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domingo, 2 de novembro de 2014

Onde se meteu outubro?

Para onde foi outubro? Ainda agora estava quase a começar e de repente já passou.

Pelo menos é o que parece quando se mede o tempo pelos posts na Lâmpada. Mas na realidade da vida não foi bem assim.

O mês foi passado a descansar, a trabalhar e a fazer política. A descansar porque terminei francamente cansado a tradução de mais um livro, a precisar urgentemente de férias. Fi-las, não daquelas férias das pessoas desocupadas mas umas férias à moda do Jorge, interrompendo por alguns dias as leituras e as escritas e tratando de outras coisas há muito pendentes. A trabalhar porque retomei o bibliowiki, que vinha passando por mais um período de negligência, e porque recebi a próxima tradução, um tijolão de um ror de páginas que houve que ler atentamente, tomando notas mentais sobre os seus desafios e dificuldades. Há um, em especial, que me vai dar água pela barba. Os autores, às vezes, são mesmo maus com os tradutores.

E a fazer política.

Porque tem mesmo de ser. Porque, como disse por outras palavras no texto francamente irritado em que há anos anunciei a decisão de aderir ao Bloco, deixar todas as decisões aos outros, sem participar nelas, é meio caminho andado para o resultado serem decisões más, que nos desagradam. Aderi demasiado tarde para participar ativamente na convenção de há dois anos: um recém-chegado, sem conhecer os meandros, a cultura e as leis internas por que se regem os partidos tem (infelizmente, diga-se) muito poucas oportunidades de participação nas decisões que estes tomam. Portanto limitei-me a assistir a alguns debates, a ler os materiais, a tomar uma decisão e a votar para eleger delegados à convenção. Mas agora, com três anos na bagagem, e vendo que pouco mudou para melhor e muito mudou para pior, apesar da esperança com que o resultado da última convenção me deixou, não pude adiar mais.

Portanto discuti, escrevi coisas, troquei opiniões, falei com gente. Escrevi um longo texto, que aqui está em 3.61 megabytes de PDF e tem esta capa vermelhusca e branca aqui em cima, no qual tentei explicar bem as ideias e opiniões que me parecem mais importantes neste momento sobre o que o BE é e deve ser no futuro próximo, e tomei partido. Para quem não sabe, estão neste momento em discussão 5 moções sobre o futuro do BE e eu decidi apoiar a moção B por ser aquela cujas ideias mais se aproximam das minhas. Apoiar e não só: desta vez sou candidato a delegado à convenção... a ver vamos se serei eleito. É muito possível que seja. Seria mais uma novidade.

(E não, malta, não é um tacho: é só uma viagem, um fim de semana ocupado e com pouco sono e, esperemos, a participação em algumas decisões decentes. Ao contrário do que reza o folclore, política não é só tachos.)

E li mais umas coisas, escrevi outras, troquei mais opiniões, falei com mais gente.

Parte do resultado, entre um artigo de opinião e algumas propostas de alteração aos estatutos, está publicado no boletim DeBatEs nº 2 (outro PDF), um documento impressionante com quase 160 páginas de letra miudinha, que contém 86 textos de opinião, individuais e coletivos, além dos textos das moções e das propostas de alteração de estatutos, e mostra um partido que, apesar de tudo, está bem vivo e cheio de gente com vontade de o ver prosperar e desenvolver-se. É uma das coisas que me dá esperança porque o BE continua a ser, com todos os seus defeitos, a única formação política que realmente nasceu e se desenvolveu com a pluralidade e união da esquerda no código genético.

E como precisamos de uma esquerda minimamente unida neste país!...

E como precisamos de esperança!

É que às vezes parece que isto é uma última oportunidade. Que não haverá mais. Que, se não arregaçarmos as mangas agora, não voltaremos a poder fazê-lo. E não, não me refiro apenas ao BE; refiro-me também, ou talvez principalmente, ao país.

Por isso, arregacei-as. Na medida do que sei e posso.

Cidadania. Parece que é esse o nome que isto tem.

PS - se fores algarvio e inscrito no BE não deixes de votar já no próximo dia 15. Na moção B, claro.

domingo, 10 de agosto de 2014

Tuitos da semana, nº 2

Olha, lembrei-me. Como é domingo, cá estão os tuitos da semana passada, dominados, como talvez fosse inevitável, pelo Espírito Santo. Amém.
— Diga 1 2 3!
— BPN BPP BES.
——
"Com a habitualidade com que estão habituados". Uau. O homem é bom nisto.
Esta é comentário à comunicação do Carlos Costa, o do Banco de Portugal. Ou fui eu que ouvi mal, ou ele disse mesmo isto. E muitos "repito"s. Muitos "repito"s.
——
O fundo não inclui fundos públicos. O fundo contraiu um empréstimo temporário junto do Estado. Mas não são fundos públicos. Mas são.
——
Não sei porquê, mas a palavra que eu ouvi mais o Carlos Costa dizer foi "bullshit". Ele falou em inglês?! Não percebo isto.
——
Já ninguém trabalha neste país. Só se "colabora".
——
O que fariam as "contribuições periódicas" do fundo de resolução se não estivessem enfiadas aí? Financiavam a economia, não era? Pois.
——
Previsões para os próximos dias: amanhã há uma corrida ao "banco bom" para fechar contas. Antes de acabar a semana já há processos.
A primeira previsão cumpriu-se; a segunda não, mas só porque os advogados são uns molengões. Eles estão a tratar disso, mas levam tempo. Ou seja: como eu disse também noutro tuito passados uns dias:
O que vale é que eu não percebo nada disto e voto em malucos que percebem ainda menos.
Não é?
——
Ninguém me tira da cabeça que aquela coisa da Dona Inércia era boca ao Banco de Portugal.
——
Olha, olha. E não é que nem lá fora se acredita na mais recente aldrabice?
——
Coisas que me irritam assim um bocadinhozinho: quando brasileiros arranjam Argonautas que eu não tenho. Humpf. Ainda por cima aquilo tinha sempre escrito algures "venda interdita na República Federativa do Brasil".
——
Coincidências... puras coincidências...
——
"Porque assim se finge que não há nacionalização do banco." Pois.
——
Olha, giro. Parece que fui nomeado para um prémio.
Vou escrever um pouco mais sobre isto um destes dias.
——
Sabem quem não tem papas na língua? Os estrangeiros.
——
Malta que não sabe a diferença entre eminente e iminente: dicionário, tá?
——
O que o Baptista Bastos aqui não diz é que o seu "sistema" tem nome: capitalismo.
——
Não, queridos dedos, fritar não é o mesmo que gritar.
——
Ironias: o momento em que os banqueiros privados passaram anos a dizer como "tem de ser" mas o único banco saudável é o banco público.
——
Islândia: um "case study" sobre as consequências da traição.
——
Isto de dizerem que querem vender depressa o novo banco "para não perder valor" é giro. Estão a dizer que não vale o que pedem por ele.
——
Ah a internet voltou a matar o Jô Soares? Em quantas vezes já vai?
——
De acordo com isto. Mas acho que os partidos devem democratizar-se mais. Todos. Como consegui-lo é a questão.
——
Uma visão interessantre sobre a dimensão ideal do Estado. Não concordo por completo, mas...
——
Que bom que é ter um telemóvel com bateria que dure mais que 5 minutos.
Esta não tuitei, mas podia ter tuitado: no momento em que escrevo isto, o telemóvel que tive de comprar porque o antigo entregou a alminha ao criador está ligado há 80 horas desde o último (e primeiro) carregamento. Oitenta. E tem 42% da carga. Estou devidamente impressionado.
——
E tudo se começa a conjugar para a brilhante solução adotada para o BES vir a ser muitíssimo pior que a do BPN.
——
Não consigo evitar. É mais forte que eu. Sempre que vejo mensagens revolucionárias "enviadas do meu iPhone" parto-me a rir.
——
O Monteiro Lobato tinha uma das mais impressionantes monossobrancelhas que eu vi na vida. Aquilo era um albatroz negro.
Não conhecem? Então fiquem a conhecer.
——
Marques Mendes crítica a demagogia dos partidos da maioria. Um minuto depois faz demagogia sobre a subserviência de "todos os partidos" para com Ricardo Salgado.
"Esqueceu-se" dos alertas que Bloco de Esquerda e PCP (principalmente o primeiro; veja-se aqui) lançaram há montes de tempo, coitado.
——
Quando estou com sono (tipo agora) falo muito bem wookie. Serei só eu?

