segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Tory Hoke

Tory Hoke é mais uma autora presente nesta antologia com três contos.

The Baby Mimic é um conto de ficção científica sobre o desenvolvimento e consequências do vínculo maternal. Num futuro indeterminado mas aparentemente não muito longínquo, um casal, estéril, procura um bebé-robô para conseguir, apesar disso, passar pela experiência da paternidade. Com alguma hesitação, aceitam ser integrados num programa piloto que traz consigo a promessa de uma experiência o mais realista possível. Um bom conto, ao mesmo tempo aterrorizador e divertido, que lida com estas coisas das mães, dos pais e dos bebés, com uma certa ironia desassombrada.

The Demeter Gyro Disaster é também um conto de ficção científica, este uma história de sobrevivência que começa quando uma estação espacial sofre uma falha catastrófica e, enquanto o resto da tripulação foge, um tal Dennis e uma tal Sonia ficam para trás, esquecidos. Mas não se deixam esquecer. Também é um conto bastante bom, e também está muito cheio de pequenas ironiazinhas e surpresas que só tornam a leitura mais apelativa.

Shaka Bars é outra história de ficção científica, ainda que esta esteja bem próxima do terror, sobre uma mulher, obesa, que, ao procurar no supermercado algo para comer que não a engordasse mais, depara com as Shaka Bars do título. Mas estas são mais do que à primeira vista parecem ser. Oh, muito mais. Outro bom conto, que para mim tem o interesse adicional de parecer fazer referência a, e recolher inspiração em, um dos contos do Martin que traduzi há algum tempo, O Homem em Forma de Pêra. Há em ambos algo de obsessivo que os aproxima bastante, e facto de o fulcro da obsessão girar, no todo ou em parte, em volta de pacotes de alimentos sintéticos, aproxima-os ainda mais.

Tory Hoke está claramente aprovada.

Lido: Taxidermia

Taxidermia (bibliografia) é uma noveleta retrofuturista de Guilherme Trindade sobre um homem, taxidermista de profissão e lisboeta, num mundo hiperindustrializado e supereletrificado em que os animais escasseiam cada vez mais, o que tem como consequência a idêntica escassez da matéria-prima para o seu ofício. Eis senão quando, um belo dia (ou tão belo quanto possível nesta Lisboa alternativa prestes a chegar ao terceiro milénio), esse homem é procurado por uma bela nobre, dirigente do cada vez mais decrépito Jardim Zoológico de Lisboa, que lhe faz uma proposta inusitada.

É uma história francamente boa. Apesar de o final surpresa não ter resultado comigo, pois ia vendo, quase desde o início, as ligações que existem entre a noveleta de Trindade e uma certa e determinada história de autor italiano, muito conhecida entre a miudagem, não deixei de o achar bem conseguido. E o resto da história está bem escrito (há algumas falhas, mas são pouco numerosas, pouco sérias e não comprometem) e bem concebido, com personagens interessantes e credíveis. Quanto ao mundo, este universo partilhado da Lisboa Eletropunk, adquire nesta noveleta de Guilherme Trindade uma solidez (de pesadelo, há que dizê-lo) que falta a algumas das outras histórias.

Uma das melhores histórias deste livro, que ainda não teve nenhuma má mas já teve algumas medianas.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 30 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Ada Hoffmann

Ada Hoffmann é outra autora com três textos nesta antologia.

Feasting Alone é um conto que mistura a fantasia sobrenatural (na medida em que há almas) com uma espécie de ficção científica mais ou menos transumanista (na medida em que estas sofrem uploads para uns servidores de algo que não se chega a perceber o que é; talvez o céu, ou coisa que o valha) para contar uma historinha sobre o que se perde e o que se ganha ao deixar para trás a biologia. Tem algum interesse, mas é muito curto e falta-lhe impacto.

Blue Fever é um conto de horror protagonizado por uma cantora-da-morte, uma peculiar espécie de artista que, na sociedade aqui concebida, cantam, de forma profética, sobre a morte dos clientes ou daqueles que estes escolhem como alvos. As canções têm sempre, claro, de ser originais e pessoalizadas, e é aí que a porca torce o rabo quando o cliente é alguém poderoso e letal. E está lançado o enredo; é isso mesmo o que acontece, e o conto narra o processo de criação da canção-da-morte e das dúvidas e receios que o acompanham. Outro conto interessante mas que também não me encheu as medidas.

And All the Fathomless Crowds, em compensação, é um conto magnífico. Num mundo assolado por uma epidemia de zombies de vários tipos (ou "não-mentes", segundo a terminologia aqui usada), descreve o exame final, teórico e prático, de Sandra Chakarvarti, aluna no Departamento de Sobrevivência da Queen's University, que vai avaliar se a aluna está, ou não, em condições de sobreviver a incursões ao exterior, o que implica sobreviver às várias não-mentes com que vai deparar. O chumbo no exame é fatal. Talvez. Trata-se, claro, de uma história de sobrevivência, mas é muito mais do que isso. É um conto irónico, tenso, comovente, imaginativo, cheio de ritmo e muito interessante. Mesmo muito bom.

