O Universo em que vivemos, diz-nos a física, é composto por duas coisas: energia, nas suas várias formas (incluindo a matéria), e tempo. Diz-nos também a física que quando se junta energia ao tempo obtém-se movimento. E movimento é igual a mudança.
Tudo no universo muda. Umas coisas mais depressa, outras tão lentamente que para as que mudam depressa parecem imutáveis. A velocidade da mudança depende diretamente da energia nela envolvida. Fenómenos de alto gasto energético, como a vida, mudam depressa; fenómenos onde os fluxos energéticos são baixos, como as reações químicas não vulcânicas na litosfera, mudam devagar. É por isso que a vida dos organismos passa num piscar de olhos, e os fósseis que eles geram perduram por aquilo que nos parece ser eternidades. É por isso que a vida é mudança e o fóssil, o esqueleto, a morte, são permanência.
É também por isso que as únicas línguas que não mudam são as mortas. As línguas vivas mudam, e quanto mais vivas são mais depressa mudam. Essa mudança é uma força constante, irresistível como um tsunami. É fútil tentar impedi-la. Na verdade, é pior que fútil: é estúpido.
Perante a mudança linguística há duas atitudes possíveis, as mesmas que existem na relação que vamos tendo com as inundações. Há quem tente erigir muros contra a mudança, construir diques, blindá-los, criar ilhas de imutabilidade, isolar-se das águas que as assolam. E têm sucesso enquanto a cheia é pequena. Mas quando ela é grande, e mais tarde ou mais cedo ela acaba mesmo por ser grande, a falha dos diques, inevitável, torna a catástrofe muitíssimo mais devastadora. Entre outras coisas, foi isso que nos ensinou o Katrina. De modo que a engenharia moderna procura outro caminho. Em vez de erguer barreiras contra as cheias, prefere construir pontos de fuga e escape, por onde a cheia possa seguir sem causar danos de maior às infrastruturas que temos como mais importantes. Em lugar de tentarmos reter as águas da mudança, tentamos dirigi-las, conduzi-las para locais seguros.
São também essas as duas atitudes que podemos ter perante a mudança linguística. Há quem resista a todas as mudanças, procurando criar diques cada vez mais altos, isolando-se em ilhazinhas cada vez mais pequenas de irredutível "pureza" (que nada tem de puro, visto ser fruto de milénios da mesmíssima mudança que eles procuram agora interromper... mas eles julgam que tem). Com isso só conseguirão adiar o inevitável, e ser depois completamente varridos do mapa quando o inevitável finalmente acontecer.
Outros, preferem acompanhar a mudança, tentando dirigi-la, incentivando as partes dela que consideram seguras ou benignas, e erguendo pequenas barreiras contra aquela que julgam poder causar maiores estragos. É o que fazemos nós, os que apoiamos a reforma ortográfica. Apoiamo-la por ser uma daquelas mudanças que, globalmente, dirige a vertente escrita da língua por caminhos que pouco ou nenhum estrago poderão causar no futuro. Porque sem termos de perder tempo a ensinar às criancinhas regras incongruentes e cheias de exceções sobre escrever-se, ou não, certas letras em certas palavras, talvez consigamos usar esse tempo a explicar-lhes que escreverem coisas como "nós faze-mos" é muito, muito mau. Porque se tivermos uma ortografia com alguma coerência, uma ortografia que se ensine depressa e bem, talvez consigamos arranjar espaço nos currículos e nas salas de aula para explicar aos pivôs dos telejornais, anos antes de eles se tornarem pivôs dos telejornais, enquanto ainda estão sentados nos bancos da escola, que dizer coisas como "há vinte anos atrás" é um disparate, pois o "há" já indica, por si só, que estamos a falar do passado. Em suma, porque incentivando a mudança que não estraga poderemos dedicar-nos a combater a mudança que estraga.
Há cem anos (sem "atrás" nenhum, se me fizerem esse grande favor), fez-se uma grande reforma ortográfica na língua portuguesa, tão grande que mete a atual num chinelo de insignificância. Nessa época não faltaram profetas da desgraça a antever o fim do mundo. Pois bem: o mundo ainda cá está, a língua também, houve durante estes cem anos quem a usasse com uma qualidade superlativa, quem nela inovasse sabendo muito bem o que estava a fazer e porquê, quem aproveitasse e adaptasse as melhores das mudanças para com elas fazer arte, ao mesmo tempo que, com essa seleção, combatia as piores. Houve e há grandes poetas e escritores a usar a língua com enorme qualidade, em todos os pontos do mundo em que ela vive, e o número de pessoas que dela se servem quotidianamente multiplicou-se muitas vezes. Há cem anos, não passávamos de alguns milhões os que estávamos expostos a ela todos os dias; hoje, é toda a população do planeta com uma ligação à internet, porque esta nossa língua em eterna mudança é, entre as milhares de línguas da Terra, a quinta mais usada online.
Foi este o "fim do mundo" que aconteceu após 1911. E é parecido com este o "fim do mundo" que podemos esperar desta reforma ortográfica. Um "fim do mundo" feito de crescimento e desenvolvimento, que devíamos todos acolher de braços abertos. Mas há quem não consiga perceber estas coisas. Nada a fazer.
Outros, contudo, percebem. E é com eles, e só com eles, que o futuro conta.
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domingo, 22 de abril de 2012
sábado, 3 de março de 2012
Transignorâncias 4: Alfa, Beta, Et Cetera
E no princípio era o verbo. E do verbo se fez símbolo e do símbolo se fez letra, e desta palavra, e desta fez-se frase, e todos formaram um espelho onde o verbo se reviu. E nunca mais, desde então, andou o verbo sozinho no mundo, passando a trazer sempre consigo o seu reflexo.
Se alguma cultura humana tivesse um mito da criação da linguagem escrita, poderia ser algo assim. Ou se a linguagem escrita tivesse um mito de criação de si própria, o que literariamente seria bem mais interessante.
Mas os mitos de criação são sempre versões idealizadas e simplificadas, mesmo quando ultrapassam a simples invenção e refletem fenómenos reais. Na realidade, as coisas foram bastante mais complicadas do que o mito pode levar a crer.
Nós somos criaturas inerentemente simbólicas. A linguagem (isto é, a linguagem verdadeira, oral) é, em si mesma, uma grande construção simbólica, na qual os sons são símbolos de coisas que os transcendem. Apesar de ser possível que tenham tido origem em representações de sons existentes no ambiente, os sons da linguagem humana há muito se tornaram quase inteiramente abstratos. A exceção são as onomatopeias. Para além delas, a abstração é total. Nada existe na palavra árvore que faça lembrar uma árvore, a não ser o significado que milénios de evolução linguística acabaram por lhe atribuir. Ou seja: a única coisa que liga a palavra ao objeto são umas quantas ligações sinápticas nos cérebros de quem usa essa palavra específica para designar o objeto. Ligações essas que, ainda por cima, não ligam a palavra ao objeto propriamente dito, mas sim à ideia que dele fazemos.
Com a outra grande forma de comunicação humana, a linguagem corporal, as coisas funcionam de forma semelhante, ainda que esta seja mais instintiva e tenha raízes bem mais longínquas na evolução da bicharada que veio desembocar em nós (a língua gestual dos surdos, já agora, sendo como é uma fusão dos mecanismos da linguagem oral com os da corporal, está algures a meio). Mas seja qual for a linguagem de que estivermos a falar, a nossa compreensão do outro passa sempre por uma associação dos símbolos que ele nos envia à ideia que dele fazemos.
Estão a seguir-me? Ainda não foram fazer outra coisa mais interessante? Fico contente. Isto torna-se mais claro a partir daqui, julgo eu.
Pois aconteceu que, a páginas tantas, as criaturas inerentemente simbólicas que somos sentiram a necessidade de fazer registos. Mapas que identificassem onde ficavam certos locais particularmente interessantes para o seu modo de vida, maneiras de contactar os deuses e pedir-lhes sorte na caça, chuva ou aquelas outras coisas necessárias à sobrevivência de grupos de caçadores-recoletores ou dos primeiros agricultores, registos que indicassem quantos objetos do tipo x tinham sido produzidos, apanhados ou transacionados, etc. Nesses primeiros registos havia muita bonecada, mas também já iam aparecendo símbolos mais abstratos, que foram ganhando preponderância, umas vezes por evolução dos bonecos, outras através de invenção pura e simples, até desembocarem nos sistemas de escrita modernos.
Nós, lusófonos, mergulhados como estamos numa cultura cujo sistema de escrita é alfabético, e rodeados e influenciados por outras culturas com sistemas de escrita idênticos ou semelhantes, tendemos a esquecer-nos (ou a nunca termos aprendido) que nem todos os sistemas de escrita o são. Um exemplo: há pouco tempo tive uma discussão sobre o acordo ortográfico no twitter (péssimo sítio para se ter discussões complexas, diga-se de passagem), durante a qual o meu interlocutor me veio com uma pergunta que me deixou abananado pela confusão que revelava quanto à natureza das relações entre língua e escrita na China. Fui levado a regressar a estes temas em boa parte por essa conversa. E também por ter deparado com um graçamoura com demasiado tempo nas mãos, que desperdiça a escrever longos testamentos nos quais revela toda a sua imensa ignorância (nem sequer sabe o que é uma palavra, e não estou a exagerar: o tipo afirma, a pés juntos e sem se rir, que palavras usadas por todo o lado e até dicionarizadas não são palavras. Sim, leram bem. Há quem seja ignorante a este ponto). E por todo o sururu gerado pela nomeação do graçamoura original para o CCB. Mas adiante. Estava eu a dizer que…
A verdade é que há várias formas de se escrever as línguas. Essas formas podem dividir-se, grosso modo, em dois grandes tipos: os sistemas de escrita morfémicos e os sistemas de escrita fonémicos.
Dito assim, na base do palavrão, parece complicado. E é, mas não muito. Eu explico.
Os sistemas de escrita morfémicos são aqueles que se baseiam nos morfemas. Morfemas são uma espécie de átomos do discurso: as mais pequenas partes com significado em que ele se divide. Muitos morfemas são palavras; outros são partes de palavras (os prefixos e sufixos, por exemplo, são morfemas; a palavra prefixo tem dois morfemas: pre e fixo). Ou seja, os morfémicos são sistemas de escrita que refletem não a expressão concreta da língua, mas a sua ideia. Também têm o nome de logográficos e estão, de certa forma, mais próximos de sistemas simbólicos como os sinais de trânsito do que propriamente dos alfabetos. Os caracteres chineses constituem um sistema de escrita logográfico, ainda que não puro. Os hieróglifos egípcios também. Há, ou houve, outros.
A natureza destes sistemas implica duas coisas. Por um lado, que para expressar adequadamente uma língua num desses sistemas são necessários tantos caracteres quantas as unidades de significado que essa língua contém. Ou seja: muitos. Por outro lado, línguas diferentes mas pertencentes à mesma família podem ser escritas da mesma forma, permitindo criar-se, por escrito, um espaço de compreensão mútua que não existe oralmente. Pensem nas línguas latinas, e em especial nas ibéricas, e facilmente compreenderão como a sua lógica interna, as ideias que presidem ao ordenamento das palavras nas frases, e até a constituição das próprias palavras, são praticamente idênticas. Poder-se-ia criar um sistema de escrita logográfico para os filhos do latim que os unisse como se de uma só língua se tratasse… embora isso não os transformasse em tal coisa.
