domingo, 6 de abril de 2014

Lido: História, Essa Ficção

História, Essa Ficção é um texto de José Alberto Braga que também não tem grande graça. Na verdade, achei este texto principalmente frustrante, porque Braga tem aqui algumas ideias relacionadas com um certo caráter falso da história (ou pelo menos da história tal como nos é apresentada pela cultura popular) que, bem desenvolvidas, poderiam dar textos interessantes, ainda que misturadas com outras que, mais uma vez, cedem a um certo trocadilhismo fácil e que não vejo como poderiam desenvolver-se melhor. Mas o que é certo é que nem umas nem as outras estão bem desenvolvidas. Há uma opinião, com uma série de frases a servir-lhe de ilustração de uma forma que se calhar nem pretende realmente ser humorística, e nada mais do que isso. Ora...

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Lido: As(os) Noivas(os) de Santo(a) António(a)

As(os) Noivas(os) de Santo(a) António(a) é mais um textículo-barra-missiva de Henrique Monteiro, desta feita endereçado por "um grupo de apoiantes do Sr. Deputado Sousa Pinto" (que, depois de perguntar a si próprio "quem?!", o leitor lá tem uma vacuíssima lembrança de uma estrela cadente do Partido Socialista, um dos muitos carreiristas com mais ambição do que talento que de vez em quando nos entravam casa dentro matraqueando palavreado oco por via televisiva) ao presidente da câmara de Lisboa. Um textículo com uma única característica de monta: é parvo. Piada, nem sombra dela se vislumbra. Aparentemente tenta, a propósito das noivas de Santo António, gozar com alguma proposta que eventualmente terá existido à época para reconhecer formas de organização familiar alternativas ao casamento. Daquelas polemicazinhas que hoje nem se percebem tão pacíficas se tornaram entretanto as soluções encontradas. Imagino que, à época, o conservadorismo troglodita talvez tenha visto nisto alguma graça, mas confesso que tenho de forçar a imaginação quase ao limite para conseguir imaginar tal coisa.

Henrique Monteiro é um completo erro de casting neste livro. Não há qualquer espécie de graça no que dele aqui se apresenta. Um zero total. E a culpa não é apenas dele: os organizadores deviam ter percebido que estes textos estão tão amarrados aos factoides politiquícios do tempo que, mesmo que alguma graça tivessem tido na altura certa, hoje já não têm nem sombra dela, não só mas também porque já ninguém se lembra daquilo a que fazem referência.

É que há coisas que são intemporais, há coisas que são importantes e há coisas que marcam a memória dos povos. Mas, aparentemente, não é sobre essas coisas que Henrique Monteiro gosta de escrever.

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sexta-feira, 4 de abril de 2014

Lido: Pedro e a Voz

Pedro e a Voz é mais um texto de Henrique Monteiro, este mais extenso, mas tirando isso muito semelhante ao anterior. Também aqui vamos encontrar uma espécie de missiva, enviada por um tal Pedro a um tal Rui. O Pedro depressa se percebe ser Pedro Santana Lopes, mas a identidade do Rui passou-me por completo ao lado. E não é que interesse, francamente. Pedro relata ao seu amigo Rui (presume-se que seja amigo; afinal trata-o por tu) uma conversa que teria tido com a sua própria consciência, fazendo referências a uma série de tricas da politiqueirice nacional que já estão há muito enterradas no baú das irrelevâncias esquecidas por todos. Por isso, talvez, o total desinteresse que este texto me causou, e a completa ausência de graça que lhe achei.

Nem o português é grande coisa; pelo menos as crónicas do MEC, por mais datadas que estejam, têm na qualidade do português um bom motivo de interesse. Estas só me levam a dizer uma coisa: meh!

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Lido: Quando Cristo Desce à Terra

Quando Cristo Desce à Terra é um textozinho de Henrique Monteiro que, vê-se, tenta ter graça, mas no qual não encontrei nem sombra dela. É curtinho e pretende representar uma missiva enviada por um tal D. Sanches ao ministro da administração interna, e é possível que a sua completa ausência de piada tenha a ver com referir-se a algo tão datado no tempo e no espaço que já está esquecido. Uma piadola do quotidiano, que deixa de fazer sentido quando este se transforma em passado e perde relevância com isso. Talvez. O que é certo é que meh.

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quinta-feira, 3 de abril de 2014

Lido: Gosto Muito de Palavrões

Gosto Muito de Palavrões é mais uma divertida crónica de Miguel Esteves Cardoso na qual ele, como o título indica, declara o seu amor pelos palavrões. E explica porquê, com profusão de exemplos, quase todos bem apanhados e melhor pensados. Sim, pensados, que se nota que a crónica não se limita a ser uma coisinha destinada a fazer rir o freguês com a publicação em letra de imprensa (isto saiu originalmente numa revista, acho eu) de um texto eivado de caralhadas. Ou, melhor ainda, de um texto em que a caralhada convive harmoniosamente com frases como "dar nova vida aos palavrões, libertando-os dos constrangimentos estritamente sexuais ou orgânicos que os sufocam, é simplesmente um exercício de libertação." Há aqui, como se vê, uma certa filosofia do palavrão, bem como algumas reflexões gramaticais, o que na verdade serve não só para pensar um pouco, mas também para tornar o todo mais divertido. Esta é uma grande crónica, ainda que sofra com algo que é comum nas crónicas mais humorísticas do MEC: irem perdendo a piada para o fim. Acontece com esta, tal como acontece com muitas outras, mas isso não chega a ser suficiente para lhe retirar qualidade.

