terça-feira, 11 de outubro de 2011

Lido: Os Marcianos Divertem-se

Os Marcianos Divertem-se (bib.) é um pequeno romance satírico de Fredric Brown sobre uma invasão da Terra por uns marciananos muito peculiares. Até a forma de invasão é peculiar: de um dia para o outro, o planeta vê-se repleto de criaturinhas que simplesmente aparecem e para as quais as divisões materiais do espaço parecem não ter qualquer significado. Como se não bastasse, são uns sacaninhas irreverentes e insultuosos. Tratam toda a gente por "Zé", troçam abertamente das pessoas, divertem-se a divulgar segredos e a enfurecer os mais pacatos, etc. Como o próprio Brown diz, por intermédio de Mário-Henrique Leiria, o tradutor:

«Todos, sem excepção se mostravam arrogantes, atribiliários, bárbaros, contrariantes, corrosivos, diabólicos, exasperantes, execráveis, ferozes, guinchadores, grosseiros, hostis, injuriosos, impudentes, irascíveis, jactanciosos, korriganescos. Eram lúbricos, malfeitores, niilistas, odiosos, ofensivos, pérfidos, perniciosos, perversos, quereladores, rebarbativos, sarcásticos, truculentos, ulcerantes, vexatórios, visigóticos, xenófobos e zumbidores ao ponto de tornar doido todo aquele que entrasse em contacto com eles.»

Ou seja: são precisamente o tipo de criatura que hoje em dia se costuma encontrar em certos locais da internet. Trolls.

Assim descritos os marcianos, já se imagina o que o romance é: o relato do que acontece quando essas excelsas pilhas de qualidades chegam ao nosso planeta e das consequências que tem a sua permanência. Por vezes irónico, por vezes sarcástico, por vezes datado (o livro é de 1955, afinal de contas). Há, claro, crítica social e de costumes a rodos, até porque é precisamente essa a ideia, mas parte dela tinha bem mais relevância há 56 anos do que tem hoje. E trata-se mais de uma sátira do que de ficção científica propriamente dita. Mas gostei. Não me parece que o humor funcione com toda a gente, mas comigo funcionou: nunca despreguei bandeiras a rir, mas sorri várias vezes e até soltei uma ou outra gargalhadinha.

Quanto à tradução, há trechos de pura genialidade, mas globalmente desiludiu-me um pouco. Mário-Henrique Leiria era um bom tradutor, um dos melhores que passaram pelas traduções de FC em Portugal, mas aqui, à parte esses trechos, não me parece que tivesse estado ao seu melhor nível.

Acontece aos melhores.

Este livro foi comprado.

Lido: Freefall

Freefall é um conto de ficção científica de Michael Bateman que, embora difira em muitos pormenores, ressoa estranhamente com um conto meu, publicado em 2002, No Vento Frio de Tharsis. Já não é a primeira vez que me acontece ver temas que tratei em histórias minhas tratados independentemente em contos de outros autores. Desta vez a minha saiu primeiro (esta é de 2003), mas nem sempre isso acontece, e é sempre muito estranho. É como se as ideias andassem por aí a flutuar numa espécie de noosfera exterior aos nossos cérebros, à espera de serem apanhadas por qualquer autor que estenda a mão. E se forem vários a fazê-lo, elas não se fazem rogadas.

Além de estranho, é incómodo. Porque este tipo de coincidência costuma dar pratinho cheio aos idiotas da má-língua. Quantas vezes viram já acusações de plágio atiradas a torto e a direito, mesmo que não haja a mais pequena hipótese do autor X ter contactado com a obra do autor Y antes de escrever a sua? Pois.

Como é óbvio, evidente e cristalino, Bateman não me plagiou. Mas o ambiente dos desportos radicais está lá, o risco também, a ambientação em outros planetas idem aspas, as conversas com uma mulher contrária à ideia de pôr a vida em risco por algo que ela não compreende igualmente por lá andam, etc. Quase toda a base dos contos é igual, embora os pormenores sejam diferentes. No meu, o protagonista faz parapente, no de Bateman faz algo de semelhante ao bungee jumping; no meu a mulher fica na Terra, no dele parte com o protagonista para o espaço; no meu o protagonista vai para Marte, no dele para Júpiter; no meu, a história é contada do ponto de vista do protagonista, no dele do da mulher.

