El Arma é uma noveleta de ficção científica do cubano Yoss que nos leva a um planeta distante chamado Barsoom. Não, não se trata do Marte de Burroughs, mas sim de outro planeta, assim batizado em honra daquele, por apresentar um ambiente bastante semelhante. O planeta, contudo, é um enigma biológico. Aparentemente desprovido de vida moderna, apresenta uma inaudita riqueza de restos fossilizados que, no entanto, não se conseguem encaixar numa história evolutiva que faça o mínimo sentido. Numa base avançada, humana, encontram-se dois grupos de pessoas com objetivos paralelos. A maior parte do pessoal é militar, mas há também alguns cientistas civis. Ambos os grupos se dedicam ao estudo do planeta, mas com objetivos bem diferentes. E tudo isto tem importância para o desenrolar da história, que no entanto é movida principalmente a relações humanas. Uma velhíssima história de triângulo amoroso envolvendo um militar desdenhoso, um caixa-de-óculos alheado e uma mulher sexualmente hiperativa e infiel. O conto está muitíssimo bem escrito e muito bem concebido, embora perca um pouco de fulgor mesmo no fim. É um belo conto de ficção científica dura, daqueles que fazem ter muita, muita pena que tanta gente pareça só ter olhos para aquilo que é escrito em inglês. Porque este conto é melhor do que a grande maioria dos contos escritos em inglês. Merecia ser traduzido, publicado, antologiado e, acima de tudo, lido.
Leiam-no aqui.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Quem quer ouvir-me falar sobre Martin?
Se a simples ideia de me ouvir, junto com quatro brasileiros (Thiago Cabello, JP Miguel, Ana Carolina Silveira e Gabriel, "O Nerd Escritor"), falar durante uma hora e vinte minutos sobre George R. R. Martin, a série dele que eu traduzi, As Crónicas de Gelo e Fogo, e a série de TV que nela se baseou e estreou há menos de um mês, Game of Thrones, se esta ideia, dizia, não vos desencoraja logo à partida, então deem um salto ao site do Papo na Estante e divirtam-se.
Peço desde já desculpa por uma certa gaguez, e por um disparate que digo a minutos tantos, quando confundo idiolecto (o "dialecto pessoal" de cada falante duma língua) com sociolecto (os usos linguísticos característicos de determinados grupos e classes sociais). Em minha esfarrapada defesa posso só alegar que era tarde, muito tarde. Portugal e Brasil estão de momento com 4 horas de diferença, e para encaixar a gravação a horas decentes para os brasileiros eu, o minoritário, tive de aguentá-la já no dia seguinte. Comecei-a com a cama a chamar intensamente pelo meu nome, e acabei-a já à uma e um quarto. Sim, costumo estar acordado a essa hora, mas não propriamente a puxar pelo cérebro, a tentar lembrar-me de coisas e a procurar gerir cá dentro da pobre massa cinzenta uma viva conversa de cinco vias, todas elas pejadas de sotaque.
Eu avisei que a desculpa era esfarrapada...
Vão lá ouvir então. Se preferirem um link direto para um mp3 descarregável e zipado, está aqui.
Peço desde já desculpa por uma certa gaguez, e por um disparate que digo a minutos tantos, quando confundo idiolecto (o "dialecto pessoal" de cada falante duma língua) com sociolecto (os usos linguísticos característicos de determinados grupos e classes sociais). Em minha esfarrapada defesa posso só alegar que era tarde, muito tarde. Portugal e Brasil estão de momento com 4 horas de diferença, e para encaixar a gravação a horas decentes para os brasileiros eu, o minoritário, tive de aguentá-la já no dia seguinte. Comecei-a com a cama a chamar intensamente pelo meu nome, e acabei-a já à uma e um quarto. Sim, costumo estar acordado a essa hora, mas não propriamente a puxar pelo cérebro, a tentar lembrar-me de coisas e a procurar gerir cá dentro da pobre massa cinzenta uma viva conversa de cinco vias, todas elas pejadas de sotaque.
Eu avisei que a desculpa era esfarrapada...
Vão lá ouvir então. Se preferirem um link direto para um mp3 descarregável e zipado, está aqui.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Lido: Se Acordar Antes de Morrer...
Se Acordar Antes de Morrer... (bib.) é uma noveleta de João Barreiros que funde a ficção científica com a mais desmiolada forma de horror: as histórias de zombies. A história vai acompanhando um dia de trabalho de um robô de um centro comercial, em vésperas do natal, enquanto à sua volta o mundo desaba em pleno apocalipse zombie. O contraste entre o automatismo da máquina e o mundo desfeito que o rodeia, ao qual o automatismo já não se adequa, faz lembrar com insistência uma das mais extraordinárias histórias de Bradbury, Virão Chuvas Suaves. A história de Barreiros é mais longa e muito mais irónica, o apocalipse é de natureza bem diferente, mas há vários pontos de contacto entre ambas, incluindo, guardadas as devidas distâncias, a qualidade. É que esta é bem capaz de ser a melhor história que Barreiros escreveu na última década.
domingo, 1 de maio de 2011
Lido: As Azagaias da Princesa Mulata
As Azagaias da Princesa Mulata (bib.), um conto do Repórter X, conta uma mirabolante aventura em que o "autor"/protagonista se vê envolvido, centrada na princesa mulata do título, uma tal Princesa Zaizá da Abissínia. O clima é de novo folhetinesco, de mistério e crime, embora desta vez haja de facto algum cheiro a fantástico na trama. Ténue, muito ténue, muito longe de ser aquilo que mais salta à vista na história, mas está lá. Tenho alguma dificuldade em falar mais deste conto sem revelar aspetos do enredo que poderão prejudicar a leitura de quem for lê-lo (se é que alguém vai ler este livro depois de ler isto; não é propriamente coisa recente ou chamativa). É que o conto se sustenta quase por completo na gestão do mistério e do suspense, os quais só são desvendados no final, à boa maneira policial. Mas posso dizer que há uma falha lógica no enredo que me causou alguma espécie, uma falha que tem a ver com a relação do protagonista com um certo cheiro. Deteta-o e identifica-o, ou não, dependendo da conveniência para o evoluir da trama. É um truque a que eu torço o nariz e que contribui para que eu tenha ficado com uma opinião não muito boa sobre o conto.
Lido: As Regras do Jogo
As Regras do Jogo é um conto de um tal Jorge Ribeiro Botello Ferreira que, apesar do nome aristocrático, não passa de mais um pseudónimo de Pedro Manuel Calvete. E apesar de ter sido escrito por um pseudónimo diferente, o conto tem muitíssimos pontos de contacto com A Sétima Casa. De novo temos os horóscopos a determinar o curso das vidas, de novo temos a ideia de os influenciar para influenciar esse curso, e de novo temos uma prosa que, embora de boa qualidade, para o meu gosto é demasiado expositiva. Neste caso mais expositiva ainda do que no d'A Sétima Casa, pois este conto pouco passa de uma longa exposição de um pai a um filho sobre a forma como vê o mundo. A principal diferença entre os dois está na ideia expressa neste de que existem pessoas (quiçá por terem horóscopos iguais) que são como que clones de vida umas das outras, fazendo todos os dias os mesmos gestos, as mesmas deslocações e as mesmas paragens. Não gostei muito. Mas sim, também este é um conto fantástico.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Lido: Fome de Conversa
Fome de Conversa é um pequeno conto de Pedro Santo, mais conhecido pelo ursinho de peluche (originalmente um ewok, é bom lembrar) que inventou e pôs em conversas de chacha com um busto de Napoleão. Exato: o Bruno Aleixo. Lendo o conto isso está bem patente: consta quase exclusivamente de um diálogo sem pés nem cabeça entre dois homens que trocam filosofias sobre o natal. O problema é que é muito mau. Santo parece achar que escrever um conto e escrever o argumento para um sketch é mais ou menos a mesma coisa. Infelizmente, para ele e para quem lê este seu texto, não é. Muito daquilo que funciona num sketch televisivo pura e simplesmente não funciona num texto literário. E vice-versa. E este conto não funciona de todo. Está muito mal escrito, para começar. Isso poderia ser em parte compensado com um humor eficiente, mas a verdade é que não conseguiu arrancar-me sequer um fantasma de sorriso. E eu sou um tipo que até acha de vez em quando piada ao Bruno Aleixo. De muito longe o pior texto do livro até agora.
