Enterro Televisivo, mais um dos pequenos contos de Mia Couto, é uma ternurentíssima história de amor. O título fornece pistas sobre o que se passa: estamos a acompanhar um enterro que não é como os do costume pois a viúva se vira para os netos e exige uma televisão nova. Que se passa com a antiga?, perguntam-lhe e ela encolhe-se nas poucas palavras da velhice obstinada. Mas lá lhe vão arrancando aos poucos que a antiga já não tem, que foi vontade do falecido, e por aí fora. Não vou contar tudo.
É um conto sobre a morte e a dor da perda definitiva de quem se ama. Sobre aquilo que fazemos e, mais ainda, sobre o que gostaríamos de ainda poder fazer pelos nossos entes queridos (detesto esta expressão) que já se foram. Sobre o luto.
Bate fundo, o raio do conto. Deve ser por isso que é bom. Ou vice-versa.
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sábado, 17 de maio de 2014
Lido: A Revolta dos Pesos e Medidas
A Revolta dos Pesos e Medidas é um divertido conto surrealista, também de algum ou alguns dos autores do Pão Com Manteiga, sobre o que acontece um dia em que algum desavisado deixa a balança e a fita métrica ao pé do relógio. Sim, que os instrumentos de medida têm tendências subversivas e não é muito saudável deixá-los conspirar à vontade, como este conto tão bem ilustra. Que os tipos decidem trocar-se para nos baralhar. Devem achar divertido ver a malta feita barata tonta sem saber a que distância se sai do trabalho ou quantos quilos tem de percorrer para chegar a casa ou quantos metros irá engordar se não fizer exercício. E se não acham, achamos nós, os leitores. Ou pelo menos eu, o leitor, que isto de humor é coisa subjetiva por natureza. As personagens, essas, é que não acharam gracinha nenhuma.
E sim, este conto é claramente fantástico.
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E sim, este conto é claramente fantástico.
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sexta-feira, 16 de maio de 2014
Lido: O Roque e a Amiga
O Roque e a Amiga é um continho Pão Com Manteiga sobre um casal, ele chamado Roque, ela identificada como amiga. Também é uma anedotazinha de salão, com muito pouca graça, baseada no trocadilho entre "Roque" e "rock". Basicamente, o enredo é: a amiga pesa-se e o Roque ri-se. Porquê?, pergunta a amiga. Porque, responde o Roque, badum-tss, punch line.
Tudo bastante medíocre. Ou talvez seja a idade da piada a torná-la desinteressante, não sei bem. O facto é que o é.
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Tudo bastante medíocre. Ou talvez seja a idade da piada a torná-la desinteressante, não sei bem. O facto é que o é.
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Lido: O Carteiro
O Carteiro é um conto de um dos autores do Pão Com Manteiga (ou de mais do que um, quiçá? Eles foram seis.) sobre um homem, solitário, que vivia uma vida dupla. De dia, era carteiro. De noite, no entanto, depois de dormir umas horinhas dedicava-se a ser o que lhe calhasse ser, sentado a uma mesa e de caneta na mão.
É um conto mais melancólico do que hilariante. Na verdade, de hilariante nada tem. É um pouco irónico, sim, mas trata-se de uma ironia tristonha, que espicaça mais pelo isolamento do protagonista e por aquilo que ele faz para o diminuir um pouco do que propriamente por qualquer outro fator. Tem o seu quê de insólito, este conto, mas é mais um estudo de personagem que outra coisa qualquer.
Se gostei? Sim, até gostei. Não muito, mas gostei.
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É um conto mais melancólico do que hilariante. Na verdade, de hilariante nada tem. É um pouco irónico, sim, mas trata-se de uma ironia tristonha, que espicaça mais pelo isolamento do protagonista e por aquilo que ele faz para o diminuir um pouco do que propriamente por qualquer outro fator. Tem o seu quê de insólito, este conto, mas é mais um estudo de personagem que outra coisa qualquer.
Se gostei? Sim, até gostei. Não muito, mas gostei.
