Aquele que já foi em tempos um jornal de referência mas se vai transformando aos poucos em mais um desperdício de celulose, o Público, achou por bem abrir hoje as suas páginas a uma iniciativa contra o acordo ortográfico promovida por intermédio do facebook. O artigo é típico artigo de pasquim: nos antípodas do equilíbrio que o jornalismo a sério exige, só dá voz a uma parte, funcionando não como um artigo informativo mas como uma peça de propaganda. E as coisas que nele se dizem...
Deuses!
Afirmam-se coisas como "os tradutores vão perder trabalho porque os brasileiros são mais baratos", por exemplo. Nem pergunto de que bola de cristal o autoproclamado zé-ninguém (a acreditar no artigo, é ele que afirma que não é ninguém, que é um anónimo) que é entrevistado para fazer aquela peça desencantou tal certeza futurológica. Digo apenas que este tradutor que aqui escreve não está nada preocupado. Porque este tradutor que aqui escreve sabe qual é a diferença entre língua e ortografia, e sabe que não é por alterarem-se algumas regras na forma de se escrever a língua que desaparecem os seus dialetos. Por isso, com exceção de algumas áreas muito particulares e extremamente restritas em que o facto de Portugal e Brasil falarem dialetos diferentes da mesma língua não tem importância, o mais certo é que o AO não tenha absolutamente nenhum impacto sobre o trabalho que os tradutores venham a ter no futuro.
Aliás, dá-me uma grande vontade de rir sempre que vejo este tipo de panicozinhos mais ou menos corporativos. Diz muito sobre as pessoas que são por eles assaltadas que em vez de acharem que uma abertura abre um potencial de crescimento até aí fechado, partam sistematicamente do princípio de que a única consequência possível dessa abertura é serem submersos pela invasão. Diz, nomeadamente, que se acham piores que os outros. Que sabem que não têm qualidade suficiente para competir. Que se veem medíocres, incapazes de apresentar um trabalho com qualidade suficiente para resistir às investidas, sejam elas reais ou imaginárias.
Mas há coisas mais ridículas. O homem afirma que esta alteração ortográfica é "profundíssima", dando a entender que não tem comparação com as anteriores. Para azar dele, a profundidade é contabilizável. O "profundíssimo" dele corresponde a 1,6% das palavras que escrevemos. Em cada 100 palavras, há entre uma e duas que sofrem alterações. Num romance de tamanho razoável, com cem mil palavras, haverá cerca de mil e seiscentas que se alteram. Ou menos ainda, pois as palavras que são alteradas são na sua grande maioria palavras pouco utilizadas. Isso pode, aliás, verificar-se com algum rigor, contando as palavras que mudam em textos escritos com o acordo implementado. Este post, por exemplo. Ele talvez seja demasiado pequeno para obter um resultado estatisticamente válido — para isso convém que os números não sejam pequenos demais — mas pode servir como indicação. Portanto vamos lá: o post tem 779 palavras; O AO altera um total de 11 delas. 1.41%, portanto.
Ui, que profundidade!
E quem saiba alguma coisa sobre como foi a reforma ortográfica de 1911, quem tenha alguma vez lido um texto escrito com a ortografia anterior, parte-se a rir quando vê chamar "profundíssima" a esta. Isto é uma reforma pouco mais que insignificante, mesmo comparando-se à de 1911. E outras línguas há que passaram por alterações ortográficas muito mais "profundíssimas" do que aquela por que a nossa passou em 1911. Mudando, por exemplo, de alfabeto. Isso é um pouco mais profundo do que tirar umas letras não pronunciadas daqui e uns acentos dali, não?
Mas o pior é mesmo que usem a mentira para apelar ao mais rasca sentimento patrioteiro de quem não tem conhecimentos suficientes para saber que é mentira. O pior é mesmo a desonestidade sistemática de que os mais histéricos anti-AO têm dado bastas provas. E este artigo do Público não é exceção, quando o tal autoproclamado zé-ninguém afirma que o AO afeta "exclusivamente um lado". Isto nem sequer é uma meia verdade: é factualmente falso, uma mentira completa. O AO não afeta exclusivamente um lado; afeta todas as pessoas que se exprimem em português escrito.
Uma oposição minimamente séria ao acordo poderia dizer que o AO afeta três vezes mais a escrita euro-africana do que a escrita brasileira, visto que esta tem 0,5% das palavras alteradas. Claro que quem é favorável ao dito poderia contrapor com a cedência brasileira durante as alterações de 1971-1973, por exemplo, que foi muito maior do que isso. Mas uma oposição que falasse a verdade ao menos seria séria. Esta, que aquele lamentável simulacro de artigo no Público propagandeia, não é séria. É mentirosa. E mais lamentável ainda do que o próprio artigo.
PS (escrito mais tarde e por isso fora das contas acima): Já agora, no facebook há também uma página exclusivamente sobre o acordo ortográfico, aqui, um grupo de gente favorável ao AO, aqui, uma página sobre a língua portuguesa, aqui. Até há uma "causa", pequena, é certo (e quem é que precisa duma causa a defender uma lei aprovada e promulgada? Nem eu aderi a ela.), a favor do acordo ortográfico. Aqui. Mas nada disto interessa ao Público.
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segunda-feira, 1 de março de 2010
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Por outro lado...
