Página dum Suicida é mais uma história de Mário de Sá-Carneiro contada em forma de (página de) diário, e de novo o tema é o suicídio. Este, no entanto, é um suicídio bem humorado, se calhar até irónico. O diarista vê-se como um explorador, um descobridor de novos mundos que, como já não restam novos mundos ao mundo, acha ele (e que fraca imaginação tem, o pobre!), se vê na contingência de os ir buscar na morte. Em vez de descobrir a América, já descoberta, parte para descobrir a Morte, assim mesmo com letra grande como é regra dos lugares. E lá vai.
Há muitas ideias tolas por este mundo fora, que mal faz mais uma? E o texto está bem escrito, naturalmente, embora não tanto como alguns dos outros. Eu encolhi os ombros, mas há certamente quem goste, e muito. Ainda bem.
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
Lido: O Nitó que Também Era Sankarah
O Nitó que Também Era Sankarah, mais um continho de juventude de Ondjaki, regressa à sensaboria das histórias banais. Aqui, o jovem Ndalu é transferido de escola e a sua estreia na nova escola é apimentada por um primo estiloso, que é lá professor. Nada de muito interessante, tocante ou relevante, apesar da forma agradável como a história está escrita. Apenas uma historieta sem grande importância.
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O infinitamente provável fim do Infinitamente Improvável
Como escrevi no texto que serve de prefácio ao ebook cuja capa está aqui ao lado, o Infinitamente Improvável foi um glorioso fracasso. Mas um glorioso fracasso que, apesar de o ser, teve o mérito de dar vazão a um número razoável de histórias que me deu muito gozo publicar. Isso chega?
Não, no caso deste projeto não acho que chegue, mesmo tendo em conta que sem ele, e sem algumas das histórias que nele foram publicadas e talvez tenham sido, ou talvez não, escritas de propósito, parte desta ficção nunca teria chegado a existir. Não chega porque o objetivo principal do projeto não foi alcançado, longe disso. Não chega, portanto, para evitar que considere o projeto um fracasso, embora chegue para achar que tinha a obrigação de lhe dar um fim condigno em vez de o deixar morrer simplesmente por falta de comparência como tantas vezes acontece na web.
Foi isso mesmo que fiz agora, com a publicação de duas últimas histórias e a compilação de todas as histórias publicadas enquanto o II se manteve vivo nesta derradeira antologia, acompanhadas por comentários individualizados, sempre que a extensão da história ultrapassa a vinheta, ou mais genéricos quando não.
São ao todo 29 contos, que decidi subdividir em 5 grupos, e 19 textos introdutórios em que procuro contextualizar o projeto e as histórias propriamente ditas, tanto nele como fora dele. Tudo isso foi compilado num ebook, disponível aqui, em duas versões, EPUB e MOBI (esta última é a que se usa no kindle, caso não saibam). Planeio ainda fazer uma versão em PDF, mas essa exige uma paginação mais minuciosa e ainda demorará algum tempo a ficar pronta. Avisarei quando ficar e será essa a última publicação do Infinitamente Improvável.
Ou por outra, é infinitamente provável que o seja, que nestas coisas do II nunca se pode dar certezas de nada. Foi giro enquanto durou e, na infinita improbabilidade de continuar a durar, giro continuará a ser.
Não, no caso deste projeto não acho que chegue, mesmo tendo em conta que sem ele, e sem algumas das histórias que nele foram publicadas e talvez tenham sido, ou talvez não, escritas de propósito, parte desta ficção nunca teria chegado a existir. Não chega porque o objetivo principal do projeto não foi alcançado, longe disso. Não chega, portanto, para evitar que considere o projeto um fracasso, embora chegue para achar que tinha a obrigação de lhe dar um fim condigno em vez de o deixar morrer simplesmente por falta de comparência como tantas vezes acontece na web.
Foi isso mesmo que fiz agora, com a publicação de duas últimas histórias e a compilação de todas as histórias publicadas enquanto o II se manteve vivo nesta derradeira antologia, acompanhadas por comentários individualizados, sempre que a extensão da história ultrapassa a vinheta, ou mais genéricos quando não.
São ao todo 29 contos, que decidi subdividir em 5 grupos, e 19 textos introdutórios em que procuro contextualizar o projeto e as histórias propriamente ditas, tanto nele como fora dele. Tudo isso foi compilado num ebook, disponível aqui, em duas versões, EPUB e MOBI (esta última é a que se usa no kindle, caso não saibam). Planeio ainda fazer uma versão em PDF, mas essa exige uma paginação mais minuciosa e ainda demorará algum tempo a ficar pronta. Avisarei quando ficar e será essa a última publicação do Infinitamente Improvável.
Ou por outra, é infinitamente provável que o seja, que nestas coisas do II nunca se pode dar certezas de nada. Foi giro enquanto durou e, na infinita improbabilidade de continuar a durar, giro continuará a ser.
Lido: Gozo Doloroso
Gozo Doloroso é outra vinheta de ficção científica de Luiz Bras, que, numa prosa tão poética que é quase poema, nos apresenta algo que poderia ser etiquetado como distopia sexual em realidade virtual. Um continho literariamente forte o suficiente para o meu eterno desejo de maior desenvolvimento sempre que acho que as ideias têm pano para mangas (e é o caso) ficar atenuado. Esta ideia daria um bom texto mais extenso? Daria. Mas neste texto curto também está bastante bem explorada.