Lido: (sem título - aforismos de Nuno Costa Santos)

Não sou fã de aforismos. É demasiado frequente que, ao lê-los, os sinta como desperdícios de boas ideias, que dariam contos interessantes e/ou divertidos se fossem desenvolvidas. Já o tinha dito, por outras palavras, durante a leitura de O Caçador de Étês e, como este texto é composto por aforismos, volto a dizê-lo agora, porque voltei a sentir o mesmo. Compreendo a atração para quem os escreve, especialmente se se trata de escritor para o qual a precisão exerce particular apelo: o aforismo, tal como o conto ultracurto e outras formas de limitação literária, funciona um pouco como um jogo no qual o escritor testa as suas capacidades no que toca a manusear a língua escrita. Há nesse tipo de texto um desafio implícito e por vezes mesmo explícito, e para muitos escritores esses desafios são irrecusáveis. Eu não funciono muito assim, mas compreendo. Enquanto leitor, no entanto, os aforismos sabem-me sempre a pouco. Foi mais uma vez o caso.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 29 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Michael Hodges

Michael Hodges está presente na antologia com três contos, um dos quais bastante curto.

Fletcher's Mountains é um conto de ficção científica pós-apocalíptica, uma história de sobrevivência individual numa Terra esvaziada e reduzida ao estado selvagem. Não é mau, mas também não é conto que cause grande impacto. É daquelas histórias que se leem e depressa se esquecem, em boa medida porque dá mais a ideia de primeiro capítulo de uma história maior do que propriamente de conto.

Hydra é outro conto de ficção científica mas, ao contrário do primeiro, este não tem enredo. Trata-se das reflexões de um cientista (não propriamente louco, mas o protagonista é baseado nessa tradição) que descobre o segredo da eterna juventude, mesmo que relativa, e consequentemente o do prolongamento da vida, ponderando as ramificações sociais de tal descoberta. Tem algum interesse, mas falta-lhe ser uma verdadeira história e o final em aberto não ajuda.

Seven Fish for Sarah volta um pouco aos ambientes do primeiro conto, pois trata-se de outra história pós-apocalíptica (Hodges tem queda para as catástrofes, está visto), ambientada num mundo cuja população, de novo muito reduzida, se tornou ludita. Este é mais conto que os outros dois mas também aqui há algo que não me agrada. Talvez os infodumps, demasiados e demasiado longos, talvez um excesso de narração em detrimento da história, de algo que se assemelhe a um acontecimento, talvez ambas as coisas e mais algumas. O que é certo é que, com estes três exemplos, Hodges não me convenceu.

Lido: A Porta no Muro

A Porta no Muro (bibliografia) é um conto de H. G. Wells que, curiosamente, está muito radicado no estilo típico do conto fantástico vitoriano, mostrando o muito característico relato por via indireta de uma história vivida por um amigo do narrador, que este conta por lhe ter sido contada. E digo curiosamente porque não se vê nada disso nos escritos mais conhecidos de Wells, os quais, apesar de precederem este relato em cerca de uma década, são bastante mais modernos.

Trata-se de um conto fantástico, claro, e a história que o amigo conta ao narrador é a de uma estranha porta verde que lhe aparece invariavelmente incrustada num largo muro branco, sempre quando ele está sozinho, e que, aberta, dá acesso a um jardim mágico, exterior ao mundo comum, uma espécie de dimensão extradimensional. Uma fuga.

Pois é de uma fuga que se trata. Lá dentro, esquecem-se todos os problemas, desaparecem todas as crises, afastam-se todas as desilusões e frustrações. Por isso a porta é uma tentação, sempre presente em recordação, quando não sob a forma de porta sólida num muro sólido. A história é a dos vários episódios de tentação de fuga e de busca dessa tentação. A das razões para o protagonista cair na tentação ou (mais frequentemente) não o fazer. E ao mesmo tempo a de uma vida.

É um bom conto, apesar de me parecer demasiado antiquado para um autor que publicou antes histórias muito mais modernas. Um conto sobre a alienação, mais um. Nos últimos tempos, têm sido um fartote.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Capa de revista

Acontece cada uma a um gajo...

Aqui há coisa de um mês, recebo um contacto no facebook, de um antigo colega meu dos tempos em que andei a trabalhar na imprensa regional. Que queria falar comigo. Que estava a colaborar com uma revista algarvia e achava interessante entrevistar-me, por causa do Martin, e tal, e da Guerra dos Tronos, e quê, e de eu ser o tradutor português, e patati, e patata. E eu, depois de hesitar um bocadinho, disse-lhe que sim. Afinal, sei bem o que é, por já ter passado por isso, um tipo ter espaço numa publicação (no meu caso era jornal) para encher e andar a bater com a cabeça nas paredes.

