La Asombrosa Historia de Enrique y el Horror Tentacular de Venus, do espanhol Victor Conde, é um conto de ficção científica em que a ficção científica de que o conto se compõe é completamente secundária face a outras coisas. O protagonista é um escritor de FC de fandom, totalmente amador, portanto, publicando apenas em fanzines, e mergulhado até à testa nas mesquinhas discussões e invejas e rivalidades tão típicas dos fandoms de FC e de literatura fantástica em geral. Este escritor, que afirma achar a FC da idade de ouro uma patetice infantil cheia de monstros de olhos esbugalhados sem sentido e repletos de clichés, vê-se confrontado com um monstro de olhos esbugalhados saído de um disco voador, que lhe entra em casa precisamente à procura das publicações que o progatonista possa ter da tal FC da idade de ouro. E o protagonista converte-se, passa a acarinhar a velha FC que antes denunciava com enorme violência.
O conto é, portanto, e no fundamental, uma sátira aos mundinhos limitados e limitativos dos fandoms, e também uma declaração de amor à FC clássica. Ironicamente q.b., está tão repleto de autorreferências e camadas e (parece-me) tão bem escrito que se afasta bastante dessa mesma FC clássica. Foi esta incoerência que achei mais interessante no conto, e foi ela que mais me fez gostar dele. Sim, gostei do conto. Estou muito em desacordo com a ideia de FC que ele promove, mas gostei. Podem lê-lo aqui.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Lido: Quando se é Borges
Quando se é Borges é um conto de Jorge Lobo Mesquita que gira à volta de um encontro de um tal Borges, indivíduo dado às letras, à história e à genealogia que funciona como protagonista e narrador do conto, com Jorge Luiz Borges, o escritor argentino, em Lisboa, era este já bem velho e aquele um jovem cheio de entusiasmos. Contada anos mais tarde, a história perde-se por detalhes meândricos que me interessaram muito pouco, a respeito da história antiga da família Borges, oriunda de algures no norte de Portugal, e das relações, reais ou imaginadas pelo narrador, entre o escritor e uma jovem que o acompanhava aquando do encontro. O conto está bem escrito e bem executado, cheio de detalhes que serão certamente saborosos para quem sinta interesse por tais assuntos mas que a mim aborreceram bastante. É um dos tais casos em que estamos perante um conto que me pareceu basicamente bom mas do qual não gostei.
Lido: Ho! Ho! Ho!
Ho! Ho! Ho! é um minúsculo conto de Rui Zink, que cumpre cabalmente a primeira parte da premissa — é de natal; aliás o protagonista é o sacrossanto velho de barbas brancas sempre cocacolianamente vestido de vermelho — mas nem por isso cumpre a segunda — ser humorístico. É irónico, mas a ironia é amarga. É fantástico, claro, e só podia sê-lo com aquele protagonista. E também é anacrónico, ou se calhar antigo, algo que o Zink tinha no baú dos textos velhotes e recuperou para a antologia razoavelmente moderna em que o inseriu. Seja como for, fala de astronautas na estação espacial Mir, agora que os astronautas já só habitam na ISS (ou EEI, em português, mas ninguém conhece esta sigla) há alguns anos. Eu gostei. Não gostei assim muito, mas gostei.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Lido: Jogar Para Reviver o Passado
Jogar Para Reviver o Passado (bib.) é uma noveleta de ficção científica pós-apocalíptica de Philip K. Dick que só consegui engolir encarando-a como sátira. Passa-se na zona de São Francisco, depois de um holocausto nuclear que devastou o planeta. Pequenos grupos de sobreviventes albergam-se em abrigos espalhados por toda a zona e sobrevivem graças a entregas periódicas de géneros provenientes de fonte desconhecida. Mas ao passo que os jovens encaram a sua vida com normalidade e se mantêm mentalmente sãos, os adultos estão de tal forma alienados que só pensam num jogo de role-playing que simula a vida tal como era antes da devastação. Passam todo o seu tempo ou a construir os cenários a partir de materiais que recolhem no exterior, ou a jogar, mergulhados em mesquinhas rivalidades intra e interabrigos. É uma dessas competições que move a história, uma competição de alto nível, entre um abrigo e outro, na qual está em jogo o prémio máximo: a boneca que é usada como personagem principal no jogo.
Julgo perceber a intenção por trás desta história, mas acho tão estúpida e inverosímil a ideia de abrigos inteiros de sobreviventes, em situação precária, furiosa e unicamente dedicados a um jogo, que não consegui entrar na história até começar a olhá-la como sátira, naturalmente exageradíssima, à futilidade e superficialidade da burguesia suburbana. A partir daí li a noveleta com um certo gozo, apesar de não deixar de a achar um dos piores textos do livro em que se insere.
Julgo perceber a intenção por trás desta história, mas acho tão estúpida e inverosímil a ideia de abrigos inteiros de sobreviventes, em situação precária, furiosa e unicamente dedicados a um jogo, que não consegui entrar na história até começar a olhá-la como sátira, naturalmente exageradíssima, à futilidade e superficialidade da burguesia suburbana. A partir daí li a noveleta com um certo gozo, apesar de não deixar de a achar um dos piores textos do livro em que se insere.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Um conselho grátis a quem faz críticas
Este é mais para quem faz críticas de traduções, mas não só. Sabe-se de casos de autores que passaram décadas a resmungar por causa do mesmo problema. Mas é mais para quem faz críticas de traduções porque afeta bastante mais os tradutores do que os autores. Que conselho é esse?
Não partam do princípio de que os títulos são escolhidos por quem escreve ou traduz o texto dos livros.
É que é muito frequente não ser. É muito frequente que sejam as editoras e, dentro destas, o departamento comercial, a determinar o título que acaba por vir a público. Por vezes por sugestão dos autores ou dos tradutores, mas por vezes contra os conselhos destes. Os motivos normalmente são os melhores: a editora acha que, com o título que prefere, o livro chegará melhor ao público, despertará mais a atenção. Mas isso não anula o facto de que o tradutor ou o próprio autor teriam escolhido um título diferente para a obra.
E por vezes acontecem autênticas catástrofes por essa via. Um dos títulos mais idiotas que me passou pelas mãos foi Samurai: Nome de Código. Foi assim que a editora resolveu chamar à tradução de Snow Crash, de Neal Stephenson. Só posso imaginar os cabelos que o pobre tradutor arrancou quando viu o livro nas livrarias, porque ele teria chamado ao livro Nevão Marado. É que Snow Crash é o nome duma droga criada pelo Stephenson, que o tradutor verteu para português como Nevão Marado, e foi assim que chamou ao livro numa nota que nele resolveu incluir.
Isto acontece com todos os tradutores e com bastantes autores. Raramente o resultado é tão desadequado como no exemplo acima, mas massacrar o tradutor por causa de um título que, muito provavelmente, não foi ele a escolher, não é nada boa ideia.
Não partam do princípio de que os títulos são escolhidos por quem escreve ou traduz o texto dos livros.
É que é muito frequente não ser. É muito frequente que sejam as editoras e, dentro destas, o departamento comercial, a determinar o título que acaba por vir a público. Por vezes por sugestão dos autores ou dos tradutores, mas por vezes contra os conselhos destes. Os motivos normalmente são os melhores: a editora acha que, com o título que prefere, o livro chegará melhor ao público, despertará mais a atenção. Mas isso não anula o facto de que o tradutor ou o próprio autor teriam escolhido um título diferente para a obra.
E por vezes acontecem autênticas catástrofes por essa via. Um dos títulos mais idiotas que me passou pelas mãos foi Samurai: Nome de Código. Foi assim que a editora resolveu chamar à tradução de Snow Crash, de Neal Stephenson. Só posso imaginar os cabelos que o pobre tradutor arrancou quando viu o livro nas livrarias, porque ele teria chamado ao livro Nevão Marado. É que Snow Crash é o nome duma droga criada pelo Stephenson, que o tradutor verteu para português como Nevão Marado, e foi assim que chamou ao livro numa nota que nele resolveu incluir.
Isto acontece com todos os tradutores e com bastantes autores. Raramente o resultado é tão desadequado como no exemplo acima, mas massacrar o tradutor por causa de um título que, muito provavelmente, não foi ele a escolher, não é nada boa ideia.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Três Livros por Ano: 2000-2010
Já há uma série de tempo que andava para fazer um post deste género, e agora é uma altura tão boa como qualquer outra. Portanto, mãos à obra.
Uma das coisas de que as literaturas do imaginário lusófonas se tendem a queixar com alguma regularidade, embora agora as coisas estejam muito melhores do que há alguns anos, tanto em Portugal como principalmente no Brasil, é de falta de visibilidade. Por causa disso, eu fui ao longo dos anos tendo vagas ideias sobre a elaboração de uma série de artigos que dessem destaque a alguns livros lusófonos de FC&F que fui lendo. Essas ideias permaneceram vagas durante muito tempo, mas deixaram de o ser há dias. Depois de andar pelo Bibliowiki a ver se seria viável passar da ideia à prática acabei por achar que sim, apesar da existência de algumas lacunas ser provável, e aqui está o primeiro desses artigos.
O título do post já dá algumas pistas. Trata-se de escolher, entre os livros de literatura fantástica portuguesa que eu li e foram publicados no ano X, os três de que mais gostei ou que achei melhores (nem sempre é a mesma coisa). Note-se que se trata aqui apenas de livros que eu li, o que faz com que fique inevitavelmente de fora uma série de livros que muita gente achará melhores do que os que aqui irão aparecer. Mas se não os li não posso ter opinião sobre eles, certo? Logo, serão omitidos.
O que isto também quer dizer é que o viés pró-português será forte, não tanto neste primeiro artigo, mas nos seguintes certamente. A razão é simples: li bastante mais livros de portugueses do que de brasileiros (e bastante mais de brasileiros do que de outras nacionalidades). Há também um certo viés favorável à FC, dado ser o género que mais me tem interessado ao longo da vida. Notem ainda que nem todos os títulos que aqui aparecerão serão aquilo que eu considero bons livros. Também nem todos serão livros que me agradaram. Mas houve anos maus, em que quase nada se publicou, e também houve anos cuja produção pouco me passou pelas mãos. Alguma ainda virá a passar, espera-se, o que torna estes posts sempre provisórios. É provável, aliás, que daqui a algum tempo (anos, decerto) volte a fazer isto, incluindo o que vier a ler daqui até lá. Mais um detalhe ainda: só contam aqui obras que tenham tido edição em papel; obras que se tenham limitado a edição online ficam de fora.
Mas para tudo se entender, nada como exemplos. E neste caso exemplificar o que se pretende fazer equivale a fazê-lo. Portanto cá vai:
2010
Este ano está em branco; ainda não li nada do que se publicou em 2010, embora algumas coisas estejam compradas e na pilha de leitura. Terá de ficar para mais tarde.
2009
Este ano também foi muito pouco lido, para já, embora haja vários livros editados em 2009 cá por casa, na pilha (e um esteja a ser lido agora). Só tenho dois títulos, um de um livro de que gostei, outro de um livro de que não gostei. São, respetivamente, Crônicas, coletânea de FC de Gerson Lodi-Ribeiro, e Uma Noite Não São Dias, novela de algo de semelhante a FC, de Mário Zambujal.
2008
2008 está ainda pior; não só não li nada do que foi editado este ano, como muito poucas são as coisas que constam da minha biblioteca.
2007
Este ano é o primeiro em que tenho mais do que três livros por onde escolher e em que posso escolher só livros que acho que valem mesmo a pena. Foi neste ano que saiu O Projecto Candy-Man, um pequeno romance de FC de João Barreiros, A Conspiração dos Antepassados, romance de horror pessoano de David Soares, e Por Universos Nunca Dantes Navegados, antologia lusobrasileira organizada pelo Luís Filipe Silva e por mim.
2006
Este também é um ano em que os três títulos que aqui ponho valem a pena, embora uns mais do que outros. Tive dificuldade em escolher o terceiro (havia três títulos em competição), mas os dois primeiros são simples: O Anibaleitor, novela fantástica de Rui Zink e Outros Brasis, coletânea de história alternativa de Gerson Lodi-Ribeiro. Para a terceira vaga acabei por optar por A Sombra Sobre Lisboa, antologia de horror lovecraftiano organizada por Luís Corte-Real.
2005
2005 volta a ser ano pouco produtivo no que toca às coisas lidas por mim. Só arranjei dois títulos lidos, mas felizmente ambos valem a pena: As Intermitências da Morte, romance fantástico de José Saramago, e Tempos de Fúria, coletânea de FC de Carlos Orsi.
2004
2004 volta a ter três livros, mas esse número esgota os que li. Os títulos são: Quantas Madrugadas Tem a Noite, maravilhoso e divertidíssimo romance fantástico de Ondjaki, Um Vulto nas Trevas, novela fantástica juvenil de Simone Saueressig, e Fadas Láureas, antologia piadético-fantástica organizada por Luís Louro, de cujos contos só muito raramente gostei.