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terça-feira, 29 de dezembro de 2015
Lido: A Profecia
A Profecia é mais uma curta história de Mário de Sá-Carneiro, de novo em forma de diário que, uma vez mais, volta a dar expressão às obsessões mórbidas do autor. E desta vez de uma forma que justifica plenamente a sua integração no horror.
O diário, de novo, é de "um amigo" que, segundo a nota que prefacia o conto, se terá suicidado de uma forma que levantou toda a espécie de especulações e boatos. "Para repor a verdade", Sá-Carneiro publica excertos do seu diário, através dos quais se fica a saber que a morte do jovem se terá devido a uma profecia. Ficam em suspenso as certezas sobre se a profecia o era mesmo, ou se terá tratado daquelas profecias que desencadeiam o resultado que preveem (do género "o banco X vai desaparecer"). O enredo é, pois, bastante interessante; o estilo hiperssentimental em que o diário está escrito, no entanto, está longe de o ser. Ao mesmo tempo, a qualidade do português é irrepreensível, e somando tudo tem-se como resultado que esta será das histórias mais interessantes que o livro contém até ao momento.
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O diário, de novo, é de "um amigo" que, segundo a nota que prefacia o conto, se terá suicidado de uma forma que levantou toda a espécie de especulações e boatos. "Para repor a verdade", Sá-Carneiro publica excertos do seu diário, através dos quais se fica a saber que a morte do jovem se terá devido a uma profecia. Ficam em suspenso as certezas sobre se a profecia o era mesmo, ou se terá tratado daquelas profecias que desencadeiam o resultado que preveem (do género "o banco X vai desaparecer"). O enredo é, pois, bastante interessante; o estilo hiperssentimental em que o diário está escrito, no entanto, está longe de o ser. Ao mesmo tempo, a qualidade do português é irrepreensível, e somando tudo tem-se como resultado que esta será das histórias mais interessantes que o livro contém até ao momento.
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Lido: O Livro do Mr. Natural
O Livro do Mr. Natural é um álbum de banda desenhada de Robert Crumb que reúne uma série de histórias desenvolvidas à volta do protagonista, o Mr. Natural, um guru new age, tão místico como vigarista, representado sempre como aparece na capa (embora nem sempre nu), como um tipo baixo e roliço com uma longa barba branca.
Não sei bem se nunca tinha lido Crumb, o que só por si demonstra bem que não sou bedéfilo. O estilo, quando comecei a ler este livro, não me foi estranho. Ainda aventei a hipótese de que poderia ser ele o autor de Os Sobrinhos do Capitão, histórias que acompanhei em miúdo nos álbuns de capa mole do Carlitos e só vinham assinadas por uma assinatura quase ilegível a que eu pura e simplesmente não ligava, mas uma comparação rápida informou-me de que não: há semelhanças no estilo rechonchudo do desenho, mas pouco mais. E depois, pesquisando, descobri que Os Sobrinhos do Capitão são no original The Katzenjammer Kids e foram criados por Rudolph Dirks. OK, esse assunto ficou arrumado, mas a sensação de familiaridade continuou sem explicação. O mais provável é ter tomado contacto com algum trabalho dele, algures, sem saber que era dele.
Seja como for, O Livro do Mr. Natural é um grande gozo. Ou uma sátira, como se diz em intelectualês. Um gozo, primeiro que tudo, a uma certa forma de estar em sociedade muito típica dos anos 60 e 70 do século passado. Um gozo à credulidade das pessoas, à facilidade com que um líder carismático pode influenciá-las e servir-se delas. O Mr. Natural está constantemente a testar os limites dos seus seguidores (em especial de um tal Flakey Foont, a sua vítima predileta), a abusar deles, a levá-los à certa enquanto debita frases vazias de qualquer espécie de significado mas todos acham muito profundas, e isso só lhe traz cada vez mais seguidores. Manda-os todos dar uma volta ao bilhar grande e eles vão e, quando voltam, são mais.
Hoje, um Crumb moderno que quisesse criar um Mr. Natural teria de fazê-lo diferente. Estes gurus new age, embora ainda existam, estão em franca decadência. Fora de moda. Já não atraem multidões, embora continuem a atrair grupinhos. Um Mr. Natural de um Crumb dos dias de hoje seria bem menos natural. Não se passearia nu por aí. Seria orador motivacional, escreveria livros de auto-ajuda (ou, mais precisamente, pagaria a alguém para lhos escrever), fundaria uma seita onde venderia vassouras ungidas para varrer o mal. Mas de resto seria igual. Debitaria frases vazias para aplauso geral. Refastelar-se-ia com a idolatria de que seria alvo enquanto, secretamente (poucos são tão descarados como o Mr. Natural), desprezaria os idolatradores. Seria menos surreal. Procuraria marcar presença em palestras TEDx. Quiçá, até talvez concorresse à presidência da república.
A personagem é bastante interessante, sem dúvida, e deu pano para mangas. Mas não gostei muito do livro. Há piadas demasiado óbvias. Há outras bastante básicas. Há uma certa misoginia, provavelmente inevitável em algo criado nesta época, mas mesmo assim desagradável. Há no guru uma canalhice vazia de escrúpulos que o torna previsível mesmo quando está aparentemente a ser o contrário (um pouco à semelhança do Mr. Bean). Há algum racismo. E há uma certa incongruência na própria personagem, que ora é genuinamente canalha e vigarista, ora parece acreditar nas suas próprias tangas.
Não me manifesto quanto à importância deste livro na BD americana (por clara incompetência), mas para o meu gosto, pessoal e intransmissível, ele deixou um pouco a desejar. Gostei, mas não muito. Diverti-me, mas nem sempre. Foi, como se diz por aí, um bocado meh.