E sim, é claro que, apesar da estranheza e do incómodo, gostei do conto. É um bom conto de FC, bem construído e bem executado.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Lido: É Preciso Matar o Spoq

É Preciso Matar o Spoq (bib.) é um conto de uma espécie de ficção científica muito fantasiosa, de Christian Grenier, tão surreal que se torna difícil descrevê-lo de forma que lhe faça justiça. Parece (e sublinho: parece) ter lugar num universo paralelo, ou num qualquer lugar que transcende o conceito de universo, criado pelo tal spoq a que o título faz referência, onde vivem criaturas que parecem ser humanas mas que possuem poderes (de telecinese e teleportação, por exemplo), e que está cada vez mais enxameado por "spoquitos", malcheirosas criaturas de nove patas que causam problemas onde quer que apareçam e que são, também eles, criados pelo spoq. O conto acompanha a viagem de descoberta do protagonista quando parte para tentar matar o spoq. É um conto juvenil, cheio de humor e de imaginação, e como tal é interessante, embora não cumpra os requisitos mais exigentes da ficção científica "adulta" e "séria". Porque privilegia a aventura e a imaginação ao rigor científico. Mas não me parece que isso tenha muita importância. É um conto de FC juvenil interessante, e só não é mais que interessante porque não me parece que o final esteja ao nível do resto do conto.

domingo, 9 de outubro de 2011

Lido: O Mistério da Árvore

O Mistério da Árvore (bib.) é um muito poético conto curto de Raul Brandão que, em jeito de história de fadas, fala de um reino governado por um rei tão malvado que tinha feito secar a água das fontes. No reino havia uma árvore, também ela há muito seca, onde eram há séculos enforcados os condenados à morte. A esse reino chega um dia um casal de mendigos, que muito se amam, e que por isso mesmo (e por serem mendigos) afrontam o rei e são condenados a morrer enforcados na tal árvore. E é o que acontece. Mas o amor é vida e a árvore, morta, ganha vida.

Trata-se de um conto muito bonito, muito doce, muito romântico, mas cuja verdadeira força está no magnífico uso da língua que nele é feito, não propriamente na história que conta (que nem me parece que seja nada de especial). Além disso, tem o tamanho certo. Se fosse maior sairia da dimensão típica dos contos populares de caráter maravilhoso que lhe servem de inspiração, e seria mais difícil evitar que a prosa poética começasse a cansar. Assim, tudo parece estar no sítio que lhe é próprio. Gostei bastante, mesmo não sendo este o tipo de conto que mais me costuma agradar. E recomendo, exceto a quem ache que só as histórias sombrias valem a pena.

Lido: Planetas

Planetas, do mexicano Ricardo Bernal, é um pequeno conto sobre terrestres e marcianos cujo principal interesse parece estar no texto propriamente dito. Não parece nele haver uma ideia, além de uma certa (e muito disparatada) equivalência entre ciência e magia, e tampouco existe uma história propriamente dita. Além de um texto, numa prosa algo poética, que não me parece maltratar a língua castelhana, não encontrei nada neste continho. Para alguns leitores um texto de boa qualidade é suficiente. Para mim não é. Não gostei. Não aconselho, mas se quiserem podem lê-lo aqui. É logo o primeiro.

Lido: A Canção de Kali

A Canção de Kali (bib.), de Dan Simmons, é um romance que já acabei de ler há algum tempo (praticamente dois meses) mas do qual, por um motivo ou por outro, só agora arranjei tempo para falar. Se o mesmo acontecesse com certos outros livros isso causar-me-ia problemas. Há histórias que começam a desvanecer-se da memória assim que o livro se fecha, quando não é ainda com ele aberto, e falar delas alguns meses mais tarde torna-se quase impossível. Mas não é o caso deste romance.

Como o título sugere, a ação desenrola-se principalmente na Índia. O protagonista é um americano, casado com uma emigrante indiana, que é encarregado de investigar o misterioso aparecimento de um novo manuscrito escrito por grande poeta indiano que consta estar morto. Para isso embarca com a mulher e uma filha pequena num avião para Calcutá, uma das maiores cidades da Índia (e do mundo), descrita como um lugar caótico, repleto de miséria e sujidade e centro de um culto à deusa hindu da destruição, Kali, consorte do deus da morte, Shiva.

