quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Típica conversa ao telemóvel com a minha mãe

As minhas conversas ao telemóvel com a minha mãe são todas mais ou menos assim:

Telefono eu. Ela atende. Levo meio minuto a ouvir ruídos de fundo e entretando vou dizendo:
— Tou?... Tou?... Tou?...
— Tou?
— Tás-me a ouvir?
— Tou?
— Tás, sim. Tás-me a ouvir ou não?
— Tou?
— Arre! Tás!
— Lá está outra vez esta bodega avariada.
Desliga. Eu volto a ligar. Repete-se a cegarrega de ruídos de fundo e de tou-tou-tás-tou, até que eu, já farto, berro:
— TOU!
— Ai, Jorge, para que estás aí a berrar? Que disparate é esse?
Eu engulo em seco.

E paciência, vende-se?

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Lido: Discurso Inaugural

Discurso Inaugural é um conto de ficção científica do argentino Fabián Labeau, já com uns aninhos em cima, que é precisamente aquilo que o título indica: o discurso de um cientista de renome que inaugura uma conferência. Como todos os contos do género, trata-se de infodump puro, e aí reside a sua principal fraqueza, embora haja bem pior. O orador conta, para benefício da plateia, a história de uma peculiar família de moléculas que terão a propriedade de causar nas pessoas distúrbios comportamentais violentos e que teriam sido usadas no dinheiro durante boa parte do século XX. Quem acha que a FC se resume a ideia talvez goste desta história... ou não, no caso de achar a dita disparatada. Eu, confesso, não acho que a ideia seja das melhores e não gosto mesmo nada (e cada vez gosto menos) deste tipo de contos. Não gostei. Quem tiver curiosidade, encontra-o aqui.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Lido: Noite de Paz

Noite de Paz é um conto curto de Nuno Markl, escrito em jeito de sketch como seria de esperar dos antecedentes do autor, no qual o Pai Natal e o Menino Jesus se encontram inopinadamente numa dada casa nas vésperas do natal e se põem a discutir um com o outro sobre qual deles teria direito a dar ali presentes. É, topa-se à légua, um texto de Markl, repleto das peculiaridades que o autor põe no que escreve para a rádio e a TV. É um texto escrito para ter piada, não para ter valor enquanto objeto literário. E tem alguma, mas confesso que não lhe achei muita. A culpa, nisso? É tanto minha como do conto, parece-me.

O efeito placebo e os casmurros

Toda a gente sabe o que é o efeito placebo: dá-se um comprimido de qualquer coisa inócua a um doente, convence-se o pobre de que se trata de um medicamento, e o comprimido tem realmente um efeito terapêutico, apesar de não servir para nada. Li ou ouvi algures há algum tempo que o efeito placebo é responsável por qualquer coisa como 40 a 60 porcento da eficácia dos tratamentos médicos. Embora ainda ninguém saiba com toda a certeza como é que o placebo funciona, parece que tem a ver com a ação das hormonas de stress que, como toda a gente sabe, têm um efeito inibidor sobre o sistema imunitário. Ao convencer-se o doente de que está a ser tratado de uma forma eficaz, os seus níveis de stress reduzem-se e é o próprio sistema imunitário do seu corpo que produz a cura, ou pelo menos a atenuação dos sintomas e da gravidade da doença.

Infelizmente, isto também quer dizer que existe uma espécie de efeito placebo inverso. Se o doente mete na cabeça que o tratamento que está a receber não tem nenhum efeito positivo ou, pior um pouco, que só o põe mais doente, é certo e sabido que acaba mesmo por piorar ou pelo menos por não obter do tratamento todo o seu potencial. É ele próprio que combate a cura. É ele próprio que causa a deterioração da sua saúde por pura falta de crença na eficácia da medicina.

E é por isso que é tão desesperante lidar com doentes casmurros, daqueles que metem uma coisa na pinha e não desbancam. Especialmente quando se trata de pessoas que queremos ter por perto para sempre. Porque queremos ajudá-los mas eles não deixam e não percebem (ou talvez não lhes importe) que ao não deixarem estão não só a prejudicar-se a si próprios mas também a esfrangalhar-nos os nervos a nós. Porque lhes explicamos as coisas e não acreditam. Porque acham que sabem melhor do que toda a gente como as coisas são, apesar de tudo indicar o contrário. Porque, porra, são casmurros como o raio que os parta.

É um desespero. É uma frustração que se vai acumulando até parecer que a única coisa que nos preenche é a vontade de gritar. É insuportável. E não há solução. Apesar de apetecer enfiar-lhes as coisas na cabeça, à marretada se necessário, isso de nada serve. É inútil sequer tentar. Nada entra.

E isto também se aplica, diga-se de passagem, embora de uma forma mais suave, a outros casmurros que, não estando doentes, também beneficiariam sobremaneira da ajuda que lhes poderíamos dar.

