Pago Para Esquecer (bib.) é uma coletânea de Philip K. Dick, composta na sua maioria por histórias datadas do início da carreira do autor, nos anos 50, embora tenha também um par de histórias mais recentes. É uma coletânea algo irregular, pois embora algumas das histórias que a compõem sejam muito boas, outras há que ficam bem abaixo na escala da qualidade. Vários dos contos e noveletas aqui contidos mostram os enredos enovelados e o ceticismo face à realidade que constituem imagem de marca do autor, mas a maioria dos que o fazem mostram também uma prosa apressada e pouco cuidada que os prejudica. Outros são contos com uma natureza menos dickiana, e não deixa de ser curioso escrever-se isto a propósito de contos do próprio Dick. Noutros ainda, nomeadamente nos mais antigos, o interesse principal reside em neles se encontrar, em esboço, muito daquilo que foi contribuir mais tarde para alçar Dick à condição de monstro sagrado da FC.
Em resumo, trata-se de uma coletânea interessante, se bem que, como aliás é comum acontecer nestas edições feitas a reboque dos filmes, se alguém procurar nela apenas a origem do filme homónimo deva sair desapontado: O Pagamento é apenas um conto em onze, sofreu fortes alterações na adaptação e, embora até seja dos melhores contos do livro, está longe de o dominar. Eu acho isso uma vantagem. Acho que é precisamente assim que devem ser feitas as edições companheiras de filmes quando o filme se baseia num conto. Mas outros leitores talvez tenham outras ideias.
Aqui fica o que achei de cada uma das histórias:
domingo, 31 de julho de 2011
Lido: Uma Condecoração Especial por Cansaço
Uma Condecoração Especial por Cansaço (bib.) é uma magnífica noveleta de Philip K. Dick sobre paradoxos e ciclos fechados temporais. Um grupo de "temponautas" parte para o futuro mas, aí chegados, deparam com notícias sobre uma miteriosa explosão que os teria morto a todos no momento do regresso ao seu tempo de origem... só que deparam com essas notícias repetidamente, uma e outra e outra e outra vez, pois veem-se presos num ciclo temporal no qual são obrigados a repetir (mais ou menos) as mesmas coisas uma infinidade de vezes enquanto tentam descortinar o que teria provocado a explosão e, assim, salvar as suas próprias vidas. Ou então não. Apesar da ideia não ser nova (e julgo que já não o era em 1974 quando esta história foi escrita), está aqui tratada com mestria, sendo de realçar a sensação opressora de desesperado cansaço que vai submergindo os protagonistas cada vez com mais força até tornar o desfecho inevitável. Muito bom.
Lido: Guerra Interplanetária
Guerra Interplanetária (bib.), um conto curto do autor romano Luciano (século II d.C), extraído de uma obra mais vasta intitulada Uma História Verídica ou História Verdadeira nas duas edições portuguesas de que tenho notícia, é bem capaz de ser o mais antigo percursor da ficção científica de que há memória, se descontarmos os grandes mitos das civilizações antigas. Trata de uma viagem fantástica feita por um grupo de marinheiros determinados, os quais, após partirem para ocidente a fim de descobrirem onde termina o mar, são deste erguidos no ar por uma ventania e vão parar à Lua, cujos habitantes estão em guerra com o Sol. Simultaneamente muito ingénuo e muito surrealista, o texto faz lembrar algumas obras de autores borgesianos, algumas obras portuguesa encaixadas na FC, nas quais os lugares do espaço não passam de nomes mais ou menos poetizados sem qualquer relação com as suas características reais, e também uma certa forma de criar literatura para crianças. Pessoalmente, achei fascinante ver quão antigas são as raízes de tudo isso, e quão arquetípicas algumas dessas raízes se revelam. É esse, quanto a mim, o principal interesse deste texto.