Mas Simmons, com esta matéria-prima nas mãos, resiste à tentação da facilidade. Não mergulha o leitor de cabeça e à bruta no horror sobrenatural que se poderia supor. Pelo contrário, meio romance é passado em pleno realismo, com não mais que subtis indicações de que algo de realmente invulgar se passa naquela cidade, algo que transcende as simples consequências do sobrepovoamento e do subdesenvolvimento. Algo que não se explique apenas com crime organizado e seitas religiosas clandestinas e fanáticas.

É em boa parte por causa dessa pintura de um cenário inteiramente realista, ao mesmo tempo que vai preparando o leitor para o que está para vir, que este livro está tão bem conseguido. Por causa da subtileza que percorre todo o romance, por ter todos os fios que constituem a trama tão bem amarrados. Por estar muito bem escrito, com um ritmo impecável, com tudo no sítio. No que acontece ao protagonista e sua família, nas várias personagens que se vão cruzando com eles, no retrato — nada lisongeiro — da cidade de Calcutá e da própria Índia, não parece haver nada a mais nem nada a menos. Tudo está onde e como deve estar.

Achei A Canção de Kali dos melhores livros que li nos últimos anos. E é dos poucos livros que recomendo sem reservas a quase qualquer leitor, sejam quais forem os seus gostos, à exceção de quem não goste de livros perturbadores. Porque A Canção de Kali, pese embora toda a sua subtileza, é um livro perturbador. Ou talvez por causa dessa subtileza. É mais fácil acreditar que por trás das aparências algo de negro se move quando essas aparências são tão palpáveis do que quando a descrença é violentada desde o início com as tentativas desajeitadas de chocar com que tantos autores menores se comprazem. E Simmons, basta este livro para o dizer, e bastaria mesmo que nada mais de bom tivesse escrito ao longo de toda a carreira, não é um autor menor.

Este livro foi comprado.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Lido: Perfect Pilgrim

Perfect Pilgrim é uma noveleta de Jom Grimsley que nos apresenta uma ficção científica francamente mística. Num futuro distante em que a Humanidade está bastante alterada em relação ao que é hoje e mostra uma miríade de formas e condições, um rapaz vindo de um mundo distante chega a Sha-Nal, planeta sagrado e centro do universo, para uma peregrinação. Aí vai deparar com uma viagem de descoberta, de si e da sociedade que o rodeia, que não é nada do que estava à espera.

É uma história que me desde o início joga fortemente com o sentido de estranhamento comum a muita FC, mas que a meu ver não o faz lá muito bem. É tudo demasiado. São abordados demasiados temas, desde a descoberta de si mesmo às questões de identidade de género, passando pelos limites do humano, pela ideia de alma e reencernação, por mais uma série de coisas, e tudo num espaço demasiado reduzido, não permitindo que nenhuma delas seja devidamente explorada, embora tanha de reconhecer que o misticismo subjacente à noveleta me teria afastado dela mesmo que não contivesse tanta coisa.

Demasiado. Demasiado em demasiados aspetos, menos... na história propriamente dita. Essa existe a menos, e só podia ser assim, porque com tanto estranhamento no espaço duma noveleta pouco resta para desenvolver uma história. Ou personagens com alguma riqueza.

Quem se delicie com a estranheza, aqueles cujo foco de atenção principal sejam as ideias, provavelmente gostarão desta história. Quem se interesse mais pelo resto quase de certeza não gostará. E eu, intermédio como sou, não tendo desgostado por completo não posso dizer que tenha gostado.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Lido: A Chegada dos Marcianos

A Chegada dos Marcianos (bib.), de H. G. Wells, é um extrato do clássico A Guerra dos Mundos, como o título sugere a qualquer pessoa que conheça alguma coisa sobre a história da ficção científica. Trata-se, como também será fácil adivinhar, do início desse romance. E o início desse romance é dos melhores e mais célebres inícios de romance que alguma vez se escreveram. Por conseguinte, para quem já conhece alguma FC, este texto nada traz de novo, apesar de ser excelente. Mas o livro em que se insere é destinado à juventude e os leitores jovens são leitores pouco experientes, por definição. Muitos não terão tido contacto com Wells antes deste extrato; a muitos desses o extrato despertará a curiosidade. E eu acho muito bem.