domingo, 3 de agosto de 2014

Tuitos da semana

Se me lembrar, vou passar a fazer isto: uma compilação dos tuitos da semana anterior que, ao relê-los, não me parecerem inteiramente parvos ou irrelevantes. Talvez com algumas alterações, para expandir as abreviaturas tuiteiras, explanar melhor uma ideia ou piada ou juntar num só parágrafo vários tuitos sobre o mesmo tema. Se calhar devia chamar a isto "retuitos" em vez de só "tuitos." É caso para pensar. Se me lembrar.

Acham bem?

Então cá vai a compilação da semana que acaba hoje:
Reiterando algo que já disse uma vez — Caros sites que pedem likes ou têm nagscreens antes de mostrar conteúdo: encham-se de varejeiras.
——
O êxito dos oquestrada é para mim um dos grandes mistérios do universo.
——
Uma União Europeia que aceita calmamente isto é uma União Europeia a que eu recuso pertencer.
——
Se isto é verdade (Observador = pé atrás), o papel do Brasil na entrada do Obiang foi perfeitamente vergonhoso. Já agora: que raio interessa que um documento venha escrito em Comic Sans, em Garamond ou em Helvetica?! Que coisa mais parva.
——
Pelos cabelos quando as pessoas dizem "os partidos", referindo-se exclusivamente a coisas feitas por PS e PSD.
——
Continua, Israel. Ainda não convenceste toda a gente de que o melhor é riscar-te do mapa, mas lá chegarás.
——
Não há uma tenda grande o suficiente para cobrir a Madeira? É que circo já existe, só falta mesmo a tenda.
——
Os brasileiros (e em especial as brasileiras) têm uma relação de amor com a palavra "super".
——
Nunca deixarei de me surpreender com a estupidez humana. Nem de me deprimir com ela.
——
A princípio disseram que o cometa da Rosetta era um patinho de borracha. Não é: é uma bota.
——
E lá vamos nós para a nacionalização dos prejuízos e manutenção em mãos privadas de tudo o que dá lucro. Tão bom. E depois "o Estado é mau gestor." Pois.
——
Ideia para um programa de TV: um Shark Tank tuga, com Oliveira e Costa, Ricardo Salgado, Jardim Gonçalves e João Rendeiro. Ia ser tãlindo ver os liberaloides todos a apresentar ideias de negócio aos mestres!
——
Olhem uma lei fixe: "Empresa que tenha de ser nacionalizada só será privatizada depois de dar lucros ao Estado dez vezes superiores ao que custou." Sim, que o que se preparam para fazer ao BES é simplesmente pornográfico.
——
Coisas como o BPN e o BES continuarão a acontecer enquanto o Estado meter dinheiro e deixar as empresas voltar alegremente a mãos privadas. Coisas como o BPN e o BES continuarão a acontecer enquanto não se perceber que empresas demasiado grandes para falir devem ser públicas. E pelos mesmos motivos, os monopólios naturais também devem ser públicos. Sempre. Até porque um Estado financiado por mais-valias é um Estado que precisa de cobrar menos impostos para o mesmo nível de despesa.
——
Para que se perceba bem o que é a banca hoje em dia.
——
Normalmente não leio BD, mas quando leio, ela é brilhante!
——
Diz que o BES vai passar a ter um só acionista — uma empresa cujo capital é, em parte, dinheiro pelo qual o Estado está a pagar juros. Mas não, não é uma nacionalização. Nacionalizações são coisas malignas que só os comunistas fazem. E o Sócrates.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Só uma citação rápida

Olá. Ainda aí estão?

Desculpem lá a ausência: tenho andado cheio de trabalho e metido numas confusões que me têm levado todo o tempo que normalmente dedicava a isto de blogar. Mas hoje apetceu-me cá vir, deixar-vos uma citação levemente alterada para a tornar mais genérica. Já percebem porquê. É esta:
Vimos um fenómeno curioso associado a grupos rebeldes que se separam do Império [...] e tentam alcançar a autonomia. Em quase todos os casos, o [Imperador] não precisou de enviar o exército para reconquistar os rebeldes. Quando os seus agentes chegaram os grupos já se tinham derrubado a si mesmos.
Faz-vos lembrar alguma coisa? A mim fez lembrar a esquerda portuguesa. Acho que está aqui escarrapachadinha.

Mas não, o livro não é sobre a esquerda portuguesa. Nem é sobre Portugal. Nem sobre nenhuma região, passada, presente ou futura, do planeta Terra. É o livro que estou a traduzir, um livro de fantasia passado num mundo secundário.

Há muito quem diga que a fantasia, como a ficção científica e as literaturas do imaginário em geral, é escapista. E alguma é, sem dúvida. Mas outra está cheia de sumo e nem é preciso espremer com força para o encontrar. Basta querer encontrá-lo.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Como decidi o meu voto nestas eleições

Os portugueses têm uma relação doentia com a política e muito em especial com os partidos políticos. Não raro, dizem que “não se reveem” nos partidos e que por isso não participam, como se para participar no processo político fosse necessário ter nas lideranças partidárias espelhos de si próprios. Esta atitude é doentia porque é a raiz dos maiores sectarismos. Alguém que por “não se rever” é incapaz de participar do processo político, vendo todos aqueles em que “não se revê” como igualmente maus, igualmente incapazes ou igualmente corruptos, é alguém que não tem capacidade para colaborar e fazer pontes. É alguém que só entra em esforços unitários por vantagens próprias ou para impor a sua agenda aos outros. E é alguém que, no momento em que encontra algum partido em que “se revê”, algum espelho em que se admirar, perde o sentido crítico para com “os seus” e se encerra com eles numa bolha que exclui todos os outros.