Lido: O Pai Postiço
O Pai Postiço (bib.) é um conto de Philip K. Dick que, ao contrário do ambiente habitual na obra deste autor, está mais próximo do terror do que propriamente da ficção científica. O protagonista é um miúdo que calha ver uma cena que não deveria ter visto: o pai a conversar com um duplo seu, em tudo igual menos em alguns detalhes de comportamento. O conto descreve o que vai acontecendo à família enquanto o miúdo e um grupo de amigos (ou nem por isso) vão descobrindo o que se passa e procuram dar uma resposta cabal ao tal "pai postiço". É um conto invulgar em Dick. A típica desconfiança da realidade encontra-se aqui diluída num enredo de invasão que hoje em dia perde eficácia por estar tão batido. Mas algumas das características menos agradáveis da ficção curta de Dick (a fraca, ou nula, elaboração de ambiente e personagens e o caráter inverosimilmente apressado dos acontecimentos, por exemplo) encontram-se bem presentes. Apesar disso, é um conto que se lê bem, embora eu ache que está longe de ser um bom conto.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Lido: A Implosão
A Implosão (bib.) é mais um dos contos de Italo Calvino protagonizados pelo seu extraterrestre eterno, Qfwfq. Desta feita, trata-se de um conto curto muito lírico, muito forte literariamente, que joga com os conceitos cosmológicos de buracos negros e brancos e de buracos de verme. Qfwfq mete-se na pele de um buraco negro e defende, apaixonadamente, a ideia de implosão contra a de explosão. É um conto que é acima de tudo poesia. Quem gosta de poesia devia lê-lo, porque certamente irá gostar; quem a odeia passe adiante.
Entretanto, ao escrever isto fui assaltado por uma interrogação. Terá o velho Qfwfq de Calvino inspirado de algum modo a personagem Q, do Star Trek? Há semelhanças que vão além do nome. Será só coincidência? Ignoro.
Entretanto, ao escrever isto fui assaltado por uma interrogação. Terá o velho Qfwfq de Calvino inspirado de algum modo a personagem Q, do Star Trek? Há semelhanças que vão além do nome. Será só coincidência? Ignoro.
Lido: O Homem que Perdeu o Cérebro
O Homem que Perdeu o Cérebro (bib.) é um conto do Repórter X, ou seja, de Reinaldo Ferreira que, embora faça parte de um livro apresentado como fantástico (e até lhe dê o título), de fantástico tem muito pouco. É basicamente um conto de mistério e crime, escrito ao estilo típico das histórias de aventuras das primeiras décadas do século XX e tendo como personagem principal um misterioso inglês que nos primeiros contactos com o narrador (o Repórter X, claro) parece não ter os parafusos todos no lugar. A história vem a revelar-se mirabolante, metendo loucura, homicídio, roubo de identidade, enfim, um leque de peripécias dignas dos melhores folhetins. É uma história competente e que atinge os objetivos que pretende atingir, tanto na elaboração do enredo como no tratamento dado à língua. Uma história honesta e despretenciosa, que não pretende ser superlativa em nada e de facto não o é. Mas a verdade é que de fantástico não tem grande coisa. Só com grande boa vontade se poderá ver nela algum do "deixar na dúvida" todoroviano, no que toca a uma das personagens ter, ou não, perdido o cérebro conforme afirma. Só com grande boa vontade. Isso não a torna nem pior nem melhor, claro, mas faz com que cause estranheza a sua inclusão na coleção de que faz parte.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Sobre agiotas, gangsters e eleições
Já divulguei no twitter, e por consequência no facebook, mas isto é suficientemente importante para merecer também que divulgue por aqui (o que vai levar a que seja outra vez divulgado no twitter e no facebook). Leiam, pela vossa vidinha, este artigo excelente, lúcido e informado de Alfredo Barroso, e pensem no que nos está a acontecer e no porquê.
Nesse artigo verão uma afirmação que é a mais pura das verdades: estamos em guerra. Estamos numa guerra que nos é imposta, que não desejámos e não desejamos, mas que não obstante existe e se faz sentir, e de que maneira. Estamos em guerra com um inimigo sem rosto claro, embora conheçamos bem alguns dos rostos que ele toma. Estamos, nós, Portugal, em guerra também com alguns portugueses, não por acaso os mesmos que procuram convencer-nos de que tudo é inevitável, de que só podemos pagar e calar, de que o nosso inimigo já venceu e temos de nos conformar a esse facto, dando sempre mais e mais na esperança vã de que nos deixem em paz.
Pois fiquem sabendo duma coisa: é mentira. Nesta guerra temos muitos aliados, mesmo que nem nós nem eles o saibamos. E juntos, nós e os nossos aliados, temos uma força imensa. A força não só da justiça, mas também dos números. A força que nos dá o facto do inimigo estar a tentar por todos os meios destruir a democracia. Nesta guerra só se nos encolhermos a um canto com medo é que seremos com toda a certeza derrotados. O inimigo, esse bando de gangsters económicos que nos cerca, já demonstrou à saciedade que não tem contemplações nem misericórdia. Se nos erguermos, se o combatermos, temos pelo menos a hipótese de vencer. Por isso o meu apelo. Está na hora de sacudir a apatia. Está na hora de entrentar este inimigo que nos quer escravizar. Combatam-no, dando força a quem quer combatê-lo. Combatam-no não ficando em casa a coçar os tomates, não encarando as próximas eleições como um pró-forma sem substância, não entregando o país aos agiotas e aos seus agentes.
Metam uma coisa na cabeça duma vez por todas: Não há só dois partidos em Portugal. Neste país não existem apenas os partidos da cedência, quando não da cumplicidade ativa com aqueles que nos querem destruir. O dito "arco da governação" (que inclui também o CDS), que nos trouxe até este ponto. Há mais partidos. Há partidos que nunca pactuaram com o rumo que nos trouxe até aqui, que sempre se lhe opuseram no Parlamento. E há partidos que também são inocentes deste massacre económico a que estamos sujeitos por não terem representação parlamentar. Inclusivamente na mesma área ideológica do PS e do PSD. Se acham o PCP e o BE demasiado radicais, têm o MEP, têm o partido trabalhista, têm os humanistas, têm mais uma série de pequenos partidos mais ou menos centristas. Se acham o PCP e o BE demasiado coniventes com o estado de coisas, têm o MRPP e até o POUS. Até têm pequenos partidos à direita, os monárquicos e mais dois ou três, se bem que só cretinos de grande calibre votem num deles, o PNR. Mas eu sou um democrata: se tu que me estás a ler fores um cretino de grande calibre, faz favor, vota PNR. Se não fores, vota num dos outros, em qualquer dos outros, mas não votes em quem deixou o país neste estado. Em quem foi desgovernando este país até o deixar de rastos. No PS. No PSD. No CDS.
Do PS nem vale a pena falar muito. Todos sabem perfeitamente o que têm sido estes anos de Sócrates. A memória é curta, mas não tanto. Talvez seja bom recordar, contudo, que o anterior período de governação do PS terminou quando Guterres fez birra por ter perdido umas eleições autárquicas e se demitiu. Um irresponsável é isto.
Já talvez valha a pena falar um pouco mais do PSD; afinal, já estão fora do governo há mais tempo. Talvez valha a pena recordar o que foi o ridículo circo de trapalhadas do governo de Santana Lopes. Um irresponsável é isso. Talvez valha a pena recordar que antes de Santana Lopes tivemos Durão Barroso, que fugiu para Bruxelas depois de ter afirmado que não o faria. Um irresponsável é isso. Que nos governos de Durão Barroso houve uma ministra das finanças chamada Manuela Ferreira Leite que andou a tentar usar uns truques de merceeiro desonesto para esconder de Bruxelas a verdadeira dimensão do défice. Uma irresponsável é isso. Que também tivemos Cavaco Silva, um homem que desbaratou milhões de fundos comunitários em obras de fachada enquanto não preparava o país para o que aí vinha, e de cuja incompetência estamos agora a sofrer as consequências. Cavaco Silva, o "homem sério", que inventou os tabus para não dizer asneiras não dizendo nada, o "grande economista" que é responsável pela maior subida do défice público da democracia portuguesa. Um irresponsável é também isto. Oh, o PSD. Um partido que apregoa seriedade e competência, em especial no campo económico, mas que, se olharem para os dados, verificarão que foi durante os seus governos que se gerou 70% do défice público que causou o atual endividamento do país. Se-ten-ta-por-cen-to! É obra, em especial tendo em conta que o PSD passou no governo menos anos do que o PS. E é nestas nódoas que querem votar para substituir as nódoas do PS? A sério?
És assim tão masoquista, meu povo?
E depois há o CDS. De novo, não vale a pena falar muito do CDS. É um facto que tem menos responsabilidades neste triste estado de coisas do que os outros dois. Mas atentem a duas palavras-chave e, se não tiverem estado a dormir nos últimos anos, perceberão tudo o que há a dizer: "submarinos"; "Jacinto Leite Capelo Rego." Se têm estado a dormir, então googlem pelo "caso Portucale" e por "submarinos Portas" e divirtam-se. Ou entristeçam-se. Ou desesperem. Enfim, esclareçam-se.
Votem nos outros, não nestes. Pondo estes três de parte continuam a ter alguns 10 por onde escolher. Mas pelo menos, façam o que fizerem, pensem. E tentem parar de entregar o ouro, que tanto nos custa ganhar, a bandidos. É que já chega, porra. Não vos parece?
Nesse artigo verão uma afirmação que é a mais pura das verdades: estamos em guerra. Estamos numa guerra que nos é imposta, que não desejámos e não desejamos, mas que não obstante existe e se faz sentir, e de que maneira. Estamos em guerra com um inimigo sem rosto claro, embora conheçamos bem alguns dos rostos que ele toma. Estamos, nós, Portugal, em guerra também com alguns portugueses, não por acaso os mesmos que procuram convencer-nos de que tudo é inevitável, de que só podemos pagar e calar, de que o nosso inimigo já venceu e temos de nos conformar a esse facto, dando sempre mais e mais na esperança vã de que nos deixem em paz.