"Então está combinado," disse-me ele, "passo por aí no dia tal para falar contigo e tirarmos umas fotos."

"Fotos?," digo eu. "É mesmo preciso?"

"Pá, isto é uma revista. Sabes como é."

Pois sabia, sim senhor. Pronto, está bem, combinou-se o encontro, achando eu que ia ficar com a feia carantonha a decorar uma página central ou duas e não passar disso. Fez-se a entrevista, que ainda rendeu coisa de uma hora de conversa, tiraram-se as fotos, e foi cada um de nós tratar dos respetivos trabalhos.

Quando ele me voltou a contactar para dizer "está feito" foi logo prevenindo que a coisa tinha saído um pouco diferente do que estava previsto. Depois mostrou-me como.

Assim.


Não sei quem foi que teve a ideia (e o mau gosto, não desfazendo) de espetar com as minhas feias fuças na capa da revista, mas foi mesmo isso que fizeram. Fiquei em choque. Agora já passou um bocado; está feito, está feito, mais vale seguir com a corrente. Mas logo quando vi isto só consegui exclamar, em maiúsculas e tudo, "NA CAPA?! ARGH!"

Quanto ao texto, é o típico de uma revista ligeira. A entrevista foi muito abreviada e muito parafraseada, para a encaixar no espaço disponível e a adequar à publicação. Muito do que ali aparece não corresponde textualmente ao que eu disse, ainda que corresponda quase sempre (há duas ou três exceções, que calculo terem sido causadas por cortes) ao sentido do que eu disse. Debruça-se principalmente sobre as Crónicas de Gelo e Fogo e sobre como é traduzir os livros do Martin, as qualidades que eles têm e a comparação com a série. Mas não esperem grandes profundidades. É daquelas entrevistas boas para se ler entre um banho de mar e o seguinte.

Uma coisa é certa. Nunca, mas nunca, sonhei algum dia vir a ver-me na capa de uma revista. Já o John Lennon dizia que "a vida é o que te acontece enquanto estás ocupado a fazer outros planos." Não há melhor ilustração disso mesmo do que esta.

PS - já que estamos com a mão na massa, quem tem conta no ISSUU pode aceder ao conteúdo da revista, aqui.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Ken Hinckley

Ken Hinckley está presente nesta antologia com dois contos.

The Ostracons of Europa é uma história de ficção científica hard sobre a descoberta de vida inteligente nos oceanos de Europa, a lua de Júpiter. Muito curto, talvez até demasiado (é um dos contos publicados na Nature, que exige histórias muito curtas), o conto procura ser profundo e tenso mas creio que em boa medida falha tanto numa coisa como na outra. É um conto demasiado ambicioso para tão pouco espaço, e faz-me lembrar demasiado outras histórias lidas anteriormente.

The Totem of Curtained Minds é também um conto de ficção científica, ainda que bem menos hard, ambientado em grande medida numa prisão e protagonizado por um criminoso condenado (corretamente) a prisão perpétua, que aproveita uma abordagem ao tempo desenvolvida por um seu companheiro de cativeiro, baseada na natureza da luz, para partir para um futuro longínquo em que a prisão já não existe. Executando uma fuga, portanto. Não uma fuga convencional, pelo espaço, mas uma peculiar fuga através do tempo. Esta história, bem mais extensa que a primeira, é também bastante melhor, julgo eu, ainda que os leitores que gostam das suas FC solidamente plantadas na plausibilidade científica tenham uma grande probabilidade de lhe torcer o nariz.

Lido: Três Histórias com Final Feliz

Três Histórias com Final Feliz (bibliografia) é um livro de contos de Maria de Menezes que rendeu à autora um prémio literário, o Prémio de Revelação APE/IBL de Ficção. Puxando bastante pela cabeça, e tendo em conta o que conheço de uma certa mentalidade das pessoas ligadas ao mainstream literário (hoje em dia um pouco atenuada, felizmente... mas o prémio é de 1991), acho que consigo perceber o motivo do prémio. Mas a verdade é que eu não o teria atribuído, a menos que a competição naquele ano fosse fraquinha.