Lido: O Mundo de Jon

O Mundo de Jon (bib.) é uma noveleta de Philip K. Dick sobre viagens no tempo. Como muitas vezes acontece, o motor da história é a vontade, por parte de um grupo de cientistas, de regressar a um ponto do passado e alterar um acontecimento crucial que terá desencadeado uma sucessão de outros acontecimentos que terão desembocado num presente de pesadelo. Neste caso, presente deles, futuro nosso. Já todos vimos variações desta história no cinema e na TV (nos filmes da série Terminator e na série Sarah Connor Chronicles, por exemplo), e é bem sabido que quando isso acontece estamos já no reino do cliché. Ora, o facto de ter no seu fulcro um cliché tantas vezes utilizado reduz significativamente o impacto desta história de Dick, mesmo sabendo-se que ela tem já mais de meio século de existência e que a transformação das ideias em cliché foi posterior.

Mas mesmo descontando esse fator não me parece que esta seja uma das boas histórias de Dick. Porque o forte de Dick, aquilo que o içou à condição de monstro sagrado da FC, é a criação de uma atmosfera paranoica e os enredos complexos e imprevisíveis, e aqui não encontramos nem uma coisa nem a outra. De facto, a história é bastante previsível desde o início, o que só é amplificado pelas visões de que o filho do protagonista sofre, filho esse que só aparece na história para, precisamente, nos "mostrar" as tais visões, uma opção que me parece algo contraproducente. Como além do mais há uma série de diálogos tão didáticos que roçam a velha pecha de muita FC que é o como-sabes-Bob, acabei por achar o todo bastante insatisfatório.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Lido: The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories

The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories é um pequeno (115 páginas) livro de Tim Burton que tem desde 2007 edição portuguesa, mas eu li no original. Trata-se de um livro de pequenos poemas que contam histórias igualmente pequenas sobre bizarras criaturinhas cheias de desespero existencial. Crianças, quase todas, e quase todas dotadas de uma ou mais características insólitas que as separam da vulgaridade e as transformam em párias. O rapaz que é meio ostra do título, a rapariga feita de lixo, a outra que é uma boneca de vodu, a que olha fixamente, etc.

Há horror nestas historinhas. E melancolia e insólito com fartura. E o desespero existencial de que falei acima. Mas o que achei mais interessante no livro foi a estranha mistura entre um ritmo e uma atmosfera tão sugestivos das histórias e rimas infantis com o humor bem negro que perpassa por quase todos os poemas e historietas. Um exemplo muito curtinho, traduzido por mim agora mesmo num instante:
James

Insensatamente, o Pai Natal ofereceu a James um ursinho de peluche, sem saber que
ele tinha sido mutilado por um urso pardo alguns meses antes.
Estão a ver, não é? São pequenos textos muito sugestivos, muitos dos quais resultariam igualmente bem em verso e em prosa, independentemente das rimas que contêm. E além disso, todos estão profusamente ilustrados pelo próprio Burton, com desenhos que, não raro, dão às historinhas uma camada adicional de significado. É um livro muito bom. Compreendo perfeitamente quem o adora.

Independentemente disso, esta não é propriamente a minha praia. Julgo que gostei o mais que me seria possível gostar de um livro deste tipo, mas não o terminei com aquela sensação de satisfação emocional que se obtém das leituras de que gostamos mesmo. Ou talvez tenha sido uma questão de timing. Talvez na altura em que o li não estivesse com abertura de espírito para este tipo de macabro, que por mais doce que seja não deixa de ser isso mesmo: macabro. Talvez. O certo é que gostei, mas não muito.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Lido: O Anibaleitor

O Anibaleitor é uma curta novela de Rui Zink que acompanha as desventuras e o crescimento de um jovem aventureiro e ignorante, o qual, depois de se ver obrigado a embracar por causa de uns mal-entendidos com a polícia (mal-entendidos nenhuns; o puto era larápio), vem a descobrir que o navio em que se engaja tem um comandante enlouquecido, à Ahab, o qual tem por único objetivo na vida a captura de um estranho animal gigantesco e mitológico, que ele afirma a pés juntos que existe, e que se chama "anibaleitor".

Depois não há propriamente o naufrágio das histórias de aventuras, mas o protagonista é atirado ao mar por uma onda enorme e claro que vai mesmo encontrar o tal anibaleitor, que se vem a revelar um gorila gigantesco, falante, sem paciência para parvoíces e amante da literatura que obtém dos livros que vão dando à costa na sua ilha.

A partir daí, a história transforma-se num hino à leitura e à literatura, numa autêntica aula sobre o que significa ler, a sua utilidade, qual a relação que existe entre o escritor, o que ele escreve e o que o leitor vai ler, a subjetividade inerente ao ato de leitura e o que é, de facto, a qualidade. Uma aula a que muita gente muito senhora do seu nariz, que anda por aí a debitar disparates sobre estas coisas, teria toda a urgência em assistir. Tudo muito cheio de referências, claro, começando pelo próprio Anibaleitor, que é uma versão muito zinkiana do King Kong.

