segunda-feira, 28 de março de 2011

Agradecimentos públicos

Ainda sobre o meu pai, queria deixar aqui um agradecimento público ao pessoal de Oncologia do Hospital de Faro, muito em particular o pessoal de enfermagem. O pessoal de enfermagem foi exemplar no tratamento do meu pai e, apesar do segundo tratamento de quimioterapia ter sido o que o deitou abaixo mais depressa, também não tenho queixas do pessoal médico. A quimioterapia, sendo embora o melhor método de que dispomos para atacar o cancro, é um método tosco, que faz quase tanto mal à parte do corpo que está saudável como ao cancro propriamente dito. Ou às vezes, como no caso do meu pai, faz pior ao corpo saudável do que ao cancro. E à partida nunca se sabe como as pessoas reagem. Não é culpa dos médicos que o meu pai tivesse reagido mal.

(O agradecimento não se estende ao pessoal administrativo. Não me esqueço, nem perdoo, que o pedido de consulta tenha andado perdido durante dois meses.)

Igualmente agradeço ao pessoal do Hospital de S. Camilo, em Portimão, onde ele acabou por morrer. Conseguiram tornar-lhe suportáveis os últimos dias de vida, quando já não havia qualquer esperança. Também aí foram exemplares.

Não posso dizer o mesmo do Hospital do Barlavento. Embora também aí haja boa gente, tanto entre o pessoal médico como de enfermagem (e a esses agradeço), nem todas aquelas pessoas estão talhadas para a função que exercem. Algumas precisam de aprender que os doentes que lá têm internados são pessoas com direito à dignidade. Compreendo o excesso de trabalho e as dificuldades decorrentes da sobrelotação do hospital, mas se alguns dos vossos colegas conseguem manter-se a um nível aceitável vocês também tinham obrigação de conseguir. Infelizmente, no HBA tive contacto com enfermeiras cuja real vocação era de caixas de supermercado (e com pelo menos uma médica também). Mas também contactámos aí com gente boa, e a essas pessoas também quero agradecer aqui.

Obrigado a todas estas pessoas, em meu nome e no de toda a família. Mas espero não vos voltar a ver nunca. Não é por mal.

domingo, 27 de março de 2011

Isto de ter razão é giro

Recebi há minutos uma notificação. Alguém tinha deixado um comentário num velho post aqui da Lâmpada. Neste velho e polémico post, mais precisamente. O comentário trazia um link para um vídeo do YouTube, doze minutos sobre a coleção Argonauta e principalmente sobre as edições do livro Estação de Trânsito do Clifford D. Simak. O vídeo arruma o assunto de vez, espera-se. Com factos, livros, essas coisas. Nem um deliriozinho para amostra. Assim é que deve ser.

Do que lá é dito só discordo de uma coisa: na minha opinião, a Argonauta não acabou por causa da mudança de formato. Já antes lhe tinham dado o golpe de misericórdia, aí por meados da década de 90, desbaratando décadas de prestígio com as piores traduções que vi na vida e livros que se começavam a desfazer no momento em que eram abertos. Foi isso que matou a Argonauta. A mudança de formato foi apenas uma tentativa desastrada de tapar o rombo. Concordo que só conseguiu escancará-lo mais, mas o rombo já estava feito. E o navio foi mesmo ao fundo.

sábado, 26 de março de 2011

1935-2011

Faz hoje três semanas que morreu o meu pai. E aqui a Lâmpada tem estado à espera que eu ganhe coragem para fazer este post. O terceiro post do ano, agora que este está prestes a concluir o seu terceiro mês, porque antes da morte houve a fase mais terrível e devastadora da doença e eu estive com a cabeça muito, muito longe daqui.

Não poderia voltar ao blogue sem fazer este post. Pensei por várias vezes fazê-lo mas em nenhuma dessas vezes deitei mesmo mãos à obra. Gostaria de poder fazê-lo dizendo ao meu pai tudo o que ficou por dizer, mas ficou tanto, tanto por dizer que não seria um post, seria uma série deles, e se ficasse à espera de escrever tudo antes de regressar à Lâmpada esta ficaria parada durante imenso tempo. Talvez para sempre. E o meu pai ficaria muito triste com isso. Este blogue foi durante muito tempo a sua única concessão ao mundo dos computadores. Lia-o sempre que o apanhava aberto e me apanhava por fora. Por isso entristecê-lo-ia muitíssimo não só que o blogue acabasse, mas que fosse ele a causar o seu fim. Portanto regresso agora à Lâmpada, e tenciono retomar o ritmo normal um destes dias. Para já, falo do meu pai e com o meu pai, num post relativamente pequeno que não é uma despedida mas um recomeço. E agora com licença que tenho de falar com ele.

Olá, pai.

Não te assustes, nem comeces já a gozar comigo. Não me converti a nenhuma teoria esotérica, descansa. Estou plenamente consciente de que não me ouves nem lês. Mas preciso de falar com aquilo que de ti ficou em mim, percebes?, e um modo de o fazer é assim. Como se ainda me pudesses ler, como se ainda pudesses olhar-me enquanto escrevo isto.

Queria só dizer-te, para já, que lamento imenso não termos podido ter uma última e longa conversa. Que a doença e os opiáceos que te tiravam as dores também te tenham roubado cedo demais o discernimento para essa conversa. Que eu tenha calado muitas coisas para te tentar dar alguma esperança e algum ânimo nos últimos meses da tua vida. Talvez tivesse sido melhor se tivéssemos tido essa conversa, tu e eu, de pai para filho, de amigo para amigo e de homem para homem. Ficou tanto por dizer!