sábado, 30 de julho de 2011
Lido: A Igreja Profanada
A Igreja Profanada (bib.) é um conto de Manuel Pinheiro Chagas, baseado numa história tradicional do norte da Europa e que consegue estar ainda mais eivado de maniqueísmo do que tem sido hábito nestas velhas histórias fantásticas portuguesas que tenho vindo a ler. Após um longo e romântico prólogo cuja utilidade narrativa não consegui descortinar, os últimos dois terços do conto são, enfim, dedicados à história propriamente dita, dividida em duas partes. Na primeira, um homem "de condição" vai para o mar já noite cerrada, a contragosto do barqueiro que contrata para o levar, e aí, ao bater da meia-noite, é confrontado com almas penadas que surgem vindas das profundezas. A segunda é constituída por um longo (e linguisticamente inverosímil) monólogo do barqueiro, que explica como as almas penadas acabaram naquele lugar. Tem tudo a ver com a tal igreja do título, profanada por um grupo festivo e, portanto, maligno e ímpio, liderado por um irmão maldoso e a irmã que por ele está apaixonada. Não gostei. Não achei o conto particularmente bem escrito, em especial tendo em conta o renome do autor, e achei-o mesmo bastante mal construído enquanto obra de ficção. E nem falo da banalidade e conservadorismo de todo o fundo religioso que lhe subjaz. Quem goste de histórias moralistas e mui cristãs provavelmente apreciará esta. Eu achei-a fraca, muito fraca.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Lido: A Casa de um Homem
A Casa de um Homem (bib.) é um conto de ficção científica de Luís Filipe Silva passado num futuro politicamente distópico mas tecnologicamente avançado, no qual as casas são geridas por inteligências artificiais algo temperamentais e possuem meios próprios de locomoção. O homem do título é alguém cuja casa foi roubada. Mas não um alguém comum, antes um homem com ligações e um passado que lhe permitem artilhar a casa com aparelhómetros e software mais avançados do que os do comum dos mortais, ao mesmo tempo que também lhe fornecem inimigos determinados. Se alguém ao ler isto pensa em pós-ciberpunk, pensa bem. O conto relata o que o homem faz para tentar recuperar a casa, e no final ficamos a saber porquê, embora de uma forma tão subtil que de certeza nem todos os leitores a compreenderão. Chegarão aos motivos sentimentais, decerto, mas nem todos compreenderão a profundeza desses motivos. Um conto muito bom, provavelmente o melhor que o autor publicou na última década.
Lido: El Primer Viaje de la Argonauta
El Primer Viaje de la Argonauta é mais um conto de ficção científica do cubano Yoss, mas este está longe do nível dos que li anteriormente. Uma nave tripulada por uma equipagem padronizada de cinco elementos regressa a um planeta de Próxima do Centauro depois de terminada a sua viagem inaugural, um salto interestelar ao sistema Sigma Draconis. Até aqui a ideia é banal mas não propriamente má. Infelizmente, boa parte do conto é constituída por um longo infodump em que é feita uma cronologia de um cenário de catastrófica crise energética que teria levado a espécie humana ao presente ficcional, e isso já é bastante mauzinho. Apesar de alguns detalhes algo inverosímeis, o cenário que é construído dava pano para mangas, podia ser desenvolvido em uma ou várias histórias mais longas, mas assim apresentado a seco só estraga o conto. Neste, o que fica acaba por ser uma escrita que me parece de qualidade (apesar da velha história sobre eu não me sentir inteiramente à vontade para avaliar a qualidade da escrita em espanhol) e uma ideia curiosa: a de que para que uma equipagem seja aceite na estirpe dos astronautas é necessário passar por um teste de responsabilidade ambiental. Mas é pouco. Tudo o resto pareceu-me bastante fraquinho. Podem avaliar pessoalmente se assim é ou não aqui.