Pessoalmente, tenho uma atitude bem diferente e que me parece muito mais saudável. Não sei bem se não me revejo em nenhum partido ou se me revejo em vários, mas o certo é que isso nunca me impediu de participar, quer com o voto, quer de formas mais profundas.

Consoante os assuntos, tanto me sinto mais próximo do PCP como do LIVRE ou do PAN, ou mesmo, em duas ou três questões, do PS. Na vasta maioria das questões, no entanto, a minha proximidade maior é para com o Bloco de Esquerda. Por isso sou eleitor do Bloco desde a sua formação e por isso aderi ao Bloco há alguns anos. No entanto, estar num partido nunca será para mim sinónimo de apoiar esse partido em toda e qualquer situação. Votei no Bloco em quase todas as eleições desde que o Bloco se formou, mas houve um ou dois casos em que votei noutros partidos ou em candidatos diferentes dos que o BE apoiava.

Isso aconteceu e continuará a acontecer quando as questões mais importantes no momento forem algumas em que tenho divergências com a linha escolhida pelo BE, quando não acredito que os candidatos apoiados pelo BE sejam os mais adequados ou até por questões de voto útil, apesar de só muito raramente achar os “votos úteis” realmente úteis. Estar no partido ou fora dele não muda nada a esse respeito. Estar no partido não implica fidelidade canina. Continuo a pensar pela minha cabeça e a ter opiniões próprias. Sou fiel ao Bloco na medida em que essa fidelidade não violentar a minha consciência e estou no Bloco, também, para o puxar um pouco mais para o meu lado das ideias. Não “me revejo” mais no partido estando dentro do que “me revia” estando fora.

E por isso, decido o meu voto eleição a eleição. Quase sempre no Bloco. Ocasionalmente não.

Este ano, vi-me num daqueles momentos em que divirjo da linha do Bloco numa questão muito importante. A questão essencial da nossa vida coletiva no momento atual e no futuro próximo: o que fazer com a Europa. Portanto estive muito, muito indeciso quanto ao que fazer com o meu voto.

Para explicar porquê e como acabei por me decidir, voltemos atrás.

Fui convictamente europeísta. Achava excelente, e na verdade ainda acho, a ideia duma Europa unida e solidária, na medida em que permitia a todos os países europeus ultrapassar a sua relativa pequenez e criar sinergias que propiciassem o desenvolvimento mútuo, afastando ao mesmo tempo o espectro da guerra, que como sabemos está sempre presente na Europa. Notem que a expressão “Europa unida” não está isolada nesta frase, vem em conjunto com a palavra “solidária”. E é aí que temos o grande busílis dos tempos que correm.

Pois o que a crise económica veio revelar é que a Europa está pouco unida e não é nada solidária. Com o rebentar da crise, a primeira coisa que os países do norte fizeram, liderados pela Alemanha, foi massacrar economicamente os do sul para salvar os seus próprios bancos, ainda para mais atirando-lhes para cima com as culpas por uma crise que foi criada, precisamente, por esses bancos. Convém sublinhar sempre este facto histórico, tantas vezes deturpado: quem criou esta crise foi a grande finança internacional, não o “despesismo” dos Estados.

Ora, ao sacrificarem a periferia europeia, atirando-a aos lobos, assassinaram toda e qualquer ideia de união europeia.

E por isso, eu sou hoje claramente eurocético. Porque uma Europa sem solidariedade não é uma união, é um império. E um império só se mantém de pé com prosperidade ou à força; quando aquela desaparece, desagrega-se, a menos que esta o mantenha violentamente unido. E apenas durante algum tempo, pois a violência só gera as condições para mais violência futura e, tarde ou cedo, o processo termina com uma desagregação tanto mais sangrenta quanto mais sangue for derramado para a evitar.

Uma gigantesca Jugoslávia.

Mesmo a prosperidade nem sempre é eficaz. De nada serve uma prosperidade assimétrica, em que o centro vampiriza as periferias para se manter próspero enquanto estas definham. Pelo contrário: isso só serve para apressar a desintegração ou para aumentar a necessidade de uma brutalidade cada vez maior para a evitar. Impérios pacíficos são aqueles em que o fluxo financeiro se faz ao contrário, do centro (que tem vantagens pelo simples facto de ser centro) para as periferias. Assim, talvez um império europeu funcionasse. Mas de qualquer forma não seria a união europeia que nos foi prometida.

Eu não quero nada disto. Sem verdadeira solidariedade, a UE é um cadáver adiado e quanto mais depressa nos desligarmos dele, melhor.

Mas o Bloco não pensa assim.

Durante muito tempo, confesso, não percebi bem o que o Bloco pensa. Sempre compreendi a exigência de renegociar a dívida, que é correta, urgente e cada vez mais consensual não só em Portugal como lá fora, mas a partir daí o discurso oficial deixava-me confuso. Até que entendi. E, ao entender, decidi o meu voto.

A posição do Bloco é suficientemente complexa para não ser fácil de explicar em meia dúzia de slogans de campanha. O que o BE quer é tentar recuperar a solidariedade, tentar devolver a UE ao seu espírito inicial (ou tentar criá-lo, talvez… talvez ele nunca tenha existido, talvez não tenha passado de uma ilusão). Para isso, quer mais Europa em certas coisas e muito menos Europa noutras. Exemplos? Quer muito menos Europa no controlo antidemocrático das finanças nacionais por via de tratados orçamentais e outras coisas que tais mas mais Europa em coisas como o acolhimento a refugiados e a imigrantes ilegais, que na prática significam um alívio da tensão a que estão sujeitas as periferias por onde essas pessoas tentam entrar. A tal solidariedade.

E quer, caso não seja possível convencer os outros de que se exige muito mais solidariedade para conservar a UE como projeto político minimamente viável, preparar Portugal para todos os cenários.

Foi isto que me decidiu. Porque sei que o abandono do euro ou até da UE não é coisa que se faça sem consequências negativas para nós e que por isso só se justifica quando as consequências negativas de não o fazer são maiores, estou disposto a aceitar que se tente revolucionar as regras antes de tomar medidas drásticas. Mas é preciso estar preparado para tomar mesmo as medidas drásticas, se necessário. Porque estou plenamente convencido de que será. E porque se não estivermos preparados para sair mesmo do euro, ou até, numa situação extrema, da própria UE, não teremos nunca força para a duríssima negociação que é preciso fazer. É esta a grande fragilidade da posição dos federalistas de esquerda: ficam sem opções se a resposta que obtiverem às suas exigências, que na base pouco se diferenciam das do resto da esquerda, for um não. Depois do não fazem o quê? Só podem ceder, não têm outra alternativa. O recuo na integração, seja em que aspeto for, não faz parte dos seus planos.