O prémio, que nunca seria atribuído a um livro de ficção científica que encarasse o género minimamente a sério, por melhor que fosse sob o ponto de vista literário, premeia, acho, duas coisas. A ironia, que em época de pós-modernismo pujante e algo desenfreado é sempre uma mais-valia, em especial se surgir "em diálogo com obras marcantes da cultura popular," (as aspas não são de citação real, são de uma citação perfeitamente possível... pareço eu que estou a ouvi-los), como é o caso, visto que a primeira história como que tem umas conversas com a série Regresso ao Futuro, a segunda com carradas de ficções ufológicas que brotaram um pouco por todo o lado pelo menos desde que Wells (e Welles, há que dizê-lo; Lovecraft também o fez mas de uma forma incomparavelmente menos impactante, pelo menos a princípio) se pôs a assustar as pessoas com criaturas vindas do espaço, e a terceira dialoga com Stoker e sucedâneos. A outra coisa que o prémio premeia, julgo eu, é o uso dos oralismos e as "ousadias" literárias que a autora comete ao passá-los ao papel e também, na primeira história, semeando hífenes por todo o lado. Na parte dos oralismos concordo: eles estão realmente bem conseguidos, em especial na segunda e na terceira histórias. Já as outras "inovações", enfim, parecem-me simples patetices. É um risco que a ironia corre sempre, este de resvalar para a patetice. Faz parte.

Quer isto dizer que o livro não tem interesse? Não, não quer. Não sendo nenhuma obra-prima e não trazendo nada de muito relevante ou novo à FC portuguesa, o livro tem interesse porque a escrita tem qualidades e consegue, de facto, ter piada. Mais nas últimas histórias, bastante menos na primeira, e apesar de uma característica do humor que me incomodou ao longo de toda a leitura e que passo a tentar explicar.

Quando se faz troça de algo ou alguém, essa troça pode revestir-se de muitas formas diferentes. Há troça destrutiva, mas nem toda o é. Há troça que tem subjacente desprezo, mas também a há carregada de carinho ou admiração. Há troça raivosa mas também existe ternurenta. Há troça que revela sentimentos de superioridade; há troça fraterna, igualitária.

Ora, este livro troça de Portugal e dos portugueses, de seus maneirismos e atitudes. Mas, porque há troças de muitos tipos diferentes, isso pouco nos diz. Poderia perfeitamente ser uma troça cheia de amizade, cometida por alguém que sabe que, no fundo, está também a troçar de si próprio, caso em que nenhum incómodo me causaria. Mas ao longo da leitura foi-me parecendo com crescente acuidade que não, que é uma troça nascida de uma sensação de superioridade por parte de alguém que se vê como exterior ao objeto retratado. E isso incomodou-me.

Mal me ficaria não reconhecer, de tal forma óbvio isto é, que esta impressão não só é inteiramente subjetiva como pode também ser muito injusta. Mas a verdade é que não me consegui ver livre dela enquanto lia o livro. Pelo contrário, só se acentuou com o avançar da leitura, à medida que ia deparando com a inapelável imbecilidade do guarda Elias ou a estupidez ignorante da Dona Etelvina e família. Ou seja: da gente do povo.

Seja como for, repito, sim, achei que o livro tem interesse. Pesando todos os prós e contras, acabei por gostar dele. Não muito, é certo. Mas gostei.

Para os interessados, eis o que achei das três histórias:
Este livro foi comprado.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Kate Heartfield

Kate Heartfield está presente nesta antologia com três contos, a saber:

Word for Word é uma razoável história fantástica sobre um homem que recebeu de herança uma Caixa mágica, capaz de fazer desaparecer aquelas coisas que se dizem sem pensar e depois causam arrependimento, bastando para isso escrevê-las, palavra por palavra, e enfiar o papelinho na caixa. Herança do pai. Mas, claro, como sempre acontece, na medalha que traz consigo tão útil artefacto existe um reverso. Neste caso até há dois. Por um lado, algo que se guarda numa caixa pode ser de lá tirado, o que faz com que aquilo que foi um dia anulado regresse ao mundo com todo o seu vigor. Pelo outro lado, uma caixa é um recipiente que encerra um volume limitado de espaço. Um dia enche-se. E depois? Tem interesse, esta história, mas não creio que chegue realmente a ser boa. A ideia é melhor do que a concretização.

For Sale by Owner é bastante melhor. Conta a história de uma casa, mais do que de uma personagem, que concede ao seu habitante a imortalidade em troca de um serviço que ele deverá prestar à humanidade. É que a casa se ergue junto de um penhasco, local de eleição para o derradeiro voo de todos aqueles que querem pôr cobro à vida, e a tarefa do habitante da casa é convencê-los a voltar para trás, a dar a si mesmos mais uma oportunidade. Este conto sim, é realmente bom, não só de ideia como também de execução.

A Pair of Ragged Claws é outro conto bastante interessante, algures entre a ficção científica e o horror. Num mundo em que a humanidade contactou com uma raça de escorpiões inteligentes, (ETs? Demónios? Não se chega a saber), com os quais só algumas pessoas especiais são capazes de comunicar, conta a história de uma rapariga que vai assistir a um concerto dado por uma banda destes escorpiões, cuja vocalista é humana, e se deixa fascinar. E faz uma loucura, que acaba por ter consequências sérias. Uma abordagem interessante à alienação, mais uma. Tenho deparado com este tema por todos os lados nos últimos tempos.