À semelhança de Firmin, aqui comentado há um par de meses, é mais um livro que se socorre do fantástico para tecer comentários sobre a sociedade em que vivemos e, também como em Firmin, fá-lo através da relação entre a nossa sociedade e os homens que a constituem, por um lado, e os livros pelo outro. Ainda como em Firmin, está também aqui tratado o tema da aceitação da diferença ou da intolerância para com ela. Mas as semelhanças acabam aí. O livro de Zink é mais divertido e menos melancólico, apesar de também ter a sua dose de melancolia, em especial na visão do mundo que o Anibaleitor tem (bastante cínica, e quem pode censurá-lo?) e no desenlace da história.

Tudo somado, gostei bastante. Não é nenhuma obra-prima, tem um tipo de humor que nem sempre ressoa bem com o meu mas que quando ressoa chega a ser capaz de me pôr a gargalhar. Além disso tem conteúdo, e um conteúdo francamente interessante, o que nem sempre acontece. E lê-se duma penada, com a fluidez e limpidez dum riacho de montanha. Recomendo.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Lido: A Conspiração dos Abandonados

A Conspiração dos Abandonados (bib.), livro de "contos neogóticos" de António de Macedo, conforme se esclarece à laia de subtítulo, contém as seis ficções listadas abaixo, com links para as opiniões sobre cada uma. Apesar da unidade sugerida pelo título da coletânea e pelos títulos das histórias, estas são bastante diferentes umas das outras e vão desde registos próximos ao conto tradicional até exercícios que se achegam ao horror cósmico à Lovecraft, passando pela recuperação de temas e ambientes que o autor já antes tinha explorado.

É um livro em que as qualidades e defeitos das prosas de Macedo estão bem patentes. Como acontece quase sempre, agradaram-me muito mais as histórias em que Macedo se dedica a um fantástico mais tradicional do que aquelas em que trilha outros caminhos, sempre mais ou menos esotéricos. Curiosamente, ou talvez não, aquelas são as histórias mais curtas que este livro contém e o grosso do volume é composto por estas. Para o meu gosto pessoal isso é problema sério e faz com que, embora tenha mais ou menos gostado de dois dos contos não tenha gostado do livro como um todo. Gostos diferentes terão opiniões diferentes, como é natural. Mas há um problema que é mais objetivo e teria sempre impedido que eu tivesse gostado muito deste livro: os diálogos. Com raras exceções, falta aos diálogos de Macedo a naturalidade, o saber usar o registo oral, que lhes daria vida e interesse. Todas as personagens falam da mesma forma, e todas soam insuportavelmente presunçosas. E eu cada vez gosto menos de quando isso acontece.

Quanto às histórias, são estas:

Lido: A Cidade Abandonada

A Cidade Abandonada (bib.) é uma noveleta de António de Macedo que ressoa com a miríade de histórias que foram sendo escritas ao longo dos séculos XIX e XX sobre escavações arqueológicas e as coisas diabólicas, perigosas e/ou inesperadas que os imprudentes arqueólogos ou caçadores de tesouros nelas encontram. Tem, contudo, a originalidade e o interesse (note-se que este interesse é genérico; não significa necessariamente que me tenha interessado a mim) de passar-se no Iraque, entre portugueses, na época que se sucedeu à guerra e em que esteve estacionada no país, concretamente em Nassíria, uma companhia da GNR. Tem também a originalidade e o interesse de acabar por envolver viagens no tempo, com paradoxo e tudo. E tem também, naturalmente, aquelas coisas habituais no autor: uma dose elevada de hermetismo, dimensões paralelas e criaturas sobrenaturais, e diálogos que eu acho quase sempre demasiado explicativos e forçados. Para quem gosta dos temas e escrita do autor, esta noveleta deve ser um belo acepipe altamente recomendável. Eu, que só raramente gosto, achei-a chatíssima (e não há nada mais subjetivo do que o que é chato ou deixa de o ser), não só porque o tema propriamente dito não me interessou, mas também porque me pareceu tratado de forma demasiado demorada e arrastada. É bastante provável que este segundo porquê seja em boa medida consequência do primeiro. E quanto ao primeiro, o problema está mais em mim do que em António de Macedo: não me lembro de ter lido alguma história deste género que me tivesse realmente despertado o interesse, fosse qual fosse o autor. Arqueologias amaldiçoadas despertam-me sempre vontade de bocejar.