Lido: Rum-Cola
Rum-Cola é um conto de Miguel Neto que não me agradou. Com a ressalva óbvia relativa à extrema subjetividade do humor, aquele que aqui há não me provocou nem um sorriso. Ao terminar de ler o conto fiquei com a sensação de que em todas as muitas ocasiões em que o autor teve de escolher entre meter um gag e dar coerência à história preferiu o gag. A opção talvez tenha resultado para quem encontre graça nesses gags, mas não foi o meu caso. A história é fantástica, na medida em que o protagonista é um Pai Natal com todas as características da imagem que a figura tem no imaginário popular, com as suas renas mágicas, os seus atarefados duendes e tudo o resto, salvo não ser tão bonacheirão como é costume ver-se. Tanto assim que, depois de uma conversa com um executivo da sucursal portuguesa da Coca-Cola, que o irrita, decide que basta de natalices, que mais vale deixar tudo nas mãos do Menino Jesus e ir viver para Cuba. E é o que faz. Mas tudo sem fazer vibrar nenhuma corda do meu sentido de humor. Ora, sem que eu achasse graça a uma história que também não tem grande coerência, é natural que o resultado não tenha me satisfeito nem um pouco. É pena.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Lido: Uma Fantasia do Doutor Ox
Uma Fantasia do Doutor Ox (bib.) é um extrato da novela de Júlio Verne O Doutor Ox. O extrato descreve o que acontece à terreola flamenga de Quiquendone quando o Doutor Ox (não aparece no extrato como tal — aliás, ele mal aparece no extrato — mas trata-se de um arquetípico cientista louco) liga uns bicos de gás, alegadamente destinados à iluminação pública, mas que na realidade constituem uma experiência para avaliar os efeitos do gás nas pessoas, animais e plantas da terra. Os resultados dificilmente poderiam ser mais devastadores. É um texto de proto ficção científica, divertido e não tão inconsequente como possa parecer à primeira vista pois, no meio de toda aquela loucura, encontra-se uma sátira mordaz aos mecanismos e clichés da histeria patrioteira e nacionalista. Deixou-me com vontade de reler a novela inteira. Ótimo.
Lido: Pela Sombra Morrerão
Pela Sombra Morrerão (bib.) é uma novela de horror vampírico de Carla Ribeiro da qual, digo logo à partida, não gostei. Não que não tenha os seus pontos de interesse, nomeadamente, e muito em especial, a forma como o mito do vampiro é usado como alegoria de algo bem mais próximo e bem menos fantástico: os maus tratos domésticos, o abuso, sexual ou não, das pessoas mais frágeis num núcleo familiar, o abandono da criança ao predador por uma mãe sem força para se lhe opôr, etc.
Com estes ingredientes, que estão lá por baixo de uma história de vingança entre vampiros que acaba por ser o menos interessante ou relevante da novela, esta podia ser uma história com uma força tremenda. Infelizmente, algumas fragilidades de texto e de construção da narrativa não lhe permitiram desenvolver todo o seu potencial.
O texto é entravado por um excessivo pendor para a repetição. Só para dar dois exemplos, em dois parágrafos razoavelmente curtos da página 17 aparece duas vezes a palavra "estranhamente" e mais duas vezes a palavra "estranho" e são inúmeras as ocasiões em que surge "seu" (ou variantes) em situações em que a sua omissão em nada prejudicaria o texto.
Quanto à narrativa, o problema é desenvolver-se a história em dois tempos diferentes, separados por algumas décadas, sem que, muitas vezes, os saltos temporais estejam claros. Foi frequente dar por mim a pensar "Espera, isto aqui passa-se quando?" antes de conseguir situar-me. Este tipo de texto não linear presta-se a usos literariamente interessantes mas exige um domínio da técnica narrativa que Carla Ribeiro, pelo menos nesta obra, não mostrou possuir.
De modo que não gostei da novela, embora imagine que leitores (e acima de tudo leitoras) mais ligados ao lado gótico da vida e/ou com histórias pessoais em que a obra reverbere talvez lhe encontrem suficientes motivos de interesse para darem por bem empregue o tempo gasto a lê-la.
Com estes ingredientes, que estão lá por baixo de uma história de vingança entre vampiros que acaba por ser o menos interessante ou relevante da novela, esta podia ser uma história com uma força tremenda. Infelizmente, algumas fragilidades de texto e de construção da narrativa não lhe permitiram desenvolver todo o seu potencial.
O texto é entravado por um excessivo pendor para a repetição. Só para dar dois exemplos, em dois parágrafos razoavelmente curtos da página 17 aparece duas vezes a palavra "estranhamente" e mais duas vezes a palavra "estranho" e são inúmeras as ocasiões em que surge "seu" (ou variantes) em situações em que a sua omissão em nada prejudicaria o texto.