Por outro lado, se os valores avançados aqui pelo Miguel Madeira são verdadeiros, o caso muda de figura. As notícias da comunicação social tinham-me levado a crer que a quantidade de grávidas vacinadas era significativa, e não os menos de 10% que ele refere. Julgava que por esta altura andasse pela metade. E, que eu saiba, o número de mortes de fetos referidos pelos media é de 3, não de 4. Mesmo assim, é o dobro do esperado com um nível de vacinação tão baixo. Isso pode querer dizer que há realmente qualquer coisa ali, mas também pode ser simples acaso. Por mais que se publiquem livros a dizer que não há coincidências, elas existem mesmo. E quando os números são muito baixos, e 3 ou 4 são números muito baixos, é praticamente impossível fazer inferências estatísticas com um mínimo aceitável de solidez.
De resto, mesmo que haja algum fogacho a causar este fumo, não se justifica de forma nenhuma o alarmismo que tem sido gerado por certos media. Mesmo se todas as mortes de fetos fossem provocadas pela vacina, que comprovadamente não são, estamos a falar de 3 ou 4 mortes fetais em cinco mil grávidas. Mantendo embora em mente a advertência sobre a nula solidez de inferências estatísticas com números destes, eles parecem indicar que a probabilidade do mesmo acontecer a qualquer grávida vacinada nem a 0,1% chega.
De resto, mesmo que haja algum fogacho a causar este fumo, não se justifica de forma nenhuma o alarmismo que tem sido gerado por certos media. Mesmo se todas as mortes de fetos fossem provocadas pela vacina, que comprovadamente não são, estamos a falar de 3 ou 4 mortes fetais em cinco mil grávidas. Mantendo embora em mente a advertência sobre a nula solidez de inferências estatísticas com números destes, eles parecem indicar que a probabilidade do mesmo acontecer a qualquer grávida vacinada nem a 0,1% chega.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Péssimo jornalismo
Muitas vezes, ao assistir a telejornais ou enquanto lemos jornais, somos confrontados com informações e abordagens à informação que nos parecem duvidosas, mas somos obrigados a ficar na dúvida porque não sabemos o suficiente sobre o tema para decidir com certeza.
Mas noutras vezes basta fazer contas.
É o caso do muito que se tem falado nas últimas semanas sobre uma "relação" entre mortes de fetos e a vacina contra a gripe A que tem sido dada às grávidas. Não raro, sugere-se que é a vacina que causa essas mortes, ou pelo menos lança-se a dúvida. Será? Não será? Não perca as notícias de amanhã para mais pormenores.
Ora isto é péssimo jornalismo.
Péssimo.
Porquê? Porque não se destina a informar, mas sim a vender jornais e anúncios nos intervalos dos telejornais e noticiários radiofónicos. Porque cria uma suspeita sem qualquer razão de ser, disseminando entre as pessoas a incerteza e o medo. Porque é sensacionalista, mesmo nas suas versões mais suaves. E porque basta fazer contas para se ver que o assunto é uma não-notícia.
Fetos morrem durante a gestação. Sempre morreram, e sempre morrerão. É um processo biológico inteiramente normal, e que nunca desaparecerá. Por muito que custe aos pais que não o serão, por muito que possamos solidarizar-nos com a sua dor, há fetos que simplesmente não são viáveis. Há fetos que dão nós no cordão umbilical que interrompem o fornecimento de sangue. Há fetos com doenças genéticas que não permitem um desenvolvimento normal. Há uma série de motivos que desembocam todos num resultado comum: a morte do feto.
Ora, em Portugal sabe-se que esse desfecho acontece a cerca de 300 gravidezes todos os anos. É quase um feto morto por dia. De modo que agora que se está a vacinar primordialmente as grávidas, continua a morrer cerca de um feto por dia, e inevitavelmente alguns morrerão pouco depois da mãe ser vacinada. É evidente, é óbvio, é claro. De tal modo claro que a única notícia que se justifica é relatar este facto e passar à frente.
Mas não. O péssimo jornalismo que vamos tendo tem feito disto tema de notícias atrás de notícias, reportagens, o diabo a quatro.
Depois admiram-se.
Mas noutras vezes basta fazer contas.
É o caso do muito que se tem falado nas últimas semanas sobre uma "relação" entre mortes de fetos e a vacina contra a gripe A que tem sido dada às grávidas. Não raro, sugere-se que é a vacina que causa essas mortes, ou pelo menos lança-se a dúvida. Será? Não será? Não perca as notícias de amanhã para mais pormenores.
Ora isto é péssimo jornalismo.
Péssimo.
Porquê? Porque não se destina a informar, mas sim a vender jornais e anúncios nos intervalos dos telejornais e noticiários radiofónicos. Porque cria uma suspeita sem qualquer razão de ser, disseminando entre as pessoas a incerteza e o medo. Porque é sensacionalista, mesmo nas suas versões mais suaves. E porque basta fazer contas para se ver que o assunto é uma não-notícia.
Fetos morrem durante a gestação. Sempre morreram, e sempre morrerão. É um processo biológico inteiramente normal, e que nunca desaparecerá. Por muito que custe aos pais que não o serão, por muito que possamos solidarizar-nos com a sua dor, há fetos que simplesmente não são viáveis. Há fetos que dão nós no cordão umbilical que interrompem o fornecimento de sangue. Há fetos com doenças genéticas que não permitem um desenvolvimento normal. Há uma série de motivos que desembocam todos num resultado comum: a morte do feto.
Ora, em Portugal sabe-se que esse desfecho acontece a cerca de 300 gravidezes todos os anos. É quase um feto morto por dia. De modo que agora que se está a vacinar primordialmente as grávidas, continua a morrer cerca de um feto por dia, e inevitavelmente alguns morrerão pouco depois da mãe ser vacinada. É evidente, é óbvio, é claro. De tal modo claro que a única notícia que se justifica é relatar este facto e passar à frente.
Mas não. O péssimo jornalismo que vamos tendo tem feito disto tema de notícias atrás de notícias, reportagens, o diabo a quatro.
Depois admiram-se.
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