2003
Este é um caso bicudo. Li mais do que três dos livros saídos neste ano, mas não posso realmente dizer que tenha gostado de nenhum. Mas enfim, dá para calar bem caladinhos os piores e falar aqui dos que não o são assim tanto. Vatur, o Continente Escondido, romance de fantasia juvenil de Miguel Ávila, é o melhor; Visões, coletânea de contos em geral fantásticos de Octávio dos Santos vem a seguir e O Sentido Latente, romance de algo aproximado a FC, de Nuno Neves, fecha a lista. Uma nota: se estivesse a incluir edições eletrónicas outro galo cantaria, porque as melhores coisas de 2003 que li foram editadas em bits, o que não deixa de ser curioso.
2002
2002 volta a ser ano de relativa fartura de leituras, a suficiente para poder só escolher livros que valem a pena. Por exemplo: a coletânea de FC retrofuturista A Verdadeira Invasão dos Marcianos, de João Barreiros, a antologia de ficção especulativa erótica Como Era Gostosa, a Minha Alienígena!, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro, e o romance fantástico O Homem Duplicado, de José Saramago. Também foi neste ano que saiu o meu Sally, mas não acho que chegue ao nível da concorrência.
2001
Das publicações de 2001 só posso realmente dizer que gostei de uma: Disney no Céu Entre os Dumbos novela de FC de João Barreiros, editada pela primeira vez neste ano no E-nigma e mais tarde reeditada em papel. Duas coletâneas, Contos Místicos, de Maria de Menezes, e Sete Histórias por Acontecer, de Luísa Marques da Silva, estão apesar de tudo acima dos outros livros do ano que eu li.
2000
E para acabar por agora eis-nos em 2000. Das obras deste ano que eu li consigo encontrar pelo menos três que valem a pena. Escolhi A Caverna, romance fantástico de José Saramago (apesar de estar longe de ser dos seus melhores livros) e duas antologias brasileiras, Intempol, com contos de FC sobre uma polícia do tempo brasileira, organização de Octávio Aragão, e Phantastica Brasiliana, antologia eclética organizada por Gerson Lodi-Ribeiro e Carlos Orsi Martinho.
Uma das coisas de que as literaturas do imaginário lusófonas se tendem a queixar com alguma regularidade, embora agora as coisas estejam muito melhores do que há alguns anos, tanto em Portugal como principalmente no Brasil, é de falta de visibilidade. Por causa disso, eu fui ao longo dos anos tendo vagas ideias sobre a elaboração de uma série de artigos que dessem destaque a alguns livros lusófonos de FC&F que fui lendo. Essas ideias permaneceram vagas durante muito tempo, mas deixaram de o ser há dias. Depois de andar pelo Bibliowiki a ver se seria viável passar da ideia à prática acabei por achar que sim, apesar da existência de algumas lacunas ser provável, e aqui está o primeiro desses artigos.
O título do post já dá algumas pistas. Trata-se de escolher, entre os livros de literatura fantástica portuguesa que eu li e foram publicados no ano X, os três de que mais gostei ou que achei melhores (nem sempre é a mesma coisa). Note-se que se trata aqui apenas de livros que eu li, o que faz com que fique inevitavelmente de fora uma série de livros que muita gente achará melhores do que os que aqui irão aparecer. Mas se não os li não posso ter opinião sobre eles, certo? Logo, serão omitidos.
O que isto também quer dizer é que o viés pró-português será forte, não tanto neste primeiro artigo, mas nos seguintes certamente. A razão é simples: li bastante mais livros de portugueses do que de brasileiros (e bastante mais de brasileiros do que de outras nacionalidades). Há também um certo viés favorável à FC, dado ser o género que mais me tem interessado ao longo da vida. Notem ainda que nem todos os títulos que aqui aparecerão serão aquilo que eu considero bons livros. Também nem todos serão livros que me agradaram. Mas houve anos maus, em que quase nada se publicou, e também houve anos cuja produção pouco me passou pelas mãos. Alguma ainda virá a passar, espera-se, o que torna estes posts sempre provisórios. É provável, aliás, que daqui a algum tempo (anos, decerto) volte a fazer isto, incluindo o que vier a ler daqui até lá. Mais um detalhe ainda: só contam aqui obras que tenham tido edição em papel; obras que se tenham limitado a edição online ficam de fora.
Mas para tudo se entender, nada como exemplos. E neste caso exemplificar o que se pretende fazer equivale a fazê-lo. Portanto cá vai:
2010
Este ano está em branco; ainda não li nada do que se publicou em 2010, embora algumas coisas estejam compradas e na pilha de leitura. Terá de ficar para mais tarde.
2009
Este ano também foi muito pouco lido, para já, embora haja vários livros editados em 2009 cá por casa, na pilha (e um esteja a ser lido agora). Só tenho dois títulos, um de um livro de que gostei, outro de um livro de que não gostei. São, respetivamente, Crônicas, coletânea de FC de Gerson Lodi-Ribeiro, e Uma Noite Não São Dias, novela de algo de semelhante a FC, de Mário Zambujal.
2008
2008 está ainda pior; não só não li nada do que foi editado este ano, como muito poucas são as coisas que constam da minha biblioteca.
2007
Este ano é o primeiro em que tenho mais do que três livros por onde escolher e em que posso escolher só livros que acho que valem mesmo a pena. Foi neste ano que saiu O Projecto Candy-Man, um pequeno romance de FC de João Barreiros, A Conspiração dos Antepassados, romance de horror pessoano de David Soares, e Por Universos Nunca Dantes Navegados, antologia lusobrasileira organizada pelo Luís Filipe Silva e por mim.
2006
Este também é um ano em que os três títulos que aqui ponho valem a pena, embora uns mais do que outros. Tive dificuldade em escolher o terceiro (havia três títulos em competição), mas os dois primeiros são simples: O Anibaleitor, novela fantástica de Rui Zink e Outros Brasis, coletânea de história alternativa de Gerson Lodi-Ribeiro. Para a terceira vaga acabei por optar por A Sombra Sobre Lisboa, antologia de horror lovecraftiano organizada por Luís Corte-Real.
2005
2005 volta a ser ano pouco produtivo no que toca às coisas lidas por mim. Só arranjei dois títulos lidos, mas felizmente ambos valem a pena: As Intermitências da Morte, romance fantástico de José Saramago, e Tempos de Fúria, coletânea de FC de Carlos Orsi.
2004
2004 volta a ter três livros, mas esse número esgota os que li. Os títulos são: Quantas Madrugadas Tem a Noite, maravilhoso e divertidíssimo romance fantástico de Ondjaki, Um Vulto nas Trevas, novela fantástica juvenil de Simone Saueressig, e Fadas Láureas, antologia piadético-fantástica organizada por Luís Louro, de cujos contos só muito raramente gostei.
2003
Este é um caso bicudo. Li mais do que três dos livros saídos neste ano, mas não posso realmente dizer que tenha gostado de nenhum. Mas enfim, dá para calar bem caladinhos os piores e falar aqui dos que não o são assim tanto. Vatur, o Continente Escondido, romance de fantasia juvenil de Miguel Ávila, é o melhor; Visões, coletânea de contos em geral fantásticos de Octávio dos Santos vem a seguir e O Sentido Latente, romance de algo aproximado a FC, de Nuno Neves, fecha a lista. Uma nota: se estivesse a incluir edições eletrónicas outro galo cantaria, porque as melhores coisas de 2003 que li foram editadas em bits, o que não deixa de ser curioso.
2002
2002 volta a ser ano de relativa fartura de leituras, a suficiente para poder só escolher livros que valem a pena. Por exemplo: a coletânea de FC retrofuturista A Verdadeira Invasão dos Marcianos, de João Barreiros, a antologia de ficção especulativa erótica Como Era Gostosa, a Minha Alienígena!, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro, e o romance fantástico O Homem Duplicado, de José Saramago. Também foi neste ano que saiu o meu Sally, mas não acho que chegue ao nível da concorrência.
2001
Das publicações de 2001 só posso realmente dizer que gostei de uma: Disney no Céu Entre os Dumbos novela de FC de João Barreiros, editada pela primeira vez neste ano no E-nigma e mais tarde reeditada em papel. Duas coletâneas, Contos Místicos, de Maria de Menezes, e Sete Histórias por Acontecer, de Luísa Marques da Silva, estão apesar de tudo acima dos outros livros do ano que eu li.
2000
E para acabar por agora eis-nos em 2000. Das obras deste ano que eu li consigo encontrar pelo menos três que valem a pena. Escolhi A Caverna, romance fantástico de José Saramago (apesar de estar longe de ser dos seus melhores livros) e duas antologias brasileiras, Intempol, com contos de FC sobre uma polícia do tempo brasileira, organização de Octávio Aragão, e Phantastica Brasiliana, antologia eclética organizada por Gerson Lodi-Ribeiro e Carlos Orsi Martinho.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Lido: Una Luz en la Noche
Una Luz en la Noche é mais um caso de título repetido a mostrar a fraca imaginação de que autores e editores tantas vezes dão provas quando se trata de escolher o título para coletâneas. Neste caso, estamos perante uma coletânea invulgar, pois contém não ficção curta, mas dois romances de ficção científica do espanhol Daniel Mares.
Talvez estranhamente, dada a valorização diferenciada que está implícita em utilizar um dos romances para intitular a coletânea em detrimento do outro, gostei bastante mais do segundo do que do primeiro. Pareceu-me um romance mais bem pensado, com as arestas mais limadas e com uma premissa mais interessante e até verosímil, embora nenhum dos dois chegue propriamente a primar pela verosimilhança. Em termos de texto propriamente dito pareceram-me bastante semelhantes, e embora eu não seja muito fiável no que toca à avaliação da qualidade do texto em espanhol, esta pareceu-me bastante aceitável. E a qualidade global também. Este livro, comparando-o com os romances portugueses de FC que conheço, está algures numa segunda linha, abaixo dos melhores mas muito acima dos piores (que de facto são muito maus, há que reconhecer). Nada de superlativo, portanto, mas com o seu interesse.
Podem seguir os links abaixo se quiserem saber o que achei de cada um deles.
Talvez estranhamente, dada a valorização diferenciada que está implícita em utilizar um dos romances para intitular a coletânea em detrimento do outro, gostei bastante mais do segundo do que do primeiro. Pareceu-me um romance mais bem pensado, com as arestas mais limadas e com uma premissa mais interessante e até verosímil, embora nenhum dos dois chegue propriamente a primar pela verosimilhança. Em termos de texto propriamente dito pareceram-me bastante semelhantes, e embora eu não seja muito fiável no que toca à avaliação da qualidade do texto em espanhol, esta pareceu-me bastante aceitável. E a qualidade global também. Este livro, comparando-o com os romances portugueses de FC que conheço, está algures numa segunda linha, abaixo dos melhores mas muito acima dos piores (que de facto são muito maus, há que reconhecer). Nada de superlativo, portanto, mas com o seu interesse.
Podem seguir os links abaixo se quiserem saber o que achei de cada um deles.
Lido: Vigésima Tierra
Vigésima Tierra, de Daniel Mares, é um curioso romance de ficção científica que tem como base as ideias do budismo. O autor postula a existência de um "Rio", cuja natureza nunca é concretizada mas cujo efeito é a possibilidade de viajar entre as estrelas a velocidades mais rápidas do que a da luz, mas só ao longo do seu curso, no sentido em que ele flui. Quem queira viajar noutros sentidos tem de se contentar com velocidades sublumínicas, e claro que nunca ninguém o faz.
Ora, a existência do Rio abre as portas à transmigração, isto é, ao movimento de pessoas e bens ao longo de uma cadeia de "Terras", da original, a nossa, até uma Terra indeterminada (pelo menos a princípio), sendo que o direito à transmigração se conquista através do aperfeiçoamento pessoal, do contínuo melhoramento do karma. Apesar do fundo religioso, porém, nada nisto existe de místico; o Rio é um fenómeno físico, as decisões sobre quem transmigra e quem se fica cabem a um muito humano "Conselho de Brâmanes", os envios de cartas e outros objetos são decididos por burocratas, etc.
A história tem lugar na Vigésima Terra, que deveria já ser um planeta livre da quase totalidade dos defeitos de anteriores pontos de escala do Rio. Mas neste lugar potencialmente paradisíaco começam a ocorrer estranhos fenómenos: assassinatos e tentativas de assassinatos, atentados bombistas, corpos que aparecem e desaparecem, pessoas que não constam dos registos, etc. Tudo gira em volta de um burocrata que se põe a investigar o que não deve e de um autor charlatão que ganha a vida escrevendo livros cheios de factos inventados sobre OVNIs. E o que gira em volta destes fulcros é uma história de mistério que, apesar de algumas inconsistências, acabou por me parecer em geral bastante bem esgalhada e que traz como bónus alguma reflexão, cínica, sobre a corrupção nas sociedades humanas e sobre até onde as pessoas estão preparadas para ir seja para desvendar a verdade, seja para manter a sociedade imune à mudança.
É, pois, um romance interessante, original na premissa e com uma concretização em regra competente. Não será propriamente uma obra-prima, mas agradou-me bastante lê-lo.
Ora, a existência do Rio abre as portas à transmigração, isto é, ao movimento de pessoas e bens ao longo de uma cadeia de "Terras", da original, a nossa, até uma Terra indeterminada (pelo menos a princípio), sendo que o direito à transmigração se conquista através do aperfeiçoamento pessoal, do contínuo melhoramento do karma. Apesar do fundo religioso, porém, nada nisto existe de místico; o Rio é um fenómeno físico, as decisões sobre quem transmigra e quem se fica cabem a um muito humano "Conselho de Brâmanes", os envios de cartas e outros objetos são decididos por burocratas, etc.
