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quarta-feira, 14 de março de 2018

Chico-espertismo com ebooks

Há alguns anos, ganhei o hábito de googlar o meu nome uma ou duas vezes por ano. Os resultados trazem-me sempre à memória coisas de cuja existência já não me lembrava e, o que é mais interessante para mim, coisas cuja existência desconhecia por completo. Entre estas, há um subgrupo particular de coisas francamente bizarras.

Hoje, aproveitando uns minutos de sossego, fiz uma dessas pesquisas. E descobri um chico-esperto.

É um chico-esperto brasileiro, chamado Décio Novaes e com base na cidade de Palmas, estado de Tocantins. Isto, claro, partindo do princípio de que nenhuma desta informação é falsa, o que é algo arriscado.


Pois o amiguinho Décio achou boa ideia tentar lucrar fraudulentamente com obra alheia. Como? Pondo à venda (este link tenderá a desaparecer... mas aqui fica a prova em print screen) por 9 reais (pouco mais de 2€) um ebook do meu conto de ficção científica/horror O Telepata Experiente no Reino do Impensável, publicado no e-nigma há mais de dez anos. Sem autorização nenhuma, obviamente. Mas a questão nem é essa: a venda de artigos em segunda mão segue regras muito próprias e, embora seja muito duvidoso que um ebook se possa enquadrar aí, a questão é suficientemente nebulosa para dar a este tipo de vigaristas alguma margem de manobra.

A questão é que este indivíduo está a tentar defraudar os seus putativos clientes porque o conto está disponível, gratuitamente, como sempre, no site onde foi publicado, tanto em HTML como em PDF. É só irem lá e lerem ou fazerem download. Livremente. Poupam dinheiro e, ao contrário do que é hábito, é o acesso gratuito que é legal.

Quanto ao site onde isto está a decorrer, o Mercado Livre, dificulta de tal forma a denúncia de situações destas (eu inscrevo-me no programa de proteção à propriedade intelectual é o caraças... era o que faltava ter de me associar ao site antes de poder denunciar um negócio fraudulento) que só pode ter o nome de cúmplice. Afinal, ganha dinheiro com cada transação, seja ela legal ou fraudulenta, portanto quanto mais porcarias destas houver, melhor. Não é, amiguinhos?

Sic transit gloria interneti.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O cinismo cansa-me

foto: RTP
Sim, vou falar do Diogo Piçarra.

Começo por dizer que não sou fã. Não tenho o Diogo Piçarra em grande consideração artística, pelos mesmos motivos por que não tenho em grande consideração artística qualquer cantor que dê sinais de pôr características não musicais à frente da música para vender discos (ou, vá, música em streaming) e bilhetes às pitas. Ou aos putos. Se é certo que alguns são realmente grandes músicos, e basta lembrarmo-nos dos Beatles para que isso não ofereça dúvidas a ninguém, não é menos certo que a esmagadora maioria passou fugazmente pela rua da música e nunca mais lá voltou a pôr os pés. Exemplos são tão numerosos que posso apontar para quase toda a pop e ainda ficam de reserva milhares de artistas com mais ou menos aspas.

Ora, o Diogo Piçarra sempre me pareceu encaixar firmemente neste último grupo. Da música que apresenta aos olhos de carneiro mal morto com que a vende nos vídeos, nada me fez admirar grandemente o que faz. Entenda-se: é um modo de ganhar a vida como outro qualquer e melhor que muitos. Nada contra, por princípio. Mas eu gosto de música, e por isso exijo dela mais do que isso.

Mas isto é preâmbulo. O que aqui me traz é a prestação do Diogo no Festival da Canção e o que se seguiu à descoberta de que a canção que apresentou era igual a uma canção adotada pela IURD (não, não é "da IURD", como apareceu por aí; foi composta antes sequer de haver uma IURD) como cântico evangélico.

Quando ouvi a canção fiquei agradavelmente surpreendido. Não com a canção, que tem uma melodia muitíssimo simples e uma progressão de acordes usada em milhares de outras, o que em si mesmo também não tem nada de mal ou errado, é apenas a natureza da música. Não com a canção, mas com a interpretação. Gostei da interpretação do Diogo, o suficiente para a achar das melhores da noite (mas não a melhor) e para o fazer subir um pouco na minha consideração artística.

Depois, vieram as acusações de plágio. E foi aqui que a porca começou a torcer fortemente o rabo.

O Diogo Piçarra explicou que não conhecia a canção pretensamente plagiada. Os cínicos não acreditaram: afinal, se a canção era igual, só podia ter sido copiada! É óbvio! Não é?

Não, não é. Quem saiba alguma coisa sobre música tem obrigação de saber que quanto mais simples é uma melodia mais fácil é que ela reapareça em peças musicais completamente independentes. Especialmente com a quantidade de música que é produzida diariamente e que torna absolutamente impossível seja a quem for conhecê-la toda. Por isso, quem saiba alguma coisa sobre música tem obrigação de no mínimo dos mínimos dar o benefício da dúvida ao Diogo Piçarra. Porque a melodia é simples, e porque é muito provável que ele desconhecesse mesmo a canção preexistente. Muito provável.

(Um parêntesis rápido: embora isto afete mais a música que outras artes, por ter uma matéria-prima mais limitada do que, digamos, a literatura — sete notas têm menos combinações possíveis do que vinte e seis letras — nenhuma atividade criativa está livre da criatividade paralela.)

O que chateia é nada disto deter o bando de cínicos ignorantes, que se ficam pelas aparências sem aprofundarem seja o que for. Parece plágio? É porque é plágio. Assume-se má-fé com a completa irresponsabilidade com que se partilha lixo nas redes sociais sem primeiro verificar a sua veracidade. Na verdade, mais do que má-fé, assume-se crime, porque é isso o que o plágio é; plágio não é criar coisas iguais, é copiar conscientemente coisas feitas por outros. Resultado: o Diogo Piçarra foi enxovalhado com absoluta injustiça por tudo quanto é bicho careta que nunca teve uma ideia original na vida.

(Outro parêntesis rápido: há uma diferença significativa entre um caso de criatividade paralela, ou até entre dois ou três, e uma quantidade suficiente de casos para configurar um padrão de comportamento. Se dou inteiramente o benefício da dúvida ao Diogo Piçarra, já casos como o do Tony Carreira, em que as canções foram várias e a "fonte" foi sempre a mesma, o que é uma total improbabilidade estatística, me merecem as maiores reticências.)