Lido: Enquanto Durar o Sol

Enquanto Durar o Sol (bib.) é mais um conto de Italo Calvino protagonizado pelo eterno extraterrestre Qfwfq, embora neste caso talvez seja mais correto dizer-se que é protagonizado pela família do eterno extraterrestre Qfwfq, pois o conto debruça-se sobre as desavenças conjugais entre o avô de Qfwfq e a avó, a pretexto da decisão sobre onde passar a residir depois de a família inteira ter sido expulsa do anterior local de residência pela explosão duma supernova. Passa-se isto nos primórdios do sistema solar, na época em que a própria estrela ainda se ia condensando a partir da sua nebulosa original, e a talhe de foice Calvino vai transmitindo aos leitores umas noções elementares de cosmologia que até nem distorce muito, para variar. Apesar disso e da ironia "familiar", ou talvez por causa de ambas as coisas, não gostei por aí além deste conto.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Adamastor

Com certeza não haverá muitos leitores deste blogue que não saibam já da iniciativa, mas como me pediram para divulgar, cá vai. Até porque eu acho a ideia boa, embora de concretização francamente complicada no que toca às autorizações, em especial de material mais antigo mas ainda sujeito a direitos de autor e/ou de material recente cujos autores pretendam reeditar... o que na verdade é mais um motivo para que a coisa tenha toda a divulgação que for possível. Quanto mais gente houver a conhecer o que se passa, mais fácil, em teoria, será encontrar-se alguém que saiba como contactar Fulano ou Beltrano para obtenção das tais autorizações.

Trata-se do Projeto Adamastor, que pretende criar uma biblioteca virtual de ficção especulativa elaborada mais ou menos nos moldes do Projeto Gutenberg. Julgo que não vale a pena reproduzir aqui na Lâmpada o texto que apresenta a ideia. Podem lê-lo aqui. No mesmo local têm acesso a uma sondagem sobre se a ideia vos interessa e de que forma vos interessa.

Vão lá até lá, andem. Andor. A Lâmpada não foge, podem ficar descansados.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Pedimos desculpa por esta interrupção...

... o programa segue dentro de momentos.

A conjugação de uma tradução em fase de conclusão (concluída hoje, pim pam pum, fogo de artifício e acrobatas), tradução essa puxada por mais do que um motivo, com problemas familiares sérios e uma série de outras confusões, sarilhos e turbulências na vida offline levou à paralização deste blogue durante quase um mês. A gerência lamenta e promete despertá-lo muito em breve. Talvez ainda não para regressar à atividade normal, mas quase.

Até já.

domingo, 21 de novembro de 2010

Desafio 5: Sustenta-me o olhar

O quinto desafio que me propuseram foi fazer uns versos em volta da frase "sustenta-me o olhar". E eu atirei umas memórias ao ar, misturei-as com palavras, e saiu isto:

Sustenta-me o olhar

Sustenta-me o olhar
se conseguires
porque ele é fogo, é aço, é ácido
que não corrói
é tornado em violência
que não destrói

Sustenta-me o olhar
se conseguires
porque dele nascem mundos inteiros
mares e rios, plantas e animais
e tudo o mais
e mesmo embrulhados em ligeireza
podem ser pesados demais

Sustenta-me o olhar
se conseguires
eu quero pôr-to inteiro nas mãos
para com ele fazeres
o que bem entenderes
basta para isso que sejas capaz
de me sustentares o olhar

Sustenta-me o olhar
Se não conseguires
não te esqueças de acrescentar mais uma letra
ao epitáfio do homem infeliz
Reza assim:
“quem o quis não o mereceu
quem mereceu não o quis.”

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Desafio 4: Insetos

O quarto desafio que me propuseram foi escrever uns versos sobre insetos. Quem mo propôs é uma notória bichófoba (todo e qualquer bicho, parece, não só insetos), e eu estive tentado a causar-lhe arrepios escrevendo uns versos cheios de bicharada a rastejar por cima da pele do(a) leitor(a), a ficar-lhe presa nos cabelos, a enfiar-se-lhe na roupa, enfim, estive tentado a fazer-lhe uma grande maldade.

Mas como a moça até é boa moça acabei por decidir ir por outra via, que até, quem sabe, possa mesmo chegar a contribuir para melhorar um pouco a noção de inseto que ela tem. E aqui fica o resultado:

Ah, que bom que é ser inseto

Ah, que bom que é ser inseto!
Ter mil imagens de ti nos meus olhos facetados
um milhar de lentes todas elas fitas em ti
ver-te em cores, mil elas também
construídas com azuis, vermelhos, verdes e ultravioletas
e tentar decidir se és cato ou se és flor
ou flor com espinhos, que também as há assim

Ah, como é boa toda esta queratina!
Ouvir a tua voz em estéreo ultra-surround
vibrações de jazz, dissonâncias, melodias
que através de todas as seis patas
me chegam direitinhas ao tubo cardíaco
e o obrigam a pulsar ao ritmo que definem

Ah, que delícia o teu cheiro nas antenas!
Moléculas de ti que agora me pertencem
moléculas que nem sabes que perdeste
mas que eu guardo como pedras preciosas
e que bom ter asas, poder abri-las e lançar-me à aragem
poder batê-las e lançar-me à voragem
poder orbitar-te como a Terra orbita o Sol
preso da refulgência de quem és
e alimentar-me da tua luz mascarado de girassol

Ah, tão bom, tão, tão bom é ser inseto!
Na verdade só o tamanho ma atraiçoa
por isso te escrevo estas linhas na esperança de que as leias
e assim saibas, quando por fim pousar em ti
que não pico nem aferroo, que só desejo o teu bem
e assim resistas ao instinto primeiro de todos os mamíferos
e me poupes ao destino provável de todos os insetos
o de acabar esborrachado, apanhado do chão
e deitado para o lixo sob o peso insuportável
de um esgar de nojo e inabalável repugnância