A história tem lugar na Vigésima Terra, que deveria já ser um planeta livre da quase totalidade dos defeitos de anteriores pontos de escala do Rio. Mas neste lugar potencialmente paradisíaco começam a ocorrer estranhos fenómenos: assassinatos e tentativas de assassinatos, atentados bombistas, corpos que aparecem e desaparecem, pessoas que não constam dos registos, etc. Tudo gira em volta de um burocrata que se põe a investigar o que não deve e de um autor charlatão que ganha a vida escrevendo livros cheios de factos inventados sobre OVNIs. E o que gira em volta destes fulcros é uma história de mistério que, apesar de algumas inconsistências, acabou por me parecer em geral bastante bem esgalhada e que traz como bónus alguma reflexão, cínica, sobre a corrupção nas sociedades humanas e sobre até onde as pessoas estão preparadas para ir seja para desvendar a verdade, seja para manter a sociedade imune à mudança.
É, pois, um romance interessante, original na premissa e com uma concretização em regra competente. Não será propriamente uma obra-prima, mas agradou-me bastante lê-lo.
domingo, 3 de julho de 2011
Atualizados os conteúdos próprios na web
É só para informar que a página que criei há tempos aqui na Lâmpada com os meus conteúdos na web acabou de ser atualizada com novas ligações que remetem para as duas editoras onde tenho páginas de autor e também para a minha "loja" na lulu. Sempre que haja novas atualizações nessa página, surgirá por aqui um avisozinho destes.
sábado, 2 de julho de 2011
Lido: Tê Índice Zero
Tê Índice Zero (bib.) é um conto de Italo Calvino que começa com um homem, de arco retesado, a enfrentar um leão que prepara um salto para o atacar e a partir daí parte numa exploração do espaço e do tempo que chega quase a ser delirante. É um conto com muito de matemático, mas com muito mais de cosmológico, pois lida com conceitos mais ou menos complexos da física e da especulação em volta de paralelos espaçotemporais. Não gostei muito do conto em si, confesso, mas o que de mais curioso nele vi foi achá-lo tão adequado como introdução à história alternativa e a toda a ficção científica (e alguma fantasia também) que lida com universos paralelos. É que está aqui tudo explicado com um pormenor que até pode chegar a ser excessivo, com base no homem, na seta e no leão e em todas as ramificações que o tempo e o espaço podem adotar a partir desse momento e local. Um autêntico manual, digo-vos eu.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Lido: A Dama Pé-de-Cabra
A Dama Pé-de-Cabra (bib.), noveleta de Alexandre Herculano, é, talvez, o mais conhecido texto do fantástico oitocentista português — pelo menos de nome. Ambientado nos tempos medievais e de óbvio fundo católico, conta a desastrosa história de um fidalgo que se perde de amores por uma criatura demoníaca, a tal dama pé-de-cabra, e dela tem um filho. Não vou perder tempo com grandes análises; outros já as fizeram mais aprofundadamente e melhor do que eu poderia fazer aqui. Vou só falar do que achei de mais curioso neste texto.
É que se trata, no essencial, de um conto de fantasia. Mas que nada tem a ver com a moderna fantasia comercial que é mais comum encontrar entre nós, baseada em exemplos vindos de fora que por sua vez se baseiam em mitologias nórdicas, germânicas e célticas. É uma fantasia muito portuguesa, na qual o ambiente medieval, de base tão maniqueísta como na fantasia que é mais habitual encontrar-se nas prateleiras das livrarias, está habitado por mouros e cristãos, não tanto por homens e criaturas da floresta. Num país que desse mais valor ao que é seu do que o nosso dá, este conto, e outros da mesma época e índole, seriam muito mais lidos e serviriam de inspiração e mote a muito mais obras. Serviriam de base para a fantasia nacional, de tronco de onde ela brotaria. Mas a realidade, entre nós, é quase sempre outra.
Pois eu acho que num género tão ligado ao passado histórico e às tradições folclóricas dos povos como é o da fantasia (por mais que esse passado e essas tradições sejam depois alterados e adulterados para criar coisas novas) só se poderá falar realmente duma fantasia portuguesa quando textos como A Dama Pé-de-Cabra constituirem pelo menos parte da inspiração. Este conto devia ser leitura obrigatória para todos quantos queiram escrever fantasia em Portugal. Até porque é um conto bem escrito e bem concebido. E, para mim, tem ainda a qualidade de não ser um texto tão maniqueísta como o ambiente e o tema poderiam levar a ser. Há o excesso de catolicismo inevitável num texto deste tipo e desta época, mas ele não é monolítico. Na verdade, parece entrever-se em alguns trechos uma certa compreensão pela criatura diabólica que lhe empresta o título. E confesso que enquanto fui lendo fui imaginando como seria a história contada do ponto de vista dela.
Seria muito diferente, sem dúvida. Provavelmente bem menos maniqueísta. E talvez bem mais interessante, se fosse bem contada.
É que se trata, no essencial, de um conto de fantasia. Mas que nada tem a ver com a moderna fantasia comercial que é mais comum encontrar entre nós, baseada em exemplos vindos de fora que por sua vez se baseiam em mitologias nórdicas, germânicas e célticas. É uma fantasia muito portuguesa, na qual o ambiente medieval, de base tão maniqueísta como na fantasia que é mais habitual encontrar-se nas prateleiras das livrarias, está habitado por mouros e cristãos, não tanto por homens e criaturas da floresta. Num país que desse mais valor ao que é seu do que o nosso dá, este conto, e outros da mesma época e índole, seriam muito mais lidos e serviriam de inspiração e mote a muito mais obras. Serviriam de base para a fantasia nacional, de tronco de onde ela brotaria. Mas a realidade, entre nós, é quase sempre outra.
Pois eu acho que num género tão ligado ao passado histórico e às tradições folclóricas dos povos como é o da fantasia (por mais que esse passado e essas tradições sejam depois alterados e adulterados para criar coisas novas) só se poderá falar realmente duma fantasia portuguesa quando textos como A Dama Pé-de-Cabra constituirem pelo menos parte da inspiração. Este conto devia ser leitura obrigatória para todos quantos queiram escrever fantasia em Portugal. Até porque é um conto bem escrito e bem concebido. E, para mim, tem ainda a qualidade de não ser um texto tão maniqueísta como o ambiente e o tema poderiam levar a ser. Há o excesso de catolicismo inevitável num texto deste tipo e desta época, mas ele não é monolítico. Na verdade, parece entrever-se em alguns trechos uma certa compreensão pela criatura diabólica que lhe empresta o título. E confesso que enquanto fui lendo fui imaginando como seria a história contada do ponto de vista dela.
Seria muito diferente, sem dúvida. Provavelmente bem menos maniqueísta. E talvez bem mais interessante, se fosse bem contada.
Para certa gente, todas as mentiras são válidas
Vasco Graça Moura, pois está claro, continua a delirar semanalmente, nas páginas dos jornais, sobre a sua monomania, o acordo ortográfico. Agora, aqui, escreve parvoeiras como:
Mas esperem, há mais. Ainda diz ele o seguinte:
Vasco Graça Moura não será estúpido. Mas anda há anos a tentar fazer-nos a todos parvos com esta prosódia absurda. E o mais divertido é que tem, de facto, conseguido estupidificar muita gente por aí com a sua peculiar mistura de patranhas, previsões apocalípticas e prestígio adquirido antes de embarcar nesta campanha idiota e desbaratado desde então. Uma espécie de Fernando Nobre das letras.
Um bocadinho patético, convenhamos. Eu aconselharia xanax todos os dias ao deitar. Até para conseguir moderar na adjetivação que, francamente, chega a confranger quem de facto gosta da língua portuguesa.
Essa aplicação traria custos terríveis: as famílias teriam de gastar rios de dinheiro em novos livros, manuais, dicionários e outros materiais escolares; tanto professores como alunos sentiriam os maiores problemas de adaptação; os custos sociais, por exemplo, no tocante aos idosos e até a certos deficientes, seriam igualmente graves; os editores (e não apenas os do livro escolar) veriam os seus stocks inutilizados; quanto aos restantes custos económicos, o melhor é nem falar.Só me pergunto se não virá também por aí um terramoto, a queda dum meteorito, um megatsunami ou no mínimo uma pestezinha negra por causa do acordo ortográfico. Sim, porque os manuais escolares nem sequer são substituídos por novos todos os anos, ou quase, com acordo ou sem ele. Sim, porque vai ser especialmente criada uma Polícia do Acordo Ortográfico cuja função é bater editoras e livrarias à procura de livros que contenham, oh!, horror dos horrores!, consoantes mudas. Toda a gente sabe que tudo quanto se editar em desobediência à nova ortografia vai ser queimado em autos-de-fé até nas aldeias mais remotas, aos quais terá de estar presente, obrigatoriamente, toda a população das ditas-cujas. Pois como não?
O desperdício seria chocante: iriam para o lixo milhões e milhões de páginas que servem perfeitamente para o ensino!
Mas esperem, há mais. Ainda diz ele o seguinte:
Isto é tanto mais grave quanto é certo que o Acordo Ortográfico não se encontra em vigor. Só por aberrante raciocínio jurídico poderia aceitar-se o contrário, uma vez que o documento não foi ratificado nem por Angola nem por Moçambique, pelo menos. Logo não produz efeitos na ordem interna de nenhum dos oito países subscritores.Esquece-se o nosso amigo Vasco, conveniente e sistematicamente, de que todos os países de língua portuguesa assinaram o acordo, mostrando com essa assinatura que o querem, sim senhor. Incluindo Timor-Leste, que não o fez logo em 1990 mas já o fez entretanto. Esquece-se de que todos os países de língua portuguesa também assinaram os protocolos modificativos, esses mesmos que afirmam, preto no branco, que o acordo entra em vigor com três ratificações. Só por (como é, mestrinho?) aberrante raciocínio jurídico é que se pode defender a tese de que um documento não está em vigor depois de existirem as ratificações necessárias para esse documento entrar em vigor. Aberrante raciocínio jurídico e uma dose monumental de desonestidade intelectual.
Não vale absolutamente nada um protocolo laboriosamente parturejado na CPLP, para forçar os países que não querem acordo nenhum a "engolirem" o dito, lá porque houve três ratificações.
Vasco Graça Moura não será estúpido. Mas anda há anos a tentar fazer-nos a todos parvos com esta prosódia absurda. E o mais divertido é que tem, de facto, conseguido estupidificar muita gente por aí com a sua peculiar mistura de patranhas, previsões apocalípticas e prestígio adquirido antes de embarcar nesta campanha idiota e desbaratado desde então. Uma espécie de Fernando Nobre das letras.
Um bocadinho patético, convenhamos. Eu aconselharia xanax todos os dias ao deitar. Até para conseguir moderar na adjetivação que, francamente, chega a confranger quem de facto gosta da língua portuguesa.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Lido: Las Pelotas que Vinieron del Espacio
Las Pelotas que Vinieron del Espacio, do espanhol Ángel Torres Quesada, é um conto de uma ficção científica mais ou menos humorística, ou talvez mais satírica do que propriamente humorística. Baseado nos clichés do primeiro contacto e da invasão alienígena, e sabendo perfeitamente que é em clichés que se baseia, o conto usa-os para elaborar uma alegoria ao comportamento abusivo das empresas que maximizam o lucro à custa do cliente, estendendo-lhe ratoeiras e encurralando-o em lugares de onde não consegue sair. O tema é intemporal mas, talvez por causa disso, já foi tratado de todas as formas e feitios e ele próprio também já se transformou em cliché. Apesar disso, o conto de Quesada tem alguma originalidade na forma que a armadilha toma: umas bolas que os ETs trazem, baratíssimas, que fornecem durante cerca de um ano quantidades ilimitadas de energia. O problema é o que lhes acontece depois...
Não gostei por aí além. O conto não me pareceu lá muito bem escrito e, embora não me incomode com o reutilizar de clichés, em especial quando ele é feito de forma consciente (como já disse várias vezes), aqui achei a quantidade excessiva e a subtileza insuficiente. Podem avaliar por vocês mesmos aqui.
Não gostei por aí além. O conto não me pareceu lá muito bem escrito e, embora não me incomode com o reutilizar de clichés, em especial quando ele é feito de forma consciente (como já disse várias vezes), aqui achei a quantidade excessiva e a subtileza insuficiente. Podem avaliar por vocês mesmos aqui.