Pois fiquem sabendo duma coisa: é mentira. Nesta guerra temos muitos aliados, mesmo que nem nós nem eles o saibamos. E juntos, nós e os nossos aliados, temos uma força imensa. A força não só da justiça, mas também dos números. A força que nos dá o facto do inimigo estar a tentar por todos os meios destruir a democracia. Nesta guerra só se nos encolhermos a um canto com medo é que seremos com toda a certeza derrotados. O inimigo, esse bando de gangsters económicos que nos cerca, já demonstrou à saciedade que não tem contemplações nem misericórdia. Se nos erguermos, se o combatermos, temos pelo menos a hipótese de vencer. Por isso o meu apelo. Está na hora de sacudir a apatia. Está na hora de entrentar este inimigo que nos quer escravizar. Combatam-no, dando força a quem quer combatê-lo. Combatam-no não ficando em casa a coçar os tomates, não encarando as próximas eleições como um pró-forma sem substância, não entregando o país aos agiotas e aos seus agentes.
Metam uma coisa na cabeça duma vez por todas: Não há só dois partidos em Portugal. Neste país não existem apenas os partidos da cedência, quando não da cumplicidade ativa com aqueles que nos querem destruir. O dito "arco da governação" (que inclui também o CDS), que nos trouxe até este ponto. Há mais partidos. Há partidos que nunca pactuaram com o rumo que nos trouxe até aqui, que sempre se lhe opuseram no Parlamento. E há partidos que também são inocentes deste massacre económico a que estamos sujeitos por não terem representação parlamentar. Inclusivamente na mesma área ideológica do PS e do PSD. Se acham o PCP e o BE demasiado radicais, têm o MEP, têm o partido trabalhista, têm os humanistas, têm mais uma série de pequenos partidos mais ou menos centristas. Se acham o PCP e o BE demasiado coniventes com o estado de coisas, têm o MRPP e até o POUS. Até têm pequenos partidos à direita, os monárquicos e mais dois ou três, se bem que só cretinos de grande calibre votem num deles, o PNR. Mas eu sou um democrata: se tu que me estás a ler fores um cretino de grande calibre, faz favor, vota PNR. Se não fores, vota num dos outros, em qualquer dos outros, mas não votes em quem deixou o país neste estado. Em quem foi desgovernando este país até o deixar de rastos. No PS. No PSD. No CDS.
Do PS nem vale a pena falar muito. Todos sabem perfeitamente o que têm sido estes anos de Sócrates. A memória é curta, mas não tanto. Talvez seja bom recordar, contudo, que o anterior período de governação do PS terminou quando Guterres fez birra por ter perdido umas eleições autárquicas e se demitiu. Um irresponsável é isto.
Já talvez valha a pena falar um pouco mais do PSD; afinal, já estão fora do governo há mais tempo. Talvez valha a pena recordar o que foi o ridículo circo de trapalhadas do governo de Santana Lopes. Um irresponsável é isso. Talvez valha a pena recordar que antes de Santana Lopes tivemos Durão Barroso, que fugiu para Bruxelas depois de ter afirmado que não o faria. Um irresponsável é isso. Que nos governos de Durão Barroso houve uma ministra das finanças chamada Manuela Ferreira Leite que andou a tentar usar uns truques de merceeiro desonesto para esconder de Bruxelas a verdadeira dimensão do défice. Uma irresponsável é isso. Que também tivemos Cavaco Silva, um homem que desbaratou milhões de fundos comunitários em obras de fachada enquanto não preparava o país para o que aí vinha, e de cuja incompetência estamos agora a sofrer as consequências. Cavaco Silva, o "homem sério", que inventou os tabus para não dizer asneiras não dizendo nada, o "grande economista" que é responsável pela maior subida do défice público da democracia portuguesa. Um irresponsável é também isto. Oh, o PSD. Um partido que apregoa seriedade e competência, em especial no campo económico, mas que, se olharem para os dados, verificarão que foi durante os seus governos que se gerou 70% do défice público que causou o atual endividamento do país. Se-ten-ta-por-cen-to! É obra, em especial tendo em conta que o PSD passou no governo menos anos do que o PS. E é nestas nódoas que querem votar para substituir as nódoas do PS? A sério?
És assim tão masoquista, meu povo?
E depois há o CDS. De novo, não vale a pena falar muito do CDS. É um facto que tem menos responsabilidades neste triste estado de coisas do que os outros dois. Mas atentem a duas palavras-chave e, se não tiverem estado a dormir nos últimos anos, perceberão tudo o que há a dizer: "submarinos"; "Jacinto Leite Capelo Rego." Se têm estado a dormir, então googlem pelo "caso Portucale" e por "submarinos Portas" e divirtam-se. Ou entristeçam-se. Ou desesperem. Enfim, esclareçam-se.
Votem nos outros, não nestes. Pondo estes três de parte continuam a ter alguns 10 por onde escolher. Mas pelo menos, façam o que fizerem, pensem. E tentem parar de entregar o ouro, que tanto nos custa ganhar, a bandidos. É que já chega, porra. Não vos parece?
Lido: A Sétima Casa
A Sétima Casa é um conto curto fantástico de Nina de Vasconcelos, pseudónimo de Pedro Manuel Calvete. Parte duma reunião de antigos alunos universitários, na qual se reencontram um homem e uma mulher com um velho fraquinho um pelo outro e vidas bastante díspares nos 10 anos que decorreram desde o fim do curso. Ele, próspero e com toda a aparência de felicidade; ela, pelo contrário, mergulhada num mar de problemas e insucesso. Mas ele depressa lhe conta a origem da sua prosperidade. Não a desvendarei aqui em detalhe; direi apenas que tem a ver com horóscopos que realmente se realizam... e que ele próprio influencia. O conto está muito bem escrito e é suficientemente curto para o facto de ser composto quase integralmente pelo relato do que aconteceu ao homem e de como ele ganhou a sua prosperidade, sem ação quase nenhuma, não se tornar aborrecido. É um bom conto, embora eu talvez tivesse preferido ler uma obra mais extensa que, em vez de me contar a vida do protagonista durante esses dez anos, ma mostrasse.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Lido: Peru Recheado e a Realidade Paralela
Peru Recheado e a Realidade Paralela (que ainda tem o extenso subtítulo de Um Caso de Faustina Redondo, Detective do Improvável) é um conto de Filipe Homem Fonseca, assim meio policialoide, que começa quando uma chorosa senhora aparece à tal Faustina Redondo porque lhe desapareceu o marido. E a história segue a partir daí, numa toada umas vezes irónica, outras completamente surreal, metendo buracos de lesma, universos paralelos, o diabo a sete. É um conto bem escrito e interessante, que a espaços faz lembrar Mário-Henrique Leiria, mas que me deixou na boca um gosto algo amargo. Sim, a ideia era ser divertido e embora não seja história de gargalhada, é história de sorrisinho. Por aí, tudo bem. Mas há ali demasiadas ideias com pernas para andar para não as achar desperdiçadas numa peçazinha tão curta. Acabei a leitura com a sensação de que tinha acabado de ler um esboço de algo maior e potencialmente muito mais divertido. Talvez houvesse ali constrangimentos editoriais no que toca à dimensão de cada história, não sei. Mas esta, definitivamente, merecia ter sido melhor explorada. O potencial está lá.
Lido: A Nova Maqueta
A Nova Maqueta (bib.) é um conto de Philip K. Dick que é exemplar no que toca à atitude que o autor tinha para com a realidade. Bem construído mas não muito bem escrito, como aliás não é incomum em Dick, conta a história de um homem que tem um passatempo desde a infância: o modelismo ferroviário. Todos teremos já visto na televisão reportagens sobre este tipo de coisa: pessoas que passam longas horas da sua vida a construir modelos detalhados e complexos em volta de ferrovias de brinquedo. É o que o protagonista desta história faz, dedicando boa parte dos tempos livres de que dispõe, para frustração e irritação da mulher (que o enchifra, claro), a reproduzir com fidelidade a vila em que vive na cave de sua casa. Até que um dia se rebela e resolve começar a fazer aquilo que considera ser melhoramentos. É um conto sobre o complexo de deus que acomete muita gente (escritores, por exemplo), sobre ideais, sobre a alienação humana e sobre a natureza e solidez da realidade. Dick, já se sabe, desconfiava profundamente desta, o que leva a que, para quem já conheça alguma coisa da obra dele, este conto se torne previsível. O género? Há quem diga que é ficção científica, mas a mim parece mais fantasia, francamente. Seja como for, é um conto interessante e mais complexo do que pode parecer à primeira vista, o que costuma ter correspondência direta na qualidade. Gostei. Não muito, mas gostei.
sábado, 16 de abril de 2011
Lido: Una Luz en la Noche
Una Luz en la Noche, do espanhol Daniel Mares, é um romance de ficção científica dura, que em várias passagens me fez lembrar algumas das histórias de João Aniceto. Trata de uma expedição espacial a um sistema estelar distante, um binário com uma estrela normal e um pulsar. Tal como nas histórias de Aniceto de que falei, a expedição segue as regras da FC clássica. Nave tripulada, velocidades relativísticas, longos anos em viagem, mais longos ainda para quem fica nos planetas de origem. E no fim da viagem encontra-se um sistema não só estelar, mas, para surpresa da tripulação, também planetário.