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Lido: Extrato de "Dádivas Divinas"
Extrato de "Dádivas Divinas" é um pequeno fragmento de Rui Zink, carregadinho de um humor bem negro. Não sei sobre o que será o livro, mas este fragmento é sobre a guerra, a perda de peso e o empreendedorismo, bem como sobre as linhas com que se cose a política internacional.
É frequente o humor servir para fazer denúncias. Há até quem ache que esse é um dos seus usos mais nobres, embora outros discordem. Seja como for, é o caso aqui.
Não sei se gostaria do livro e confesso não ter ficado tão curioso a respeito dele como de outros com excertos incluídos nesta antologia, mas do excerto gostei.
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É frequente o humor servir para fazer denúncias. Há até quem ache que esse é um dos seus usos mais nobres, embora outros discordem. Seja como for, é o caso aqui.
Não sei se gostaria do livro e confesso não ter ficado tão curioso a respeito dele como de outros com excertos incluídos nesta antologia, mas do excerto gostei.
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quinta-feira, 15 de maio de 2014
Lido: Primeira Mão
Primeira Mão é um continho irónico de Rui Zink, este com forte pegada fantástica. Trata do otimismo e do pessimismo e tem como protagonista e narrador um homem de tal forma mergulhado em problemas que tem até receio de poder ser morto a qualquer momento. O cenário é um bar, onde o protagonista conversa com um amigo. Aquele, é pessimista, ou se calhar realista; este, pelo contrário, é um firme crente na ideia de que se ignorarmos os problemas eles desaparecem automagicamente e tenta convencer o protagonista de que é assim que o mundo funciona. Com um sucesso, no mínimo, irónico, como vemos no fim.
É um bom continho. Um continho com moral, felizmente apenas implícita. Duvido é que neste mundo de avestruzes haja muitos capazes de a compreender. Isso, no entanto, não é defeito do conto.
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É um bom continho. Um continho com moral, felizmente apenas implícita. Duvido é que neste mundo de avestruzes haja muitos capazes de a compreender. Isso, no entanto, não é defeito do conto.
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Lido: A Inacreditável mas Verdadeira Estória de D. Nicolau Água-Rosada
A Inacreditável mas Verdadeira Estória de D. Nicolau Água-Rosada é um conto mágico-realista de José Eduardo Agualusa ambientado na antiga colónia de Angola, ainda no século XIX. O protagonista, D. Nicolau Água-Rosada e Sardónia, é um príncipe africano, do Congo, que depois de ser educado em Portugal renega a sua condição de príncipe e prefere viver uma vida pacata com um emprego normal, em Luanda... isto até que é puxado, algo a contragosto, para dentro de uma conspiração para libertar o seu povo. Aí, vai acabar por se ver confrontado quer com as contradições próprias de uma colónia, quer com as escolhas do seu passado.
A história é curta mas interessante e tem um tom muito realista até ao final, onde o realismo mágico toma o controlo de uma forma que me fez lembrar o início e mais alguns trechos do Barroco Tropical e que não vou revelar porque o final é muito importante para o pleno desfrutar da história. Parece andar ali imagem recorrente, talvez mesmo obsessão do autor.
Uma coisa que achei curiosa foi ver os portugueses praticamente ausentes da história, mesmo tratando-se esta, basicamente, de uma conspiração para livrar o Congo (não Angola; especificamente o Congo) do jogo colonial português. É como se Agualusa nos dissesse que Portugal e os portugueses, no fundo, não tinham grande influência nas condições que fizeram com que o colonialismo perdurasse. É uma ideia que me parece algo estranha, mas espicaçante.
Conto anterior deste livro:
A história é curta mas interessante e tem um tom muito realista até ao final, onde o realismo mágico toma o controlo de uma forma que me fez lembrar o início e mais alguns trechos do Barroco Tropical e que não vou revelar porque o final é muito importante para o pleno desfrutar da história. Parece andar ali imagem recorrente, talvez mesmo obsessão do autor.