O puto não o merecia. Mesmo não tendo percebido imediatamente o que era óbvio: que não poderia apresentar a canção na final do festival e a sua única saída era retirar-se. Por causa do burburinho, sim, mas acima de tudo porque a canção é igual à outra. Acontece? Acontece. Mas quando se descobre que aconteceu convém perceber rapidamente que a RTP nunca poderia escolher aquela canção para representar o país na eurovisão, por todos os motivos e mais alguns. Não se retirando, não só o enxovalho dos cínicos iria continuar e provavelmente intensificar-se, como o Diogo correria um risco muito real de receber zero pontos do júri, acabando ingloriamente na cauda da tabela ou no máximo no meio, se a legião de pitas que babam com tudo o que faz encolhesse os ombros às acusações e votasse na mesma na sua canção.

Mas o Diogo lá o compreendeu, mesmo tardiamente, e retirou-se. E, retirando-se, bom seria que tudo isto morresse rapidamente. Bom seria que os cínicos percebessem algumas coisas sobre o processo criativo, percebessem que ninguém pode conhecer tudo o que já se fez e que, com o manancial de produção cultural que acontece nos nossos tempos, é inevitável que por vezes criadores diferentes cheguem independentemente aos mesmos resultados, percebessem que a probabilidade de ter sido precisamente isso o que aconteceu aqui é muitíssimo alta. Bom seria que o cinismo fosse menos omnipresente e menos cansativo.

Não tenho grande esperança de que assim seja. Mas é possível que sim. Especialmente se a turba arranjar outra indignação fast-food qualquer para se manter entretida. Por mim, posso dizer que a minha opinião sobre o Diogo Piçarra acabou por melhorar: o respeito que tenho por ele enquanto compositor não se alterou (não era grande, continua a não o ser) mas passei a respeitá-lo mais como intérprete. Se o deixarem crescer musicalmente, creio que tem por onde e, se o fizer, acho que pode vir a dar à música portuguesa as boas coisas que ainda não deu. Mas para isso é preciso que o deixem crescer e que ele o faça.

E quanto a vocês, só posso desejar que se acalmem com as berrarias de plágio por dá cá aquela palha. Só raramente o que vocês julgam que é plágio o é realmente. Pode ser? Estariam a fazer um grande favor à sanidade.

E parabéns a quem chegou até aqui.

domingo, 3 de agosto de 2014

Tuitos da semana

Se me lembrar, vou passar a fazer isto: uma compilação dos tuitos da semana anterior que, ao relê-los, não me parecerem inteiramente parvos ou irrelevantes. Talvez com algumas alterações, para expandir as abreviaturas tuiteiras, explanar melhor uma ideia ou piada ou juntar num só parágrafo vários tuitos sobre o mesmo tema. Se calhar devia chamar a isto "retuitos" em vez de só "tuitos." É caso para pensar. Se me lembrar.

Acham bem?

Então cá vai a compilação da semana que acaba hoje:
Reiterando algo que já disse uma vez — Caros sites que pedem likes ou têm nagscreens antes de mostrar conteúdo: encham-se de varejeiras.
——
O êxito dos oquestrada é para mim um dos grandes mistérios do universo.
——
Uma União Europeia que aceita calmamente isto é uma União Europeia a que eu recuso pertencer.
——
Se isto é verdade (Observador = pé atrás), o papel do Brasil na entrada do Obiang foi perfeitamente vergonhoso. Já agora: que raio interessa que um documento venha escrito em Comic Sans, em Garamond ou em Helvetica?! Que coisa mais parva.
——
Pelos cabelos quando as pessoas dizem "os partidos", referindo-se exclusivamente a coisas feitas por PS e PSD.
——
Continua, Israel. Ainda não convenceste toda a gente de que o melhor é riscar-te do mapa, mas lá chegarás.
——
Não há uma tenda grande o suficiente para cobrir a Madeira? É que circo já existe, só falta mesmo a tenda.
——
Os brasileiros (e em especial as brasileiras) têm uma relação de amor com a palavra "super".
——
Nunca deixarei de me surpreender com a estupidez humana. Nem de me deprimir com ela.
——
A princípio disseram que o cometa da Rosetta era um patinho de borracha. Não é: é uma bota.
——
E lá vamos nós para a nacionalização dos prejuízos e manutenção em mãos privadas de tudo o que dá lucro. Tão bom. E depois "o Estado é mau gestor." Pois.
——
Ideia para um programa de TV: um Shark Tank tuga, com Oliveira e Costa, Ricardo Salgado, Jardim Gonçalves e João Rendeiro. Ia ser tãlindo ver os liberaloides todos a apresentar ideias de negócio aos mestres!
——
Olhem uma lei fixe: "Empresa que tenha de ser nacionalizada só será privatizada depois de dar lucros ao Estado dez vezes superiores ao que custou." Sim, que o que se preparam para fazer ao BES é simplesmente pornográfico.
——
Coisas como o BPN e o BES continuarão a acontecer enquanto o Estado meter dinheiro e deixar as empresas voltar alegremente a mãos privadas. Coisas como o BPN e o BES continuarão a acontecer enquanto não se perceber que empresas demasiado grandes para falir devem ser públicas. E pelos mesmos motivos, os monopólios naturais também devem ser públicos. Sempre. Até porque um Estado financiado por mais-valias é um Estado que precisa de cobrar menos impostos para o mesmo nível de despesa.
——
Para que se perceba bem o que é a banca hoje em dia.
——
Normalmente não leio BD, mas quando leio, ela é brilhante!
——
Diz que o BES vai passar a ter um só acionista — uma empresa cujo capital é, em parte, dinheiro pelo qual o Estado está a pagar juros. Mas não, não é uma nacionalização. Nacionalizações são coisas malignas que só os comunistas fazem. E o Sócrates.

sexta-feira, 14 de março de 2014

No reino do ah, e tal

Hoje irritei-me politicamente. Não é coisa inédita, longe disso — em especial nos últimos tempos — mas hoje foi um pouco mais do que tem vindo a ser triste hábito.