Lido: O Progresso da Humanidade
O Progresso da Humanidade, conto de Rui Cardoso Martins, é uma história algo policialesca que descreve as circunstâncias que rodearam a morte de um tal Oliveira, jovem neonazi encontrado morto algures nas matas do norte do país. A narrativa, longe de ser linear, vai serpenteando entre narrativa propriamente dita e extratos do diário do morto, que desvendam os seus consecutivos estados de espírito, as suas certezas e as suas dúvidas. O conto toca bem de perto o ambiente e as ideias da extrema-direita, mas não chega a mergulhar nelas por completo. Há sempre o distanciamento causado pelo facto da narração ser feita do ponto de vista do investigador, alheio àquele mundo, até ideologicamente. Julgo que essa opção do autor faz com que o conto perca algum impacto, embora a compreenda. Ainda assim, o conto pareceu-me interessante, mesmo que não o tenha achado nada de extraordinário.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Lido: No Barril
No Barril, de Luísa Costa Gomes, é uma mirabolante historieta sobre um homenzinho que primeiro decide que vai passar o natal sozinho mas depois é informado de que não pode, tem de ir ter com a família a Espanha, mas acontecem-lhe uma série de peripécias no caminho e acaba a passar o natal em Espanha, sim, mas não com a família. A ideia era a história ter piada mas com o meu sentido de humor não funciona de todo. Para o meu sentido de humor é daquelas histórias que, de tanto tentarem ter piada, acabam por não ter gracinha nenhuma. Imagino que para outros sentidos de humor funcione; nada existe de mais subjetivo do que o sentido de humor. Para o meu, ler este conto foi tempo perdido.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Lido: A Rede Autofab
A Rede Autofab (bib.) é uma noveleta de ficção científica, de Philip K. Dick, que é ao mesmo tempo invulgar no contexto da obra dickiana por nada ter a ver com a natureza da realidade e excelente enquanto criação de FC. Trata-se de uma história pós-apocalíptica que tem lugar alguns anos depois de uma guerra nuclear. A espécie humana está a tentar recuperar dos efeitos da guerra, com as necessidades satisfeitas por uma rede de fábricas automáticas (a rede autofab do título) que fornecem tudo aquilo que é necessário... ao ponto de, pelo menos para alguns humanos, estarem a coartar o desenvolvimento da própria civilização humana. É a tentativa de encerrar a produção de uma das fábricas por parte deste grupo de humanos que vai desencadear o enredo. E este está muito bem concebido, especialmente se tivermos em conta que a história data de 1955 e que consiste num dos primeiros tratamentos literários do conceito de máquinas autorreplicadoras (chegando mesmo quase à nanotecnologia). Um belo conto de ficção científica que, ao contrário de muitas outras histórias da mesma época, ainda não envelheceu.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Sobre a autoedição
Há dias apareceu-me no twitter um link para este artigo, no qual a autora tece uma série de considerações sobre a autoedição em print-on-demand. Em geral, acerta em cheio no alvo. A autoedição em print-on-demand, pela sua própria natureza, adequa-se muito melhor a livros com um público-alvo muito limitado do que a obras que, pelo menos em potencial, teriam um público vasto. Se não houvesse mais fator nenhum envolvido no assunto, a própria natureza do sistema de impressão adequa-se muito melhor a livros cuja tiragem total acabará inevitavelmente por ser baixa do que a livros com potencial para tiragens maiores. Se uma tiragem tradicional de 50 exemplares não compensa, economicamente, ir imprimindo um a um esses 50 exemplares é bastante mais lógico. Até que o custo do POD desça até ao nível das outras formas de impressão, o que talvez nunca aconteça, livros com um público razoável saem mais baratos a toda a gente (e em princípio ficam mais bem feitos) se forem impressos tradicionalmente do que em POD. Não é de admirar, portanto, que os serviços de print-on-demand assumam aquilo a que ela chama "long-tail business model" (não faço ideia como se traduz isto para português no jargão da gestão... se é que tem tradução), ou seja, a preferência por terem um milhão de autores a vender 100 exemplares cada a terem 100 autores a vender um milhão de exemplares cada.
E depois há tudo o resto. A distribuição que uma editora a sério faz e que um sistema POD não faz, o marketing, capa e paginação profissionais, etc., etc. Obviamente que nenhuma editora propriamente dita vai investir em livros com potencial para venderem 100 exemplares, mas livros capazes de vender mais do que isso têm direito a uma série de "achegas" que a autoedição não fornece.
E claro que isto tem consequências. Claro que a vasta maioria destes livros não valem nada. Mas será isso um problema? Ela, a autora do artigo, acha que sim. Acha que a prevalência de livros muito maus como que "tapa" o punhado de livros muito bons publicados por autoedição em POD. Porque, segundo diz, torna difícil separar o trigo do joio.
Aqui discordo. Se houver uma descrição do livro, de preferência escrita pelo autor, e se houver uma antevisão do livro disponível gratuitamente (e normalmente há ambas as coisas), parece-me bastante fácil encontrar as agulhas, ou pelo menos rejeitar a palha. Reparem nas seguintes sinopses. São as sinopses dos livros de ficção científica e fantástica que encontramos no mais popular dos "nossos" serviços de POD (nossos está entre aspas porque uma boa parte do site está em espanhol), o bubok. Algumas, as mais longas, estão abreviadas. Numa delas omitiu-se um par de nomes de autores e o título de outro livro. De resto, está tudo rigorosamente tal e qual como aparece no site:
Para quais destes livros olhariam uma segunda vez? Basta avaliar os erros de português para excluir imediatamente uma proporção significativa, não é? Quando nem a sinopse está escrita em português correto, o livro é de certeza palha. E reduz-se mais um pouco quando, ainda que formalmente correto, o português é atabalhoado ou básico. Cortemos então essas sinopses. Ficamos com os números 1, 5, 6, 13, 15, 16 e 21. De vinte e um trabalhos restam sete, sem ser preciso mais do que olhar para o fraco português das sinopses, sem ler sequer uma linha dos trabalhos propriamente ditos. Destes sete, outros serão excluídos com igual facilidade após uma leitura rápida de umas quantas linhas do miolo, de novo bastando uma análise à qualidade do português. E assim se faz a seleção. É difícil? Nada. Consome algum tempo, mas quem resiste à ditadura do best-seller e das modas literárias e vai às livrarias à descoberta está habituado a perder algum tempo a folhear, a ler uns trechos aqui, umas contracapas ali, umas orelhas acolá. Não é nada de novo, só o meio é diferente.
Ou seja, se houver livros muito bons editados independentemente em edições POD ou ebook, eles acabam por vir à tona sem grande dificuldade, por um simples processo de eliminação. Desde que as pessoas tenham a capacidade de olhar para o livro e não para o modo como foi publicado. Desde que as pessoas evitem as ideias preconcebidas. O problema, quanto a mim, está mais aqui. Se no mundo da música tem havido a capacidade para evitar os preconceitos no que toca à edição independente, analisando-se a qualidade da música em si mesma, tendo-se mesmo chegado ao ponto de levar alguns discos independentes aos tops, no da literatura não tem. Pelo menos em Portugal. O meio é demasiado preconceituoso e presunçoso para fechar os olhos aos nomes (seja da editora, seja do autor, seja da forma de impressão ou formato, seja do que for) e focar-se realmente no conteúdo. É por isso que muitos patetas falam dos livros sem os lerem, baseando-se apenas nos géneros, nas editoras onde eles foram publicados, em tudo o que nada tem a ver com literatura. É também por isso que a implantação do ebook está tão atrasada no nosso país relativamente a alguns dos outros. E é por isso que pouca gente com algumas ambições literárias tem a coragem de avançar para autoedições. Porque num meio tão cheio de peneiras parvas como o nosso é mesmo preciso ter coragem.
E é pena. Porque isso contribui para não termos uma edição regular em géneros como a ficção científica, especialmente no que toca aos contos. É sabido que contos se vendem mal. A FC, pelos vistos, também tem passado as últimas décadas a vender-se mal. Por conseguinte, contos de FC praticamente não vendem. Ou seja: a autoedição em POD seria o veículo ideal para a edição de coletâneas de contos de FC em Portugal. Mas ela não se faz. E essa ausência de edição regular contribui não só para não existir um público, como também para não existir produção. É uma pescadinha de rabo na boca que muito pouca gente (nenhuma, se calhar?) parece estar interessada em desenrolar. Entre os autores com algum nome no nosso país só posso apontar para um caso, uma tentativa que vai mais ou menos nesse sentido: o Luís Filipe Silva, que disponibilizou gratuitamente em ebook a sua velha coletânea premiada O Futuro à Janela (e é provável que só o tenha feito por ser um livro premiado, portanto sem nada a provar a ninguém). E mais nada.
Cá para mim, devíamos aprender alguma coisa com os nossos colegas produtores culturais ali do bairro do lado, o da música. Era capaz de nos ser mais proveitoso do que ficarmos eternamente sentadinhos à espera de quimeras. E queixando-nos, queixando-nos muito.
E depois há tudo o resto. A distribuição que uma editora a sério faz e que um sistema POD não faz, o marketing, capa e paginação profissionais, etc., etc. Obviamente que nenhuma editora propriamente dita vai investir em livros com potencial para venderem 100 exemplares, mas livros capazes de vender mais do que isso têm direito a uma série de "achegas" que a autoedição não fornece.
E claro que isto tem consequências. Claro que a vasta maioria destes livros não valem nada. Mas será isso um problema? Ela, a autora do artigo, acha que sim. Acha que a prevalência de livros muito maus como que "tapa" o punhado de livros muito bons publicados por autoedição em POD. Porque, segundo diz, torna difícil separar o trigo do joio.
Aqui discordo. Se houver uma descrição do livro, de preferência escrita pelo autor, e se houver uma antevisão do livro disponível gratuitamente (e normalmente há ambas as coisas), parece-me bastante fácil encontrar as agulhas, ou pelo menos rejeitar a palha. Reparem nas seguintes sinopses. São as sinopses dos livros de ficção científica e fantástica que encontramos no mais popular dos "nossos" serviços de POD (nossos está entre aspas porque uma boa parte do site está em espanhol), o bubok. Algumas, as mais longas, estão abreviadas. Numa delas omitiu-se um par de nomes de autores e o título de outro livro. De resto, está tudo rigorosamente tal e qual como aparece no site:
- David Young tem uma missão numa cidade estranha.
- Num tempo em que as pessoas buscam a tão sonhada tecnologia, um homem irá descobrir um mundo em que a sua formação é a tecnologia. Ele descobrirá um novo mundo, onde perigos e aventuras são as coisas que o esperam.
- Genius é um cientista norte-americano que condicionou-se à esquizofrenia e aceitou parte da doença por querer ver seus amigos imaginários. Estes, eram os maiores gênios da humanidade como Albert Einstein, Aristóteles, Leonardo da Vinci, Charles Chaplin, Darwin, William Shakespeare, Confúcio e Santos Dumont. Mais tarde, ele descobre um espelho no qual acredita viajar no tempo por ver seus amigos tão reais dentre outras descobertas e pessoas de forma surpreendente. Descubra, em diálogos baseados no que estes gênios disseram e nos deixaram como herança, além de conhecer profundamente suas vidas, necessários a todas as pessoas, sejam quais forem seus erros, expectativas e experiências.
- Há 2000 anos atrás um jovem filosofo descobrira a magia e o seu poder destrutivo mas também curativo, receoso que esses conhecimentos se perdessem, escreveu todos os seus segredos num livro, um livro que com o passar da décadas se tornou muito cobiçado por toda espécie de feiticeiros até se lhe perder o rasto. O Livro Mágico fora mais tarde descoberto numa escola de magia em Orion, terra de feiticeiros.
- Uma colecção de sete contos, incluindo um totalmente escrito em inglês, com base na ficção científica e com salpicos de horror e espiritualidade.
- Será que as nossas opções não foram já as opções de outros? Será que os resultados dessas nossas opções não foram também já os resultados para outros? Será que não existem outros modos, outros caminhos?
- Para quem vivi seu mundo com sua vida, seja ela: boa, ótima ou quem sabe excelente, já enfrenta uma luta constante, você imagina para alguém que tem sua vida normal no seu cotidiano, e em certo momento se encontra dividida em dois mundos. E o pior, um sendo inverso do outro, em suas ideologias, comportamentos, dia-dia, e até mesmo, visão de seu mundo.
- Duas Dimensões irmãs gemeas são separadas por um grande cataclisma, devido este acontecimento nasceram grandes montes, vales e gigantescas montanhas na terra, dentre uma dessas montanhas, uma encobriu o portal que dava o acesso aos dois mundos que agora se mantém paralelos. Um jovem garoto sonhador e que não tinha sucesso com as mulheres depois de uma tragica decepção amorosa passa algumas reviravoltas na sua vida, depois de ter pensado muito e ouvido muito conselho. Logan em meio a nova fase em sua vida agora está diante da sua decepção amorosa e junto de Gabi, Eder e o Dudu o menino de rua, eles descombrem uma grande mina de ouro dentro da Montanha do Destino, ali encontram um lugar resevardo e bem escondio, onde encontram um mapa que os leva até um portal secreto.
- Esta historia é de um menino, de 13 anos, ele estudava em sua cidade, pode ser qualquer cidade de tamanho pequeno americana, tinha seus amigos, dois desajustados como ele, que gostavam de ler, não tinha corpo físico para ser um jogador de futebol americano, com seus quase um metro e cinqüenta não pesava mais de 29 quilos, ele adorava escrever, e sua personagem predileta, era uma menina chamada Sheila, ele adorava a fantasia de ter um personagem que fazia o que ele queria, ela era uma feiticeira, que tinha poderes mágicos, era a imagem de uma amiga de infância, mas isto era entre ele e a personagem, ninguém mais sabia.
