Piropo é uma crónica do Miguel Esteves Cardoso que, tão certo como o Sol nascer todos os dias a oriente, muito irritaria uma série de mulheres que eu conheço. Por ser sobre o piropo, mui marialvamente, claro, defendendo essa instituição nacional que é romântica e toda a gente gosta (acha ele... ou pelo menos achava), contra uma espécie de desembaraço mordenaço que tem vindo a destruir o bom, velho, conservador, romance. Que mauzão que ele é, o desembaraço. Que saudades dos tempos em que se namorava, meu deus!, hoje que um simples e banal "bute?" resolve tudo. Hoje que é como quem diz ontem, que isto data dos já antiguinhos anos 80 do século passado.
É uma crónica com alguma piada, é certo, mas pouca. Dá para alguns sorrisos, mas pouco mais. E garanto a pés juntos que quem não acha gracinha nenhuma a piropos irá sentir-se sobretudo irritado com toda a bonacheirice com que o MEC se enche de nostalgias pelas boas práticas românticas dos tempos antigos, ignorando olimpicamente tudo o que essas "boas práticas" tinham (e continuam a ter — não desapareceram por mais que Miguel Esteves Cardoso ache que sim) de opressivo.
Não gostei muito. O MEC tem muito melhor. Muito melhor.
Textos anteriores deste livro:
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Lido: Os Fantasmas
Os Fantasmas (bibliografia) é um interessantíssimo conto curto do Lorde Dunsany sobre, obviamente, fantasmas. O que eleva este conto da banalidade costumeira dos contos de fantasmas é a abordagem que Dunsany faz ao género. Sim, cá estão os clichés do casarão rural isolado, velha propriedade de família abastada, e sim, cá está também o relato em primeira pessoa típico do velho conto de contar à lareira, mas nem os fantasmas que nele aparecem são propriamente vulgares, nem a forma (ironicíssima) como o protagonista se livra deles é esperada.
E já que se fala de protagonista, diga-se que se trata de um homem, racionalista, que tem uma discussão com o irmão no casarão deste. Diz o irmão que existem fantasmas e que a sua casa está assombrada, e ele que não senhor, que não há fantasmas nenhuns e portanto a casa não pode estar assombrada. E assim ficam, ambos teimosos, concordando em discordar, indo cada um passar a noite para seu lado. E eis que, obviamente, lá surgem mesmo os fantasmas ao irmão cético.
Mas os fantasmas não são os espíritos de gente morta que estamos habituados a encontrar neste tipo de história; são pecados antropomorfizados. E são pecados cujo fito é levarem as vítimas das suas assombrações a cometer, também elas, os pecados mais horrendos. O protagonista a princípio deixa-se levar, deixa-se convencer, mas a razão vem em seu socorro. Como? Não vo-lo digo.
Digo apenas que este conto vale muito a pena ser lido. Mesmo. É um excelente conto.
Conto anterior deste livro:
E já que se fala de protagonista, diga-se que se trata de um homem, racionalista, que tem uma discussão com o irmão no casarão deste. Diz o irmão que existem fantasmas e que a sua casa está assombrada, e ele que não senhor, que não há fantasmas nenhuns e portanto a casa não pode estar assombrada. E assim ficam, ambos teimosos, concordando em discordar, indo cada um passar a noite para seu lado. E eis que, obviamente, lá surgem mesmo os fantasmas ao irmão cético.
Mas os fantasmas não são os espíritos de gente morta que estamos habituados a encontrar neste tipo de história; são pecados antropomorfizados. E são pecados cujo fito é levarem as vítimas das suas assombrações a cometer, também elas, os pecados mais horrendos. O protagonista a princípio deixa-se levar, deixa-se convencer, mas a razão vem em seu socorro. Como? Não vo-lo digo.
Digo apenas que este conto vale muito a pena ser lido. Mesmo. É um excelente conto.
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Lido: A Estranha Colheita
A Estranha Colheita é uma noveleta de Donald Wandrei onde se mistura horror e ficção científica numa atmosfera semelhante à de muitos dos episódios da série Twilight Zone. O ambiente é rural, uma área circunscrita algures no interior dos Estados Unidos. O leitor vai sendo apresentado a pouco e pouco a uma série de insólitos comportamentos das plantas cultivadas por vários agricultores da zona, que ora se derenraízam para se voltarem a plantar noutro sítio, ora se esquivam a maquinaria de ceifa, ora se enterram mais quando o agricultor tenta desenterrá-las, ora reagem das formas mais díspares aos gestos comuns da vida agrícola, tendo embora todos esses comportamentos em comum uma espécie de inteligência subitamente surgida, quando não mesmo uma clara hostilidade contra as pessoas. É uma boa história, bastante bem construída, num crescendo que, sem estar desprovido de humor (bem pelo contrário), consegue no entanto criar e sustentar curiosidade e uma certa tensão ao longo de toda a narrativa. É no final, de certa forma apoteótico, que mais vincado está quer o horror, quer a FC que a noveleta contém. Mas em geral estamos perante uma história que, de uma forma ao mesmo tempo ligeira e preocupante, não deixa de sublinhar a fragilidade humana perante uma natureza que talvez não esteja tão controlada como pode parecer à primeira vista... e que pode escapar-se-nos entre os dedos, seja por decisão própria, seja através de intervenções humanas talvez menos refletidas do que gostaríamos de supor.
E além disso, para portugueses, um dos pontos mais interessantes desta história é o quanto faz lembrar a noveleta Por Amor à Prole, do João Barreiros. Não que as linhas narrativas das duas histórias sejam iguais, ou sequer se assemelhem muito, mas o ambiente de natureza fugida ao controlo tem grandes pontos de contacto.
Gostei bastante.
Contos anteriores deste livro:
E além disso, para portugueses, um dos pontos mais interessantes desta história é o quanto faz lembrar a noveleta Por Amor à Prole, do João Barreiros. Não que as linhas narrativas das duas histórias sejam iguais, ou sequer se assemelhem muito, mas o ambiente de natureza fugida ao controlo tem grandes pontos de contacto.
Gostei bastante.
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Lido: A Infinita Fiadeira
A Infinita Fiadeira é um continho de ficção científica de Mia Couto. Sim, leram bem.
Não que seja um conto da ficção científica propriamente dita, daquela que tem nos grandes mestres anglófonos (com uma ou outra pegadazinha de outras nacionalidades) os seus grandes expoentes. É daqueles contos que, não sendo exatamente ficção científica, até acabam por sê-la, pelo menos um pouco. Daqueles contos mestiços, entre a FC, a fantasia, a fábula, a alegoria e a simples poesia, um pouco à semelhança do que Saramago fez n'O Ano de 1993 (podem ler-se aqui algumas notas sobre esse livro). Até porque a infinita fiadeira é uma aranha que fia sem parar, porque sim. Como quem escreve ou como quem pinta. E, como sempre acontece a quem se atira a tais trabalhos improdutivos, a família da aranha preocupa-se tanto que vai procurar ajuda. E que tem isto a ver com FC?, perguntarão. Só lendo o conto, respondo eu.
Gostei muito deste conto. Gosto de coisas esquisitas.
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Não que seja um conto da ficção científica propriamente dita, daquela que tem nos grandes mestres anglófonos (com uma ou outra pegadazinha de outras nacionalidades) os seus grandes expoentes. É daqueles contos que, não sendo exatamente ficção científica, até acabam por sê-la, pelo menos um pouco. Daqueles contos mestiços, entre a FC, a fantasia, a fábula, a alegoria e a simples poesia, um pouco à semelhança do que Saramago fez n'O Ano de 1993 (podem ler-se aqui algumas notas sobre esse livro). Até porque a infinita fiadeira é uma aranha que fia sem parar, porque sim. Como quem escreve ou como quem pinta. E, como sempre acontece a quem se atira a tais trabalhos improdutivos, a família da aranha preocupa-se tanto que vai procurar ajuda. E que tem isto a ver com FC?, perguntarão. Só lendo o conto, respondo eu.
Gostei muito deste conto. Gosto de coisas esquisitas.
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sábado, 22 de fevereiro de 2014
Lido: Os Olhos dos Mortos
Os Olhos dos Mortos é mais um continho de Mia Couto que pinga poesia a cada palavra, apesar da história que conta nada ter de poético. É a história de uma mulher abusada, aterrorizada pelas violências do marido, que um belo dia tem um gesto de revolta. Nada de especial, se não se contar o simbolismo: limita-se a atirar um retrato do casal ao chão, estilhaçando o vidro. Ou talvez não, ao certo não se sabe. Tudo o que nos é dito é que o marido depara com o retrato no chão, e a violência é consequente. E o resto se segue inapelável, até à rebelião — essa sim — derradeira.
É um bom conto. Talvez seja mesmo um conto muito bom. Não tanto pela poesia, talvez, ou pela qualidade do português, mas pela maestria e subtileza com que está construído.
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É um bom conto. Talvez seja mesmo um conto muito bom. Não tanto pela poesia, talvez, ou pela qualidade do português, mas pela maestria e subtileza com que está construído.
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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
Lido: Citações
Citações é mais um texto de José Alberto Braga de que se pode dizer que consta basicamente de uma lista. Esta, no entanto, é mais elaborada do que é hábito... e tem também algo de fantástico, não só na ideia em si, como parcialmente na concretização.
Trata-se, segundo o próprio autor explica, de "citações" (eis o título) que terá conseguido através da "psicografia de alguns autores famosos", a saber: Ivan Pavlov, Sigmund Freud, T. S. Elliot, Dostoievski e Franz Kafka. Só que as citações são, além de obviamente falsas (daã!), piadéticas, consistindo basicamente de uma série de trocadilhos que Braga arranja além das ideias e da obra destes autores... ou pelo menos daquilo que dessas ideias e obra extravasou para o imaginário popular.