Quanto à narrativa, o problema é desenvolver-se a história em dois tempos diferentes, separados por algumas décadas, sem que, muitas vezes, os saltos temporais estejam claros. Foi frequente dar por mim a pensar "Espera, isto aqui passa-se quando?" antes de conseguir situar-me. Este tipo de texto não linear presta-se a usos literariamente interessantes mas exige um domínio da técnica narrativa que Carla Ribeiro, pelo menos nesta obra, não mostrou possuir.
De modo que não gostei da novela, embora imagine que leitores (e acima de tudo leitoras) mais ligados ao lado gótico da vida e/ou com histórias pessoais em que a obra reverbere talvez lhe encontrem suficientes motivos de interesse para darem por bem empregue o tempo gasto a lê-la.
Lido: O Canto da Sereia
O Canto da Sereia (bib.) é uma longa noveleta de Júlio Dinis, ambientada entre pescadores na costa do Furadouro, na região de Aveiro. É das tais obras a cuja inclusão na literatura fantástica eu torço o nariz, embora os estudiosos da coisa tendam a metê-la lá. A mim parece um conto que mistura um certo ambiente quase neorrealista (foca-se nos humildes pescadores, com as suas conversas, os seus problemas, a sua sabedoria e os seus mitos) com um enredo bem romântico. Um jovem pescador perde-se de amores (muito inverosimilmente, diga-se) por uma voz que lhe chega do mar em noites tormentosas. Esse canto, que a superstição dos pescadores atribui a uma sereia, vem a descobrir-se que pertence a uma estrangeira rica e excêntrica que gosta de sair para o mar quando pessoas mais sensatas recolhem a terra. Ou seja: o fantástico que poderia existir no conto revela-se bem mundano, e nisso o autor não deixa lugar a qualquer dúvida. Não percebo, portanto, porque se inclui esta obra na literatura fantástica portuguesa. E não concordo com essa inclusão.
Independentemente destes considerandos mais ou menos bizantinos, a noveleta abre lenta e segue lenta, com muitos sentimentos superlativos, diálogos que oscilam entre o popular e verosímil e o inverosimilmente burilado e o desfecho trágico que se prevê desde o início. Provavelmente agradará a leitores mais dados a romantismos. Pessoalmente, achei chato, muito chato. Tragédias de faca e alguidar não são para mim. Prefiro as minhas tragédias mais terra-a-terra.
Independentemente destes considerandos mais ou menos bizantinos, a noveleta abre lenta e segue lenta, com muitos sentimentos superlativos, diálogos que oscilam entre o popular e verosímil e o inverosimilmente burilado e o desfecho trágico que se prevê desde o início. Provavelmente agradará a leitores mais dados a romantismos. Pessoalmente, achei chato, muito chato. Tragédias de faca e alguidar não são para mim. Prefiro as minhas tragédias mais terra-a-terra.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
Lido: A Rosa Negra
A Rosa Negra (bib.) é um conto de Sacha Ramos que mistura ficção científica com uma espécie de romantismo extemporâneo. Ambientada numa Cascais futurista, no seio de uma família enriquecida por um negócio de produção de rosas geneticamente manipuladas (informação essa que nos é entregue por intermédio de um infodump inicial), a história conta um dramalhão dos antigos, cheio de sentimentos arrebatadores, crime, traições familiares e morte, bem ao gosto do século XIX. Faca e alguidar. O resultado é estranho e incongruente, piorado por uma série de diálogos bastante fracos e pelo facto de que, depois de descodificada a inspiração novecentista do texto, tudo se torna muito previsível. Achei o todo muito fraquinho. Claramente o pior conto do livro até agora.