Lido: O Homem mais Magro de Luanda

O Homem mais Magro de Luanda é mais uma historieta de infância de Ondjaki, cujo tema é umas festarolas regadas a cerveja que haveria em casa de um tio do protagonista e um certo acontecimento mais ou menos funesto que terá tido lugar quando, um belo dia, o Vaz, o tal que era o homem mais magro de Luanda, lá apareceu.

É um continho cheio de subentendidos. Na verdade, começa-me a parecer que o mais interessante destas ficções de Ondjaki são precisamente esses subentendidos, a forma como, olhando o mundo com os seus olhos de adulto, mas através dos olhos de criança do seu protagonista / antigo eu, Ondjaki consegue fazer o leitor perceber coisas que o miúdo não percebe. Coisas de um mundo adulto bastante específico, que o protagonista das histórias vê, regista, mas não compreende de todo ou compreende apenas à sua maneira.

E isso é interessante. Mas continuo a achar que falta aqui qualquer coisa.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Shane Halbach

Shane Halbach está presente na antologia com um único conto, intitulado

My Heart is a Quadratic Equation. Trata-se de um conto de algo aparentado à ficção científica, mas em versão humorística, sobre uma candidata a cientista louca / supervilã, daquelas que dominam o mundo e matam gente a rodos, e etc., que está a tentar — incentivada pela mãe — arranjar namorado. Há aqui qualquer coisa de Família Adams e do Dr. Evil do Austin Powers, o que talvez seja a parte melhor que o conto tem. É que a dating scene ritualizada, à americana, me desperta pouquíssimo interesse e, pese embora a invulgaridade da protagonista, é a isso que se resume boa parte do conto. Tem piada? Bem, tem alguma, sim. Mas não muita, francamente. É daqueles contos sem grande sumo, que distraem durante uns minutos e depressa se esquecem. Mediano.

Lido: Passaporte para a Eternidade

Passaporte para a Eternidade (bibliografia) é um conto de ficção científica de J. G. Ballard onde se misturam num todo nem sempre tão harmonioso como talvez fosse desejável coisas muito boas com coisas mazinhas. O ambiente é de futuro longínquo, no qual não só as viagens entre as estrelas são corriqueiras e fáceis, como a humanidade tem colonizado tudo e umas botas. Mas é um futuro longínquo antiquado, talvez mais do que seria de esperar de um conto de 1962, não só no que toca à ciência como no que diz respeito às relações sociais. Há aqui uma misoginia, por exemplo, que não me parece que seja só do protagonista (que, sim, é altamente misógino). E isso é importante na história, que descreve basicamente a forma como um marido tenta escapar-se à opção de férias escolhida pela mulher (uma opção "de gaja", portanto sem interesse nenhum), investigando que alternativas existem. É aqui que aparece a parte boa, pois Ballard usa essas alternativas de excursões turísticas futurísticas para atirar com fortíssimas e muito irónicas ferroadas a uma série de atitudes e instituições do mundo real, muito em particular a instituição militar.

Lê-se (bem, talvez nem todos leiam; eu li) este conto com uma estranha mistura de divertimento e incómodo, temperado aqui e ali com umas pitadinhas de exasperação. Não creio que alguma vez tenha sido um conto realmente superior, ao contrário de outros do autor. Hoje, está ultrapassado na maior parte dos pormenores mas, infelizmente, não em todos. Muita da crítica que Ballard faz mantém-se totalmente válida, para mal dos nossos pecados. E é isso o que o mantém de pé. Periclitante, apoiado numa bengalinha, mas de pé.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - A. T. Greenblatt

A. T. Greenblatt é mais uma autora presente nesta antologia com dois textos.

Tell Them of the Sky é um bom conto de uma espécie de híbrido de ficção científica com outras coisas, que faz lembrar os ambientes criados por China Miéville. Passa-se num mundo, ou pelo menos numa cidade, sufocados em cinza e smog, na qual, apesar de ninguém conseguir ver o céu, um velho artesão fabrica brinquedos de animais e aparelhos voadores. Um belo dia, este artesão recebe a visita de uma miúda que tem um sonho que ainda nem sabe que tem, e por isso se deixa enfeitiçar pelos brinquedos que o artesão vende e também pela ideia que eles levam consigo: a ideia do voo. O conto acompanha, em breves episódios, a relação que se vai desenvolvendo entre os dois ao longo dos anos, à medida que o artesão envelhece e a miúda se faz rapariga e esta se torna mulher, e depois desemboca no inevitável voo. Tudo bastante bem feito, com ritmo, interesse e bom tratamento do texto.