Até porque numa negociação das duras, entre inimigos (e é esse o ponto em que estamos), é sempre melhor começar por exigir o impossível para obter o possível do que abrir logo com concessões.

O PCP faz um pouco isso com a sua posição de abandono do euro. Cheguei, por isso, a pensar dar-lhes o meu voto nestas eleições. O problema é que tenho enormes dúvidas de que os comunistas tenham a flexibilidade necessária para aceitar o possível se este lhes for apresentado. A história mostra que se há algo que não abunda por aqueles lados é a flexibilidade. E o isolacionismo de que o PCP dá continuamente mostras é contraproducente: a negociação que teremos de fazer é dura o suficiente para precisarmos de todas as alianças que conseguirmos encontrar e o PCP nem sequer apoiou o candidato a presidente da Comissão que foi escolhido pelo Grupo da Esquerda Europeia, de que o partido faz parte.

Portanto não, não é uma opção que me sirva.

Vou mesmo votar no Bloco nestas eleições. De pé! É a escolha mais acertada.

sexta-feira, 14 de março de 2014

No reino do ah, e tal

Hoje irritei-me politicamente. Não é coisa inédita, longe disso — em especial nos últimos tempos — mas hoje foi um pouco mais do que tem vindo a ser triste hábito.

Poderão pensar por esta altura que essa irritação teve algo a ver com o chumbo da coadoção por casais homossexuais. Pensam bem. Mas não foi pelo chumbo em si, mesmo pensando eu, como penso, que só um pulha poderá opor-se a que crianças que existem em famílias que existem possam ter formalmente como pais os únicos pais que conhecem. Que 112 pessoas se tenham vindo agora declarar com toda a clareza pulhas já nem me surpreende nem irrita: era precisamente essa a ideia que eu já tinha sobre a nossa direita (salva-se nela um punhado de pessoas com coluna vertebral, a que aproveitaria para tirar o chapéu se usasse tal coisa), e vindo de gente daquela nada me surpreende. Absolutamente nada.

Não, o que me irritou foi outra coisa.

O que irritou foi deparar logo com as conversas da treta do costume a falar de "os deputados" isto, "os políticos" aquilo, vindas de gente que acha (corretamente) que o resultado da votação foi uma vergonha.

Recordo: o diploma foi votado por 223 deputados, com liberdade de voto basicamente por todo o lado. Houve quem faltasse à votação, a Dama Inconseguida não votou apesar de estar lá devidamente empoleirada no seu varandim, e quatro deputados abstiveram-se. Ou seja: 107 votaram a favor. Todos os do BE, todos os do PCP, todos os dos Verdes, a grande maioria dos do PS e alguns do PSD.

Por isso, por que carga de água me vêm com merdas sobre "os deputados" ou "os políticos"?!

Que deputados? Que políticos?

Se há coisa que votações como esta provam sem deixar qualquer margem para dúvidas é que eles não são todos iguais. Que há diferenças. Que embora haja 112 pulhas, há quase igual número de pessoas que não o são. Que os pulhas estão bem circunscritos numa determinada área política. Por isso que raio tem na cabeça quem me vem, a este propósito, com a conversa estafadíssima do "ah e tal, e os políticos"?!

Há limites, caraças!

A sério? Parem de arranjar desculpas para a forma estúpida como votam ou como deixam para outros as decisões sobre quem eleger para o parlamento. Se os deputados em que votaram ou que deixaram eleger não votam como vocês acham que deviam votar não é porque "ah e tal, os políticos", é porque vocês votam mal.

Se não se sentem representados por aqueles 112 pulhas, a solução é simples: votem nos outros. Eu senti-me representado por aqueles em quem votei. Votaram como eu votaria. Votaram na decência. Votaram na humanidade.

Porque, muito decididamente, não são todos iguais.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Fábula política no Letra1

Há dias escrevi um arremedozinho de fábula política, com moral inclusa como é da praxe nas fábulas, para publicação no Letra1. É sobre pássaros, aparentemente. E também sobre raposas. Ou quiçá sobre a doença infantil do esquerdismo: o facciosismo.

Vão lá ler, andem. Se me perguntarem se vale a pena, eu, suspeitíssimo, respondo-lhes que oh, sim.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Falemos então um pouco mais de Portimão.

Então lá foram as eleições autárquicas. Queria e devia ter participado mais da campanha, mas estive aqui preso no chega-não-chega de um trabalho daqueles que têm de estar prontos para anteontem, e que só acabou por chegar mesmo na sexta, precisamente o dia em que a placa gráfica deste meu fiel computador, já algo idoso para um membro da aceleradíssima família informática, achou por bem entregar a alma ao criador chinês.

Foi a primeira avaria que teve, em, quê?, seis anos? Viva a pontaria. Mas adiante. Não é disso que vos quero falar.

Como era previsível, o PS voltou a ganhá-las; afinal, nunca as perdeu. Desde que há democracia, Portimão é um concelho socialista, umas vezes mais solidamente, outras de uma forma mais periclitante. Desta vez, apesar dos escândalos de corrupção e da catástrofe financeira, venceu, mesmo tendo perdido mais de metade dos votos(!). E só venceu, na verdade, porque temos este desastre de governo no país. Fosse outro o governo, fosse outra a situação, e o Partido Socialista teria com toda a certeza perdido esta câmara pela primeira vez na história. Assim, os partidos da direita só conseguiram ganhar cerca de 200 votos dos seis mil perdidos pelo PS. Os outros foram todos para a abstenção. E para os brancos e nulos. E para a esquerda, por uma vez sem exemplo.

Claro que o PS, tendo ganho as eleições, perdeu a maioria absoluta que tinha na câmara. Ficou com 3 vereadores contra 4 das outras forças concorrentes, um para cada. Antes tinha 5, contra 2 do PSD (que desce para 1). O CDS ganha um vereador, julgo que pela primeira vez na história do município, o PCP recupera o vereador que já não tinha há muito tempo, e o BE elege um vereador também pela primeira vez na história.

Na assembleia municipal, o PS, que tinha 12 deputados eleitos, trambolha até 7, a que acrescem (a ambos os números) os três presidentes das três juntas de freguesia. O PSD, que tinha 5, baixa para 4. O CDS, que tinha 1, sobe para 4. O Bloco, que tinha 2, sobe para 3. O PCP, que tinha 1, sobe para 3.

Para que vos estou a dar estes números? Já verão mais à frente.

Ao contrário do que aconteceu no país, em Portimão o Bloco portou-se muito bem. Cumpriu todos os objetivos a que se tinha proposto: contribuir para tirar a maioria absoluta ao PS, contribuir para derrotar as candidaturas de direita e reforçar a presença nos órgãos autárquicos. Foi tudo cumprido. Pela primeira vez, aliás, há eleitos pelo Bloco em todos os órgãos autárquicos do concelho, da vereação camarária às juntas de freguesia. A percentagem de votos duplicou, e a quantidade de votos quase duplicou também: acrescentaram-se cerca de mil aos anteriores mil e quatrocentos.

Para todos os efeitos práticos, um sucesso.

