde (6x)
- O Médico e o Monstro e Outros Experimentos
- Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde and Other Stories
- Certamente, Talvez
- Piquenique na Estrada / Stalker (2x)
- Ontem Foi Segunda-Feira (conto)
- As Viagens de Gulliver
- A. K. A.
- Battle Royale (2x)
- Children of Time
- Todos os Nossos Ontens
- O Homem que Caiu na Terra (2x)
- Renda Limitada (conto)
- Debaixo de Cerco
- Rebelde
- Android Karenina
- Minha Mulher (conto)
- Space Opera
- Planeta Duplo
- Aniquilação (3x)
- Assimilação de Tian Shan-Góbi (conto)
- The Big Book of Science Fiction (5x)
- Através do Vazio (11x)
- A Volta ao Mundo em 80 Dias (4x)
- À Volta da Lua
- Twenty Thousand Leagues Under the Sea / Vinte Mil Léguas Submarinas (3x)
- Viagem ao Centro da Terra
- Dezasseis (2x)
- Black Destroyer (conto)
- As Sereias de Titã (3x)
- Cama de Gato (3x)
- Matadouro 5 / Matadouro Cinco (16x)
- O Último Contato
- Viajantes do Tempo
- The Mammoth Book of Steampunk
- Luta Contra o Tempo
- O Caos (2x)
- Tempo Real (conto)
- Blindsight
- Openness (conto)
- Artemis (11x)
- O Marciano
- Nova Era
- A Guerra dos Mundos / Guerra dos Mundos (5x)
- A Ilha do Doutor Moreau (3x)
- A Máquina do Tempo (5x)
- O Homem Invisível / The Invisible Man (3x)
- O País dos Cegos e Outras Histórias
- Um Sonho do Armagedão (conto)
- Fluency
- All Systems Red
- Impostores (7x)
- Leviatã
- A Sombria Queda de Elizabeth Frankenstein (2x)
- A Estrada Subterrânea (3x)
- Iridescência (conto)
- Interferências (2x)
- Muito Barulho por Nada (conto)
- Golden State
- Marciana Idiota (conto)
- Ascensão da Força Sombria
- Herdeiros do Império
- Thrawn
- Nós (3x)
- Blood and Amber
- Knight of Shadows
- Prince of Chaos
- Sign of Chaos
- Trumps of Doom
- As Horas Vermelhas (4x)
Ao mesmo tempo, é uma gota de água no oceano do que existe. Não só do que existe publicado nas línguas originais — e aqui temos também opiniões sobre material que nunca saiu em português, e provavelmente nunca sairá — mas até do que existe publicado em português, seja do lado de cá, seja do lado de lá do Atlântico. Por cada Douglas Adams com 7 títulos comentados 22 vezes há um número que desconheço de autores que ninguém lê ou, se lê, ninguém comenta. Tal como entre os portugueses. Tal como entre os brasileiros. Nisso, pelo menos, todos os escritores de FC (ou que roçaram no género em alguma parte das suas carreiras) do planeta estão unidos num só protesto.
E sim, Douglas Adams é um dos destaques do ano. Mas não é nem o único nem o maior. O maior destaque tem de caber a Isaac Asimov, que recebeu um total de 68 comentários a 36 títulos (incluindo muitos contos, claro). E houve mais autores a passar os 20 comentários: Margaret Atwood teve 26 (5 títulos), Octavia E. Butler 35 (6 títulos), Philip K. Dick 40 (12 títulos), Ursula K. Le Guin 29 (8 títulos), Stephen King 42 (11 títulos), H. P. Lovecraft não passou os 20 comentários mas alcançou-os (14 títulos), Josh Malerman 30 (3 títulos), John Scalzi 21 (5 títulos), Kurt Vonnegut 22 (3 títulos) e Neal Shusterman chegou apenas a 10 comentários, mas se somarmos os outros 10 que o título que escreveu com o filho Jarrod atinge os 20 (e um total de 5 títulos). Muitos monstros sagrados, um punhado de gente mais nova, muitos autores de FC adulta e poucos de YA, o que contraria algumas ideias feitas muito espalhadas, ainda que a proveniência destes números tenha certamente influência nisso.
Hão de reparar que todos estes autores estão presentes com mais que um título, não tendo havido, em 2019, nenhum daqueles casos em que um autor explode com um livro repentino que toda a gente parece querer ler e sobre o qual parece ter de falar, desaparecendo em seguida sem deixar rasto. Quando acontece algo do género, o total de leituras e comentários não atinge esses números. Mas há alguns autores com mais de 10 comentários a obras únicas, ainda que nem todos sejam novos autores nos mercados lusófonos. Destaca-se George Orwell, com 18 comentários ao romance 1984, outros autores consagrados presentes nesta lista são Anthony Burgess (10 comentários), Daniel Keyes (11 comentários) e Ian McEwan (13 comentários), mas também lá estão Gwenda Bond (14 comentários), Hank Green (13 comentários), Patrick Ness (11 comentários) e S. K. Vaughn (11 comentários).
Se isto continuasse, para o ano teríamos números semelhantes a estes em Saramago. Mas não vai continuar, portanto nunca os teremos. Ou por outra, vai continuar ainda para o post das categorias menores, que vem aí a seguir (quando não sei, que a prioridade é bastante baixa... mas virá), e depois acabou-se. Até lá.
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