Lido: Códigos Foráneos
Mais um título em espanhol, mas desta vez o texto é na mesma língua. Códigos Foráneos, conto do espanhol Juan Jacinto Muñoz Rengel, é uma ficção científica de laboratório, daquelas que mimetizam documentos não-literários. Neste caso trata-se um conjunto de notas de campo escritas por um cientista que investiga um conjunto de objetos encontrados em Marte, com tabelas e tudo. Não gostei. Não só porque este tipo de texto não costuma agradar-me por aí além (é preciso ser muito bom para me cair no goto), mas também porque as descobertas se sucedem a um ritmo que, por si só, esfrangalha a verosimilhança, além de mostrar que o autor nunca lidou, nem de perto nem de longe, com a investigação científica tal como ela realmente é. Mas principalmente porque aquilo que é descoberto (uma espécie de linguagem universal da vida, muito new age) não faz o mínimo sentido. Quem gostar de esoterismos talvez goste deste conto. Talvez. Os outros, duvido muito. Mas se alguém quiser arriscar, encontra-o aqui.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Lido: Las Granadas del Tiempo
Apesar do título em espanhol, Las Granadas del Tiempo é um conto portuguesíssimo, de Amadeu Lopes Sabino, no qual o protagonista, um velho antifascista forçado ao exílio, regressa a Madrid e aí percorre os velhos locais por onde um outro eu mais novo passara, contando a história dessa primeira visita em paralelo com a da segunda. É uma obra nostálgica, pela qual perpassa a saudade por um mundo mais simples de ideais puros, ainda não corrompidos pelo tempo e pela dúvida, que percorre os circuitos clandestinos e a psicologia daqueles que combateram as ditaduras ibéricas nos anos 60. E além disso está muito bem escrito. Gostei bastante deste conto.
sábado, 23 de julho de 2011
Lido: Que Diabo de Natal
Que Diabo de Natal é um conto de fantasia de Nuno Duarte que vai buscar o sempiterno tema faustiano do homem que entra em negócios com o diabo. Desta feita, o homem é uma espécie de alter ego do autor (e de tantos outros, autores e não só), um tipo dado aos livros e aos interesses próprios e que tem alguma dificuldade em fazer com que a namorada aceite essa faceta da sua personalidade. É depois dela o pôr com dono, que é como quem diz mandá-lo à fava, que o protagonista vai negociar com o diabo. Mas o que este quer não é bem o que estava à espera: é simplesmente, ou talvez não, passar um natal tradicional. Com ele. É um conto divertido, bem concebido e bem escrito, dos pontos altos do livinho em que se inclui.
Lido: O Condutor Nocturno
O Condutor Nocturno (bib.) é um conto curto de Italo Calvino que, tal como o anterior, nasce duma situação aparentemente simples e parte à desfilada no exame minucioso de todas as suas ramificações lógicas. A situação: um homem (X, supõe-se) tem uma relação com uma mulher (Y) que vive noutra cidade e, após uma briga telefónica, decide fazer-se à autoestrada para ir falar com ela e tentar remediar a situação. A coisa é complicada pela existência de um rival (Z), o qual, na imaginação de X, se irá imediatamente aproveitar do atrito, e também pela possibilidade de a mesma ideia de se fazer à autoestrada para tentar remediar o que for remediável ter passado pela cabeça de Y, o que levaria a um desencontro que, em vez de beneficiar a relação só a prejudicaria mais um pouco. Um autêntico enredo. E um enredo que vai sendo cada vez mais abstratizado até levar a um ciclo fechado bem surrealista. Outro conto que não é para toda a gente, e do qual gostei bastante.
Lido: Ressurreição de um Coronel
Ressurreição de um Coronel (bib.), de Edmond About, é um texto de proto ficção científica extraído de um romance de 1862 traduzido para português como O Homem da Orelha Quebrada. O título é bastante eloquente quanto ao conteúdo: trata-se do relato da ressurreição de um coronel do exército napoleónico, que fora aprisionado décadas antes mas, antes de ser executado conforme previsto, congelara na masmorra em que estava encarcerado. Ingénuo, como é costume acontecer nas ficções científicas oitocentistas, o texto é bem curioso por estar tão próximo de muitas ficções científicas de laboratório que foram escritas um século mais tarde. Não sendo propriamente uma obra prima, é contudo relevante para a história da FC.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Mais coisas nas minhas presenças na web
Acabei de acrescentar ao post / à página sobre as minhas outras presenças na web, para lá deste blogue (caso não saibam o que é, cliquem onde diz "podem encontrar-me também aqui", ali à esquerda; ou então cliquem aqui), ligações para as páginas de autor de duas livrarias online com livros meus à venda: a Amazon e a Wook.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Lido: Uma Récita do Roberto do Diabo
Uma Récita do Roberto do Diabo (bib.), de Júlio César Machado, é um conto fantástico que acompanha em paralelo uma representação teatral e uma história contada por um dos membros do público a outro, aquele que conta a história na primeira pessoa. Tem essa peculiaridade estrutural, chamemos-lhe assim, que lhe confere um interesse acrescido ao que teria de outro modo, e que serve também para o autor fazer, no final, convergir as duas histórias até quase se confundirem. Ambas as histórias são dramáticas. A contada pela peça tem a ver com o dilema de um filho (O Roberto do Diabo do título) ao descobrir a natureza do pai. Aquela que é contada pelo companheiro do narrador é uma história de ódio e parricídio que, apesar da tentativa de inculpar um terceiro por parte do assassino, não fica sem castigo. É conto cheio de subtilezas, para se ler com atenção e bastante bom, apesar do maniqueísmo de inspiração católica que tão típico é nestas histórias fantásticas oitocentistas e tão irritante se torna quando lemos a segunda ou terceira. Mas faz parte; afinal, os escritores são fruto da sua época. Faz parte e é neles bem mais desculpável do que seria em autores mais contemporâneos.