É terrível quando ficam coisas por dizer.

Um dia dir-te-ei tudo, mesmo sem que me possas ouvir nem ler. Para já fica só isto. Amo-te, pai. Sempre amei e sempre amarei. E tudo na minha vida foi determinado ou influenciado por ti e pela tua, coisa de que julgo que nunca chegaste a ter plena consciência. Mais tarde te explicarei melhor como. É uma promessa que te faço aqui e agora. Mais tarde.

Por agora, só mais uma coisa. Tudo o que eu escreva e publique é para ti. Tudo o que traduza é para ti. Percebes? Tudo. E nem assim conseguirei algum dia pagar a dívida que tenho para contigo.

Pronto, chega por agora. Mais tarde continuarei, mas não aqui na Lâmpada. Quando tiver tempo e força para isso. Até lá.

PS: O meu pai tem um pequeno artigo na Wikipédia, que não foi criado por mim (nem por ninguém que eu conheça, aliás) mas que acabei de alterar. Provavelmente irei completá-lo no futuro, mas não será em breve.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Declaração de voto

No domingo vou votar no José Manuel Coelho.

Por vários motivos. Em primeiro lugar, porque todos os votos válidos em qualquer dos candidatos que não o Cavaco ajudam a que haja uma segunda volta e seja possível pôr em Belém um presidente digno desse nome. O Coelho não seria um presidente digno desse nome, tal como o Cavaco não o foi nem será se voltar a ganhar, mas não tem a mais pequena hipótese de ser ele a conquistar um lugar na segunda volta e esse é o segundo motivo do meu voto. O terceiro é o dinheiro. Numa altura em só se fala em crise, numa altura em que se corta em salários, numa altura em que o estado está em pleno saque aos contribuintes, o dinheiro deitado pela janela pelos candidatos principais é simplesmente pornográfico. Maior gastador? Cavaco, pois claro, apesar da nojenta hipocrisia de não pôr outdoors "para poupar". É preciso mesmo não ter qualquer espécie de vergonha na cara. Já o Coelho está a fazer uma campanha artesanal, gastando o mínimo dos mínimos. Isso seria de incentivar em qualquer altura, mas mais ainda em época de crise. Portanto, conquistou o meu voto. Na primeira volta.

Na segunda, será em qualquer candidato que não o Cavaco. Votar Cavaco é o mesmo que dizer "roubem-me que eu gosto".

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Leituras de 2010

Em 2010, ainda que não regressando propriamente ao meu normal de mais de 50 livros lidos por ano, já me aproximei bastante, apesar de tudo. Não se compara com a miséria do ano passado: li muito mais. Leituras ecléticas, como devem ser sempre, com preponderância de FC na primeira metade do ano e de outas coisas na segunda.

Os livros propriamente ditos, lidos por lazer mas todos comentados na Lâmpada ao longo do ano, somaram 39. A lista completa é a seguinte:

1- Conduzindo às Cegas, de Ray Bradbury (contos de fantasia e mainstream);
2- Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (romance de FC; distopia política);
3- E Tudo o Tempo Levou, de Ward Moore (romance de história alternativa e FC);
4- Na Praia de Chesil, de Ian McEwan (romance mainstream);
5- Relatório Minoritário, de Philip K. Dick (noveleta de FC);
6- A Ignorância, de Milan Kundera (romance mainstream);
7- O Terror, de Arthur Machen (uma novela e uma noveleta de horror);
8- Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson (um romance e contos de horror);
9- À Espera do Ano Passado, de Philip K. Dick (romance de FC);
10- O Menino de Cabul, de Khaled Hosseini (romance mainstream);
11- Crónicas Marcianas, de Ray Bradbury (coleção de contos interligados de FC);
12- O Hotel "A Queda do Alpinista", de Arkadi e Boris Strugatski (romance de FC policial);
13- O Vírus Entranhado, de Arsénio Mota (contos fantásticos e mainstream);
14- Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?, de António Lobo Antunes (romance mainstream);
15- Crônicas, de Gerson Lodi-Ribeiro (contos de FC);
16- Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira (romance fantástico);
17- Nação Crioula, de José Eduardo Agualusa (romance mainstream);
18- A Mão de Midas, de Jack London (contos fantásticos e mainstream);
19- Eis o Homem, de Michael Moorcock (novela de FC; viagem no tempo);
20- Uma Nova História Universal da Infâmia, de Rhys Hughes (contos surrealistas e borgesianos);
21- O Império do Medo, de Brian Stableford (romance misto de FC, horror e história alternativa);
22- Histórias de Mistério e Imaginação, de Edgar Allan Poe (contos de horror, aventuras e policial);
23- Rock'n'roll Altitude, de vários autores (contos temáticos, sobre rock, de HA e fantasia);
24- Uma Noite não São Dias, de Mário Zambujal (novela de antecipação e humor);
25- Carbono Alterado, de Rochard Morgan (romance de FC);
26- Histórias Fantásticas (Inglesas e Americanas), de vários autores, org. por Cabral do Nascimento (contos fantásticos, especialmente de fantasmas);
27- Quantas Madrugadas Tem a Noite, de Ondjaki (romance mainstream/fantástico);
28- Por Outros Mundos, de A. A. Attanasio (romance alegadamente de FC);
29- As Intermitências da Morte, de José Saramago (romance fantástico);
30- Outros Brasis, de Gerson Lodi-Ribeiro (coletânea de história alternativa);
31- A Feiticeira do Douro, de Eduardo Augusto de Faria (novela de fantasia);
32- A Casa Quieta, de Rodrigo Guedes de Carvalho (romance mainstream);
33- Deste Mundo e do Outro, de José Saramago (crónicas e pequenos contos, a maioria fantásticos);
34- O Livro do Deslumbramento, de Lorde Dunsany (contos de fantasia);
35- Contos Acrónicos, de António Eça de Queiroz (romance mainstream com toques fantásticos);
36- Firmin, de Sam Savage (romance fantástico);
37- A Conspiração dos Abandonados, de António de Macedo (contos fantásticos e de horror);
38- O Anibaleitor, de Rui Zink (novela fantástica);
39- The melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories, de Tim Burton (livro de poesia insólita e de horror)