Mas o PS lá voltou a ganhar a câmara. E não teria de ser assim.

Porque houve quase dois mil votos brancos e nulos. Não é difícil concluir que se trata de eleitores descontentes com as candidaturas. Também com as do Bloco e do PCP, sim, mas muito em particular com as do PS e da direita. Se o Bloco tivesse conseguido captar esses eleitores, os resultados teriam sido bastante diferentes. Bastariam os nulos, o menor número dos dois (houve cerca de 800 votos nulos e cerca de 1100 brancos) para o Bloco tirar ao PSD um deputado municipal. Captando os brancos, o Bloco já teria sido a segunda força, não a quarta, embora em termos de eleitos as coisas ficassem como com os nulos. E se tivesse captado os brancos e os nulos, o Bloco tiraria um deputado municipal ao PSD e outro deputado ao PS e ainda um vereador ao PS. Captando o Bloco os brancos e os nulos, o PS ficaria com 2 vereadores, o Bloco com outros 2 e as restantes forças com 1 cada. Captando o Bloco os brancos e os nulos, o PS ficaria com 6 deputados municipais, o Bloco com 5, o CDS com 4, o PSD com 3 e o PCP com 3.

E é por isso que, na prática, exprimir descontentamento através do voto branco ou do voto nulo em vez de votar na oposição só serve para reforçar as forças políticas dominantes. E é por isso que eu tendo a chamar a esses votos a estupidez branca.

Mas não foi essa a única estupidez que impediu uma verdadeira mudança nesta cidade. A outra foi a estupidez sectária da esquerda.

O PCP, pela voz do seu secretário-geral, afirmou durante a campanha que o partido não aceita diluir-se em coligações, o que é no mínimo curioso dado o facto de se apresentar sistematicamente... em coligação. É revelador, tão revelador como ter o PCP sido o único partido de esquerda a ficar de fora da coligação que finalmente derrotou o jardinismo na cidade do Funchal.

O Bloco, por seu lado, decidiu na última convenção uma política autárquica que sempre achei estapafúrdia e a que a realidade acabou por dar resposta adequada, arrasando-a por completo. Que coligações sim, mas só com toda a esquerda. O que o deixou refém das realidades locais (em Portimão, por exemplo, uma coligação de toda a esquerda sempre foi inteiramente impossível, dado ser no PS que se concentram os vícios do poder local; noutros locais, será no PCP) e dos outros partidos, todos eles, estarem dispostos ou não estarem para coligações. Na prática, entre ter esta estratégia autárquica e dizer que o Bloco não se dissolve em coligações, à PCP, a diferença não é praticamente nenhuma.

O resultado foi que a única real vitória que o Bloco conseguiu ter nestas eleições foi no único sítio onde violou a sua própria estratégia autárquica. E que nos outros locais em que concorreu coligado teve de desaparecer, dissolvendo-se não em coligações, mas em movimentos de cidadãos, o que, por mais aspetos positivos que possa ter tido, contribuiu para fazer com que a derrota eleitoral parecesse ainda maior do que na realidade foi.

Estúpido, muito estúpido.

E se não acreditam que isto é estúpido, reparem no seguinte: em Portimão, uma coligação entre BE e PCP teria sido logo a segunda força, a apenas 1100 e 650 votos do PS, consoante se trate de votação para a câmara ou para a AM. Curiosamente, isso não teria tido reflexos diretos no número de eleitos para a câmara e a assembleia municipal, dadas algumas peculiaridades na distribuição de mandatos nestas eleições mas, com resultados um pouco diferentes, esses reflexos surgiriam. Desde logo porque uma candidatura conjunta seria logo à partida vista como uma candidatura com possibilidades reais de discutir a vitória e mudar realmente as coisas. Logo, seria uma candidatura mais capaz de captar votos que foram dados aos brancos e aos nulos, ou perdidos para a abstenção. É que bastaria captar os nulos para haver logo mudanças, não na vereação, mas na assembleia: com os nulos, uma candidatura conjunta teria vencido a AM. E bastaria captar os brancos para vencer ambas as eleições (por 10 votos a da câmara... mas por um voto se vence e se perde, como tantas vezes se diz). E aí as coisas mudariam mesmo, embora a falta de uma maioria absoluta fosse forçar a alguns compromissos.

Mas nada disto aconteceu. Em vez disso desperdiçou-se uma oportunidade talvez única (e se não for única é muito mau sinal, porque significa que a catástrofe financeira continua, que a corrupção continua) de mudar o governo desta cidade.

Reflitamos todos nisto. Nós, os que estamos nos partidos, e vocês, os que não estão, quer votem, quer não votem, quer votem nos partidos, quer votem branco e nulo.

Se queremos mesmo mudar, vamos mesmo ter de mudar.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Vamos então falar de Portimão

Nos últimos meses, os cidadãos de Portimão viram-se confrontados com a presença contínua da sua cidade nas notícias, o que nunca acontece por bons motivos. A lógica mediática que destaca sempre o que é mau, sensacional ou polémico em detrimento de tudo o resto basta para fazer com que se uma terra não sai das parangonas algo de particularmente mau se passa por lá. E as notícias concretas confirmam esta lógica: a um endividamento monstruoso da câmara municipal, que afeta também outras autarquias, veio somar-se a prisão de elementos destacados do executivo autárquico e do PS local, com episódios rocambolescos de fitofagia à mistura, acusados de corrupção num processo que parece envolver o maior sorvedouro de dinheiro que esta cidade já conheceu (uma empresa municipal chamada Portimão Urbis) e um mirabolante projeto de instalar por cá uma delegação de Bollywood.

É tudo demasiado triste. Demasiado deprimente. Mas a verdade é que nada aqui é realmente novo.

É que embora nunca nada se tenha provado, os boatos de corrupção envolvendo os autarcas do PS têm décadas nesta cidade. Foi em boa medida por causa deles, embora a sua legendária ausência de um mínimo de sensibilidade urbanística tenha também dado uma boa ajuda, que Martim Gracias quase perdeu a câmara da última vez que se candidatou (ganhou por 47 votos apenas). Martim Gracias, o arquitonto que dizia que se as pessoas queriam espaços verdes que pintassem as casas de verde (e aqui não há "alegadamentes": o homem disse mesmo esta bojarda), era conhecido na cidade como o "senhor último andar," porque (alegadamente, aqui sim) se deixava alegremente corromper, permitindo aos empreiteiros ultrapassarem em muito os limites de altura dos prédios fixados nos regulamentos em troca dos andares de cobertura. Além de falcatruas sortidas envolvendo terrenos, Portimonense, e etc.

Nas eleições seguintes, o PS, sensatamente, pôs a família Gracias na prateleira e candidatou Nuno Mergulhão, um homem com imagem de honestidade e que, de facto, marcou uma diferença importante na forma de gerir a cidade. Em parte, por ser de outra geração. Em parte, provavelmente, por ser mesmo um homem honesto. Em parte, talvez, por ter morrido num acidente de viação a meio do mandato, nunca chegando verdadeiramente a instalar-se.