Lido: O Cheiro do Suor
O Cheiro do Suor (bib.) é um conto de fantasia urbana de Eric Novello que me surpreendeu pela qualidade do texto, francamente boa. Num ritmo ágil e sombrio, quase de policial negro, o conto vai seguindo um protagonista, cuja natureza é desvendada a pouco e pouco, ao longo de uma viagem pelo submundo duma cidade não identificada, na qual sobrevive executando trabalhos sujos para, entre outras entidades, presume-se, a própria polícia. Só o final, inconclusivo, não me satisfez plenamente porque não me parece ter a força adequada ao resto do conto. Seja como for, não tenho dúvidas em considerá-lo muito bom, dos melhores do livro, até agora.
domingo, 10 de julho de 2011
Lido: Ese Día
Ese Día, do cubano Yoss, é um conto de ficção científica cuja principal força está na literatura que contém. Com a ressalva habitual sobre a minha capacidade para avaliar qualidade literária em textos em espanhol, pareceu-me soberbo, tanto em termos de texto propriamente dito, em especial no ritmo imposto pelo autor, como na estrutura. Fazendo até certo ponto lembrar Stalker, dos Irmãos Strugatski, o dia do título é o dia em que um grupo heterogéneo e incompreensível de extraterrestres resolve visitar o planeta Terra, interrompendo momentaneamente o fluir das coisas do costume, introduzindo um forte elemento insólito no quotidiano, só para partirem horas mais tarde, desaparecendo sem deixar rasto. Pareceu-me muito, muito bom. Podem lê-lo, caso queiram, aqui.
Lido: Infinito
Infinito é um pequeno conto de Óscar de Sá, no qual o autor se põe na pele de um autor que barafusta violentamente contra si próprio por nunca ser capaz de acabar nenhuma das obras a que dá início. São cinco páginas de autorrecriminações e muito cedo se torna óbvio qual o fim que o conto vai ter. Apesar de não estar mal escrito, achei este conto bastante fraco e, acima de tudo, muito desinteressante. Mesmo apesar de ter havido aqui e ali uma certa identificação com o autor que se flagela por causa da mania de não acabar as coisas. Imagino que para alguém que não seja autor o conto tenha ainda menos interesse do que para mim. Ou então talvez não, talvez ache curioso assistir a esta faceta de tantos de nós. Talvez as duas coisas.
Lido: Inspecção Periódica
Inspecção Periódica é um conto de José Bandeira, muito bem escrito e repleto da ironia fina típica do autor. Em tom de caso verídico, usando-se a si próprio como personagem, relata um acontecimento insólito que se teria passado em vésperas de um Natal qualquer, largos anos antes do presente, no meio do trânsito lisboeta. Vindas aparentemente de nenhures, passam por ele e pelo seu carro tampas de jantes em grande velocidade, abalando-lhe seriamente a habitual compostura e racionalidade. Não é conto de gargalhada, mas é conto de sorriso contínuo. E além disso tem um toque de fantástico: de onde vieram as tampas? O espírito racional garante que só podia ser de algum carro indetetado pelo protagonista. Mas o conto está concebido por forma a deixar no ar a dúvida. Todorov aprovaria.