- Por conta de um experimento científico, um homem toma uma vacina que o torna imortal. Quatrocentos anos após tomar a vacina o homem conta sua saga à um Rastejumano, um ser que vive no futuro. Para seu novo amigo o homem conta todas as suas angústias, e a situações que vivenciou como guerras e uma nova divisão mundial.
- " ... E Deus disse: Façamos o homem a nossa imagem e segundo nossa semelhança..." O homem é talvez o único animal que tem em suas mãos o poder de desobedecer as leis da natureza e do tempo, criando sua própria evolução. Este salto é inevitável, porém, infelizmente a evolução mental nem sempre anda de mãos dadas com a evolução moral.
- Oito amigos de países diferentes, viajam sempre juntos. Mas desta vez algo especial esta para acontecer, o destino do planeta depende deles e desta misteriosa viajem. Eles irão em busca do “ultimo milagre”, uma mudança radical que ira salvar à todos e criar um mundo novo.
- Após a derrota de Lúcifer, Roger Hawkins e os quatro Escolhidos continuam a sua luta contra as restantes forças de demónios, agora desorganizadas e sem líder. Contudo, Timothy prepara-se para libertar um grupo de poderosos e antigos demónios, que ameaçam colocar a civilização humana em risco, ao mesmo tempo que continua a sua demanda para ganhar poder e libertar Lúcifer...
- “Então, é assim... A escuridão mostra, finalmente, a sua face. A face da covardia e da insanidade. Mas agora, a coragem de poucos faz com que o grande corruptor sinta, no ar, somente o cheiro do medo de seus próprios soldados. E são esses poucos que avançam na direção de muitos, contrariando a lógica... É verdade que, nem sempre, as lutas serão travadas nos campos, planícies e montanhas deste mundo... mas no coração de cada um. E esses poucos venceram o medo... Venceram a corrupção da alma... Venceram seus próprios desafios. E eles acreditam, apenas, em poder vencer, agora, a batalha que não pode ser vencida. Por muitas e muitas centenas de anos, eu nunca presenciei tamanha bravura contra o impossível... Eu sinto isso na minha alma e na minha carne. O coração de meu filho ainda bate nessa planície e repete, para mim, o que já foi dito... Que haverá, sim, um tempo para a paz. Mas que, também, haverá um tempo para a luta. E para essa, agora, e para esses bravos que ousam ser mais do que eles mesmos, eu me rendo.”
- NOSSA IDEIA de uma antologia de contos sobrenaturais e fantásticos, com toques de romantismo, deu realmente muito certo. Dois meses após o lançamento da primeira antologia em e-book, [...], agora estão de novo reunidos alguns dos autores do primeiro livro, e duas novas autoras: [...].
- A IDEIA DE UM e-book de contos sobrenaturais, escrito por novos autores que publicavam na internet surgiu de repente. Alguns autores já publicaram antes, outros estão inaugurando aqui sua entrada no mundo da literatura e da internet. Sempre publicando independentemente, os novos autores buscavam soluções para expor seus trabalhos, seja publicando em sites especializados em literatura de ficção, seja publicando em blogs ou comunidades do Orkut. Pela primeira vez, resolveram lançar seus trabalhos juntos, em um único volume e essa foi, sem dúvida, uma boa ideia.
- Niagrin Campus não passava de um adolescente normal com algumas divergências familiares até que um estranho acontecimento altera o rumo da sua vida, para sempre. Perdido numa aldeia de aspecto medieval, Niagrin encontra-se com uma estranha rapariga que juntamente com o seu avô, apresentam-lhe uma nova realidade, um novo mundo, Niagrin depara-se com a existência de uns cristais mágicos com poderes ilimitados, capazes de dominar tudo o que anda sobre o solo, num remoto reino que é governado por uma cruel e implacável feiticeira e é a ele que é atribuída a missão de salvar o reino de todo o mal.
- Tudo parecia demasiado marcado pelo tempo; tempos que não queriam ser relembrados nunca mais. Apenas apelava para que não sofresse e, a partir daquela idade, fosse tudo mais calmo; já era a recta final. Mas o sonho não a levou para essa recta tão delineada pelo passado tumultuoso; levou-a de novo à partida - onde tudo era simples, sem dor e onde a vontade de vencer predominava. Depois de percorrer aqueles vastos caminhos, livídos e desconhecidos, encontra finalmente o destino do dia 25.
- A viagem às montanhas do Tibete iria trazer-lhes mais desafios que os que esperavam. A ideia de que alguém podia matar apenas com o olhar, era dificil de aceitar e de enfrentar.
- Em contos curtos de fantasia, o autor procura deixar ao final deles, um despertar para a realidade de que todos somos responsáveis pelo equilíbrio ecológico da Natureza e pela salvação do planeta Terra.
- Fora do cânone literário tradicional, o Sol e a Lua é uma obra entre a fábula psicanalítica, a alegoria mística, a epopeia cibernética e a utopia milenar. É uma viagem pelos lugares da mente numa ausência ou relativização de tempos e espaços. O Sol e a Lua debruça-se sobre duas questões.Uma de ordem semântica : O que é o mundo? E outra de ordem epistemológica: Como aceder a ele? As possiveis respostas encontre você mesmo nestas ficções...
Para quais destes livros olhariam uma segunda vez? Basta avaliar os erros de português para excluir imediatamente uma proporção significativa, não é? Quando nem a sinopse está escrita em português correto, o livro é de certeza palha. E reduz-se mais um pouco quando, ainda que formalmente correto, o português é atabalhoado ou básico. Cortemos então essas sinopses. Ficamos com os números 1, 5, 6, 13, 15, 16 e 21. De vinte e um trabalhos restam sete, sem ser preciso mais do que olhar para o fraco português das sinopses, sem ler sequer uma linha dos trabalhos propriamente ditos. Destes sete, outros serão excluídos com igual facilidade após uma leitura rápida de umas quantas linhas do miolo, de novo bastando uma análise à qualidade do português. E assim se faz a seleção. É difícil? Nada. Consome algum tempo, mas quem resiste à ditadura do best-seller e das modas literárias e vai às livrarias à descoberta está habituado a perder algum tempo a folhear, a ler uns trechos aqui, umas contracapas ali, umas orelhas acolá. Não é nada de novo, só o meio é diferente.
Ou seja, se houver livros muito bons editados independentemente em edições POD ou ebook, eles acabam por vir à tona sem grande dificuldade, por um simples processo de eliminação. Desde que as pessoas tenham a capacidade de olhar para o livro e não para o modo como foi publicado. Desde que as pessoas evitem as ideias preconcebidas. O problema, quanto a mim, está mais aqui. Se no mundo da música tem havido a capacidade para evitar os preconceitos no que toca à edição independente, analisando-se a qualidade da música em si mesma, tendo-se mesmo chegado ao ponto de levar alguns discos independentes aos tops, no da literatura não tem. Pelo menos em Portugal. O meio é demasiado preconceituoso e presunçoso para fechar os olhos aos nomes (seja da editora, seja do autor, seja da forma de impressão ou formato, seja do que for) e focar-se realmente no conteúdo. É por isso que muitos patetas falam dos livros sem os lerem, baseando-se apenas nos géneros, nas editoras onde eles foram publicados, em tudo o que nada tem a ver com literatura. É também por isso que a implantação do ebook está tão atrasada no nosso país relativamente a alguns dos outros. E é por isso que pouca gente com algumas ambições literárias tem a coragem de avançar para autoedições. Porque num meio tão cheio de peneiras parvas como o nosso é mesmo preciso ter coragem.
E é pena. Porque isso contribui para não termos uma edição regular em géneros como a ficção científica, especialmente no que toca aos contos. É sabido que contos se vendem mal. A FC, pelos vistos, também tem passado as últimas décadas a vender-se mal. Por conseguinte, contos de FC praticamente não vendem. Ou seja: a autoedição em POD seria o veículo ideal para a edição de coletâneas de contos de FC em Portugal. Mas ela não se faz. E essa ausência de edição regular contribui não só para não existir um público, como também para não existir produção. É uma pescadinha de rabo na boca que muito pouca gente (nenhuma, se calhar?) parece estar interessada em desenrolar. Entre os autores com algum nome no nosso país só posso apontar para um caso, uma tentativa que vai mais ou menos nesse sentido: o Luís Filipe Silva, que disponibilizou gratuitamente em ebook a sua velha coletânea premiada O Futuro à Janela (e é provável que só o tenha feito por ser um livro premiado, portanto sem nada a provar a ninguém). E mais nada.
Cá para mim, devíamos aprender alguma coisa com os nossos colegas produtores culturais ali do bairro do lado, o da música. Era capaz de nos ser mais proveitoso do que ficarmos eternamente sentadinhos à espera de quimeras. E queixando-nos, queixando-nos muito.
Lido: Priscilla
Priscilla (bib.) é uma noveleta de Italo Calvino, uma vez mais protagonizada e narrada pelo seu eterno extraterrestre Qfwfq. Desta feita, o tema da história é a vida no que ela tem de mais íntimo. A noveleta, aliás, divide-se em capítulos, que recebem os títulos de Mitose, Meiose e Morte. O conto é, na sua essência, um grande exercício de estilo, em especial no primeiro capítulo. Emaranhado, repetitivo, quase saramaguiano no entrelaçar de ideias e conceitos, esse primeiro capítulo consegue trazer à ideia a dança de organelos e cromossomas que acompanha a divisão celular quando vista através dum microscópio. Os outros dois também, mas menos. E fá-lo pelo puro ritmo das palavras. De facto, parece-me que neste texto o mais importante é precisamente isso, o ritmo das palavras, embora entrelaçada nesse ritmo também esteja uma história de amor entre Qwfwq e a Priscilla que dá título à história, e apesar de também haver nela alguma filosofia. Há leitores que decerto acharão a história aborrecida precisamente por isso, por o ritmo das palavras se sobrepor ao resto. Eu achei-a genial.
Lido: Después de Todo, lo Más Inesperado
Después de Todo, lo Más Inesperado, do espanhol Fran Ontanaya, é um conto de ficção científica que descreve uma expedição a um planeta distante, batizado como Atlantis. Cliché? Claro que sim. O conto, aliás, arranca no mais puro e inadulterado cliché, vai por aí fora de cliché em cliché e quando o desfecho acontece, revelando o propósito humorístico de todo o exercício, também ele é absolutamente cliché. Não me parece que resulte. De todo. Nada tenho contra brincar com clichés e reutilizá-los, mas o modo como isso aqui é feito não me convence. Se o conto pretende ser humorístico, pois que seja divertido desde o início, que não se guarde o divertimento todo para um desfecho surpresa, que acaba por não ser nem particularmente surpreendente nem divertido por aí além, enquanto o miolo é apenas aborrecido e vagamente pateta. Sim, achei este conto muito fraquinho. Não o aconselho. Mas se quiserem avaliar por vocês próprios, podem lê-lo aqui.
domingo, 12 de junho de 2011
L'11: O BE? Não. A responsabilidade.
Para encerrar esta série de posts sobre as legislativas de há uma semana, tinha prometido umas ideias sobre o Bloco de Esquerda. Acabei por decidir que não valia a pena. Porque já tinha aqui dito por que motivos o Bloco ia perdendo o meu voto, e penso que isso resume bastante bem a minha opinião sobre os motivos por que perdeu o voto de muitas outras pessoas. Em retrospetiva, acrescentaria apenas o apoio a Manuel Alegre à lista de erros dos últimos meses. Não porque o BE não devesse participar em alternativas unitárias contra candidatos da direita, mas porque na primeira volta de umas eleições presidenciais em que o candidato "dos outros" tem à partida uma vantagem considerável é mais importante fornecer o máximo de opções possíveis "aos nossos" para trazer o máximo possível "dos nossos" às mesas de voto e conseguir assim forçar uma segunda volta, do que partir logo para soluções unitárias. A unidade faz-se depois, em redor do candidato que passar à segunda volta. Seja ele qual for.
E não vale a pena também porque já se escreveu mais que muito sobre a derrota do BE nas últimas eleições. Não só cretinadas, como coisas certas; não só opiniões enviesadas, estúpidas e destrutivas, como pontos de vista objetivos, inteligentes e construtivos. Para quê somar mais uma voz à cacofonia? Não vale a pena.
Mas vou falar de responsabilidade. Um bocadinho.
Primeiro, da responsabilidade dos outros.
Há poucas coisas mais dignas de desprezo do que as criaturas que metem a pata na poça e não assumem a responsabilidade por a pata cair na poça. É não só desprezível como infantil (foi ele que patiu o vaso, mamã!, diz o bebezinho lavado em lágrimas, tentando escapar-se ao açoite). É não só infantil como cobarde. É não só cobarde como contraproducente, não só porque quem tem olhos na cara deixa de respeitar a criatura, como porque criatura que assim age é criatura que nada aprende com erros que não assume, e portanto é criatura que voltará a cometê-los à primeira oportunidade.
Tem-se visto muito disso. Em primeiro lugar, e acima de tudo, naquelas criaturas do PS para as quais a culpa da derrota é... do BE e do PCP. Claro, claro. É que está-se mesmo a ver que o PS não teve nada a ver com o banho que levou nas urnas, que ele se deveu aos mauzões da "esquerda radical".