O resultado tem algum interesse, mas teria bastante mais se tivesse havido um esforço para incutir alguma subtileza na ideia. Estas coisas funcionam tanto melhor quanto mais de mansinho o humor for introduzido em textos em aparência seriíssimos. Mas esse esforço não existiu, e portanto as cinco "citações" de Braga têm muito pouca piada. É pena.
Textos anteriores deste livro:
Trata-se, segundo o próprio autor explica, de "citações" (eis o título) que terá conseguido através da "psicografia de alguns autores famosos", a saber: Ivan Pavlov, Sigmund Freud, T. S. Elliot, Dostoievski e Franz Kafka. Só que as citações são, além de obviamente falsas (daã!), piadéticas, consistindo basicamente de uma série de trocadilhos que Braga arranja além das ideias e da obra destes autores... ou pelo menos daquilo que dessas ideias e obra extravasou para o imaginário popular.
O resultado tem algum interesse, mas teria bastante mais se tivesse havido um esforço para incutir alguma subtileza na ideia. Estas coisas funcionam tanto melhor quanto mais de mansinho o humor for introduzido em textos em aparência seriíssimos. Mas esse esforço não existiu, e portanto as cinco "citações" de Braga têm muito pouca piada. É pena.
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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Lido: Inglês-Português
Inglês-Português, ao contrário do texto anterior de José Alberto Braga, não é uma história, e tampouco tem literatura. Longe disso, na verdade. Aqui, estamos no campo da pura piadola, em mais uma das muitas listas que aparecem neste livro. Esta é de palavras ou expressões inglesas, que Braga "traduz" à sua maneira muitíssimo sui generis, parte trocadilho, parte ironia.
Não vi este texto lá com muito bons olhos, e aqui Braga explicaria que certamente será por usar óculos. Sim, o estilo é este. Um bocadinho básico. Um bocadinho, como se diz por aí, meh. Dá para o sorriso, aqui e ali, mas pouco mais do que isso.
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Não vi este texto lá com muito bons olhos, e aqui Braga explicaria que certamente será por usar óculos. Sim, o estilo é este. Um bocadinho básico. Um bocadinho, como se diz por aí, meh. Dá para o sorriso, aqui e ali, mas pouco mais do que isso.
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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Lido: Velhice Transviada
Velhice Transviada é um dos mais interessantes textos deste livro de José Alberto Braga. Escrito em torrente, na primeira pessoa, por um velho rabugento, é um pequeno conto do quotidiano com literatura inclusa, fugindo assim ao padrão habitual de Braga, que geralmente prefere o humor, mais ou menos bem sucedido, à literatura. Aqui, existe ironia, mais fina que o costume, e a forma como está escrito é bastante eficaz a sugerir a taralhoquice e resmunguice da idade. Até os trocadilhos que Braga tanto aprecia são aqui contidos. Existem só alguns, nos sítios adequados, sem se notar o que tantas vezes se nota nos textos que ficaram para trás: que a vertigem do gag se sobrepõe à história ou situação que se quer contar. Sim, acho mesmo que este texto é bom.
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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Lido: Neura
Neura é uma das famosas crónicas do Miguel Esteves Cardoso e é, para quem as conhece, uma crónica típica. Para quem não conhece, digamos que se trata de crónicas irónicas e com doses variáveis de subtileza, seja sobre as pequenezes do quotidiano, seja sobre as pequenezes da portugalidade ou, pelo menos, daquilo que o MEC vê como portugalidade. Neura pertence a este último grupo, e arranca logo com a expressão generalizante de "aos portugueses", seguindo por aí fora a debitar postas de pescada sobre a relação entre "os portugueses" e a neura, o que é o mesmo que dizer sobre aquilo que torna característica e única a neura portuguesa. O que as safa, em especial junto de quem, como eu, está muito saturadinho de ver construir-se à força uma noção de como "os portugueses" são que, não raro, tem muito pouco a ver com a real natureza da esmagadora maioria dos portugueses reais, todos diferentes uns dos outros tal como os membros dos outros povos, o que as safa, dizia, é que são postas de boa pescada. O MEC tem piada e escreve bem. Às vezes, o MEC tem muita piada e escreve muito bem. Aqui, na sua Neura, limita-se a ter piada e a escrever bem. O que já é bom.
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sábado, 15 de fevereiro de 2014
Lido: O Fantasma Inexperiente
O Fantasma Inexperiente (bibliografia) é um conto de H. G. Wells que... mas estou a repetir-me, não estou?
Estou, claro que estou. É que não há muito tempo (três anos e tal não é lá muito tempo) li este mesmo conto, nesta mesma tradução, noutra publicação. E disse aqui o que dele achei. Esta releitura não altera a opinião em praticamente nada. Talvez tenha gostado um pouco mais agora do que da primeira vez. Um pouco mais.
E assim continuamos a reencontrar velhos conhecidos em novas publicações.
Coisa chata.
Estou, claro que estou. É que não há muito tempo (três anos e tal não é lá muito tempo) li este mesmo conto, nesta mesma tradução, noutra publicação. E disse aqui o que dele achei. Esta releitura não altera a opinião em praticamente nada. Talvez tenha gostado um pouco mais agora do que da primeira vez. Um pouco mais.
E assim continuamos a reencontrar velhos conhecidos em novas publicações.
Coisa chata.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Lido: O Fosso
O Fosso (bibliografia) é um conto de ficção científica de B. K. Filer que é francamente mau, ainda piorado por uma tradução tão tosca que chega ao ridículo de achar que tem de explicar quem foi Charles Darwin em nota de rodapé.
A história gira em volta de fósseis como, aliás, é logo dito na brevíssima apresentação do conto que se segue ao título, tão breve que consiste de uma única frase: "porquê aquela destruição sistemática dos fósseis?" É a descoberta deste porquê que serve de motor à história. Isso e os fósseis propriamente ditos, uns tais "blobs", que não se parecem com nada que se tivesse descoberto até então nos registos paleológicos e estão circunscritos a uma determinada camada geológica. As ideias, em si, não são inteiramente más — se bem que tampouco me pareçam boas; nos anos 60 já se sabia o suficiente para se fazer muito melhor —, mas estão aplicadas às três pancadas, em infodumps quase contínuos, acompanhados por um arremedo de enredo bastante infantil.
Quase tudo muito mauzinho. E no entanto, este conto foi publicado na If, uma das revistas reputadas da FC americana que chegou mesmo a ganhar prémios. É das tais coisas.
A história gira em volta de fósseis como, aliás, é logo dito na brevíssima apresentação do conto que se segue ao título, tão breve que consiste de uma única frase: "porquê aquela destruição sistemática dos fósseis?" É a descoberta deste porquê que serve de motor à história. Isso e os fósseis propriamente ditos, uns tais "blobs", que não se parecem com nada que se tivesse descoberto até então nos registos paleológicos e estão circunscritos a uma determinada camada geológica. As ideias, em si, não são inteiramente más — se bem que tampouco me pareçam boas; nos anos 60 já se sabia o suficiente para se fazer muito melhor —, mas estão aplicadas às três pancadas, em infodumps quase contínuos, acompanhados por um arremedo de enredo bastante infantil.
Quase tudo muito mauzinho. E no entanto, este conto foi publicado na If, uma das revistas reputadas da FC americana que chegou mesmo a ganhar prémios. É das tais coisas.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Lido: A Flor Sanguínea
A Flor Sanguínea é um conto de horror de Seabury Quinn com aquele ar clássico dos primeiros whodonits em que entram criaturas sobrenaturais. Com motivo: afinal, trata-se de obra quase com 100 anos, protagonizada por um francês, Jules de Grandin, reputado investigador das coisas paranormais, cheio de pontos em comum com aquelas personagens maiores que a vida que tão abundantes foram em várias ficções de género do início do século XX (e do fim do XIX, também), do Sherlock Holmes ao Hercule Poirot, do professor Challenger ao Dupin de Poe, e por aí fora. Tal como os outros, também de Grandin é senhor de um intelecto cujo funcionamento não está ao alcance dos demais, além de uma série de expressões características (pardieu!) que o individualizam. E tal como muitos dos outros, também ele tem um amigo, que narra a história e o vai acompanhando. Elementar, meus caros.
O problema, bem entendido, é que tudo isto, que à época era moda razoavelmente fresca, se transformou entretanto num surradíssimo cliché. E por isso, ao ler hoje esta história de lobisomens em que uma senhora bem de vida cai súbita e misteriosamente doente, a surpresa de que este tipo de história movida a enredo carece praticamente não existe. Tudo se torna previsível e até algo aborrecido, enquanto o excêntrico de Grandin vai sendo o único a ir compreendendo, e apenas aos poucos, algo que o leitor razoavelmente experiente já percebeu quase desde o início do conto. Mais uma vez, a pobreza literária dos velhos pulps movidos exclusivamente a enredo tem como consequência que o envelhecimento das histórias conduz à sua irrelevância. Ler isto, hoje, tem pouquíssimo interesse.
Contos anteriores deste livro:
O problema, bem entendido, é que tudo isto, que à época era moda razoavelmente fresca, se transformou entretanto num surradíssimo cliché. E por isso, ao ler hoje esta história de lobisomens em que uma senhora bem de vida cai súbita e misteriosamente doente, a surpresa de que este tipo de história movida a enredo carece praticamente não existe. Tudo se torna previsível e até algo aborrecido, enquanto o excêntrico de Grandin vai sendo o único a ir compreendendo, e apenas aos poucos, algo que o leitor razoavelmente experiente já percebeu quase desde o início do conto. Mais uma vez, a pobreza literária dos velhos pulps movidos exclusivamente a enredo tem como consequência que o envelhecimento das histórias conduz à sua irrelevância. Ler isto, hoje, tem pouquíssimo interesse.
Contos anteriores deste livro:
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Como vai aquilo no Ficção científica literária?