É basicamente o que acontece com o chinês escrito, que unifica sob esta espécie de guarda-chuva logográfico uma série de línguas diferentes mas aparentadas, que coexistem com a língua dominante no país, o mandarim.
Depois, temos os sistemas de escrita fonémicos. Já estão a ver, não estão? O morfema fone é boa pista. Trata-se de sistemas de escrita baseados nos sons produzidos para falar uma determinada língua. Os fonemas. Estes, levando um pouco mais longe a analogia física com que chamei aos morfemas átomos do discurso, são assim como as partículas subatómicas do discurso, os seus protões, neutrões e eletrões, os seus quarks. São sistemas de escrita nos quais os caracteres refletem (embora por vezes de forma algo indireta) os sons que são produzidos para falar uma dada língua. Alfabetos, portanto? Não é assim tão simples.
É que alguns sistemas fonémicos não se baseiam diretamente nos fonemas individuais, mas nas sílabas que eles formam. São os silabários, entre os quais os mais importantes e conhecidos talvez sejam os kana japoneses (hiragana e katakana).
Outros são mistos: existe um carácter por sílaba, mas estes agrupam-se em famílias dominadas pela consoante que domina a sílaba. Exemplificando: se o português fosse escrito com um sistema destes, as palavras sílaba e salada seriam escritas com três caracteres cada, uma vez que cada uma tem três sílabas, mas, em vez de começarem com o mesmo carácter, começariam com caracteres diferentes, mas semelhantes, representando, respetivamente, as sílabas si e sa. Estes sistemas designam-se por alfasilabários, ou abugidas, e os exemplos mais conhecidos deverão ser os alfasilabários brâmicos, com os quais se escrevem muitas das línguas indianas.
Depois ainda há os abjades, sistemas fonémicos nos quais só se escrevem as consoantes, ficando as vogais subentendidas. Os exemplos mais conhecidos deste tipo de sistema são os alfabetos árabe e hebraico, mas há mais, e houve ainda mais em tempos idos.
Por fim, há os alfabetos propriamente ditos, entre os quais este que vocês estão agora a ler é, de longe, o mais comum. Filho do alfabeto grego (tal como o cirílico, o segundo mais usado), espalhado primeiro pela Europa pelo imperialismo romano e depois pelo mundo pelos colonialismos europeus, o alfabeto latino, com as suas muitas variantes, é hoje o mais utilizado sistema de escrita do mundo, quer em número de utilizadores, quer em número de línguas que dele se servem. A nossa é uma delas. Uma das mais importantes, mas só uma.
Mas o facto do nosso sistema de escrita ser o mais comum não quer dizer que não haja outros, alguns regidos por filosofias bem distintas. Os sistemas de escrita não são todos iguais. E, embora certas línguas se adeqúem particularmente bem a certas formas de escrita e outras a outras, é possível a uma língua trocar inteiramente de sistema de escrita sem ser afetada por isso. Há numerosos exemplos espalhados pela história. Nações eslavas (e não só) que adotaram o alfabeto latino depois de serem inicialmente utilizadoras do cirílico; línguas da Ásia ocidental e central que abandonaram o alfabeto árabe em prol do cirílico ou do latino; o dialeto do romeno que conhecemos como moldavo e que, apenas no século XX, mudou primeiro do alfabeto latino para o cirílico e depois regressou ao latino, os vietnamitas, que abandonaram no século XIX os caracteres chineses e adaptaram o alfabeto latino às necessidades da sua língua, etc., etc. Até os nossos antepassados o fizeram, de certa forma. Durante a dominação árabe, a língua predominante nas terras que hoje são Portugal era, não o português, obviamente, mas o moçárabe, também ele filho do latim, uma das línguas ibéricas ocidentais, mais próxima daquela que falamos hoje do que, por exemplo, o catalão. E chegaram-nos textos moçárabes escritos em três alfabetos diferentes: o latino, o hebraico e o árabe.
A mesma língua, três alfabetos.
É bom ter estas coisas presentes quando se discutem detalhes ortográficos, sabem? De que valem uns cc a mais ou a menos quando comparados com sistemas de escrita inteiramente distintos? Que importância podem ter esses cc e pp se comparados com a mudança de um abjade para um alfabeto, ou até de um sistema logográfico para um fonémico? Nenhuma. Rigorosamente nenhuma.
E há mais um detalhe a ter em consideração.
A ideia que preside à criação de alfabetos é precisamente fazer corresponder determinados sons a determinadas letras. A sua lógica é representar a fonética por escrito. Portanto, de uma forma bem concreta, as línguas que se deixam ficar presas à etimologia das palavras estão a subverter a própria lógica do sistema alfabético que usam. Aproximar a grafia à fonética não é simples capricho de linguistas sem nada de mais interessante com que ocupar o tempo, mas respeitar a natureza do sistema de escrita que os nossos longínquos antepassados decidiram adotar para a língua de que a nossa evoluiu.
E nenhuma das línguas que usam alfabetos pode não o fazer para sempre. Todas acabam por ser obrigadas a fazer ajustes, mais tarde ou mais cedo, porque todas mudam com o tempo, todas evoluem, todas se alteram. Se mantiverem a grafia das palavras fixa no tempo, inalterável, chega um ponto em ela passa a refletir mais a ideia das palavras do que os fonemas que as constituem. Chega um ponto, portanto, em que a escrita se transforma, na prática, num conjunto de ideogramas que por acaso calham ter a mesma forma das letras.
Nem o mais radical dos etimófilos defende isto, suponho. Pelo que tenho visto, os que são realmente radicais sonham com uma língua estática e parada no tempo, que não mude. Dizem coisas como “andaram os nossos antepassados milhares de anos a construir a língua portuguesa para nós agora lhe fazermos isto,” afirmações que levam a crer que encaram a língua como coisa feita e acabada, como livro que chegou ao fim. Não percebem que língua que não mude e evolua não é língua, é fóssil. A sombra de uma coisa morta, não a luz de algo vivo.
Portanto a verdadeira questão está na frequência com que se deve fazer a atualização da ortografia, não se esta deve ser feita de todo. Entre os (poucos) que realmente pensaram tudo isto até ao fim, há quem ache que é preferível manter a ortografia estável durante longos períodos e depois fazer grandes reformas espaçadas no tempo, ao passo que outros consideram mais desejável ir-se fazendo com frequência pequenos ajustes. Eu prefiro a segunda alternativa. Acho que a ortografia do português deve ser revista com regularidade, a cada duas, três, quatro décadas, para atualizações e resolução de problemas que tenham surgido ou sido revelados desde a revisão anterior. E mantendo a grafia próxima da fonética, tanto quanto possível dados os condicionalismos a que está sujeita uma língua como a nossa, global, planetária. Respeitando o máximo possível a própria filosofia de base inerente a usar-se um alfabeto para se representar a língua.
E por hoje era isto que vos queria dizer. Foram só duas mil palavras e picos. Não está mal.
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Se alguma cultura humana tivesse um mito da criação da linguagem escrita, poderia ser algo assim. Ou se a linguagem escrita tivesse um mito de criação de si própria, o que literariamente seria bem mais interessante.
Mas os mitos de criação são sempre versões idealizadas e simplificadas, mesmo quando ultrapassam a simples invenção e refletem fenómenos reais. Na realidade, as coisas foram bastante mais complicadas do que o mito pode levar a crer.
Nós somos criaturas inerentemente simbólicas. A linguagem (isto é, a linguagem verdadeira, oral) é, em si mesma, uma grande construção simbólica, na qual os sons são símbolos de coisas que os transcendem. Apesar de ser possível que tenham tido origem em representações de sons existentes no ambiente, os sons da linguagem humana há muito se tornaram quase inteiramente abstratos. A exceção são as onomatopeias. Para além delas, a abstração é total. Nada existe na palavra árvore que faça lembrar uma árvore, a não ser o significado que milénios de evolução linguística acabaram por lhe atribuir. Ou seja: a única coisa que liga a palavra ao objeto são umas quantas ligações sinápticas nos cérebros de quem usa essa palavra específica para designar o objeto. Ligações essas que, ainda por cima, não ligam a palavra ao objeto propriamente dito, mas sim à ideia que dele fazemos.
Com a outra grande forma de comunicação humana, a linguagem corporal, as coisas funcionam de forma semelhante, ainda que esta seja mais instintiva e tenha raízes bem mais longínquas na evolução da bicharada que veio desembocar em nós (a língua gestual dos surdos, já agora, sendo como é uma fusão dos mecanismos da linguagem oral com os da corporal, está algures a meio). Mas seja qual for a linguagem de que estivermos a falar, a nossa compreensão do outro passa sempre por uma associação dos símbolos que ele nos envia à ideia que dele fazemos.
Estão a seguir-me? Ainda não foram fazer outra coisa mais interessante? Fico contente. Isto torna-se mais claro a partir daqui, julgo eu.
Pois aconteceu que, a páginas tantas, as criaturas inerentemente simbólicas que somos sentiram a necessidade de fazer registos. Mapas que identificassem onde ficavam certos locais particularmente interessantes para o seu modo de vida, maneiras de contactar os deuses e pedir-lhes sorte na caça, chuva ou aquelas outras coisas necessárias à sobrevivência de grupos de caçadores-recoletores ou dos primeiros agricultores, registos que indicassem quantos objetos do tipo x tinham sido produzidos, apanhados ou transacionados, etc. Nesses primeiros registos havia muita bonecada, mas também já iam aparecendo símbolos mais abstratos, que foram ganhando preponderância, umas vezes por evolução dos bonecos, outras através de invenção pura e simples, até desembocarem nos sistemas de escrita modernos.
Nós, lusófonos, mergulhados como estamos numa cultura cujo sistema de escrita é alfabético, e rodeados e influenciados por outras culturas com sistemas de escrita idênticos ou semelhantes, tendemos a esquecer-nos (ou a nunca termos aprendido) que nem todos os sistemas de escrita o são. Um exemplo: há pouco tempo tive uma discussão sobre o acordo ortográfico no twitter (péssimo sítio para se ter discussões complexas, diga-se de passagem), durante a qual o meu interlocutor me veio com uma pergunta que me deixou abananado pela confusão que revelava quanto à natureza das relações entre língua e escrita na China. Fui levado a regressar a estes temas em boa parte por essa conversa. E também por ter deparado com um graçamoura com demasiado tempo nas mãos, que desperdiça a escrever longos testamentos nos quais revela toda a sua imensa ignorância (nem sequer sabe o que é uma palavra, e não estou a exagerar: o tipo afirma, a pés juntos e sem se rir, que palavras usadas por todo o lado e até dicionarizadas não são palavras. Sim, leram bem. Há quem seja ignorante a este ponto). E por todo o sururu gerado pela nomeação do graçamoura original para o CCB. Mas adiante. Estava eu a dizer que…
A verdade é que há várias formas de se escrever as línguas. Essas formas podem dividir-se, grosso modo, em dois grandes tipos: os sistemas de escrita morfémicos e os sistemas de escrita fonémicos.
Dito assim, na base do palavrão, parece complicado. E é, mas não muito. Eu explico.