Poderão pensar por esta altura que essa irritação teve algo a ver com o chumbo da coadoção por casais homossexuais. Pensam bem. Mas não foi pelo chumbo em si, mesmo pensando eu, como penso, que só um pulha poderá opor-se a que crianças que existem em famílias que existem possam ter formalmente como pais os únicos pais que conhecem. Que 112 pessoas se tenham vindo agora declarar com toda a clareza pulhas já nem me surpreende nem irrita: era precisamente essa a ideia que eu já tinha sobre a nossa direita (salva-se nela um punhado de pessoas com coluna vertebral, a que aproveitaria para tirar o chapéu se usasse tal coisa), e vindo de gente daquela nada me surpreende. Absolutamente nada.

Não, o que me irritou foi outra coisa.

O que irritou foi deparar logo com as conversas da treta do costume a falar de "os deputados" isto, "os políticos" aquilo, vindas de gente que acha (corretamente) que o resultado da votação foi uma vergonha.

Recordo: o diploma foi votado por 223 deputados, com liberdade de voto basicamente por todo o lado. Houve quem faltasse à votação, a Dama Inconseguida não votou apesar de estar lá devidamente empoleirada no seu varandim, e quatro deputados abstiveram-se. Ou seja: 107 votaram a favor. Todos os do BE, todos os do PCP, todos os dos Verdes, a grande maioria dos do PS e alguns do PSD.

Por isso, por que carga de água me vêm com merdas sobre "os deputados" ou "os políticos"?!

Que deputados? Que políticos?

Se há coisa que votações como esta provam sem deixar qualquer margem para dúvidas é que eles não são todos iguais. Que há diferenças. Que embora haja 112 pulhas, há quase igual número de pessoas que não o são. Que os pulhas estão bem circunscritos numa determinada área política. Por isso que raio tem na cabeça quem me vem, a este propósito, com a conversa estafadíssima do "ah e tal, e os políticos"?!

Há limites, caraças!

A sério? Parem de arranjar desculpas para a forma estúpida como votam ou como deixam para outros as decisões sobre quem eleger para o parlamento. Se os deputados em que votaram ou que deixaram eleger não votam como vocês acham que deviam votar não é porque "ah e tal, os políticos", é porque vocês votam mal.

Se não se sentem representados por aqueles 112 pulhas, a solução é simples: votem nos outros. Eu senti-me representado por aqueles em quem votei. Votaram como eu votaria. Votaram na decência. Votaram na humanidade.

Porque, muito decididamente, não são todos iguais.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Sim, votar nulo ou votar branco é o mesmo que deitar o voto para o lixo

Anda por aí a ser divulgada uma conversa muito estúpida sobre os votos nulos (ou às vezes os votos brancos também, depende das versões) servirem para alterar a representação nos órgãos autárquicos, diminuindo o número de "tachos", ou poderem anular as eleições, e patati e patata.

Confesso que este tipo de boato imbecil me enfurece. E enfurece, principalmente, porque toda a informação necessária para o revelar inteiramente falso está na internet, e é facílima de encontrar.

Basta ir ao site da Comissão Nacional de Eleições. Mais simples ainda: basta procurar no Google por "lei eleitoral autárquica", que rapidamente se vai dar à página onde toda a legislação relevante está disponível a toda a gente. Aí, logo em primeiro lugar, encontra-se um link a dizer LEOAL - Lei Eleitoral dos Órgãos das Autarquias Locais. Este link abre um documento PDF, e toda a informação sobre como a coisa se processa está lá. Mas para quem é demasiado preguiçoso para ir ver por si próprio, eis a papinha toda feita. Eis como se transformam votos em mandatos. Também isto é fácil de encontrar: está na 4ª página de um documento com 54 páginas. Mas pronto: se vocês não sabem fazer buscas simples na internet, tomem lá.

Então, como se diz, é assim:

O método utilizado para apurar mandatos é, como em todas as outras eleições em que existem mandatos a apurar (ou seja: todas menos as do Presidente da República), o de Hondt. E para isso há 4 regras. Ei-las:

a) Apura-se, em separado, o número de votos recebidos por cada lista no círculo eleitoral respetivo;
b) O número de votos apurados por cada lista é dividido, sucessivamente, por 1, 2, 3, 4, 5, etc., sendo os quocientes alinhados pela ordem decrescente da sua grandeza numa série de tantos termos quantos os mandatos que estiverem em causa;
c) Os mandatos pertencem às listas a que correspondem os termos da série estabelecida pela regra anterior, recebendo cada uma das listas tantos mandatos quantos os seus termos na série;
d) No caso de restar um só mandato para distribuir e de os termos seguintes da série serem iguais e de listas diferentes, o mandato cabe à lista que tiver obtido o menor número de votos.

Repararam nos negritos? Ah, pois. O que eles querem dizer é que só os votos expressos em listas contam para alguma coisa. É preciso que eu repita? OK, eu repito: só os votos expressos em listas contam para alguma coisa. Ainda não perceberam? Eu repito de outra forma: votos que não sejam dados a listas, ou seja, os votos brancos e os nulos, não servem rigorosamente para nada. Ri-go-ro-sa-men-te para nada, agora em negrito E em itálico para ver se a coisa finalmente entra.

Eh pá, e divulguem isto, em vez de boatos estúpidos. Aumentem a inteligência e sabedoria do povo, não as diminuam. Parem de espalhar lixo como se fosse informação. Já basta o que basta.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Sobre RSI, caridadezinha e burrice

Estou positivamente farto do Mota Soares e de toda a supinamente imbecil conversa do CDS sobre aquilo a que se costuma chamar Rendimento Mínimo ou, na simpática terminologia da extrema-direita, "subsídio à preguiça". Porquê?

Façamos uma experiência de lógica, sim?

Para princípio de conversa, é falso que quem esteja a receber o RSI seja alguém que não quer trabalhar. É igualmente falso que os recebimentos sejam fraudulentos. Haverá casos de ambas as coisas, sem dúvida, mas a maioria dos casos não é assim, em particular numa altura como a que atravessamos em que o desemprego sobe de forma galopante e há todos os dias novas famílias a cair em situações de carência absoluta, com vontade de trabalhar ou sem ela.

Mas para a nossa experiência de lógica suponhamos que sim. Suponhamos que todos os beneficiários do RSI sejam gente que não quer trabalhar e/ou pessoas que recebem o "subsídio à preguiça" de forma fraudulenta. E perguntemos a nós próprios o seguinte: que fará essa gente se o RSI lhes for cortado?

A resposta não é difícil de encontrar, até porque é o próprio governo a incentivar a alternativa.