Por nenhum motivo em particular, além da simples curiosidade, resolvi dar uma vista de olhos aos autores mais referenciados no Ficção Científica Literária, coisa que já tinha feito por duas vezes (aqui e aqui). Reparo agora que está quase a fazer um ano desde que o fiz pela última vez, o que não deixa de ser giro.
Até este momento, o agregador reuniu 4325 artigos e vai-se aproximando das 30 mil visitas ao ritmo de várias dezenas por dia. Para um tema pouco popular como a ficção científica, especialmente se literária, são números razoáveis, mostrando que existe uma comunidade estabelecida a produzir e consumir conteúdos de opinião, ficção e informação na internet, em especial tendo em conta que o FC Literária não "apanha" nada que seja divulgado apenas através de redes sociais fechadas (como o Facebook, o Goodreads e o Skoob), onde também vai acontecendo bastante movimentação.
Mas o que me interessa mesmo aqui são os autores. E, para comparar com os dois posts anteriores, as regras são as mesmas: autores referenciados 10 vezes ou mais, ordenados do referenciado mais vezes até ao referenciado menos vezes. Entre parêntesis estão as posições anteriores; a primeira é a da primeira lista, a segunda da segunda.
Também salta à vista a preponderância que as distopias juvenis continuam a ter. Não só Suzanne Collins conseguiu a proeza de arrebatar a Bradbury o primeiro lugar, fruto em grande medida da adaptação da sua trilogia para o cinema, como vários são os outros autores do subgénero (Roth, Westerfeld, Mafi, Dashner) que já acumularam um conjunto de referências assinalável. A ajuda das adaptações também se faz sentir nas grandes subidas de King e, sobretudo, Card.
Entre os lusófonos, descem todos os que já se encontravam na lista, embora haja também algumas chegadas novas com valores interessantes, em especial entre os brasileiros. Em parte é natural: autores lusófonos não têm as ajudas do cinema e da TV para lhes insuflar a popularidade. Em parte, contudo, não é — além da falta de sustentação da publicação da maioria, que ou não publica nada durante longos períodos ou se limita a diluir-se em publicações coletivas que raramente geram referências individualizadas, parece também existir uma falta de sustentação no interesse que despertam, pelo menos entre a pequena parcela dos leitores que emite opinião ou noticia lançamentos. Eis algo, decididamente, a mudar.
Ah, e finalmente aparece gente da FC madura contemporânea na lista. Não era sem tempo (bem, para ser justo, Gibson e Card já se encontravam na lista anterior, embora ambos devido a livros editados há já bastante tempo).
Em geral, estas olhadelas periódicas ao que é agregado no FC Literária, que talvez devessem mesmo ser mais frequentes, parecem-me muito interessantes. Não que o que revelam seja muito surpreendente — basta estar atento aos blogues para se ter uma noção razoavelmente correta das oscilações de popularidade do autor A ou B — e é bom ter em mente que isto não é uma amostragem aleatória e está sujeito a diversos condicionalismos que não permitem que estes apanhados tenham grande relevância estatística. Mas apesar de tudo isso julgo que olhar para estes números pode ajudar a compreender muita coisa.
Até este momento, o agregador reuniu 4325 artigos e vai-se aproximando das 30 mil visitas ao ritmo de várias dezenas por dia. Para um tema pouco popular como a ficção científica, especialmente se literária, são números razoáveis, mostrando que existe uma comunidade estabelecida a produzir e consumir conteúdos de opinião, ficção e informação na internet, em especial tendo em conta que o FC Literária não "apanha" nada que seja divulgado apenas através de redes sociais fechadas (como o Facebook, o Goodreads e o Skoob), onde também vai acontecendo bastante movimentação.
Mas o que me interessa mesmo aqui são os autores. E, para comparar com os dois posts anteriores, as regras são as mesmas: autores referenciados 10 vezes ou mais, ordenados do referenciado mais vezes até ao referenciado menos vezes. Entre parêntesis estão as posições anteriores; a primeira é a da primeira lista, a segunda da segunda.
- Suzanne Collins tem 87 referências (2|3).
- Ray Bradbury tem 85 referências (1|1).
- Veronica Roth tem 73 referências (13|8).
- Philip K. Dick tem 71 referências (5|2).
- George R. R. Martin tem 56 referências (4|4).
- Isaac Asimov tem 52 referências (3|7).
- Scott Westerfeld tem 48 referências (12|6).
- Tahereh Mafi tem 45 referências (-|12).
- Orson Scott Card tem 43 referências (-|23).
- João Barreiros tem 42 referências (7|5).
- Douglas Adams tem 40 referências (6|9).
- Arthur C. Clarke tem 37 referências (-|16).
- Frank Herbert tem 37 referências (11|10).
- Stephen King tem 35 referências (-|25).
- Júlio Verne tem 34 referências (9|11).
- Roberto Causo tem 33 referências (-|-).
- James Dashner tem 32 referências (10|18).
- Marissa Meyer tem 32 referências (-|-).
- Lissa Price tem 29 referências (-|-).
- Richard Matheson tem 27 referências (-|-).
- David Mitchell tem 25 referências (-|21).
- Justin Cronin tem 25 referências (-|-).
- Carlos Orsi tem 24 referências (-|-).
- Robert Silverberg tem 24 referências (-|15).
- Ursula K. LeGuin tem 24 referências (-|20).
- William Gibson tem 24 referências (7|13).
- Braulio Tavares tem 20 referências (-|-).
- George Orwell tem 20 referências (-|27).
- Harry Harrison tem 20 referências (-|14).
- Stephenie Meyer tem 20 referências (-|-).
- Bruno Martins Soares tem 19 referências (-|-).
- Gerson Lodi-Ribeiro tem 19 referências (-|17).
- Miguel Carqueija tem 19 referências (-|-).
- Octavio Aragão tem 19 referências (-|22).
- H. G. Wells tem 18 referências (-|19).
- Ian McDonald tem 18 referências (-|-).
- Robert A. Heinlein tem 18 referências (-|24).
- Ally Condie tem 17 referências (-|-).
- Frederik Pohl tem 17 referências (-|-).
- H. P. Lovecraft tem 16 referências (-|-).
- Teri Terry tem 16 referências (-|-).
- Veronica Rossi tem 16 referências (-|-).
- Luís Filipe Silva tem 15 referências (-|-).
- Bruce Sterling tem 14 referências (-|-).
- Cassandra Clare tem 14 referências (-|-).
- Catherine Fisher tem 14 referências (-|-).
- Kurt Vonnegut tem 14 referências (-|-).
- Luiz Bras tem 14 referências (-|-).
- Margaret Atwood tem 14 referências (-|-).
- Michael Grant tem 14 referências (-|-).
- Moira Young tem 14 referências (-|-).
- Rick Yancey tem 14 referências (-|-).
- Cirilo S. Lemos tem 13 referências (-|-).
- Aldous Huxley tem 12 referências (-|-).
- Peter David tem 12 referências (-|-).
- Beth Revis tem 11 referências (-|-).
- Edgar Rice Burroughs tem 11 referências (-|26).
- Lauren DeStefano tem 11 referências (-|-).
- Lisa Tuttle tem 11 referências (-|-).
- Carlos Silva tem 10 referências (-|-).
- Hugh Howey tem 10 referências (-|-).
- Joe Haldeman tem 10 referências (-|-).
- Pedro Cipriano tem 10 referências (-|-).
- Robinson Wells tem 10 referências (-|-).
Também salta à vista a preponderância que as distopias juvenis continuam a ter. Não só Suzanne Collins conseguiu a proeza de arrebatar a Bradbury o primeiro lugar, fruto em grande medida da adaptação da sua trilogia para o cinema, como vários são os outros autores do subgénero (Roth, Westerfeld, Mafi, Dashner) que já acumularam um conjunto de referências assinalável. A ajuda das adaptações também se faz sentir nas grandes subidas de King e, sobretudo, Card.
Entre os lusófonos, descem todos os que já se encontravam na lista, embora haja também algumas chegadas novas com valores interessantes, em especial entre os brasileiros. Em parte é natural: autores lusófonos não têm as ajudas do cinema e da TV para lhes insuflar a popularidade. Em parte, contudo, não é — além da falta de sustentação da publicação da maioria, que ou não publica nada durante longos períodos ou se limita a diluir-se em publicações coletivas que raramente geram referências individualizadas, parece também existir uma falta de sustentação no interesse que despertam, pelo menos entre a pequena parcela dos leitores que emite opinião ou noticia lançamentos. Eis algo, decididamente, a mudar.
Ah, e finalmente aparece gente da FC madura contemporânea na lista. Não era sem tempo (bem, para ser justo, Gibson e Card já se encontravam na lista anterior, embora ambos devido a livros editados há já bastante tempo).
Em geral, estas olhadelas periódicas ao que é agregado no FC Literária, que talvez devessem mesmo ser mais frequentes, parecem-me muito interessantes. Não que o que revelam seja muito surpreendente — basta estar atento aos blogues para se ter uma noção razoavelmente correta das oscilações de popularidade do autor A ou B — e é bom ter em mente que isto não é uma amostragem aleatória e está sujeito a diversos condicionalismos que não permitem que estes apanhados tenham grande relevância estatística. Mas apesar de tudo isso julgo que olhar para estes números pode ajudar a compreender muita coisa.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Será recomendável, mandar assim embaixadores às pessoas?
O Goodreads tem um serviço interessante para quem quer promover um livro: pode-se recomendá-lo a amigos ou contactos, e essas recomendações permitem que os que se deixarem interessar adicionem o livro a listas ao estilo de "quero ler" ou "vou comprar" ou até mesmo "coisinha apetitosa do papá."
Quando publiquei Por Vós lhe Mandarei Embaixadores depressa adicionei o livro ao Goodreads e foi com igual velocidade que senti vontade de fazer uso desse serviço de recomendações. No entanto não o fiz, pelo menos por enquanto.
Porquê?