Mares propõe algumas ideias bem difíceis de engolir. O facto da expedição interestelar ser tripulada, e não robotizada, é uma dessas ideias, mas até aí ainda a descrença se suspende por ser um tropo clássico na FC. É isso ou o hiperespaço, porque as histórias têm de ter gente dentro. Já o facto da presença do planeta ser surpresa total se entala mais um pouco na garganta, nesta época em que os nossos telescópios vão descobrindo planetas extrasolares às centenas. O que não dá mesmo para engolir é a nave ser uma nave penal, tripulada por três cientistas e por três prisioneiros. É completamente absurdo. O envio de homens para o espaço é inerentemente caríssimo e problemático porque há que levar atrás uma bolha da biosfera terrestre. Gastar esse dinheiro e esses recursos só para que três prisioneiros vão dar uma volta a uma estrela distante seria de tal modo estúpido que nem a mais tresloucada ditadura o faria. É que a missão nem sequer é de colonização, caso em que a ideia da nave penal talvez pudesse fazer algum sentido; a ideia é, apenas, ir, estudar o pulsar, e regressar, sem que os três prisioneiros tenham tarefas próprias. Inúteis geradores de entropia. Não há suspensão de descrença que resista.
Mas enfim, a nave lá chega ao destino, lá descobre o planeta, lá se põe a explorá-lo. Transforma-se o romance numa história de exploração planetária, que dá azo ao melhor que Mares concebeu. É que o planeta não só existe, como é habitável, e não só é habitável como é habitado (bem sei, suspensão da descrença, e tal... mas chegados a este ponto já ela estava em frangalhos, portanto isso já pouca relevância tem). E não só é habitado como é habitado por alienígenas inteligentes, embora primitivos. Temos, portanto, uma história de contacto, e é essa a parte mais interessante e bem concebida de todo o romance. O suficiente para o justificar? Depende dos leitores. Para mim foi. Porque os ETs de Mares não são americanos com máscaras de borracha, como tantos ETs da FC anglófona. Estão muito melhor concebidos do que isso. E esse facto, para mim, tem importância. Para outros leitores, o prato da balança que mais penderá será o facto da ambientação geral ser muito pior do que é hábito ver-se na FC com que estamos mais familiarizados. Esses, estou certo, sairão da leitura do romance achando-o muito mau.
Eu achei-o globalmente fraquinho mas com alguns motivos de interesse. Mais ou menos o que achei, lá está, dos romances do Aniceto. Com uma diferença: o Aniceto escrevia no início dos anos 80; Mares iniciou carreira nos 90 e o livro em que este romance se insere data de 2002. Apesar de tudo, o Aniceto estava mais sintonizado com a FC do seu tempo do que Mares com a do seu. Parecendo que não, é uma diferença relevante, e o português leva aí vantagem relativamente ao espanhol.
Mares propõe algumas ideias bem difíceis de engolir. O facto da expedição interestelar ser tripulada, e não robotizada, é uma dessas ideias, mas até aí ainda a descrença se suspende por ser um tropo clássico na FC. É isso ou o hiperespaço, porque as histórias têm de ter gente dentro. Já o facto da presença do planeta ser surpresa total se entala mais um pouco na garganta, nesta época em que os nossos telescópios vão descobrindo planetas extrasolares às centenas. O que não dá mesmo para engolir é a nave ser uma nave penal, tripulada por três cientistas e por três prisioneiros. É completamente absurdo. O envio de homens para o espaço é inerentemente caríssimo e problemático porque há que levar atrás uma bolha da biosfera terrestre. Gastar esse dinheiro e esses recursos só para que três prisioneiros vão dar uma volta a uma estrela distante seria de tal modo estúpido que nem a mais tresloucada ditadura o faria. É que a missão nem sequer é de colonização, caso em que a ideia da nave penal talvez pudesse fazer algum sentido; a ideia é, apenas, ir, estudar o pulsar, e regressar, sem que os três prisioneiros tenham tarefas próprias. Inúteis geradores de entropia. Não há suspensão de descrença que resista.
Mas enfim, a nave lá chega ao destino, lá descobre o planeta, lá se põe a explorá-lo. Transforma-se o romance numa história de exploração planetária, que dá azo ao melhor que Mares concebeu. É que o planeta não só existe, como é habitável, e não só é habitável como é habitado (bem sei, suspensão da descrença, e tal... mas chegados a este ponto já ela estava em frangalhos, portanto isso já pouca relevância tem). E não só é habitado como é habitado por alienígenas inteligentes, embora primitivos. Temos, portanto, uma história de contacto, e é essa a parte mais interessante e bem concebida de todo o romance. O suficiente para o justificar? Depende dos leitores. Para mim foi. Porque os ETs de Mares não são americanos com máscaras de borracha, como tantos ETs da FC anglófona. Estão muito melhor concebidos do que isso. E esse facto, para mim, tem importância. Para outros leitores, o prato da balança que mais penderá será o facto da ambientação geral ser muito pior do que é hábito ver-se na FC com que estamos mais familiarizados. Esses, estou certo, sairão da leitura do romance achando-o muito mau.
Eu achei-o globalmente fraquinho mas com alguns motivos de interesse. Mais ou menos o que achei, lá está, dos romances do Aniceto. Com uma diferença: o Aniceto escrevia no início dos anos 80; Mares iniciou carreira nos 90 e o livro em que este romance se insere data de 2002. Apesar de tudo, o Aniceto estava mais sintonizado com a FC do seu tempo do que Mares com a do seu. Parecendo que não, é uma diferença relevante, e o português leva aí vantagem relativamente ao espanhol.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Lido: O Livro das Configurações
O Livro das Configurações, de Mário Cabral, é algo de misto entre um romance fantástico e um tratado filosófico. Confusos? Eu explico, que bem sei que isto só assim não se percebe.
Trata-se de um livro com personagens, e essa é a parte do romance (ou antes, da novela que não chega ao tamanho de romance): um avô, que conta histórias, e um confuso conjunto de crianças, desfasadas no tempo, que escutam as histórias e fazem perguntas. Confuso porque o livro começa numa conversa entre um avô (que mais tarde se esclarece que não é avô nenhum, só um velho a quem o narrador trata assim) e o narrador, mas depois este surge a contar as histórias das conversas com o avô a um sobrinho, Mário, e uma afilhada, Mariana. E é precisamente aqui que reside a primeira e principal falha deste livro. Uma narração em camadas como esta exige uma pena bastante mais hábil do que a de Mário Cabral para evitar que à terceira ou quarta iteração o leitor não fique irremediavelmente confuso quanto a quem é quem e diz o quê a quem... a não ser que dedique a esse pormenor uma atenção que terá de desviar do objetivo principal do livro, diminuindo o impacto que o autor pretende causar com ele.
Aqui, como tantas vezes acontece, o verdadeiro segredo para chegar mais perto de criar uma obra maior teria estado na simplicidade.
É que o autor pretende causar impacto. Talvez não tanto literário, mas filosófico com toda a certeza, e aqui entramos na parte do ensaio. Porque, através da narração de histórias (da velha arte aldeã da narração de histórias, tantas vezes à lareira, em que os velhos cheios delas as transmitem aos mais novos), umas histórias muito fantásticas por natureza, cheias de animais, plantas e até pedras animadas de uma espécie de alma que se transmigra de umas coisas para outras, pretende apresentar e fazer aceitar uma filosofia mistico-religiosa muito sua. Uma estranha mistura de cristianismo com religiões orientais, centrada no conceito de configuração, segundo o qual todas as entidades são eternas e se vão transferindo de configuração em configuração, de cão para árvore, para pedra, para homem e assim sucessivamente ao longo do tempo. Assim uma espécie de reencarnações sucessivas em busca do Nirvana. Mas não exatamente.
Na explanação deste conceito metafísico até tem sucesso, desde que não nos prendamos nos pormenores sobre quem diz o quê a quem de que falava acima. O texto, não sendo nada de superlativo, é em geral correto, embora o autor não saiba, manifestamente, utilizar o registo oral, muito em especial na boca das crianças. Nenhuma criança do mundo diz coisas como: "Não se deve nunca assustar Deus com discursos directos [sim, é pré-AO]. Só os filósofos se atrevem a tal, mas a maior parte deles não sabe pensar!" Outra falha que muita gente releva mas eu acho importante, somando duas falhas literárias que para mim são fundamentais.