Foi substituído por Manuel da Luz, o seu vice. Que, nas eleições seguintes, venceu confortavelmente. E durante algum tempo as coisas pareceram correr bem. A cidade foi revitalizada, apesar das obras e dos projetos que eram sucessivamente anunciados com grandes parangonas mas nunca chegavam a sair do papel (só três exemplos de miragens aparentemente eternas: uma escola de medicina, um complexo desportivo, uma gare de camionagem), e a gestão autárquica pareceu razoavelmente mais limpa, embora nunca tenham deixado de haver histórias sobre terrenos valorizados artificialmente com este anúncio ou aquele, vendas a preços de favor ou de desfavor, adjudicações combinadas, etc. É provável que parte destas histórias seja falsa, pois nunca faltou às pessoas imaginação para ver sombras onde elas não existem, e a verdade é que a maior parte dos cidadãos sempre as considerou falsas, e a câmara bem gerida, tanto assim que continuaram a dar a vitória ao PS. Com a ajuda das festarolas, claro.

Mas agora já não é possível. Agora, depois de toda a festa ter desabado em cima da autarquia com a crise financeira internacional a fazer disparar a dívida para valores impagáveis, muito ajudada pelo regabofe que tem sido a criação e gestão das empresas municipais, com grande destaque para a Portimão Urbis, depois da prisão de Luís Carito, o número 2 da autarquia (de quem se dizia, aliás, que era a verdadeira eminência parda a manusear os cordelinhos que faziam mexer Manuel da Luz, em especial neste último mandato), chefe do PS local e deglutidor de papelinhos comprometedores, e da prisão de outro vereador, tudo o que ficou para trás tem de ser revisto. As histórias, que eram postas de lado como invenções de inimigos políticos, se calhar até tinham base na realidade. Se calhar até havia fogo por baixo de todo aquele fumo. E se calhar é sensato desconfiar de todos os executivos das últimas décadas.

Este ano, o PS candidata Isilda Gomes. Não é uma novata nestas coisas, bem pelo contrário. Vereadora a tempo inteiro durante vários anos, só abandonou a autarquia quando o PS de Sócrates lhe acenou com cargos maiores a nível algarvio. Não há muito tempo, andava aí pelos palcos, lado a lado com Carito, a preparar a sua candidatura. É altamente duvidoso que não soubesse de nada. É altamente duvidoso que a sua lista não esteja contaminada com o polvo corruptor de Portimão. E é altamente duvidoso que represente alguma espécie de rotura com o passado recente, por mais que alegue agora querer "novos rumos". Quem está tão profundamente enredada nos velhos rumos e nas redes de cumplicidade, favores, compadrios, desastre financeiro e, provavelmente, corrupção que esses velhos rumos implicam, não se desenreda assim tão facilmente. Mesmo que queira.

Não, nesta terra o PS não merece o voto de ninguém.

Há mais quatro candidaturas. O CDS disfarça-se de candidatura abrangente, numa coligação com dois micropartidos cuja expressão em Portimão é praticamente igual a zero. Só não esconde a sigla e o símbolo porque a lei não lho permite; caso contrário, tudo o indica, esconderia. Da candidatura do PSD, o cor de laranja desapareceu como que por milagre, substituído por uma mancha verde que quase esconde o símbolo do partido num cantinho.

E compreende-se. É, só pode ser, com embaraço que se defende as cores desses partidos.

Mas, desculpem que vos diga, esse embaraço é mais aparente do que verdadeiro. Alguém imagina que quem aceita candidatar-se por estes partidos, neste momento, num momento em que quer PSD, quer CDS, estão reduzidos a pouco mais que bandos mafiosos determinados a esbulhar o cidadão em prol dos grandes interesses económicos, não concorda com o que tem sido feito? Alguém imagina que o seu objetivo caso sejam eleitos não seja, também aqui, assaltar o que é público para transferir recursos para o que é privado? Alguém julga que não é possível fazer também a nível local o mesmo tipo de roubo? Alguém pensará realmente que não há num município possibilidade de desviar fundos como o governo central tem feito com os milhares de milhões que todos nós temos entregado de mão beijada à banca, ou a esta ou aquela empresa parasítica através das famigeradas parcerias publico-privadas, ou a colégios privados por via do inacreditavelmente estúpido cheque-ensino, que tem prejudicado o sistema educativo de todos os países em que tem sido posto em prática? Alguém?

Alguém é assim tão anjinho?

Não, nesta terra, e em todas as outras, PSD e CDS também não merecem o voto de ninguém.

Em Portimão, restam duas candidaturas, a do PCP e a do BE. São essas as que merecem os vossos votos. Escolham a que preferirem.

(E sim, restam duas candidaturas. Votar branco, votar nulo ou não votar de todo não serve para mudar absolutamente nada. Quem está insatisfeito, quem quer mudança, vota na mudança.)

Cá eu, prefiro a do Bloco. Por vários motivos, mas bastaria a atitude do PCP para com a lei de limitação de mandatos para preferir logo a do Bloco. Sou daqueles patetas que não gostam de caciques, nada a fazer. Dos que acham que a eternização no poder cria condições para gerar estruturas de interesse e dependência que destroem a democracia. E que a lei de limitação de mandatos, que uma lei de limitação de mandatos decente, é um passo para impedir que essas estruturas ganhem raízes demasiado profundas. Não o suficiente, provavelmente, mas um passo. E é também por isso que vou votar BE daqui a semana e meia.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Sim, votar nulo ou votar branco é o mesmo que deitar o voto para o lixo

Anda por aí a ser divulgada uma conversa muito estúpida sobre os votos nulos (ou às vezes os votos brancos também, depende das versões) servirem para alterar a representação nos órgãos autárquicos, diminuindo o número de "tachos", ou poderem anular as eleições, e patati e patata.

Confesso que este tipo de boato imbecil me enfurece. E enfurece, principalmente, porque toda a informação necessária para o revelar inteiramente falso está na internet, e é facílima de encontrar.

Basta ir ao site da Comissão Nacional de Eleições. Mais simples ainda: basta procurar no Google por "lei eleitoral autárquica", que rapidamente se vai dar à página onde toda a legislação relevante está disponível a toda a gente. Aí, logo em primeiro lugar, encontra-se um link a dizer LEOAL - Lei Eleitoral dos Órgãos das Autarquias Locais. Este link abre um documento PDF, e toda a informação sobre como a coisa se processa está lá. Mas para quem é demasiado preguiçoso para ir ver por si próprio, eis a papinha toda feita. Eis como se transformam votos em mandatos. Também isto é fácil de encontrar: está na 4ª página de um documento com 54 páginas. Mas pronto: se vocês não sabem fazer buscas simples na internet, tomem lá.