Porque tenho estado a tentar decidir a que tipo de leitor recomendaria este livro.
Provavelmente, não serão poucos os marqueteiros que chegados aqui pensariam: Mas que está este parvalhão a dizer? Como quer vender livros assim? É claro que tem de o recomendar, caraças! No entanto, eu não consigo deixar de duvidar. De que me serve recomendar o livro a alguém que sei à partida que não vai gostar dele? Que utilidade teria fazê-lo? Vender mais livros? Mas para que quero eu vender livros com recomendações inadequadas, correndo assim o risco de alienar prováveis futuros leitores de outros livros meus, dos quais poderiam gostar bastante mais do que deste?
Sim, que eu não escrevo só maluquices...
E assim pensando, cheguei à sequência lógica desta cadeia de dúvidas: ao certo quem teria mais hipóteses de dar por bem empregues as horas gastas a ler este romance?
E cheguei a uma espécie de resposta.
Este romance foi escrito para mim, para me divertir a escrevê-lo. E divertiu. Mais: continua a divertir-me, anos mais tarde, apesar de já o ter relido tantas vezes, à conta das múltiplas revisões que lhe fiz, que quase seria capaz de recitá-lo (bem, há aqui um ligeiríssimo exagero... coisa pouca). Portanto, julgo que há uma elevada probabilidade de que quem se divirta com aquilo que me diverte leia isto com um sorriso nos lábios e talvez até vá soltando de vez em quando umas gargalhaditas. Especialmente se for como eu e, ao olhar para o cerimonial mais ou menos pomposo que está inerente a boa parte da política, o ache fundamentalmente ridículo. Especialmente se acha que boa parte das declarações solenes que por aí se fazem não passam de chachadas sem pés nem cabeça. Especialmente se consegue ver os interessezinhos escondidos por trás dos "valores" de que tanto hipócrita se faz paladino. Especialmente se tiver em si um núcleo de irreverência e subversão. Especialmente se algures no corpo tiver uma costelinha anarca. E muito em particular se costuma achar piada às maluquices que vou debitando ou partilhando nas redes sociais (aqui no blogue nem tanto).
O meu problema quando toca a fazer recomendações é não saber, na maioria dos casos, se a pessoa a quem eventualmente o recomendaria partilha deste tipo de atitude. Desta forma de encarar a parte mais solene e sisuda do mundo como uma grande e mascarada farsa. Daí a hesitação.
Se soubesse que sim, pois recomendaria sem reservas. O livro não será nenhuma obra prima literária, que não é (eu próprio já escrevi coisas literária e conceptualmente mais fortes do que esta) e de resto nunca pretendeu ser, mas é um livro escrito com correção no uso do português — a que, diga-se de passagem, a versão que se mantém online não faz inteira justiça; a do livro físico é francamente melhor — e está carregadinho de referências, piscadelas de olho, subcaricaturas da grande caricatura que nele fiz. Tantas que duvido mesmo muito que alguém as apanhe todas à primeira.
Se não, se não têm sentido de humor ou o têm mas muito diferente do meu, se até gostam de pompa e circunstância, se acham os políticos gente cheia de qualidades, se acham demasiado parva a ideia de terem um ET a ventosar por aí sem que ninguém lhe ligue peva, se consideram um crime de lesa-cultura-pátria que se brinque com Os Lusíadas, se, enfim, acham o respeitinho muito bonito, então aconselho-vos a passarem ao largo. De certeza quase absoluta não irão gostar do meu livrinho. Não percam tempo nem dinheiro com ele. Esperem pelo próximo, que talvez seja mais a vosso gosto.
E isto, reparo agora, deixa-me precisamente na mesma quanto a recomendar, ou não, o livro à maioria do pessoal a que estou ligado lá pelo Goodreads.
Ora bolas.
Já sei! Vou recomendá-lo ao Artur Coelho. Boa! Vamos lá então a ver onde é q... olha, ele já o leu e tudo?! Humpf! Assim não vale.
Adendinha melhor informada - Pois calha que sim, o Goodreads tem um sistema para recomendar livros às pessoas, mas não, os autores não podem usá-lo para recomendar os próprios livros. Desconhecia este piqueno detalhe. O que vale é que a ideia de usar o Goodreads para recomendar o meu livrinho à malta não está no centro deste post. Imaginem se estivesse. Imaginem só.
Quando publiquei Por Vós lhe Mandarei Embaixadores depressa adicionei o livro ao Goodreads e foi com igual velocidade que senti vontade de fazer uso desse serviço de recomendações. No entanto não o fiz, pelo menos por enquanto.
Porquê?
Porque tenho estado a tentar decidir a que tipo de leitor recomendaria este livro.
Provavelmente, não serão poucos os marqueteiros que chegados aqui pensariam: Mas que está este parvalhão a dizer? Como quer vender livros assim? É claro que tem de o recomendar, caraças! No entanto, eu não consigo deixar de duvidar. De que me serve recomendar o livro a alguém que sei à partida que não vai gostar dele? Que utilidade teria fazê-lo? Vender mais livros? Mas para que quero eu vender livros com recomendações inadequadas, correndo assim o risco de alienar prováveis futuros leitores de outros livros meus, dos quais poderiam gostar bastante mais do que deste?
Sim, que eu não escrevo só maluquices...
E assim pensando, cheguei à sequência lógica desta cadeia de dúvidas: ao certo quem teria mais hipóteses de dar por bem empregues as horas gastas a ler este romance?
E cheguei a uma espécie de resposta.
Este romance foi escrito para mim, para me divertir a escrevê-lo. E divertiu. Mais: continua a divertir-me, anos mais tarde, apesar de já o ter relido tantas vezes, à conta das múltiplas revisões que lhe fiz, que quase seria capaz de recitá-lo (bem, há aqui um ligeiríssimo exagero... coisa pouca). Portanto, julgo que há uma elevada probabilidade de que quem se divirta com aquilo que me diverte leia isto com um sorriso nos lábios e talvez até vá soltando de vez em quando umas gargalhaditas. Especialmente se for como eu e, ao olhar para o cerimonial mais ou menos pomposo que está inerente a boa parte da política, o ache fundamentalmente ridículo. Especialmente se acha que boa parte das declarações solenes que por aí se fazem não passam de chachadas sem pés nem cabeça. Especialmente se consegue ver os interessezinhos escondidos por trás dos "valores" de que tanto hipócrita se faz paladino. Especialmente se tiver em si um núcleo de irreverência e subversão. Especialmente se algures no corpo tiver uma costelinha anarca. E muito em particular se costuma achar piada às maluquices que vou debitando ou partilhando nas redes sociais (aqui no blogue nem tanto).
O meu problema quando toca a fazer recomendações é não saber, na maioria dos casos, se a pessoa a quem eventualmente o recomendaria partilha deste tipo de atitude. Desta forma de encarar a parte mais solene e sisuda do mundo como uma grande e mascarada farsa. Daí a hesitação.
Se soubesse que sim, pois recomendaria sem reservas. O livro não será nenhuma obra prima literária, que não é (eu próprio já escrevi coisas literária e conceptualmente mais fortes do que esta) e de resto nunca pretendeu ser, mas é um livro escrito com correção no uso do português — a que, diga-se de passagem, a versão que se mantém online não faz inteira justiça; a do livro físico é francamente melhor — e está carregadinho de referências, piscadelas de olho, subcaricaturas da grande caricatura que nele fiz. Tantas que duvido mesmo muito que alguém as apanhe todas à primeira.
Se não, se não têm sentido de humor ou o têm mas muito diferente do meu, se até gostam de pompa e circunstância, se acham os políticos gente cheia de qualidades, se acham demasiado parva a ideia de terem um ET a ventosar por aí sem que ninguém lhe ligue peva, se consideram um crime de lesa-cultura-pátria que se brinque com Os Lusíadas, se, enfim, acham o respeitinho muito bonito, então aconselho-vos a passarem ao largo. De certeza quase absoluta não irão gostar do meu livrinho. Não percam tempo nem dinheiro com ele. Esperem pelo próximo, que talvez seja mais a vosso gosto.
E isto, reparo agora, deixa-me precisamente na mesma quanto a recomendar, ou não, o livro à maioria do pessoal a que estou ligado lá pelo Goodreads.
Ora bolas.
Já sei! Vou recomendá-lo ao Artur Coelho. Boa! Vamos lá então a ver onde é q... olha, ele já o leu e tudo?! Humpf! Assim não vale.
Adendinha melhor informada - Pois calha que sim, o Goodreads tem um sistema para recomendar livros às pessoas, mas não, os autores não podem usá-lo para recomendar os próprios livros. Desconhecia este piqueno detalhe. O que vale é que a ideia de usar o Goodreads para recomendar o meu livrinho à malta não está no centro deste post. Imaginem se estivesse. Imaginem só.
Lido: Contos Fantásticos
Contos Fantásticos (bibliografia) é uma pequena antologia que esconde por trás desta designação razoavelmente genérica (embora adequada) uma antologia de contos clássicos de horror. Uma boa antologia de contos clássicos de horror, diga-se, pois não só é sólida no que toca à qualidade das obras que a compõem, em geral elevada, como também o é em termos temáticos.
Paradoxalmente, foi aí mesmo que ela falhou comigo. O problema não será tanto desta antologia em concreto, há que dizê-lo. O problema é o cânone.
Há quem adore o cânone, enchendo a boca com obras incontornáveis, leituras obrigatórias, o diabo a quatro. Mas eu, confesso, não pertenço a esse grupo, e quanto mais leio mais me afasto dele. Por vários motivos, alguns dos quais esta antologia serve lindamente para ilustrar.