A acrescentar a isso, ao ler este livro, e particularmente na altura em que o li, só conseguia pensar na elaboração dos castelos de vento que tanta gente constrói por ter terror da morte. Porque esta filosofia que Mário Cabral aqui elabora, cheio de arrogância contra "os positivistas" e os "filósofos que não sabem pensar", não passa disso mesmo: uma filosofia oca, sem a mínima base, uma salada de tradições religiosas oriundas de vários pontos e culturas, criada com o exclusivo propósito de explicar o facto de se estar vivo e a inevitabilidade de um dia se deixar de o estar. Uma filosofia criada por medo e para consolar esse medo. É muito cómodo, muito reconfortante, acreditar em coisas destas, em especial quando estamos a olhar de frente o feio rosto da morte. A nossa ou a de gente que nos é querida. Foram várias as vezes que durante estes últimos meses me apeteceu poder fazê-lo. Mas a comodidade e o reconforto não tornam ideias destas mais válidas. A autoilusão não é um ato de coragem, bem pelo contrário. E para mim é espantoso que tanta gente a prefira a encarar a realidade de frente.
Em suma: detestei este livrinho. Por falhas literárias e por profundíssimas falhas nas ideias. Sei bem, contudo, que estas últimas irão agradar a alguns leitores mais dados a misticismos. E quanto às primeiras, também há leitores para os quais elas não assumem a importância que têm para mim. Se é o vosso caso, arrisquem. Se não é, o melhor é ignorarem este livro.
Trata-se de um livro com personagens, e essa é a parte do romance (ou antes, da novela que não chega ao tamanho de romance): um avô, que conta histórias, e um confuso conjunto de crianças, desfasadas no tempo, que escutam as histórias e fazem perguntas. Confuso porque o livro começa numa conversa entre um avô (que mais tarde se esclarece que não é avô nenhum, só um velho a quem o narrador trata assim) e o narrador, mas depois este surge a contar as histórias das conversas com o avô a um sobrinho, Mário, e uma afilhada, Mariana. E é precisamente aqui que reside a primeira e principal falha deste livro. Uma narração em camadas como esta exige uma pena bastante mais hábil do que a de Mário Cabral para evitar que à terceira ou quarta iteração o leitor não fique irremediavelmente confuso quanto a quem é quem e diz o quê a quem... a não ser que dedique a esse pormenor uma atenção que terá de desviar do objetivo principal do livro, diminuindo o impacto que o autor pretende causar com ele.
Aqui, como tantas vezes acontece, o verdadeiro segredo para chegar mais perto de criar uma obra maior teria estado na simplicidade.
É que o autor pretende causar impacto. Talvez não tanto literário, mas filosófico com toda a certeza, e aqui entramos na parte do ensaio. Porque, através da narração de histórias (da velha arte aldeã da narração de histórias, tantas vezes à lareira, em que os velhos cheios delas as transmitem aos mais novos), umas histórias muito fantásticas por natureza, cheias de animais, plantas e até pedras animadas de uma espécie de alma que se transmigra de umas coisas para outras, pretende apresentar e fazer aceitar uma filosofia mistico-religiosa muito sua. Uma estranha mistura de cristianismo com religiões orientais, centrada no conceito de configuração, segundo o qual todas as entidades são eternas e se vão transferindo de configuração em configuração, de cão para árvore, para pedra, para homem e assim sucessivamente ao longo do tempo. Assim uma espécie de reencarnações sucessivas em busca do Nirvana. Mas não exatamente.
Na explanação deste conceito metafísico até tem sucesso, desde que não nos prendamos nos pormenores sobre quem diz o quê a quem de que falava acima. O texto, não sendo nada de superlativo, é em geral correto, embora o autor não saiba, manifestamente, utilizar o registo oral, muito em especial na boca das crianças. Nenhuma criança do mundo diz coisas como: "Não se deve nunca assustar Deus com discursos directos [sim, é pré-AO]. Só os filósofos se atrevem a tal, mas a maior parte deles não sabe pensar!" Outra falha que muita gente releva mas eu acho importante, somando duas falhas literárias que para mim são fundamentais.
A acrescentar a isso, ao ler este livro, e particularmente na altura em que o li, só conseguia pensar na elaboração dos castelos de vento que tanta gente constrói por ter terror da morte. Porque esta filosofia que Mário Cabral aqui elabora, cheio de arrogância contra "os positivistas" e os "filósofos que não sabem pensar", não passa disso mesmo: uma filosofia oca, sem a mínima base, uma salada de tradições religiosas oriundas de vários pontos e culturas, criada com o exclusivo propósito de explicar o facto de se estar vivo e a inevitabilidade de um dia se deixar de o estar. Uma filosofia criada por medo e para consolar esse medo. É muito cómodo, muito reconfortante, acreditar em coisas destas, em especial quando estamos a olhar de frente o feio rosto da morte. A nossa ou a de gente que nos é querida. Foram várias as vezes que durante estes últimos meses me apeteceu poder fazê-lo. Mas a comodidade e o reconforto não tornam ideias destas mais válidas. A autoilusão não é um ato de coragem, bem pelo contrário. E para mim é espantoso que tanta gente a prefira a encarar a realidade de frente.
Em suma: detestei este livrinho. Por falhas literárias e por profundíssimas falhas nas ideias. Sei bem, contudo, que estas últimas irão agradar a alguns leitores mais dados a misticismos. E quanto às primeiras, também há leitores para os quais elas não assumem a importância que têm para mim. Se é o vosso caso, arrisquem. Se não é, o melhor é ignorarem este livro.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Ratolândia
Esta é a história de um lugar chamado Ratolândia. Ratolândia era um lugar onde todos os ratinhos viviam e brincavam, nasciam e morriam. E viviam duma forma muito semelhante a vocês e a mim.
Até tinham um parlamento. E de quatro em quatro anos tinham eleições. Iam às assembleias de voto e depositavam os seus votos. Alguns deles até apanhavam boleia até às assembleias de voto. E apanhavam boleia também para os quatro anos seguintes. Tal como vocês e eu. E sempre, no dia das eleições, todos os ratinhos iam às urnas e elegiam um governo. Um governo composto por grandes e gordos gatos pretos.
Ora, se acham estranho que ratos elejam um governo feito de gatos, olhem bem para a história do Canadá nos últimos 90 anos e talvez vejam que não eram mais estúpidos do que nós.
Reparem que eu não estou a dizer nada contra os gatos. Eram tipos simpáticos. Dirigiam o governo com dignidade. Aprovavam boas leis — isto é, leis que eram boas para gatos. Mas as leis que eram boas para gatos não eram lá muito boas para ratos. Uma das leis dizia que os buracos dos ratos tinham de ser suficientemente grandes para um gato conseguir lá enfiar uma pata. Outra lei dizia que os ratos só podiam viajar a certas velocidades — para que um gato pudesse apanhar o pequeno-almoço sem grande esforço.
Todas as leis eram boas leis. Para gatos. Mas, oh, eram duras para os ratos. E a vida ia-se tornando cada vez mais dura. E quando os ratos deixaram de conseguir aguentá-la, decidiram que alguma coisa tinha de ser feita a respeito delas. Portanto foram maciçamente às urnas. Puseram os gatos pretos na rua. Elegeram os gatos brancos.
Os gatos brancos tinham feito uma ótima campanha. Tinham dito: "Tudo o que a Ratolândia precisa é de mais visão." Tinham dito: "O problema da Ratolândia são estes buracos de ratos redondos que temos. Se nos elegerem, decretaremos buracos de rato quadrados." E foi o que fizeram. E os buracos de rato quadrados eram duas vezes maiores do que os redondos, e agora o gato podia enfiar neles ambas as patas. E a vida tornou-se mais dura do que nunca.
E quando deixaram de aguentar, os ratos puseram na rua os gatos brancos e voltaram a eleger os pretos. Depois voltaram aos brancos. Depois aos pretos. Até experimentaram gatos metade pretos e metade brancos. E chamaram a isso coligação. Até arranjaram um governo feito de gatos com malhas: eram gatos que tentavam fazer ruídos de rato mas comiam como gatos.
O problema, meus amigos, não estava na cor do gato. O problema era eles serem gatos. E, como eram gatos, naturalmente preocupavam-se com os gatos e não com os ratos.
A dado passo apareceu um ratinho com uma ideia. Meus amigos, cuidado com o tipo pequenino com uma ideia. E ele disse aos outros ratos: "Olhem, rapazes, porque é que continuamos a eleger governos feitos de gatos? Porque é que não elegemos um governo feito de ratos?" "Oh," disseram eles, "este é um bolchevique. Prendam-no!" Portanto puseram-no na cadeia.
Mas quero lembrar-vos de que podem prender um rato ou um homem, mas não é possível prender uma ideia.
Fábula política de origem canadiana mas bastante universal, criada por Clarence Gillis, popularizada por Tommy Douglas e traduzida para português por Jorge Candeias.
Até tinham um parlamento. E de quatro em quatro anos tinham eleições. Iam às assembleias de voto e depositavam os seus votos. Alguns deles até apanhavam boleia até às assembleias de voto. E apanhavam boleia também para os quatro anos seguintes. Tal como vocês e eu. E sempre, no dia das eleições, todos os ratinhos iam às urnas e elegiam um governo. Um governo composto por grandes e gordos gatos pretos.