Este livro foi comprado.
Não sei bem se nunca tinha lido Crumb, o que só por si demonstra bem que não sou bedéfilo. O estilo, quando comecei a ler este livro, não me foi estranho. Ainda aventei a hipótese de que poderia ser ele o autor de Os Sobrinhos do Capitão, histórias que acompanhei em miúdo nos álbuns de capa mole do Carlitos e só vinham assinadas por uma assinatura quase ilegível a que eu pura e simplesmente não ligava, mas uma comparação rápida informou-me de que não: há semelhanças no estilo rechonchudo do desenho, mas pouco mais. E depois, pesquisando, descobri que Os Sobrinhos do Capitão são no original The Katzenjammer Kids e foram criados por Rudolph Dirks. OK, esse assunto ficou arrumado, mas a sensação de familiaridade continuou sem explicação. O mais provável é ter tomado contacto com algum trabalho dele, algures, sem saber que era dele.
Seja como for, O Livro do Mr. Natural é um grande gozo. Ou uma sátira, como se diz em intelectualês. Um gozo, primeiro que tudo, a uma certa forma de estar em sociedade muito típica dos anos 60 e 70 do século passado. Um gozo à credulidade das pessoas, à facilidade com que um líder carismático pode influenciá-las e servir-se delas. O Mr. Natural está constantemente a testar os limites dos seus seguidores (em especial de um tal Flakey Foont, a sua vítima predileta), a abusar deles, a levá-los à certa enquanto debita frases vazias de qualquer espécie de significado mas todos acham muito profundas, e isso só lhe traz cada vez mais seguidores. Manda-os todos dar uma volta ao bilhar grande e eles vão e, quando voltam, são mais.
Hoje, um Crumb moderno que quisesse criar um Mr. Natural teria de fazê-lo diferente. Estes gurus new age, embora ainda existam, estão em franca decadência. Fora de moda. Já não atraem multidões, embora continuem a atrair grupinhos. Um Mr. Natural de um Crumb dos dias de hoje seria bem menos natural. Não se passearia nu por aí. Seria orador motivacional, escreveria livros de auto-ajuda (ou, mais precisamente, pagaria a alguém para lhos escrever), fundaria uma seita onde venderia vassouras ungidas para varrer o mal. Mas de resto seria igual. Debitaria frases vazias para aplauso geral. Refastelar-se-ia com a idolatria de que seria alvo enquanto, secretamente (poucos são tão descarados como o Mr. Natural), desprezaria os idolatradores. Seria menos surreal. Procuraria marcar presença em palestras TEDx. Quiçá, até talvez concorresse à presidência da república.
A personagem é bastante interessante, sem dúvida, e deu pano para mangas. Mas não gostei muito do livro. Há piadas demasiado óbvias. Há outras bastante básicas. Há uma certa misoginia, provavelmente inevitável em algo criado nesta época, mas mesmo assim desagradável. Há no guru uma canalhice vazia de escrúpulos que o torna previsível mesmo quando está aparentemente a ser o contrário (um pouco à semelhança do Mr. Bean). Há algum racismo. E há uma certa incongruência na própria personagem, que ora é genuinamente canalha e vigarista, ora parece acreditar nas suas próprias tangas.
Não me manifesto quanto à importância deste livro na BD americana (por clara incompetência), mas para o meu gosto, pessoal e intransmissível, ele deixou um pouco a desejar. Gostei, mas não muito. Diverti-me, mas nem sempre. Foi, como se diz por aí, um bocado meh.
Este livro foi comprado.
Lido: No Galinheiro, no Devagar do Tempo
No Galinheiro, no Devagar do Tempo é mais um continho de Ondjaki sobre as peripécias da sua juventude, embora este seja menos "inho" que os restantes. Voltamos a encontrar aqui a prima Charlita e família de míopes que partilham um par de óculos para ver telenovelas brasileiras, mas em crise, pois Charlita vai de viagem a Portugal (ou "à Tuga") a uma consulta... e leva os óculos consigo.
É um conto que me diz pessoalmente mais que a maior parte dos outros, porque ressoa em várias facetas do meu umbigo. Sei o que é andar em consultas de oftalmologia e também vivi o tempo em que as telenovelas brasileiras eram divertidas, bem feitas, bem representadas e cheias de personagens castiças como o Odorico Paraguaçu ou a Viúva Porcina. Por conseguinte, gostei mais desta história que da maioria das outras mas, olhando-a com olhos mais limpos de umbiguismos, só posso ver nela as mesmas qualidades e defeitos de todas as outras.
Bem... ou quase. Creio que esta história é mesmo um pouco melhor que a maior parte das outras. Porque é mais desenvolvida e porque o final, de uma subtileza precisa, nada explica enquanto explica tudo.
Contos anteriores deste livro:
É um conto que me diz pessoalmente mais que a maior parte dos outros, porque ressoa em várias facetas do meu umbigo. Sei o que é andar em consultas de oftalmologia e também vivi o tempo em que as telenovelas brasileiras eram divertidas, bem feitas, bem representadas e cheias de personagens castiças como o Odorico Paraguaçu ou a Viúva Porcina. Por conseguinte, gostei mais desta história que da maioria das outras mas, olhando-a com olhos mais limpos de umbiguismos, só posso ver nela as mesmas qualidades e defeitos de todas as outras.