A acrescentar aos livros li também revistas, que funcionam praticamente como se fossem antologias periódicas e portanto também contam para o total. E já tinha dito isto no ano passado. São mais 4:

40- Ficções, nº 11 (contos mainstream e fantásticos);
41- Asimov's, nº 323 (contos e poemas de FC);
42- Scarium, nº 21 (contos de horror e FC baseados na obra de Lovecraft);
43- Asimov's, nº 321-322 (contos e poemas de FC e história alternativa)

Por fim, e de novo tal como no ano passado, também li alguns livros por obrigação laboral. Também estes foram quatro, o que faz com que o total de leituras chegue a 47. Quase 4 por mês:

44- Dune, de Frank Herbert (romance de FC);
45- Dreamsongs, de George R. R. Martin (contos e novelas de FC, horror e fantasia; parte foi lida sem obrigação laboral);
46- Fool's Errand, de Robin Hobb (romance de fantasia épica);
47- Golden Fool, de Robin Hobb (romance de fantasia épica)

O melhor do ano? De caras e sem qualquer dúvida Quantas Madrugadas Tem a Noite, de Ondjaki. O podium completa-se com as velhinhas Crónicas Marcianas, de Bradbury, e As Intermitências da Morte, de Saramago, embora tenha havido outros livros de que gostei o suficiente para quase desalojarem um destes dois. Em especial Dreamsongs, do Martin, e Admirável Mundo Novo, de Huxley. Na verdade, são talvez uns 10 os livros lidos este ano que se podem agrupar numa pilhazinha de leituras bastante agradáveis, e algumas delas com surpresa. Livros de que gostei bastante mais do que estava à espera.

Mas também li livros maus, ou melhor, livros de que não gostei mesmo nada ou gostei muito pouco. O pior, de novo de caras e sem a mínima hesitação, foi A Feiticeira do Douro, de Eduardo Augusto de Faria. Bem melhores, mas mesmo assim suficientemente desagradáveis ao meu palato para se juntarem a este no trio de piores leituras do ano, temos Uma Noite Não São Dias, de Mário Zambujal, e A Conspiração dos Abandonados, de António de Macedo. A Ignorância de Kundera esteve mesmo vai-não-vai para vir aqui parar, e Contos Acrónicos, de António Eça de Queiroz, também.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Lido: Na Guerra com Bruxas

Na Guerra com Bruxas é um conto de horror de Richard Matheson que descreve o que acontece quando, numa guerra com tudo para ser convencional, surge uma peculiar arma secreta: um grupo de sete (claro!) bruxas, suficientemente poderosas para subverter por completo o desfecho das batalhas. Mas é também um conto de humor porque, quando não estão a fazer os seus feitiços, as bruxas se comportam precisamente como aquelas teenagers muito patetas, muito fúteis, muito donas de uma crueldade gigantesca e indiferente, que não há ex-adolescente que não conheça. Precisamente. O que não é, decerto, por acaso. Gostei bastante.

E assim se conclui o ano de 2010 no que às minhas leituras diz respeito.

Lido: Tempestade Solar

Tempestade Solar (bib.) é mais um conto de Italo Calvino protagonizado pelo seu eterno extraterrestre Qfwfq. Desta feita, Qfwfq é capitão de um navio presume-se que mercante quando uma tempestade solar o encontra, depois de muito tempo de busca. Tempestade solar? Encontra? Sim, estamos no mundo de Calvino onde até as tempestades solares são antropomorfizadas. Esta, uma tempestade magnética em forma de mulher e gigantesca, Rah de seu nome (e decerto que a semelhança com o do deus-Sol egípcio, Rá, não é coincidência), é casada com Qfwfq e vai causar a sua demissão do posto de capitão do navio que comandava, após o que lhe causa também variados problemas quando se instala em terra. Porque, como é óbvio, ninguém compreende uma relação entre algo que parece ser um homem e uma perturbação magnética que tem o condão de estragar todos os aparelhos elétricos que houver nas redondezas e de deixar as bússulas doidas. É um conto profundamente poético, belo e triste, muitíssimo bem concebido e executado. Magnífico.

2011

Diz que estamos em 2011, não é? Diz que 2010 já acabou, não foi? Pois eu mal dei por isso, porque de lá para cá nada mudou. 2010, o ano do cancro, foi, mesmo, o pior ano da minha vida, tal como previ logo na abertura. Apesar de algumas coisas até terem corrido bem. O trabalho correu bem. As finanças correram bem. Unidade em Chamas tem tido precisamente o acolhimento que era minha esperança que tivesse. E...