Os sistemas de escrita morfémicos são aqueles que se baseiam nos morfemas. Morfemas são uma espécie de átomos do discurso: as mais pequenas partes com significado em que ele se divide. Muitos morfemas são palavras; outros são partes de palavras (os prefixos e sufixos, por exemplo, são morfemas; a palavra prefixo tem dois morfemas: pre e fixo). Ou seja, os morfémicos são sistemas de escrita que refletem não a expressão concreta da língua, mas a sua ideia. Também têm o nome de logográficos e estão, de certa forma, mais próximos de sistemas simbólicos como os sinais de trânsito do que propriamente dos alfabetos. Os caracteres chineses constituem um sistema de escrita logográfico, ainda que não puro. Os hieróglifos egípcios também. Há, ou houve, outros.
A natureza destes sistemas implica duas coisas. Por um lado, que para expressar adequadamente uma língua num desses sistemas são necessários tantos caracteres quantas as unidades de significado que essa língua contém. Ou seja: muitos. Por outro lado, línguas diferentes mas pertencentes à mesma família podem ser escritas da mesma forma, permitindo criar-se, por escrito, um espaço de compreensão mútua que não existe oralmente. Pensem nas línguas latinas, e em especial nas ibéricas, e facilmente compreenderão como a sua lógica interna, as ideias que presidem ao ordenamento das palavras nas frases, e até a constituição das próprias palavras, são praticamente idênticas. Poder-se-ia criar um sistema de escrita logográfico para os filhos do latim que os unisse como se de uma só língua se tratasse… embora isso não os transformasse em tal coisa.
É basicamente o que acontece com o chinês escrito, que unifica sob esta espécie de guarda-chuva logográfico uma série de línguas diferentes mas aparentadas, que coexistem com a língua dominante no país, o mandarim.
Depois, temos os sistemas de escrita fonémicos. Já estão a ver, não estão? O morfema fone é boa pista. Trata-se de sistemas de escrita baseados nos sons produzidos para falar uma determinada língua. Os fonemas. Estes, levando um pouco mais longe a analogia física com que chamei aos morfemas átomos do discurso, são assim como as partículas subatómicas do discurso, os seus protões, neutrões e eletrões, os seus quarks. São sistemas de escrita nos quais os caracteres refletem (embora por vezes de forma algo indireta) os sons que são produzidos para falar uma dada língua. Alfabetos, portanto? Não é assim tão simples.
É que alguns sistemas fonémicos não se baseiam diretamente nos fonemas individuais, mas nas sílabas que eles formam. São os silabários, entre os quais os mais importantes e conhecidos talvez sejam os kana japoneses (hiragana e katakana).
Outros são mistos: existe um carácter por sílaba, mas estes agrupam-se em famílias dominadas pela consoante que domina a sílaba. Exemplificando: se o português fosse escrito com um sistema destes, as palavras sílaba e salada seriam escritas com três caracteres cada, uma vez que cada uma tem três sílabas, mas, em vez de começarem com o mesmo carácter, começariam com caracteres diferentes, mas semelhantes, representando, respetivamente, as sílabas si e sa. Estes sistemas designam-se por alfasilabários, ou abugidas, e os exemplos mais conhecidos deverão ser os alfasilabários brâmicos, com os quais se escrevem muitas das línguas indianas.
Depois ainda há os abjades, sistemas fonémicos nos quais só se escrevem as consoantes, ficando as vogais subentendidas. Os exemplos mais conhecidos deste tipo de sistema são os alfabetos árabe e hebraico, mas há mais, e houve ainda mais em tempos idos.
Por fim, há os alfabetos propriamente ditos, entre os quais este que vocês estão agora a ler é, de longe, o mais comum. Filho do alfabeto grego (tal como o cirílico, o segundo mais usado), espalhado primeiro pela Europa pelo imperialismo romano e depois pelo mundo pelos colonialismos europeus, o alfabeto latino, com as suas muitas variantes, é hoje o mais utilizado sistema de escrita do mundo, quer em número de utilizadores, quer em número de línguas que dele se servem. A nossa é uma delas. Uma das mais importantes, mas só uma.
Mas o facto do nosso sistema de escrita ser o mais comum não quer dizer que não haja outros, alguns regidos por filosofias bem distintas. Os sistemas de escrita não são todos iguais. E, embora certas línguas se adeqúem particularmente bem a certas formas de escrita e outras a outras, é possível a uma língua trocar inteiramente de sistema de escrita sem ser afetada por isso. Há numerosos exemplos espalhados pela história. Nações eslavas (e não só) que adotaram o alfabeto latino depois de serem inicialmente utilizadoras do cirílico; línguas da Ásia ocidental e central que abandonaram o alfabeto árabe em prol do cirílico ou do latino; o dialeto do romeno que conhecemos como moldavo e que, apenas no século XX, mudou primeiro do alfabeto latino para o cirílico e depois regressou ao latino, os vietnamitas, que abandonaram no século XIX os caracteres chineses e adaptaram o alfabeto latino às necessidades da sua língua, etc., etc. Até os nossos antepassados o fizeram, de certa forma. Durante a dominação árabe, a língua predominante nas terras que hoje são Portugal era, não o português, obviamente, mas o moçárabe, também ele filho do latim, uma das línguas ibéricas ocidentais, mais próxima daquela que falamos hoje do que, por exemplo, o catalão. E chegaram-nos textos moçárabes escritos em três alfabetos diferentes: o latino, o hebraico e o árabe.
A mesma língua, três alfabetos.
É bom ter estas coisas presentes quando se discutem detalhes ortográficos, sabem? De que valem uns cc a mais ou a menos quando comparados com sistemas de escrita inteiramente distintos? Que importância podem ter esses cc e pp se comparados com a mudança de um abjade para um alfabeto, ou até de um sistema logográfico para um fonémico? Nenhuma. Rigorosamente nenhuma.
E há mais um detalhe a ter em consideração.
A ideia que preside à criação de alfabetos é precisamente fazer corresponder determinados sons a determinadas letras. A sua lógica é representar a fonética por escrito. Portanto, de uma forma bem concreta, as línguas que se deixam ficar presas à etimologia das palavras estão a subverter a própria lógica do sistema alfabético que usam. Aproximar a grafia à fonética não é simples capricho de linguistas sem nada de mais interessante com que ocupar o tempo, mas respeitar a natureza do sistema de escrita que os nossos longínquos antepassados decidiram adotar para a língua de que a nossa evoluiu.
E nenhuma das línguas que usam alfabetos pode não o fazer para sempre. Todas acabam por ser obrigadas a fazer ajustes, mais tarde ou mais cedo, porque todas mudam com o tempo, todas evoluem, todas se alteram. Se mantiverem a grafia das palavras fixa no tempo, inalterável, chega um ponto em ela passa a refletir mais a ideia das palavras do que os fonemas que as constituem. Chega um ponto, portanto, em que a escrita se transforma, na prática, num conjunto de ideogramas que por acaso calham ter a mesma forma das letras.
Nem o mais radical dos etimófilos defende isto, suponho. Pelo que tenho visto, os que são realmente radicais sonham com uma língua estática e parada no tempo, que não mude. Dizem coisas como “andaram os nossos antepassados milhares de anos a construir a língua portuguesa para nós agora lhe fazermos isto,” afirmações que levam a crer que encaram a língua como coisa feita e acabada, como livro que chegou ao fim. Não percebem que língua que não mude e evolua não é língua, é fóssil. A sombra de uma coisa morta, não a luz de algo vivo.
Portanto a verdadeira questão está na frequência com que se deve fazer a atualização da ortografia, não se esta deve ser feita de todo. Entre os (poucos) que realmente pensaram tudo isto até ao fim, há quem ache que é preferível manter a ortografia estável durante longos períodos e depois fazer grandes reformas espaçadas no tempo, ao passo que outros consideram mais desejável ir-se fazendo com frequência pequenos ajustes. Eu prefiro a segunda alternativa. Acho que a ortografia do português deve ser revista com regularidade, a cada duas, três, quatro décadas, para atualizações e resolução de problemas que tenham surgido ou sido revelados desde a revisão anterior. E mantendo a grafia próxima da fonética, tanto quanto possível dados os condicionalismos a que está sujeita uma língua como a nossa, global, planetária. Respeitando o máximo possível a própria filosofia de base inerente a usar-se um alfabeto para se representar a língua.
E por hoje era isto que vos queria dizer. Foram só duas mil palavras e picos. Não está mal.
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sábado, 25 de fevereiro de 2012
Transignorâncias 3: Para que raio (não) serve aquilo?
Antenota: Para a Lâmpada regressar por completo depois da pausa de janeiro faltava apenas reatar estes artigos mais longos, globalmente intitulados transignorâncias. É agora. E começo por um tema que já aqui foi falado, ainda que não sob este ponto de vista. A coisa dá muito pano para mangas. Tanto que vai daqui sair mais do que uma transignorância. Conto com três, publicadas em semanas sucessivas.
Vamos a isso? Vamos a isso.
No meio do muito lixo que tem sido escrito contra a nova ortografia do português, tanto por gente que não tem qualquer obrigação de saber mais do que o quase nada que sabe sobre a língua, como por quem estaria obrigado a não produzir tanta asneira (por motivos misteriosos, que um dia a ciência talvez consiga desvendar, estes últimos são carinhosamente tratados por alguns de nós como “graçamouras”), há uma objeção que felizmente não é carapuça, porque se fosse os partidários da atualização ortográfica teriam muita dificuldade para a tirar da cabeça.
É que se disserem que a utilidade do acordo ortográfico tem sido pouco e mal explicada só vos poderemos responder com um “pois”. E isso tem consequências nada misteriosas na atitude de parte do público. Se me disserem que tenho de mudar x e y e não me explicarem porquê de forma que eu entenda e aceite, vou chatear-me, ah pois vou. É natural. É humano. Era de esperar. E devia ter sido acautelado.
Para piorar as coisas, há alguns partidários do acordo que parecem estar tão confusos como os graçamouras, e se põem a disparatar quase com o mesmo grau de incompreensão de que estes costumam dar mostras, ainda que de uma forma, em geral, menos carroceira. Isso só aumenta a confusão. Imaginar utilidades facilmente desmascaráveis está ao mesmo nível rasteiro de debate das catástrofes linguísticas que os graçamouras gostam de inventar e, em vez de ajudar a um esclarecimento cabal do que está em causa e se pretende, só aumenta a confusão. Ora, a oposição ao acordo ortográfico medra na confusão e na ignorância. Tentar combatê-los com confusão e ignorância não é só inútil, mas contraproducente.
Daí que fosse bom que a utilidade da atualização ortográfica fosse claramente explicada duma vez por todas. É o que vou tentar fazer aqui, tal como a entendo. Não faço parte da equipa que preparou o AO, logo não sei o que eles tinham em mente, mas sei uma coisinha ou duas sobre esta língua portuguesa que é o meu instrumento de trabalho, tenho um cérebro funcional na cabeça e fiz umas coisas que a esmagadora maioria dos opinadores que por aí pululam não fez: li o acordo de fio a pavio, li vários materiais respeitantes às mudanças ortográficas anteriores do português, informei-me sobre as questões ortográficas por que passaram e continuam a passar outras línguas, devorei, em suma, toda a informação sobre o assunto que me passou pelas mãos. E, mais importante do que tudo o mais, pensei. Coisa rara, bem sei.
Em resultado, não estarei na posse da verdade completa, mas pelo menos faço uma ideia bastante aproximada dos motivos que levaram à maioria das mudanças e sei apontar para os disparates com um grau bastante elevado de segurança.