Bem... ou quase. Creio que esta história é mesmo um pouco melhor que a maior parte das outras. Porque é mais desenvolvida e porque o final, de uma subtileza precisa, nada explica enquanto explica tudo.
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
Lido: Branco
Branco é um conto muito curto de ficção científica, de Luiz Bras, sobre um homem que está preso numa "prisão mental," um espaço inteiramente branco, quiçá inspirado pela realidade virtual vazia que podemos encontrar, por exemplo, no primeiro filme da série Matrix. Mas a dada altura da pena aparece-lhe outro presidiário que lhe diz que não é nada daquilo que se passa, que o homem não está preso em prisão mental nenhuma, que a realidade é outra.
Um conto muito bem feito, muito bem construído, embora tenha acontecido com ele o que acontece muitas vezes (e cada vez mais) quando leio ficção ultracurta: soube-me a pouco. Mas não me soube a esboço de uma coisa maior, o que também acontece com frequência. Isso é bom.
Conto anterior deste livro:
Um conto muito bem feito, muito bem construído, embora tenha acontecido com ele o que acontece muitas vezes (e cada vez mais) quando leio ficção ultracurta: soube-me a pouco. Mas não me soube a esboço de uma coisa maior, o que também acontece com frequência. Isso é bom.
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domingo, 27 de dezembro de 2015
Lido: Felicidade Perdida
Felicidade Perdida é um continho de Mário de Sá-Carneiro, escrito em jeito de diário, sobre o ridículo das assolapadas paixões juvenis. Não se percebe bem se Sá-Carneiro se dá inteira conta do ridículo inerente ao que descreve, mas é claro que pelo menos se dá parcialmente. Talvez por isso coloque o diário na pena de um "amigo", que um dia no teatro troca olhares com uma jovem desconhecida e fica irremediavalmente louco de amores sem sequer trocar uma palavra com ela, se põe a procurá-la por meia Lisboa só para se dar conta de que... esqueceu por completo as suas feições.
O texto está bem escrito, mas não muito, e a história tem para mim o mérito de ser mais divertida (involuntariamente?) que trágica. Razoável.
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O texto está bem escrito, mas não muito, e a história tem para mim o mérito de ser mais divertida (involuntariamente?) que trágica. Razoável.
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Lido: O Bigode do Professor de Geografia
O Bigode do Professor de Geografia é mais uma historieta de juventude de Ondjaki. Desta vez, o momento relatado acontece numa aula, de geografia, bem entendido, durante a qual o professor, saturado dos alunos que lhe calharam em rifa, perde por completo as estribeiras. Tudo, claro, contado pelo ponto de vista dos alunos.
Uma historinha curiosa, especialmente porque, lendo-a hoje em Portugal, é inevitável tentar imaginar o que aconteceria ao professor que reagisse assim. Coisas boas não seriam pela certa. De um processo disciplinar, no mínimo, não se escaparia. No mínimo.
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Uma historinha curiosa, especialmente porque, lendo-a hoje em Portugal, é inevitável tentar imaginar o que aconteceria ao professor que reagisse assim. Coisas boas não seriam pela certa. De um processo disciplinar, no mínimo, não se escaparia. No mínimo.
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sábado, 26 de dezembro de 2015
Lido: Distrito Federal
Distrito Federal é um contículo experimental de Luiz Bras, que esboça em traços largos a invasão do Distrito Federal por criaturas mitológicas, brasileiras e não só, em perseguição de diversos tipos de parasitas sociais que enxamearão a região: senadores corruptos, deputados racistas e homofóbicos, por aí fora. Uma ficção política brevíssima e eficaz, a fazer lembrar um pouco os contos de Mário-Henrique Leiria, embora seja improvável que Luiz Bras os conheça. Muito interessante.
Lido: Uma Rapariga de Red Lion, P.A.
Uma Rapariga de Red Lion, P.A. é um conto interessante de H. L. Mencken, de quem eu julgo nunca ter lido nada até este momento, sobre uma rapariga do campo, com todo o ar de criatura boa e reputada, que um belo dia chega à estação de caminho de ferro de Baltimore, procura o cocheiro mais digno de confiança que consegue encontrar e lhe pede para a levar imediatamente a... uma casa de má reputação. A incongruência do ato faz erguer sobrolhos a todos os que ficam ao corrente dele, e o conto vai avançando entre a ingenuidade da moça e o conhecimento do mundo dos pecadores que a rodeiam, até à explicação do motivo por que a rapariga teria vindo de Red Lion, Pensilvânia, para fazer o que fez.
O conto é interessante, em particular pelo modo como lida com a marginalidade, e tem em si uma certa ironia, mas dificilmente lhe chamaria "comédia." E também não é daqueles contos que me enchem as medidas. É um conto de época, datado, com o grande mérito de se afastar decididamente de moralismos mais ou menos bacocos (ainda que vastamente maioritários na época), mas que não me pareceu lá muito bem construído. Gostei, mas não muito.
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O conto é interessante, em particular pelo modo como lida com a marginalidade, e tem em si uma certa ironia, mas dificilmente lhe chamaria "comédia." E também não é daqueles contos que me enchem as medidas. É um conto de época, datado, com o grande mérito de se afastar decididamente de moralismos mais ou menos bacocos (ainda que vastamente maioritários na época), mas que não me pareceu lá muito bem construído. Gostei, mas não muito.