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Desafio 3: Vida

O terceiro desafio foi-me dado pelo twitter. Já agora, aproveito para esclarecer uma coisa em relação aos temas: prefiro que eles me sejam dados aqui no blogue, mas podem vir por qualquer outro meio e, seja qual for a via, é o primeiro a chegar que conta. Se me chegar mais do que um num dado dia, o segundo poderá ser utilizado se não me ocorrer nada para o primeiro; se não for fica de reserva para algum dia que não apareça nenhum desafio. E quem diz "dia" diz dois ou três, porque não vou fazer sempre isto todos os dias.

Dito isto, o tema que me chegou ontem foi a vida. Pano para mangas, não é? Pois. Mas como a inspiração não era muita fui buscar um par de versos excelentes do John Lennon e o lego seguiu a partir daí.

A Vida

A vida é aquela coisa que nos acontece
quando estamos distraídos planeando coisas diferentes
é o que fazemos mesmo se não apetece
é a soma dos sins e dos nãos, dos provavelmentes
é um navio aos tombos
e nós, os que a vivemos
os que nela nascemos e por ela morremos
de sua festa somos os bombos

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Desafio 2: O Banquete

Eu sabia que me iam logo atirar com coisas escorregadias. Acho muito bem.

Pois acontece que aqui há dias escrevi um tuito em que dava conta do meu desagrado quando me deparava com descrições pomenorizadas de comida nas minhas traduções. Dá uma trabalheira e abranda a velocidade da tradução. É uma chatice. E aqui está alguém a propor-me como tema de uns quantos versos um banquete, pois que mais havia de ser? Lembrando-se de um certo autor de que eu não digo o nome (coffgeorgerrmartincoff), mas que vai falando de comida com grande profusão ao longo da série de livros de fantasia que traduzi.

Então tá bem. Cá ficam eles, os versos sobre um banquete:

O banquete

No centro da larga mesa, uma bandeja
onde um javali se derrete em gordura
à volta gritos, risos, arrotos e bocejos
a um canto um casal enovela-se em ternura
e há quem apalpe seios entre beijos
pratos tilintam, bebe-se seja o que seja

Criados circulam por ali sem serem vistos
a menos que se estatelem, imprevistos
levam pratos vazios, trazem-nos cheios
eles ligeiros e sisudos elas num vento de chilreios
trovadores dedilham harpas e trauteiam
belas melodias que os outros só desfeiam

E junto à lareira, entre as sombras oculto
um vulto monumental de imensas barbas
entre pernas de frango e tragos de cerveja
vai observando com olhos vivos o tumulto
e murmurando “é isso mesmo, é mesmo assim”
rabisca num papel, com uma pena de marfim
“No centro da larga mesa, uma bandeja…”

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Vou precisar da vossa colaboração, meus caros

Há coisa de hora e meia, não interessa porquê, pus-me a ler os meus velhos spamemas. Para quem não acompanha este blogue há tempo suficiente, explico de que se trata: poemas, com ou sem pseudo, que fui fazendo ao longo de um ano inteiro, baseados no spam que me ia chegando à caixa do correio no dia em causa. O ano era bissexto, portanto acabaram por somar 366. Foi principalmente assim que alimentei a Lâmpada durante esse ano, e na época houve quem me dissesse que gostava.

Pois bem, agora estive a reler alguns desses spamemas, e fiquei com saudades de fazer algo do género. Mas o tempo não volta para trás, e a fase da spamesia está encerrada e não deve ser reaberta. Mas apetece fazer algo do género.

Pus-me a pensar, e acho que encontrei a solução. Peço-vos a vocês temas, títulos, frases que devem ser incluídas, e construo uns versos à volta deles e delas. O primeiro pedido é que vale, a não ser que por mais voltas que dê à cabeça não me sugira nada. O resultado aparecerá na Lâmpada no próprio dia ou nos dias seguintes, e assim que apareça está aberto o desafio seguinte.

Como é, rapaziada? Vamos nessa?

Para começar, apanhei uma amiga no messenger e pedi-lhe um tema. Ela deu-mo. E aqui está o resultado:

Cai a Lua

Cai a Lua, presa de fios invisíveis às estrelas
elásticos de noite que se esticam para o infinito
desenhando constelações assustadoras de tão belas

Cai a Lua, amarrada ao centro dos teus olhos
por girândolas de canções, alecrim aos molhos

Cai a Lua, e o céu tem pena
pois sem lua sente-se sem alma
Mas há que ter calma
há sempre a calma

domingo, 31 de outubro de 2010

Lido: Bruce en la Casetera

Bruce en la Casetera é um conto já algo antigo de Pablo J. Muñoz que pode ser encontrado aqui. Trata-se de uma história pós-apocalíptica ambientada ou na Argentina ou no Chile e centrada à volta de três personagens: o protagonista, que se chama Nico, outro homem chamado "el Taino", e Marisol, uma rapariga que é encontrada semimorta por Nico e el Taino bastante depois destes dois, julgando-se os únicos sobreviventes de um holocausto nuclear, pelo menos nas redondezas, terem encetado uma relação homossexual. El Taino, ao que parece, é mesmo homossexual, ao passo que para Nico aquele foi o seu primeiro amante do mesmo sexo, com o qual tem uma relação que parece obedecer à máxima "quem não tem cão caça com gato". Isto é importante para o desenrolar da história visto que o aparecimento de alguém do sexo oposto vai criar um triângulo que a empurra para o desenlace.