O principal problema de que o cânone enferma é tornar-se limitativo. Limitativo na edição, por exemplo, fazendo com que se reeditem sucessivamente as mesmas obras uma e outra vez e outra ainda. Para quem lê pouco, isso é ótimo: permite-lhe tomar facilmente contacto com o que de melhor, segundo gerações sucessivas de leitores e literatos, se foi produzindo num determinado campo. Para quem lê um pouco mais, no entanto, já não é, porque vai chegar inevitavelmente a um ponto em que encontra as mesmas obras em edições diferentes. Como aqui.
Onde esta antologia falhou comigo foi na completa ausência de novidade. Nem uma única, para amostra. Já tinha lido todos estes contos em outras edições. É certo que eles não são muitos, mas a verdade é que se a seleção não se tivesse restringido ao cânone o resultado provavelmente teria sido bem mais interessante, não me limitando a releituras ao mesmo tempo que mantinha a qualidade razoavelmente inalterada.
Pois esse é o segundo aspeto em que o cânone é limitativo. É que não há, geralmente, diferença de monta em termos de qualidade entre as obras que pertencem ao cânone e as melhores obras que não pertencem. Poder-se-ia construir com estas um cânone alternativo tão abundante e praticamente tão bom como o verdadeiro. E no entanto, a ideia de que o cânone é o ápice da produção cultural, é o necessário e (pior) o suficiente para arrancar uma pessoa às trevas da bronquice e transformá-la num intelectual, está de tal modo disseminada que provoca um forte esquecimento relativo de muitos trabalhos, e até alguns autores, cheios de qualidades.
O cânone é, pois, e de uma forma muito concreta, um cliché. E todos sabem como é vantajoso tentar escapar aos clichés, não é verdade? Ou pelo menos disfarçá-los, usá-los de forma criativa.
Voltando a esta antologia, não foi isso que aqui aconteceu. Com outras obras de outros autores, ou até dos mesmos, estes Contos Fantásticos teriam provavelmente recebido da minha parte uma opinião mais favorável. Mas quem os selecionou ficou-se pelo cânone, pelo cliché, e o resultado sofreu com isso.
Eis o que achei de cada uma das três histórias, ou pelo menos eis links para o que já antes tinha achado delas:
Este livro foi comprado.
Paradoxalmente, foi aí mesmo que ela falhou comigo. O problema não será tanto desta antologia em concreto, há que dizê-lo. O problema é o cânone.
Há quem adore o cânone, enchendo a boca com obras incontornáveis, leituras obrigatórias, o diabo a quatro. Mas eu, confesso, não pertenço a esse grupo, e quanto mais leio mais me afasto dele. Por vários motivos, alguns dos quais esta antologia serve lindamente para ilustrar.
O principal problema de que o cânone enferma é tornar-se limitativo. Limitativo na edição, por exemplo, fazendo com que se reeditem sucessivamente as mesmas obras uma e outra vez e outra ainda. Para quem lê pouco, isso é ótimo: permite-lhe tomar facilmente contacto com o que de melhor, segundo gerações sucessivas de leitores e literatos, se foi produzindo num determinado campo. Para quem lê um pouco mais, no entanto, já não é, porque vai chegar inevitavelmente a um ponto em que encontra as mesmas obras em edições diferentes. Como aqui.
Onde esta antologia falhou comigo foi na completa ausência de novidade. Nem uma única, para amostra. Já tinha lido todos estes contos em outras edições. É certo que eles não são muitos, mas a verdade é que se a seleção não se tivesse restringido ao cânone o resultado provavelmente teria sido bem mais interessante, não me limitando a releituras ao mesmo tempo que mantinha a qualidade razoavelmente inalterada.
Pois esse é o segundo aspeto em que o cânone é limitativo. É que não há, geralmente, diferença de monta em termos de qualidade entre as obras que pertencem ao cânone e as melhores obras que não pertencem. Poder-se-ia construir com estas um cânone alternativo tão abundante e praticamente tão bom como o verdadeiro. E no entanto, a ideia de que o cânone é o ápice da produção cultural, é o necessário e (pior) o suficiente para arrancar uma pessoa às trevas da bronquice e transformá-la num intelectual, está de tal modo disseminada que provoca um forte esquecimento relativo de muitos trabalhos, e até alguns autores, cheios de qualidades.
O cânone é, pois, e de uma forma muito concreta, um cliché. E todos sabem como é vantajoso tentar escapar aos clichés, não é verdade? Ou pelo menos disfarçá-los, usá-los de forma criativa.
Voltando a esta antologia, não foi isso que aqui aconteceu. Com outras obras de outros autores, ou até dos mesmos, estes Contos Fantásticos teriam provavelmente recebido da minha parte uma opinião mais favorável. Mas quem os selecionou ficou-se pelo cânone, pelo cliché, e o resultado sofreu com isso.
Eis o que achei de cada uma das três histórias, ou pelo menos eis links para o que já antes tinha achado delas:
Este livro foi comprado.
Lido: O Fio e as Missangas
O Fio e as Missangas é mais uma das poéticas historinhas de Mia Couto. Esta, contrariamente a muitas das anteriores, não é uma história de mulheres, embora continue a ter nas mulheres boa parte do que a faz mover. Aqui, o protagonista é um homem, casado mas mulherengo em extremo. Segundo ele próprio diz, ele é o fio, as mulheres são as missangas. Mas a coisa é mais complexa do que isso, porque há também uma relação complexa entre o homem e sua mãe. Tudo em menos de três páginas.
Além da poesia do texto, é nesta capacidade que Mia Couto tem de fazer retratos matizados e contar histórias complexas em meia dúzia de linhas que reside muito do interesse destas histórias. Há nelas brilho. Mesmo nas que não são tão boas como outras.
Contos anteriores deste livro:
Além da poesia do texto, é nesta capacidade que Mia Couto tem de fazer retratos matizados e contar histórias complexas em meia dúzia de linhas que reside muito do interesse destas histórias. Há nelas brilho. Mesmo nas que não são tão boas como outras.
Contos anteriores deste livro:
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Lido: Histórias Fantasmagóricas
Histórias Fantasmagóricas (bibliografia) é uma coletânea de horror de Hugo Rocha assumidamente derivativa. Ou seja, é o próprio Hugo Rocha que afirma que um dos seus principais objetivos ao escrever estas histórias, tanto por moto próprio como por pedido editorial, foi como que importar para a literatura portuguesa o conto de fantasmas gótico que tanto sucesso fez décadas mais cedo — e, na verdade, continua ainda hoje a fazer em certos círculos — em outras latitudes, e muito em particular em países anglófonos.
E, de facto, essa qualidade derivativa, de emulação de exemplos alheios, é muito evidente na maioria das quinze histórias que compõem o livro, pese embora a tentativa, também ela deliberada (e afirmada) de como que aclimatar a planta transplantada, enraizando-a no novo clima. Quase todas as histórias se passam em Portugal, e as exceções ou se ambientam em geografias próximas, geográfica ou culturalmente, ou têm personagens portuguesas.
Não me parece que se trate de um livro realmente bom. Em parte por causa dessa natureza derivativa, mas também porque Hugo Rocha recorre a um estilo algo estranho. A sua prosa é labiríntica, enovelada, repleta de vírgulas, com frases tão retorcidas que por vezes mal se percebe onde começam e onde acabam. Para que uma prosa assim resulte em algo agradável de ler é necessário que seja produzida por um grande escritor, coisa que Hugo Rocha não é. É um escritor com um vocabulário rico. É um escritor que sabe desenvolver e estruturar histórias, mesmo que nesse desenvolvimento e estruturação emule exemplos estrangeiros. Mas está longe de ser um grande escritor.
Por outro lado tampouco me parece que este livro seja mau. Sim, é derivativo, mas a derivação é em geral bem feita. As histórias fantasmagóricas são credíveis enquanto histórias ambientadas nas nossas geografia e cultura, e por vezes são até mais do que isso. Por vezes Rocha mergulha mais fundo, aborda temas polémicos ou sensíveis, revelando, não sei bem se deliberadamente se por acidente, as preocupações que tem quanto à sociedade repressiva que o rodeia (o livro é de 1969, em plena ditadura e com guerras coloniais em curso, por mais que se falasse na época de primavera), e as contradições de si mesmo enquanto homem do seu tempo. E foi precisamente isso que mais me interessou durante a leitura deste livro, e foi em boa medida por isso que acabei por gostar dele. Por isso e porque entre as histórias que são na sua maioria medianas também se encontram algumas realmente boas.
Eis o que achei delas:
E, de facto, essa qualidade derivativa, de emulação de exemplos alheios, é muito evidente na maioria das quinze histórias que compõem o livro, pese embora a tentativa, também ela deliberada (e afirmada) de como que aclimatar a planta transplantada, enraizando-a no novo clima. Quase todas as histórias se passam em Portugal, e as exceções ou se ambientam em geografias próximas, geográfica ou culturalmente, ou têm personagens portuguesas.
Não me parece que se trate de um livro realmente bom. Em parte por causa dessa natureza derivativa, mas também porque Hugo Rocha recorre a um estilo algo estranho. A sua prosa é labiríntica, enovelada, repleta de vírgulas, com frases tão retorcidas que por vezes mal se percebe onde começam e onde acabam. Para que uma prosa assim resulte em algo agradável de ler é necessário que seja produzida por um grande escritor, coisa que Hugo Rocha não é. É um escritor com um vocabulário rico. É um escritor que sabe desenvolver e estruturar histórias, mesmo que nesse desenvolvimento e estruturação emule exemplos estrangeiros. Mas está longe de ser um grande escritor.
Por outro lado tampouco me parece que este livro seja mau. Sim, é derivativo, mas a derivação é em geral bem feita. As histórias fantasmagóricas são credíveis enquanto histórias ambientadas nas nossas geografia e cultura, e por vezes são até mais do que isso. Por vezes Rocha mergulha mais fundo, aborda temas polémicos ou sensíveis, revelando, não sei bem se deliberadamente se por acidente, as preocupações que tem quanto à sociedade repressiva que o rodeia (o livro é de 1969, em plena ditadura e com guerras coloniais em curso, por mais que se falasse na época de primavera), e as contradições de si mesmo enquanto homem do seu tempo. E foi precisamente isso que mais me interessou durante a leitura deste livro, e foi em boa medida por isso que acabei por gostar dele. Por isso e porque entre as histórias que são na sua maioria medianas também se encontram algumas realmente boas.