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quarta-feira, 2 de abril de 2014

Lido: Finis

Finis (bibliografia) é um imaginativo conto de ficção científica sobre o fim do mundo, escrito em 1906 por Frank L. Pollack. Trata-se de um exemplar curioso de ficção científica com mais de cem anos, que erra quase completa e até quase grotescamente a ciência mas que, tendo em conta o conhecimento científico da época, até talvez se possa considerar ficção científica dura, escrita e publicada antes sequer do género ser individualizado e definido. A ideia básica é simples. O universo, pensava Pollock (ou pelo menos admitia para efeitos literários), não podia ser realmente infinito e as estrelas não podiam estar apenas suspensas no vazio. Tal como a Lua orbita a Terra e a Terra o Sol, este e as demais estrelas deverão orbitar uma qualquer superestrela gigantesca cuja temperatura deverá ser mais quente que a do Sol, na proporção da diferença que existe entre as temperaturas deste e da Terra.

Mas nunca ninguém viu tal estrela. Porquê? Simples: porque a sua luz ainda não teve tempo para chegar até nós.

Até que de repente chega.

O mais interessante deste conto é o facto de seguir fielmente as regras da ficção científica tal como continuou a ser praticada ao longo todo o século que se seguiu. Não por todos os seus praticantes, bem entendido. Mas por muitos.

Isto, claro, apesar de haver também nele inegáveis ressonâncias dos mitos judaico-cristãos sobre o Armagedão. E também aí, na bem sucedida conciliação dessas influências religiosas com a ciência, o conto parece moderno.

É-nos apresentada uma ideia de índole científica, até mesmo em ambiente científico como na ficção de laboratório que tão comum tem sido na FC. Depois da ideia apresentada, o conto dedica-se a descrever os acontecimentos que são consequência da sua realidade. Para isso, faz uso de um casal de protagonistas que não perde muito tempo a desenvolver, pois a sua função é simplesmente servir de testemunhas dos acontecimentos. E estes são de dimensão verdadeiramente cósmica.

Apesar de irremediavelmente datado no que à verosimilhança científica diz respeito, mesmo apresentando uma ideia de uma modernidade surpreendente e ainda hoje válida (a de que há partes do universo que não são observáveis porque a luz que emitiram ainda não teve tempo para chegar até nós), trata-se de um conto bastante interessante para quem gosta de conhecer exemplares antigos do género. É, até certo ponto, o meu caso. Por isso, não posso realmente dizer que tenha gostado, mas li-o com interesse.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Lido: Uma Casa Assombrada

Uma Casa Assombrada (bibliografia) é uma vinheta fantástica de Virginia Woolf, que foge um pouco ao padrão do livro em que se insere, como aliás talvez fosse de esperar. Sim, tata-se, talvez, de uma história de fantasmas. Sim, envolve, talvez, uma casa assombrada, onde as portas se fecham sozinhas. Sim, talvez seja uma história sobre um casal de fantasmas que, como todos os fantasmas, estão presos ao passado. Sim. Talvez.

Mas também é possível que não haja mais fantasmas neste conto do que os fantasmas psicológicos que todos vamos gerando ao longo da vida e transportamos connosco. Sombras de velhos amores, de velhos ódios, de velhas paixões, de velhas desilusões. Também é possível que o casal de fantasmas seja apenas isso: velhas sombras existentes unicamente na memória.

Este é, pois, um conto aberto a todas as interpretações, o que faz dele muito todorovianamente fantástico. E sim, é um bom conto, parece-me, embora não um conto memorável.

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domingo, 30 de março de 2014

E já há feliz contemplada

Já temos feliz contemplada (é assim que se diz, não é? É obrigatório falar assim nestas coisas de sorteios, não é?) no sorteio de um exemplar de Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, livrinho cuja capa está aqui ao lado, cujo site está aqui, e cujos leitores andam por aí, desse lado das internetes e no mundo dito real. Agora vai haver mais uma, a quem endereço os parabéns e os votos de ótimas e divertidas leituras.

Parabéns, pois, à

Regina Gomes Catarino

Quanto a vocês, os outros que não ganharam, ainda há exemplares para venda. Se querem passar umas horas divertidas, é uma sugestão que vos faço.

Lido: A Guardiã da Memória

A Guardiã da Memória (bibliografia) é um romance planetário de Gerson Lodi-Ribeiro ambientado no seu mundo-zoológico de Ahapooka. Este é um planeta que está no centro de de uma série que começou a ser publicada sob o pseudónimo de Daniel Alvarez, um planeta bastante maior que a Terra onde uma misteriosa e poderosa raça alienígena estabeleceu algo de semelhante a uma reserva planetária para espécies inteligentes, permitindo às naves pousar mas impedindo-lhes a partida. Não se trata propriamente de ideia nova; já li várias obras de vários autores, entre contos e romances, que partem desta premissa básica, e a última até foi há relativamente pouco tempo. Mas é altamente redutor (e por isso disparatado) abordar as obras de FC só com base nas suas premissas básicas, e este livro é disso bom exemplo: tem muito mais que a premissa básica.