Letters from Within é um divertido continho epistolar que remete para as velhas histórias de donzelas, dragões e cavaleiros andantes. Trata-se de uma carta que o cavaleiro andante escreve à donzela sua amada, que tentara salvar, depois de ser devorado inteiro pelo dragão que supostamente iria matar. Uma desconstrução bem-humorada dos velhos clichés deste tipo de história, provando, como se preciso fosse, que os clichés podem ser uma matéria-prima literária como outra qualquer.

Greenblatt também está aprovada.

Lido: A Máscara da Morte Vermelha

A Máscara da Morte Vermelha (bibliografia) é um breve conto de Edgar Allan Poe que, um pouco em jeito de conto de fadas, relata a forma como um príncipe de um reino nunca nomeado (o que é também típico dos contos de fadas), confrontado com uma terrível epidemia chamada morte vermelha, que assolava os seus domínios sem que parecesse ser possível pôr-lhe travão, achou por bem recolher-se, e à sua corte, numa abadia acastelada, isolando-a do mundo, na esperança de que a doença acabasse por morrer por si no exterior sem chegar a afetá-los.

E daqui para a frente há spoilers. Estão avisados.

Não será difícil de antecipar, sendo Poe quem é, e sendo esta história de horror, que as coisas não correm exatamente como o príncipe pretendia. Numa festa, aparece um misterioso mascarado que pode ser, ou não, uma figura sobrenatural, e o lindo sonho de sobrevivência do príncipe vai por água abaixo.

Sem que seja das melhores de Poe, é muito curioso como esta história tem paralelo com o curso característico de todas as alienações. Podemos procurar fugir do mundo, refugiando-nos em territórios confortáveis, seja na imaginação, na literatura, no futebol, nas drogas, no álcool, seja onde for, que o mundo consegue sempre arranjar maneira de nos relembrar da sua existência, batendo-nos no ombro para nos dizer que na verdade só ele tem real solidez. As fantasias, as fugas, são sempre temporárias e frágeis, castelos de cartas prontos a ruir ao primeiro sopro. Mais tarde ou mais cedo, por mais que se feche os olhos, há que abri-los para o feio rosto da realidade.

E é por, não dizendo isto, dizer isto, que este é um bom conto. Não apenas uma história, mas arte. Boa literatura.

Conto anterior deste livro:

domingo, 23 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Tina Gower

Tina Gower está presente na antologia com dois textos, uma noveleta e um conto.

Twelve Seconds, a noveleta, é um excelente exemplo de ficção científica policial, protagonizada e narrada por um investigador de registos post-mortem, autista, que um belo dia repara numa irregularidade que a princípio mais ninguém vê. Os registos post-mortem ("sifões", na terminologia que Gower cria) são impressões dos momentos que antecedem a morte, captados a partir dos cérebros das vítimas e depois analisados pelos investigadores em sistemas de realidade virtual, e a irregularidade que o protagonista nota é a inexistência, em alguns "sifões" em particular, de algo que existe em todos os outros: halos. A história, que não tem grande elaboração estilística, está muito bem construída e é bastante enriquecida pelas características do protegonista e pela forma muitíssimo credível como este é elaborado.

Today I Am Nobody, o conto, é uma história de fantasia que, ao contrário da primeira história, tem na elaboração estilística da prosa um dos seus pontos fortes. A protagonista é uma rapariga presa numa paixão sem esperança que, para tentar captar as boas graças do amado, se metamorfoseia em outras mulheres graças a um feitiço de um xamã. O conto descreve as várias metamorfoses da rapariga e o que acontece quando ela se apresenta ao alvo da sua afeição sob cada uma das formas. O resultado é um conto cheio de ritmo, com muita ironia e muito bem escrito.

Ajuizando pela amostra, vale a pena manter Tina Gower debaixo de olho.

Lido: A Rainha

A Rainha (bibliografia) é uma interessante noveleta de Paulo Vicente Pedroso sobre um cientista mais que meio louco que patrulha o Mar da Palha, nas zonas lodosas da margem sul do Tejo, na esperança de capturar e estudar uma gigantesca enguia elétrica que, segundo as histórias, aí habita. É essa a rainha a que o título se refere; a rainha dos peixes, a rainha do rio, quiçá.

Mas o que encontra, pelo menos a princípio, são dois miúdos, órfãos e estranhos, habituados a cuidar de si mesmos, contra ventos e marés. E acolhe-os, a contragosto, enquanto vai congeminando formas de se servir deles.