E mais nada.

O ano do cancro foi dominado pelo cancro, e bastaria isso para o transformar no pior ano da minha vida. Os tempos livres do trabalho foram quase todos passados a cuidar do doente, a levar o doente para a quimioterapia e a trazê-lo de lá, a fazer coisas pelo doente, a não dormir porque o doente grita de dor, a pôr tudo em espera pelo doente. A ver o doente ir ficando cada vez mais fraco, cada vez mais incapaz de se bastar a si próprio. Termina com o doente internado no hospital, e é assim que começa 2011, ano novo que em vez de ter um início cheio de esperanças mostra logo à partida a sua feia carantonha como que a avisar que se achei o 10 mau é bom que ponha o cinto de segurança porque a viagem que aí vem no 11 vai ser muito, muito pior ainda.

Fora o cancro, não houve quase nada. Não escrevi praticamente nada, nem para o romance de que falava há um ano, nem para outras coisas. Onde anda o tempo? Onde para a disponibilidade mental? Que é feito da capacidade para abstrair das exigências concretas e imediatas da família e mergulhar nas palavras e nos mundos inventados, sondar a imaginação em busca de verdades?

E depois, como cereja em cima do bolo, ainda me aconteceu uma coisa que já não acontecia há bem mais de uma década e não devia nunca ter acontecido. Uma coisa que não quero que nunca, nunca mais me aconteça, que farei tudo o que possa para a evitar na vida que me reste. Uma coisa que é um perfeito desastre, uma coisa que é ácido a corroer-me por dentro dia sim, dia sim. Uma coisa que teria potencial para vir a compensar muitas outras coisas, mas que não compensará, nunca compensará. Uma coisa que é um poço a abrir-se em voragem à minha frente e a sussurrar "salta". Uma coisa que me rouba as forças na altura em que eu mais preciso delas, tanto por mim, como (principalmente) pelos outros. Uma coisa destrutiva, caótica, incontrolável e, sim, muitas vezes insuportável.

Merda de ano, este que passou. Repenicada merda de ano o que aí vem.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Típica conversa ao telemóvel com a minha mãe

As minhas conversas ao telemóvel com a minha mãe são todas mais ou menos assim:

Telefono eu. Ela atende. Levo meio minuto a ouvir ruídos de fundo e entretando vou dizendo:
— Tou?... Tou?... Tou?...
— Tou?
— Tás-me a ouvir?
— Tou?
— Tás, sim. Tás-me a ouvir ou não?
— Tou?
— Arre! Tás!
— Lá está outra vez esta bodega avariada.
Desliga. Eu volto a ligar. Repete-se a cegarrega de ruídos de fundo e de tou-tou-tás-tou, até que eu, já farto, berro:
— TOU!
— Ai, Jorge, para que estás aí a berrar? Que disparate é esse?
Eu engulo em seco.

E paciência, vende-se?

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Lido: Discurso Inaugural

Discurso Inaugural é um conto de ficção científica do argentino Fabián Labeau, já com uns aninhos em cima, que é precisamente aquilo que o título indica: o discurso de um cientista de renome que inaugura uma conferência. Como todos os contos do género, trata-se de infodump puro, e aí reside a sua principal fraqueza, embora haja bem pior. O orador conta, para benefício da plateia, a história de uma peculiar família de moléculas que terão a propriedade de causar nas pessoas distúrbios comportamentais violentos e que teriam sido usadas no dinheiro durante boa parte do século XX. Quem acha que a FC se resume a ideia talvez goste desta história... ou não, no caso de achar a dita disparatada. Eu, confesso, não acho que a ideia seja das melhores e não gosto mesmo nada (e cada vez gosto menos) deste tipo de contos. Não gostei. Quem tiver curiosidade, encontra-o aqui.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Lido: Noite de Paz

Noite de Paz é um conto curto de Nuno Markl, escrito em jeito de sketch como seria de esperar dos antecedentes do autor, no qual o Pai Natal e o Menino Jesus se encontram inopinadamente numa dada casa nas vésperas do natal e se põem a discutir um com o outro sobre qual deles teria direito a dar ali presentes. É, topa-se à légua, um texto de Markl, repleto das peculiaridades que o autor põe no que escreve para a rádio e a TV. É um texto escrito para ter piada, não para ter valor enquanto objeto literário. E tem alguma, mas confesso que não lhe achei muita. A culpa, nisso? É tanto minha como do conto, parece-me.

O efeito placebo e os casmurros

Toda a gente sabe o que é o efeito placebo: dá-se um comprimido de qualquer coisa inócua a um doente, convence-se o pobre de que se trata de um medicamento, e o comprimido tem realmente um efeito terapêutico, apesar de não servir para nada. Li ou ouvi algures há algum tempo que o efeito placebo é responsável por qualquer coisa como 40 a 60 porcento da eficácia dos tratamentos médicos. Embora ainda ninguém saiba com toda a certeza como é que o placebo funciona, parece que tem a ver com a ação das hormonas de stress que, como toda a gente sabe, têm um efeito inibidor sobre o sistema imunitário. Ao convencer-se o doente de que está a ser tratado de uma forma eficaz, os seus níveis de stress reduzem-se e é o próprio sistema imunitário do seu corpo que produz a cura, ou pelo menos a atenuação dos sintomas e da gravidade da doença.