Vamos lá então. Começando por desmascarar fantasmas.
Têm dito, uns e outros, e com variadas nuances, que a nova ortografia vai mudar a língua. Uns, entre purismos descabidos e uma xenofobiazinha mal disfarçada, afirmam que essa mudança equivale a uma degenerescência e a um abrasileiramento, o que para eles é a mesma coisa, outros que as alterações ortográficas vão reunificar a língua, e que isso a fortalece. Isto entre muitos outros exemplos de mudanças que eles preveem que virão a ser operadas por via ortográfica.
Os exemplos são, de facto, muitos. Mas estão todos errados. Todos.
Porque a ortografia é apenas uma forma de representar a língua em forma escrita e disso não passa.
Fixem bem. E. Disso. Não. Passa.
Antigamente, quando a linguística não era propriamente uma ciência e os linguistas eram uns senhores formados nas faculdades de letras que não só não percebiam nada de ciência como a odiavam com todas as forças, e tinham uma formação e formatação intelectual que punha a palavra escrita acima de toda a evidência, preferindo portanto procurar respostas em calhamaços empoeirados escritos por ilustres antepassados a ir em busca delas ao mundo real, compreendiam-se até certo ponto as ideias feitas sobre influências ortográficas sobre a fala. Até certo ponto; afinal, a vastíssima maioria dos utilizadores e, portanto, manuseadores e alteradores da língua, eram analfabetos, e já nessa época não fazia qualquer sentido que regras sobre como as palavras se deviam escrever influenciassem o modo como a população analfabeta as pronunciava. Mas enfim; apesar desta incoerência de pensamento, justificada com preconceitos de classe que eram na época muito mais fortes do que são hoje (e hoje ainda são fortes demais, em especial em certos meios), é compreensível que tais ideias subsistissem numa disciplina que ainda permanecia no estado pré-científico.
Mas entretanto, a ciência-a-sério meteu o seu nariz curioso na questão linguística, aprendeu-se um mundo de nova informação e surgiram disciplinas inteiras baseadas parcialmente nas ciências naturais. A biolinguística, a neurolinguística, a pedolinguística até, em parte, a paleolinguística e a sociolinguística, são bons exemplos. E o que estas novidades deixaram claro, comprovado, indiscutível, é que a língua é a fala. Ponto.
Portanto, não será por se alterarem algumas regras na forma de representar a fala que esta vai ser alterada. Tirem o cavalinho da chuva os que falam em reunificação linguística ou os que preveem a chegada iminente dos cavaleiros do apocalipse causada pela supressão de uns cc e de uns pp quando escrevemos certas palavras. Isso não vai acontecer. Nada disso. As pessoas, nos anos mais próximos, vão continuar a falar como até aqui, e as dos vindouros falarão de forma diferente porque a língua, isto é, a forma de falar, vai continuar a mudar como tem vindo a mudar até hoje, tão lenta e irresistível como um glaciar. Poderíamos revolucionar por completo a forma de escrever português, podíamos trocar de alfabeto, podíamos arranjar até formas não alfabéticas de escrever a língua, que esta não mudaria um milímetro que fosse. Isto está comprovado. Mas as velhas ideias custam a morrer.
E antes que me venham com o velho exemplo do sc etimológico, que terá alterado a pronúncia de um conjunto de palavras relativamente numeroso (nascer, descer, etc.), deixem-me dizer-vos duas coisas. Uma: esse é o único exemplo comprovado e indiscutível de uma influência ortográfica sobre a pronúncia das palavras. O único; não há mais. E duas: não foi a ortografia que causou a alteração, mas sim a ignorância e a presunção de uma camada da população.
(Abro um parêntesis para dizer, já agora, que me parece soberanamente ridículo que se apresente um exemplo de uma deturpação da língua ligada à escrita etimológica para contestar que se abandone outros resquícios etimológicos em prol de uma escrita mais baseada na fonética, porque, pasmai senhores!, isso vai deturpar a língua! Fechar parêntesis, abanando a cabeça e sufocando um risinho.)
As línguas mudam oralmente. E há muito que em Portugal existe uma camada de pacóvios de alta e média-alta sociedade, muito mais preocupados com a aparência do que com a substância, que são presas fáceis para modismos disparatados (e se duvidam, leiam Eça). Junte-se as duas coisas, e que temos? Um grupo de gente que se convenceu de que, se se escreve aquele s em nascer, ele tem de ser dito, e toca de alterar a pronúncia. Era um grupo bastante pequeno numa sociedade esmagadoramente analfabeta que pronunciava “nacer” como a língua tende a querer que se pronuncie, mas era também um grupo desproporcionadamente influente. Era dele que saíam os mestres-escola, era dele que saía a maioria dos padres, era dele que saía boa parte da intelectualidade do tempo. E foi assim que a pronúncia dessas palavras mudou: porque essa gente ignorava as correntes profundas da língua, confundiu etimologia com fonética e começou a “corrigir” algo que não queria correção. A culpa não foi da grafia. A culpa foi da ignorância e da tendência muito humana de se dar ouvidos a ignorantes com prestígio social. E a mudança deu-se oralmente. Quando as pessoas ouviram os padres falar. Quando as crianças aprenderam a falar no seio de famílias dessas, e mais tarde no seio das restantes. Quando foram para a escola e foram corrigidas por professores completamente inconscientes de que as correções que estavam a fazer eram disparatadas.
Estamos livres de isso voltar a acontecer?
Evidentemente que não. Mas, e isto é muito importante porque estas alterações nascem de modismos movidos a ignorância, é impossível prever quais se darão no futuro. Não só é impossível prever que modismos surgirão, mas mais impossível ainda é prever quais solidificarão em alterações de longo prazo na pronúncia das palavras, pois a maioria das modas linguísticas tão depressa surge como desaparece sem deixar rasto. Enraízam-se algumas, e à partida ninguém pode adivinhar quais.
Portanto, quando depararem com seja quem for que afirme com toda a certeza que se fizermos isto à língua acontece aquilo, ignorem esse ignorante. É alguém que não sabe nada sobre a língua, que não faz a mais pequena ideia dos motores da sua evolução, que está completamente a leste de tudo isto. Na língua, o máximo que se consegue fazer é analisar o que aconteceu no passado e dizer que, dados os exemplos anteriores, é possível que as condições presentes resultem em x e y. Não certo: possível. E isto funciona tanto melhor quanto mais longo o prazo a que os exemplos se referem. Querem um exemplo para entender melhor? Ei-lo: é muito mais provável que a língua portuguesa continue a desfazer-se de consoantes duplas como vem fazendo há largos séculos, desde a sua separação da raiz latina (provavelmente desde antes, até), do que que a pronúncia separada do s e do c em “nascer” se mantenha por muito mais tempo. Na verdade, não só a pronúncia inadulterada de “nacer” ainda resiste em certas zonas do espaço lusófono, como nas outras o sc tende a fundir-se em x, ouvindo-se frequentemente a palavra a ser pronunciada como “naxer”. Ou “dexer”. Ou “condexender”.
(Outro parêntesis para dizer que ainda bem que o mesmo não aconteceu com a velha sciencia, senão teríamos provavelmente um dia um povo inteiro a falar de xiência, palavra que é, convenhamos, bem mais feia do que ciência.)
Resumindo: não, alterações ortográficas não mudam a língua. Ponto, parágrafo. Não nos porão a falar “brasileiro” nem aos brasileiros a falar “lusitanês”. Não irão fechar mais o português de Portugal nem irão abri-lo. Essas são coisas que só as modas linguísticas podem fazer, e estas podem ter origem em tudo e mais alguma coisa, mas muito em especial na ignorância. E é por isso que o aspeto mais preocupante de toda esta discussão em volta do acordo ortográfico é a brutal ignorância que ela tem revelado, especialmente em certos setores que tinham mais que obrigação de saberem alguma coisinha sobre isto. E é por isso que seria fundamental que quem de facto sabe, em vez de se encerrar nas torres de marfim da academia, interviesse, explicasse, ajudasse a destruir velhas ideias bolorentas encasquetadas nas cabeças pouco arejadas que por aí abundam. Há alguns bons exemplos, mas são insuficientes.
Mas este é só um dos fantasmas que por aí andam. Revela-se de muitas formas diferentes e é exibido com grande frequência, mas é só um. Vamos a outro.
“Ah, e tal, que isto é tudo para fazer negócio.”
Bem, não sejamos ingénuos, sim? A língua portuguesa é fundamental para a economia dos países que a usam. Um estudo feito há uns anos estimou que a língua vale quase 20% do PIB português. Logo, é óbvio que há interesses financeiros envolvidos em tudo isto.
Só que se calhar não são bem os que vocês podem pensar.
Para princípio de conversa, sim, houve editoras que se apressaram a lançar dicionários segundo a nova ortografia, guias disto e daquilo, etc., mas estou aqui capaz de apostar que essas edições tiveram bem menos sucesso do que as editoras estariam à espera. É que toda a informação necessária a quem quer usar bem as novas regras está disponível na net, à distância de um clique. Eu, que trabalho em exclusivo com a nova ortografia já vai para três anos, não tenho um único dicionário com ela. Continuo a usar os dicionários que já tinha, dicionários que obedecem às regras ortográficas instituídas em 1911 e alteradas nos anos 40 e 70 do século passado. Quando estes se estragarem, o que, com o uso que lhes dou, é coisa certa, logo compro novos. Segundo as novas regras.
Sim, os livros escolares têm de vir com a nova ortografia. Mas acontece que eles mudam todos os anos, ou quase, portanto haveria livros novos com AO ou sem ele. Até pode haver bons motivos para achar esse negócio escandaloso, mas já o era antes do AO, e continuaria a ser se nunca tivesse existido nenhum acordo ortográfico.
Sim, houve livros publicados a explicar a nova ortografia. E também houve livros publicados a contestá-la. Tanto dinheiro estão a fazer alguns dos que a promovem como alguns dos que a combatem e a grande maioria das pessoas envolvidas no debate não tem ganho com ela um tostão furado. Para cronistas que já o eram antes do debate ter início, tradutores que já traduziam na antiga ortografia e continuaram a traduzir na nova, jornalistas que idem aspas, e mais uma série de eteceteras, o facto de se alterar a ortografia foi rigorosamente irrelevante em termos financeiros.
A passagem do tempo é muitas vezes coisa chata. Envelhece-se, ganha-se rugas e cabelos brancos, tem-se desilusões e desapontamentos, morrem-nos entes queridos, quebram-se-nos os corações. Mas também tem as suas vantagens, e uma delas está em poder ver-se o que valiam certas posições e afirmações. Uma que apareceu frequentemente há três ou quatro anos dizia que vinha aí uma invasão de brasileiros, que o AO tinha sido concebido por eles para dominar isto tudo.
A-hã… pooooois… Digam-me, que é deles?
Não sei de nenhum caso de editoras brasileiras que se tenham instalado em Portugal desde a entrada em vigor da nova ortografia. Os casos que conheço são anteriores, alguns muito anteriores (há casos de intercâmbio editorial entre Portugal e o Brasil desde… bem, desde sempre), e nenhum dos mais recentes correu particularmente bem. Pelo contrário, a nossa Leya instalou-se no Brasil depois da nova ortografia, e com toda a força. Tenho aqui um dedo que adivinha que o teria feito mesmo sem AO nenhum; afinal, fez o mesmo em Angola, e por lá, embora tenham assinado o acordo como toda a gente, ainda não o ratificaram, portanto ainda não o puseram em prática.