É uma premissa curiosa, que dá uma história com o seu interesse e poderia resultar numa muito boa. No entanto, não resulta. Esta história de Pedroso é prejudicada por uma prosa com demasiadas falhas, tanto estilísticas como em questões menos óbvias, como o ritmo ou a forma de caracterizar as personagens, o que faz com que acabe por não ser mais que razoável. Porquê? Eis um exemplo, escolhido perfeitamente ao calhas, abrindo o livro e selecionando a frase em que os olhos caíram, que por isso não é a melhor frase do texto mas também está longe de ser a pior:
"Isso era tudo o que o homem não precisava. Duas crianças a importuná-lo mas mesmo assim perguntou:"
Percebem o que está aqui mal? Existe uma sequência lógica entre a primeira frase e o princípio da segunda que é mais forte do que entre o princípio e o fim desta. Não funciona. Estas duas frases já ficariam mais agradáveis à leitura com uma mera alteração na pontuação. Assim:
"Isso era tudo o que o homem não precisava: duas crianças a importuná-lo. Mas mesmo assim perguntou:"
Mas melhor seria fazer mais umas alterações. Por exemplo:
"Duas crianças a importuná-lo. Era mesmo disso que não precisava. Mesmo assim, perguntou:"
É pena. A ideia do conto poderia resultar num texto realmente forte, mas por causa deste tipo de coisa fica aquém.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Lido: Ficções, nº 13

A Ficções, nº 13 (bibliografia) é uma revista com um conjunto de histórias variado, mas em geral bastante bom, sem qualquer espécie de tema ou abordagem comum que sirva de traço de união, à parte a curiosidade de terem — quase todas — sido escolhidas pelos participantes numa oficina de tradução literária.

Contrariamente ao que os supersticiosos poderiam supor, a coisa correu muito bem, e a literatura aqui incluída é quase toda no mínimo interessante, e em dois ou três casos chega mesmo a ser excelente. Apesar de ter havido alguns contos de que não gostei por aí além, na maior parte dos casos esse menor prazer na leitura deve-se mais a peculiaridades de gosto do leitor que sou do que às características dos contos propriamente ditas.

Sim, vale a pena ler esta revista em forma de livro.

Para fãs do fantástico, tem o interesse acrescido de conter dois contos de escritores geralmente associados ao género, um dos quais (M. John Harrison) muito pouco publicado entre nós, e a outra (Ursula K. Le Guin) justificadamente célebre e celebrada.

Se quiserem saber o que achei de cada um dos contos, é só seguir os links:
Esta publicação foi comprada.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Max Gladstone

Max Gladstone é mais um autor presente na antologia com um só conto, que no seu caso se intitula

Drona's Death. É um conto de fantasia, cheio de morte e deuses e guerreiros heróicos à moda de Hércules, centrado nas velhas questões de matar ou morrer no meio de uma guerra e dos problemas que causam as relações familiares quando a vida está por um fio. Interessante? Não. Tudo isto já foi tratado variadíssimas vezes antes, e quase sempre melhor. É que a prosa de Gladstone é pretensiosa, daquelas prosas tonitruantes que parecem estar sempre a declamar num palco, por entre exclamações sentimentais. Os anglófonos têm um termo para este tipo de prosa: purple prose. E, graças em parte a essa prosa e em parte a outras características pouco recomendáveis, o conto lê-se com aborrecimento e esquece-se num ápice. Sem deixar saudades.

Muito fraquinho. Muito mesmo.

Lido: Conto de Natal

Conto de Natal é mais uma crón... mas espera... não, não é. É um... conto fantástico?! Do Ricardo Araújo Pereira?! Vou ter de acrescentar mais o nome deste ao Bibliowiki?! E se calhar ainda ir-lhe comprar os livros para ver se é o único ou se há mais? Ora esta!

Pois que o Ricardo Araújo Pereira, conhecido incréu, resolveu escrever um continho de natal, para o que foi buscar uma personagem completamente inesperada, Jesus Cristo, uma lenda inteiramente desaproveitada, a história de o tipo andar por aí a aparecer às pessoas enquanto pedinte, e com esses ingredientes, que nunca ninguém tinha usado antes, lá compôs um continho à sua maneira. Tem punchline, obviamente. E é divertido, claro, embora a minha condição de confrade RAPiano na blasfémia possa estar a colorir esta opinião. Estou certo de que, digamos assim ao calhas, o João César das Neves não iria achar nenhuma gracinha à gracinha. E quem diz Abominável César das Neves, diz qualquer outro devoto beato. Mas eu? Oh, eu ri.