Bardamerda.
Mas se estas criaturas do PS vêm em primeiro lugar e acima de tudo, não estão sozinhas na atitudezinha. Também há gente do partido em que eu votei a entrar pela mesma via. Diria mesmo que há demasiada gente no partido em que votei a entrar por essa via.
E aqui chegamos à responsabilidade pessoal. À minha.
Em tempos que já lá vão, fui membro de um partido político. Acabei por sair, jurando para nunca mais. Porque não tenho personalidade de ativista. Porque não tenho puto de paciência para aturar os idiotas sectários que existem em todos os partidos. Porque pensava, penso e sempre pensarei pela minha própria cabeça. Porque, precisamente porque penso, não sou criatura de rebanho. Nunca me limitarei a balir em resposta ao ritmo definido pelo líder, seja ele qual for. De modo que saí convencido de que os partidos não eram para mim, de que, sendo um homem de ideias independentes, o lugar que me era próprio era a independência partidária.
Só que ao ver a quantidade de idiotices que foram sendo ditas, fora e dentro do BE, no rescaldo desta derrota, e a enorme falta de inteligência da própria campanha, não tanto do BE (a campanha em si até foi boa; as parvoíces vieram antes) mas da generalidade dos partidos, dei por mim a pensar. E há dias resumi esse pensamento num paragrafozito que enviei a quem me segue nas redes sociais:
E como gosto de agir em consonância com o que penso, acabei de preencher e enviar o formulário de pré-adesão ao BE.
E não vale a pena também porque já se escreveu mais que muito sobre a derrota do BE nas últimas eleições. Não só cretinadas, como coisas certas; não só opiniões enviesadas, estúpidas e destrutivas, como pontos de vista objetivos, inteligentes e construtivos. Para quê somar mais uma voz à cacofonia? Não vale a pena.
Mas vou falar de responsabilidade. Um bocadinho.
Primeiro, da responsabilidade dos outros.
Há poucas coisas mais dignas de desprezo do que as criaturas que metem a pata na poça e não assumem a responsabilidade por a pata cair na poça. É não só desprezível como infantil (foi ele que patiu o vaso, mamã!, diz o bebezinho lavado em lágrimas, tentando escapar-se ao açoite). É não só infantil como cobarde. É não só cobarde como contraproducente, não só porque quem tem olhos na cara deixa de respeitar a criatura, como porque criatura que assim age é criatura que nada aprende com erros que não assume, e portanto é criatura que voltará a cometê-los à primeira oportunidade.
Tem-se visto muito disso. Em primeiro lugar, e acima de tudo, naquelas criaturas do PS para as quais a culpa da derrota é... do BE e do PCP. Claro, claro. É que está-se mesmo a ver que o PS não teve nada a ver com o banho que levou nas urnas, que ele se deveu aos mauzões da "esquerda radical".
Bardamerda.
Mas se estas criaturas do PS vêm em primeiro lugar e acima de tudo, não estão sozinhas na atitudezinha. Também há gente do partido em que eu votei a entrar pela mesma via. Diria mesmo que há demasiada gente no partido em que votei a entrar por essa via.
E aqui chegamos à responsabilidade pessoal. À minha.
Em tempos que já lá vão, fui membro de um partido político. Acabei por sair, jurando para nunca mais. Porque não tenho personalidade de ativista. Porque não tenho puto de paciência para aturar os idiotas sectários que existem em todos os partidos. Porque pensava, penso e sempre pensarei pela minha própria cabeça. Porque, precisamente porque penso, não sou criatura de rebanho. Nunca me limitarei a balir em resposta ao ritmo definido pelo líder, seja ele qual for. De modo que saí convencido de que os partidos não eram para mim, de que, sendo um homem de ideias independentes, o lugar que me era próprio era a independência partidária.
Só que ao ver a quantidade de idiotices que foram sendo ditas, fora e dentro do BE, no rescaldo desta derrota, e a enorme falta de inteligência da própria campanha, não tanto do BE (a campanha em si até foi boa; as parvoíces vieram antes) mas da generalidade dos partidos, dei por mim a pensar. E há dias resumi esse pensamento num paragrafozito que enviei a quem me segue nas redes sociais:
Um motivo para as pessoas inteligentes se meterem nos partidos e participarem ativamente deles: não os deixar entregues a idiotas. É que, afinal de contas, é (quase) sempre gente dos partidos que nos governa. Se ficarem neles só os cretinos, vamos mal.Pois é. E quem diz pessoas inteligentes, diz todas aquelas que pensam pela própria cabeça. Como eu. Mesmo quando a inteligência não é muita, quem a usa para pensar tem mais capacidade para ter contribuições válidas e úteis do que quem se limita a balir em apoio ao chefe. Ou seja, se calhar, gente como eu tem a responsabilidade de participar no sistema partidário. Na medida das possibilidades e do tempo disponível. Sabendo perfeitamente que há limitações, quer pessoais, quer do próprio sistema, que não permitirão um envolvimento muito profundo.
E como gosto de agir em consonância com o que penso, acabei de preencher e enviar o formulário de pré-adesão ao BE.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Só a Morte te Resgata
No ano passado, em agosto, a editora brasileira Draco publicou um livro que trazia lá dentro uma novela minha. Chamava-se o livro Vaporpunk e a novela Unidade em Chamas. Um e outra tiveram acolhimentos que ultrapassaram as minhas melhores expetativas, mas mesmo antes de sair o livro já eu andava com umas vagas ideias na cabeça sobre possíveis sequelas e prequelas àquela história, ou por outra, sobre outras histórias passadas no mesmo universo ficcional.
Depois surgiu a convocatória para outra antologia publicada pela mesma editora e organizada por um dos organizadores da Vaporpunk, o Gerson Lodi-Ribeiro. Esta teria o nome de Dieselpunk, e, como o próprio nome indica, procuraria histórias dieselpunk. O conceito é semelhante ao do steampunk, mas a tecnologia é mais avançada, baseando-se não no vapor, mas no motor de combustão interna.
E isso encaixava como uma luva numa das histórias que eu tinha esboçado.
Mas esteve quase a não sair, por motivos muito pessoais. E a história que acabou por sair, embora tenha a base da ideia que eu tinha tido há meses, acabou por tomar um rumo muito diferente do que eu tinha planeado. Mas continua a ser uma espécie de sequela da Unidade em Chamas. Passa-se no mesmo universo ficcional, algumas décadas mais tarde, é mais curta mas não muito mais curta (é uma noveleta, mas está bastante perto de se tornar novela), e chama-se Só a Morte te Resgata.
Será publicada no próximo mês de agosto. Vai fechar a antologia Dieselpunk. E já estou em pulgas para ter o livro na mão.
Depois surgiu a convocatória para outra antologia publicada pela mesma editora e organizada por um dos organizadores da Vaporpunk, o Gerson Lodi-Ribeiro. Esta teria o nome de Dieselpunk, e, como o próprio nome indica, procuraria histórias dieselpunk. O conceito é semelhante ao do steampunk, mas a tecnologia é mais avançada, baseando-se não no vapor, mas no motor de combustão interna.
E isso encaixava como uma luva numa das histórias que eu tinha esboçado.
Mas esteve quase a não sair, por motivos muito pessoais. E a história que acabou por sair, embora tenha a base da ideia que eu tinha tido há meses, acabou por tomar um rumo muito diferente do que eu tinha planeado. Mas continua a ser uma espécie de sequela da Unidade em Chamas. Passa-se no mesmo universo ficcional, algumas décadas mais tarde, é mais curta mas não muito mais curta (é uma noveleta, mas está bastante perto de se tornar novela), e chama-se Só a Morte te Resgata.
Será publicada no próximo mês de agosto. Vai fechar a antologia Dieselpunk. E já estou em pulgas para ter o livro na mão.
terça-feira, 7 de junho de 2011
L'11: As distorções dos sistemas eleitorais
Pois é, pondo de lado os votos da emigração, que ainda não estão contabilizados, desta vez os votos expressos e não brancos nem nulos ficaram 40,25% para o PSD, 29,22% para o PS, 12,23% para o CDS, 8,27% para a CDU, 5,40 para o BE, 1,17% para o MRPP, 1,08% para o PAN, 0,42% para o MPT, 0,41% para o MEP e 1,54% para os 8 últimos do pelotão. Estes 0,41% dos votos obtidos pelo MEP correspondem a 21748 votos, o que é mais do que vale um deputado do PSD. Sim, para eleger um deputado do PSD, com este nosso sistema, foram necessários à volta de 20 mil votos. O MEP, com quase 22 mil, esteve muito longe de eleger alguém. Muito longe.
Segundo estes resultados, que são a verdadeira vontade do eleitorado, são possíveis duas maiorias absolutas de dois partidos: PSD + PS tem 69,47% dos votos válidos expressos nos partidos; PSD + CDS tem 52,48%. Nenhuma outra dupla chega aos 50% dos votos. Triplas também só há uma a fazer maioria absoluta sem que dois dos membros da tripla a façam sozinhos: PSD + CDU + BE. É das tais combinações impossíveis no que toca a arranjar um governo, mas acontece de vez em quando na AR, que é onde as leis são aprovadas ou rejeitadas. A vontade do povo expressa nas urnas ditou que essas três forças ficassem com 53,92% dos votos. Há uma multiplicidade de combinações de 4 partidos também a fazer maioria absoluta, incluindo ou o PSD e a CDU ou o PS, o CDS e a CDU mais pequenos partidos; E etc.
Isto é em votos. E, notem bem, todas estas combinações têm exatamente tanta legitimidade democrática como a coligação PSD + CDS que nos vai governar nos tempos mais próximos. Porque todas elas correspondem a uma maioria decidida pelo povo.
Mas claro que as coisas não são bem assim. Porque o sistema que temos para transformar votos em mandatos deturpa a vontade do povo, favorecendo as duas formações mais votadas e promovendo uma espécie de bipartidarismo encapotado. Querem ver?
Fazendo as contas aos 226 deputados já eleitos, o PSD ficou com 46,46% da AR (105 deputados), o PS com 32,30% (73), o CDS com 10,62% (24), a CDU com 7,08% (16) e o BE com 3,54% (8). Ou seja: o nosso sistema eleitoral beneficiou o PSD em 6,21 pontos percentuais (mais do que a percentagem de votos obtida pelo BE! Corresponde a cerca de 300 mil votos! Trezentos mil!), beneficiou o PS em 3,08 pp, prejudicou o CDS em 1,62 pp, prejudicou a CDU em 1,19 pp, prejudicou o BE em 1,86 pp e prejudicou todas as outras forças políticas na percentagem de votos válidos e não brancos que cada uma obteve. A soma de todas as distorções é de 18,58 pontos percentuais. Se fosse a percentagem de uma força política qualquer, já dava um grupo parlamentar de bom tamanho...
Já agora notem uma coisa muito importante: qualquer redução no número de deputados que mantenha o mesmo sistema de círculos e o método de Hondt no apuramento agravaria estas distorções. E quanto maior a redução, mais grave se tornaria a distorção.
Com os deputados que temos na AR, a possibilidade de fazer maiorias absolutas de dois partidos multiplica-se... desde que incluam sempre o partido mais votado. O PSD pode fazer maioria com qualquer uma das outras forças presentes no parlamento; para fazer maioria sem o PSD, pelo contrário, só juntando as 4. O que isto quer dizer é que o PSD pode fazer uma maioria absoluta com o BE, por exemplo, porque as duas forças têm deputados para isso, mas não foi essa a vontade que o povo expressou nas urnas porque não deu a essas duas forças mais de 50% dos votos. E isto mesmo sendo o BE prejudicado na distribuição de mandatos; é que o PSD foi muito beneficiado. O mesmo acontece juntando o PSD à CDU. São, logo ali, duas maiorias possíveis no parlamento sem terem a maioria dos votos.
A mim parece-me óbvio que isto cria um problema de legitimidade democrática de certas decisões. Nesta legislatura os resultados nem foram particularmente problemáticos a esse respeito, porque há sempre a tal combinação PSD + CDS que será, decerto, institucionalizada numa coligação formal. Mas o exemplo que dei acima é claro.
E como seria com o meu sistema? Desta vez não fiz as contas a quantos deputados se elegeriam pelos círculos regionais e quantos pelo círculo nacional, mas fi-las ao total de deputados. Ficaria assim: PSD 95 deputados (42,04% do parlamento), PS 68 deputados (30,09%), CDS 28 deputados (12,39%), CDU 19 deputados (8,41%), BE 12 deputados (5,31%), MRPP 2 deputados (0,88%) e PAN 2 deputados (0,88%). Também neste sistema há distorções (há em todos), mas são muito menores. O PSD é beneficiado em 1,79 pontos percentuais, o PS em 0,86, o CDS em 0,15, a CDU em 0,14, o BE é prejudicado em 0,09 pp, o MRPP em 0,29, o PAN em 0,20 e os restantes na percentagem obtida por cada um. O maior benefício é de novo do mais votado, o PSD, com 1.79 pp; o maior prejuízo cabe ao MPT com 0,41 pp. Curiosamente, se houvesse mais 3 deputados a destribuir, o MPT também entraria no parlamento. Se em vez de 226 fossem 229 iria mais um para o PS, mais um para o CDS e um para o MPT. A soma das distorções é de 5,89 pontos percentuais. Menos de um terço das do sistema que temos. Eu acho isto assim bem mais democrático, tal como acho bem mais democrático que qualquer força que atinja um mínimo de votos, igual para todos, esteja representada na AR. Pela mais simples razão do mundo: houve quem votasse nela. Mas também este meu sistema não está isento de distorções à vontade popular, como veremos...