Infelizmente, isto também quer dizer que existe uma espécie de efeito placebo inverso. Se o doente mete na cabeça que o tratamento que está a receber não tem nenhum efeito positivo ou, pior um pouco, que só o põe mais doente, é certo e sabido que acaba mesmo por piorar ou pelo menos por não obter do tratamento todo o seu potencial. É ele próprio que combate a cura. É ele próprio que causa a deterioração da sua saúde por pura falta de crença na eficácia da medicina.

E é por isso que é tão desesperante lidar com doentes casmurros, daqueles que metem uma coisa na pinha e não desbancam. Especialmente quando se trata de pessoas que queremos ter por perto para sempre. Porque queremos ajudá-los mas eles não deixam e não percebem (ou talvez não lhes importe) que ao não deixarem estão não só a prejudicar-se a si próprios mas também a esfrangalhar-nos os nervos a nós. Porque lhes explicamos as coisas e não acreditam. Porque acham que sabem melhor do que toda a gente como as coisas são, apesar de tudo indicar o contrário. Porque, porra, são casmurros como o raio que os parta.

É um desespero. É uma frustração que se vai acumulando até parecer que a única coisa que nos preenche é a vontade de gritar. É insuportável. E não há solução. Apesar de apetecer enfiar-lhes as coisas na cabeça, à marretada se necessário, isso de nada serve. É inútil sequer tentar. Nada entra.

E isto também se aplica, diga-se de passagem, embora de uma forma mais suave, a outros casmurros que, não estando doentes, também beneficiariam sobremaneira da ajuda que lhes poderíamos dar.

Lido: O Mundo de Jon

O Mundo de Jon (bib.) é uma noveleta de Philip K. Dick sobre viagens no tempo. Como muitas vezes acontece, o motor da história é a vontade, por parte de um grupo de cientistas, de regressar a um ponto do passado e alterar um acontecimento crucial que terá desencadeado uma sucessão de outros acontecimentos que terão desembocado num presente de pesadelo. Neste caso, presente deles, futuro nosso. Já todos vimos variações desta história no cinema e na TV (nos filmes da série Terminator e na série Sarah Connor Chronicles, por exemplo), e é bem sabido que quando isso acontece estamos já no reino do cliché. Ora, o facto de ter no seu fulcro um cliché tantas vezes utilizado reduz significativamente o impacto desta história de Dick, mesmo sabendo-se que ela tem já mais de meio século de existência e que a transformação das ideias em cliché foi posterior.

Mas mesmo descontando esse fator não me parece que esta seja uma das boas histórias de Dick. Porque o forte de Dick, aquilo que o içou à condição de monstro sagrado da FC, é a criação de uma atmosfera paranoica e os enredos complexos e imprevisíveis, e aqui não encontramos nem uma coisa nem a outra. De facto, a história é bastante previsível desde o início, o que só é amplificado pelas visões de que o filho do protagonista sofre, filho esse que só aparece na história para, precisamente, nos "mostrar" as tais visões, uma opção que me parece algo contraproducente. Como além do mais há uma série de diálogos tão didáticos que roçam a velha pecha de muita FC que é o como-sabes-Bob, acabei por achar o todo bastante insatisfatório.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Lido: The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories

The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories é um pequeno (115 páginas) livro de Tim Burton que tem desde 2007 edição portuguesa, mas eu li no original. Trata-se de um livro de pequenos poemas que contam histórias igualmente pequenas sobre bizarras criaturinhas cheias de desespero existencial. Crianças, quase todas, e quase todas dotadas de uma ou mais características insólitas que as separam da vulgaridade e as transformam em párias. O rapaz que é meio ostra do título, a rapariga feita de lixo, a outra que é uma boneca de vodu, a que olha fixamente, etc.

Há horror nestas historinhas. E melancolia e insólito com fartura. E o desespero existencial de que falei acima. Mas o que achei mais interessante no livro foi a estranha mistura entre um ritmo e uma atmosfera tão sugestivos das histórias e rimas infantis com o humor bem negro que perpassa por quase todos os poemas e historietas. Um exemplo muito curtinho, traduzido por mim agora mesmo num instante:
James

Insensatamente, o Pai Natal ofereceu a James um ursinho de peluche, sem saber que
ele tinha sido mutilado por um urso pardo alguns meses antes.
Estão a ver, não é? São pequenos textos muito sugestivos, muitos dos quais resultariam igualmente bem em verso e em prosa, independentemente das rimas que contêm. E além disso, todos estão profusamente ilustrados pelo próprio Burton, com desenhos que, não raro, dão às historinhas uma camada adicional de significado. É um livro muito bom. Compreendo perfeitamente quem o adora.

Independentemente disso, esta não é propriamente a minha praia. Julgo que gostei o mais que me seria possível gostar de um livro deste tipo, mas não o terminei com aquela sensação de satisfação emocional que se obtém das leituras de que gostamos mesmo. Ou talvez tenha sido uma questão de timing. Talvez na altura em que o li não estivesse com abertura de espírito para este tipo de macabro, que por mais doce que seja não deixa de ser isso mesmo: macabro. Talvez. O certo é que gostei, mas não muito.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Lido: O Anibaleitor

O Anibaleitor é uma curta novela de Rui Zink que acompanha as desventuras e o crescimento de um jovem aventureiro e ignorante, o qual, depois de se ver obrigado a embracar por causa de uns mal-entendidos com a polícia (mal-entendidos nenhuns; o puto era larápio), vem a descobrir que o navio em que se engaja tem um comandante enlouquecido, à Ahab, o qual tem por único objetivo na vida a captura de um estranho animal gigantesco e mitológico, que ele afirma a pés juntos que existe, e que se chama "anibaleitor".