Essa gente salta do RSI para a caridadezinha. Passa a frequentar as misericórdias, a comer nas sopas dos pobres, torna-se subitamente muito católica, muito agradecida a nosso senhor. Porque é evidente que para quem não quer trabalhar tanto lhe dá se a comida é entregue pelo Estado ou pela Santa Madre ICAR, e quem engana o Estado não terá o mínimo escrúpulo em enganar o padre ou as beatas da Misericórdia.

Certo?

Só que há aqui um mas. E o mas é que iniciativas como o RSI sempre vieram com regras e fiscalização atrás. Não é um regabofe, um fartar vilanagem. Umas e outras serão insuficientes, porque o são sempre, mas existem. E isso quer dizer que há algum controlo sobre se aquelas pessoas estão realmente a (re)inserir-se na sociedade ou não, se realmente precisam dos apoios ou se se estão simplesmente a aproveitar deles.

E na caridadezinha não há.

Na caridadezinha é o fartar vilanagem.

Recentemente morreu o padre aqui da minha zona. Era um homem bom (há uns quantos), que oferecia refeições aos necessitados, e era o primeiro a admitir que não fazia a mínima ideia se as pessoas que lhe apareciam seriam realmente necessitadas ou não. Nem tinha como saber. A operação que geria não tinha fiscais; era ele e um punhado de voluntários. Se ele não fosse um homem bom (também há uns quantos; eu acho que muito mais numerosos do que os bons, vocês lá saberão o que acham), provavelmente faria o controlo de uma forma simples e pragmática: vais à igreja, mereces, não vais, não mereces. Mas aquele era um homem bom, portanto todos os que lhe iam bater à porta eram servidos.

E a caridadezinha é isto.

Portanto, as mesmas pessoas preguiçosas e fraudulentas que na nossa experiência mental deixam de receber RSIs fiscalizados passam a ir servir-se, com total à-vontade e desfaçatez, à caridadezinha dos homens bons, ou então a submeter-se às regras arbitrárias e motivadas por coisas bem menos nobres do que o apoio a cidadãos caídos em situação de carência da caridadezinha dos homens maus.

Qual dos dois sistemas é o melhor? Caridadezinha ou RSI? Eu não tenho a mais pequena dúvida: o RSI. Mesmo se todos os seus beneficiários forem os canalhas e abusadores de que a extrema-direita tanto gosta de falar. E como nem todos o são, como a maioria não o é, mais ainda. Porque acho peferível que alguns vigaristas se escapem entre as malhas da fiscalização do que não haver fiscalização alguma ou uma fiscalização arbitrária baseada em critérios que nada têm a ver com as reais carências das pessoas.

Porque, em suma, substituir um sistema em que existe uma fiscalização imperfeita por outro em que a fiscalização é coisa nenhuma é, numa palavra, uma burrice.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Limpeza dos últimos pratos

Já agora, e para limpar os pratos todos no que a esta nojeira diz respeito, vou aqui assumir, e fechar de vez, a minha "carreira anónima".

Criei, anonimamente, dois blogues. O Galgo Fedoralgo e o MacJête, ambos com a ambição de serem humorísticos. O primeiro nunca teve leitores, provavelmente por nunca ter tido piada; o segundo teve leitores e, segundo alguns desses leitores, alguma piada. Ambos estão mortos há muitos anos.

Em fóruns em que a regra era usar pseudónimos (cada vez é menos, mas numa dada altura isso era norma), fui semianónimo em alguns. Em todos já não escrevo há anos. E digo semi porque nunca neles me inscrevi com endereços de email que não fossem os mesmos que uso para tudo o resto e, portanto, ainda que os utilizadores normais não soubessem com quem estavam a falar, os administradores sempre souberam. Estão nesse caso o Bad Books Don't Exist, onde tive umas trocas azedas de palavras com o "dono" daquilo, o qual sabia perfeitamente que o "itsfullofstars" era eu, O Cantinho dos Livros, cujo admin revelou, assim que me inscrevi, e com a minha autorização, que eu era o "CantoInferiorEsquerdo", e julgo que também usei um pseudónimo qualquer no SciFreaks, que parece estar extinto (ou pelo menos inacessível de momento) e não me permite ir confirmar. E só. Noutros sítios sou ou Candeias, ou Jorge, ou uma mistura das duas coisas. Quando comento em blogues, por exemplo, é invariavelmente como Jorge, e sempre assim foi, exceto, se bem me lembro, um caso há uma porção de anos em que comentei como Jorge C. num blogue político qualquer para me distinguir de outro Jorge que andava por lá a dizer disparates.

E agora, graças a recentes canalhices provenientes do mesmo sítio de onde elas provém sempre neste deprimente fundown lusitano, só me encontrarão ou no fórum da Saída de Emergência (onde sou "candeias"), ou na minha conta de twitter ou na de facebook, ou no Thousands of Planets ou aqui na Lâmpada, ou então em blogues que me exijam autenticação. Se vir a opção de comentar anonimamente, vou-me embora, quer tenha alguma coisa a dizer, quer não tenha. As coisas chegaram ao ponto em que quem aceita comentários anónimos está a promover a canalhice, a calúnia e o respingar de lama para todos os lados. O mais certo é os anónimos serem eles próprios (na verdade, em certos casos, sei que são). E eu, de certos vigaristas e canalhas só quero uma coisa: distância. Muita.

E se vos disserem, ou de alguma forma sugerirem (certa gentalha é perita na insídia), que algum texto que não obedeça ao que ficou aqui escrito acima é meu, exijam provas. Elas não existirão. E quem o afirmar ou sugerir é um mentiroso e um canalha.

PS de alguns minutos mais tarde: entretanto consegui, por vias travessas, verificar qual o nome que usava no SciFreaks, e não era pseudónimo: era "candeias". Ficam só aqueles dois, portanto.

PPS de algumas horas depois: Esquecimento imperdoável, que no entanto se explica por nada ter a ver com o fundown! Fui também anónimo noutro sítio: no chat que o Markl tinha. Aí era itzemi. Deixei de lá ir mais ou menos na altura em que abri conta no twitter.

domingo, 5 de julho de 2009

E dura, e dura...

E continua a novela dos profissionais vs. amadores, no twitter e agora também aqui nas caixas de comentários, até trazendo à baila definições (parciais, claro) de dicionário. OK, seja. Por uma última vez voltemos ao assunto. E vejamos o que diz um dicionário decente sobre o que é um profissional: o Houaiss.