Muito mais.

No mundo de Ahapooka, as diversas espécies que aí ficam aprisionadas estabelecem as suas próprias culturas, distribuem-se pelos habitats disponíveis e encontram as suas próprias formas de organização social. Umas regridem ao barbarismo, outras continuam a desenvolver-se tecnológica e socialmente. Umas criam estados monoespecíficos e xenofóbicos, outras adotam sociedades abertas e recebem o Outro mais ou menos de braços abertos. O resultado é uma riquíssima manta de retalhos que, de braço dado com a vastidão do próprio planeta, gera possibilidades quase infindáveis para contar histórias.

Esta é apenas uma delas. Protagonizada por uma humana chamada Clara, descendente de uma das principais famílias de uma das nações mais poderosas de todo o planeta, Rhea, e agente secreta desta, conta uma expedição mais ou menos mal sucedida para recuperar um certo esqueleto que poderia levar à reavaliação do lugar da Humanidade no contexto das civilizações tecnológicas da galáxia (a sociedade galáctica está organizada à semelhança da do universo da Elevação, de David Brin, pois as espécies do presente são todas fruto de elevação por parte de espécies mais antigas, e existe uma velha polémica envolvendo a Humanidade, que pode, ou não, ter chegado independentemente à inteligência e à civilização). Mas, mais do que a expedição, conta a fuga de Clara pelos oceanos de Ahapooka, a bordo de um imenso navio construído e tripulado por uma espécie de crustáceos, perseguida por forças militares de uma nação rival de Rhea, e acompanhada por um centauro.

Não por um centauro dos que conhecemos da mitologia, entenda-se. Gerson Lodi-Ribeiro escreve aqui ficção científica da dura, procurando manter sempre a verosimilhança científica. O seu centauro (que pertence, aliás, apenas a uma de várias espécies centauroides presentes no planeta) é adequadamente alienígena, inclusive no seu ciclo vital, pois passa por uma metamorfose semelhante às dos nossos insetos, após a qual emerge sob uma forma humanoide. E este facto é fulcral em toda a história.

Há quem tenha chamado erótico a este romance. Parece-me uma designação bastante desadequada. Embora exista sexo com certa fartura, pois Clara acaba por se envolver com o centauro de uma forma que acaba por constituir um dos eixos centrais da narrativa, na verdade encontrei nele muito pouco erotismo. Para mim, este romance é principalmente uma história de amor. Uma história de amor como só na ficção científica se pode criar. Uma história de amor que procura explorar os limites da humanidade e as formas que espécies inteligentes têm de lidar com o preconceito. Em A Guardiã da Memória há preconceitos de todos os tipos. Há o preconceito contra relacionamentos afetivos e sexuais interespecíficos. Há uma espécie em cuja biologia só as fêmeas são inteligentes e portanto não consegue conceber a noção de machos racionais, levando a um preconceito de género extremado. Há outros preconceitos de género. Há preconceitos quanto ao que leva, ao certo, a decidir-se que um sexo é "macho" e outro "fêmea" e, na sequência disso, há também preconceitos relacionados com a homossexualidade. Há preconceitos xenofóbicos. Há preconceitos sobre o estilo de vida que cada indivíduo escolhe para si. E por aí fora.

É a exploração de todos estes níveis de preconceito que Lodi-Ribeiro pretende realmente fazer. O sexo não é fulcro, mas consequência, uma mera ferramenta que ele usa porque vários dos preconceitos que lhe interessam têm um cariz sexual mais ou menos evidente. Este livro é, no fundamental, uma história sobre como o eu se relaciona com o outro, em especial se esse outro é diferente. Ou se à primeira vista parece diferente. Porque quem sabe se por trás de carapaças, tentáculos, géneros confusos e complexos, um sem-fim de pequenas e grandes estranhezas, não se esconderá um substrato de comunidade? Um substrato até, quem sabe, suficiente para servir de base ao florescimento de afetos?

É esta a exploração que Gerson Lodi-Ribeiro faz neste livro. Não se trata de um livro de ação, embora tenha alguma ação (não muita, há que dizê-lo, e bastante espaçada), em várias homenagens razoavelmente claras a Júlio Verne. Não se trata de um livro erótico, embora haja nele sexo com uma certa abundância. Trata-se de uma exploração profunda do preconceito, das suas raízes, das suas consequências, da coragem que ultrapassá-lo por vezes exige, e de como ele é ultrapassado às vezes quase sem se dar por isso. E nisso, e por isso, é um livro francamente bom.

Este livro foi-me oferecido pelo autor.

terça-feira, 25 de março de 2014

Lido: O Cúmplice

O Cúmplice (bibliografia), conto curto de ficção científica dura, de Vernor Vinge, é uma história que tem hoje em dia o interesse de nos mostrar como se imaginava há já quase meio século a invenção da computação gráfica tridimensional. Não exatamente como ela é feita hoje, claro, mas como processo automatizado por completo, capaz de transformar as palavras de um livro diretamente em imagem de síntese.

