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sábado, 3 de janeiro de 2004

Historinhas Ene VII

O sétimo dos desafios do Luís foi pegar no resultado do sexto e esticá-lo até às 100 palavras. Ora, como fiz o sexto numa frase só, também resolvi fazer assim o sétimo:

As palavras mais indesejadas II

As palavras mais indesejadas são aquelas que abrem buracos na boca do estômago como se fossem brocas feitas ondas concêntricas de som e de raiva, ou tristeza, ou desânimo ou qualquer outro sentido que dos sentidos cruzados da vida retira apenas escolhos, ou recifes, postos ali de propósito por quem nos atira à cara as palavras indesejadas para que nós naufraguemos ao chocar com eles, feitos velhos transatlânticos ferrujentos com um encontro marcado com a morte nas profundezas geladas do Atlântico, ou do Pacífico, ou de outro mar qualquer que até pode ser apenas o mar do nosso próprio sangue.


E pronto. Ainda houve mais uns jogos lá pelo Ene Coisas, alguns deles "extremamente elaborados" (lipogramas e coisas do género), mas nesses já não entrei. Acho que alguns limites estimulam a criatividade, mas quando são demasiados inibem-na por completo.

Historinhas Ene VI

O sexto desafio do Luís foi o inverso do quinto: construir um texto intitulado "as palavras mais indesejadas", incluindo esse título no corpo do texto, e com o comprimeiro de 50 palavras. E eu, que gosto de tornar mais difíceis as coisas difíceis, resolvi fazê-lo numa frase só:

As palavras mais indesejadas

As palavras mais indesejadas são aquelas que abrem buracos na boca do estômago como se fossem brocas feitas ondas concêntricas de som e de raiva, ou tristeza, ou qualquer outro sentido que da vida retira escolhos, ou recifes, postos ali de propósito para que nós naufraguemos ao chocar com eles.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2004

Historinhas Ene V

O quinto desafio do Luís foi pegar no resultado do quarto e reduzi-lo a 50 palavras. O meu resultado foi:

As mais belas palavras II

José Castro era um tecnófilo, daqueles que passam a vida à procura dos últimos modelos de todas as coisas. Mas um dia, quando o essencial se lhe esquivou, reparou que a tecnologia se tinha transformado num apêndice inerte. Então, José Castro foi dar um longo passeio à luz da Lua.

Historinhas Ene IV

O quarto desafio proposto pelo Luís foi escrever um texto com o título As Mais Belas Palavras, contendo a mesma expressão, e com um comprimento de 100 palavras exactas. E eu escrevi um mini-conto de FC:

As mais belas palavras

José Castro suava. Tinha nas mãos um blogotech último modelo, flexível, cheio de extras, um autêntico formula um do papel electrónico, o produto dos sonhos de qualquer escritor, que permitia conjugar as facilidades de edição do computador com a versatilidade do papel. Pelo menos era isso que dizia a publicidade, e José Castro nunca tinha tido motivos para duvidar dela, pelo menos desde que a Lei da Honestidade Comercial tinha sido aprovada pelo parlamento. Mas daquela vez...

É que desde que comprara o aparelho só tinha conseguido escrever um título: “As mais belas palavras”. Para além disso havia apenas branco.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2003

Historinhas Ene III

Depois das palavras mais belas teriam necessariamente de chegar as mais indesejadas, escolhidas democraticamente pelos próprios visitantes do Ene Coisas. Quem as escolheu optou pelas palavras: obnubilar, perscrutar, interstício, Cornualha, entrefolhos, morte, solidão, prazer, fugaz e cona. E eu escrevi uma historinha de fantasmas:

Foi nos entrefolhos da cona da morte que encontrei o mais fugaz prazer da minha vida. Morri, naturalmente, na solidão que me obnubila os interstícios da consciência, uma solidão húmida como a das charnecas da Cornualha, onde corvos perscrutam o interior de cadáveres de pele sedosa em busca de alimento. E agora aqui estou, imóvel e lívido, percorrido por frémitos e por bicos de corvos. Agora aqui estou a olhar para vocês com as minhas órbitas vazias.

terça-feira, 30 de dezembro de 2003

Historinhas Ene II

O segundo desafio era construir uma história que contivesse mais dez "palavras mais belas", desta vez sempre iguais e escolhidas pelo Luís. Eram elas: "besouro", "sussurro", "silêncio", "noite", "espinho", "alma", "muro", "ziguezague", "serpentear" e "nada". E eu, como achei o desafio pequeno, resolvi usá-las por ordem. O resultado é a minha historinha de que mais gosto:

Um besouro esvoaça num sussurro de segredos, rompendo com cuidado o silêncio da noite. Quando o mocho acorda, o besouro pousa num espinho de um velho cacto carcomido, rodeando a sua alma assustada de um muro de sossego. Passa uma aragem, em ziguezague, e o besouro aproveita para levantar voo de novo, serpentear pelo ar fora, para longe dos olhos do mocho, que o seguem. Que o fitam. Que não largam o fio que prenderam nas suas asas de besouro enquanto o mocho por sua vez bate as asas de penas de seda. O besouro ainda tem tempo para assustar-se quando vê que aqueles olhos gigantescos se aproximam como duas luas feitas míssil. Mas depois, não tem tempo para mais nada.

Historinhas Ene I

Em Outubro, o Luís Ene andou a brincar com os seus visitantes, apresentando-lhes uma série de desafios literários que eles (isto é, nós) teriam de ultrapassar para chegarem ao prémio: milhares de euros em barras de satisfação pessoal. Eu por lá andava de vez em quando, e resolvi quase sem dar por isso meter mãos ao teclado. Umas historinhas saíram melhores que outras, como é natural, mas ainda saíram umas quantas.

A primeira das minhas Historinhas Ene tinha como regras a elaboração de um texto que incluísse todas as dez "palavras mais belas" que tínhamos escolhido uns posts antes. Cada um de nós usaria as suas, e as que me tinham vindo parar aos dedos tinham sido: "recordação", "Cláudia", "circunferência", "miosótis", "esfinge", "formaldeído", "organelo", "literatura", "sílaba" e, violando as regras com motivo, "amanhã serão outras".

E o que escrevi, foi:

A recordação da Cláudia deita-se na minha memória, rodeando-a com uma circunferência de miosótis. Olha-me com o seu rosto de esfinge, imóvel, como se fixado em formaldeído. A recordação da Cláudia constrói-se na minha memória organelo a organelo, como se a memória fosse uma fábrica de biologias. Mas não é, porque em vez da Cláudia em forma de gente, dela nasce apenas literatura, sílaba a sílaba.

O que me entristece é que se hoje as recordações da Cláudia são suaves e sorriem, amanhã serão outras bem diferentes...