Como geralmente acontece na língua portuguesa, a palavra profissional tem vários significados, e até é aplicada em duas funções gramaticais. Aqui estão todos os que o Houaiss lista:

adj 2g
1. Relativo a profissão
2. Próprio de uma determinada profissão
3. Responsável e aplicado no cumprimento dos seus deveres de ofício
4. joc. Que dá carácter de profissão a um modo de ser, seja por praticá-lo sistematicamente, seja por auferir lucros dele.

adj 2g s 2g
5. Que ou aquele que exerce por profissão determinada actividade.

No texto em causa, este, interessava-me separar as editoras que são obrigadas a vergar-se aos ditames do mercado porque se não o fizessem não seriam capazes de prover ao sustento dos editores e funcionários daquelas que nem por isso, porque os seus editores mantém outras actividades. O post é absolutamente cristalino quanto ao que entendo por profissional neste contexto (corresponde ao significado 5), mas certas pessoas preferiram partir do princípio de que era o 3, e vá de insulto para baixo.

O que é realmente patético é eu praticamente ter dito nesse mesmo post que achava que editores não profissionais (semi-pro ou amadores) têm mais liberdade para editar bem. Citando:

Como consequência, estas editoras são bem mais livres no que toca ao que editam e ao modo como editam, embora o reverso da medalha seja estarem geralmente em franca desvantagem no momento de negociar direitos. Mas tirando este detalhe, têm muito mais possibilidade de fazer uma edição de gosto, de prazer, do que as profissionais. E têm muito mais liberdade para editarem precisamente o quê e como lhes apetecer.


Isto porque são mais ágeis e estão menos agrilhoadas ao que vende ou não vende, logo não precisam de seguir modas, fazer edição baseada em fama, editar muito e depressa, etc. Se não querem perder dinheiro, podem espaçar edições e esperar que a última se pague antes de se meterem na próxima. Precisamente porque os editores não dependem unicamente do resultado financeiro da editora para manter o pão na mesa. E era só isto. Mas há quem não saiba ler bem o que se escreve, o que não deixa de ser tremendamente irónico se tivermos em conta o meio em causa.

E eis que o João Seixas desce às catacumbas do asco

Com isto caíram todas as máscaras que ainda pudessem existir. Nunca vi ninguém descer tão baixo, nunca vi tamanho arraial de deturpações, mentiras, insultos, e a mais vil das baixarias. O João Seixas revelou-se com absoluta clareza como aquilo que sempre foi.

Ainda bem. Quando o sol brilha sobre as coisas feias deste mundo, os homens sabem finalmente com o que contam.

Ainda pensei se valeria a pena meter as mãos em tal lodo, porque se há coisa certa quando se metem as mãos no lodo é ficar-se com elas sujas. Mas a coisa é demasiado grave para ficar sem resposta. Portanto, mola no nariz, e vamos lá mostrar quem aqui fala verdade e quem mente.

Escreve o Seixas:

É que quer o Jorge, quer o Nuno, parecem pensar que estamos ainda nos primórdios da FC Portuguesa. O Jorge, por exemplo, acredita que a FC Portuguesa nasceu com ele, em 2000, e que desde essa data o devia orbitar, fascinada pela sua capacidade de luminosa condução do género na agreste travessia dos vários desertos que tem enfrentado.


Se o Seixas acha que o Jorge e o Nuno pensam isso, lá com o Seixas. Nada de novo. Mas o exemplo sobre as "crenças do Jorge" chega a ser divertido quando se tem em vista que naquilo que eu realmente escrevi é referida uma quantidade de colecções que já estavam todas mortas ou moribundas em 2000. A honestidade resplandece.

O que o Nuno pensa ele o dirá, se quiser, mas o que eu penso é que se foram cometendo variadíssimos erros ao longo da história da edição de FC em Portugal, erros esses que foram afastando público, que, no entanto, continua a estar lá à espera de quem o saiba ir encontrar. Nenhuma semelhança, como qualquer pessoa com olhos na cara poderá ver, com a bojarda do Seixas. E sim, Seixas, editar colecções antes do seu tempo é um sinal de incompetência, é sinal de que o editor não está sintonizado com o seu público, e que portanto é um mau editor, seja ou não membro de alguma cáfila (de camelos?), seja ou não sinistro. A Contacto é por isso mesmo um excelente exemplo do tipo de erros que afastou os leitores. Posts como este do Seixas são outro exemplo, igualmente excelente na vertente asquerosa da coisa. São precisamente estas coisas que enterram a FC portuguesa. E a culpa dos erros é de quem os comete, certamente não do público leitor.

Mais. Escreve o Seixas:

No meio da sua diatribe, meio contrafeito, ele lá acaba por dar razão àquilo que eu aqui escrevi: o principal problema, assumido ou não, que assola a presente situação da FC Portuguesa é o público leitor. Isso transparece quando afirma, referindo-se aos Editores nacionais, que “nunca lhes entrou na cabeça que públicos leitores diferentes tomam opções diferentes de leitura, e tentaram impingir aquilo que achavam o supra-sumo da modernidade ou dos clássicos, importando padrões alheios que, como deveria ser evidente para qualquer um, não funcionam necessariamente por cá (…)”. Ou seja, o nosso público leitor, pelo menos de há 45 anos para cá (embora pudéssemos alargar isso à data da criação da Colecção Argonauta) não tem padrões de cultura que lhe permitam apreender e apreciar, nem as obras clássicas da FC, nem as mais recentes evoluções do género. Ou, porque o Jorge espalha esta sua asserção indiscriminadamente pelos anos 1980s, 1990s e 2000s, seria de perguntar quando perderam os leitores esses padrões? Ou mesmo, se alguma vez os chegaram a ter?


Admire-se o grau de deturpação que aqui está patente. Eu escrevo que editores incompetentes são incapazes de se aperceber de que públicos diferentes têm necessariamente opções diferentes quando chega a hora de preferir leituras, e que portanto é erro crasso tentar simplesmente macaquear padrões alheios como bom macaquinho de imitação. Aqui o nosso impoluto amigo diz que eu digo que o público português não tem padrões de cultura. Eu falo em padrões diferentes, o tipo diz que falo em ausência de padrões. Palavras para quê? É um artista português, e se calhar até lava os dentes.

E depois tem o desplante de pedir consultadoria grátis. Paguem-me, e eu explico. Se bem que de certos tipos nem a transferência do Cronaldo chegaria, até porque o mais certo seria o cheque vir sem cobertura. E porque de nada valeria. Há gente que é incapaz de acolher uma ideia nova na caixa craniana.