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Eu e a BD
Esta foto cheia de grão tem quase precisamente um ror de anos. Os três putos que ali se veem, com quatro anos de diferença entre uns e outros, sou eu e os meus dois primos albufeirenses, e o trio é só parte da foto completa. Foi tirada num dos natais passados em Albufeira, velha tradição familiar, e eu ali estou numa velha tradição pessoal: agarrado a um livro. No caso, um livro de BD, não me lembro qual.
Quando eu era puto, todos os natais, ou quase, havia BD à disposição. Ou eu, ou o meu primo Pedro ou, mais tarde, o Ricardo, recebíamos de alguém um ou mais álbuns de presente e toda a família (bem, não toda, mas incluindo o meu pai e o meu tio) se refastelava na tarde fria e preguiçosa de 25, a devorá-los. Era principalmente Astérix, embora o album que eu aqui tenho na mão não seja um dos de Goscinny e Uderzo (e o facto de eu não me lembrar dele significa que o contemplado deverá ter sido o Pedro) ou, em geral, BD franco-belga. Os comics americanos não faziam parte do menu. Também os lia quando os apanhava a jeito, e acabaram por vir alguns parar-me às mãos, não sei bem como, mas nunca comprei nenhum com o meu dinheiro (sim, nesta altura eu já tinha o meu dinheiro) e creio que nunca ninguém comprou nenhum com o intuito de mo dar. Lia-os, mas nunca fui grande fã, nem dos da Disney, nem dos das casas rivais de super-heróis. Quanto a estes, ganhei certa simpatia por alguns, em especial o Batman e o Homem-Aranha, mas em geral sempre os achei fundamentalmente ridículos. E os quadrinhos brasileiros, Mónica, Cebolinha e companhia, também estão nesta categoria: lia quando os apanhava, mas sem ser grande fã. Do que gostava mesmo era de Lucky Luke, Tintim e seus "parentes" (Spirou, Estrumpfes (smurfs é o caracinhas, tá bem?), Blake and Mortimer, Alix) e, acima de todos, Astérix.
Foi assim que foi construída a minha cultura de BD. Ela não é vasta nem particularmente variada, porque nunca me dediquei a aprofundá-la. Chegou uma altura na vida em que me desinteressei das histórias aos quadradinhos; passei a achar mais complexas e estimulantes as histórias escritas em texto corrido, e a vertente gráfica da BD, que é o que mantém muitos dos verdadeiros bedéfilos presos ao género depois da adolescência, nunca me interessou muito.
Como consequência, não deixei completamente de ler BD, mas quase. De vez em quando regressava aos meus velhos álbuns do Astérix que, de tanto lidos, estão hoje praticamente desfeitos e, mais raramente, lia um ou outro livro apanhado aqui e ali. A revolução da novela gráfica adulta passou-me quase completamente ao lado, embora tenha sido nessa fase que descobri e me tornei absoluto fã de Quino. Mais de outras coisas do que da Mafalda, embora também da Mafalda.
Ah, sim, claro, e nunca deixei de ler as tiras que vinham nos jornais, pelo menos até deixar de comprar jornais. O Calvin é o maior e Hobbes a sua consciência.
A que propósito vem agora tudo isto? Bem, é que este ano foi completamente atípico: li bastante BD e tive algumas surpresas agradáveis. Essa BD irá ser comentada aqui na Lâmpada nos próximos tempos, mas achei necessário deixar a nota prévia de que eu não sou bedéfilo. Sou só um tipo que foi lendo alguma BD ao longo da vida mas estou longe de sequer começar a ser conhecedor do género. Por conseguinte, se as minhas opiniões sobre o que leio valem sempre o que valem, no caso da BD isso é ainda mais assim. Especialmente no que diz respeito à parte gráfica, que é a que sempre me interessou menos.
Esclarecidos? Então vamos lá.
Quando eu era puto, todos os natais, ou quase, havia BD à disposição. Ou eu, ou o meu primo Pedro ou, mais tarde, o Ricardo, recebíamos de alguém um ou mais álbuns de presente e toda a família (bem, não toda, mas incluindo o meu pai e o meu tio) se refastelava na tarde fria e preguiçosa de 25, a devorá-los. Era principalmente Astérix, embora o album que eu aqui tenho na mão não seja um dos de Goscinny e Uderzo (e o facto de eu não me lembrar dele significa que o contemplado deverá ter sido o Pedro) ou, em geral, BD franco-belga. Os comics americanos não faziam parte do menu. Também os lia quando os apanhava a jeito, e acabaram por vir alguns parar-me às mãos, não sei bem como, mas nunca comprei nenhum com o meu dinheiro (sim, nesta altura eu já tinha o meu dinheiro) e creio que nunca ninguém comprou nenhum com o intuito de mo dar. Lia-os, mas nunca fui grande fã, nem dos da Disney, nem dos das casas rivais de super-heróis. Quanto a estes, ganhei certa simpatia por alguns, em especial o Batman e o Homem-Aranha, mas em geral sempre os achei fundamentalmente ridículos. E os quadrinhos brasileiros, Mónica, Cebolinha e companhia, também estão nesta categoria: lia quando os apanhava, mas sem ser grande fã. Do que gostava mesmo era de Lucky Luke, Tintim e seus "parentes" (Spirou, Estrumpfes (smurfs é o caracinhas, tá bem?), Blake and Mortimer, Alix) e, acima de todos, Astérix.
Foi assim que foi construída a minha cultura de BD. Ela não é vasta nem particularmente variada, porque nunca me dediquei a aprofundá-la. Chegou uma altura na vida em que me desinteressei das histórias aos quadradinhos; passei a achar mais complexas e estimulantes as histórias escritas em texto corrido, e a vertente gráfica da BD, que é o que mantém muitos dos verdadeiros bedéfilos presos ao género depois da adolescência, nunca me interessou muito.