Ler hoje este conto é curioso por causa da estranha mistura que contém entre aquilo em que a previsão acerta e em que falha rotundamente. Mas não passa disso, em especial nesta tradução que chega a ser dolorosa por ser evidente que o tradutor não percebeu patavina do que estava a ler. Não é qualquer pessoa que pode traduzir ficção científica, e este conto demonstra-o na perfeição. A tradução, sozinha, conseguiu transformar um conto que parece ser pelo menos razoável num disparate pegado. Se é difícil avaliar as ideias do conto através dela, avaliá-lo literariamente torna-se totalmente impossível. A única coisa que se pode avaliar é o resultado final. E este é quase de fugir.

Contos anteriores desta publicação:

segunda-feira, 24 de março de 2014

E se eu vos oferecesse um livro?

E se eu vos oferecesse destes livrinhos? Não a todos, evidentemente, mas a um de vocês, a alguém bem escolhido pelas regras arcanas dos geradores de números aleatórios?

Sabem que mais? Acho boa ideia.

Portanto é o que vou fazer. Vou oferecer um exemplar a alguém que tenha gostado da página dedicada ao livro no Facebook. O prazo de recolha de nomes termina às 15 horas do próximo sábado, dia 29 de março. Hora de Portugal continental.

As regras são simples: todos os nomes que lá encontrar a essa hora serão importados para uma folhinha excel, e a cada um será atribuído um número aleatório. Depois serão ordenados do maior para o menor. O livro será oferecido ao maior de todos, exceto se não conseguir contactá-lo (em princípio, contactarei por mensagem direta, no facebook) nas 24h seguintes, caso em que passará para o seguinte, e assim sucessivamente. Em princípio, o sorteio será realizado ainda no sábado. Divulgarei os cinco primeiros nomes na página, para estarem atentos às mensagens, e aqui na Lâmpada será divulgado o nome do vencedor.

Detalhe: o exemplar a sortear é o número 5.

Outro detalhe: aqueles que já compraram o livro terão o triplo das hipóteses de ganhar um segundo exemplar, embora seja na mesma preciso estarem ligados à página. Ou seja: o seu nome será acrescentado três vezes à lista. Depois, poderão fazer do livro o que quiserem: oferecê-lo, oferecer o exemplar original, vendê-lo, ficar com os dois, seja o que for.

Isto há que apaparicar a clientela, não é?

Vá, quem quiser o livro já sabe. E quem quiser ter hipóteses melhoradas de o ganhar, só tem de mo comprar entretanto. O que é uma ótima ideia: mesmo que não o ganhe, poderá na mesma desfrutar dele. Só vantagens.


Lido: A Floração da Estranha Orquídea

A Floração da Estranha Orquídea é uma igualmente estranha história de R. G. Macready, a única, aliás, que o autor publicou. Tudo começa convencionalmente. Um homem suficientemente rico para não ter de trabalhar mas suficientemente medíocre para não ter nada em que gastar o tempo a não ser o cultivo de orquídeas, arranja um belo dia um exemplar que pode, ou não, ser algo de novo. Planta-o, a orquídea germina e desenvolve-se exalando um odor intenso e enjoativo... que quase tem terríveis consequências. Até aqui tudo bem; parece que estamos perante um típico conto de horror em que o perigo vegetal que é marca desta antologia toma a forma de uma orquídea predatória. Mas de repente, o protagonista original é esquecido, e a história transforma-se num relato de um jornalista que terá visitado a propriedade de um cientista, encontrando aí a aventura da sua vida e outro monstro vegetal mais monstruoso ainda do que o primeiro. E depois a história acaba sem sequer chegar perto de acabar, como se o autor se tivesse farto dela ou ficado sem saber bem como concluí-la.

O resultado é francamente mau. E irritante, porque há aqui uma série de boas ideias, mas estão concretizadas de uma forma tão desajeitada que o conto não tem ponta por onde se lhe pegue... e nada é mais irritante do que o desperdício de boas ideias. Este podia ter sido um bom conto de horror. Também podia ter sido um bom conto de ficção científica (os elementos estão lá, na segunda parte). Mas em vez disso é uma mixórdia sem pés nem cabeça.

Enfim... venha o próximo.

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Lido: O Mendigo Sexta-Feira Jogando no Mundial

O Mendigo Sexta-Feira Jogando no Mundial é um ternurento continho de Mia Couto sobre um mendigo, apelidado de Sexta-Feira, que se apresenta no hospital com dores verdadeiras, ao contrário das habituais dores inventadas que lhe costumam servir de pretexto para obter um pouco de calor humano. Ternurento, mas ao mesmo tempo duríssimo, pois as dores do mendigo são resultado de uma luta por aquilo que considera ser os seus direitos de utilizador do espaço público da sua cidade, uma luta à qual o futebol serve de pretexto e combustível. Claro que Sexta-Feira acaba derrotado, por isso a visita ao hospital. Mas ao mesmo tempo sai vitorioso pelo simples facto de ter lutado.

Do texto de Mia Couto já não vale a pena falar; é igual a si próprio. Mas neste conto é particularmente eficaz e contundente à sua maneira sinuosa. Muito bom.