Não sendo uma grande história de ficção científica (enquanto FC até deixa algo a desejar; não se percebe bem, por exemplo, onde eles estão e como é que tanto tempo depois do holocausto que destrói a civilização ainda há eletricidade para os eletrodomésticos e os jogos de vídeo), é uma boa história, bastante bem escrita, com personagens bem construídas e credíveis, e uma situação que é ao mesmo tempo banal e iconoclasta dada a idade do conto. E o fim é muito, muito bom. Está aprovado.

Lido: Nanny

Nanny (bib.) é um conto de Philip K. Dick que faz lembrar um pouco os contos dos Superbrinquedos do Brian Aldiss ou alguns contos de Bradbury, especialmente aquele sobre o quarto holográfico, A Selva. Todos estes contos têm como premissa a entrega do ato de cuidar dos filhos, em todo ou em parte, a dispositivos automáticos, em especial robots. Mas Dick leva o seu conto num sentido bem diferente, como seria de esperar. Nanny é, como já terão entendido, um robot. É sua a responsabilidade pelos filhos de um casal, cabendo-lhe discipliná-los, acompanhá-los e protegê-los. Mas a sociedade é ferozmente capitalista, e as nannies são construídas por várias corporações rivais. Ora, qual é o objetivo primário duma corporação? Maximizar o lucro, evidentemente. E que melhor forma haverá para maximizar o lucro do que destruir as nannies produzidas pelos rivais, reduzindo a competição, aumentando a procura e melhorando a imagem de qualidade? Afinal, qualquer pai vai querer para os filhos a melhor nanny do mercado, ou não será assim?

Só não é um conto excelente porque sofre demasiado do fator "como sabes, Bob". Dick põe demasiadas vezes as personagens a dar umas às outras informação que ambas conhecem, para benefício exclusivo do leitor. Mas ainda assim, é uma ótima crítica ao capitalismo e às consequências da corrida aos armamentos que tanto obcecava a América durante os anos 50. Boa e muito recomendável leitura nestes tempos de roubalheira desenfreada.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Lido: Firmin

Firmin (bib.) é um romance do escritor americano Sam Savage. Firmin é, também, o nome do protagonista desse romance. Firmin é, ainda, uma ratazana.

Sim, trata-se de um romance protagonizado por uma ratazana e mais: trata-se também de um romance narrado por uma ratazana, pois está escrito na primeira pessoa. Mas não é uma ratazana qualquer. É uma ratazana bibliófila e, ocasionalmente, bibliófaga, que nasceu e viveu a vida toda num velho edifício em cujo andar térreo funciona um alfarrabista. E é essa contingência da existência que vai solidificar na ratazana protagonista um amor pelos livros (e também, até certo ponto, pelo cinema, pois no mesmo bairro há também um velho, gasto e porco cinema onde a ratazana vai alimentar-se) que nada fica a dever a qualquer de nós, os macacos bípedes que normalmente os lemos.

A história acompanha toda a vida de Firmin e, através dela, a decadência final do bairro, condenado para ceder lugar a grandes investimentos imobiliários. E em parte também a decadência de uma certa forma de relacionamento quer entre as pessoas e a cidade, quer entre as pessoas e a palavra escrita e os locais a ela consagrados na cidade. É também uma história de paixões, pois é de paixão em paixão que a nossa ratazana vai vivendo a sua vida. Primeiro pelos livros, depois pelo dono da livraria, mais tarde por um escritor de ficção científica que mora por cima da livraria e sobrevive vendendo ele próprio os livros que escreve e publica em edições de autor, e assim sucessivamente. E é uma história sobre a diferença e a solidão, porque a ratazana, com os seus modos de rato sábio, vai tornar-se estranha para a sociedade das ratazanas, mas não vai nunca conseguir ser aceite pelos seus irmãos de espírito humanos pelo facto inalterável de ser uma ratazana.

E é isto o que o livro tem de melhor: esta multiplicidade de camadas e de temas.