Então, como se diz, é assim:

O método utilizado para apurar mandatos é, como em todas as outras eleições em que existem mandatos a apurar (ou seja: todas menos as do Presidente da República), o de Hondt. E para isso há 4 regras. Ei-las:

a) Apura-se, em separado, o número de votos recebidos por cada lista no círculo eleitoral respetivo;
b) O número de votos apurados por cada lista é dividido, sucessivamente, por 1, 2, 3, 4, 5, etc., sendo os quocientes alinhados pela ordem decrescente da sua grandeza numa série de tantos termos quantos os mandatos que estiverem em causa;
c) Os mandatos pertencem às listas a que correspondem os termos da série estabelecida pela regra anterior, recebendo cada uma das listas tantos mandatos quantos os seus termos na série;
d) No caso de restar um só mandato para distribuir e de os termos seguintes da série serem iguais e de listas diferentes, o mandato cabe à lista que tiver obtido o menor número de votos.

Repararam nos negritos? Ah, pois. O que eles querem dizer é que só os votos expressos em listas contam para alguma coisa. É preciso que eu repita? OK, eu repito: só os votos expressos em listas contam para alguma coisa. Ainda não perceberam? Eu repito de outra forma: votos que não sejam dados a listas, ou seja, os votos brancos e os nulos, não servem rigorosamente para nada. Ri-go-ro-sa-men-te para nada, agora em negrito E em itálico para ver se a coisa finalmente entra.

Eh pá, e divulguem isto, em vez de boatos estúpidos. Aumentem a inteligência e sabedoria do povo, não as diminuam. Parem de espalhar lixo como se fosse informação. Já basta o que basta.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Ratazanas

É em dias como o de hoje (ou de ontem, se vocês se regem pela arbitrariedade do relógio) que uma série de contos que começam quase todos com «O ministro abriu a boca e dela saíram ratazanas.» faz o mais completo dos sentidos.

sábado, 22 de junho de 2013

Que força é essa?

Às vezes regresso a esta canção. Ultimamente, então, tem sido com grande frequência.

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr´ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força p´ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p´ra pouco dinheiro


Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo


Não me digas que não me compr´endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr´endes


Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo


Sérgio Godinho

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Deixem-me contar-vos uma história sobre greves de professores

Deixem-me contar-vos uma história.

Nos idos de 1989, se não me engano nas datas, eu, depois de uma mal sucedida experiência no estrangeiro, era um jovem a tentar entrar para uma universidade portuguesa. Nessa época havia exames específicos para a admissão na universidade, cujo nome me está agora a escapar, e também havia reivindicações da classe docente.

E greves.

Os meus exames eram em Faro, a mais de 60 km de Portimão. 60 para lá, 60 para cá; 120 km pela famigerada estrada nacional 125, porque ainda não tínhamos direito a uma Via do Infante que ligasse o Barlavento ao Sotavento do Algarve (e agora já deixámos de ter outra vez, mas isso são outros quinhentos).

E os professores fizeram greve às avaliações.

Sucessivas.

Fui a Faro três vezes para fazer o exame. De uma dessas vezes, houve uma revolta semelhante à que houve hoje numa das escolas, e pelos mesmos motivos: havia alguns colegas a fazer exame ao passo que outros de nós não tínhamos como. Era injusto. Inaceitável. Fizemos barulho, invadimos salas, não nos deixámos tratar de forma desigual.

O braço de ferro prolongou-se. O resultado final foi entrarmos na universidade só em janeiro de 1990, não em outubro de 1989 como estava previsto. Esse primeiro ano foi curto e puxado.

Mas depois tudo entrou rapidamente nos eixos. Fizemos os nossos cursos. Uns de nós tiveram sucesso, outros nem por isso, como sempre acontece. Tenho colegas em altos cargos, outros aparecem com alguma regularidade nas televisões a propósito do seu trabalho; de outros perdi o rasto. Alguns são professores e, provavelmente, estão agora a fazer greve. Mas mazelas duradouras devidas à greve? Não houve. A nossa vida académica acabou por ser igual à de todos os outros estudantes.

Portanto, eu sei do que falo quando vos digo o seguinte: tentar apresentar esta greve como uma irresponsabilidade perante o futuro dos estudantes é um embuste. Uma aldrabice. Uma vigarice.

E eu estou sem paciência rigorosamente nenhuma para vigaristas.

Os professores, hoje, têm muito mais razões para fazerem greve do que tinham em 1989. E hoje a greve é, pelo menos para já, muito mais inócua do que foi em 1989. Portanto que a façam, e que a façam em massa. Os estudantes não ficarão prejudicados de forma duradoura. Dentro de semanas, meses, ou no máximo um ano se isto se prolongar, já estarão como estariam sem greve nenhuma. Para eles, tudo será como se não tivesse havido greve, à parte ficarem com a recordação e o espírito de grupo de terem pertencido à geração da greve de 2013.

Eu pertenço à geração da greve de 1989. E dela a única coisa que ficou foi o Blues do Caloiro, cuja letra escrevi e que fui cantar na Prata da Casa da minha primeira Semana Académica com o Orlando e o Pedro. Todos caloiríssimos. E todos orgulhosos de estamos ali e do modo como ali fomos parar.

Aqui fica. Talvez inspire alguém:

Blues do Caloiro

Os profes fizeram greve
e exames não havia
e eu parecia um coiso inchado
queria entrar mas não podia

Mas depois lá fui praxado
fui gozado, maltratado
e c'o pêlo enfarinhado
fui à fonte ser lavado

Finalmente nas Gambelas
vou prás aulas ressonar
e no meio das pielas
faço um esforço pra estudar

Este é o blues dos caloiros
da nossa universidade
nunca houve outros caloiros
com a nossa qualidade

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Porque vou estar amanhã na rua


Em boa verdade, desta vez tinha ótimos motivos para ficar em casa. Tenho andado com um ataque de lumbago que ainda esta semana me obrigou a passar dois dias deitado e, embora já esteja bem melhor, se calhar ainda não devia pôr-me a andar pela cidade, sujeito a todos os frios e ventos que o clima possa decidir atirar-me para cima. E tenho a velhota doente, às voltas com uma infeção pulmonar. E tenho montes de coisas para fazer. E... e... e...

Mas vou estar amanhã na rua.

Porque este é o pior governo que o Portugal democrático já sofreu e urge pôr-lhe fim o quanto antes.

Porque, embora saiba perfeitamente que não serão só manifestações a pôr fim a esta catástrofe, todo o atrito é útil, e às vezes as manifestações até conseguem anular algumas partes da desgraça. Sem manifestações haveria TSU. Sem manifestações ainda teríamos a vergonha nacional de termos de aturar uma criatura como o Relvas como ministro. Sem manifestações, talvez o CDS não estivesse ainda com um pé dentro e outro fora do governo e da coligação.

Porque, ao contrário do que gostariam muitos dos criptofascistas que por aí andam, a democracia não se resume ao momento em que se deposita o voto numa urna, antes inclui todas as formas de participação cívica, que serão tanto mais relevantes quanto mais resultados produzirem e mais gente envolverem.

Porque quero estar em todos os espaços de unidade que possam contribuir para juntar gente de diversas sensibilidades para a ação comum contra inimigos comuns.