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domingo, 23 de março de 2014

Lido: Glosa a Dylan

Glosa a Dylan é mais um textozinho dificilmente classificável de José Alberto Braga, embora o título explique mais ou menos de que se trata. Pois parece que Bob Dylan terá dito um belo dia uma certa frase, e Braga decidiu pegar nela e glosá-la. Oito vezes. Até aqui tudo bem. O chato é que nenhuma das glosas tem qualquer graça. Nem a mínima sombra dela. E por isso, esta Glosa a Dylan é dos textoszitos mais desinteressantes de todo o livro.

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Lido: Um Bigode e Peras

Um Bigode e Peras é um crónica de Miguel Esteves Cardoso que é bom que os brasileiros não leiam. Nunca. É que fala do bigode lusitano, e já há piadinhas mais que suficientes a esse respeito lá pelas terras batizadas em honra de um pau sem que ainda venham ler estas coisas para se inspirarem para mais.

Aqui, o MEC discorre profusamente, com o seu habitual português limpo e a sua costumeira ironia, sobre as pilosidades faciais que adornam as façanhudas carantonhas dos seus compatriotas. Ou adornavam, que isto data de há uns anos valentes e entretanto o tuga tipo se escanhoou bastante mais do que era hábito nestes longínquos antigamentes. Trata das bigodaças, principalmente, embora também passe de passagem pelas peras e por outros tipos de pelame. Com piada, sim, e bastante, embora vá perdendo alguma no decorrer da crónica. Mas também com aquela irritante sobranceria provinciana do candidato a aristocrata, sempre a olhar para fora em busca de uma mirífica civilização que existirá algures mas não aqui. São as duas faces do Miguel Esteves Cardoso, e não existe uma sem a outra. Às vezes é pena. Aqui? Sim, talvez seja um pouco. Mas não o suficiente para matar o humor.

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Lido: A Mulher do Pescoço Torcido

A Mulher do Pescoço Torcido (bibliografia) é um conto de fantasmas de Robert Louis Stevenson, famoso pel'A Ilha do Tesouro e pel'O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Com tais pergaminhos, a expectativa com que se pega nesta história é elevada, mas infelizmente a sua qualidade está longe de lhe corresponder. Trata-se de uma história de fantasmas razoavelmente típica, ambientada na Escócia, protagonizada pelo reverendo de uma paróquia distante e isolada que a dada altura ganha como espécie de governanta uma mulher com fama de bruxa entre as pessoas da terra. Depois, o tempo passa, e começam a haver aparições e portentos, e o reverendo, a princípio cético, como é normal em tantas destas histórias, achando que a mulher se limita a ser uma boa alma com uma má fama imerecida, vai aos poucos deparando com casos inexplicáveis sem a presença do sobrenatural, e transforma-se em crente. Traumaticamente.

Se bem que haja a peculiaridade de termos aqui um sacerdote cético, um ambiente escocês algo curioso e mais alguns pormenores com interesse, achei esta história bastante banal. Não só obedece à fórmula de "protagonista cético -> prodígios indesmentíveis -> protagonista crente e apavorado" que já estava razoavelmente batida quando Stevenson a escreveu, como é concluída com um deus ex-machina muito literal ("e naquele instante, a mão de Deus, descendo dos Céus", etc.), que é um artifício narrativo mais batido ainda: vem desde o teatro grego.

Gostei muito pouco deste conto. Provavelmente teria gostado mais se tivesse as expectativas mais baixas quando comecei a lê-lo, mas o que é certo é que o acabei de nariz torcido.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Cá Estão os Robots

Cá Estão os Robots (bibliografia) é um conto de ficção científica de Terry Carr datado de 1967, cuja atmosfera é assim uma espécie de golden age tardia. A história é bastante típica de uma certa ficção científica procupada com o perigo que os robots podem representar, ainda que tenha uma certa originalidade. Pelo menos à época. É que entretanto já pudemos desfrutar até dos filmes da série Terminator, e quase tudo o que este conto contém já se transformou em puro cliché. Mas estou a pôr o carro um pouco à frente dos bois.

A história passa-se no futuro próximo de si própria, que entretanto já se transformou no nosso passado. Um homem, o protagonista, descobre um número de telefone na carteira, número esse que lhe é estranho apesar de aparentemente ter sido escrito com a sua letra. Curioso, liga para lá. Do outro lado responde-lhe uma estranha voz a confirmar uma reunião para dia tal às tantas horas... reunião que ele também desconhece por completo. Mas fica ainda mais curioso, e por isso vai.

A partir daí, o conto torna-se um pouco pateta. Como já vos falei de Terminator, já terão deduzido que estamos perante uma conspiração robótica para dominar a humanidade (ou talvez nem por isso), e que há viagens no tempo envolvidas na trama. Sim, deduziram bem. O problema é que ninguém acredita que robots tão básicos como os que Carr nos apresenta sejam capazes de tal coisa. O resultado é um bocadinho ridículo. E como a prosa (e a tradução) também é fraquinha...

Enfim, uma leitura pouco estimulante, para dizer o mínimo.