Ora, se acham estranho que ratos elejam um governo feito de gatos, olhem bem para a história do Canadá nos últimos 90 anos e talvez vejam que não eram mais estúpidos do que nós.
Reparem que eu não estou a dizer nada contra os gatos. Eram tipos simpáticos. Dirigiam o governo com dignidade. Aprovavam boas leis — isto é, leis que eram boas para gatos. Mas as leis que eram boas para gatos não eram lá muito boas para ratos. Uma das leis dizia que os buracos dos ratos tinham de ser suficientemente grandes para um gato conseguir lá enfiar uma pata. Outra lei dizia que os ratos só podiam viajar a certas velocidades — para que um gato pudesse apanhar o pequeno-almoço sem grande esforço.
Todas as leis eram boas leis. Para gatos. Mas, oh, eram duras para os ratos. E a vida ia-se tornando cada vez mais dura. E quando os ratos deixaram de conseguir aguentá-la, decidiram que alguma coisa tinha de ser feita a respeito delas. Portanto foram maciçamente às urnas. Puseram os gatos pretos na rua. Elegeram os gatos brancos.
Os gatos brancos tinham feito uma ótima campanha. Tinham dito: "Tudo o que a Ratolândia precisa é de mais visão." Tinham dito: "O problema da Ratolândia são estes buracos de ratos redondos que temos. Se nos elegerem, decretaremos buracos de rato quadrados." E foi o que fizeram. E os buracos de rato quadrados eram duas vezes maiores do que os redondos, e agora o gato podia enfiar neles ambas as patas. E a vida tornou-se mais dura do que nunca.
E quando deixaram de aguentar, os ratos puseram na rua os gatos brancos e voltaram a eleger os pretos. Depois voltaram aos brancos. Depois aos pretos. Até experimentaram gatos metade pretos e metade brancos. E chamaram a isso coligação. Até arranjaram um governo feito de gatos com malhas: eram gatos que tentavam fazer ruídos de rato mas comiam como gatos.
O problema, meus amigos, não estava na cor do gato. O problema era eles serem gatos. E, como eram gatos, naturalmente preocupavam-se com os gatos e não com os ratos.
A dado passo apareceu um ratinho com uma ideia. Meus amigos, cuidado com o tipo pequenino com uma ideia. E ele disse aos outros ratos: "Olhem, rapazes, porque é que continuamos a eleger governos feitos de gatos? Porque é que não elegemos um governo feito de ratos?" "Oh," disseram eles, "este é um bolchevique. Prendam-no!" Portanto puseram-no na cadeia.
Mas quero lembrar-vos de que podem prender um rato ou um homem, mas não é possível prender uma ideia.
Fábula política de origem canadiana mas bastante universal, criada por Clarence Gillis, popularizada por Tommy Douglas e traduzida para português por Jorge Candeias.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Conteúdos próprios na web
Já uma vez fiz isto, mas duma forma apressada e pouco clara. Agora volto a fazer, mais estruturadamente, e com o objetivo deste post vir a ficar linkado de algures aqui no modelo da Lâmpada e ser alterado sempre que houver alterações a fazer. E que quero dizer com "isto"? Falo de um mapa dos meus conteúdos espalhados pela web e das minhas presenças em redes sociais e coisas do género. São os seguintes, além deste blogue:
Redes sociais genéricas:
Literatura:
Outros:
Redes sociais genéricas:
Literatura:
- Por Vós Lhe Mandarei Embaixadores - um romance online, completo;
- E-nigma - um webzine, parado há alguns anos;
- Bibliowiki - uma base de dados bibliográfica sobre ficção científica e fantástico editados em português; vasta mas desatualizada e eternamente incompleta;
- Jorge Candeias Enquanto Escritor - um site estático sobre o que o nome indica, muitíssimo desatualizado;
- Scribd - rede social de documentos em ebook; o link leva à conta que lá tenho, muito pouco utilizada;
- Goodreads - rede social sobre leituras; o link leva à conta (de autor) que lá tenho;
- Found in Translation - um blogue sobre tradução, em inglês; negligenciado há alguns meses;
- Candeimagens - um fotoblogue; se quiserem ver só as imagens de que mais gosto, cliquem aqui;
- Flickr - rede social de (sobretudo) fotografia; o link leva à conta que lá tenho;
- DeviantART - rede social de (sobretudo) arte digital e fotografia; o link leva à conta que lá tenho, só esboçada;
- Edições Colibri - um livro publicado;
- Editora Draco - presença em três antologias;
- Lulu - um livro publicado;
Outros:
- A Lâmpada Mágica - este blogue; para quem não conhece, é um blogue pessoal, portanto genérico, mas virado essencialmente para a literatura, o que se compreende tendo em conta que é a literatura que me põe comida na mesa;
- Thousands of Planets - um blogue sobre planetas, em inglês; negligenciado desde que o meu pai adoeceu, há ano e meio;
- Blip.fm - rede social de música (e vídeos); o link leva à conta que lá tenho, com a música que fui blipando
Lido: O Nada e o Pouco
O Nada e o Pouco (bib.) é um conto curto de Italo Calvino, uma vez mais protagonizado pelo seu eterno extraterrestre Qfwfq. Este é muito cosmológico, regressando aos instantes iniciais do universo, logo após o Big Bang (e até antes) para contar mais um dos múltiplos desencontros amorosos de Qfwfq, que já então existia. Desta feita, ele, que só se interessava pelo tudo, resolve interessar-se por uma tal Nugkta que achava que o importante era o nada. Foi o conto de que mais me custou lembrar-me entre os que fui lendo nestes meses, o que é significativo. É que o maior problema que estou a detetar neste livro é uma certa repetição de enredos. São vários os contos em que Qfwfq se (des)encontra com uma outra entidade feminina qualquer, a qual o põe invariavelmente em causa, ou a ele, mesmo, o Qfwfq propriamente dito, ou às suas ideias. É o que acontece uma vez mais neste conto, e se isso pode ter interesse durante 100 páginas, quando chegamos à 115 já não tem muito. Em todo o caso, há também entre o humor alguma reflexão filosófica sobre, precisamente, o nada e o todo, o que pode atrair alguns leitores. Mas este leitor tem de confessar que achou este conto profundamente esquecível.
Lido: Sonhos e Responsabilidade em Tondela
Sonhos e Responsabilidade em Tondela é um conto de Alexandre Andrade, contado na primeira pessoa, num estilo epistolar, por alguém que basicamente assiste ao desenrolar dos acontecimentos. Estes centram-se na chegada a Tondela de um excêntrico treinador de basquetebol / encenador de teatro, e no redemoinho de mudanças e tentativas de mudança que este indivíduo vai trazer àquela pequena e conservadora cidade beirã. Bem escrito, o conto debruça-se sobretudo sobre os limites impostos a cada um de nós pelo meio que nos envolve, e pela rejeição social que ameaça todos os que procuram ultrapassá-los. É, portanto, um conto com interesse, mas confesso não ter gostado muito. Achei-o demasiado longo e lento para a história que conta e as longas descrições psicológicas das personagens sempre me aborreceram, especialmente quando não estão contidas em romances, em que há tempo e espaço para se diluírem no meio de muitas outras coisas, mas em obras mais curtas, onde acabam por ocupar uma proporção de texto que quase sempre me parece exagerada. E especialmente quando muita dessa descrição se torna desnecessária por ser óbvia com base naquilo que a personagem faz.
Este foco na construção psicológica das personagens é, contudo, uma das mais marcadas características do mainstream. De tal modo marcada, na verdade, que talvez se possa mesmo chamar-lhe regra. E este conto é absolutamente fiel a essa regra. Quem se delicia com este tipo de coisa tem aqui pratinho cheio. Não é o meu caso mas será o de muitos outros leitores.
Este foco na construção psicológica das personagens é, contudo, uma das mais marcadas características do mainstream. De tal modo marcada, na verdade, que talvez se possa mesmo chamar-lhe regra. E este conto é absolutamente fiel a essa regra. Quem se delicia com este tipo de coisa tem aqui pratinho cheio. Não é o meu caso mas será o de muitos outros leitores.
Lido: São José — O Filofax
São José — O Filofax é uma história de Carlos Quevedo e Rui Zink na qual são reproduzidas algumas anotações no filofax de São José. Esse mesmo, o pai de Jesus, carpinteiro. Nessas anotações mais ou menos diarísticas, pejadas de um humor corrosivo, cheio de anacronismos (como o próprio título já deixa prever, aliás) e herético qb, conta-se a história da vida conjugal do José e da Maria, ou o que a tal se assemelha, ao longo do ano que antecede o nascimento de Jesus (e até pouco depois). Não sendo nada de especial em termos literários, foi das poucas coisas a trazer-me um sorriso aos lábios ao longo destes últimos três meses e isso conta, e muito. É uma história divertida e, como é isso o que se pretende dela, é uma boa história.