Ponhamos os pezinhos na terra, sim? O Brasil é muito mais apelativo para as empresas do ramo do que Portugal. Porque enquanto nós definhamos sob a botifarra da troika e do Merkozy, eles lá crescem. Porque enquanto nós temos, com muito boa vontade, uns cinco milhões de leitores, eles lá têm talvez uns quinze ou vinte; lê-se proporcionalmente menos no Brasil, é certo, mas, como a população é muito maior, o total de leitores também é. Porque as nossas empresas têm de depender de distribuidoras para cobrir um país que é maior do que às vezes parece, enquanto eles lá nem precisam de cobrir o seu gigantesco território, porque só nas duas maiores zonas metropolitanas, Rio de Janeiro e São Paulo, vivem alguns 30 milhões de pessoas, mais do que suficientes para dar sustentabilidade a pequenas editoras. Querem mais motivos? Olhem que há.
Portanto, se há interesse em penetrar no outro grande mercado da língua, ele existe muito mais do lado português do que do brasileiro. O Brasil, para Portugal, é importante; Portugal, para o Brasil, nem por isso. E se julgam que o AO tem nisso grande influência, desiludam-se.
Posso dar-vos o meu exemplo pessoal. Sim, é verdade que uma das minhas traduções foi comprada pela Leya Brasil e foi publicada por lá, com grande sucesso comercial. Parece que os livros do Martin têm feito no Brasil tanto sucesso como cá, e também lá andam a competir pelos primeiros lugares dos tops de vendas. Mas a tradução foi adaptada, não foi publicada como cá. E este não foi o primeiro caso de uma tradução portuguesa reutilizada no mercado brasileiro, muito longe disso (é outra das tais coisas que existem desde sempre), nem será o último.
E o impacto que isso teve na minha conta bancária… meh.
Além do mais, os mercados estão separados. Quando se compram os direitos de tradução, compram-se para Portugal ou para o Brasil, não para a língua portuguesa como um todo. Porque apesar de falarmos a mesma língua, falamos dialetos diferentes e isso, como já vimos, não é nenhum ajustamento ortográfico que poderá alterar. Com AO ou sem ele, os livros continuarão a ter maioritariamente uma tradução cá e outra diferente lá. Ou várias; há livros que têm basicamente uma tradução por edição. E isto não acontece tanto por uma questão de interesses financeiros, como de realidades linguísticas.
(Mais um parêntesis para uma ressalva: é muito provável que a entrada em força do digital no setor do livro acabe por alterar esta realidade. Mas, de novo, isso acontecerá com AO ou sem ele.)
E acabámos por chegar a quase três mil palavras (que estabeleci como limite absoluto para estas publicações) só falando de duas coisas para que o AO não serve. Vou deixar por aqui. Talvez ainda volte a esta primeira parte, não sei; talvez não valha a pena, uma vez que a maior parte das pessoas fala de uma qualquer variante do primeiro ponto que abordei, e há outras coisas para as quais se diz que o acordo serve que estão só um pouco ao lado daquilo para que realmente serve. Talvez fale dessas na última parte. Mas por hoje fico-me por aqui. Prometendo continuar, claro.
Transignorâncias anteriores:
Vamos a isso? Vamos a isso.
No meio do muito lixo que tem sido escrito contra a nova ortografia do português, tanto por gente que não tem qualquer obrigação de saber mais do que o quase nada que sabe sobre a língua, como por quem estaria obrigado a não produzir tanta asneira (por motivos misteriosos, que um dia a ciência talvez consiga desvendar, estes últimos são carinhosamente tratados por alguns de nós como “graçamouras”), há uma objeção que felizmente não é carapuça, porque se fosse os partidários da atualização ortográfica teriam muita dificuldade para a tirar da cabeça.
É que se disserem que a utilidade do acordo ortográfico tem sido pouco e mal explicada só vos poderemos responder com um “pois”. E isso tem consequências nada misteriosas na atitude de parte do público. Se me disserem que tenho de mudar x e y e não me explicarem porquê de forma que eu entenda e aceite, vou chatear-me, ah pois vou. É natural. É humano. Era de esperar. E devia ter sido acautelado.
Para piorar as coisas, há alguns partidários do acordo que parecem estar tão confusos como os graçamouras, e se põem a disparatar quase com o mesmo grau de incompreensão de que estes costumam dar mostras, ainda que de uma forma, em geral, menos carroceira. Isso só aumenta a confusão. Imaginar utilidades facilmente desmascaráveis está ao mesmo nível rasteiro de debate das catástrofes linguísticas que os graçamouras gostam de inventar e, em vez de ajudar a um esclarecimento cabal do que está em causa e se pretende, só aumenta a confusão. Ora, a oposição ao acordo ortográfico medra na confusão e na ignorância. Tentar combatê-los com confusão e ignorância não é só inútil, mas contraproducente.
Daí que fosse bom que a utilidade da atualização ortográfica fosse claramente explicada duma vez por todas. É o que vou tentar fazer aqui, tal como a entendo. Não faço parte da equipa que preparou o AO, logo não sei o que eles tinham em mente, mas sei uma coisinha ou duas sobre esta língua portuguesa que é o meu instrumento de trabalho, tenho um cérebro funcional na cabeça e fiz umas coisas que a esmagadora maioria dos opinadores que por aí pululam não fez: li o acordo de fio a pavio, li vários materiais respeitantes às mudanças ortográficas anteriores do português, informei-me sobre as questões ortográficas por que passaram e continuam a passar outras línguas, devorei, em suma, toda a informação sobre o assunto que me passou pelas mãos. E, mais importante do que tudo o mais, pensei. Coisa rara, bem sei.
Em resultado, não estarei na posse da verdade completa, mas pelo menos faço uma ideia bastante aproximada dos motivos que levaram à maioria das mudanças e sei apontar para os disparates com um grau bastante elevado de segurança.
Vamos lá então. Começando por desmascarar fantasmas.
Têm dito, uns e outros, e com variadas nuances, que a nova ortografia vai mudar a língua. Uns, entre purismos descabidos e uma xenofobiazinha mal disfarçada, afirmam que essa mudança equivale a uma degenerescência e a um abrasileiramento, o que para eles é a mesma coisa, outros que as alterações ortográficas vão reunificar a língua, e que isso a fortalece. Isto entre muitos outros exemplos de mudanças que eles preveem que virão a ser operadas por via ortográfica.
Os exemplos são, de facto, muitos. Mas estão todos errados. Todos.
Porque a ortografia é apenas uma forma de representar a língua em forma escrita e disso não passa.
Fixem bem. E. Disso. Não. Passa.
Antigamente, quando a linguística não era propriamente uma ciência e os linguistas eram uns senhores formados nas faculdades de letras que não só não percebiam nada de ciência como a odiavam com todas as forças, e tinham uma formação e formatação intelectual que punha a palavra escrita acima de toda a evidência, preferindo portanto procurar respostas em calhamaços empoeirados escritos por ilustres antepassados a ir em busca delas ao mundo real, compreendiam-se até certo ponto as ideias feitas sobre influências ortográficas sobre a fala. Até certo ponto; afinal, a vastíssima maioria dos utilizadores e, portanto, manuseadores e alteradores da língua, eram analfabetos, e já nessa época não fazia qualquer sentido que regras sobre como as palavras se deviam escrever influenciassem o modo como a população analfabeta as pronunciava. Mas enfim; apesar desta incoerência de pensamento, justificada com preconceitos de classe que eram na época muito mais fortes do que são hoje (e hoje ainda são fortes demais, em especial em certos meios), é compreensível que tais ideias subsistissem numa disciplina que ainda permanecia no estado pré-científico.
Mas entretanto, a ciência-a-sério meteu o seu nariz curioso na questão linguística, aprendeu-se um mundo de nova informação e surgiram disciplinas inteiras baseadas parcialmente nas ciências naturais. A biolinguística, a neurolinguística, a pedolinguística até, em parte, a paleolinguística e a sociolinguística, são bons exemplos. E o que estas novidades deixaram claro, comprovado, indiscutível, é que a língua é a fala. Ponto.
Portanto, não será por se alterarem algumas regras na forma de representar a fala que esta vai ser alterada. Tirem o cavalinho da chuva os que falam em reunificação linguística ou os que preveem a chegada iminente dos cavaleiros do apocalipse causada pela supressão de uns cc e de uns pp quando escrevemos certas palavras. Isso não vai acontecer. Nada disso. As pessoas, nos anos mais próximos, vão continuar a falar como até aqui, e as dos vindouros falarão de forma diferente porque a língua, isto é, a forma de falar, vai continuar a mudar como tem vindo a mudar até hoje, tão lenta e irresistível como um glaciar. Poderíamos revolucionar por completo a forma de escrever português, podíamos trocar de alfabeto, podíamos arranjar até formas não alfabéticas de escrever a língua, que esta não mudaria um milímetro que fosse. Isto está comprovado. Mas as velhas ideias custam a morrer.
E antes que me venham com o velho exemplo do sc etimológico, que terá alterado a pronúncia de um conjunto de palavras relativamente numeroso (nascer, descer, etc.), deixem-me dizer-vos duas coisas. Uma: esse é o único exemplo comprovado e indiscutível de uma influência ortográfica sobre a pronúncia das palavras. O único; não há mais. E duas: não foi a ortografia que causou a alteração, mas sim a ignorância e a presunção de uma camada da população.
(Abro um parêntesis para dizer, já agora, que me parece soberanamente ridículo que se apresente um exemplo de uma deturpação da língua ligada à escrita etimológica para contestar que se abandone outros resquícios etimológicos em prol de uma escrita mais baseada na fonética, porque, pasmai senhores!, isso vai deturpar a língua! Fechar parêntesis, abanando a cabeça e sufocando um risinho.)
As línguas mudam oralmente. E há muito que em Portugal existe uma camada de pacóvios de alta e média-alta sociedade, muito mais preocupados com a aparência do que com a substância, que são presas fáceis para modismos disparatados (e se duvidam, leiam Eça). Junte-se as duas coisas, e que temos? Um grupo de gente que se convenceu de que, se se escreve aquele s em nascer, ele tem de ser dito, e toca de alterar a pronúncia. Era um grupo bastante pequeno numa sociedade esmagadoramente analfabeta que pronunciava “nacer” como a língua tende a querer que se pronuncie, mas era também um grupo desproporcionadamente influente. Era dele que saíam os mestres-escola, era dele que saía a maioria dos padres, era dele que saía boa parte da intelectualidade do tempo. E foi assim que a pronúncia dessas palavras mudou: porque essa gente ignorava as correntes profundas da língua, confundiu etimologia com fonética e começou a “corrigir” algo que não queria correção. A culpa não foi da grafia. A culpa foi da ignorância e da tendência muito humana de se dar ouvidos a ignorantes com prestígio social. E a mudança deu-se oralmente. Quando as pessoas ouviram os padres falar. Quando as crianças aprenderam a falar no seio de famílias dessas, e mais tarde no seio das restantes. Quando foram para a escola e foram corrigidas por professores completamente inconscientes de que as correções que estavam a fazer eram disparatadas.