Depois, vem isto:

Certamente, uma editora gerida pelo Jorge Candeias seria um motor imparável na criação de um público leitor de FC em Portugal. Aliás, a actividade do Jorge Candeias nesse campo está cheia de sucessos e bons exemplos. Ele conhece perfeitamente o público leitor, e escreve especificamente para ele. Infelizmente, os seus trabalhos foram recusados por TODAS as editoras nacionais a que foram submetidos; o seu romance on-line, gratuito, teve um afluxo de leitores digno de um best-seller, alcançando quase… duzentos! Tudo isto, observe-se, são dados objectivos e frios, independentes de qualquer consideração sobre o mérito dos trabalhos do Jorge (que, como todos nós, é capaz tanto do melhor como do pior). Mas que impõe mais uma vez a questão: culpa dos Editores que não compreendem o Público Leitor? Culpa do Público Leitor que não compreende o Jorge? Culpa do Jorge que não compreende nada?

É verdade, os meus trabalhos foram recusados por todas as editoras nacionais a que foram submetidos. A contagem completa é a seguinte: O Por Vós lhe Mandarei Embaixadores foi submetido a uma editora: a Presença. E... hm... é só. Além dessa, houve uma única submissão (que não é bem submissão, é mais um sondar de interesse sobre trabalhos que ainda precisariam de ser trabalhados) cuja resposta ainda não chegou. E rejeitei um convite para publicar um livro de contos por achar que não tinha na altura nenhum conjunto suficientemente coerente. Isto quanto a trabalhos grandes, claro. Em contos e afins tive um rejeitado pela Ficções, e sei que estou aí em óptima companhia. E é só, porque as outras antologias foram todas organizadas por convite e não por submissão, e como toda a gente sabe no convite entra-se mais no território da clique do que de qualquer outra coisa. Os dois convites que tive rejeitei-os a ambos, embora por razões diferentes. O livro que publiquei não foi propriamente submetido à edição (foi a concurso), portanto se calhar não conta. E as publicações pagas que tenho lá fora não estão em Portugal. Voltando ao Por vós..., os dados da edição electrónica estão desactualizados. Neste momento, segundo o Google Analytics, o número de visitantes já soma 277. Fizeram 420 visitas e viram quase 700 páginas.

E é esta a verdade, pura e inadulterada por seixices.

Agora vamos à mentira. A mentira é dizer-se que eu "escrevo especificamente para [o público leitor]". Nunca na vida escrevi para o público leitor, e menos ainda quando escrevi o Por vós... Este foi escrito para me divertir a mim, como, aliás, está claramente dito aqui, onde também quem souber ler nas entrelinhas verá que não o considero propriamente o supra-sumo da minha produção literária. Se o Seixas não fosse o exemplo de honestidade que é... mas que digo eu? Se o Seixas não fosse o exemplo de honestidade que é, o inferno estaria coberto por um glaciar. Há hipóteses demasiado absurdas para sequer perder tempo com elas.

Quanto ao resto, sim, tenho feito pela vida. Nos últimos três anos passaram-me pelas mãos quase cinco mil páginas, que me esforcei por traduzir o melhor possível e respeitando escrupulosamente os prazos, e estou a contar só os livros já publicados. Há mais dois por aí a rebentar - mais umas 800 páginas, mais ou menos. Garanto que foi mais fruto dos timings da editora do que de opções próprias - eu teria preferido um ritmo mais brando, especialmente no ano passado. E construí quase sozinho um site bibliográfico com 16500 entradas. Não é nada, diz o tipinho. E depois acaba dizendo uma coisa óbvia:

Quem reclama a falta de publicação de ficção curta nacional, deve divulgá-la e criticá-la (e, já agora, comprá-la) quando esta é publicada.

Isto pretendendo subentender que não é o meu caso, claro. Ora, como sabe qualquer pessoa que tenha lido ainda que um punhado dos tais posts semanais, se há coisa que neles falo é dos contos que vou lendo. Lamento só ter começado a fazê-los depois de ter lido tanto a Sombra Sobre Lisboa, como as Ficções Científicas e Fantásticas, como os Contos de Terror do Homem-Peixe. É pena. Teria tido todo o gosto em esfregá-los na cara do Seixas, até porque felizmente bits não se sujam. Mas o que não falta ali é apreciações a contos e livros nacionais. Quem tiver dúvidas vá lê-los.

Mais palavras para quê? É este tipo que acusa os outros de má-fé. É este exemplo de honradez que acusa os outros de desonestidade.

Nota: post editado para remover o pior dos insultos. Foi estúpido publicar este post de cabeça quente. Os insultos fizeram-me descer ainda mais baixo do que o tipo. Não que não ache que os mereça, e a mais alguns, mas há coisas que fazem perder a razão onde ela existe e esta é uma delas. Por mais razão que eu tenha, ela ficou diminuída com a atitude à carroceiro. Depois de respirar fundo, lamento-a.

Há por aí quem precise duns sais de frutos

Hoje acordei, e deparei com o twitter cheio de mais um chorrilho de insultos vindos de um editor amador que está aparentemente com necessidade de meter no nariz uns saizinhos de frutos para ver se se acalma.

Deitando fora o lixo, que foi muito, e francamente rasca, deixem-me responder a um par de questões com alguma validade. Mas antes, acho que é preciso reiterar uma coisa que, pelos vistos, não ficou suficientemente clara no que escrevi ontem:

Profissional é quem vive do seu trabalho. Nem mais, nem menos do que isso. Não é quem o faz bem (Há maus profissionais, e também há bons amadores. E maus. E péssimos.) Não é quem o faz mediaticamente. Não é quem o faz prestigiosamente. É quem vive dele.

E depois de deitar fora o lixo, fica uma pergunta válida: um escritor que publica pela Lulu é amador ou profissional?

Vamos por partes.

A Lulu é evidentemente uma empresa profissional, em que se misturam as vertentes editora com gráfica. Lida profissionalmente com os clientes e com as queixas que eles têm, o que começa com o mínimo dos mínimos que é não os insultar. E produz livros bem feitos, no contexto da tecnologia utilizada, e consoante aquilo que os clientes lhe fornecem como matéria prima.

Com a Lulu (e com outras empresas de print-on-demand) trabalham empresas e indivíduos. Algumas dessas empresas e indivíduos vivem desse trabalho, embora a esmagadora maioria não o faça. Ou seja, a esmagadora maioria de quem publica pela Lulu não é profissional. Uns serão semi-pro, mas a esmagadora maioria nem isso. São amadores. Mas há profissionais lá metidos no meio.