Lido: Pequeno-Almoço ao Sol-Posto
Pequeno-Almoço ao Sol-Posto (bib.) é um conto de Philip K. Dick muito típico da Guerra Fria, no qual uma família se vê arrancada, com casa e tudo, à sua rotina habitual de um subúrbio americano e é atirada para um futuro de pesadelo, no qual a guerra de fria passou a quente. Não me pareceu um bom conto; é daqueles contos de FC demasiado centrados na ideia, que consistem quase exclusivamente de explicações apressadas da situação em que as personagens se encontram. Neste, embora a toda a volta o mundo esteja literalmente a rebentar de ação, há até como que uma bolha de calma relativa, suficiente para que essas explicações se processem até ao fim. E a família aceita tudo o que lhe é dito com uma prontidão perfeitamente inverosímil. Mas também não é um mau conto. Não há, por exemplo, explicações extemporâneas, do tipo em que uma personagem explica coisas que todas as outras estão fartas de saber, para benefício exclusivo do leitor. E já se veem nele algumas das características marcantes de toda a obra de Dick, muito em especial a desconfiança que lhe merecia a solidez da realidade. É um conto mediano, com interesse para os dickianos por ser uma obra do início da carreira do autor em que há um certo esboço de coisas posteriores, e que os outros leem num instante sem se deixarem marcar.
terça-feira, 5 de abril de 2011
"Obrigado, malta" e o futuro próximo
Um último agradecimento ficou por fazer: a vocês. Todos os que me (nos) foram apoiando ao longo desta doença terrível, e me (nos) continuaram a apoiar quando ela teve o seu desenlace. Muito, muito obrigado.
Antes disto, eu só muito raramente dizia ou fazia alguma coisa quando alguém das minhas relações passava por aquilo que eu passei agora. Porque nunca sabia o que fazer ou dizer. Porque podia imaginar vagamente o que as pessoas estavam a sentir mas não sabia realmente, não tinha nenhum termo de comparação. Porque tinha receio de ser desastrado, de dizer ou fazer a coisa errada, de piorar as coisas. E porque pensava que, mesmo que não metesse os pés pelas mãos, não conseguiria realmente beneficiar em nada o outro. De que serve um "força" perante uma dor tão grande?
Pois bem, fiquei a saber que mesmo não servindo de muito sempre serve de alguma coisa. É verdade que às vezes reavivava a dor, mas também me deu uma noção bastante concreta de que toda a gente passa por isto, mais tarde ou mais cedo, e depois de passar continua funcional e razoavelmente sã. Que a ferida até pode nunca sarar mas pelo menos deixa de incomodar todos os dias. Que a ausência nunca desaparece, mas vai mudando de natureza com o passar do tempo, perdendo as bordas aguçadas e tornando-se mais suave. E isto foi muito importante ao longo do mês que passou, e tenho a certeza de que continuará a sê-lo daqui em diante. Por isso o meu obrigado a todos vocês. Vocês sabem quem são.
Aqui a Lâmpada vai regressar ao normal nos próximos dias, e só não o fez já porque tenho estado afanosamente a recuperar o atraso na atual tradução. Isso e a muita papelada que há que tratar na sequência de uma morte (e também a absoluta necessidade de dar uns passeios por aí, sair de casa, desopilar, ver que o mundo continua a ter beleza para ver) não me têm deixado tempo livre quase nenhum. Mas agora que o atraso está praticamente recuperado e tudo aponta para mais um prazo cumprido, está na hora de voltar cá. Não falo de leituras há três meses. E se é verdade que li pouquíssimo nestes três meses, não é menos verdade que entre ler pouquíssimo e não ler nada há alguma diferença. E tenho, claro, algumas coisas a dizer sobre o que fui lendo (e vamos ver se ainda me lembro de algumas dessas coisas). Contudo, devo também avisar que estou a reler a minha tradução de As Crónicas de Gelo e Fogo, e disso, como é óbvio, não falarei por cá. Ou seja: mesmo depois de recuperar o tempo perdido no que às notas de leitura diz respeito, elas serão, durante bastante tempo (os livros são vários e todos grandes), menos frequentes do que tem sido hábito. A Lâmpada regressará ao normal, sim, mas a um normal atenuado enquanto durar esta releitura.
Mas a despedida agora é até já. A gente vê-se em breve.
Antes disto, eu só muito raramente dizia ou fazia alguma coisa quando alguém das minhas relações passava por aquilo que eu passei agora. Porque nunca sabia o que fazer ou dizer. Porque podia imaginar vagamente o que as pessoas estavam a sentir mas não sabia realmente, não tinha nenhum termo de comparação. Porque tinha receio de ser desastrado, de dizer ou fazer a coisa errada, de piorar as coisas. E porque pensava que, mesmo que não metesse os pés pelas mãos, não conseguiria realmente beneficiar em nada o outro. De que serve um "força" perante uma dor tão grande?
Pois bem, fiquei a saber que mesmo não servindo de muito sempre serve de alguma coisa. É verdade que às vezes reavivava a dor, mas também me deu uma noção bastante concreta de que toda a gente passa por isto, mais tarde ou mais cedo, e depois de passar continua funcional e razoavelmente sã. Que a ferida até pode nunca sarar mas pelo menos deixa de incomodar todos os dias. Que a ausência nunca desaparece, mas vai mudando de natureza com o passar do tempo, perdendo as bordas aguçadas e tornando-se mais suave. E isto foi muito importante ao longo do mês que passou, e tenho a certeza de que continuará a sê-lo daqui em diante. Por isso o meu obrigado a todos vocês. Vocês sabem quem são.
Aqui a Lâmpada vai regressar ao normal nos próximos dias, e só não o fez já porque tenho estado afanosamente a recuperar o atraso na atual tradução. Isso e a muita papelada que há que tratar na sequência de uma morte (e também a absoluta necessidade de dar uns passeios por aí, sair de casa, desopilar, ver que o mundo continua a ter beleza para ver) não me têm deixado tempo livre quase nenhum. Mas agora que o atraso está praticamente recuperado e tudo aponta para mais um prazo cumprido, está na hora de voltar cá. Não falo de leituras há três meses. E se é verdade que li pouquíssimo nestes três meses, não é menos verdade que entre ler pouquíssimo e não ler nada há alguma diferença. E tenho, claro, algumas coisas a dizer sobre o que fui lendo (e vamos ver se ainda me lembro de algumas dessas coisas). Contudo, devo também avisar que estou a reler a minha tradução de As Crónicas de Gelo e Fogo, e disso, como é óbvio, não falarei por cá. Ou seja: mesmo depois de recuperar o tempo perdido no que às notas de leitura diz respeito, elas serão, durante bastante tempo (os livros são vários e todos grandes), menos frequentes do que tem sido hábito. A Lâmpada regressará ao normal, sim, mas a um normal atenuado enquanto durar esta releitura.
Mas a despedida agora é até já. A gente vê-se em breve.
segunda-feira, 28 de março de 2011
Agradecimentos públicos
Ainda sobre o meu pai, queria deixar aqui um agradecimento público ao pessoal de Oncologia do Hospital de Faro, muito em particular o pessoal de enfermagem. O pessoal de enfermagem foi exemplar no tratamento do meu pai e, apesar do segundo tratamento de quimioterapia ter sido o que o deitou abaixo mais depressa, também não tenho queixas do pessoal médico. A quimioterapia, sendo embora o melhor método de que dispomos para atacar o cancro, é um método tosco, que faz quase tanto mal à parte do corpo que está saudável como ao cancro propriamente dito. Ou às vezes, como no caso do meu pai, faz pior ao corpo saudável do que ao cancro. E à partida nunca se sabe como as pessoas reagem. Não é culpa dos médicos que o meu pai tivesse reagido mal.
(O agradecimento não se estende ao pessoal administrativo. Não me esqueço, nem perdoo, que o pedido de consulta tenha andado perdido durante dois meses.)
Igualmente agradeço ao pessoal do Hospital de S. Camilo, em Portimão, onde ele acabou por morrer. Conseguiram tornar-lhe suportáveis os últimos dias de vida, quando já não havia qualquer esperança. Também aí foram exemplares.
Não posso dizer o mesmo do Hospital do Barlavento. Embora também aí haja boa gente, tanto entre o pessoal médico como de enfermagem (e a esses agradeço), nem todas aquelas pessoas estão talhadas para a função que exercem. Algumas precisam de aprender que os doentes que lá têm internados são pessoas com direito à dignidade. Compreendo o excesso de trabalho e as dificuldades decorrentes da sobrelotação do hospital, mas se alguns dos vossos colegas conseguem manter-se a um nível aceitável vocês também tinham obrigação de conseguir. Infelizmente, no HBA tive contacto com enfermeiras cuja real vocação era de caixas de supermercado (e com pelo menos uma médica também). Mas também contactámos aí com gente boa, e a essas pessoas também quero agradecer aqui.
Obrigado a todas estas pessoas, em meu nome e no de toda a família. Mas espero não vos voltar a ver nunca. Não é por mal.
(O agradecimento não se estende ao pessoal administrativo. Não me esqueço, nem perdoo, que o pedido de consulta tenha andado perdido durante dois meses.)