Eis o que achei delas:
- O Guarda-Vestidos de Porta de Espelho
- A Mulher da Saia Pela Cabeça
- A Maldição do Almocreve
- A Aposta
- O Lobisomem
- A Casa à Beira da Estrada
- O Retrato do «Quimbanda»
- A Noite de Walpurgis
- O Cão da Quinta do Diabo
- A Vingança do Ciclista
- A Esfera de Cristal
- O Hóspede do Hotel sem Hóspedes
- «A Costureira»
- Os Irmãos Gémeos
- Francesca
Lido: Ponte Frágil Sobre o Nada
Ponte Frágil Sobre o Nada (bibliografia) é uma noveleta de ficção científica de Maria Helena Bandeira, cujo grande ponto forte é a forma como lida com realidades divergentes. O ambiente é fortemente distópico, embora a princípio não pareça. A princípio, aliás, tudo parece muito estranho. A protagonista inicia o conto como uma mulher preocupada com o filho, deficiente, porque, ao contrário do que é norma na sua sociedade, só consegue comunicar falando. A ideia de que algo tão humanamente fundamental como a linguagem pode ser encarado como uma deficiência parece perfeitamente absurda. Mas aos poucos vamos percebendo, tanto nós como a própria protagonista, presa de uma luta entre uma seita religiosa que a aprisiona numa realidade aparentemente utópica, e um grupo de amigos, rebeldes, que tenta resgatá-la, procurando substituir essa realidade por outra, mais sólida, mais palpável, mais real. Na verdade, a mulher é mais que presa da batalha: é campo dessa batalha.
São claras as influências de Matrix, e do ciberpunk em geral, mas a noveleta segue um caminho diferente e é em boa parte nisso que reside o seu interesse. Nisso e na eterna luta das mães para proteger os filhos, provavelmente o mais arreigado de todos os instintos da espécie humana, aqui numa versão algo diferente. Pena algumas gralhas que chegaram à edição final, e pena também alguma hesitação de ritmo e estilo que não deixam que este conto atinja todo o seu potencial, deixando-o algures entre o razoável e o bom.
Contos anteriores deste livro:
São claras as influências de Matrix, e do ciberpunk em geral, mas a noveleta segue um caminho diferente e é em boa parte nisso que reside o seu interesse. Nisso e na eterna luta das mães para proteger os filhos, provavelmente o mais arreigado de todos os instintos da espécie humana, aqui numa versão algo diferente. Pena algumas gralhas que chegaram à edição final, e pena também alguma hesitação de ritmo e estilo que não deixam que este conto atinja todo o seu potencial, deixando-o algures entre o razoável e o bom.
Contos anteriores deste livro:
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Lido: O Centésimo em Roma
O Centésimo em Roma é um romance histórico de Max Mallmann passado, como é fácil perceber, na antiga Roma. Mas a antiga Roma foi um sítio vasto, tanto territorial como temporalmente, portanto é necessário dizer mais alguma coisa para situar o romance. O tempo é o século I depois de Cristo, embora na época ainda não se contasse o tempo assim. Nero incendiara a cidade não muito tempo antes, e as ondas de choque da sua liderança ainda se sentem, altaneiras e espumejantes. O lugar, esse, é Roma, a própria Cidade Eterna, onde o cristianismo vai alastrando clandestinamente, ao mesmo tempo que se sucedem imperadores cada um mais enlouquecido que o outro e tropas romanas, apoiantes de imperadores alternativos, ameaçam marchar contra a capital do império.
No meio de toda esta conturbação surge-nos Desiderius Dolens, o principal protagonista. Um cínico contraditório, que ora se mostra um brutamontes sanguinário, ora um amigo verdadeiro. Um plebeu, nado e criado num dos bairros pobres de Roma, movido por uma ambição de toda a vida: a de sair de lá. Um soldado das legiões com fama de ter massacrado uma aldeia inteira de germanos (o que lhe deu um cognome que tolera a contragosto, por motivos que aos poucos se vão compreendendo) e que volta para Roma casado com uma germana. Que ama, embora continue a fazer visitas a prostitutas. Um homem que tenta a todo o custo manter-se são no meio da loucura dos tempos, em boa medida porque é filho de pai louco. Um homem que é centurião de uma espécie de corpo policial romano, mas que verdadeiramente desejava ser cavaleiro.
É como se os tempos conturbados tivessem o seu reflexo na vida conturbada do protagonista e das vidas com que se cruza. A família, os camaradas de armas, os nobres e os senadores a cujo grupo sonha vir um dia a pertencer. Uma galeria de personagens com mais cómico que trágico, embora várias sejam as que se mostram bastante palpáveis, com bastante mais que a mera superfície típica das personagens secundárias e/ou humorísticas.
O livro é francamente bom. Divertido, quase sempre, por vezes algo comovente, está estruturado como um relato duplo dos tempos e dos acontecimentos. Mallmann afirma basear a história de Dolens num relato contemporâneo dos factos, que teria chegado até hoje, chamado Vita Dolentis (A Vida de Dolens, na última flor do Lácio), e escrito por um tal Quintus Trebellius Nepos. Obviamente, nem este nem aquele são verdadeiros, o que não impede o autor de intercalar fragmentos do texto de Nepos na sua interpretação ficcional dos acontecimentos neles descritos. Nepos, ao mesmo tempo cronista e personagem, é um filho de família nobre de Roma, letrado e coxo e por esses motivos relegado a subalterno de Dolens, com quem tem uma relação algo atribulada, especialmente a partir do momento em que alguém lhe mata o pai e ele fica obcecado com a descoberta do ou dos assassinos, o que tem consequências nefastas não só para si próprio (provavelmente terá acabado por gostar do serviço de limpeza às latrinas, tantas foram as vezes que lá foi parar) como para Desiderius Dolens, que por causa disso acaba por ter a surpresa da sua vida. Francamente desagradável.
O livro, já disse?, é francamente bom. Carregado de ironia, cheio de paralelismos não muito bem camuflados entre as realidades políticas romanas e as contemporâneas e até com uma hilariante partidinha de (uma espécie de) futebol à mistura, ou não fosse o autor brasileiro, bem pesquisado e por isso credível enquanto recriação histórica (pese embora alguns anacronismos), bem escrito, com um sem-fim de capítulos muito curtos que, não raro, nem a uma página chegam, o que contribui para uma leitura quase saltitona de tão ágil, este foi dos melhores livros que li no ano passado... depois de ficar quase três anos à espera de vez aqui nas minhas pilhas centenárias. Depois de o ler, tive pena de o ter feito esperar tanto.
Este livro foi-me oferecido pelo autor.
No meio de toda esta conturbação surge-nos Desiderius Dolens, o principal protagonista. Um cínico contraditório, que ora se mostra um brutamontes sanguinário, ora um amigo verdadeiro. Um plebeu, nado e criado num dos bairros pobres de Roma, movido por uma ambição de toda a vida: a de sair de lá. Um soldado das legiões com fama de ter massacrado uma aldeia inteira de germanos (o que lhe deu um cognome que tolera a contragosto, por motivos que aos poucos se vão compreendendo) e que volta para Roma casado com uma germana. Que ama, embora continue a fazer visitas a prostitutas. Um homem que tenta a todo o custo manter-se são no meio da loucura dos tempos, em boa medida porque é filho de pai louco. Um homem que é centurião de uma espécie de corpo policial romano, mas que verdadeiramente desejava ser cavaleiro.
É como se os tempos conturbados tivessem o seu reflexo na vida conturbada do protagonista e das vidas com que se cruza. A família, os camaradas de armas, os nobres e os senadores a cujo grupo sonha vir um dia a pertencer. Uma galeria de personagens com mais cómico que trágico, embora várias sejam as que se mostram bastante palpáveis, com bastante mais que a mera superfície típica das personagens secundárias e/ou humorísticas.
O livro é francamente bom. Divertido, quase sempre, por vezes algo comovente, está estruturado como um relato duplo dos tempos e dos acontecimentos. Mallmann afirma basear a história de Dolens num relato contemporâneo dos factos, que teria chegado até hoje, chamado Vita Dolentis (A Vida de Dolens, na última flor do Lácio), e escrito por um tal Quintus Trebellius Nepos. Obviamente, nem este nem aquele são verdadeiros, o que não impede o autor de intercalar fragmentos do texto de Nepos na sua interpretação ficcional dos acontecimentos neles descritos. Nepos, ao mesmo tempo cronista e personagem, é um filho de família nobre de Roma, letrado e coxo e por esses motivos relegado a subalterno de Dolens, com quem tem uma relação algo atribulada, especialmente a partir do momento em que alguém lhe mata o pai e ele fica obcecado com a descoberta do ou dos assassinos, o que tem consequências nefastas não só para si próprio (provavelmente terá acabado por gostar do serviço de limpeza às latrinas, tantas foram as vezes que lá foi parar) como para Desiderius Dolens, que por causa disso acaba por ter a surpresa da sua vida. Francamente desagradável.
O livro, já disse?, é francamente bom. Carregado de ironia, cheio de paralelismos não muito bem camuflados entre as realidades políticas romanas e as contemporâneas e até com uma hilariante partidinha de (uma espécie de) futebol à mistura, ou não fosse o autor brasileiro, bem pesquisado e por isso credível enquanto recriação histórica (pese embora alguns anacronismos), bem escrito, com um sem-fim de capítulos muito curtos que, não raro, nem a uma página chegam, o que contribui para uma leitura quase saltitona de tão ágil, este foi dos melhores livros que li no ano passado... depois de ficar quase três anos à espera de vez aqui nas minhas pilhas centenárias. Depois de o ler, tive pena de o ter feito esperar tanto.