Como consequência, não deixei completamente de ler BD, mas quase. De vez em quando regressava aos meus velhos álbuns do Astérix que, de tanto lidos, estão hoje praticamente desfeitos e, mais raramente, lia um ou outro livro apanhado aqui e ali. A revolução da novela gráfica adulta passou-me quase completamente ao lado, embora tenha sido nessa fase que descobri e me tornei absoluto fã de Quino. Mais de outras coisas do que da Mafalda, embora também da Mafalda.
Ah, sim, claro, e nunca deixei de ler as tiras que vinham nos jornais, pelo menos até deixar de comprar jornais. O Calvin é o maior e Hobbes a sua consciência.
A que propósito vem agora tudo isto? Bem, é que este ano foi completamente atípico: li bastante BD e tive algumas surpresas agradáveis. Essa BD irá ser comentada aqui na Lâmpada nos próximos tempos, mas achei necessário deixar a nota prévia de que eu não sou bedéfilo. Sou só um tipo que foi lendo alguma BD ao longo da vida mas estou longe de sequer começar a ser conhecedor do género. Por conseguinte, se as minhas opiniões sobre o que leio valem sempre o que valem, no caso da BD isso é ainda mais assim. Especialmente no que diz respeito à parte gráfica, que é a que sempre me interessou menos.
Esclarecidos? Então vamos lá.
Lido: City of Saints & Madmen
City of Saints & Madmen é uma coletânea de contos e novelas interligados de Jeff VanderMeer do qual aqui se encontra apenas um pequeno excerto de uma das novelas. As histórias passam-se em Ambergris, tal como a de Shriek: An Afterward, romance cujo excerto abre este pequeno volume, e são de uma fantasia luxuriante, barroca e francamente interessante. Mesmo não me tendo este excerto despertado tanta curiosidade como o de Veniss Underground, há nele uma solidez de cenário e personagens, por mais bizarros que uns e outras sejam, que é francamente atraente. Claro que um excerto interessante não significa que a obra completa também o seja, mas dá pelo menos a garantia de qualidade literária e de um potencial que, se estiver bem explorado (e parece estar) resultará com toda a certeza em algo de facto bom.
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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
Lido: Em Pleno Romantismo
Em Pleno Romantismo é mais um texto de Mário de Sá-Carneiro em que ele regressa às suas obsessões mórbidas. Escrito em jeito de diário, contra a trágica e mui romântica história de um jovem narrador que se perde de amores por uma rapariga, tísica e prima de um colega seu, sabendo à partida que a paixão seria sol de pouca dura pois não havia cura para a doença da amada. Um texto muito bem escrito, com uma prosa já mais sólida do que a das primeiras ficções, mas ainda preso àquele romantismo trágico, cheio de facas e alguidares (embora neste caso apenas metafóricas) que se equilibra periclitante à beira do ridículo, quando não cai nele de cabeça. Este texto é dos que ainda se vão equilibrando... mas bastaria um mero sopro para perder o equilíbrio.
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Lido: Os Calções Verdes do Bruno
Os Calções Verdes do Bruno, mais uma historieta de juventude de Ondjaki e a mais curta de todas, com as suas duas breves páginas, é uma história de paixão, mais uma, desta feita não do próprio narrador-autor-protagonista, mas de um seu colega. Como é comum acontecer naquelas idades (e em qualquer outra, na verdade), as coisas não correm propriamente como planeado mas isso, para o caso, pouco importa. Esta é mais uma história doce e branda. Tépida. Que não chega, portanto, a aquecer. E esta é, provavelmente, a mais forte característica do conjunto.
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
Lido: Hop-Frog
Hop-Frog (bibliografia) é um conto de Edgar Allan Poe sobre o que pode acontecer quando se leva demasiado longe o desprezo pela dignidade alheia. Em ambiente de conto de fadas, na corte de um rei de um daqueles reinos nunca identificados das histórias populares, Hop-Frog é o bobo anão do dito rei, vindo com a sua amiga Trifetta de alguma terra distante ainda menos identificada que o reino. O rei, esse, é personagem pouco recomendável, amigo de pregar partidas (mas não, imagina-se, de ser delas vítima) e um dia teve a infeliz ideia de reagir com violência a um pedido de clemência feito por Trifetta. A consequência é a horripilante vingança de Hop-Frog.
Não é das melhores histórias de Poe, mas é na mesma um conto com o seu interesse, que vai buscar os contos de fadas e o seu pendor moralista para com eles compor uma história de terror — que, de resto, nunca foi alheio aos próprios contos de fadas.
Contos anteriores deste livro:
Não é das melhores histórias de Poe, mas é na mesma um conto com o seu interesse, que vai buscar os contos de fadas e o seu pendor moralista para com eles compor uma história de terror — que, de resto, nunca foi alheio aos próprios contos de fadas.
Contos anteriores deste livro:
Lido: O Colar de Pérolas
O Colar de Pérolas é daqueles contos cuja leitura me costuma parecer pura perda de tempo, por melhor que seja o escritor que os produz. Neste caso estamos perante um dos conceituados, W. Somerset Maugham, e o conto parece ter qualquer coisa de autobiográfico, pois retrata um aborrecimento que calha a todas as pessoas que escrevem: se acontece revelarem a sua atividade ou passatempo a um recém-conhecido, logo este decide explanar uma história, invariavelmente chatíssima, que com toda a certeza daria um livro dos melhores, acha ele.