domingo, 2 de outubro de 2011

Lido: A Princesinha das Rosas

A Princesinha das Rosas (bib.) é um conto curto de Fialho de Almeida que gira em torno de pescadores e ondinas. No entanto, aquilo que mais interesse despertou ao autor não parece ter sido tanto a história como o tratamento do texto propriamente dito. É que aquela pouco ultrapassa o relato lendário, com tudo o que é comum encontrar-se no conto popular. Este, contudo, é elaborado, burilado, poder-se-á mesmo dizer florido. Prosa poética em estado puro e, enquanto tal, de grande qualidade. Quem goste de prosa poética tem aqui, portanto, fartura de interesse com que se regalar; quem prefira uma história interessante, bem construída e com algo de inovador, contudo, não veio bater a boa porta, embora no caso de ainda não conhecer este aspeto do bestiário fantástico da nossa terra é provável que também aqui ache motivos de interesse mais que suficientes para terminar a leitura satisfeito. Pessoalmente, e pese embora apreciar a qualidade do texto, não gostei muito do conto. Foi um daqueles contos que comecei a esquecer ainda durante a leitura. Daqui a dias já não deve restar nada.

sábado, 1 de outubro de 2011

Um choque e um ano de diferença

Há um ano tive um choque. Não sei bem quando foi, embora talvez ficasse a saber se me desse ao trabalho de ir investigar. Mas não vale a pena. Sei que foi em outubro, provavelmente na segunda quinzena, e isso basta. Faz de conta que foi a um e que faz hoje um ano.

Há um ano, portanto, tive um choque. A roupa, que tinha passado vários anos a encolher cada vez mais, estava a escassear, e decidi que tinha de ir comprar mais, portanto arranjei um dia livre e pus-me a percorrer lojas. Cheguei ao fim do dia estarrecido: em nenhuma tinha encontrado alguma coisa que me servisse. Em. Nenhuma.

Eu não me achava assim tão gordo. Os meus 114 quilos não se notavam lá muito, pensava eu, e até mo diziam de vez em quando. Sim, gordo estava, claro, até porque me sentia pesadão, me faltava o fôlego depois de andar umas centenas de metros, desatava a suar com qualquer palha mexida, enfim, tinha todos os sinais de aviso da obesidade. Mas não me achava assim tão gordo que não fosse capaz de arranjar roupa que me servisse, caramba!

Há um ano desfez-se a ilusão. E há um ano decidi emagrecer. Para isso, limitei-me a fazer duas coisas. Um pouco mais de exercício físico foi uma. Nada de especial: uns passeios de vez em quando, um deixar o carro em casa quando não é indispensável, essas coisas. Não me entreguei aos caça-níqueis que são os ginásios, e não saltei de anos de completo sedentarismo para uma vida armada em desportista. Aumentei só um pouco a atividade. Mas fiz também uma segunda coisa: deixei de enfardar. Em vez de comer até me sentir farto, passei a comer até ter o suficiente, ou um pouco menos. Até ficar sem fome. Não deixei de comer nada; continuei a comer tudo o que comia, mas menos (na verdade houve até uma coisa que passei a comer mais: pistácios. Raio de vício, esse). Só isso, nada mais.

Resultado?

Um ano mais tarde, tenho 97 quilos. Ainda tenho peso a mais, mas já não estou obeso. O pneu ainda cá está, mas algo desinsuflado. A barriga reduziu-se a um vestígio. 17 quilos a menos fazem diferença nessas coisas. E ganhei agilidade, resistência, qualidade de vida. Roupa que não me servia há anos voltou a servir. Numa palavra, rejuvenesci.

É bom, rejuvenescer. E é a segunda vez que me acontece. A primeira foi quando deixei de fumar. Perder peso é parecido. Aconselho.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Quando parece que o mundo não vos quer bem

Quando vos parece que o mundo não vos quer bem. Quando os problemas parecem empilhar-se. Quando contrariedades se sucedem a desgostos e estes a desapontamentos. Quando só querem chorar, ou gritar, ou mandar tudo à merda, ou bater em alguém. Quando querem partir pratos. Quando um dia de sol é como uma afronta. Quando sentem uma gargalhada alheia quase como insulto. Nesses dias, sabem quais são?, venham até à Lâmpada, ou ao Yutube ou seja qual for o sítio onde podem encontrar este vídeo, e vejam-no do princípio ao fim.