Lido: O Suplente
O Suplente (bib.) é mais um bizarro conto de ficção científica de Philip K. Dick, centrado num homem, funcionário público, que é destacado pelo sindicato para ocupar a posição de suplente do Presidente dos Estados Unidos, para seu grande desagrado. É que o posto de presidente é ocupado por um computador, que toma todas as decisões, e o suplente só existe por um anacronismo que dita a sua necessidade para o caso do computador se avariar, coisa que ninguém acredita que aconteça. Mas eis que aparecem uns extraterrestres hostis a entrar sistema solar adentro, e conseguem mesmo avariar o computador, de modo que o nosso banalíssimo amigo se vê catapultado de repente para o posto de presidente. E ganha-lhe o gosto.
Trata-se duma sátira, claro. Olhando este conto como FC séria, é impossível não começar a torcer o nariz aos muitos buracos que o enredo contém, mas a ideia é, de forma bastante evidente, troçar do sistema político-mediático (há até um "palhaço das notícias". Literal. O pivô que dá as notícias é mesmo um palhaço) do tempo que em pouco, aliás, difere do atual. Mas há nele também um lado sério, como aliás é comum acontecer com as sátiras. Porque os homens banais, medíocres e ridículos que servem de personagens ao conto assim que se apanham com um bocadinho de poder nas mãos imediatamente lhe ganham o gosto e é com enorme renitência que o largam. Soa a algo que vos seja familiar? Pois.
Em suma: não gostei muito do conto, devo dizê-lo. Mas não deixo de lhe reconhecer algum interesse.
Trata-se duma sátira, claro. Olhando este conto como FC séria, é impossível não começar a torcer o nariz aos muitos buracos que o enredo contém, mas a ideia é, de forma bastante evidente, troçar do sistema político-mediático (há até um "palhaço das notícias". Literal. O pivô que dá as notícias é mesmo um palhaço) do tempo que em pouco, aliás, difere do atual. Mas há nele também um lado sério, como aliás é comum acontecer com as sátiras. Porque os homens banais, medíocres e ridículos que servem de personagens ao conto assim que se apanham com um bocadinho de poder nas mãos imediatamente lhe ganham o gosto e é com enorme renitência que o largam. Soa a algo que vos seja familiar? Pois.
Em suma: não gostei muito do conto, devo dizê-lo. Mas não deixo de lhe reconhecer algum interesse.
Sou um autor de best-sellers e nem sabia
Isto que estão aqui a ver é um print screen de algo que nunca pensei ver em dias da minha vida. Tirado do site da Bertrand. Eu sei, é pequeno, mas acho que dá para ver em maior. Tentem clicar na imagem. E, de resto, se forem rápidos talvez ainda consigam ver a coisa a decorrer, aqui. O site é o da Bertrand, como o logotipo sugere. A lista é a dos livros de ficção científica que nele estão disponíveis. A ordenação? Por ranking de vendas. Por ranking de vendas!
Sim, isso mesmo. Ou há algum bug estranho lá no sistema da Bertrand, ou o meu Sally é o livro de FC mais vendido de momento na loja online. Suponho que só na loja online. E eu estou com os olhinhos todos trocados. Assim mesmo, ó: O_o
sábado, 9 de julho de 2011
Lido: A Perseguição
A Perseguição (bib.) é um conto de Italo Calvino sobre um homem, preso num carro roubado, que por sua vez está preso no trânsito, e é perseguido por um outro homem, igualmente preso num carro roubado preso no trânsito, que tem o objetivo de o matar. Ou antes: é um conto sobre esta situação. E examina-a, ou talvez seja mais adequado dizer que a escalpeliza, com toda a minúcia e rigor matemático, decompondo-a nas suas partes constituentes, e avançando numa abstração, numa esquematização, cada vez mais completa. A situação parece não ter solução até que no fim esta aparece, fruto da abstração e de uma dose considerável de surrealismo. Não é conto para toda a gente, mas eu gostei bastante. Fez-me lembrar, embora de uma forma algo lateral, o livro As Cidades Invisíveis, também de Calvino. E também alguns dos contos mais contidos de Rhys Hughes.
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