Basta isso para me parecer ser um bom livro, embora nem tenha gostado muito dele. O estilo de Savage não me enche propriamente as medidas, e parece-me, aqui e ali, que o ritmo narrativo fraqueja um pouco. Nada de grave, e embora não tenha gostado assim muito, gostei desta leitura. Não acho o livro uma obra-prima, mas é um livro simpático, que se lê com um certo gosto. Uma fábula moderna muito ligada a este vício de virar páginas para ver o que acontece naquela que vem a seguir. Não será livro imprescindível, mas julgo ser livro recomendável.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Lido: O Caixão Abandonado

O Caixão Abandonado (bib.) é um conto de António de Macedo sobre um homem, alcoólico, que trabalha como jardineiro num convento por ser o único lugar que conseguiu arranjar e um belo dia (ou nem por isso) encontra abandonado no jardim um caixão em perfeito estado de conservação. Após a descoberta inicial, durante o resto do conto decorre uma lenta procura de informação sobre o caixão, o convento, as freiras, etc. Apesar do desfecho ser algo óbvio, é um conto com interesse, que a meu ver vale sobretudo pela construção do protagonista e é algo estragado por algum humor que me pareceu deslocado na atmosfera agoirenta que sem ele seria construída. Coisas como a barbuda piadola que transforma hackers em ácaros, para dar um exemplo entre vários possíveis. Não tendo desgostado, portanto, também não se pode dizer que tenha gostado.

Lido: A Lua Como um Cogumelo

A Lua Como um Cogumelo (bib.) é outro conto de Italo Calvino no qual prontifica o eterno extraterrestre Qfwfq. Este trata do nascimento da Lua, e descreve uma movimentada história que começa numa Terra antiquíssima e sem Lua, coberta por um oceano pouco profundo habitado por um povo de pescadores, na qual começa a dada altura a surgir à superfície uma bolha de rocha que vai crescendo e se torna território cobiçado por um dos mais famigerados bandidos da época. Após um conjunto de peripécias mais ou menos aventurosas, essa bolha de rocha, essa maré sólida, acaba por transformar-se na Lua, deixando a Terra, cá em baixo, separada em oceanos e continentes e não já sob as águas de um oceano global. Uma história surreal e imaginativa, como costumam ser as histórias de Qfwfq, ainda que não tão divertida como algumas das outras.

domingo, 24 de outubro de 2010

Lido: Contos Acrónicos

Ao contrário do que o título parece indicar, Contos Acrónicos, de António Eça de Queiroz, não é um livro de contos, mas sim um romance. Nem sequer é um romance em mosaicos, uma coletânea de contos interligados, um romance fragmentário, como queiram chamar-lhe. É um romance, ponto.

Trata da história de um tal Lamas, bibliotecário, contada por um tal "o outro", fantasmagórico interveniente na história que em geral funciona apenas como narrador e no qual se reconhece sem qualquer dificuldade a pessoa do autor. Mas também no Lamas (com o qual, aliás, o narrador por vezes se mistura) esse reconhecimento acontece, o que dá à história um tom marcadamente autobiográfico — há, pelo menos, bastantes coincidências entre a história de vida de Lamas e o par de parágrafos biográficos sobre o autor que vêm na contracapa do livro —, se bem que falar-se aqui de história talvez seja levar o significado do termo um pouco longe demais. Com efeito, o romance é, mais que uma história, uma coleção de episódios desencontrados e em grande medida desenquadrados, historietas, pinceladas que não chegam a formar um todo coerente. O objetivo parace ter sido criar com a palavra uma espécie de retrato impressionista da personagem principal, mas não me parece ter tido sucesso, ou pelo menos esse sucesso não é mais que parcial.

Entremeados no romance, aqui e ali, aparecem toques de fantástico, de um tipo que em geral remete para o realismo mágico apesar de também surgirem por vezes referências à ficção científica. Adotando a definição todoroviana do termo que diz que fantástico é tudo aquilo que deixa dúvidas sobre se a sua natureza é real ou sobrenatural, talvez haja passagens suficientes neste livro a pretender deixar essa incerteza no ar para que se possa inscrevê-lo na literatura fantástica. Pessoalmente, porém, não é assim que penso nele. Pareceu-me um exercício não particularmente bem sucedido e bastante desconexo de romantizar uma história de vida, no qual o fantástico é introduzido como forma de a tornar menos desinteressante. É uma abordagem que não me agrada e não gostei do resultado. Foi com dificuldade, e devagarinho, que levei a leitura até ao fim, apesar da língua portuguesa não sair em nada maltratada desta centena e meia de páginas. Basta isto, julgo eu, para fazer com que haja quem aprecie esta leitura. Não foi o meu caso.

Lido: O Livro do Deslumbramento

O Livro do Deslumbramento é provavelmente a mais conhecida obra do Lorde Dunsany, e é certamente aquela que o transformou num dos grandes percursores da fantasia moderna. Não este Livro do Deslumbramento que a Saída de Emergência publicou, note-se. Este é uma espécie de coletânea de coletâneas, pois reúne num só dois livros diferentes, publicados originalmente em 1912 e 1916.