Se a vida deste rapaz, as dificuldades que teve de ultrapassar para estar ali a fazer o que fez, se o seu sorriso, se sobretudo o seu sorriso, não reduzirem os vossos problemas à sua verdadeira dimensão, nada o fará.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Lido: El Boleto

El Boleto, do espanhol Juan Vicente Mañanas Abad, é um conto que consiste, em partes iguais, da transcrição de um interrogatório policial de um dos dois protagonistas, que se segue à morte da mulher deste, e do relato, feito em primeira pessoa pelo outro protagonista, do que aconteceu no dia em que a mulher morreu. Tudo porque a mulher de um era colega de trabalho do outro, e com ele participava numa sociedade para comprar bilhetes de lotaria. E porque dessa vez o bilhete que a sociedade comprou foi premiado. É um conto que, pese embora a forma interessante como está construído, que conta a história de forma não sequencial, saltando entre o relato em primeira pessoa e a impessoalidade do interrogatório, não me agradou por aí além. Não por só marginalmente ser ficção científica (a única parte realmente FC é alguém apanhar uma nave para Marte), mas por a história em si ser tão banal. Isto poderia ter pouca importância caso tivesse havido espaço para desenvolver bem cenário e personagens, mas foi o caso. Apesar do interesse da estrutura que só por si (e por estar bem conseguida, claro) faz com que não seja um mau conto, não o achei nada de especial. Razoável apenas. Podem lê-lo clicando aqui.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Lido: The Dark Man

The Dark Man é um poema de Joe Haldeman sobre um tal "dark man", para o qual as nossas vidas de homens banais não passam de meros instantes. Deixou-me indiferente, tanto o tema como a sua concretização. E é só o que tenho a dizer sobre este texto.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Lido: Uma História Banal

Uma História Banal (bib.), de Bertrand Solet, é um conto curto de ficção científica juvenil cujo principal ponto de interesse é, a meu ver, o facto de conter uma história dentro de outra, numa espécie de camadas de cebola. Numa das camadas, um rapaz futurista, para grande desagrado do pai, gasta o seu tempo a "ler" histórias de ficção cienífica. Na verdade, trata-se mais de ouvir pois, de uma forma algo semelhante aos atuais audiobooks, os livros no futuro razoavelmente longínquo em que vive "falam". A outra camada da cebola é constituída por uma dessas histórias de FC que o rapaz vai absorvendo, uma história mirabolante passada entre a Terra e um tal planeta Ferox (e mais um par de planetas com nomes igualmente... hm... evocativos, chamemos-lhes assim), onde vivem uns extraterrestres maus como as cobras.

É um continho que se aceita enquanto FC juvenil, em especial tendo-se em conta que foi escrito há quase quarenta anos, e que tem esse detalhe estrutural que lhe confere algum interesse, mas que, se for olhado com olhos adultos, pode parecer francamente mau. Abstraindo-me por um momento da minha condição de adulto, tentando lembrar-me do miúdo que fui aos 8-10 anos, julgo que acharia o conto razoável. Bom? Duvido. Apenas razoável.

Lido: Sede de Sangue

Sede de Sangue (bib.) é um conto bastante interessante do meu conterrâneo Manuel Teixeira Gomes que, a princípio, não se entende muito bem o que faz numa antologia de literatura fantástica. É que parece um conto puramente realista, quase diria mesmo neorrealista se não fosse bastante anterior a esse movimento, porque em vez de se passear airosamente pelo etéreo (e muito aborrecido) mundo dos condes e das baronesas, desce à terra, ao povo e aos vícios. O narrador é um observador entediado e vagamente jornalista, e o que ele observa é a lenta decadência do protagonista, um tal Trovas, que de comerciante de sucesso que começa por ser acaba reduzido a taberneiro e proxeneta. É nesta fase, próximo do fim, que o conto se torna claramente fantástico, pois a vida dissoluta das tabernas e bordéis, como se sabe, atrai todo o tipo de pessoas... ou até de coisas que não o são. Um conto muito interessante, embora o texto propriamente dito, crivado de regionalismos e de palavras hoje em dia muito desusadas, possa criar problemas a alguns leitores.

sábado, 24 de setembro de 2011

Lido: Memorias

Memorias é um belo, bem escrito e pungente conto de ficção científica do argentino Eduardo J. Carletti, que descreve os últimos meses da vida de um certo Diego Aguilar, um milionário excêntrico de um futuro razoavelmente próximo, cujo passatempo de colecionar imagens, surgido após uma devastadora tragédia pessoal, acabou por converter-se na fonte da sua riqueza. Na primeira página do conto Diego é diagnosticado com uma forma incurável de cancro, e o resto da história conta-nos o que ele faz com o tempo de vida que lhe resta, como põe toda a fortuna à disposição dos cientistas que tentam conceber a tempo uma forma desesperada de cura, ou talvez de simples fuga à morte, e vai-nos indicando de uma forma muitíssimo bem conseguida os comos e os porquês das opções tomadas pelo protagonista. De tal modo que o final é surpreendente sem o ser. Na verdade, é quase inevitável de tão lógico. Um conto muito bom. Podem lê-lo aqui.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Lido: Elephant