Depois não há propriamente o naufrágio das histórias de aventuras, mas o protagonista é atirado ao mar por uma onda enorme e claro que vai mesmo encontrar o tal anibaleitor, que se vem a revelar um gorila gigantesco, falante, sem paciência para parvoíces e amante da literatura que obtém dos livros que vão dando à costa na sua ilha.

A partir daí, a história transforma-se num hino à leitura e à literatura, numa autêntica aula sobre o que significa ler, a sua utilidade, qual a relação que existe entre o escritor, o que ele escreve e o que o leitor vai ler, a subjetividade inerente ao ato de leitura e o que é, de facto, a qualidade. Uma aula a que muita gente muito senhora do seu nariz, que anda por aí a debitar disparates sobre estas coisas, teria toda a urgência em assistir. Tudo muito cheio de referências, claro, começando pelo próprio Anibaleitor, que é uma versão muito zinkiana do King Kong.

À semelhança de Firmin, aqui comentado há um par de meses, é mais um livro que se socorre do fantástico para tecer comentários sobre a sociedade em que vivemos e, também como em Firmin, fá-lo através da relação entre a nossa sociedade e os homens que a constituem, por um lado, e os livros pelo outro. Ainda como em Firmin, está também aqui tratado o tema da aceitação da diferença ou da intolerância para com ela. Mas as semelhanças acabam aí. O livro de Zink é mais divertido e menos melancólico, apesar de também ter a sua dose de melancolia, em especial na visão do mundo que o Anibaleitor tem (bastante cínica, e quem pode censurá-lo?) e no desenlace da história.

Tudo somado, gostei bastante. Não é nenhuma obra-prima, tem um tipo de humor que nem sempre ressoa bem com o meu mas que quando ressoa chega a ser capaz de me pôr a gargalhar. Além disso tem conteúdo, e um conteúdo francamente interessante, o que nem sempre acontece. E lê-se duma penada, com a fluidez e limpidez dum riacho de montanha. Recomendo.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Lido: A Conspiração dos Abandonados

A Conspiração dos Abandonados (bib.), livro de "contos neogóticos" de António de Macedo, conforme se esclarece à laia de subtítulo, contém as seis ficções listadas abaixo, com links para as opiniões sobre cada uma. Apesar da unidade sugerida pelo título da coletânea e pelos títulos das histórias, estas são bastante diferentes umas das outras e vão desde registos próximos ao conto tradicional até exercícios que se achegam ao horror cósmico à Lovecraft, passando pela recuperação de temas e ambientes que o autor já antes tinha explorado.

É um livro em que as qualidades e defeitos das prosas de Macedo estão bem patentes. Como acontece quase sempre, agradaram-me muito mais as histórias em que Macedo se dedica a um fantástico mais tradicional do que aquelas em que trilha outros caminhos, sempre mais ou menos esotéricos. Curiosamente, ou talvez não, aquelas são as histórias mais curtas que este livro contém e o grosso do volume é composto por estas. Para o meu gosto pessoal isso é problema sério e faz com que, embora tenha mais ou menos gostado de dois dos contos não tenha gostado do livro como um todo. Gostos diferentes terão opiniões diferentes, como é natural. Mas há um problema que é mais objetivo e teria sempre impedido que eu tivesse gostado muito deste livro: os diálogos. Com raras exceções, falta aos diálogos de Macedo a naturalidade, o saber usar o registo oral, que lhes daria vida e interesse. Todas as personagens falam da mesma forma, e todas soam insuportavelmente presunçosas. E eu cada vez gosto menos de quando isso acontece.

Quanto às histórias, são estas:

Lido: A Cidade Abandonada

A Cidade Abandonada (bib.) é uma noveleta de António de Macedo que ressoa com a miríade de histórias que foram sendo escritas ao longo dos séculos XIX e XX sobre escavações arqueológicas e as coisas diabólicas, perigosas e/ou inesperadas que os imprudentes arqueólogos ou caçadores de tesouros nelas encontram. Tem, contudo, a originalidade e o interesse (note-se que este interesse é genérico; não significa necessariamente que me tenha interessado a mim) de passar-se no Iraque, entre portugueses, na época que se sucedeu à guerra e em que esteve estacionada no país, concretamente em Nassíria, uma companhia da GNR. Tem também a originalidade e o interesse de acabar por envolver viagens no tempo, com paradoxo e tudo. E tem também, naturalmente, aquelas coisas habituais no autor: uma dose elevada de hermetismo, dimensões paralelas e criaturas sobrenaturais, e diálogos que eu acho quase sempre demasiado explicativos e forçados. Para quem gosta dos temas e escrita do autor, esta noveleta deve ser um belo acepipe altamente recomendável. Eu, que só raramente gosto, achei-a chatíssima (e não há nada mais subjetivo do que o que é chato ou deixa de o ser), não só porque o tema propriamente dito não me interessou, mas também porque me pareceu tratado de forma demasiado demorada e arrastada. É bastante provável que este segundo porquê seja em boa medida consequência do primeiro. E quanto ao primeiro, o problema está mais em mim do que em António de Macedo: não me lembro de ter lido alguma história deste género que me tivesse realmente despertado o interesse, fosse qual fosse o autor. Arqueologias amaldiçoadas despertam-me sempre vontade de bocejar.