Estamos livres de isso voltar a acontecer?
Evidentemente que não. Mas, e isto é muito importante porque estas alterações nascem de modismos movidos a ignorância, é impossível prever quais se darão no futuro. Não só é impossível prever que modismos surgirão, mas mais impossível ainda é prever quais solidificarão em alterações de longo prazo na pronúncia das palavras, pois a maioria das modas linguísticas tão depressa surge como desaparece sem deixar rasto. Enraízam-se algumas, e à partida ninguém pode adivinhar quais.
Portanto, quando depararem com seja quem for que afirme com toda a certeza que se fizermos isto à língua acontece aquilo, ignorem esse ignorante. É alguém que não sabe nada sobre a língua, que não faz a mais pequena ideia dos motores da sua evolução, que está completamente a leste de tudo isto. Na língua, o máximo que se consegue fazer é analisar o que aconteceu no passado e dizer que, dados os exemplos anteriores, é possível que as condições presentes resultem em x e y. Não certo: possível. E isto funciona tanto melhor quanto mais longo o prazo a que os exemplos se referem. Querem um exemplo para entender melhor? Ei-lo: é muito mais provável que a língua portuguesa continue a desfazer-se de consoantes duplas como vem fazendo há largos séculos, desde a sua separação da raiz latina (provavelmente desde antes, até), do que que a pronúncia separada do s e do c em “nascer” se mantenha por muito mais tempo. Na verdade, não só a pronúncia inadulterada de “nacer” ainda resiste em certas zonas do espaço lusófono, como nas outras o sc tende a fundir-se em x, ouvindo-se frequentemente a palavra a ser pronunciada como “naxer”. Ou “dexer”. Ou “condexender”.
(Outro parêntesis para dizer que ainda bem que o mesmo não aconteceu com a velha sciencia, senão teríamos provavelmente um dia um povo inteiro a falar de xiência, palavra que é, convenhamos, bem mais feia do que ciência.)
Resumindo: não, alterações ortográficas não mudam a língua. Ponto, parágrafo. Não nos porão a falar “brasileiro” nem aos brasileiros a falar “lusitanês”. Não irão fechar mais o português de Portugal nem irão abri-lo. Essas são coisas que só as modas linguísticas podem fazer, e estas podem ter origem em tudo e mais alguma coisa, mas muito em especial na ignorância. E é por isso que o aspeto mais preocupante de toda esta discussão em volta do acordo ortográfico é a brutal ignorância que ela tem revelado, especialmente em certos setores que tinham mais que obrigação de saberem alguma coisinha sobre isto. E é por isso que seria fundamental que quem de facto sabe, em vez de se encerrar nas torres de marfim da academia, interviesse, explicasse, ajudasse a destruir velhas ideias bolorentas encasquetadas nas cabeças pouco arejadas que por aí abundam. Há alguns bons exemplos, mas são insuficientes.
Mas este é só um dos fantasmas que por aí andam. Revela-se de muitas formas diferentes e é exibido com grande frequência, mas é só um. Vamos a outro.
“Ah, e tal, que isto é tudo para fazer negócio.”
Bem, não sejamos ingénuos, sim? A língua portuguesa é fundamental para a economia dos países que a usam. Um estudo feito há uns anos estimou que a língua vale quase 20% do PIB português. Logo, é óbvio que há interesses financeiros envolvidos em tudo isto.
Só que se calhar não são bem os que vocês podem pensar.
Para princípio de conversa, sim, houve editoras que se apressaram a lançar dicionários segundo a nova ortografia, guias disto e daquilo, etc., mas estou aqui capaz de apostar que essas edições tiveram bem menos sucesso do que as editoras estariam à espera. É que toda a informação necessária a quem quer usar bem as novas regras está disponível na net, à distância de um clique. Eu, que trabalho em exclusivo com a nova ortografia já vai para três anos, não tenho um único dicionário com ela. Continuo a usar os dicionários que já tinha, dicionários que obedecem às regras ortográficas instituídas em 1911 e alteradas nos anos 40 e 70 do século passado. Quando estes se estragarem, o que, com o uso que lhes dou, é coisa certa, logo compro novos. Segundo as novas regras.
Sim, os livros escolares têm de vir com a nova ortografia. Mas acontece que eles mudam todos os anos, ou quase, portanto haveria livros novos com AO ou sem ele. Até pode haver bons motivos para achar esse negócio escandaloso, mas já o era antes do AO, e continuaria a ser se nunca tivesse existido nenhum acordo ortográfico.
Sim, houve livros publicados a explicar a nova ortografia. E também houve livros publicados a contestá-la. Tanto dinheiro estão a fazer alguns dos que a promovem como alguns dos que a combatem e a grande maioria das pessoas envolvidas no debate não tem ganho com ela um tostão furado. Para cronistas que já o eram antes do debate ter início, tradutores que já traduziam na antiga ortografia e continuaram a traduzir na nova, jornalistas que idem aspas, e mais uma série de eteceteras, o facto de se alterar a ortografia foi rigorosamente irrelevante em termos financeiros.
A passagem do tempo é muitas vezes coisa chata. Envelhece-se, ganha-se rugas e cabelos brancos, tem-se desilusões e desapontamentos, morrem-nos entes queridos, quebram-se-nos os corações. Mas também tem as suas vantagens, e uma delas está em poder ver-se o que valiam certas posições e afirmações. Uma que apareceu frequentemente há três ou quatro anos dizia que vinha aí uma invasão de brasileiros, que o AO tinha sido concebido por eles para dominar isto tudo.
A-hã… pooooois… Digam-me, que é deles?
Não sei de nenhum caso de editoras brasileiras que se tenham instalado em Portugal desde a entrada em vigor da nova ortografia. Os casos que conheço são anteriores, alguns muito anteriores (há casos de intercâmbio editorial entre Portugal e o Brasil desde… bem, desde sempre), e nenhum dos mais recentes correu particularmente bem. Pelo contrário, a nossa Leya instalou-se no Brasil depois da nova ortografia, e com toda a força. Tenho aqui um dedo que adivinha que o teria feito mesmo sem AO nenhum; afinal, fez o mesmo em Angola, e por lá, embora tenham assinado o acordo como toda a gente, ainda não o ratificaram, portanto ainda não o puseram em prática.
Ponhamos os pezinhos na terra, sim? O Brasil é muito mais apelativo para as empresas do ramo do que Portugal. Porque enquanto nós definhamos sob a botifarra da troika e do Merkozy, eles lá crescem. Porque enquanto nós temos, com muito boa vontade, uns cinco milhões de leitores, eles lá têm talvez uns quinze ou vinte; lê-se proporcionalmente menos no Brasil, é certo, mas, como a população é muito maior, o total de leitores também é. Porque as nossas empresas têm de depender de distribuidoras para cobrir um país que é maior do que às vezes parece, enquanto eles lá nem precisam de cobrir o seu gigantesco território, porque só nas duas maiores zonas metropolitanas, Rio de Janeiro e São Paulo, vivem alguns 30 milhões de pessoas, mais do que suficientes para dar sustentabilidade a pequenas editoras. Querem mais motivos? Olhem que há.
Portanto, se há interesse em penetrar no outro grande mercado da língua, ele existe muito mais do lado português do que do brasileiro. O Brasil, para Portugal, é importante; Portugal, para o Brasil, nem por isso. E se julgam que o AO tem nisso grande influência, desiludam-se.
Posso dar-vos o meu exemplo pessoal. Sim, é verdade que uma das minhas traduções foi comprada pela Leya Brasil e foi publicada por lá, com grande sucesso comercial. Parece que os livros do Martin têm feito no Brasil tanto sucesso como cá, e também lá andam a competir pelos primeiros lugares dos tops de vendas. Mas a tradução foi adaptada, não foi publicada como cá. E este não foi o primeiro caso de uma tradução portuguesa reutilizada no mercado brasileiro, muito longe disso (é outra das tais coisas que existem desde sempre), nem será o último.
E o impacto que isso teve na minha conta bancária… meh.
Além do mais, os mercados estão separados. Quando se compram os direitos de tradução, compram-se para Portugal ou para o Brasil, não para a língua portuguesa como um todo. Porque apesar de falarmos a mesma língua, falamos dialetos diferentes e isso, como já vimos, não é nenhum ajustamento ortográfico que poderá alterar. Com AO ou sem ele, os livros continuarão a ter maioritariamente uma tradução cá e outra diferente lá. Ou várias; há livros que têm basicamente uma tradução por edição. E isto não acontece tanto por uma questão de interesses financeiros, como de realidades linguísticas.
(Mais um parêntesis para uma ressalva: é muito provável que a entrada em força do digital no setor do livro acabe por alterar esta realidade. Mas, de novo, isso acontecerá com AO ou sem ele.)
E acabámos por chegar a quase três mil palavras (que estabeleci como limite absoluto para estas publicações) só falando de duas coisas para que o AO não serve. Vou deixar por aqui. Talvez ainda volte a esta primeira parte, não sei; talvez não valha a pena, uma vez que a maior parte das pessoas fala de uma qualquer variante do primeiro ponto que abordei, e há outras coisas para as quais se diz que o acordo serve que estão só um pouco ao lado daquilo para que realmente serve. Talvez fale dessas na última parte. Mas por hoje fico-me por aqui. Prometendo continuar, claro.
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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Transignorâncias (2): E o mais importante é?...
Para alguns, é simples: o mais importante na literatura é, sem sinal de sombra de dúvida, o tratamento dado à língua. Tendem a ser fãs de escritores como o Lobo Antunes, a quem elogiam profusamente a pureza da frase ou a qualidade poética das imagens, e parte deles tende também a desprezar com grande empenho toda a literatura (frequentemente esmagada sob o peso de epítetos vários, entre os quais o de subliteratura não será o mais violento) que se preocupa mais com outros aspetos da arte de narrar através de palavras do que propriamente com o encadeamento que estas tomam nas frases.
Mas estes são só um bando no grande aviário dos literatos. Existem também os que se preocupam primordialmente com a história; existem os que têm na mensagem o seu principal foco de interesse; existem aqueles que se deliciam acima de tudo com as personagens, outros ficam de beicinho com a construção de mundos que subjaz às histórias, outros com a imaginação de que o autor dá mostras, outros com a falta dela (sim, há quem prefira a falta de imaginação à imaginação, a adesão às fórmulas à inovação), e etc., e etc., e variadíssimos eteceteras.
Tudo isto estaria muito bem, muito certo, muito correto, muito ainda bem que assim é, se cada um destes bandos não possuísse em si uma fação mais ou menos talibânica e frequentemente muito ruidosa, que reivindica para a sua forma de olhar a literatura a VERDADE, assim mesmo, em maiúsculas e negrito, ao mesmo tempo que lança fatwas contra todas as outras heresias… digo… literaturas.
E depois, claro, seguem-se as guerras santas.
Pessoalmente, enquanto fã de longa data de ficção científica, sou um passaroco que tende a esvoaçar por perto dos bandos da história e da construção de mundos. Ou, dito de um modo mais genérico, sinto-me mais à vontade no superbando do conteúdo do que no da forma. É por isso que só com dificuldade trago Lobo Antunes, mesmo reconhecendo e dando valor à qualidade formal daquilo que produz. É porque o conteúdo dele não me interessa, porque não desenvolve, porque rumina e rerrumina sem sair do mesmo sítio do princípio ao fim dos seus livros. É por isso que detestei os contos que Isabel Cristina Pires incluiu n’A Casa em Espiral. Porque, independentemente de estarem bem escritas ou deixarem de o estar, achei aquelas histórias absolutamente vácuas. Lê-las foi, para mim, pura perda de tempo. E podia dar dezenas de outros exemplos de coisas formalmente boas, ou até muito boas, que não despertam em mim a mais pequena vontade de aplaudir.