E é tão simples como isto. Nada a ver com qualidade; tudo a ver com origem do rendimento. Entenda quem tiver capacidade para tal.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Mania de meterem deus onde não é chamado

Conhecem o The Big Picture? Se não conhecem, façam um favor a vós próprios e passem urgentemente a conhecer. Trata-se de um blogue fenomenal que nos apresenta o mundo através do poder da fotografia.

Quem diz o mundo diz também o universo, pois eles não se limitam a este cantinho do todo em que vivemos e raramente hesitam em nos deixarem espreitar os outros. Foi o caso deste conjunto de imagens do Hubble, cuja função é espreitar tudo aquilo que fica fora do nosso cantinho do todo.

So far so good, lá diriam os paquistaneses. O problema é o teor dos comentários beatos, que raiam o insultuoso. Confrontados com a beleza das imagens, o beatério não tem uma palavra para quem construiu os aparelhos que lhes permitem apreciá-las, não tem um agradecimento a fazer às gerações de cientistas que acumularam o conhecimento que nos permite hoje ter um telescópio em órbita, computadores e internet. Não. Para eles, vidas inteiras de labor humano são irrelevantes. Aquela beleza é fruto de deus, como se as imagens lhes aparecessem à frente do nariz por milagre divino.

Lá tive de deixar um comentário, que traduzo aqui:

A beleza está nos olhos de quem a vê. Nós achamos estas imagens belas porque é esse o resultado do modo como estamos constituídos. E porque as pessoas que enquadraram as imagens e, por vezes, escolheram as cores (sim, algumas destas imagens mostram cores falsas) são... bem... pessoas. Não há qualquer deus nisso: há apenas as nossas mentes a trabalhar como evoluíram para trabalhar. Se tivessem evoluído de outra forma, as imagens aqui exibidas seriam diferentes, e no entanto essas pessoas alteradas fitá-las-iam maravilhadas, tal como nós.
Para terminar, nós podemos ver esta beleza não porque um bando qualquer de ascetas místicos rezou com muita força, mas porque algumas pessoas abandonaram os dogmas e se puseram a sondar a verdadeira natureza das coisas. Chamamos-lhes cientistas, e são eles o motivo de termos um telescópio em órbita, computadores nas nossas casas e a internet que traz as imagens desse telescópio aos nossos computadores. Também nisso não há qualquer deus.
Claro que sei que não serve de muito. O beatério nem sequer se dá conta do insulto implícito em deitar para o lixo todo o trabalho de quem criou as imagens e os meios para as obter e disponibilizar. Lêem isto e só conseguem ver um ateu a dizer que deus não existe, cegos perante as subtilezas daquilo que eu realmente estou a dizer. Mas não importa. Alguém há de entender, e na verdade basta que uma pessoa entenda para já valer a pena.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Se não for muito incómodo

Caros senhores da Webboo... erm... da Wook,

Se não for muito incómodo, gostaria de vos perguntar se será possível arranjarem um tempinho, entres as vossas super-hiperbolaparabolísticas mudanças de visual e as hiper-parabolasuperfantásticas campanhas de marketing, para manterem o site a funcionar durante tempo suficiente para que um cliente, digamos, normal, faça uma encomenda, digamos, normal. Será possível fazerem-nos esse obséquio?

Sim, porque há quem se esteja perfeitamente nas tintas para melhoramentos cosméticos nos sites e para a ínfima probabilidade de arranjar livros à borla, e se interesse por coisas fora de moda como, por exemplo, conseguir ter acesso aos sites e usá-los como se usa qualquer outro.

Até porque há mais livrarias na net. E se não conseguir comprar na Webboo... erm... na Wook, santa paciência, vou comprar a outro lado.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Os pequenos e médios "empresários" que nós temos

Parece que os "pequenos e médios empresários" andam muito chateaditos por causa de um aumento do salário mínimo de 436 para 450 euros por mês, e ameaçam não renovar contratos por causa disso. Para se ver até que ponto chega a canalhice de tal posição, faça-se umas contas.

Um trabalhador que ganhe o salário mínimo depois do aumento passa a custar ao "empresário" (e empresário vai com aspas porque há melhor designação do que essa para esta gentalha) mais 14 euros por mês. 14 reles euros, que ao fim de um ano somam 196, já contando com subsídio de férias e décimo terceiro mês. 196 euros num ano. Tanto dinheiro como aquele que o pequeno e médio "empresário" típico arrecada num dia, ou no máximo em dois.

Que pena que eu tenho deles! Está-se mesmo a ver que o aumento de 14 euros por trabalhador e por mês vai levá-los a todos à falência, não está? Claro que só podem pôr toda a gente na rua. É que não têm mesmo outra hipótese.

Que nojo de gente!...

Edit: Ops... enganei-me num dado de base, o que faz com que todas as contas estejam erradas: o salário mínimo actual não é de 436, mas sim de 426 euros por mês. Ou seja, o aumento seria de 24 euros, ou, ao fim de um ano, 336 euros. Ou 376, contando com os descontos para a segurança social. Sempre é menos insignificante do que parecia à partida. Em vez de um ou dois dias, o pequeno-e-médio-empresário típico tem de esperar três ou quatro para arrecadar esta quantia. Fico na mesma com pena dele.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Ah, sim, e...

... eu cá acrescentaria uma coisa ao adágio. Depois de:

Se queres conhecer alguém passa-lhe poder para as mãos

... diria que:

mas arranja-te de maneira a poderes retirar-lho a toda a pressa, se for preciso.

Coisas certas que me foram ditas ontem

Ontem foram-me ditas algumas coisas muito, muito acertadas. A mais acertada de todas, embora não propriamente original, foi o velho adágio: se queres conhecer alguém passa-lhe poder para as mãos.

Aquilo que se faz com o poder define o carácter (ou a falta dele) de cada um. E isto funciona a todos os níveis: do poder quase supremo de vida e morte para milhões de pessoas que têm os líderes políticos dos países mais fortes do planeta à mesquinhez do poderzinho miudinho de funcionários burocráticos ou de gestores de comunidades virtuais, passando pelo poder daquilo que dá todo o ar de serem bandos de criminosos armados de camiões, que paralisam um país inteiro graças à ameaça de violência (ultrapassando por vezes a simples ameaça) e à intimidação.