Igualmente agradeço ao pessoal do Hospital de S. Camilo, em Portimão, onde ele acabou por morrer. Conseguiram tornar-lhe suportáveis os últimos dias de vida, quando já não havia qualquer esperança. Também aí foram exemplares.
Não posso dizer o mesmo do Hospital do Barlavento. Embora também aí haja boa gente, tanto entre o pessoal médico como de enfermagem (e a esses agradeço), nem todas aquelas pessoas estão talhadas para a função que exercem. Algumas precisam de aprender que os doentes que lá têm internados são pessoas com direito à dignidade. Compreendo o excesso de trabalho e as dificuldades decorrentes da sobrelotação do hospital, mas se alguns dos vossos colegas conseguem manter-se a um nível aceitável vocês também tinham obrigação de conseguir. Infelizmente, no HBA tive contacto com enfermeiras cuja real vocação era de caixas de supermercado (e com pelo menos uma médica também). Mas também contactámos aí com gente boa, e a essas pessoas também quero agradecer aqui.
Obrigado a todas estas pessoas, em meu nome e no de toda a família. Mas espero não vos voltar a ver nunca. Não é por mal.
domingo, 27 de março de 2011
Isto de ter razão é giro
Recebi há minutos uma notificação. Alguém tinha deixado um comentário num velho post aqui da Lâmpada. Neste velho e polémico post, mais precisamente. O comentário trazia um link para um vídeo do YouTube, doze minutos sobre a coleção Argonauta e principalmente sobre as edições do livro Estação de Trânsito do Clifford D. Simak. O vídeo arruma o assunto de vez, espera-se. Com factos, livros, essas coisas. Nem um deliriozinho para amostra. Assim é que deve ser.
Do que lá é dito só discordo de uma coisa: na minha opinião, a Argonauta não acabou por causa da mudança de formato. Já antes lhe tinham dado o golpe de misericórdia, aí por meados da década de 90, desbaratando décadas de prestígio com as piores traduções que vi na vida e livros que se começavam a desfazer no momento em que eram abertos. Foi isso que matou a Argonauta. A mudança de formato foi apenas uma tentativa desastrada de tapar o rombo. Concordo que só conseguiu escancará-lo mais, mas o rombo já estava feito. E o navio foi mesmo ao fundo.
Do que lá é dito só discordo de uma coisa: na minha opinião, a Argonauta não acabou por causa da mudança de formato. Já antes lhe tinham dado o golpe de misericórdia, aí por meados da década de 90, desbaratando décadas de prestígio com as piores traduções que vi na vida e livros que se começavam a desfazer no momento em que eram abertos. Foi isso que matou a Argonauta. A mudança de formato foi apenas uma tentativa desastrada de tapar o rombo. Concordo que só conseguiu escancará-lo mais, mas o rombo já estava feito. E o navio foi mesmo ao fundo.
sábado, 26 de março de 2011
1935-2011
Faz hoje três semanas que morreu o meu pai. E aqui a Lâmpada tem estado à espera que eu ganhe coragem para fazer este post. O terceiro post do ano, agora que este está prestes a concluir o seu terceiro mês, porque antes da morte houve a fase mais terrível e devastadora da doença e eu estive com a cabeça muito, muito longe daqui.
Não poderia voltar ao blogue sem fazer este post. Pensei por várias vezes fazê-lo mas em nenhuma dessas vezes deitei mesmo mãos à obra. Gostaria de poder fazê-lo dizendo ao meu pai tudo o que ficou por dizer, mas ficou tanto, tanto por dizer que não seria um post, seria uma série deles, e se ficasse à espera de escrever tudo antes de regressar à Lâmpada esta ficaria parada durante imenso tempo. Talvez para sempre. E o meu pai ficaria muito triste com isso. Este blogue foi durante muito tempo a sua única concessão ao mundo dos computadores. Lia-o sempre que o apanhava aberto e me apanhava por fora. Por isso entristecê-lo-ia muitíssimo não só que o blogue acabasse, mas que fosse ele a causar o seu fim. Portanto regresso agora à Lâmpada, e tenciono retomar o ritmo normal um destes dias. Para já, falo do meu pai e com o meu pai, num post relativamente pequeno que não é uma despedida mas um recomeço. E agora com licença que tenho de falar com ele.
Olá, pai.
Não te assustes, nem comeces já a gozar comigo. Não me converti a nenhuma teoria esotérica, descansa. Estou plenamente consciente de que não me ouves nem lês. Mas preciso de falar com aquilo que de ti ficou em mim, percebes?, e um modo de o fazer é assim. Como se ainda me pudesses ler, como se ainda pudesses olhar-me enquanto escrevo isto.
Queria só dizer-te, para já, que lamento imenso não termos podido ter uma última e longa conversa. Que a doença e os opiáceos que te tiravam as dores também te tenham roubado cedo demais o discernimento para essa conversa. Que eu tenha calado muitas coisas para te tentar dar alguma esperança e algum ânimo nos últimos meses da tua vida. Talvez tivesse sido melhor se tivéssemos tido essa conversa, tu e eu, de pai para filho, de amigo para amigo e de homem para homem. Ficou tanto por dizer!
É terrível quando ficam coisas por dizer.
Um dia dir-te-ei tudo, mesmo sem que me possas ouvir nem ler. Para já fica só isto. Amo-te, pai. Sempre amei e sempre amarei. E tudo na minha vida foi determinado ou influenciado por ti e pela tua, coisa de que julgo que nunca chegaste a ter plena consciência. Mais tarde te explicarei melhor como. É uma promessa que te faço aqui e agora. Mais tarde.
Por agora, só mais uma coisa. Tudo o que eu escreva e publique é para ti. Tudo o que traduza é para ti. Percebes? Tudo. E nem assim conseguirei algum dia pagar a dívida que tenho para contigo.
Pronto, chega por agora. Mais tarde continuarei, mas não aqui na Lâmpada. Quando tiver tempo e força para isso. Até lá.
PS: O meu pai tem um pequeno artigo na Wikipédia, que não foi criado por mim (nem por ninguém que eu conheça, aliás) mas que acabei de alterar. Provavelmente irei completá-lo no futuro, mas não será em breve.
Não poderia voltar ao blogue sem fazer este post. Pensei por várias vezes fazê-lo mas em nenhuma dessas vezes deitei mesmo mãos à obra. Gostaria de poder fazê-lo dizendo ao meu pai tudo o que ficou por dizer, mas ficou tanto, tanto por dizer que não seria um post, seria uma série deles, e se ficasse à espera de escrever tudo antes de regressar à Lâmpada esta ficaria parada durante imenso tempo. Talvez para sempre. E o meu pai ficaria muito triste com isso. Este blogue foi durante muito tempo a sua única concessão ao mundo dos computadores. Lia-o sempre que o apanhava aberto e me apanhava por fora. Por isso entristecê-lo-ia muitíssimo não só que o blogue acabasse, mas que fosse ele a causar o seu fim. Portanto regresso agora à Lâmpada, e tenciono retomar o ritmo normal um destes dias. Para já, falo do meu pai e com o meu pai, num post relativamente pequeno que não é uma despedida mas um recomeço. E agora com licença que tenho de falar com ele.
Olá, pai.
Não te assustes, nem comeces já a gozar comigo. Não me converti a nenhuma teoria esotérica, descansa. Estou plenamente consciente de que não me ouves nem lês. Mas preciso de falar com aquilo que de ti ficou em mim, percebes?, e um modo de o fazer é assim. Como se ainda me pudesses ler, como se ainda pudesses olhar-me enquanto escrevo isto.
Queria só dizer-te, para já, que lamento imenso não termos podido ter uma última e longa conversa. Que a doença e os opiáceos que te tiravam as dores também te tenham roubado cedo demais o discernimento para essa conversa. Que eu tenha calado muitas coisas para te tentar dar alguma esperança e algum ânimo nos últimos meses da tua vida. Talvez tivesse sido melhor se tivéssemos tido essa conversa, tu e eu, de pai para filho, de amigo para amigo e de homem para homem. Ficou tanto por dizer!
É terrível quando ficam coisas por dizer.
Um dia dir-te-ei tudo, mesmo sem que me possas ouvir nem ler. Para já fica só isto. Amo-te, pai. Sempre amei e sempre amarei. E tudo na minha vida foi determinado ou influenciado por ti e pela tua, coisa de que julgo que nunca chegaste a ter plena consciência. Mais tarde te explicarei melhor como. É uma promessa que te faço aqui e agora. Mais tarde.
Por agora, só mais uma coisa. Tudo o que eu escreva e publique é para ti. Tudo o que traduza é para ti. Percebes? Tudo. E nem assim conseguirei algum dia pagar a dívida que tenho para contigo.
Pronto, chega por agora. Mais tarde continuarei, mas não aqui na Lâmpada. Quando tiver tempo e força para isso. Até lá.
PS: O meu pai tem um pequeno artigo na Wikipédia, que não foi criado por mim (nem por ninguém que eu conheça, aliás) mas que acabei de alterar. Provavelmente irei completá-lo no futuro, mas não será em breve.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