Neste caso, a história é a de um burguesíssimo jantar e de uma confusão com um colar de pérolas que nesse jantar estaria a ser usado pela percetora dos anfitriões, obrigada a estar presente à última hora para não serem treze pessoas à mesa (de contrário, que horror, misturar criadagem com gente fina!). Falta-me a paciência para estas histórias sobre as falhas de caráter da high society, confesso: elas, as falhas de caráter, são abundantes e conhecidas por todos. Talvez por isso não tenha achado esta "cena divertida da vida social" minimamente divertida. O que vale é que foi curta e se despachou num ápice.
Contos anteriores deste livro:
Neste caso, a história é a de um burguesíssimo jantar e de uma confusão com um colar de pérolas que nesse jantar estaria a ser usado pela percetora dos anfitriões, obrigada a estar presente à última hora para não serem treze pessoas à mesa (de contrário, que horror, misturar criadagem com gente fina!). Falta-me a paciência para estas histórias sobre as falhas de caráter da high society, confesso: elas, as falhas de caráter, são abundantes e conhecidas por todos. Talvez por isso não tenha achado esta "cena divertida da vida social" minimamente divertida. O que vale é que foi curta e se despachou num ápice.
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terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Lido: Veniss Underground
Veniss Underground é um romance de Jeff VanderMeer que mistura a ficção científica com outros géneros num todo mais coerente do que poderia parecer à primeira vista, o que, aliás, é timbre das ficções que têm vindo a receber o rótulo de "new weird." No breve extrato apresentado neste livrinho, duas das personagens do livro, uma das quais é o seu protagonista, descem às vastas profundezas da cidade de Veniss por meios muito pouco convencionais. E apesar da extrema brevidade, o extrato tem pleno sucesso em despertar curiosidade pelo romance completo, pois consegue mostrar lugares estranhos descritos com mestria e personagens que, não sendo descritas de uma forma tão eficaz (supondo-se que o terão sido noutros pontos do livro), são no entanto também capazes de despertar interesse.
Sendo o objetivo deste livrinho despertar curiosidade pelas obras completas, há que reconhecer que aqui o sucesso é total.
Textos anteriores deste livro:
Sendo o objetivo deste livrinho despertar curiosidade pelas obras completas, há que reconhecer que aqui o sucesso é total.
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Lido: Tragédia
Tragédia é o último dos pequenos contos iniciais de Mário de Sá-Carneiro e, como facilmente se compreende pelo título, o tom trágico mantém-se. Mas aqui já não encontramos a banalidade das tragédias de faca e alguidar que dominou vários destes continhos, antes uma reflexão adulta, e até bastante profunda para um conto tão pequeno, sobre o sofrimento e a necessidade, ou não, de o suportar. E é também mais um conto profético para a vida do seu autor. A história gira em volta de uma mulher que descobre que sofre de um cancro no fígado, à época ainda mais incurável do que hoje (embora já houvesse operações), e tenta levar o marido a abreviar-lhe o sofrimento, coisa que ele se nega terminantemente a fazer, numa discussão que, tudo o indica, espelha o dilema que o próprio autor atravessaria na época.
Este é um conto um pouco mais extenso do que os anteriores, e também significativamente melhor que a média, deixando vários dos outros bem longe. Só o final me parece ainda fraco.
Contos anteriores deste livro:
Este é um conto um pouco mais extenso do que os anteriores, e também significativamente melhor que a média, deixando vários dos outros bem longe. Só o final me parece ainda fraco.
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Lido: O Portão da Casa da Tia Rosa
O Portão da Casa da Tia Rosa, mais uma das historinhas de infância de Ondjaki, é uma história de perda e despedida que me parece sofrer de um problema grave: haver ali demasiada história que quem a conta não acha sua para contar. O resultado é uma historinha com mais entrelinhas que linhas, com demasiadas mãos de veludo para chegar a ser realmente eficaz. Tudo o que é demais estraga. Mesmo a subtileza.
Não, este não é um ponto alto neste livro.
Contos anteriores deste livro:
Não, este não é um ponto alto neste livro.
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
Lido: 2014 Campbellian Anthology - Hunter Liguore
Hunter Liguore é outra autora presente nesta antologia com um conto. No caso dela, o conto intitula-se
Area 54. Pelo título facilmente se prevê o conteúdo do conto, mas este só obedece à previsão em linhas gerais. Em vez da história paranoica sobre OVNIs que o título faz antever, encontramos uma história paranoica sobre a forma como a filha de um casal de maluquinhos dos discos voadores, criada no meio de uma vigilância constante, sempre sob risco, aparente ou real, de ser apanhada pelos ETs e, claro, abduzida, acaba por conseguir chegar à idade adulta. E também sobre o modo como, aí chegada, a sociedade exterior ao seu pequeno mundo de sobrevivalistas a encara e à inevitável excentricidade causada pelo modo como passara a infância e a juventude. Embora não seja propriamente uma obra-prima, é um conto interessante, que aborda um tema muito batido por uma via pouco vulgar.
Area 54. Pelo título facilmente se prevê o conteúdo do conto, mas este só obedece à previsão em linhas gerais. Em vez da história paranoica sobre OVNIs que o título faz antever, encontramos uma história paranoica sobre a forma como a filha de um casal de maluquinhos dos discos voadores, criada no meio de uma vigilância constante, sempre sob risco, aparente ou real, de ser apanhada pelos ETs e, claro, abduzida, acaba por conseguir chegar à idade adulta. E também sobre o modo como, aí chegada, a sociedade exterior ao seu pequeno mundo de sobrevivalistas a encara e à inevitável excentricidade causada pelo modo como passara a infância e a juventude. Embora não seja propriamente uma obra-prima, é um conto interessante, que aborda um tema muito batido por uma via pouco vulgar.