... aqui, nas maiorias. Há três maiorias possíveis com dois partidos: PSD + PS, PSD + CDS e PSD + CDU; as duas primeiras correspondem a maiorias de votos, a terceira não; de novo porque é o partido mais votado o mais beneficiado. Maiorias de três partidos fazem-se só com PS + CDS + CDU. Este é um caso curioso: é uma maioria possível com o meu sistema e impossível com o sistema que temos e que parece favorecer a legitimidade deste último porque também não foi sufragada pelo voto. Os votos nessas três forças somam quase 50% (49,73), o número de deputados ultrapassa ligeiramente os 50% (50,88). Mas este tipo de combinação deve ser raríssimo, porque precisa de um fator que só deverá surgir muito espaçado no tempo: a soma do segundo, terceiro e quarto bater mesmo a rasar os 50%. Aconteceu nestas eleições, mas não deverá acontecer em muitas mais. E não há mais maiorias possíveis, a não ser incluindo alguma destas maiorias referidas acima.
E claro que nada disto conta com brancos e nulos. Porque os brancos e nulos, lá está, não contam.
Segundo estes resultados, que são a verdadeira vontade do eleitorado, são possíveis duas maiorias absolutas de dois partidos: PSD + PS tem 69,47% dos votos válidos expressos nos partidos; PSD + CDS tem 52,48%. Nenhuma outra dupla chega aos 50% dos votos. Triplas também só há uma a fazer maioria absoluta sem que dois dos membros da tripla a façam sozinhos: PSD + CDU + BE. É das tais combinações impossíveis no que toca a arranjar um governo, mas acontece de vez em quando na AR, que é onde as leis são aprovadas ou rejeitadas. A vontade do povo expressa nas urnas ditou que essas três forças ficassem com 53,92% dos votos. Há uma multiplicidade de combinações de 4 partidos também a fazer maioria absoluta, incluindo ou o PSD e a CDU ou o PS, o CDS e a CDU mais pequenos partidos; E etc.
Isto é em votos. E, notem bem, todas estas combinações têm exatamente tanta legitimidade democrática como a coligação PSD + CDS que nos vai governar nos tempos mais próximos. Porque todas elas correspondem a uma maioria decidida pelo povo.
Mas claro que as coisas não são bem assim. Porque o sistema que temos para transformar votos em mandatos deturpa a vontade do povo, favorecendo as duas formações mais votadas e promovendo uma espécie de bipartidarismo encapotado. Querem ver?
Fazendo as contas aos 226 deputados já eleitos, o PSD ficou com 46,46% da AR (105 deputados), o PS com 32,30% (73), o CDS com 10,62% (24), a CDU com 7,08% (16) e o BE com 3,54% (8). Ou seja: o nosso sistema eleitoral beneficiou o PSD em 6,21 pontos percentuais (mais do que a percentagem de votos obtida pelo BE! Corresponde a cerca de 300 mil votos! Trezentos mil!), beneficiou o PS em 3,08 pp, prejudicou o CDS em 1,62 pp, prejudicou a CDU em 1,19 pp, prejudicou o BE em 1,86 pp e prejudicou todas as outras forças políticas na percentagem de votos válidos e não brancos que cada uma obteve. A soma de todas as distorções é de 18,58 pontos percentuais. Se fosse a percentagem de uma força política qualquer, já dava um grupo parlamentar de bom tamanho...
Já agora notem uma coisa muito importante: qualquer redução no número de deputados que mantenha o mesmo sistema de círculos e o método de Hondt no apuramento agravaria estas distorções. E quanto maior a redução, mais grave se tornaria a distorção.
Com os deputados que temos na AR, a possibilidade de fazer maiorias absolutas de dois partidos multiplica-se... desde que incluam sempre o partido mais votado. O PSD pode fazer maioria com qualquer uma das outras forças presentes no parlamento; para fazer maioria sem o PSD, pelo contrário, só juntando as 4. O que isto quer dizer é que o PSD pode fazer uma maioria absoluta com o BE, por exemplo, porque as duas forças têm deputados para isso, mas não foi essa a vontade que o povo expressou nas urnas porque não deu a essas duas forças mais de 50% dos votos. E isto mesmo sendo o BE prejudicado na distribuição de mandatos; é que o PSD foi muito beneficiado. O mesmo acontece juntando o PSD à CDU. São, logo ali, duas maiorias possíveis no parlamento sem terem a maioria dos votos.
A mim parece-me óbvio que isto cria um problema de legitimidade democrática de certas decisões. Nesta legislatura os resultados nem foram particularmente problemáticos a esse respeito, porque há sempre a tal combinação PSD + CDS que será, decerto, institucionalizada numa coligação formal. Mas o exemplo que dei acima é claro.
E como seria com o meu sistema? Desta vez não fiz as contas a quantos deputados se elegeriam pelos círculos regionais e quantos pelo círculo nacional, mas fi-las ao total de deputados. Ficaria assim: PSD 95 deputados (42,04% do parlamento), PS 68 deputados (30,09%), CDS 28 deputados (12,39%), CDU 19 deputados (8,41%), BE 12 deputados (5,31%), MRPP 2 deputados (0,88%) e PAN 2 deputados (0,88%). Também neste sistema há distorções (há em todos), mas são muito menores. O PSD é beneficiado em 1,79 pontos percentuais, o PS em 0,86, o CDS em 0,15, a CDU em 0,14, o BE é prejudicado em 0,09 pp, o MRPP em 0,29, o PAN em 0,20 e os restantes na percentagem obtida por cada um. O maior benefício é de novo do mais votado, o PSD, com 1.79 pp; o maior prejuízo cabe ao MPT com 0,41 pp. Curiosamente, se houvesse mais 3 deputados a destribuir, o MPT também entraria no parlamento. Se em vez de 226 fossem 229 iria mais um para o PS, mais um para o CDS e um para o MPT. A soma das distorções é de 5,89 pontos percentuais. Menos de um terço das do sistema que temos. Eu acho isto assim bem mais democrático, tal como acho bem mais democrático que qualquer força que atinja um mínimo de votos, igual para todos, esteja representada na AR. Pela mais simples razão do mundo: houve quem votasse nela. Mas também este meu sistema não está isento de distorções à vontade popular, como veremos...
... aqui, nas maiorias. Há três maiorias possíveis com dois partidos: PSD + PS, PSD + CDS e PSD + CDU; as duas primeiras correspondem a maiorias de votos, a terceira não; de novo porque é o partido mais votado o mais beneficiado. Maiorias de três partidos fazem-se só com PS + CDS + CDU. Este é um caso curioso: é uma maioria possível com o meu sistema e impossível com o sistema que temos e que parece favorecer a legitimidade deste último porque também não foi sufragada pelo voto. Os votos nessas três forças somam quase 50% (49,73), o número de deputados ultrapassa ligeiramente os 50% (50,88). Mas este tipo de combinação deve ser raríssimo, porque precisa de um fator que só deverá surgir muito espaçado no tempo: a soma do segundo, terceiro e quarto bater mesmo a rasar os 50%. Aconteceu nestas eleições, mas não deverá acontecer em muitas mais. E não há mais maiorias possíveis, a não ser incluindo alguma destas maiorias referidas acima.
E claro que nada disto conta com brancos e nulos. Porque os brancos e nulos, lá está, não contam.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
L'11: Rescaldo geral
Então a coisa correu mais ou menos como eu temia. Gostaria que assim não fosse, gostaria que este povo ganhasse juízo e parasse de saltar de camartelo para explosivos e de explosivos para camartelo, mas não tinha esperança nenhuma de que assim fosse. Não estou minimamente desiludido, portanto, até porque sei perfeitamente que a diferença entre a política que vai desenvolver o governo do PSD ou por eles dominado e a que desenvolveria um putativo governo PS não é praticamente nenhuma. O programa de governo, contrariamente ao que diz o mentiroso de Belém, é o da troica, e seria sempre o da troica, a menos que acontecesse uma reviravolta completa e as pessoas dessem a maioria à esquerda. Ninguém acredita que isso pudesse acontecer, como é óbvio.
Tenho pena principalmente de uma coisa. Tenho pena da direita ficar com maioria absoluta. Não por causa do que ela irá fazer, mas porque já estou a ver o PS, agora na oposição, a fazer de conta que não é nada com ele, que não teve nada a ver com tudo isto, que o desastre anunciado é obra exclusiva das nulidades do PSD e do CDS. Teria havido alguma possibilidade de isso não ter acontecido se uma boa percentagem dos que ficaram em casa ou fizeram papel de patetas úteis votando branco e nulo tivessem votado na esquerda. Mais votos na esquerda significariam mais deputados para a esquerda, o que quereria dizer menos deputados para a direita. PSD e CDS ficaram 13 deputados acima da maioria absoluta (vão ser mais, quando estiverem apurados os votos da emigração, mas por agora são só 13); se esses 13 deputados, ou 14, 15 ou 16, tivessem ido para outros partidos o PSD seria obrigado a fazer governo com o PS (sem Sócrates, que se demitiria na mesma) e os próximos anos seriam muito mais verdadeiros. Assim...
Assim vamos ter uns aninhos de PS a fingir que não foi nada com ele e daqui a 4 anos (se o governo chegar até lá), com Portugal ainda mais falido do que já está, as pessoas com a corda de tal modo na garganta que começam realmente a ir para a rua em massa, e a renegociação da dívida, que para a esquerda devia ter acontecido em vez do 1º PEC, a acontecer mesmo e numa situação muitíssimo pior do que a que temos agora que por sua vez é pior do que a que tínhamos nessa altura, por mais que agora digam que não é possível, daqui a 4 anos, dizia, vai este povo que tem a memória de um peixe saltar a correr de camartelo para explosivos e voltar a votar PS.
Assim, nunca mais nos safamos.
Quanto ao BE, também desejava que não tivesse levado um banho tão grande, mas com a estupidez que tem sido a estratégia seguida nos últimos tempos não me surpreende minimamente que o tenha levado. Na verdade, é bem feito. Pode ser que aprenda. Mas isso ficará para outro post. Como para outro post ficará o que teria acontecido se em vez do sistema eleitoral que temos tivêssemos o que eu gostaria que tivêssemos. Para já só dou uma dica: em vez de termos 5 forças políticas no parlamento teríamos 7.
Tenho pena principalmente de uma coisa. Tenho pena da direita ficar com maioria absoluta. Não por causa do que ela irá fazer, mas porque já estou a ver o PS, agora na oposição, a fazer de conta que não é nada com ele, que não teve nada a ver com tudo isto, que o desastre anunciado é obra exclusiva das nulidades do PSD e do CDS. Teria havido alguma possibilidade de isso não ter acontecido se uma boa percentagem dos que ficaram em casa ou fizeram papel de patetas úteis votando branco e nulo tivessem votado na esquerda. Mais votos na esquerda significariam mais deputados para a esquerda, o que quereria dizer menos deputados para a direita. PSD e CDS ficaram 13 deputados acima da maioria absoluta (vão ser mais, quando estiverem apurados os votos da emigração, mas por agora são só 13); se esses 13 deputados, ou 14, 15 ou 16, tivessem ido para outros partidos o PSD seria obrigado a fazer governo com o PS (sem Sócrates, que se demitiria na mesma) e os próximos anos seriam muito mais verdadeiros. Assim...
Assim vamos ter uns aninhos de PS a fingir que não foi nada com ele e daqui a 4 anos (se o governo chegar até lá), com Portugal ainda mais falido do que já está, as pessoas com a corda de tal modo na garganta que começam realmente a ir para a rua em massa, e a renegociação da dívida, que para a esquerda devia ter acontecido em vez do 1º PEC, a acontecer mesmo e numa situação muitíssimo pior do que a que temos agora que por sua vez é pior do que a que tínhamos nessa altura, por mais que agora digam que não é possível, daqui a 4 anos, dizia, vai este povo que tem a memória de um peixe saltar a correr de camartelo para explosivos e voltar a votar PS.
Assim, nunca mais nos safamos.
Quanto ao BE, também desejava que não tivesse levado um banho tão grande, mas com a estupidez que tem sido a estratégia seguida nos últimos tempos não me surpreende minimamente que o tenha levado. Na verdade, é bem feito. Pode ser que aprenda. Mas isso ficará para outro post. Como para outro post ficará o que teria acontecido se em vez do sistema eleitoral que temos tivêssemos o que eu gostaria que tivêssemos. Para já só dou uma dica: em vez de termos 5 forças políticas no parlamento teríamos 7.
sábado, 4 de junho de 2011
L'11: Propaganda presidencial em pleno dia de reflexão
Cavaco Silva, essa nulidade que vocês, os que nele votaram, tiveram o mau gosto de reeleger para um lugar que está muitíssimo longe de ter qualidade para ocupar, acabou de utilizar o dia de reflexão para, em vez dos habituais e circunstanciais apelos ao voto que todos os presidentes fazem de véspera, fazer uma intervenção mentirosa em que apela ao voto, sim, mas vai subrrepticiamente apelando a um certo tipo de voto. No PPD.