Porque se eu não lutar por aquilo em que acredito, ninguém lutará por mim. Aquilo em que eu acredito é aquilo em que eu acredito, não fulano ou beltrano. Esses lutarão por aquilo em que eles acreditam, que pode coincidir em parte com o que me move a mim mas só muito dificilmente coincidirá por inteiro.

Porque se com luta a vitória é incerta — mas possível —, sem luta a derrota é certa.

E, acima de tudo, porque desta vez se trata de uma manifestação europeia. São os povos da Europa que vêm para a rua, juntos, por causa de problemas que também são europeus. Contra uma política imbecil de políticos imbecis que governam não só os respetivos países mas também as instituições europeias. Estamos juntos neste barco e é juntos que temos de tomar-lhe o leme.

Nem que seja apenas para decidirmos seguir cada qual para seu lado.

E é por isto que amanhã estarei na rua. Encontramo-nos lá?

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Ai o que eles foram fazer!

Há, na net portuguesa, um site chamado Letra 1, que teve a infeliz ideia de me convidar para lá escrever umas coisas de vez em quando, julgo eu que sem saber lá muito bem no que se ia meter e que este gajo aqui da Lâmpada tem uns parafusos valentemente desenroscados.

A primeira dessas coisas fala De Empresariado e Parasitismo, e já está à vista de todos o desaparafusamento de quem a escreveu.

Aposto que já por lá estão arrependidos.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Ismos dos tempos que correm

Nos tempos que correm, é assim.

Diz o otimista:
— Isto é capaz de vir a dar merda.

Diz o realista:
— Isto vai dar merda.

Diz o pessimista:
— Isto vai dar muita merda!

Depois há os doidos varridos, três ou quatro, que dizem:
— Isto está tudo a correr bem.

Viva o...


Porque hoje, mais do que nunca, é fundamental recordarmos e, mais ainda, reavivarmos a nossa bela revolução e os valores da liberdade, democracia e justiça social que a moveram e que tão violentamente têm vindo a ser atacados, sinto a obrigação de expressar aqui bem alto o meu intransigente grito de

VIVA O 25 DE ABRIL!

sábado, 2 de março de 2013

Hoje

Hoje houve uma repetição do 15 de setembro. Mas uma repetição, pelo menos no caso de Portimão, em maior, com mais gente, com mais força, e com mais alegria graças à presença dos Homens da Luta na parte final da manifestação. Também com bastante mais frio. Mas foi bom. Foi muito bom. Foi mais um passo num caminho que é longo e difícil.
Alguém um dia disse que o caminho se faz caminhando. E foi isso que fizemos, provavelmente mais de 4 mil pessoas (vi estimativas de 3 mil, vi estimativas de 5 mil, inclino-me mais para as segundas que para as primeiras): caminhámos. E protestámos. E gritámos a nossa revolta contra tanta estupidez, tanto assassínio económico. E grandolámo-los a todos. E enchemo-los de azia.

Para mim, a coisa teve ainda um insólito adicional. Quando cheguei a casa, liguei o computador e tuitei:
De volta a casa. Cansado. Rouco. Com as mãos inchadas e vermelhas de tanto bater palmas. Feliz. Foi a maior manif de sempre em Portimão
Fui algumas vezes retuitado, nada de especial. Mas qual não é o meu espanto quando, ao ver o telejornal da RTP 1, deparo com esta cena:
Reconhecem-nos? É o Alexandre Brito, ali, de pé. E no écran gigante, aquela manchinha cor de pele, sou eu. O Alexandre naquele momento está a dizer o meu nome, ou a começar a ler o tuito; depois a cena muda para um écran completo do twitter e a leitura prossegue. Se quiserem ver o segmento, chama-se Manifestações nas redes sociais. E inclui mais dois tuitos, de outras pessoas, várias fotos e as primeiras reações da imprensa online, nacional e estrangeira.

A manifestação foi histórica. A maior de sempre em Portimão, com provável exceção das primeiras grandes manifestações após o 25 de Abril. Apenas provável porque a essas não assisti. Seguro é ter sido maior que a de 15 de setembro. Seguro é ter sido a maior a que eu assisti, em que estive presente, numa terra sem grande tradição de se manifestar, habituada a ver desfilar meia dúzia de gatos pingados. Em 15 de setembro fomos muito mais que meia dúzia de gatos pingados, e hoje fomos mais ainda. Hoje, voltámos a fazer história.

E o pós-manifestação, para mim, foi divertido, muito divertido.

Venha a próxima! A menos que o governo caia entretanto. Isso é que era o melhor resultado possível.

Amanhã

A Lâmpada, amanhã, fica aqui mesmo no ciberespaço, porque não pode sair dele, coitada. Mas o dono da Lâmpada vai estar na rua.
Venham daí. Não fiquem refastelados no sofá. É que só podemos contar connosco para tirar aqueles azelhas do poleiro.

E além disso, cá em Portimão, temos os Homens da Luta a ajudar.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O dedo na ferida

Façam um grande favor a vós próprios, ó punhado de fiéis leitores que por aí andam, e leiam, leiam pela vossa saudinha, este magnífico artigo do Daniel Oliveira. Mas se não quiserem lê-lo todo, no que incorrem em tremendo erro, permitam-me que destaque aqui um par de passagens que põem o dedo bem dentro da ferida:
[...] a democracia não é um centro comercial, onde se escolhe, à última da hora, o produto que se quer comprar. Aqui o cliente não tem sempre razão. Porque o cidadão não é cliente e as escolhas políticas não são produtos. A democracia é dos cidadãos e é feita pelos cidadãos. Se funciona mal a culpa é nossa. Um povo que realmente se revolta e quer ser consequente com a sua revolta luta por alternativas. O discurso populista contra os "políticos" (como se não fossem eleitos por nós) e o voto inconsequente de mero protesto - como se o protesto pudesse ser resolvido em cinco minutos, numa mesa de voto - resulta de uma infantilização dos cidadãos. Que os próprios cidadãos alimentam para se desresponsabilizarem pelas suas escolhas.

Em vez de se comportarem como donos da sua vida e responsáveis pelas suas escolhas, os italianos fizeram uma birra. Julgará, quem assim se comporta, que assusta o "sistema", o "regime" e os "políticos". Não assusta ninguém. A inconsequência do protesto é a coisa mais fácil de assimilar. Beppe Grillo é um episódio. Daqui a poucos anos, depois da dura passagem pela política lhe retirar a graça e o brilho, será mais uma estória na história política italiana, sempre tão recheada de peripécias. Nem a banca, nem os burocratas, nem a Mafia, nem Bruxelas, nem Berlim, nem os "políticos do sistema" estão preocupados. Não muda nada. E é isso mesmo que o voto de um quarto dos italianos nos diz: estão zangados mas não querem correr o risco de mudar nada. Porque a mudança dá muito mais trabalho e menos vontade de rir do que o voto irrefletido num comediante. Exige ativismo, pensamento, confronto, risco.
Será que desta feita perceberam?