Mas estou muito longe de encarar esta preferência como a VERDADE.
Já foi tempo. Entretanto cresci.
Isto voltou a ficar claro esta semana, ao ler o conto de Asimov de que falo uns posts mais abaixo. É um conto que, como disse na opinião sobre ele, corporiza uma abordagem específica à ficção científica. Não se limita a ser cem porcento conteúdo, preocupando-se pouco ou nada com a forma, mas recorre a um tipo específico de conteúdo, a ideia, como força motriz quase exclusiva. Foram contos deste género que levaram alguns a chamar à FC a “literatura das ideias” (expressão que me parece muito disparatada, mas isso ficará para outra altura). E eu, sempre que leio um conto destes, penso com os meus botões: “Daquilo que acabei de ler, que resta quando a ideia se esgotar?”
É que as ideias se esgotam. Esgotam-se quando são tantas vezes usadas que se transformam em clichés. Esgotam-se quando a evolução da ciência, da tecnologia, de qualquer ramo do pensamento humano, as torna obsoletas, coisas do passado. Esgotam-se, em suma, quando deixam de ser válidas. E isso é algo que, temo bem, acaba por acontecer a todas. Nenhuma ideia dura para sempre. Chega um dia em que se descobre que morreu. E que as histórias-ideia baseadas nela morreram com ela.
A não ser que tenham em si alguma coisa além da ideia.
Por exemplo, consideremos outro conto de ficção científica escrito mais ou menos na mesma época, por outro monstro sagrado, o Clarke. A Estrela. Trata este, caso não o conheçam, de um padre cristão que regressa de uma viagem interestelar ao sistema de uma estrela que teria explodido como supernova por volta do ano zero da nossa era, tornando-se assim a Estrela de Belém. O conto tem a ideia, brilhante, e ainda aditivada por aquilo que a expedição descobre a orbitar essa estrela (não vou dizer o que é; leiam o conto, que vale bem a pena). Mas além disso está bem escrito, com uma qualidade de prosa bastante superior à do Asimov. E para além disso, tem um protagonista que, no contexto de um conto, com as limitações inerentes ao formato e à dimensão, está muito bem construído enquanto personagem. É um conto que, posso apostar já aqui, perdurará durante muito mais tempo do que o de Asimov.
Ou consideremos outro ainda, também da mesma época, escrito por mais um dos monstros sagrados da FC, o Bradbury. Virão Chuvas Suaves. É um conto, para os infelizes que não o conhecem, que leva quem o lê por uma viagem pelos automatismos em falha de uma casa automática e que termina com uma das imagens mais terrivelmente belas que a ficção científica alguma vez produziu, esclarecendo o porquê dos automatismos da casa estarem em falha. A ideia, apesar de ótima, talvez não seja tão arrebatadora como as dos outros dois. Mas este conto é eterno. Porque lê-lo é como dançar uma valsa, tal é o ritmo que ele tem. Porque está muito, muito, muito bem escrito. Porque nos fala de um momento da história da nossa civilização, um momento em que havia um medo muito real de que algo como aquilo poderia de facto vir a acontecer, e remete para um outro momento em que algo como aquilo realmente aconteceu, apesar de então ainda não existirem casas automáticas. Dos três, será sem qualquer dúvida este a perdurar por mais tempo. É o mais completo enquanto objeto literário. Além de conteúdo tem também forma. Ambos ótimos.
O que eu quero dizer com isto é que quando os escritores se limitam a explorar uma única faceta da sua arte até podem explorá-la muito bem, até podem ganhar assim o seu público, mas só muito dificilmente chegarão à verdadeira grandeza. Para o fazerem só com a ideia, esta tem de ser absolutamente extraordinária. Se a ideia não for assim tão extraordinária, terão de lhe acrescentar qualquer coisa, personagens, mensagem, worldbuilding, tratamento da linguagem, seja o que for. E se o que acrescentarem também não for assim tão extraordinário, terão de lhe acrescentar mais uma demão, e assim sucessivamente.
Sublinho, porque julgo ser necessário, que aqui os termos são quase inteiramente intermutáveis. Não importa qual das facetas se usa como exemplo, pois todas elas poderiam servir. Comecei pela ideia como poderia ter começado pelas personagens ou por qualquer outro dos eteceteras com que abri este texto. E só está ali o quase, as facetas só não são mesmo inteiramente intermutáveis, porque julgo haver algumas mais fundamentais do que outras, isto é, algumas cuja ausência, ou cuja presença abaixo de uma quantidade mínima, é capaz de estragar até as mais talentosas explorações das demais. Para mim, sem uma competência mínima no manejo da língua em que se escreve, por exemplo, nada resulta. Sem um mínimo de conteúdo, tudo é perda de tempo. E eis a resposta à pergunta que intitula este texto. O mais importante é o que é imprescindível, aquilo que, quando está ausente, faz com que o edifício desmorone. Para mim, essas coisas são a competência no uso da língua e o conteúdo. Sem isso presente, pelo menos até certo ponto, nada feito. Sem isso presente, nem vale a pena começar.
Para o leitor que sou, são essas as fundações da literatura que me interessa. Havendo esse mínimo de competência no uso da língua e esse mínimo de conteúdo pode-se então começar a adicionar outras coisas, a tornar o edifício cada vez mais alto e complexo. Personagens, mais competência no uso da língua, enredo, umas ideias espalhadas aqui e ali, mais competência no uso da língua, coisas mais imponderáveis, mais fantasmagóricas, mais subjetivas, como o sentido de maravilha, ritmo, descrições, mais competência no uso da língua, cenário e assim por diante. Por outras palavras, pode-se ir acrescentando qualidade global através de sucessivos incrementos em todas estas qualidades parcelares.
No extremo, chegamos à literatura ideal, aquela que me agrada mesmo. Esta possui tudo isto. Não só ideias, não só personagens, não só novidade, não só qualidade no manejo do português (ou seja de que língua for, entre aquelas que eu entendo), não só enredo, não só isto ou aquilo. Tudo. É raro, mas já tenho lido coisas assim. E, antes que perguntem, em vários géneros, incluindo aquele saco de gatos chamado mainstream literário.
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Mas estes são só um bando no grande aviário dos literatos. Existem também os que se preocupam primordialmente com a história; existem os que têm na mensagem o seu principal foco de interesse; existem aqueles que se deliciam acima de tudo com as personagens, outros ficam de beicinho com a construção de mundos que subjaz às histórias, outros com a imaginação de que o autor dá mostras, outros com a falta dela (sim, há quem prefira a falta de imaginação à imaginação, a adesão às fórmulas à inovação), e etc., e etc., e variadíssimos eteceteras.
Tudo isto estaria muito bem, muito certo, muito correto, muito ainda bem que assim é, se cada um destes bandos não possuísse em si uma fação mais ou menos talibânica e frequentemente muito ruidosa, que reivindica para a sua forma de olhar a literatura a VERDADE, assim mesmo, em maiúsculas e negrito, ao mesmo tempo que lança fatwas contra todas as outras heresias… digo… literaturas.
E depois, claro, seguem-se as guerras santas.
Pessoalmente, enquanto fã de longa data de ficção científica, sou um passaroco que tende a esvoaçar por perto dos bandos da história e da construção de mundos. Ou, dito de um modo mais genérico, sinto-me mais à vontade no superbando do conteúdo do que no da forma. É por isso que só com dificuldade trago Lobo Antunes, mesmo reconhecendo e dando valor à qualidade formal daquilo que produz. É porque o conteúdo dele não me interessa, porque não desenvolve, porque rumina e rerrumina sem sair do mesmo sítio do princípio ao fim dos seus livros. É por isso que detestei os contos que Isabel Cristina Pires incluiu n’A Casa em Espiral. Porque, independentemente de estarem bem escritas ou deixarem de o estar, achei aquelas histórias absolutamente vácuas. Lê-las foi, para mim, pura perda de tempo. E podia dar dezenas de outros exemplos de coisas formalmente boas, ou até muito boas, que não despertam em mim a mais pequena vontade de aplaudir.
Mas estou muito longe de encarar esta preferência como a VERDADE.
Já foi tempo. Entretanto cresci.
Isto voltou a ficar claro esta semana, ao ler o conto de Asimov de que falo uns posts mais abaixo. É um conto que, como disse na opinião sobre ele, corporiza uma abordagem específica à ficção científica. Não se limita a ser cem porcento conteúdo, preocupando-se pouco ou nada com a forma, mas recorre a um tipo específico de conteúdo, a ideia, como força motriz quase exclusiva. Foram contos deste género que levaram alguns a chamar à FC a “literatura das ideias” (expressão que me parece muito disparatada, mas isso ficará para outra altura). E eu, sempre que leio um conto destes, penso com os meus botões: “Daquilo que acabei de ler, que resta quando a ideia se esgotar?”
É que as ideias se esgotam. Esgotam-se quando são tantas vezes usadas que se transformam em clichés. Esgotam-se quando a evolução da ciência, da tecnologia, de qualquer ramo do pensamento humano, as torna obsoletas, coisas do passado. Esgotam-se, em suma, quando deixam de ser válidas. E isso é algo que, temo bem, acaba por acontecer a todas. Nenhuma ideia dura para sempre. Chega um dia em que se descobre que morreu. E que as histórias-ideia baseadas nela morreram com ela.
A não ser que tenham em si alguma coisa além da ideia.
Por exemplo, consideremos outro conto de ficção científica escrito mais ou menos na mesma época, por outro monstro sagrado, o Clarke. A Estrela. Trata este, caso não o conheçam, de um padre cristão que regressa de uma viagem interestelar ao sistema de uma estrela que teria explodido como supernova por volta do ano zero da nossa era, tornando-se assim a Estrela de Belém. O conto tem a ideia, brilhante, e ainda aditivada por aquilo que a expedição descobre a orbitar essa estrela (não vou dizer o que é; leiam o conto, que vale bem a pena). Mas além disso está bem escrito, com uma qualidade de prosa bastante superior à do Asimov. E para além disso, tem um protagonista que, no contexto de um conto, com as limitações inerentes ao formato e à dimensão, está muito bem construído enquanto personagem. É um conto que, posso apostar já aqui, perdurará durante muito mais tempo do que o de Asimov.
Ou consideremos outro ainda, também da mesma época, escrito por mais um dos monstros sagrados da FC, o Bradbury. Virão Chuvas Suaves. É um conto, para os infelizes que não o conhecem, que leva quem o lê por uma viagem pelos automatismos em falha de uma casa automática e que termina com uma das imagens mais terrivelmente belas que a ficção científica alguma vez produziu, esclarecendo o porquê dos automatismos da casa estarem em falha. A ideia, apesar de ótima, talvez não seja tão arrebatadora como as dos outros dois. Mas este conto é eterno. Porque lê-lo é como dançar uma valsa, tal é o ritmo que ele tem. Porque está muito, muito, muito bem escrito. Porque nos fala de um momento da história da nossa civilização, um momento em que havia um medo muito real de que algo como aquilo poderia de facto vir a acontecer, e remete para um outro momento em que algo como aquilo realmente aconteceu, apesar de então ainda não existirem casas automáticas. Dos três, será sem qualquer dúvida este a perdurar por mais tempo. É o mais completo enquanto objeto literário. Além de conteúdo tem também forma. Ambos ótimos.