A edição faz todo o sentido. O segundo livro original é uma espécie de sequela do primeiro, mantendo em grande medida o tom e o(s) ambiente(s) daquele. Mas também é verdade que há diferenças. As histórias do primeiro livro têm uma frescura e um humor, muitas vezes autorreferencial, muitas vezes fazendo pensar na possibilidade do autor se estar a referir, sinuosamente, disfarçadamente, ironicamente, a situações e personagens com que se teria ido deparando no decurso da sua vida, que em boa parte falta às do segundo. Estas são mais variadas, tanto em ambiente e atmosfera como até em extensão. As do primeiro são todas bastante curtas, e várias parecem autênticos esboços de subgéneros inteiros da fantasia que foram aprofundados mais tarde por autores como Robert E. Howard ou Fritz Leiber, ou mesmo outros que se apropriaram do lado mais surrealista destas fantasias. Ao lê-las, se por um lado se reconhece nelas um imenso potencial não explorado por Dunsany, por outro vê-se também uma frescura e novidade que estão muito para além do alcançado por autores posteriores. No segundo livro há menos de tudo isso. De frescura, como já foi dito, mas também de potencial não explorado.

Contudo, há coisas que unem estas 33 histórias. O estilo do autor, claro, que pouco muda entre 1912 e 1916; Uma certa abordagem comum às histórias fantásticas, que vai buscá-las quase diretamente às lendas e aos contos populares. E o facto de quase todas terem interesse. É certo que os leitores mais dados ao aprofundar minucioso da ficção poderão sentir-se frustrados por muitas delas, as mais esboçadas, é certo que qualquer leitor com alguma experiência de fantasia já conhecerá muitas das ideias que aqui encontra, mas há sempre algo de especial na água que brota duma nascente. E várias destas histórias são muito boas. Este é um bom livro.

Para saberem o que achei de cada história, aqui têm uma lista completa:

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ainda sobre edição, agora mais a sério

Há uma citação, atribuída a um almirante americano chamado Hyman Rickover, que reza assim: "Great men talk about ideas; Mediocre men talk about things; Small men talk about people." Traduzindo: "Grandes homens falam sobre ideias; Homens medianos falam sobre coisas; Homens pequeninos falam sobre pessoas." Isto, embora todos nós façamos as três coisas de vez em quando, tem muito de verdadeiro. Quando se desce das ideias para as coisas está a reduzir-se o nível da conversa, e quando destas se começa a falar de Fulano ou Beltrano ela bate no fundo. Quanto mais medíocre é o indivíduo, mais frequente é trazer a conversa para este nível rasteiro do diz-que-disse, e isto pode observar-se em todos os campos, da vida do dia-a-dia de cada um de nós aos níveis pretensamente mais elevados da política das nações.

Adaptando a coisa à literatura e à maneira de se falar do que é editado, esta máxima poderia ser adaptada a algo como isto: "Grandes homens falam dos livros; Homens medianos falam da vertente criadora dos autores; Homens pequeninos falam das editoras." E, claro, os homens realmente rascas não falam nem de livros, nem de autores, nem de editoras, mas das qualidades ou defeitos que os autores têm, em seu entender, enquanto pessoas.

Que quero eu dizer com isto?

Que o que importa é a obra. Falar-se do autor, mesmo que enquanto criador, não pode nunca substituir-se à leitura de cada um dos livros que ele escreveu, individualmente considerados. Porque o talento não se revela ao só escrever-se obras-primas, mas sim na proporção de material de qualidade que é produzido ao longo de uma carreira (de toda a carreira, o que faz com que as pessoas realmente inteligentes evitem fazer juízos de valor apressados sobre autores enquanto estes ainda estão capazes de criar) relativamente ao que não a tem, ou a tem em menor quantidade. Cada livro é um livro. Cada conto um conto é. Cada poema um poema. Todos diferentes, todos merecedores duma análise individualizada (a não ser que façam parte de séries, claro, ou quando se está fazer um apanhado da obra do autor X).

E se falar-se do autor enquanto criador deve ceder lugar à obra, por maioria de razão falar-se da editora em que a obra sai ou deixa de sair é atirar completamente ao lado. Porque se aquilo que envolve a obra (capa, marketing, distribuição, rigor e cuidado na edição, etc.) depende da editora, a obra propriamente dita não depende. Sendo verdade que a qualidade média das obras publicadas vai diminuindo das boas editoras para as más, não é menos verdade que há obras muito más editadas por editoras muito boas e vice-versa. Miguel Torga, grande escritor português do século XX, várias vezes nomeado para o Nobel, publicou boa parte da sua obra em edições de autor; ao Cristiano Ronaldo não faltam editoras ansiosas por fechar contrato.

De editoras pode e deve falar-se quando o assunto são as práticas comerciais desonestas em que algumas incorrem, ou aquilo que delas depende no processo de edição. Quando o assunto é a obra, falar-se seja do que for que não seja a obra é mostrar com toda a clareza que se está a Leste, que não se percebe nada do assunto, que não se tem a mais pequena credibilidade. Ou, pior, que a má-fé que por vezes move quem assim age pega no que encontra com o único fito de atacar obras ou autores que não consegue atacar de outra maneira. E assim voltamos à adaptação da citação do senhor Rickover.