Este livro foi-me oferecido pelo autor.
domingo, 12 de janeiro de 2014
Lido: Léxico às Fatias - Parte III
Léxico às Fatias - Parte III é, claro, a sequela da sequela de Léxico às Fatias - Parte I, o que significa que, juntando as três, se fica com uma trilogia de Léxicos às Fatias. Ou pelo menos com três fatias de léxico. E sim, o que disse sobre as outras duas posso também dizer sobre esta terceira (e última), mais 20 frases de uma ou duas linhas cada que, com frequência, podem ser vistas como microcontos de direito próprio, alguns bastante interessantes, mas muito poucos com alguma espécie de piada. Se a ideia era terem graça, o falhanço é bastante grande; se era serem minúsculos exemplos de narrativa, em grande medida subentendida, sim, isto é bom.
Textos anteriores deste livro:
Textos anteriores deste livro:
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Lido: O Sangue de Âmbar
O Sangue de Âmbar (bibliografia) é um romance de fantasia de Roger Zelazny, parte da sua série de Âmbar, que...
Esperem. Vou começar de outra forma.
Por vezes acontecem destas, suponho, a todos os leitores. Alguém, animado das melhores intenções, sabendo que gostamos de ler, e tendo uma ideia mais ou menos vaga sobre o tipo de livro que gostamos de ler, decide comprar um que, acha, será ao nosso gosto e fazer dele oferta. Por vezes acerta. De outras, mete os pés pelas mãos.
Pois comigo aconteceu com este livro. Alguém, sabendo que eu gosto de ficção científica, e sabendo que a Argonauta é uma coleção de ficção científica, achou que este livro seria mesmo a coisa ideal, e pimba, toma lá! Pois calhou que o livro é de fantasia, não de ficção científica. E, pior, calhou que é, conforme a forma de os contar, ou o sétimo da série de Âmbar, ou o segundo da segunda subsérie em que esta se divide. E não, ao contrário dos romances de Bas-Lag de China Miéville, os de Zelazny não podem ser lidos em qualquer ordem.
Eu podia, é certo, ter arranjado o primeiro e começado por aí. Mas, como tinha nas mãos este livro, achei que, já agora, podia perfeitamente lê-lo primeiro para ver se valeria a pena comprar o resto da série.
Foi má ideia.
O universo criado por Zelazny parece ser de uma fantasia algo mestiça, que brinca com os conceitos dos mundos paralelos entre os quais se encontra o nosso, muito caro da FC, mas alguns dos quais — os principais nesta história — são movidos a magia. Parece também ser veículo para Zelazny fazer uma série de homenagens a outras obras da literatura fantástica, integrando os mundos ficcionais destas no seu multiverso, e/ou deixando referências a elas espalhadas por aqui e por ali. Parece.
E parece porque este livro é uma salganhada tal que não se percebe realmente o que se está a passar. O protagonista é perseguido não se sabe bem por quem e não se sabe bem porquê, escapa-se de sucessivas tentativas de assassínio nem ele sabe bem como (mas com muito deus ex machina à mistura, aparentemente), e depois a coisa acaba não se percebe bem porquê, tudo isto com menos profundidade do que em muitas histórias de banda desenhada. Falta, obviamente, informação indispensável que deverá constar de volumes anteriores da série, mas temo que seja mais do que isso. Afinal, quem pegar em algum livro intermédio de séries boas de fantasia pode não perceber uma série de pormenores de enredo e motivações de personagens, mas ao menos encontra nestas alguma solidez e naquele arcos de história com a sua lógica própria e que servem para dar forma a cada parte da série, mesmo na falta de informação importante. Nota-se que há neles profundidade, mesmo que não consigamos abarcá-la por completo.
Aqui, longe disso. Ler este livro isoladamente é quase como tentar entender um texto escrito por algum dos proverbiais macacos sentados à frente de uma máquina de escrever.
É então um mau livro? Devido à falta de informação sobre o resto da série, reluto em dizê-lo assim taxativamente. Mas acho que posso afirmar com segurança que não se trata de um bom livro. E parece-me que a própria série pouco interesse terá. Eu, com toda a certeza, não fiquei com grande curiosidade pelos restantes, embora provavelmente acabe mais cedo ou mais tarde por comprar o primeiro para ver se a impressão que este me deixou se confirma ou não.
Este livro foi oferecido por gente amiga e bem intencionada. É pena não ter gostado da oferta, mas agradeço-a na mesma.
Esperem. Vou começar de outra forma.
Por vezes acontecem destas, suponho, a todos os leitores. Alguém, animado das melhores intenções, sabendo que gostamos de ler, e tendo uma ideia mais ou menos vaga sobre o tipo de livro que gostamos de ler, decide comprar um que, acha, será ao nosso gosto e fazer dele oferta. Por vezes acerta. De outras, mete os pés pelas mãos.
Pois comigo aconteceu com este livro. Alguém, sabendo que eu gosto de ficção científica, e sabendo que a Argonauta é uma coleção de ficção científica, achou que este livro seria mesmo a coisa ideal, e pimba, toma lá! Pois calhou que o livro é de fantasia, não de ficção científica. E, pior, calhou que é, conforme a forma de os contar, ou o sétimo da série de Âmbar, ou o segundo da segunda subsérie em que esta se divide. E não, ao contrário dos romances de Bas-Lag de China Miéville, os de Zelazny não podem ser lidos em qualquer ordem.
Eu podia, é certo, ter arranjado o primeiro e começado por aí. Mas, como tinha nas mãos este livro, achei que, já agora, podia perfeitamente lê-lo primeiro para ver se valeria a pena comprar o resto da série.
Foi má ideia.
O universo criado por Zelazny parece ser de uma fantasia algo mestiça, que brinca com os conceitos dos mundos paralelos entre os quais se encontra o nosso, muito caro da FC, mas alguns dos quais — os principais nesta história — são movidos a magia. Parece também ser veículo para Zelazny fazer uma série de homenagens a outras obras da literatura fantástica, integrando os mundos ficcionais destas no seu multiverso, e/ou deixando referências a elas espalhadas por aqui e por ali. Parece.
E parece porque este livro é uma salganhada tal que não se percebe realmente o que se está a passar. O protagonista é perseguido não se sabe bem por quem e não se sabe bem porquê, escapa-se de sucessivas tentativas de assassínio nem ele sabe bem como (mas com muito deus ex machina à mistura, aparentemente), e depois a coisa acaba não se percebe bem porquê, tudo isto com menos profundidade do que em muitas histórias de banda desenhada. Falta, obviamente, informação indispensável que deverá constar de volumes anteriores da série, mas temo que seja mais do que isso. Afinal, quem pegar em algum livro intermédio de séries boas de fantasia pode não perceber uma série de pormenores de enredo e motivações de personagens, mas ao menos encontra nestas alguma solidez e naquele arcos de história com a sua lógica própria e que servem para dar forma a cada parte da série, mesmo na falta de informação importante. Nota-se que há neles profundidade, mesmo que não consigamos abarcá-la por completo.
Aqui, longe disso. Ler este livro isoladamente é quase como tentar entender um texto escrito por algum dos proverbiais macacos sentados à frente de uma máquina de escrever.
É então um mau livro? Devido à falta de informação sobre o resto da série, reluto em dizê-lo assim taxativamente. Mas acho que posso afirmar com segurança que não se trata de um bom livro. E parece-me que a própria série pouco interesse terá. Eu, com toda a certeza, não fiquei com grande curiosidade pelos restantes, embora provavelmente acabe mais cedo ou mais tarde por comprar o primeiro para ver se a impressão que este me deixou se confirma ou não.
Este livro foi oferecido por gente amiga e bem intencionada. É pena não ter gostado da oferta, mas agradeço-a na mesma.
Lido: O Padre
O Padre, de Luísa Costa Gomes, é um monólogo teatral que põe um padre muito betinho de Cascais, muito amaricado, a falar com deus-nosso-senhor, tentando negociar com o divino uns determinados pormenores sobre prazeres carnais, pecados, piedosas mentiras homilianas, confissões e casamentos. E eu, finalmente, ao fim já não sei de quantas tentativas, lá consegui gostar de um texto de Luísa Costa Gomes. Não muito, mas sim, gostei. Este texto divertiu-me, em boa medida por imaginar, ao lê-lo, um padreco muito, muito maricas, cheio de ademanes, boquinhas e arrebiques. Não está no texto, propriamente, mas ele propicia-se. Não chegou ao riso, mas chegou ao sorriso aberto. Já é qualquer coisa.
Textos anteriores deste livro:
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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Lido: The Scar
The Scar é um romance de China Miéville, o segundo da sua série passada no mundo fictício de Bas-Lag, onde uma quantidade apreciável de espécies inteligentes convivem, nem sempre pacificamente, e a vida é vivida em contacto direto com uma espécie de magia mais ou menos científica, conhecida como taumaturgia (thaumaturgy) e uma tecnologia meânica baseada na maquinaria novecentista, e por isso com grandes pontos de contacto com o steampunk.
Com tal ponto de partida pode-se escrever histórias de diversos géneros, consoante o tipo de abordagem que é feita. As histórias de Bas-Lag poderiam ser uma espécie de fantasia steampunk à semelhança de diversos livros e contos recentes, que colam a histórias tipicamente de fantasia, urbana ou não, uma camada steampunk que raramente ultrapassa a superfície da simples estética. Julgo que, mesmo sem ter (ainda) lido os outros romances (eles são independentes, portanto podem ler-se em qualquer ordem), posso afirmar que Miéville não é isso que faz. Pelo contrário: não só a maquinaria pseudovitoriana, mas sobretudo a sociologia que lhe está associada, o capitalismo desenfreado e exploratório, a forma complexa, intrincada e muitas vezes como que suja de óleo ou ferrugem como tudo é retratado enraizam-se profundamente nas mais puras nascentes do steampunk. A parte fantasiosa, sendo embora igualmente central, é tratada quase cientificamente; afinal, não é por acaso que não existe propriamente magia, mas sim taumaturgia, e que esta é retratada como uma disciplina técnica com os seus códigos próprios. E que criaturas que Miéville vai muitas vezes buscar ao horror possuem também nestes seus livros uma solidez muito pouco sobrenatural. Pelo menos neste livro, mas tudo isso constitui uma parte tão fulcral da estruturação do seu mundo que muito me surpreenderia que nos restantes fosse diferente.