Lido: Enquanto Durar o Sol

Enquanto Durar o Sol (bib.) é mais um conto de Italo Calvino protagonizado pelo eterno extraterrestre Qfwfq, embora neste caso talvez seja mais correto dizer-se que é protagonizado pela família do eterno extraterrestre Qfwfq, pois o conto debruça-se sobre as desavenças conjugais entre o avô de Qfwfq e a avó, a pretexto da decisão sobre onde passar a residir depois de a família inteira ter sido expulsa do anterior local de residência pela explosão duma supernova. Passa-se isto nos primórdios do sistema solar, na época em que a própria estrela ainda se ia condensando a partir da sua nebulosa original, e a talhe de foice Calvino vai transmitindo aos leitores umas noções elementares de cosmologia que até nem distorce muito, para variar. Apesar disso e da ironia "familiar", ou talvez por causa de ambas as coisas, não gostei por aí além deste conto.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Adamastor

Com certeza não haverá muitos leitores deste blogue que não saibam já da iniciativa, mas como me pediram para divulgar, cá vai. Até porque eu acho a ideia boa, embora de concretização francamente complicada no que toca às autorizações, em especial de material mais antigo mas ainda sujeito a direitos de autor e/ou de material recente cujos autores pretendam reeditar... o que na verdade é mais um motivo para que a coisa tenha toda a divulgação que for possível. Quanto mais gente houver a conhecer o que se passa, mais fácil, em teoria, será encontrar-se alguém que saiba como contactar Fulano ou Beltrano para obtenção das tais autorizações.

Trata-se do Projeto Adamastor, que pretende criar uma biblioteca virtual de ficção especulativa elaborada mais ou menos nos moldes do Projeto Gutenberg. Julgo que não vale a pena reproduzir aqui na Lâmpada o texto que apresenta a ideia. Podem lê-lo aqui. No mesmo local têm acesso a uma sondagem sobre se a ideia vos interessa e de que forma vos interessa.

Vão lá até lá, andem. Andor. A Lâmpada não foge, podem ficar descansados.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Pedimos desculpa por esta interrupção...

... o programa segue dentro de momentos.

A conjugação de uma tradução em fase de conclusão (concluída hoje, pim pam pum, fogo de artifício e acrobatas), tradução essa puxada por mais do que um motivo, com problemas familiares sérios e uma série de outras confusões, sarilhos e turbulências na vida offline levou à paralização deste blogue durante quase um mês. A gerência lamenta e promete despertá-lo muito em breve. Talvez ainda não para regressar à atividade normal, mas quase.

Até já.

domingo, 21 de novembro de 2010

Desafio 5: Sustenta-me o olhar

O quinto desafio que me propuseram foi fazer uns versos em volta da frase "sustenta-me o olhar". E eu atirei umas memórias ao ar, misturei-as com palavras, e saiu isto:

Sustenta-me o olhar

Sustenta-me o olhar
se conseguires
porque ele é fogo, é aço, é ácido
que não corrói
é tornado em violência
que não destrói

Sustenta-me o olhar
se conseguires
porque dele nascem mundos inteiros
mares e rios, plantas e animais
e tudo o mais
e mesmo embrulhados em ligeireza
podem ser pesados demais

Sustenta-me o olhar
se conseguires
eu quero pôr-to inteiro nas mãos
para com ele fazeres
o que bem entenderes
basta para isso que sejas capaz
de me sustentares o olhar

Sustenta-me o olhar
Se não conseguires
não te esqueças de acrescentar mais uma letra
ao epitáfio do homem infeliz
Reza assim:
“quem o quis não o mereceu
quem mereceu não o quis.”

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Desafio 4: Insetos

O quarto desafio que me propuseram foi escrever uns versos sobre insetos. Quem mo propôs é uma notória bichófoba (todo e qualquer bicho, parece, não só insetos), e eu estive tentado a causar-lhe arrepios escrevendo uns versos cheios de bicharada a rastejar por cima da pele do(a) leitor(a), a ficar-lhe presa nos cabelos, a enfiar-se-lhe na roupa, enfim, estive tentado a fazer-lhe uma grande maldade.

Mas como a moça até é boa moça acabei por decidir ir por outra via, que até, quem sabe, possa mesmo chegar a contribuir para melhorar um pouco a noção de inseto que ela tem. E aqui fica o resultado:

Ah, que bom que é ser inseto

Ah, que bom que é ser inseto!
Ter mil imagens de ti nos meus olhos facetados
um milhar de lentes todas elas fitas em ti
ver-te em cores, mil elas também
construídas com azuis, vermelhos, verdes e ultravioletas
e tentar decidir se és cato ou se és flor
ou flor com espinhos, que também as há assim

Ah, como é boa toda esta queratina!
Ouvir a tua voz em estéreo ultra-surround
vibrações de jazz, dissonâncias, melodias
que através de todas as seis patas
me chegam direitinhas ao tubo cardíaco
e o obrigam a pulsar ao ritmo que definem