A constatação que fica, a triste, a deprimente constatação que se torna inevitável quando olhamos para o que faz a miríade de criaturinhas que se apanha com um bocadinho de poder nas mãos, é que ou esta espécie é composta principalmente por pequenos e grandes canalhas, por pequenos e grandes pulhas, por pequenas e grandes bestas quadradas, ou então estes têm uma especial apetência para procurar situações de poder em que possam "revelar-se" em toda a sua pujança.

Bem que o macaco nu podia já ter sacudido um bocadinho mais de selva de cima das espáduas. Já teve tempo mais que suficiente para isso.

Portugal, Junho de 2008

Somos os maiores! Não há nada nos supermercados!

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Acordo ortográfico - Ah, parece que há um "estudo"

Exibindo mais um pouco do estado catatónico em que mergulhou há décadas parte significativa da nossa intelligenzia, eis que surge um "estudo" que, comparando uma tradução portuguesa de um dos livros do Harry Potter com uma outra tradução, brasileira, do mesmo livro conclui que as diferenças são enormes.

O meu comentário?

Só quem pensa que a tradução é uma actividade automática com uma intervenção mínima do tradutor é que pode levar isto minimamente a sério.

A tradução é uma recriação literária de uma obra numa língua diferente. Pegue-se em duas traduções de dois tradutores diferentes e irão encontrar-se inevitavelmente diferenças significativas, seja qual for a sua nacionalidade. Especialmente quando uma tradução parece ser boa e outra tem ar de ser duvidosa, como neste caso. Qual a que parece ser boa? Verifiquem vocês. Mas a mim parece que é a brasileira.

Este "estudo" é duma irrelevância total. Para o acordo, para a linguística, para tudo... embora, talvez, seja um sintoma do desprezo que a generalidade da edição portuguesa sente pela profissão de tradutor.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Acordo ortográfico - chega de parvoíce, não?

Tenho andado a assistir, entre o impávido, o divertido e o horrorizado, ao monumental manancial de disparate e burrice que esta celeuma sobre o acordo ortográfico desencadeou. Volta e meia, sinto-me tentado a entrar na bagunça, e cinco voltas e um quarto tenho mesmo entrado, quase sempre com textozitos rápidos deixados por aí. Não há tempo para mais, infelizmente. Se houvesse, encheria nas calmas vinte páginas ou mais. Em times new roman, tamanho 12, espaço e meio, como é de praxe. Mas como se vão arranjando 5 minutos de vez em quando para ir deixando por aí umas bocas, já agora deixo de as deixar por aí e passo a deixá-las aqui na Lâmpada, separando muito bem, porque é necessário e não vejo muita gente a fazê-lo, aquilo que é facto daquilo que é opinião.

Começo hoje, com a seguinte opinião:

Meus caros amigos, toda esta discussão é profundamente idiota.

E é idiota por dois motivos. O primeiro, e fundamental, é o facto de que Portugal já ratificou o bendito acordo ortográfico. Fê-lo logo em 1991 e foi, aliás, o único país a fazê-lo dentro dos prazos estipulados. Os outros três países que ratificaram (Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe) só o fizeram mais tarde. Portugal, tal como estes três países, também ratificou o primeiro protocolo modificativo ao acordo, que se limitava a remover os prazos, passando a exigir apenas a ratificação dos países signatários. O que isto significa é que bastará que os países que faltam ratifiquem o acordo e este primeiro protocolo para que Portugal esteja por ele obrigado. Sem ter de fazer nada além do que já fez.

Ou seja: esta discussão é idiota porque é extemporânea. Deveria ter acontecido há quase 20 anos, aquando da ratificação original, não agora.

E é idiota devido à atitude da esmagadora maioria dos opinadores que pipocaram por todo o lado, que não se coíbem de dar opiniões apesar de não terem a mais pequena noção daquilo que o acordo é, de quem assinou ou ratificou e quando, daquilo que muda ou deixa de mudar, etc., etc., etc. Há até quem faça gala de não ter lido o acordo, nem tencionar lê-lo, e ser contra. É-se contra porque "não se está para mudar a forma como se fala" ou porque "não se quer passar a escrever em português do Brasil" ou porque "só o Brasil e Cabo Verde ratificaram e por isso não vale", ou por tantas outras cretinices que têm sido postas em letra de imprensa por este país fora, até por membros destacados da nossa intelligenzia. Da nossa mui deprimente intelligenzia.

Entendamo-nos: há bons motivos para se ser contra o acordo, tal como há bons motivos para se ser a favor. Mas nem uns nem outros dispensam que as pessoas que querem ter e emitir opinião saibam alguma coisa sobre aquilo que opinam. Até porque a informação está aí, disponível, e apesar do acordo estar redigido em gramatiquês não é propriamente física quântica. Quem, apesar disso, insiste em alardear à primeira oportunidade a sua completa ignorância, coloca-se numa posição semelhante à dos criacionistas, que querem discutir biologia sem a mínima noção sobre o funcionamento dos seres vivos ou à daquelas pessoas muito senhoras do seu nariz que não se coíbem de emitir opinião sobre livros (ou géneros literários inteiros) que nunca leram. Estúpido, não? Pois é. Mas tem solução: calem-se por um bocadinho, vão informar-se e depois voltem sabendo finalmente daquilo que falam.

Acabaram-se os 5 minutos de hoje. Continua um destes dias.

domingo, 2 de março de 2008

Os gajos das claques

Os gajos das claques gostam muito de chamar "filhos da puta" uns aos outros.

O que é realmente fantástico é que têm sempre razão!

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Gloopyigle

O título deste post é críptico para quase toda a gente. Quem saiba russo talvez chegue lá sem mais, mas, para os outros, keep on reading.

O Google tem coisas porreiras. Uma dessas coisas é ser dono de uma série de serviços diferentes e fornecer uma integração bastante interessante entre todos esses serviços. Por exemplo:

Sou gestor de alguns grupos no googlegroups. Estou, naturalmente, neles inscrito com o endereço e email do Google, ou seja, com o endereço de gmail. A integração entre os dois serviços é de tal maneira perfeita que as mensagens que os grupos enviam a avisar que há mensagens enviadas para o grupo que foram retidas para moderação por suspeita de spam são colocadas pelo gmail na caixinha do spam!

É ou não é um exemplo de integração absolutamente exemplar? Sim, sim, um exemplo exemplar!