Uma coisa que achei curiosa foi ver os portugueses praticamente ausentes da história, mesmo tratando-se esta, basicamente, de uma conspiração para livrar o Congo (não Angola; especificamente o Congo) do jogo colonial português. É como se Agualusa nos dissesse que Portugal e os portugueses, no fundo, não tinham grande influência nas condições que fizeram com que o colonialismo perdurasse. É uma ideia que me parece algo estranha, mas espicaçante.
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terça-feira, 13 de maio de 2014
Lido: A Porta
A Porta é um conto curto e bizarro de E. B. White. Dramático? Talvez. A mim, pareceu mais que está entre o surrealista e o realista, entre o onírico e o demasiado concreto e real. Um conto sobre a loucura, contado por um louco e por isso repleto de alusões alucinatórias e fragmentos de realidade a(du)lterada. Não há nele grande enredo, e o que há está subentendido. É daqueles contos que, mais do que relatar uma história, se preocupam em descrever uma situação, deixando que a história seja criada pelo leitor com base nos antecedentes entrevistos e nas consequências previsíveis dessa situação.
Eu gostei deste conto. Até talvez tenha gostado bastante. Mas compreendo que para muita gente não será fácil gostar dele. É porventura demasiado absurdo, demasiado diferente do que se costuma ler por aí. Para mim, isso é bom, especialmente em contos. Para outros leitores não será.
Eu gostei deste conto. Até talvez tenha gostado bastante. Mas compreendo que para muita gente não será fácil gostar dele. É porventura demasiado absurdo, demasiado diferente do que se costuma ler por aí. Para mim, isso é bom, especialmente em contos. Para outros leitores não será.
Lido: A Vida com Jane
A Vida com Jane (bibliografia) é uma noveleta de ficção científica de A. E. Van Vogt que, infelizmente, foi traduzida pelo Eduardo Saló. Sim, esta é mesmo a informação mais relevante que se pode dar sobre esta leitura.
É que a história parece talvez não ser propriamente boa, mas ser pelo menos interessante, inteligente e muito dependente da precisão da linguagem para funcionar. Gira em volta de androides quase indistiguíveis dos humanos e de uma rapariga que foi educada com eles e por eles e mostra algumas capacidades extraordinárias, tudo no meio de uma trama quase policial com tomadas de reféns e exigências de libertação de prisioneiros. Só que no meio disto tudo aparece o Saló.
Eduardo Saló é famigerado por chamar "cibermaníaco" ao "ciberpunk" e mostrar uma certa tendência para "corrigir" o que não percebe quando está a traduzir FC. Naves vivas transformam-se magicamente em vulgares naves de aço e coisas do género. E aqui nota-se demasiado que houve muito que não percebeu. As "correções" saíram-lhe francamente mal. O resultado? Um texto quase ilegível, atrás do qual Van Vogt quase desaparece.
Há traduções que ultrapassam a simples ruindade e atingem o grau de catastróficas. Esta é uma delas.
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É que a história parece talvez não ser propriamente boa, mas ser pelo menos interessante, inteligente e muito dependente da precisão da linguagem para funcionar. Gira em volta de androides quase indistiguíveis dos humanos e de uma rapariga que foi educada com eles e por eles e mostra algumas capacidades extraordinárias, tudo no meio de uma trama quase policial com tomadas de reféns e exigências de libertação de prisioneiros. Só que no meio disto tudo aparece o Saló.
Eduardo Saló é famigerado por chamar "cibermaníaco" ao "ciberpunk" e mostrar uma certa tendência para "corrigir" o que não percebe quando está a traduzir FC. Naves vivas transformam-se magicamente em vulgares naves de aço e coisas do género. E aqui nota-se demasiado que houve muito que não percebeu. As "correções" saíram-lhe francamente mal. O resultado? Um texto quase ilegível, atrás do qual Van Vogt quase desaparece.
Há traduções que ultrapassam a simples ruindade e atingem o grau de catastróficas. Esta é uma delas.
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Lido: O Caçador de Ausências
O Caçador de Ausências é mais um continho fantástico de Mia Couto com tudo o que costuma tornar tão inconfundíveis os seus contos. Mas aqui com especial pureza, parece-me. A inventiva linguística, a poesia do neologismo e das subtis ligações de ideias está aqui particularmente apurada, como se Couto tivesse escrito este conto mais inspiradamente do que é hábito.
O tema é um salvamento. Um homem desloca-se entre uma terra e outra para tentar resgatar dívida antiga e, ao voltar de bolsos tão vazios como partira, depara com bandidos armados. Morte iminente, no mínimo estropio. Mas eis que é salvo, da forma mais inesperada possível. Porquê? Aí entra o fantástico, bastante todoroviano na medida em que não é claro se o que conta é a verdade se não passa de interpretação imaginosa.
Tudo somado, temos um conto magnífico, mais um. Dos melhores do livro, se não mesmo o melhor.
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O tema é um salvamento. Um homem desloca-se entre uma terra e outra para tentar resgatar dívida antiga e, ao voltar de bolsos tão vazios como partira, depara com bandidos armados. Morte iminente, no mínimo estropio. Mas eis que é salvo, da forma mais inesperada possível. Porquê? Aí entra o fantástico, bastante todoroviano na medida em que não é claro se o que conta é a verdade se não passa de interpretação imaginosa.
Tudo somado, temos um conto magnífico, mais um. Dos melhores do livro, se não mesmo o melhor.
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segunda-feira, 12 de maio de 2014
Lido: Penúltima Hora
Penúltima Hora é outro texto de Rui Zink que imita os trejeitos linguísticos típicos dos textos jornalísticos para lhes fazer uma divertidíssima sátira. A "notícia" é sobre um atentado à bomba que teria destruído um restaurante lisboeta. Só que em vez de falar dos mortos e feridos, dos eventuais autores do atentado, do ideário que estaria por trás do ato, Zink (ou o jornalista que ele encarna) prefere discorrer longamente sobre... o menu do restaurante.
Muito divertido. Mesmo. E, se pensarmos bem, muito eficaz em termos de desconstrução irónica da linguagem jor... aa... hm... esperem: isto é conversa de crítico sério. Foi um arrebatamento momentâneo. Peço perdão. Não voltará a acontecer.
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Muito divertido. Mesmo. E, se pensarmos bem, muito eficaz em termos de desconstrução irónica da linguagem jor... aa... hm... esperem: isto é conversa de crítico sério. Foi um arrebatamento momentâneo. Peço perdão. Não voltará a acontecer.
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domingo, 11 de maio de 2014
Lido: Última Hora
Última Hora é, finalmente, um texto em prosa. Um texto de Rui Zink, surrealista, muito irónico e algo macabro, a imitar uma notícia de imprensa sobre um cidadão moçambicano que teria sido detido no aeroporto a tentar entrar legalmente no país, suspeito de tráfico de órgãos. Um daqueles críticos armados aos cágados provavelmente falaria de desconstrução irónica da linguagem jornalística, ou de algo do género. Mas eu não tenho cá cágados, portanto não digo. Digo só que gostei. Por ter achado graça, mas não só.
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Lido: Ainda Hoje Me Recordo
Ainda Hoje Me Recordo, outro primeiro verso, é uma quadra "defeituosa" de Daniel Maia-Pinto Rodrigues. Defeituosa porque, embora tenha quatro versos, não respeita as rimas e métricas que as quadras propriamente ditas exigem. O tema é de novo o sexo, uma vez mais revestido de um humor bastante básico, mas aqui piorado porque mesmo literariamente me parece que o texto pouco vale. Achei muito fraquinho.
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Lido: Aliás, Entende uma Coisa, Lilas
Aliás, Entende uma Coisa, Lilas, que volta a ser mero primeiro verso, é mais um dos minúsculos poeminhas de Daniel Maia-Pinto Rodrigues. Desta vez trata-se mais de uma experiência com aliterações e sua relação com as rimas do que de outra coisa qualquer. O poema é discurso direto, dirigido pelo poeta à dita (ao dito?) Lilas, e tem a ver com lulas e com pilas.
Piada? Alguma, mas pouca. O humor é um bocadinho básico em demasia. Olarilas.
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Piada? Alguma, mas pouca. O humor é um bocadinho básico em demasia. Olarilas.
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sábado, 10 de maio de 2014
Lido: Procimamente (Director's Cut)
Procimamente (Director's Cut), que desta vez é mesmo título (e não, não há nele nenhuma gralha), é mais um poemita de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, mais precisamente uma quadra, sobre o que o boi fez à rata. Bem, sobre isso mas também sobre a simplificação ortográfica excessiva (ou, como escreveria o putativo autor da quadra, eiscessiva) que, subentende-se, é coisa para que caminha a língua tal e qual é escrita o que, imagina-se, muito aflige o autor verdadeiro do alerta subentendido. Perceberam? Eu também acho que sim.
Tem alguma piada, sim, mesmo não concordando eu nada com estes alertas mais ou menos apocalípticos por mais travestidos de humor que pareçam. E nem é questão de "ezigência" (por que não "izigência", já agora?...). É porque procuro lembrar-me de que estas "deturpações" são em boa medida resultado da democratição do ensino e da alfabetização para todos, aliadas às tendências subversivas que a juventude que o é de facto sempre teve. Nem sempre consigo, em especial quando deparo com exemplos particularmente ridículos de miguxês. Mas procuro, isso procuro. E o texto sobre o poemita já vai muito mais longo do que o dito. Provavelmente porque não é só sobre o poemita. Ora bem.
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Tem alguma piada, sim, mesmo não concordando eu nada com estes alertas mais ou menos apocalípticos por mais travestidos de humor que pareçam. E nem é questão de "ezigência" (por que não "izigência", já agora?...). É porque procuro lembrar-me de que estas "deturpações" são em boa medida resultado da democratição do ensino e da alfabetização para todos, aliadas às tendências subversivas que a juventude que o é de facto sempre teve. Nem sempre consigo, em especial quando deparo com exemplos particularmente ridículos de miguxês. Mas procuro, isso procuro. E o texto sobre o poemita já vai muito mais longo do que o dito. Provavelmente porque não é só sobre o poemita. Ora bem.
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Lido: Enquanto as Coisas Levianamente se Dizem
Enquanto as Coisas Levianamente se Dizem, uma vez mais primeiro verso de um poeminha pequerrucho de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, é sobre uma tal Cristina Marques que flirta onde e quando não é lá muito cómodo fazê-lo. Há nele ironia, claro, uma ironia mais situacional, em clima de comédia romântica, que outra qualquer. Não me agrada muito, e como mesmo em termos literários o poema não me pareceu ser grande coisa, pois aí têm: não achei grande coisa.
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sexta-feira, 9 de maio de 2014
Lido: Na Antiga Casa da Minha Avó
Na Antiga Casa da Minha Avó, de novo primeiro verso de outro pequeníssimo poema de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, fala piadeticamente de excursões infantis a caves onde, supunha ele, habitariam fadas. Mas o que lá ia encontrar não seriam bem fadas. Tem graça, sim, e tem também um estilo de escrita que me agrada bastante mais que o da amiga Adília.
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Lido: A Mim
A Mim é o primeiro verso de um minúsculo poemita sem título de Daniel Maia-Pinto Rodrigues sobre o gozo que lhe dá andar com as mulheres dos outros. Piada? Alguma, sim, não digo que não.
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Lido: É Preciso Agir
É Preciso Agir, uma vez mais primeiro verso e não título, é outro dos textos de Adília Lopes que aliam ironia a um encadear inesperado e algo surrealista de imagens, muitas delas bem distantes de qualquer espécie de lirismo. E por isso mesmo é dos seus poemas que mais me agradaram, embora nenhum deles me tivesse realmente enchido as medidas por motivos já anteriormente explanados com algum detalhe. Este debruça-se sobretudo sobre a dificuldade que a cidade impõe à ação, que é como quem diz, à bela da queca.
Comiseremos.
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Comiseremos.
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terça-feira, 6 de maio de 2014
Lido: Duas Irmãs Solteironas
Duas Irmãs Solteironas, que volta mais uma vez a ser primeiro verso e não título, é, segundo a autora explica em nota inclusa, uma "anedota contada na aula pelo [seu] professor de Filosodia" Fulano de Tal. Adília Lopes resolve transformá-la em poema, o que no caso consiste apenas em subdividir as frases em versos. A anedota, essa, debruça-se sobre duas irmãs solteironas, uma gata que com elas vivia, e o que acontece quando uma das manas casou e perdeu os três. É um humorzito de salão, ao mesmo tempo malandreco e bem comportado, e isso é tudo o que me ocorre dizer sobre este texto.
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segunda-feira, 5 de maio de 2014
Lido: O Império das Lãs
O Império das Lãs, que volta a ser mesmo um título daqueles como deve ser, é mais um poema de Adília Lopes com o mesmo estilo, as mesmas ironias e até as mesmas personagens dos anteriores. Desta vez a coisa é surreal, com misturas entre o comezinho suburbano e os deuses do panteão grego e minotauros e touradas e Nárnia e Bennetton e o diabo virado a sete. Literariamente, gostei mais que dos outros. Gostei em especial do encadear inesperado de imagens e arquétipos culturais. Humoristicamente é que nem por isso. Talvez haja quem veja graça naquilo que de ungulado percorre todo o poema, mas eu não vejo lá muita.
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Lido: Maria Andrade
Maria Andrade, que volta a não ser título mas primeiro verso (e que além disso parece ser uma personagem recorrente em poemas da Adília Lopes), é mais um poema, lá está, da Adília Lopes. Desta vez o tema é a sodomia por intervenção médica. O estilo, claro, é igual ao dos outros, mas desta vez até achei graça. Não percebi a referência ao Nodi (sou totalmente ignorante em nodilogia, confesso), mas achei graça.
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domingo, 4 de maio de 2014
Lido: Em Virgem
Em Virgem, que volta a ser primeiro verso e não título, é outro poema de Adília Lopes. Este conta uma historieta suburbana sobre um casal que conversa sobre ver (ou ouvir) Fórumla 1 enquanto faz outras coisas. E eu agora atirava para aqui com umas frases redondas sobre o vazio existencialista (inexistencialista, será?), mas não estou para isso. Acrescento só que o estilo é o do costume e humor pouco existe, ou pelo menos pouco vi. É quanto baste.
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Lido: A Coleção Barbara Azul
A Colecção Barbara Azul, que desta v... hm... esperem aí. Vou mas é escrever isto à Adília Lopes.
A Colecção Barbara Azul
que desta vez é mesmo título
é um poema de Adília Lopes sobre
irreverências juvenis
às voltas entre o que era permitido e o que não era
entre a chatice e a pornografia
simpatizo com a irreverência
a sério que simpatizo
consigo detetar a ironia
a sério que consigo
mas não sou capaz de gostar do estilo
e o próprio humor é assim um bocadinho desenxabido
coisa de menina burguesa
às voltas com o seu umbigo
e assim se faz um poema
(poema?)
diz que sim
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A Colecção Barbara Azul
que desta vez é mesmo título
é um poema de Adília Lopes sobre
irreverências juvenis
às voltas entre o que era permitido e o que não era
entre a chatice e a pornografia
simpatizo com a irreverência
a sério que simpatizo
consigo detetar a ironia
a sério que consigo
mas não sou capaz de gostar do estilo
e o próprio humor é assim um bocadinho desenxabido
coisa de menina burguesa
às voltas com o seu umbigo
e assim se faz um poema
(poema?)
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sábado, 3 de maio de 2014
Lido: A Feira dos Assombrados
A Feira dos Assombrados é uma novela de José Eduardo Agualusa, muito ancorada no realismo mágico latinoamericano, sobre um caso insólito que o autor situa em finais do século XIX na cidade angolana do Dondo, que à época não passaria de uma simples vila: o rio, o Quanza, começa a trazer cadáveres. Afogados. Às dezenas.
O que faz mover a narrativa, aparentemente, é o mistério. Quem serão aquelas pessoas? Ou até: tratar-se-á mesmo de pessoas? Ou haverá naquele estranho sucedido alguma mão sobrenatural, de espíritos ou demónios, de coisas ímpias? Agualusa explora a tensão gerada por essas dúvidas, servindo-se de um elenco de personagens tão castiças que até chegam a incluir um bode mensageiro que se apresenta quase humano. Sempre mantendo o realismo mágico ao alcance de uma frase, conservando sempre a sugestão do irreal, do fantástico, como uma possibilidade muito concreta, ainda que nunca inteiramente explícita.
Mas o mistério só na aparência é o fulcro desta história. Ou, pelo menos, digamos que o é num primeiro nível de leitura. Escavando mais fundo, o que aqui encontramos é um retrato da vida e das figuras humanas características de uma vilazinha do interior de Angola colonial de há cento e poucos anos, com as suas estruturas de poder centradas no administrador português e no padre católico, com as suas rivalidades, com a sempre presente desigualdade de base entre brancos e pretos e os mulatos de permeio. No fundo, o retrato de um ambiente em determinado momento socio-histórico, no qual as superstições cruzadas e algo enlouquecidas que os afogados trazem à tona se integram organicamente.
E um retrato bastante bem feito, cheio de subtilezas e subentendidos mas ao mesmo tempo muito claro.
Quanto ao mistério... bem... se eu vos dissesse se ele chega, ou não, a ser resolvido iam cair-me em cima aos gritos de "spoilers", não é? Melhor ficar calado. Afinal de contas, na literatura, como na vida, alguns mistérios acabam por obter resposta esclarecedora enquanto outros têm de contentar-se em permanecer misteriosos por tempo indeterminado. Por isso, resta-me acrescentar algo que julgo já ser óbvio:
Gostei. Não assim muito, não daquele gostar de cair de quatro e boquiabrir-me de espanto e admiração, mas sim, gostei.
O que faz mover a narrativa, aparentemente, é o mistério. Quem serão aquelas pessoas? Ou até: tratar-se-á mesmo de pessoas? Ou haverá naquele estranho sucedido alguma mão sobrenatural, de espíritos ou demónios, de coisas ímpias? Agualusa explora a tensão gerada por essas dúvidas, servindo-se de um elenco de personagens tão castiças que até chegam a incluir um bode mensageiro que se apresenta quase humano. Sempre mantendo o realismo mágico ao alcance de uma frase, conservando sempre a sugestão do irreal, do fantástico, como uma possibilidade muito concreta, ainda que nunca inteiramente explícita.
Mas o mistério só na aparência é o fulcro desta história. Ou, pelo menos, digamos que o é num primeiro nível de leitura. Escavando mais fundo, o que aqui encontramos é um retrato da vida e das figuras humanas características de uma vilazinha do interior de Angola colonial de há cento e poucos anos, com as suas estruturas de poder centradas no administrador português e no padre católico, com as suas rivalidades, com a sempre presente desigualdade de base entre brancos e pretos e os mulatos de permeio. No fundo, o retrato de um ambiente em determinado momento socio-histórico, no qual as superstições cruzadas e algo enlouquecidas que os afogados trazem à tona se integram organicamente.
E um retrato bastante bem feito, cheio de subtilezas e subentendidos mas ao mesmo tempo muito claro.
Quanto ao mistério... bem... se eu vos dissesse se ele chega, ou não, a ser resolvido iam cair-me em cima aos gritos de "spoilers", não é? Melhor ficar calado. Afinal de contas, na literatura, como na vida, alguns mistérios acabam por obter resposta esclarecedora enquanto outros têm de contentar-se em permanecer misteriosos por tempo indeterminado. Por isso, resta-me acrescentar algo que julgo já ser óbvio:
Gostei. Não assim muito, não daquele gostar de cair de quatro e boquiabrir-me de espanto e admiração, mas sim, gostei.
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