Conto anterior desta publicação:

Lido: Entra no Meu Jardim

Entra no Meu Jardim é um conto de Frank B. Long que, apesar de lidar com a morte, não sei bem se merece o epíteto de horror. É principalmente um conto bizarro, com muito de surreal, que começa quando um homem chega de uma viagem de negócios à sua casa suburbana e, em vez de lá encontrar a sua querida mulherzinha submissa e doméstica à boa maneira dos meados do século XX, a vai descobrir vazia. E o jardim, luz dos olhos da mulher, vai encontrar transmutado num matagal de flores desconhecidas, cultivadas por uma estranha criatura que o leva a mergulhar num mundo alucinatório de que não consegue tirar sentido e que envolve não só a mulher e o jardim, mas também um amigo psicólogo (ou será psiquiatra?... não se percebe bem), um morto com uma bala na cabeça, aquilo que lhe parecem ser pequenos demónios, insetos invisíveis e por aí fora. É um conto de que gostei bastante mas que decididamente não é para todos os leitores: há nele muito de inexplicado e talvez de inexplicável, e a sua estrutura entrecortada, muito onírica, pode servir de repelente para leitores mais amigos de ter um chão literário sólido sob os pés. Aqui não o têm. E foi precisamente disso que eu mais gostei.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 22 de março de 2014

Lido: Entrada no Céu

Entrada no Céu é mais um continho de Mia Couto que, desta vez, nada tem de fantástico. O protagonista é um homem, negro, moribundo, que reflete, na primeira pessoa, em dúvidas teológicas sobre a entrada no paraíso, fazendo a associação com um antigo caso de discriminação (e de amores, naturalmente) ocorrigo consigo no Moçambique colonial e racista. Tem a habitual qualidade invulgar da prosa de Mia Couto, mas não foi dos contos que mais me agradaram, talvez por me parecer que tenta meter demasiadas coisas no curto espaço de três páginas e picos. É certo que consegue, mas não me parece que o faça com tanta eficácia como noutros contos do autor.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 21 de março de 2014

Lido: Xochiquetzal em Cuzco

Xochiquetzal em Cuzco (bibliografia) é, nesta versão que (re)li, uma noveleta de Carla Cristina Pereira. Entretanto, este texto já foi expandido e já "mudou de autor", após a revelação da verdadeira identidade da amiga Carla que, na altura em que este livro saiu, ainda era segredo bem guardado.

Nesta história alternativa, que reimagina um Império Português centrado nas Américas e não nas costas africanas e índicas, vamos acompanhar Xochiquetzal, uma princesa asteca que uma astuta política de alianças com os grandes impérios pré-colombianos (que, nesta linha temporal, não seriam propriamente pré-colombianos) fez casar com Vasco da Gama, nas viagens em que acompanha o marido ao longo de três oceanos até regressar ao seu continente de origem. Ou por outra: ao continente situado a sul do seu continente de origem.

Tudo é contado segundo o ponto de vista de Xochiquetzal: é ela a narradora da história, e esse é um dos principais motivos de interesse que aqui se encontram. Vemos os velhos navegadores portugueses, as suas ideias, os seus valores, as opções que tomam, através de olhos astecas e femininos. Outro particular motivo de interesse é a linguagem utilizada, que não será propriamente o português arcaico de Quinhentos mas o simula com certa eficácia, semeando-o de palavras em línguas americanas numa contaminação que sem dúvida aconteceria em tal situação. Por outras palavras, esta história vale mais pela construção do mundo ficcional que lhe está subjacente do que propriamente pela história em si. Esta é mais pretexto do que fulcro, embora também tenha os seus momentos, nomeadamente na parte final da noveleta, quando Vasco da Gama e companheiros, sempre com Xochiquetzal como testemunha, intervêm numa disputa dinástica no Império Inca, o qual é, nesta realidade alternativa, vassalo da coroa portuguesa.

Trata-se de uma noveleta muito interessante para quem gosta de história alternativa, se bem que leitores menos interessados pelo tema possam achar demasiadas as páginas dedicadas mais à ambientação alo-histórica do que propriamente ao desenvolvimento do enredo. Julgo que a sua leitura também beneficia da leitura prévia de uma outra história da "Carla": Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança, o conto que apresentou ao público este universo ficcional, e com grande sucesso.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 17 de março de 2014

Lido: A Origem das Espécies

A Origem das Espécies é um livro que dispensaria apresentações se não fossem tantos os que dele falam sem nunca o terem lido. Esse facto faz com que não só a apresentação se torne necessária, mas até talvez indispensável. Portanto vamos a ela.

A Origem das Espécies é a obra mais conhecida de Charles Darwin, na qual esse famosíssimo naturalista inglês explana e defende a sua teoria sobre a formação e evolução das espécies biológicas. Em vida, Darwin fez várias edições deste livro, e esta que o Público publicou é pelo menos a terceira. Uma referência, algures no volume, a qual edição, ao certo, é aqui traduzida teria sido útil, porque Darwin foi, em cada edição, atualizando o texto, somando-lhe respostas a ataques e contestações à teoria, clarificando certos aspetos e reformulando pormenores cuja natureza e explicação foi sendo afetada por novos conhecimentos.