Ah, que delícia o teu cheiro nas antenas!
Moléculas de ti que agora me pertencem
moléculas que nem sabes que perdeste
mas que eu guardo como pedras preciosas
e que bom ter asas, poder abri-las e lançar-me à aragem
poder batê-las e lançar-me à voragem
poder orbitar-te como a Terra orbita o Sol
preso da refulgência de quem és
e alimentar-me da tua luz mascarado de girassol

Ah, tão bom, tão, tão bom é ser inseto!
Na verdade só o tamanho ma atraiçoa
por isso te escrevo estas linhas na esperança de que as leias
e assim saibas, quando por fim pousar em ti
que não pico nem aferroo, que só desejo o teu bem
e assim resistas ao instinto primeiro de todos os mamíferos
e me poupes ao destino provável de todos os insetos
o de acabar esborrachado, apanhado do chão
e deitado para o lixo sob o peso insuportável
de um esgar de nojo e inabalável repugnância

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Desafio 3: Vida

O terceiro desafio foi-me dado pelo twitter. Já agora, aproveito para esclarecer uma coisa em relação aos temas: prefiro que eles me sejam dados aqui no blogue, mas podem vir por qualquer outro meio e, seja qual for a via, é o primeiro a chegar que conta. Se me chegar mais do que um num dado dia, o segundo poderá ser utilizado se não me ocorrer nada para o primeiro; se não for fica de reserva para algum dia que não apareça nenhum desafio. E quem diz "dia" diz dois ou três, porque não vou fazer sempre isto todos os dias.

Dito isto, o tema que me chegou ontem foi a vida. Pano para mangas, não é? Pois. Mas como a inspiração não era muita fui buscar um par de versos excelentes do John Lennon e o lego seguiu a partir daí.

A Vida

A vida é aquela coisa que nos acontece
quando estamos distraídos planeando coisas diferentes
é o que fazemos mesmo se não apetece
é a soma dos sins e dos nãos, dos provavelmentes
é um navio aos tombos
e nós, os que a vivemos
os que nela nascemos e por ela morremos
de sua festa somos os bombos

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Desafio 2: O Banquete

Eu sabia que me iam logo atirar com coisas escorregadias. Acho muito bem.

Pois acontece que aqui há dias escrevi um tuito em que dava conta do meu desagrado quando me deparava com descrições pomenorizadas de comida nas minhas traduções. Dá uma trabalheira e abranda a velocidade da tradução. É uma chatice. E aqui está alguém a propor-me como tema de uns quantos versos um banquete, pois que mais havia de ser? Lembrando-se de um certo autor de que eu não digo o nome (coffgeorgerrmartincoff), mas que vai falando de comida com grande profusão ao longo da série de livros de fantasia que traduzi.

Então tá bem. Cá ficam eles, os versos sobre um banquete:

O banquete

No centro da larga mesa, uma bandeja
onde um javali se derrete em gordura
à volta gritos, risos, arrotos e bocejos
a um canto um casal enovela-se em ternura
e há quem apalpe seios entre beijos
pratos tilintam, bebe-se seja o que seja

Criados circulam por ali sem serem vistos
a menos que se estatelem, imprevistos
levam pratos vazios, trazem-nos cheios
eles ligeiros e sisudos elas num vento de chilreios
trovadores dedilham harpas e trauteiam
belas melodias que os outros só desfeiam

E junto à lareira, entre as sombras oculto
um vulto monumental de imensas barbas
entre pernas de frango e tragos de cerveja
vai observando com olhos vivos o tumulto
e murmurando “é isso mesmo, é mesmo assim”
rabisca num papel, com uma pena de marfim
“No centro da larga mesa, uma bandeja…”

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Vou precisar da vossa colaboração, meus caros

Há coisa de hora e meia, não interessa porquê, pus-me a ler os meus velhos spamemas. Para quem não acompanha este blogue há tempo suficiente, explico de que se trata: poemas, com ou sem pseudo, que fui fazendo ao longo de um ano inteiro, baseados no spam que me ia chegando à caixa do correio no dia em causa. O ano era bissexto, portanto acabaram por somar 366. Foi principalmente assim que alimentei a Lâmpada durante esse ano, e na época houve quem me dissesse que gostava.

Pois bem, agora estive a reler alguns desses spamemas, e fiquei com saudades de fazer algo do género. Mas o tempo não volta para trás, e a fase da spamesia está encerrada e não deve ser reaberta. Mas apetece fazer algo do género.

Pus-me a pensar, e acho que encontrei a solução. Peço-vos a vocês temas, títulos, frases que devem ser incluídas, e construo uns versos à volta deles e delas. O primeiro pedido é que vale, a não ser que por mais voltas que dê à cabeça não me sugira nada. O resultado aparecerá na Lâmpada no próprio dia ou nos dias seguintes, e assim que apareça está aberto o desafio seguinte.

Como é, rapaziada? Vamos nessa?

Para começar, apanhei uma amiga no messenger e pedi-lhe um tema. Ela deu-mo. E aqui está o resultado:

Cai a Lua

Cai a Lua, presa de fios invisíveis às estrelas
elásticos de noite que se esticam para o infinito
desenhando constelações assustadoras de tão belas

Cai a Lua, amarrada ao centro dos teus olhos
por girândolas de canções, alecrim aos molhos

Cai a Lua, e o céu tem pena
pois sem lua sente-se sem alma
Mas há que ter calma
há sempre a calma