Textos anteriores deste livro:

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Bill Ferris

Bill Ferris é mais um autor presente na antologia com uma única história, um conto intitulado

Athlete's Foot. Trata-se de um conto absolutamente nojento sobre um atleta, jogador profissional de basquetebol, que entra na vida do narrador, também ele jogador, quando assina por uma equipa de Minsk. Vedetinha, daquelas insuportáveis, que tratam toda a gente como seus escravos pessoais, sofre, no entanto, de um problema: pé-de-atleta. Não um pé-de-atleta qualquer, note-se. Afinal de contas, a primeira frase do conto é, numa traduçãozinha rápida, "deixem que vos diga como foi que o LaWilliam Morris perdeu mesmo as pernas." E é isso que o conto conta, tintim por tintim, com todos os repugnantes pormenores. Só lendo. E a verdade é que apesar de se perceber desde o início onde é que tudo aquilo vai dar, o conto sustenta o interesse. Um interesse mórbido, nauseado, mas não deixa de ser interesse.

É um conto bastante bom. Horrendo mas bom.

Lido: Jornalismo do Bom

Jornalismo do Bom é uma crónica de Ricardo Araújo Pereira, mais uma, na qual o nosso bom RAP elabora outra das suas geniais teorias. A deste texto é que não há melhores pessoas para fazer jornalismo, neste momento (vá, há 10 anos, mas hoje em dia, se calhar, é ainda mais assim) em Portugal do que um taxtista. E vai daí óspois, que tudo isto é muito lisboeta, descreve uma conversa altamente elucidativa que terá tido com um desses dignos profissionais a propósito de vários assuntos da maior relevância. E prontos. É isto. Mais um texto muito divertido, a espaços até um pouco surreal, mas em bom. E bem escrito, claro, incluindo o uso adequado e mesmo por vezes castiço do discurso direto, coisa que seria bom que tantos escritores "sérios" (seja lá isso o que for) que por aí andam aprendessem a fazer.

Estas crónicas funcionam sempre muito melhor a médio/longo prazo quando são genéricas e não comentam acontecimentos demasiado circunscritos a uma determinada época. A espuma dos dias, como dizia o outro, esgota-se depressa.

Textos anteriores deste livro:

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Sean Eads

Sean Eads é outro autor presente nesta antologia com um único texto, intitulado no seu caso

The Seer. Trata-se de um conto de ficção científica pós-apocalíptica em que o apocalipse não foi causado pelo homem ou por forças mais ou menos sobrenaturais, como é hábito, mas por uma invasão alienígena. Passa-se bastante depois da invasão (e da vitória sobre os ETs), num planeta em que a cultura dominante regrediu a hábitos razoavelmente tribais. O protagonista é um Vidente, uma espécie de líder em parte político, em parte religioso, em parte militar, que no entanto duvida de si próprio, não só por ser, de longe, o mais novo membro do conselho de videntes, mas porque sempre mentiu quanto a visões que nunca teve, até começar a tê-las... e elas não serem nada parecidas às que todos os outros — e ele próprio — dizem ter.

O conto tem uma ótima ideia base e tanto sumo que só isso basta para o tornar interessante, embora deixe algo a desejar no que toca à concretização. É uma história bastante profunda sob a camada superficial de FC militar. Se tivesse sido mais bem concretizada seria uma história excelente. Assim, não chega lá.

Lido: Psht ó Chefe

Psht ó Chefe é mais uma crónica de Ricardo Araújo Pereira em que, depois de levar tau-tau no rabinho por usar o anglicismo ortográfico "psht" em lugar do mais vernáculo, e portanto correto, "pcht", RAP debruça o seu olhar analítico pelos diversos tipos de empregados de café, no que toca, naturalmente, à forma como eles transmitem à copa o pedido do cliente. Gargalhada inevitável, pois então, tanto devido à subdivisão em géneros como aos exemplos dados para cada um e até a uma certa redução de si próprio à dimensão devida. Mais um texto muito divertido e, pé na poça ortográfico à parte, bem escrito.

Textos anteriores deste livro:

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Haris A. Durrani

Haris A. Durrani é mais um autor presente nesta antologia com um único texto, no caso dele uma noveleta. Intitula-se

Tethered. Trata-se de uma ficção científica orbital bastante interessante, passada num futuro em que a multuplicação de colisões entre satélites e destroços em órbita atingiu um nível tal que tornou impraticáveis certas órbitas em volta do planeta. Os protagonistas são um casal de catadores de lixo espacial, profissionais independentes, que recebem e aceitam, algo a contragosto, um contrato para recuperar um satélite específico. E claro que as coisas não correm com a lisura que seria desejável. É que não é por estarmos num futuro ainda algo distante que a geopolítica desaparece.

Uma ficção científica hard bem escrita, bem concebida e bem executada, intercalada por informação verdadeira sobre as várias facetas do problema muito real do lixo espacial com que mais tarde ou mais cedo será necessário lidar. É uma reflexão razoavelmente profunda sobre esse problema específico, ainda que evite debruçar-se muito sobre mais alguma coisa. E também é uma história de sobrevivência em órbita, à semelhança do filme Gravity. E uma história de amor, com personagens bem construídas e credíveis. Em suma: uma boa história.