É um cheirinho do que nos espera. Com o papa-bolo-rei em Belém e o Coelho em São Bento, esperam-nos uns quantos anos com o mesmo tipo de "democracia" que os madeirenses conhecem bem.
A não ser que vocês votem mesmo. E se o presidente pode eu também posso. Se o presidente faz campanha eleitoral no dia de reflexão, efetivamente acabando com ele, eu também posso dizer o que penso.
A não ser que vocês votem mesmo, e na esquerda.
Já agora: alguém do PS (acho que o Seguro, mas não tenho a certeza) dizia há uns dias que os partidos à sua esquerda tinham preocupações sociais mas as medidas que propunham não eram exequíveis. Podem acreditar nele. Ou podem acreditar em gente como o Paul Krugman, que é "só" prémio Nobel da economia e americano, não propriamente um perigoso membro do PCP ou do BE, e que desde que começaram os PECs foi dizendo que eram burrice. E que agora diz que os "planos de resgate" são mais burrice em cima da burrice. Que o que há que fazer é uma reestruturação controlada da dívida.
Entre o Seguro (e que me perdoe se não foi ele mas outro) e um prémio Nobel da economia, eu sei em quem acredito. E voto em conformidade.
E vocês?
É um cheirinho do que nos espera. Com o papa-bolo-rei em Belém e o Coelho em São Bento, esperam-nos uns quantos anos com o mesmo tipo de "democracia" que os madeirenses conhecem bem.
A não ser que vocês votem mesmo. E se o presidente pode eu também posso. Se o presidente faz campanha eleitoral no dia de reflexão, efetivamente acabando com ele, eu também posso dizer o que penso.
A não ser que vocês votem mesmo, e na esquerda.
Já agora: alguém do PS (acho que o Seguro, mas não tenho a certeza) dizia há uns dias que os partidos à sua esquerda tinham preocupações sociais mas as medidas que propunham não eram exequíveis. Podem acreditar nele. Ou podem acreditar em gente como o Paul Krugman, que é "só" prémio Nobel da economia e americano, não propriamente um perigoso membro do PCP ou do BE, e que desde que começaram os PECs foi dizendo que eram burrice. E que agora diz que os "planos de resgate" são mais burrice em cima da burrice. Que o que há que fazer é uma reestruturação controlada da dívida.
Entre o Seguro (e que me perdoe se não foi ele mas outro) e um prémio Nobel da economia, eu sei em quem acredito. E voto em conformidade.
E vocês?
quinta-feira, 2 de junho de 2011
L'11: A estratégia do costume
A estratégia é sempre a mesma. Há, em Portugal, há quase 40 anos, dois partidos que colonizam o poder (e que por sua vez estão completamente corroídos pelo poder económico que os coloniza a eles, mas esse é outro assunto). Estes dois partidos desenvolvem uma política que na essência é precisamente igual. Mas vivem numa gritaria permanente, tentando (e em boa medida conseguindo) com essa gritaria levar as pessoas a julgar que entre eles há diferenças que na realidade não existem. O PSD berra, arrancando os cabelos, que o PS é um horror para o défice ao mesmo tempo que aumenta o défice; o PS guincha, erguendo as mãos para o céu, que o PSD quer destruir o estado social ao mesmo tempo que destrói o estado social. E assim vão, de mãos dadas, servindo-se do país, enriquecendo, e deixando-nos a todos mais pobres, mais sobrecarregados de impostos, taxas, o diabo a quatro. São assim como duas técnicas diferentes de demolição. Um é o camartelo, o outro os explosivos, e na verdade não interessa muito qual é qual.
A ideia é simples. Quando o partido-camartelo acusa o partido-explosivos de incompetência, assustam-se os eleitores que acreditam que o partido-explosivos é incompetente e ainda não se aperceberam de que o partido-camartelo o é igualmente e, com as velhas e falsas chantagens do voto útil e da ingovernabilidade, leva-se esse mar de ingénuos a votar no partido-camartelo. Do lado do partido-explosivos, a estratégia é simétrica. Depois, um deles ganha as eleições, digamos o camartelo. Imediatamente o partido-explosivos começa a denunciar que aqui d'el rei, as medidas que ele próprio tomaria se estivesse no governo em vez do partido-camartelo não têm pés nem cabeça, e blá blá blá, tudo para tentar fazer com que nas eleições seguintes seja o partido-explosivos e não o partido-camartelo a vencer e a ir para o governo, distribuir lugares aos amigos e continuar a mesmíssima política que o partido-explosivos tinha feito e, segundo dizia antes o partido-camartelo, tanto mal fazia ao país.
No ponto em que nos encontramos hoje, há uma nuance: o empréstimo que nos estão a fazer com juros de mais de 5% e que qualquer criancinha que saiba fazer contas de somar (ou melhor, de subtrair) percebe que é impossível de pagar. Agora temos camartelo e explosivos, coadjuvados pelo partidinho-eu-também-quero, a afiançar aos ingénuos que o programa do FMI é que nos vai salvar da bancarrota. Toda a gente sabe que não vai. Toda a gente sabe que vai resultar precisamente tão bem como resultaram os PECs, que já antes nos afiançavam que seria aquilo que nos salvaria do garrote. Toda a gente compreende que um país forçado à recessão por medidas económicas draconianas nunca, mas nunca, poderá pagar empréstimos de mais de 5%. Toda a gente o compreende, mas a maior parte das pessoas prefere assobiar para o ar, autoiludir-se, fingir que tudo está bem, que isto não passa dum buraquinho na estrada, nada de grave. E é precisamente com isso que o camartelo e os explosivos contam.
Porque quando o partido que ganhar as eleições, digamos o explosivos, puser em prática as medidas impostas pelo eufemisticamente chamado "plano de resgate financeiro" e a economia continuar a cair a pique no buraco onde esta política inacreditavelmente imbecil que temos seguido alegremente nos últimos anos nos foi enfiando, aí teremos o partido-camartelo a esbracejar e a bater no peito dizendo "Veem, veem, o que nós dizíamos? Veem como eles são incompetentes? Votem mas é em nós, para sermos nós a fazer a mesma política e a continuar a demolir isto!" Pronto para continuar a farsa dos gémeos siameses que tentam fingir que são de raças diferentes, perpetuando-se no poder, esperam eles, para sempre.
A não ser que no próximo domingo nenhum deles consiga fazer uma maioria absoluta a não ser com o outro. Isso é que lhes estragava mesmo os planos, não era? Assim é que veríamos mesmo um pouco de verdade na política portuguesa. Nas eleições seguintes não haveria desculpas. E o inevitável falhanço teria finalmente responsáveis claros perante todo o povo.
Como é que isso acontece? Simples: Deixando PS e PSD em torno dos 30%, e não deixando que o CDS suba o suficiente para servir de muleta a nenhum dos dois. Isso faz-se votando no BE e na CDU. E, para quem vota em Lisboa e até certo ponto no Porto, noutros partidos que tenham alguma hipótese de eleger deputados, o que, extrapolando dos resultados das últimas eleições (é arriscado, imperfeito, mas como as sondagens não medem intenções de voto nestes partidos é o que temos), significa o MRPP, o MEP, a Nova Democracia e os monárquicos. Votar em branco é o mesmo que votar PS ou PSD, porque os votos em branco não contam para nada e o método de Hondt favorece os partidos mais votados. Votar nulo idem aspas. E ficar em casa pior um pouco.
Era mesmo, mesmo bom que isso acontecesse. Porque este país só sairá do marasmo quando o eleitorado punir mesmo todo o centrão, em vez de passar a vida a ir de camartelo para explosivos e de explosivos para camartelo. E só fará tal coisa quando realmente vir que o que se tem passado não é por causa da incompetência do Sócrates ou da nabice do Santana ou da mania de bazar do Guterres e do Durão, mas da própria natureza daqueles dois partidos.
Obriguem-nos a mostrar ao país o que valem ou o que não valem. Já que vocês não querem arriscar uma política realmente diferente, e é claro que não querem, obriguem aqueles dois antros de incompetência a governar em conjunto. Obriguem-nos, pelo menos, no mínimo, a arranjar desculpas diferentes do costume, a ter de pensar um bocadinho noutras maneiras de enganar o freguês.
Faz-se isso votando. Em todos menos neles.
A ideia é simples. Quando o partido-camartelo acusa o partido-explosivos de incompetência, assustam-se os eleitores que acreditam que o partido-explosivos é incompetente e ainda não se aperceberam de que o partido-camartelo o é igualmente e, com as velhas e falsas chantagens do voto útil e da ingovernabilidade, leva-se esse mar de ingénuos a votar no partido-camartelo. Do lado do partido-explosivos, a estratégia é simétrica. Depois, um deles ganha as eleições, digamos o camartelo. Imediatamente o partido-explosivos começa a denunciar que aqui d'el rei, as medidas que ele próprio tomaria se estivesse no governo em vez do partido-camartelo não têm pés nem cabeça, e blá blá blá, tudo para tentar fazer com que nas eleições seguintes seja o partido-explosivos e não o partido-camartelo a vencer e a ir para o governo, distribuir lugares aos amigos e continuar a mesmíssima política que o partido-explosivos tinha feito e, segundo dizia antes o partido-camartelo, tanto mal fazia ao país.
No ponto em que nos encontramos hoje, há uma nuance: o empréstimo que nos estão a fazer com juros de mais de 5% e que qualquer criancinha que saiba fazer contas de somar (ou melhor, de subtrair) percebe que é impossível de pagar. Agora temos camartelo e explosivos, coadjuvados pelo partidinho-eu-também-quero, a afiançar aos ingénuos que o programa do FMI é que nos vai salvar da bancarrota. Toda a gente sabe que não vai. Toda a gente sabe que vai resultar precisamente tão bem como resultaram os PECs, que já antes nos afiançavam que seria aquilo que nos salvaria do garrote. Toda a gente compreende que um país forçado à recessão por medidas económicas draconianas nunca, mas nunca, poderá pagar empréstimos de mais de 5%. Toda a gente o compreende, mas a maior parte das pessoas prefere assobiar para o ar, autoiludir-se, fingir que tudo está bem, que isto não passa dum buraquinho na estrada, nada de grave. E é precisamente com isso que o camartelo e os explosivos contam.
Porque quando o partido que ganhar as eleições, digamos o explosivos, puser em prática as medidas impostas pelo eufemisticamente chamado "plano de resgate financeiro" e a economia continuar a cair a pique no buraco onde esta política inacreditavelmente imbecil que temos seguido alegremente nos últimos anos nos foi enfiando, aí teremos o partido-camartelo a esbracejar e a bater no peito dizendo "Veem, veem, o que nós dizíamos? Veem como eles são incompetentes? Votem mas é em nós, para sermos nós a fazer a mesma política e a continuar a demolir isto!" Pronto para continuar a farsa dos gémeos siameses que tentam fingir que são de raças diferentes, perpetuando-se no poder, esperam eles, para sempre.
A não ser que no próximo domingo nenhum deles consiga fazer uma maioria absoluta a não ser com o outro. Isso é que lhes estragava mesmo os planos, não era? Assim é que veríamos mesmo um pouco de verdade na política portuguesa. Nas eleições seguintes não haveria desculpas. E o inevitável falhanço teria finalmente responsáveis claros perante todo o povo.
Como é que isso acontece? Simples: Deixando PS e PSD em torno dos 30%, e não deixando que o CDS suba o suficiente para servir de muleta a nenhum dos dois. Isso faz-se votando no BE e na CDU. E, para quem vota em Lisboa e até certo ponto no Porto, noutros partidos que tenham alguma hipótese de eleger deputados, o que, extrapolando dos resultados das últimas eleições (é arriscado, imperfeito, mas como as sondagens não medem intenções de voto nestes partidos é o que temos), significa o MRPP, o MEP, a Nova Democracia e os monárquicos. Votar em branco é o mesmo que votar PS ou PSD, porque os votos em branco não contam para nada e o método de Hondt favorece os partidos mais votados. Votar nulo idem aspas. E ficar em casa pior um pouco.
Era mesmo, mesmo bom que isso acontecesse. Porque este país só sairá do marasmo quando o eleitorado punir mesmo todo o centrão, em vez de passar a vida a ir de camartelo para explosivos e de explosivos para camartelo. E só fará tal coisa quando realmente vir que o que se tem passado não é por causa da incompetência do Sócrates ou da nabice do Santana ou da mania de bazar do Guterres e do Durão, mas da própria natureza daqueles dois partidos.
Obriguem-nos a mostrar ao país o que valem ou o que não valem. Já que vocês não querem arriscar uma política realmente diferente, e é claro que não querem, obriguem aqueles dois antros de incompetência a governar em conjunto. Obriguem-nos, pelo menos, no mínimo, a arranjar desculpas diferentes do costume, a ter de pensar um bocadinho noutras maneiras de enganar o freguês.
Faz-se isso votando. Em todos menos neles.
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