O que eu quero dizer com isto é que quando os escritores se limitam a explorar uma única faceta da sua arte até podem explorá-la muito bem, até podem ganhar assim o seu público, mas só muito dificilmente chegarão à verdadeira grandeza. Para o fazerem só com a ideia, esta tem de ser absolutamente extraordinária. Se a ideia não for assim tão extraordinária, terão de lhe acrescentar qualquer coisa, personagens, mensagem, worldbuilding, tratamento da linguagem, seja o que for. E se o que acrescentarem também não for assim tão extraordinário, terão de lhe acrescentar mais uma demão, e assim sucessivamente.
Sublinho, porque julgo ser necessário, que aqui os termos são quase inteiramente intermutáveis. Não importa qual das facetas se usa como exemplo, pois todas elas poderiam servir. Comecei pela ideia como poderia ter começado pelas personagens ou por qualquer outro dos eteceteras com que abri este texto. E só está ali o quase, as facetas só não são mesmo inteiramente intermutáveis, porque julgo haver algumas mais fundamentais do que outras, isto é, algumas cuja ausência, ou cuja presença abaixo de uma quantidade mínima, é capaz de estragar até as mais talentosas explorações das demais. Para mim, sem uma competência mínima no manejo da língua em que se escreve, por exemplo, nada resulta. Sem um mínimo de conteúdo, tudo é perda de tempo. E eis a resposta à pergunta que intitula este texto. O mais importante é o que é imprescindível, aquilo que, quando está ausente, faz com que o edifício desmorone. Para mim, essas coisas são a competência no uso da língua e o conteúdo. Sem isso presente, pelo menos até certo ponto, nada feito. Sem isso presente, nem vale a pena começar.
Para o leitor que sou, são essas as fundações da literatura que me interessa. Havendo esse mínimo de competência no uso da língua e esse mínimo de conteúdo pode-se então começar a adicionar outras coisas, a tornar o edifício cada vez mais alto e complexo. Personagens, mais competência no uso da língua, enredo, umas ideias espalhadas aqui e ali, mais competência no uso da língua, coisas mais imponderáveis, mais fantasmagóricas, mais subjetivas, como o sentido de maravilha, ritmo, descrições, mais competência no uso da língua, cenário e assim por diante. Por outras palavras, pode-se ir acrescentando qualidade global através de sucessivos incrementos em todas estas qualidades parcelares.
No extremo, chegamos à literatura ideal, aquela que me agrada mesmo. Esta possui tudo isto. Não só ideias, não só personagens, não só novidade, não só qualidade no manejo do português (ou seja de que língua for, entre aquelas que eu entendo), não só enredo, não só isto ou aquilo. Tudo. É raro, mas já tenho lido coisas assim. E, antes que perguntem, em vários géneros, incluindo aquele saco de gatos chamado mainstream literário.
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Transignorâncias: Compasso de espera
Tinha planeado, visto os feriados que se seguem coincidirem com fins de semana, publicar as transignorâncias desta semana e da próxima a meio da semana, por volta da quarta ou quinta-feira. Até já tinha texto pronto e tudo. Mas a verdade é que...
... nesta altura do ano ninguém as leria, não é? Não vale grandemente a pena estar a publicá-las agora se não vão ser lidas (ou pelo menos só o vão ser mais tarde), certo?
Então faz-se assim: faz de conta que o anúncio foi uma espécie de número zero e a coisa só começa mesmo a sério em 2012.
... nesta altura do ano ninguém as leria, não é? Não vale grandemente a pena estar a publicá-las agora se não vão ser lidas (ou pelo menos só o vão ser mais tarde), certo?
Então faz-se assim: faz de conta que o anúncio foi uma espécie de número zero e a coisa só começa mesmo a sério em 2012.
sábado, 10 de dezembro de 2011
Transignorâncias (1): Se não sei o que não sei, que sei eu?
Tinha pensado começar esta série de textos com temas sugeridos pela resposta abortada ao comentário do Henry de que falei na semana passada. Mas durante a semana li uma frase num dos livros que tenho atualmente em leitura que me fez começar por algo mais genérico. Ei-la: “A ignorância é o terreno do pensamento.”
Esta frase é uma versão de tradutor de algo escrito por Ursula K. LeGuin, muito provavelmente a melhor escritora de ficção científica de sempre e claramente membro do grupo de elite de grandes escritores que o género deu à literatura durante o século XX, mesmo quando retiramos o sexo da equação.
E o motivo que me levou a começar estes textos por aí é achá-la inteiramente certeira ao mesmo tempo que a vejo também como incompleta. E porque me sugeriu o palavrão com que intitularei genericamente estes posts. E, bem, porque me apeteceu.
Sim, a ignorância é o terreno do pensamento. É na ignorância que o pensamento se processa, só a ignorância, aliás, o permite. Um ser que de facto fosse omnisciente, um ser que realmente soubesse tudo o que há para saber, nunca pensaria, limitar-se-ia a saber. Não procuraria respostas porque já as conheceria a todas, não faria perguntas porque também estas conheceria por inteiro. Seria dotado de um acervo estático de conhecimento. Infinito, sim, mas estático. A sua atividade mental resumir-se-ia a encontrar nessa biblioteca infinita as parcelas de conhecimento que lá estariam guardadas e, como também o local de armazenamento de cada informação faz parte de toda a informação que há para conhecer, uma criatura omnisciente nem precisaria de procurar. De novo, limitar-se-ia a saber. E assim, de uma forma muito concreta, criatura que fosse omnisciente pura e simplesmente não pensaria.
Lembrem-se disto da próxima vez que vos disserem que deus é omnisciente.
A não-ignorância, portanto, sufoca o pensamento. Mas a ignorância não basta. É preciso também ter-se dela consciência. Julgar que se sabe as respostas é um inibidor quase tão eficiente de perguntas como sabê-las de facto. Ou seja, se é certo que a ignorância é o terreno do pensamento, este só se processa quando essa ignorância é consciente.
Seria bom se se soubesse sempre por onde passa a fronteira entre o que se conhece e o que não se conhece. Seria bom poder traçá-la, plantar solidamente os pés mentais do lado do conhecido e atirar o pensamento ao desconhecido, mergulhando-o naquilo que se ignora. Mas geralmente não é assim. No máximo, sabe-se que essa fronteira está algures por ali, difusa e pouco nítida. No máximo, há a consciência de que é perfeitamente possível que terreno que se julga sólido esteja minado, cheio de bichezas. De preconceitos, ideias falsas, verdades parciais ou parcelares, carunchos vários. Quando há essa consciência pode-se ir pensando de uma forma interativa, regressando atrás de vez em quando para verificar se as conclusões a que o pensamento leva confirmam ou põem em causa o que se julgava saber. É essa a única maneira de se pensar bem.
Quando essa consciência de terreno minado não existe, quando se julga saber o que na realidade não se sabe, só por grande e afortunado acaso será possível evitar pensar mal. É possível pensar, sim, pois para o fazer basta a ignorância, mas do resultado pouco ou nada se aproveitará. Com base em coisa nenhuma, pode construir-se grandes e detalhados castelos de vento, cheios de torres e muralhas, ameias e adarves, mas só por sorte haverá na sua essência algo mais que nada.
O que quero dizer com isto é que a ignorância será o terreno do pensamento, sim senhora, dona Úrsula, mas a consciência é o seu motor e o combustível que o faz funcionar. A consciência e uma espécie muito peculiar de humildade. A mesma humildade de que os homens de ciência se socorrem quando aceitam submeter as suas elaboradas teorias ao tira-teimas da experiência.
Esta frase é uma versão de tradutor de algo escrito por Ursula K. LeGuin, muito provavelmente a melhor escritora de ficção científica de sempre e claramente membro do grupo de elite de grandes escritores que o género deu à literatura durante o século XX, mesmo quando retiramos o sexo da equação.
E o motivo que me levou a começar estes textos por aí é achá-la inteiramente certeira ao mesmo tempo que a vejo também como incompleta. E porque me sugeriu o palavrão com que intitularei genericamente estes posts. E, bem, porque me apeteceu.
Sim, a ignorância é o terreno do pensamento. É na ignorância que o pensamento se processa, só a ignorância, aliás, o permite. Um ser que de facto fosse omnisciente, um ser que realmente soubesse tudo o que há para saber, nunca pensaria, limitar-se-ia a saber. Não procuraria respostas porque já as conheceria a todas, não faria perguntas porque também estas conheceria por inteiro. Seria dotado de um acervo estático de conhecimento. Infinito, sim, mas estático. A sua atividade mental resumir-se-ia a encontrar nessa biblioteca infinita as parcelas de conhecimento que lá estariam guardadas e, como também o local de armazenamento de cada informação faz parte de toda a informação que há para conhecer, uma criatura omnisciente nem precisaria de procurar. De novo, limitar-se-ia a saber. E assim, de uma forma muito concreta, criatura que fosse omnisciente pura e simplesmente não pensaria.
Lembrem-se disto da próxima vez que vos disserem que deus é omnisciente.
A não-ignorância, portanto, sufoca o pensamento. Mas a ignorância não basta. É preciso também ter-se dela consciência. Julgar que se sabe as respostas é um inibidor quase tão eficiente de perguntas como sabê-las de facto. Ou seja, se é certo que a ignorância é o terreno do pensamento, este só se processa quando essa ignorância é consciente.
Seria bom se se soubesse sempre por onde passa a fronteira entre o que se conhece e o que não se conhece. Seria bom poder traçá-la, plantar solidamente os pés mentais do lado do conhecido e atirar o pensamento ao desconhecido, mergulhando-o naquilo que se ignora. Mas geralmente não é assim. No máximo, sabe-se que essa fronteira está algures por ali, difusa e pouco nítida. No máximo, há a consciência de que é perfeitamente possível que terreno que se julga sólido esteja minado, cheio de bichezas. De preconceitos, ideias falsas, verdades parciais ou parcelares, carunchos vários. Quando há essa consciência pode-se ir pensando de uma forma interativa, regressando atrás de vez em quando para verificar se as conclusões a que o pensamento leva confirmam ou põem em causa o que se julgava saber. É essa a única maneira de se pensar bem.
Quando essa consciência de terreno minado não existe, quando se julga saber o que na realidade não se sabe, só por grande e afortunado acaso será possível evitar pensar mal. É possível pensar, sim, pois para o fazer basta a ignorância, mas do resultado pouco ou nada se aproveitará. Com base em coisa nenhuma, pode construir-se grandes e detalhados castelos de vento, cheios de torres e muralhas, ameias e adarves, mas só por sorte haverá na sua essência algo mais que nada.
O que quero dizer com isto é que a ignorância será o terreno do pensamento, sim senhora, dona Úrsula, mas a consciência é o seu motor e o combustível que o faz funcionar. A consciência e uma espécie muito peculiar de humildade. A mesma humildade de que os homens de ciência se socorrem quando aceitam submeter as suas elaboradas teorias ao tira-teimas da experiência.
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