Ou seja, trata-se de um livro científico até ao âmago, refletindo até na sua história de publicação a natureza eternamente incompleta e dialética do conhecimento científico. A ausência de uma referência a esse facto nesta edição é uma das suas grandes falhas, em especial quando praticamente todos os outros livros publicados na coleção em que este se insere ("Livros que Mudaram o Mundo") são de uma natureza bem distinta. Na verdade, até o próprio título da coleção pode induzir em erro. Não creio que tenha sido tanto o livro de Darwin a mudar o mundo, mas a filosofia e metodologia que lhe está subjacente: o método científico. Este livro é apenas filho do método científico. Um filho dileto, certamente, mas um filho mesmo assim. O método precede-o e sucede-o, e o livro em si é apenas dele consequência.

Mas, meus caros amigos, que consequência!

Trata-se de um livro brilhante, no qual Darwin explana extensamente as suas ideias sobre a evolução, explicando o raciocínio que esteve na sua génese (muitissimo simplificadamente: Darwin encontrou um paralelismo claro entre a criação das variedades nas espécies domesticadas e o surgimento de variedades em tudo semelhantes em espécies selvagens; todo o edifício teórico nasceu daí, concentrando-se o cientista em seguida nos mecanismos que poderiam substituir, na natureza, a ação que em cativeiro é desempenhada pelo homem). E fá-lo sem nunca fugir às maiores dificuldades que a teoria enfrentava no seu tempo, reconhecendo com frequência o caráter insuficiente do conhecimento científico da sua época, mas considerando que aquilo que já era conhecido era suficiente para que a sua explicação para como e porquê a natureza está repleta de variedade fosse a mais apoiada pelos factos.

Lembremo-nos de que na época de Darwin factos fulcrais como a deriva continental ou a existência do ADN eram completamente desconhecidos. Até a realidade do tempo geológico estava envolta em densas brumas, e o máximo de que os geólogos eram capazes eram ideias vagas baseadas em grande medida na velocidade de criação de depósitos sedimentares. Começava-se apenas a ter alguma solidez na ideia de que a Terra, e por conseguinte a vida na Terra, existiu durante uma quantidade praticamente inimaginável de tempo antes de ser marcada pelas primeiras pegadas humanas.

Com estas limitações, a correção genérica da teoria darwinista é absolutamente notável. Tal como notável é o rigor e honestidade intelectuais, e a dedução lógica sempre baseada em factos tão sólidos quanto possível, com que ele chega à teoria. Obviamente, nem tudo o que escreve neste livro é verdade. Seria impossível que fosse, e o próprio Darwin o reconhece, dando como exemplo do porquê algumas ideias que ele próprio nutriu em tempos e depois abandonou por terem colidido com novas observações. Mas não há qualquer dúvida de que Darwin fez o melhor que alguém poderia fazer com os dados que tinha à disposição. Incluindo a sua explanação a uma vez rigorosa e didática, inteiramente legível por qualquer pessoa que tenha um conhecimento mínimo destas matérias (ainda que para melhor apreciar o livro convenha ter mais do que um conhecimento mínimo, em especial no que toca à história da ciência).

A Origem das Espécies é, sem sombra de dúvida, um grande livro. Não terá mudado o mundo, mas anunciou ao mundo que ele estava a mudar. Para grande incómodo de algumas pessoas, incapazes de compreender que a realidade é o que é, independentemente de acreditarem nela ou não. Que o incómodo e alguma polémica (inteiramente estéril, diga-se de passagem) perdurem ainda hoje, mais de cento e cinquenta anos depois da publicação desta obra, é eloquente testemunho do poder que as ideias falsas podem ter quando demasiado entranhadas em psiques mais avessas ao pensamento.

Para o leitor português há ainda um motivo adicional de interesse: o papel central que os nossos arquipélagos atlânticos, e em especial o da Madeira, têm no argumentário de Darwin. Estamos habituados a associar Darwin e este seu livro às ilhas Galápagos, mas a verdade é que a Madeira surge nas suas páginas com muito maior frequência.

Este livro foi comprado.

(e finalmente terminam as opiniões de leitura referentes a... 2013!)

sexta-feira, 14 de março de 2014

No reino do ah, e tal

Hoje irritei-me politicamente. Não é coisa inédita, longe disso — em especial nos últimos tempos — mas hoje foi um pouco mais do que tem vindo a ser triste hábito.

Poderão pensar por esta altura que essa irritação teve algo a ver com o chumbo da coadoção por casais homossexuais. Pensam bem. Mas não foi pelo chumbo em si, mesmo pensando eu, como penso, que só um pulha poderá opor-se a que crianças que existem em famílias que existem possam ter formalmente como pais os únicos pais que conhecem. Que 112 pessoas se tenham vindo agora declarar com toda a clareza pulhas já nem me surpreende nem irrita: era precisamente essa a ideia que eu já tinha sobre a nossa direita (salva-se nela um punhado de pessoas com coluna vertebral, a que aproveitaria para tirar o chapéu se usasse tal coisa), e vindo de gente daquela nada me surpreende. Absolutamente nada.

Não, o que me irritou foi outra coisa.

O que irritou foi deparar logo com as conversas da treta do costume a falar de "os deputados" isto, "os políticos" aquilo, vindas de gente que acha (corretamente) que o resultado da votação foi uma vergonha.