E ainda bem que assim é.
A história de The Scar passa-se inteiramente no mar. Bellis, a protagonista, é uma neocrobuzonita (trocando por miúdos: uma cidadã de New Crobuzon, cidade-estado que é uma das principais potências de Bas-Lag e o local onde se desenrolam os outros dois romances da série) que foge da cidade rumo a uma colónia noutro continente porque pensa estar a ser perseguida pelas autoridades. Mas essa viagem é interrompida quando o navio em que segue é atacado por piratas, que o levam, e a toda a tripulação, passageiros e prisioneiros até aí a caminho do desterro, para um lugar extraordinário: a cidade flutuante de Armada, livre e pirata, composta por gerações e gerações de navios capturados e alterados para se fundirem com a cidade. Aí, Bellis, naturalmente revoltada com a sua condição de cidadã à força (e, pelo menos a princípio, de segunda) de Armada, com a lealdade ainda presa à sua pátria, vai ser ao mesmo tempo espetadora e catalizadora de uma série de acontecimentos que vão levar toda a cidade aos mais estranhos confins dos mares de Bas-Lag: a scar a que o título se refere, precisamente.
O livro é brilhante. Escrito com uma prosa de grande qualidade, em que tudo é descrito com uma tal profusão de pormenores, com uma tal texturização, que confere solidez e realidade mesmo às coisas mais extrordinárias, com um grupo razoavelmente numeroso de personagens, as mais importantes, também elas de grande solidez, é daqueles romances que como que abrem portais e sugam o leitor para as suas próprias realidades. Tudo é credível, por incrível que seja. Tudo é verosímil, por mais inverosímil que possa ser. E a história, sempre movida a mistérios por mais que ziguezagueie pelos vastos oceanos de Bas-Lag, em que o esclarecimento de um só serve para criar novas perguntas, nunca perde o interesse. Pelo contrário. As quase oitocentas páginas passam quase sem se dar por isso.
E além disso é um livro com conteúdo. É um livro sobre a identidade, sobre o patriotismo, sobre a lealdade. É um livro sobre a manipulação e as obsessões. É um livro sobre o amor, os sentimentos que não são propriamente amor mas andam por perto dele, e as coisas que por esses sentimentos somos levados a fazer. É também um livro sobre perda (e são múltiplas as perdas que nele têm lugar) e superação da perda. E é, ainda, um livro sobre informação, sobre o seu valor, sobre o perigo que pode advir quer da sua falta, quer da sua posse.
Este é dos tais livros que o Jorge tradutor adoraria traduzir. Seria um desafio: não se trata de um romance fácil. Mas também seria um prazer. Editoras portuguesas, editem este livro, façam esse favor aos vossos leitores. E passem-mo para as mãos.
Prometo aqui solenemente tratá-lo bem.
Este livro foi comprado.
Com tal ponto de partida pode-se escrever histórias de diversos géneros, consoante o tipo de abordagem que é feita. As histórias de Bas-Lag poderiam ser uma espécie de fantasia steampunk à semelhança de diversos livros e contos recentes, que colam a histórias tipicamente de fantasia, urbana ou não, uma camada steampunk que raramente ultrapassa a superfície da simples estética. Julgo que, mesmo sem ter (ainda) lido os outros romances (eles são independentes, portanto podem ler-se em qualquer ordem), posso afirmar que Miéville não é isso que faz. Pelo contrário: não só a maquinaria pseudovitoriana, mas sobretudo a sociologia que lhe está associada, o capitalismo desenfreado e exploratório, a forma complexa, intrincada e muitas vezes como que suja de óleo ou ferrugem como tudo é retratado enraizam-se profundamente nas mais puras nascentes do steampunk. A parte fantasiosa, sendo embora igualmente central, é tratada quase cientificamente; afinal, não é por acaso que não existe propriamente magia, mas sim taumaturgia, e que esta é retratada como uma disciplina técnica com os seus códigos próprios. E que criaturas que Miéville vai muitas vezes buscar ao horror possuem também nestes seus livros uma solidez muito pouco sobrenatural. Pelo menos neste livro, mas tudo isso constitui uma parte tão fulcral da estruturação do seu mundo que muito me surpreenderia que nos restantes fosse diferente.
E ainda bem que assim é.
A história de The Scar passa-se inteiramente no mar. Bellis, a protagonista, é uma neocrobuzonita (trocando por miúdos: uma cidadã de New Crobuzon, cidade-estado que é uma das principais potências de Bas-Lag e o local onde se desenrolam os outros dois romances da série) que foge da cidade rumo a uma colónia noutro continente porque pensa estar a ser perseguida pelas autoridades. Mas essa viagem é interrompida quando o navio em que segue é atacado por piratas, que o levam, e a toda a tripulação, passageiros e prisioneiros até aí a caminho do desterro, para um lugar extraordinário: a cidade flutuante de Armada, livre e pirata, composta por gerações e gerações de navios capturados e alterados para se fundirem com a cidade. Aí, Bellis, naturalmente revoltada com a sua condição de cidadã à força (e, pelo menos a princípio, de segunda) de Armada, com a lealdade ainda presa à sua pátria, vai ser ao mesmo tempo espetadora e catalizadora de uma série de acontecimentos que vão levar toda a cidade aos mais estranhos confins dos mares de Bas-Lag: a scar a que o título se refere, precisamente.
O livro é brilhante. Escrito com uma prosa de grande qualidade, em que tudo é descrito com uma tal profusão de pormenores, com uma tal texturização, que confere solidez e realidade mesmo às coisas mais extrordinárias, com um grupo razoavelmente numeroso de personagens, as mais importantes, também elas de grande solidez, é daqueles romances que como que abrem portais e sugam o leitor para as suas próprias realidades. Tudo é credível, por incrível que seja. Tudo é verosímil, por mais inverosímil que possa ser. E a história, sempre movida a mistérios por mais que ziguezagueie pelos vastos oceanos de Bas-Lag, em que o esclarecimento de um só serve para criar novas perguntas, nunca perde o interesse. Pelo contrário. As quase oitocentas páginas passam quase sem se dar por isso.
E além disso é um livro com conteúdo. É um livro sobre a identidade, sobre o patriotismo, sobre a lealdade. É um livro sobre a manipulação e as obsessões. É um livro sobre o amor, os sentimentos que não são propriamente amor mas andam por perto dele, e as coisas que por esses sentimentos somos levados a fazer. É também um livro sobre perda (e são múltiplas as perdas que nele têm lugar) e superação da perda. E é, ainda, um livro sobre informação, sobre o seu valor, sobre o perigo que pode advir quer da sua falta, quer da sua posse.
Este é dos tais livros que o Jorge tradutor adoraria traduzir. Seria um desafio: não se trata de um romance fácil. Mas também seria um prazer. Editoras portuguesas, editem este livro, façam esse favor aos vossos leitores. E passem-mo para as mãos.
Prometo aqui solenemente tratá-lo bem.
Este livro foi comprado.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
Lido: A Vinha
A Vinha é um conto de horror de Kit Reed que faz lembrar as histórias da velha série Twilight Zone, em especial no tipo de ambiente que é criado. Tudo gira, como seria de esperar, em volta de uma vinha. Mas não uma das vinhas que estamos habituados a ver espalhadas pelos campos deste nosso país vinícola. Esta é uma árvore gigantesca, que ocupa por completo o espaço disponível no interior de uma estufa e cujas raízes de estendem para fora desta, pelos terrenos em redor, impedindo que neles cresça seja o que for. Uma família, os Baskin, tem como missão de vida tratar da vinha, e não é em vão que falo aqui em "missão de vida". Na verdade, o principal motor do conto é a progressiva descoberta de até que ponto esta missão é realmente uma missão, de até que ponto as vidas deles estão, mais que entrelaçadas à da vinha, sujeitas a ela. O conto está bastante bem construído e é francamente inquietante, ainda que o seu desenrolar e desfecho não seja propriamente imprevisível. Mas sim, é um bom conto.
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terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Lido: O Nome Gordo de Isidorangela
O Nome Gordo de Isidorangela, outro pequeno conto de Mia Couto, regressa uma vez mais ao tema da mulher, mas aqui de uma forma diferente. Ambientado nos tempos do Moçambique colonial, o protagonista e narrador é um rapaz burguês, filho de um mulato, que narra a descoberta de um segredo. Este tem forma, corpo e nome. Uma forma redonda, um corpo obesíssimo e o nome de Isidorangela. Mais: também tem parentescos. Filha do presidente da câmara, por quem o pai do narrador nutre uma admiração ostensiva, a rapariga é no entando posta de lado por todos devido à gordura. Até que acontece um convite e uma visita.
É mais um bom conto, e desta vez mais a meu gosto por não "abusar" da poesia, mantendo-a no entanto presente, numa história que não parece até à reviravolta final mas está carregadinha de ironia e que trata com uma subtileza de passos de pena a questão racial em tempos de colonialismo. Gostei bastante.
Contos anteriores deste livro:
É mais um bom conto, e desta vez mais a meu gosto por não "abusar" da poesia, mantendo-a no entanto presente, numa história que não parece até à reviravolta final mas está carregadinha de ironia e que trata com uma subtileza de passos de pena a questão racial em tempos de colonialismo. Gostei bastante.
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