Elephant, de Simon Ings, é um estranho conto de ficção científica cujo protagonista participa de um projeto de investigação sobre a sinestesia, esse bizarro curtocircuito que acomete os cérebros de algumas pessoas e as leva a associar a determinados estímulos sensoriais características que seriam próprias de outros. Uma cor que vem associada a um certo acorde, por exemplo. Ou uma palavra que traz sempre consigo um cheiro. Coisas assim.

Ambientado no Brasil (e com demasiados erros de português nos nomes das coisas, infelizmente), o conto aborda a sinestesia como uma forma de revelar a verdadeira natureza do mundo. Mas o projeto em que o protagonista participa falha, e ele próprio perde o contacto com o comezinho da vida acabando afundado num falhanço que também é pessoal, o que contribui para que o tom geral do conto seja de melancolia. Isso e o estilo da prosa, mais impressionista do que explanatória, que sugere muito e pouco afirma, faz com que não seja um conto fácil de ler.

Pessoalmente, acabei-o sem saber bem o que pensar. Em geral, isso tem um de dois resultados possíveis: ou é história que me vai acompanhar durante bastante tempo, que me vai deixar a matutar nela de quando em quando, ou então é história que dias depois de lida está esquecida. Não posso afirmá-lo, ainda, mas suspeito que esta será das rapidamente esquecidas. Não me parece que me tenha intrigado o suficiente para não o ser.

domingo, 18 de setembro de 2011

Lido: A Mais Brilhante das Visões

A Mais Brilhante das Visões (bib.) é uma longa noveleta de ficção científica de Clifford D. Simak que nos fala de um mundo futuro em que a Terra se especializou na produção de literatura para consumo de uma miríade de espécies alienígenas, ávidas por essa peculiar capacidade humana que é mentir, contando histórias. Mas não estamos a falar de literatura como a conhecemos hoje. Não há propriamente escritores; há técnicos operadores de máquinas de produção de literatura. O protagonista é um desses técnicos, e luta por sobreviver sem conseguir vender histórias porque a sua máquina está obsoleta e não tem dinheiro para comprar um modelo aperfeiçoado.

Ou pelo menos, é esta a aparência das coisas.

É uma história que reflete sobre os limites da criatividade humana, ou, vendo-a por outro prisma, sobre os limites da automatização das atividades humanas. A meio século de distância da época em que foi escrita, mostra alguns elementos de ingenuidade, mas apesar disso ainda se mantém bastante atual. Até por que existem, hoje em dia, alguns campos de criação que são fortemente influenciados pela sofisticação das máquinas que neles são usadas. A fotografia é um bom exemplo. Além disso, trata-se de um daqueles contos "de escritor", um daqueles contos em que os escritores se viram um pouco para dentro, debruçando-se sobre a condição de o ser e sobre tudo o que isso implica, e isso torna-o mais ou menos intemporal. Um escritor ver-se-á nele refletido. Um leitor que sinta curiosidade sobre o mundo dos que escrevem também encontrará nele esse motivo acrescido de interesse.

Creio ser já claro que gostei bastante. E o meu pai, então, tê-lo-ia adorado: o conto reflete quase na perfeição algumas ideias que ele tinha sobre a relação entre a máquina e o homem. Só é pena a tradução.

sábado, 17 de setembro de 2011

Lido: O Canhão Monstruoso

O Canhão Monstruoso (bib.) é um texto de Júlio Verne, extraído de uma obra de 1879 que não li e nem sei se está traduzida por cá: Les Cinq Cents Millions de la Bégum. A história, pelo menos a do excerto, debruça-se sobre a ética da guerra, descrevendo-nos o confluto de opiniões entre o protagonista, um francês chamado Marcel, e um cientista alemão, mais que um pouco louco, Herr Schultze de seu nome, a propósito da demonstração de um canhão especial, cujas munições teriam a capacidade de eliminar toda a população de uma cidade, deixando esta relativamente intacta. Embora a forma tecnológica de que a ideia se reveste seja completamente diferente, trata-se da mesmíssima abordagem que levou ao desenvolvimento da bomba de neutrões quase um século mais tarde, e é bem possível que esse desenvolvimento tenha originado conversas semelhantes à que está aqui descrita. Para mim, foi esse o principal ponto de interesse deste excerto que, embora não me pareça que funcione lá muito bem como conto, me deixou curioso a respeito do romance completo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Lido: O Defunto

O Defunto (bib.) é uma noveleta de Eça de Queirós que se desenvolve em torno de um triângulo amoroso muito caracteristicamente romântico. Algures em Espanha, e em tempos há muito idos, uma senhora, jovem e bela, casada com um homem intratável e doentiamente ciumento, é sem que o saiba alvo da paixão de um jovem arrebatado que por ela se enamora sem nunca sequer ter trocado duas palavras com o alvo da sua paixão. E este, para mim, é o principal ponto fraco da história. Mas é amplamente compensado pela forma magnífica como está escrito e por quase todo o resto do enredo. O marido ciumento repara na paixão platónica do jovem e decide atraí-lo a uma cilada, numa propriedade que tem fora da cidade, e aí matá-lo. Mas a caminho da cilada, o apaixonado depara com um enforcado que com ele fala e o convence a aceitar a sua ajuda e a partir desse momento o conto encaminha-se para o desfecho.

É quase tudo muito bom, e achei especialmente curioso o surgimento do enforcado. Não se trata de um fantasma: existe um corpo físico, um cadáver que é animado para cumprir um desígnio. Ou seja, Eça utiliza uma criatura sobrenatural que mostra uma faceta diferente, mais divina do que infernal (e com muito mais inteligência própria), daquilo que hoje em dia se conhece como zombie. Apesar do fundo católico não ser propriamente do meu agrado, acho este zombie muito mais interessante do que as criaturas descerebradas que o cinema transformou em clichés. Gostei bastante.

Lido: Reality Show

Reality Show é um conto do espanhol José Carlos Canalda que, como o título deixa claro, se debruça sobre o maravilhoso (?) mundo dos reality shows. E fá-lo com ironia e em jeito de ficção científica. Um gozo, uma sátira, ainda que esta me pareça não poucas vezes algo exagerada.

Segundo reza o conto, um tal Juan García, que tem como profissão a seleção dos participantes nos mais importantes reality shows do seu país, depara a páginas tantas com um homenzinho que procura convencê-lo de que é extraterrestre ou, mais propriamente, marciano. Mas não um marciano do nosso Marte, que como toda a gente sabe é um planeta desprovido de marcianos. Um marciano proveniente de um universo alternativo. E consegue. Mas não propriamente da forma que o García esperava.

É um continho despretensioso que se lê bem, apesar do tal exagero no gozo que aparece aqui e ali, e o final, surpreendente, é eficaz. Não sendo obra-prima nenhuma, também não me parece que seja mau, se bem que o humor que contém, como sempre acontece, não funcione com todos os leitores. Comigo funcionou. Se querem saber se funciona convosco, basta que o leiam.

Lido: Breeding Ground

Breeding Ground é uma noveleta de Stephen Baxter, parte de uma série de histórias curtas e longas ambientadas no universo ficcional dos Xeelee. Trata-se de ficção científica dura e militar, uma space opera das que são mesmo FC, ambientada num futuro distante repleto de tecnologia exótica e criaturas mais exóticas ainda. Já tinha lido outras histórias ambientadas neste universo e pelo menos de uma (On the Orion Line) gostei bastante.

Desta não, porém.

A história acompanha um grupo de soldados e não soldados que procura sobreviver depois de a nave em que seguiam ter sido destruída. Para isso refugia-se no interior de uma gigantesca nave orgânica, uma "Spline". E o que se segue é um relato com muito pouco interesse do deambular do grupo ao longo do interior da Spline. Para quem leu outras histórias do mesmo universo a imaginativa tecnologia poucas novidades traz, as personagens são tão achatadas como é comum acontecer na pior FC, e o próprio enredo pareceu-me francamente mal amarrado. Uma bela desilusão, portanto. Suponho, em todo o caso, que é possível que esta história tenha interesse quando integrada na sequência geral das histórias Xeelee. Não as conheço suficientemente bem para poder afirmá-lo, mas é possível. Isoladamente é que não me convenceu.

sábado, 3 de setembro de 2011

Lido: Le. Pra:

Le. Pra: (bib.) é uma longa noveleta de uma ficção científica algo fantasiosa, de Clifford D. Simak, que tem como protagonista um homem socialmente isolado à exceção de um sobrinho, de alguns vizinhos que evita, e de outros conhecimentos que basicamente o incomodam, um homem que vive para um seu passatempo que acabara por transformar também em negócio: uma coleção de selos que lhe atravanca o apartamento ao ponto de mal se conseguir mexer lá dentro. Mas não se trata duma coleção de selos vulgar, sublinhe-se. São selos provenientes de planetas distantes, concebidos por raças alienígenas e tão estranhos como seria de esperar. Selos que, sem que seja explicado como, ultrapassam as distâncias interestelares para lhe chegar à caixa do correio em cartas e encomendas que por vezes incluem objetos mais estranhos ainda do que eles.

Às tantas, uma dessas encomendas vai operar uma mudança fundamental na vida do nosso protagonista, pois traz consigo a propriedade mágica (e toda a tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia, não é verdade?) de organizar o que à sua volta está desorganizado. Seja roupa suja, seja um quarto desarrumado, seja um apartamento mergulhado no mais profundo dos caos... seja até outras coisas menos palpáveis.

Achei a ideia curiosa, mas julgo que o texto é um pouco longo demais e o desfecho irónico (ou mesmo satírico) cai algo de paraquedas no contexto da história. Os melhores finais surpresa são aqueles que são preparados desde o início e mesmo assim apanham os leitores em contrapé, e não é o que acontece aqui. Não gostei muito desta história, portanto, mas também não cheguei a desgostar.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Lido: Prisioneiro do Épouvante

Prisioneiro do Épouvante (bib.) é um extrato de um romance de Júlio Verne, Robur, o Conquistador. Este, proto-FC, é uma espécie de versão aérea das Vinte Mil Léguas Submarinas, na qual o protagonista se vê aprisionado a bordo de uma extraordinária máquina que pode funcionar como navio, submarino e avião e que é comandada por Robur, um quezilento, arrogante e totalitário génio muito semelhante ao Capitão Nemo. O extrato corresponde à parte do romance em que o protagonista, não muito depois de se ver aprisionado, começa a dar-se conta das capacidades do aparelho, com crescente espanto e no meio de peripécias aventureiras e planos de fuga apenas esboçados. Não é particularmente interessante, até porque não funciona lá muito bem como conto. O romance é bastante melhor.

Lido: Os Canibais

Os Canibais (bib.) é uma longa noveleta de Álvaro do Carvalhal que tem elementos de horror e um leve travo a proto-FC mas que no essencial é um melodrama bastante clássico, ainda que temperado de sátira. A base da história é um aristocrático triângulo amoroso entre uma dama que se perde de amores por um tal visconde de Aveleda e um seu pretendente, um tal D. João. Este é consumido por ciúmes e por planos de vingança violenta, mas o mistério reside naquele. É que ao que tudo indica o homem é feito de pedra, embora acabe de uma forma bastante... hm... orgânica, digamos assim.

Quanto à sátira, ela revela-se sobretudo nos apartes irónicos que o autor vai deixando ao longo de toda a narrativa, através dos quais desconstrói a própria história que conta e o modo como a conta o que, para um conto de meados do século XIX, é digno de nota. Foi este pormenor que mais me interessou nesta noveleta. O reverso da medalha, contudo, é que o autor, ao mesmo tempo que desmascara o ridículo da trama e até mesmo do estilo literário que emprega, utiliza esse estilo e desenvolve essa trama. Ou seja, não é por ser apontado a dedo pelo próprio autor que o ridículo desaparece. O estilo é empolado, hiperadjetivado, bastante aborrecido, e a trama é de um romantismo tão açucarado que ameaça causar diabetes... pelo menos até se chegar ao desfecho, a segunda mais interessante parte da história, ainda que prejudicada por sofrer de galopante inverosimilhança.

Suponho que esta história terá sido na época uma pedrada no charco, tendo decerto contribuído para tornar Carvalhal um autor maldito. E isso, na verdade, é o suficiente para a tornar relevante no contexto do fantástico português, em particular do oitocentista. Não posso dizer que me tenha agradado muito — se não houvesse mais motivos, histórias mui aristocráticas costumam encher-me de tédio — mas esta é das tais leituras que são obrigatórias para ter ideias sólidas sobre o que foi e é o fantástico português e quais as influências que mais impactaram sobre autores contemporâneos como António de Macedo. Não terá sido leitura muito prazerosa, portanto, mas foi bastante instrutiva.