Recordo: o diploma foi votado por 223 deputados, com liberdade de voto basicamente por todo o lado. Houve quem faltasse à votação, a Dama Inconseguida não votou apesar de estar lá devidamente empoleirada no seu varandim, e quatro deputados abstiveram-se. Ou seja: 107 votaram a favor. Todos os do BE, todos os do PCP, todos os dos Verdes, a grande maioria dos do PS e alguns do PSD.

Por isso, por que carga de água me vêm com merdas sobre "os deputados" ou "os políticos"?!

Que deputados? Que políticos?

Se há coisa que votações como esta provam sem deixar qualquer margem para dúvidas é que eles não são todos iguais. Que há diferenças. Que embora haja 112 pulhas, há quase igual número de pessoas que não o são. Que os pulhas estão bem circunscritos numa determinada área política. Por isso que raio tem na cabeça quem me vem, a este propósito, com a conversa estafadíssima do "ah e tal, e os políticos"?!

Há limites, caraças!

A sério? Parem de arranjar desculpas para a forma estúpida como votam ou como deixam para outros as decisões sobre quem eleger para o parlamento. Se os deputados em que votaram ou que deixaram eleger não votam como vocês acham que deviam votar não é porque "ah e tal, os políticos", é porque vocês votam mal.

Se não se sentem representados por aqueles 112 pulhas, a solução é simples: votem nos outros. Eu senti-me representado por aqueles em quem votei. Votaram como eu votaria. Votaram na decência. Votaram na humanidade.

Porque, muito decididamente, não são todos iguais.

O maior comunicador de ciência

Antes, durante e depois da estreia da nova versão da série Cosmos, vi por todo o lado referências ao Carl Sagan em que se lhe chamava "o maior divulgador de ciência do século XX" ou variações desta ideia. E senti-me incomodado.

Em parte é compreensível. Carl Sagan é herói de muita gente. Para mim, até é mais do que herói: é um dos meus pais intelectuais. Sagan foi das raríssimas figuras públicas cujo falecimento me causou um desgosto profundo. Perdê-lo foi como perder alguém de família, e não há aqui o mínimo exagero. E, sim, considero-o um grande comunicador de ciência, responsável por uma série absolutamente central no que foi e talvez continue a ser a atitude de uma geração inteira para com a ciência e o universo. Ou pelo menos da parte dessa geração que aprendeu com ele a pensar.

Mas não foi o maior comunicador ou divulgador de ciência do século XX. Faz parte de um rarefeitíssimo Olimpo no qual se inserem também nomes como Jacques Cousteau ou Isaac Asimov, mas não consegue suplantar outro nome, o único de todos que continua vivo.

Falo, obviamente, de David Attenborough. Attenborough não tem rival. Pela longevidade da sua carreira, pelo seu estilo característico e inimitável (embora muitas vezes imitado — parece contraditório mas não é), pela impressionante qualidade da grande maioria dos projetos em que se envolve, sejam séries documentais, sejam livros, seja o que for. Pelo profissionalismo. Pois enquanto tanto Sagan como os outros tiveram carreiras de grande relevo noutras áreas, na ciência ou na literatura, Attenborough (quase) só fez divulgação de ciência. E isso, conjugado com o seu talento nato de comunicador, fez com que acabasse por fazê-la incomparavelmente bem.

Por isso me incomoda quando tentam pôr Sagan no seu lugar. Até porque não é, de todo, necessário. Sagan não necessita desse tipo de engrandecimento.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Lido: Acredite se Quiser

Acredite se Quiser é mais uma daquelas listas de trocadilhos de que há muito pouco a dizer. José Alberto Braga parece gostar muito delas, atendando à sua frequência nos textos que se somam para formar este livro, mas nem sempre compartilho dessa sua preferência. E este é um dos casos em que definitivamente não compartilho. Não só se trata de uma lista bastante simples de máximas ao estilo de "para quem morre, a vida não existe" ou "para quem mora na China, o rio Tejo é invisível" que, ao contrário do que acontece com outras destas listas, não trazem nenhuma espécie de história incluída, limitando-se à gracinha, como esta, a gracinha, tem pouquíssima graça. Inteiramente dispensável.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 1 de março de 2014

Lido: Nomes da Nossa Terra que Urgiria Esquecer

Nomes da Nossa Terra que Urgiria Esquecer é, num certo contraste com o texto anterior, das coisas mais hilariantes que já se escreveram nesta nossa língua portuguesa. Esta crónica de Miguel Esteves Cardoso (ou melhor: crónicas, pois trata-se aqui da junção de duas crónicas publicadas em duas semanas sucessivas) pega nas peculiaridades e excentricidades da toponímia portuguesa que, convenhamos, são abundantes, e com elas constrói um delirante libelo contra o primitivismo inerente a tais nomes, denunciando a vergonha que eles provocam a quem habita nas terras que designam ou delas é natural e, por extensão, a todo o país, que tem de apresentar tais lugares aos estrangeiros. É certo que há aqui algo do que de mais desagradável existe em Miguel Esteves Cardoso (aquela ideia, em parte irónica e ternurenta, mas em parte muito séria, de que Portugal, no fundo, não passa de um bando de selvagens a necessitar urgentemente de civilização vinda de fora... e especialmente de Inglaterra), mas a verdade é que o texto, além de estar tão bem escrito como é hábito no MEC, é de ir às lágrimas. Muito, muito divertido.

Textos anteriores deste livro: