sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Ariel Djanikian

Com Ariel Djanikian voltamos aos excertos de romances, e o dela intitula-se...

The Office of Mercy. Trata-se de uma história de ficção científica pós-apocalíptica, que descreve um mundo dividido em dois grupos bem distintos de sobreviventes. Pelas florestas vagueiam tribos de caçadores-recoletores, reduzidos ao estilo de vida dos nossos longínquos antepassados; encerrados em cúpulas e em subterrâneos vivem os restos da civilização tecnológica, com as suas máquinas e as suas hierarquias rígidas... e a sua capacidade para destruir tribos inteiras de nómadas que por acaso ou intenção se aproximem demasiado de território "civilizado". Embora a ideia base seja instigante, o excerto é insuficiente para se perceber em que direção Djanikian acaba por levar a história; com base no que aqui vem publicado fica-se com a impressão de que o romance completo tanto pode ser bastante bom como bastante fraco. Tudo depende de como a situação se resolve ou não e que evolução acabam as personagens por ter. Mas desperta curiosidade, isso é certo; esse objetivo cumpre a contento.

Lido: A Ida ao Namibe

A Ida ao Namibe é mais um continho de Ondjaki, agora sobre uma ida do seu protagonista ao Namibe (obviamente) e sobre a família que lá encontra, principalmente uma prima bonita que lhe desperta o coraçãozinho de criança. É mais um conto bem-humorado sobre a vida de um miúdo angolano, este contado de um pouco mais do que os outros em ritmo de redação feita para a escola. Interessante, mas ainda bem longe do romance com que me estreei em Ondjaki. Continuo desapontado com este livro.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Evan Dicken

Evan Dicken, ao contrário dos autores anteriores, está presente apenas com um conto, intitulado...

Paradise Left. Trata-se de um conto curioso, pós-Singularidade tecnológica (para quem não sabe do que se trata, o ponto em que a inteligência das inteligências artificiais supera a humana), que reflete sobre a forma como os seres humanos básicos, não alterados, reagiriam num mundo gerido por máquinas inteligentes e infinitamente benévolas. Não é dos contos mais bem escritos que este ebook contém, mas tem algumas ideias profundas, razoavelmente bem exploradas, faltando-lhe talvez um final com mais impacto para subir de patamar. Assim, o conto é interessante mas não creio que seja realmente bom. É um daqueles contos em que a qualidade das ideias é superior à qualidade da sua concretização em objeto ficcional.

Lido: A Prisão de Areia

A Prisão de Areia (bibliografia) é uma noveleta de J. G. Ballard que merece por inteiro o epíteto de ballardiana. Ballard está no seu melhor quando ambienta as suas histórias em lugares desolados, decadentes, de onde a civilização se afastou e aos quais continuam teimosamente a agarrar-se pequenas (ou mesmo minúsculas) bolsas de humanidade. E é o que temos aqui, num Cabo Canaveral alterado pelo depósito na região de muitas toneladas de areias marcianas, que fizeram a costa penetrar Atlãntico dentro e transformaram a zona num deserto rubro, uma cópia autêntica do quarto planeta no terceiro. Pior: uma cópia contaminada, que gerou uma zona de exclusão da qual a vida é expulsa, com a exceção de um grupo de três pessoas, perseguidas pelo exército, procuradas, todas elas com uma ligação qualquer ao abandonado programa espacial americano, e que assistem, como quem cumpre um ritual, à passagem pelo céu de uma "constelação" de cápsulas orbitais, tripuladas por astronautas mortos há décadas. É um conto muito bom, mais pelo ambiente e pela forma como ele é descrito e explicado, pela poesia melancólica das imagens, pelas personagens, seu comportamento e motivações, do que propriamente pelo enredo. Este, no fim de contas, pouco importa, o que provavelmente desagradará aos fãs de histórias de ação. Cá eu, acho soberbo. Este é dos tais contos que perduram na memória.

Contos anteriores deste livro:

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Robert Dawson

Robert Dawson aparece nesta antologia com três contos.

The Widow é um continho epistolar de ficção científica sobre o qual é praticamente impossível dizer alguma coisa sem começar a desvendar a situação nele descrita... e, como o conto é inteiramente situacional, sem qualquer ação além da que está implícita na situação que descreve, é precisamente no desvendar da situação que reside em grande medida o seu interesse, portanto continuem a ler por vossa conta e risco. Mesmo assim, tentarei ser vago. Digamos apenas que este conto mistura inteligência artificial com um esquema nigeriano, e que está francamente bem construído.

The Fifth Postulate é um conto fantástico passado em Alexandria, em 280 AC, e o seu protagonista é Euclides, coadjuvado por um escravo chamado Ianus. O conto descreve o momento em que Euclides quase inventa a geometria não-euclideana, a qual só viria a ser descoberta no início do século XIX, separadamente, por Nikolai Ivanovich Lobachevsky e por... János Bolyai. E aqui, nesta coincidência de nomes (só de nomes? Será?), reside o motivo por que o conto não é apenas um conto histórico, um texto que conta, ficcionando só um pouco, acontecimentos reais, mas sim um conto fantástico. Não explicarei porquê; digo apenas que é mais um conto subtil e francamente bem construído.

Soldier's Return é um conto de fantasmas, passado num provável presente mas cheio de recordações de acontecimentos que remontam à I Guerra Mundial. É mais um conto muito subtil e bastante poético, com um remate magnifico, que fala principalmente de desencontros e de perda. Contos de fantasmas em que as fantasmagorias acabam finalmente por pôr fim a longos anos de desencontro estão longe de ser novidade, mas Dawson é bastante bom na forma como escreve o dele. Sim, também este conto está muito bem construído.

Robert Dawson é bom. E tem uma grande versatilidade, algo de que nem todos os bons escritores se podem gabar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Lido: Os Crimes da Rua Morgue

Os Crimes da Rua Morgue (bibliografia) é uma noveleta de Edgar Allan Poe que... hum... que eu já tinha lido. Ora deixa cá ver se também já tinha falado dela...

Tinha, claro que tinha. E, embora por vezes aconteça que das releituras nascem opiniões diferentes, no todo ou em parte, desta vez não nasceu. O que penso hoje é aquilo que eu escrevi há 5 anos (quase exatos... curiosa coincidência, esta de ler sempre esta história em agosto), sem tirar nem pôr.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Jonas David

Jonas David está presente nesta antologia com dois contos.

Deathday é um conto que relata um ritual de chegada à idade adulta, numa sociedade trans-humanista na qual as pessoas só estão completas (e só se transformam em Cidadãos) quando descartam os seus corpos biológicos em favor de corpos robóticos, mais avançados, eternamente substituíveis e por isso potencialmente imortais. O protagonista é Cobalt, um jovem prestes a fazer a transição, e o conto, que descreve o processo e as dúvidas e medos do protagonista, os seus sentimentos por si e por outros, é muito bom. Realmente muito bom.

Three Seconds é um conto que está algures na transição entre a ficção científica e a fantasia e que ressoa fortemente com uma parte importante do universo do Brandon Sanderson, por motivos que quem já leu integralmente a trilogia Mistborn depressa compreenderá. Jonas David apresenta-nos um casal de personalidades aparentemente eternas e em grande medida opostas que, pelos nomes anglófonos, parecem ser personalidades pós-humanas encerradas num universo virtual; uma constrói estrelas, planetas, galáxias inteiras; a outra anda atrás dela a destrui-las. Uma terceira entidade fornece equilíbrio, impedindo as duas primeiras de se destruirem uma à outra. E cada uma tem as suas próprias razões filosóficas para agir como age. Este também é um bom conto, ainda que não me pareça tão bom como o primeiro, e termina de forma não totalmente inesperada, mas adequada.

Jonas David parece ser autor para manter debaixo de olho.

Lido: Ex-Machina

Ex-Machina (bibliografia) é um conto retrofuturista de Michael Silva que segue as peripécias de um tal José Goias, tenente do exército, que se vai meter a investigar estranhos casos de violência coletiva centrados numa unidade fabril em Oeiras. Com algumas boas ideias, e sem ser um mau conto, este será provavelmente o pior dos contos do livro até agora, perdendo-se em cenas de pancadaria interligadas de forma pouco eficaz e escritas numa prosa que, apesar de em geral até ser competente, mostra todavia demasiadas falhas (que na verdade deviam ter sido apanhadas pela revisão; é certo que a responsabilidade principal é do autor, mas nem toda lhe cabe) para evitar prejudicar a leitura. Com menos ênfase na batatada, ou pelo menos com uma pancadaria mais lógica e dirigida, e com um pouco mais de profundidade tanto nas personagens como no próprio enredo, que deixa algumas pontas demasiado soltas, este conto poderia ser bom. Assim, é razoável. Razoável com sinal menos.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Evan Currie

Evan Currie é mais um autor que está presente nesta antologia com um excerto de romance. O dele intitula-se...

Odyssey One: The Heart of the Matter. Trata-se de uma ficção científica militar, em jeito de space opera, e de uma space opera o mais antiquada possível. Lê-se este excerto e, à parte meia dúzia de atualizações tecnológicas, dir-se-ia estar a ler-se qualquer coisa de E. E. "Doc" Smith, com a agravante de Smith estar mais ou menos na crista da onda da sua época, a inventar caminhos, ao passo que Currie... bem...

É possível que com o desenvolvimento do romance ele acabe por ser melhor do que o excerto faz suspeitar, mas não me parece provável. Achei isto muito fraco e não fiquei nada interessado em ler mais. Muito dispensável.

Lido: Só Vejo Sifões à Minha Frente

Só Vejo Sifões à Minha Frente é uma crónica de Ricardo Araújo Pereira sobre a política madeirense, e em especial sobre Jaime Ramos. Problema, que de resto é comum a muitas das crónicas políticas que este livro contém: refere-se a coisas que aconteceram há mais de uma década, de que já ninguém se lembra, o que tem como consequência óbvia que a piada que pudesse ter tido já se diluiu consideravelmente desde então. Mantém a graça da prosa, daquele jeito miudinho com que o RAP costuma escalpelizar os seus temas e em que costuma ter um piadão (e neste caso tem, até porque Jaime Ramos terá sido acusado de ter enriquecido a comercializar sifões de retrete, e eis o motivo do trocadilho no título), mas a graça que advém da pertinência política perdeu-se. É uma crónica divertida, mas suponho que em tempos o foi mais. Também é uma crónica bem escrita que, como é de domínio público, o RAP mexe bem na língua.

Salvo seja.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 9 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - John Chu

John Chu está presente na antologia com um só conto, intitulado...

Incomplete Proofs. Trata-se de um conto de ficção científica que parece ter partido da seguinte ideia: que duas coisas consigo eu arranjar que estejam nos antípodas culturais uma da outra e como é que consigo fundi-las bem o suficiente para escrever uma história com base nelas? E o espantoso é que não só as encontrou como conseguiu uni-las. Chu pegou nas abstrusões da matemática teórica com uma mão, agarrou com a outra no mundo da moda e dos costureiros, amassou as duas coisas, e desarrincou um bizarro e divertido mundo em que a malta da moda trabalha para provar teoremas e depois passá-los na passerelle, residindo o génio (matemático? costureiro? as duas coisas?) em conseguir-se chegar ao fim do desfile com a roupinha (ou seja, as equações) intacta. Absurdo? Sim, certamente. Mas a verdade é que o conto está tão bem amarrado que se torna credível, por mais inverosímil que seja a ideia de base. É preciso talento. Um enorme talento.

Tiro o chapéu a John Chu, tentando esconder a inveja que dele salpica. Isto é fenomenal.

Lido: A Lagoa

A Lagoa (bibliografia) é mais um conto (este curto) de Ana Cristina Luz em que vamos encontrar uma mulher em busca de um amor perdido e que cruza esse tema romântico com acontecimentos ou lugares mais ou menos fantasmagóricos. Aqui trata-se de uma lagoa, a lagoa da Ervedeira, que nas redondezas é tema de histórias de desaparecimentos e fantasmagorias mas na história pessoal da protagonista foi cenário para uma aventura amorosa com um homem misterioso que não voltou a ver. A ligação entre as duas coisas é fácil de imaginar, mas isso não quer dizer que esteja particularmente bem conseguida nesta história, que apresenta uma certa insegurança na narrativa e nos seus ritmos, uma certa irregularidade na qualidade da prosa. Não é um mau conto, mas não me parece que ultrapasse o razoável.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 8 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Adam Christopher

Adam Christopher é um autor com muito texto nesta antologia, visto que está presente não com um, mas com dois excertos de romances. E, como no caso de Mark T. Barnes, são romances com muito em comum um com o outro, apesar de estes não pertencerem à mesma série. Intitulam-se:

Empire State e Seven Wonders

Trata-se de romances de super-heróis, escritos num estilo muito interessante e colorido, que faz obviamente lembrar a banda desenhada mais gritty, nomeadamente algumas fases dos livros de Batman ou do Homem-Aranha, mas também coisas mais antigas, muito em especial o policial negro. Este parece ter influenciado não só o estilo, mas também, em parte, o ambiente (no primeiro romance encontramos uma versão noturna da Nova Iorque dos anos 30, totalmente submersa nas malhas do crime organizado; o segundo afasta-se mais: ambienta-se numa cidade californiana fictícia e futurística chamada San Ventura, referência clara a Los Angeles), se bem que a Gotham de Batman seja claramente a referência principal.

Sim, o estilo é interessante e, à sua maneira, bem escrito. No entanto, estes excertos soam demasiado a fanfic de banda desenhada para serem realmente bons. O cliché que contêm é imenso e quase sufocante e as personagens pouco fogem ao estereótipo. Como consequência, estes livros provavelmente irão agradar aos fãs mais entusiastas deste tipo de histórias — e da própria BD —, mas duvido que consigam captar o interesse de muitos leitores que não o sejam. O meu certamente não captaram. Gosto do estilo literário, reconheço as qualidades que a prosa tem, admito que Christopher sabe lidar com as palavras, mas não vou além disso. E isso, para mim, não basta.

Lido: A Professora Genoveva Esteve Cá

A Professora Genoveva Esteve Cá é mais um dos continhos de Ondjaki, contando este uma divertida história na qual o jovem protagonista vai abrir a porta de sua casa à dita Genoveva e lhe explica — detalhadamente — que a mãe não pode ir atender por causa da menstruação, para grande embaraço da visitante. Coisa simples e terra-a-terra, sem grandes elaborações, mas muito divertida pelo contraste entre a descontração com que o jovem e a sua família conversam sobre tais assuntos e a confusão escandalizada que isso causa em outras pessoas.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Anne Charnock

Anne Charnock é mais uma autora a só estar presente com um excerto de romance, intitulando-se o dela

A Calculated Life. Abrindo com uma citação da menos conhecida das grandes distopias totalitárias da primeira metade do século XX (Nós, do Zamiatine), este romance não parece ter, à primeira vista, grande coisa a ver com ela, apesar da prova de bom gosto que assim é dada. Mas parece ser na mesma um romance muito interessante, uma ficção científica de futuro próximo, protagonizada por uma analista de dados autista, genial no seu trabalho mas sob um desafio constante fora dele devido à sua condição. E mais ainda quando acontece a morte de um dos colegas num acidente (pelo menos é essa a aparência) e ela é encarregada de tratar os dados em que ele estava a trabalhar, o que a vai levar em direções inesperadas. É difícil avaliar romances por estes excertos, pois são demasiado curtos para sabermos realmente se os autores conseguem sustentar as histórias até ao fim, mas este é decerto promissor, não só por ter uma história que parece ser interessante mas muito em particular devido à voz da protagonista, que dá para ver nestes quatro capítulos que está muito bem conseguida.

Sim, fiquei interessado. Este excerto cumpriu cabalmente a sua função.

Lido: Os Mil Sonhos de Stellavista

Os Mil Sonhos de Stellavista (bibliografia) é um ótimo conto de ficção científica de J. G. Ballard sobre um casal em busca de casa numa zona rica mas decadente da Califórnia, uma povoação chamada Vermillion Sands. Não uma casa qualquer, naturalmente, e nem mesmo uma propriedade de luxo como as que quem consome tal coisa está habituado a ver nas páginas das revistas cor-de-rosa. Uma casa psicotrópica, dotada de uma inteligência artificial que controla por completo o edifício e capta dos seus ocupantes estados de espírito, até mesmo personalidades, adotando-as frequentemente como suas. As coisas complicam-se quando o homem, que é advogado, depara por acaso com a casa de uma mulher que defendera anos antes da acusação de ter assassinado o marido... e por quem se apaixonara. É a memória dessa paixão antiga e a permanência, na casa, da personalidade da mulher que a despertara e entretanto morrera, que o leva a instalar-se lá. Só que não é só a personalidade da mulher que se mantém presente na casa; é também a do marido assassinado, e até as recordações do próprio assassínio.

É um conto magnífico, este, de uma FC com mais de 50 anos mas que se mantém em grande medida atual, cuja história se entrelaça com temas policiais de uma forma muitíssimo bem conseguida, e que merece por inteiro o epíteto de "ballardiana." De facto, esta história data do início da época em que Ballard solidificou o seu estilo próprio e a sua forma característica de contar histórias, e isso nota-se bem. Muito bom.

Contos anteriores deste livro:

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Vajra Chandrasekera

Vajra Chandrasekera é outro autor (cingalês) presente nesta antologia com dois contos

Pockets Full of Stones é um conto de ficção científica dura cuja protagonista é uma jovem colocada num posto quase solitário em Makemake (um dos planetas anões recentemente descobertos, para quem não sabe), numa estação de retransmissão das mensagens de e para uma nave interstelar, cheia de colonos a caminho, a velocidades relativísticas, de algum planeta que não chega a ser identificado. Na nave, segue um avô da protagonista, e são as mensagens pessoais que lhe envia, ao arrepio das regras, que vão levar ao desenlace do conto. É que a nave em que o avô segue capta uma mensagem extraterrestre, de que é difícil falar sem revelar informações importantes para o enredo. Digamos apenas que é mais do que uma simples mensagem; inclui código. Código extraordinariamente avançado. O conto é bastante interessante.

The Jackal's Wedding é uma história bastante mais estranha, de uma fantasia tingida de horror, sobre uma família de chacais (serão mesmo chacais?) presa num bosque mágico rodeado por uma barreira de espinhos. Parece haver muito de simbólico nesta história. Sob o conto de fadas, que não é propriamente um conto de fadas porque não acaba tudo bem e cor-de-rosa, parece haver ideias fortemente sentidas sobre incesto, sujeição e libertação femininas, relações abusivas, por aí fora. Atrás dos chacais parecem estar criaturas muito humanas, mas a verdade é que nada é realmente claro e eu posso perfeitamente estar a ver fantasmas onde nada existe. Seja como for, este é mais um conto interessante, ainda que não tenha gostado tanto dele como do primeiro.

Lido: O Obus de Newton

O Obus de Newton (bibliografia) é uma novela retrofuturista de Telmo Marçal que, entre Lisboa e a Amazónia, conta uma movimentada história de conspirações cruzadas centradas num projeto secreto do governo português, ainda monárquico nas vésperas do ano 2000, ainda imperial, com o controlo intacto sobre a colónia brasileira, ao qual o título faz referência. A história segue as peripécias de vários anos da vida de um tal Henrique do Patrocínio, à vez agente secreto, conspirador, assassino, fugitivo e por aí fora, mostrando com toda a subtileza o seu impacto individual sobre a história da nação ao mesmo tempo que traça um relato bastante sólido das tensões sociais no Portugal alternativo comum aos contos deste livro. A prosa, muitíssimo cuidada, talvez o seja até em excesso, de quando em vez, embora compense esse excesso com achados magníficos em outros trechos. Desnecessárias, no entanto, e mesmo prejudiciais ao fluir da narrativa, são as notas de rodapé a explicar brevissimamente quando, no mundo real, tiveram lugar certos desenvolvimentos científicos, culturais ou políticos. Desnecessárias porque nada adiantam à novela, limitando-se a exibir o trabalho de casa do autor. Que importa, para uma história que se passa num final alternativo do século XX, que a primeira exploração hidroelétrica date de 1881? Que importa que Bell tenha criado o microfone no século XIX? Nem que estes factoides tivessem verdadeiro impacto no enredo se justificaria, a meu ver, interromper o fluxo de leitura com a sua explicação em nota de rodapé, e quando não têm, como é o caso, as notas tendem mesmo a tornar-se irritantes. Como dizia o outro, não havia qualquer necessidade.

Mas os rodapés não deixam de ser pormenores de uma prosa francamente boa, sem qualquer sombra de dúvida entre as melhores que o livro a que pertence desvendou até ao momento.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - A. G. Carpenter

A. G. Carpenter aparece na antologia com dois contos

Insomnia é um conto de ficção científica, protagonizado por uma agente de uma espécie de serviço de controlo do fluxo do tempo. Por outras palavras, uma espécie de assassina, que só não o é por inteiro porque não mata ninguém, limitando-se a prever as ramificações possíveis e prováveis do presente e do futuro e a escolher aquela ou aquelas em que os seus alvos acabam mortos. E tudo para que as coisas se mantenham viáveis, para que, com a morte de alguns indivíduos selecionados, se garanta a sobrevivência da maioria. Mas há um preço a pagar, e a agente está prestes a pagá-lo. A ideia é interessante, ainda que algo já vista, e até nem está mal executada, mas foi mais um conto que não me encheu as medidas.

In the Cool of the Day é uma história fantasmagórica que não começa como tal, antes parecendo uma reinvenção da história da Cinderela ambientada algures no Midwest norte-americano e num passado não muito distante. A novel Cinderela é uma rapariga que cuida de uma tia muito velha, à beira da morte mas que ainda conserva a lucidez intacta. Com uma atmosfera muito feminina (A. G. Carpenter é uma mulher), a história vai-se desenrolando de uma forma bastante previsível, com as filhas malvadas da velha, e respetivos maridos, a cobiçar a herança e a velha a não estar pelos ajustes, uma espécie de príncipe nada principesco e muito pouco encantado (mas adequado) para a Gata-Borralheira a rematar o elenco, e um episódio sobrenatural a pôr aquele pequeno mundo nos devidos eixos. Não sendo um mau conto, sendo até uma história que está bem construída, foi, no entanto, um conto que me me deixou acima de tudo aborrecido. Por excesso de previsibilidade, provavelmente. É o principal problema da recuperação de velhas histórias: não é fácil insuflar-lhes nova vida. E neste caso creio que Carpenter não o conseguiu fazer lá muito bem.

Lido: 2014 Campbellian Anthology - David Carani

David Carani aparece só com uma história, de título

The Paradise Aperture. É um conto situado algures na fronteira entre a fantasia e a ficção científica, com uma boa ideia de base que, apesar de trazer reminiscências de muitas outras histórias, acaba por lhes dar uma volta razoavelmente original. O protagonista é um fotógrafo que corre o mundo em busca de umas peculiares portas azuis que, ao contrário de todas as outras portas, têm a propriedade especial de, em determinadas circunstâncias, se abrirem para mundos-bolsas. Portais para universos paralelos ou alternativos. É uma história romântica, pois o que faz mover o protagonista é, no fundamental, a procura pelo seu amor desaparecido algures naquele multiverso unido pelas portas azuis (o que me fez lembrar As Solitárias Canções de Laren Dorr, do Martin), mas Carani tem o mérito de ter conseguido ou querido incluir no seu conto alguma informação curiosa sobre as utilizações possíveis de tais artefactos na economia, o que acrescentou qualidades e profundidade à história. Dito isto, não gostei muito. Acabei a leitura com a sensação de que falta qualquer coisa a este conto para se transformar numa obra realmente boa.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Jennifer Campbell-Hicks

Jennifer Campbell-Hicks está presente na antologia com dois contos, um muito curto, o outro mais extenso

30 Pounds of Human Tissue é uma ternurenta historinha de ficção científica cujo protagonista é um robô encarregado da pilotagem de cápsulas de transporte de resíduos perigosos de uma estação espacial até à Terra que um belo dia descobre, com aquilo que nas suas entranhas mecânicas passa por surpresa, uma muidinha enfiada na cápsula — que não foi concebida e não está preparada para transportar gente, em especial gente viva — a perguntar pela mamã. Não será nada de superlativo, até porque o conto é muito curto, mas é uma boa história, que funciona bastante bem.

Catcha Fallen Star é outra história de ficção científica, esta em cenário distópico, num mundo (uma Terra futura, talvez?) assolado por periódicas quedas de meteoritos e por isso sujeito a recolher obrigatório quando elas acontecem. O protagonista é um guarda que encontra um miúdo a violar o recolher obrigatório e assume a responsabilidade de o tentar apanhar e pôr em segurança no subsolo, quer ele queira (não quer), quer não queira (não quer mesmo!). Segue-se uma caça ao miúdo. E o conto poderia ficar-se por aí, e talvez já fosse interessante, mas não fica; é algo mais profundo do que isso. Apesar da implausibilidade do cenário, portanto, este é também um bom conto, com personagens sólidas, que acabam até por desenvolver uma relação curiosa, e diálogos francamente bons. É dos tais contos que até poderiam dar romances interessantes, caso fossem expandidos.

Jennifer Campbell-Hicks é mais uma boa surpresa.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - O. J. Cade

O. J. Cade aparece na antologia com dois contos.

Longfin's Daughters é uma história de fantasia sobre três irmãs que viviam jundo de um charco de enguias e que com essas enguias partilhavam algo mais do que simples vizinhança. Há algum sexo envolvido no assunto, há questões de reprodução e hereditariedade, e há diferenças de personalidade entre as irmãs que vão determinar diferentes atitudes para com as enguias e efeitos destas nas raparigas. É um conto bem escrito e razoavelmente bem elaborado, mas não gostei muito dele por motivos que não consigo identificar. Pura subjetividade provavelmente, talvez algo a ver com o estilo da autora. O certo é que o conto me aborreceu.

The Mythology of Salt é bastante melhor, pelo menos no poder literário da prosa. Por outro lado, é pior, pois trata-se uma espécie de ficção científica soft que se alicerça em parte numa ideia que pouco sentido científico faz: a escassez do sal e a sua necessidade para a sobrevivência de colónias em mundos extraterrestres, tendo por isso de ser levado de um lado para o outro em viagens espaciais... quando na verdade o sal não passa de simples cloreto de sódio e tanto o cloro como o sódio estão bem longe de serem elementos raros no Universo — são ambos mais abundantes do que a grande maioria dos metais, incluindo alguns tão importantes como o cobre ou o zinco. Mas se nos abstrairmos dessa falha, o conto é poderoso, porque conta, e bem, uma história de abandono e anseio, de maternidade, tradição e rebeldia.

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Oliver Buckram

Oliver Buckram está presente nesta antologia com três pequenas histórias, todas muito interessantes e francamente divertidas.

The Running of the Robots é um continho sobre o que pode acontecer quando um errozinho aparentemente insignificante nas instruções enviadas a um batalhão de robôs de combate gera um ciclo de retroalimentação positiva e uma imprevista atração turística ao longo de todo o 32º paralelo do planeta. Toda a gente que já programou alguma coisa na vida sabe como os bugs são uma tremenda — e inescapável — chatice. E neste caso... bem, só lendo.

Un Opera Nello Spazio (A Space Opera), assim mesmo, com título em italiano e inglês, é uma ópera espacial. Não, não é uma space opera, peculiar subgénero de ficção científica que tão frequentemente se enche de naves espaciais de combate, exércitos com armas futurísticas e ETs agressivos, embora também o seja. É uma ópera espacial, com essas mesmas naves, exércitos e ETs, mas com a estrutura em três atos e o enredo melodramático da ópera italiana. Uma ideia genial, esta de tratar literalmente o termo space opera, e o resultado não é menos que hilariante.

Half a Conversation, Overheard While Inside an Enourmous Sentient Slug é o que o título indica: meia conversa, o que significa que só consta do conto o que diz uma das personagens, dado que o interlocutor (um tal "Inspetor") não é audível. Porquê? Ora, isso já seria estar a desvendar demasiado. Digamos apenas que alguém (um extraterrestre, obviamente, mas que extraterrestre? Ah, só lendo, só lendo) está a ser interrogado pela polícia a respeito do assassínio de um tal Lord Ash. Na condição de testemunha, não de suspeito. Quanto a quem o ouve falar... bem... vou deixar essa parte no ar. É um conto muito inteligente e também muito divertido.

Oliver Buckram tem pinta, tem muita pinta. Fiquei fã.

domingo, 2 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Dawn Bonanno

Dawn Bonanno está presente nesta antologia com uma historinha muito curta intitulada

How Cherry Coke Saved My Life. Trata-se de uma historinha divertida sobre um peculiar primeiro encontro, no qual um ET parecido com um poodle chega desastradamente à Terra, espetando a nave contra a casa de um homem solitário, alcoólico anónimo há algum tempo sóbrio, que apesar de ter ficado sem abrigo decide contar ao visitante como a Cherry Coke lhe salvou a vida. Com detalhes. E ainda por cima... bem, não revelemos o final. Não vale a pena.

É uma historinha divertida, sim, mas a verdade é que disso não passa. Lê-se num ápice, sorri-se, mas pouco ou nada dela fica depois de uns minutos de entretenimento. Razoável.

sábado, 1 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Lisa Bolekaja

Lisa Bolejaka aparece com um único conto, intitulado

The Saltwater African. É uma história de fantasia, fortemente tingida de horror como é inevitável numa história sobre a vida dos negros nos anos de escravatura do Sul do continente norte-americano, e que descreve essa vida e as violências e os sonhos de liberdade que vinham com ela. A protagonista é uma mulher, escrava, cuja vida é sacudida pela chegada à plantação de um novo escravo, recém-chegado de África, trazendo ainda consigo, até, o seu nome africano. É um bom conto, com violência, sexo, sonhos e amor, repressão e liberdade. Bom e incómodo. E também bom porque incómodo.