Lido: O Barril de «Amontillado»
O Barril de «Amontillado» (bibliografia) é um conto curto de horror de Edgar Allan Poe que eu, claro está, já tinha lido e comentado aqui na Lâmpada. Até por mais de uma vez. Consequência de ser um dos contos mais célebres de Poe, e por isso dos mais republicados.
E como nada tenho a acrescentar ao que disse das vezes anteriores, armo-me em agente da autoridade em cena de crime e grito «circular, circular, aqui não há nada para ver, não se juntem, circular, circular!»
Contos anteriores deste livro:
E como nada tenho a acrescentar ao que disse das vezes anteriores, armo-me em agente da autoridade em cena de crime e grito «circular, circular, aqui não há nada para ver, não se juntem, circular, circular!»
Contos anteriores deste livro:
Lido: O Nível de Vida
O Nível de Vida é um conto de Dorothy Parker, francamente irónico, que descreve um jogo jogado (muito a sério) por duas amigas e que consiste em imaginarem sonhando (ou sonharem imaginando) o que fariam se de repente lhes caísse no regaço uma daquelas riquezas impossíveis que só mesmo em sonhos. Mas o jogo quase acaba abruptamente um belo dia em que elas, num impulso, entram numa ourivesaria para se informarem sobre o preço de um colar de pérolas e ficam a saber que a riqueza que julgavam impossível, afinal, pode ser facilmente desbaratada em menos que uma mancheia de artigos de luxo. Um conto interessante, apesar de andar bem longe dos territórios literários que mais me agradam.
Conto anterior deste livro:
Conto anterior deste livro:
domingo, 20 de dezembro de 2015
Lido: Antologia do Humor Português
A Antologia do Humor Português é um grosso livro de contos, excertos de textos maiores, poemas, crónicas, textos para teatro e televisão e por aí fora, que têm como fio condutor o humor nas suas várias vertentes. Não todo, evidentemente; aquele que foi sendo publicado nos quarenta anos que distam de 1969 a 2008 e, como a própria introdução sublinha, "só o que saiu em livro e mesmo assim há uns que, se calhar, não deviam aqui estar e outros que não estão e deviam estar."
E realmente é essa a principal fragilidade deste livro: assim (de)limitado, aparecem nele uns quantos erros de casting mais ou menos flagrantes, e há ausências tão conspícuas como comprometedoras para um apanhado do humor português razoavelmente recente. Outra fragilidade clara é algum imediatismo de certos textos mais recentes, que foram claramente selecionados sem que o tempo tratasse de determinar se lhe resistem bem ou não e que lidos agora, alguns anos depois do livro editado, torna-se já claro que não. Em certos casos sublinha o erro de casting de alguns autores; noutros é pena, pois os seus autores teriam certamente material melhor, ou pelo menos mais resistente à erosão do tempo, que os representasse de uma forma mais adequada.
Mas fragilidades à parte, o livro é bom. É quase sempre divertido, às vezes de gargalhada, ocasionalmente de ir às lágrimas, e inclui material de quase todos os monstros sagrados do humor português da segunda metade do século XX. Não sendo um apanhado perfeito, que não é, é um bom apanhado. A organização, cronológica, perde a oportunidade de jogar com sinergias entre textos e autores, mas resolve de forma simples outros problemas mais ou menos bicudos, que aparecem sempre quando chega a hora de decidir o que vem antes e o que vem depois. Mas isso faz com que valha pelos textos e praticamente só por eles, ainda que as introduções sobre cada autor ou projeto tenham bastante interesse em si mesmas (apesar de serem a parte menos divertida da coisa).
Ah, sim, e para mim teve ainda o interesse acrescido de vários destes textos poderem ser enquadrados na literatura fantástica. Já comprei pelo menos um livro por causa deste (Casos do Beco das Sardinheiras), e julgo que não ficarei por aqui. Também é para isto que as antologias servem, quando são bem sucedidas.
Quanto ao que os textos valem, eis a muito longa lista do que eu fui achando deles ao longo de quase dois anos de leitura:
E realmente é essa a principal fragilidade deste livro: assim (de)limitado, aparecem nele uns quantos erros de casting mais ou menos flagrantes, e há ausências tão conspícuas como comprometedoras para um apanhado do humor português razoavelmente recente. Outra fragilidade clara é algum imediatismo de certos textos mais recentes, que foram claramente selecionados sem que o tempo tratasse de determinar se lhe resistem bem ou não e que lidos agora, alguns anos depois do livro editado, torna-se já claro que não. Em certos casos sublinha o erro de casting de alguns autores; noutros é pena, pois os seus autores teriam certamente material melhor, ou pelo menos mais resistente à erosão do tempo, que os representasse de uma forma mais adequada.
Mas fragilidades à parte, o livro é bom. É quase sempre divertido, às vezes de gargalhada, ocasionalmente de ir às lágrimas, e inclui material de quase todos os monstros sagrados do humor português da segunda metade do século XX. Não sendo um apanhado perfeito, que não é, é um bom apanhado. A organização, cronológica, perde a oportunidade de jogar com sinergias entre textos e autores, mas resolve de forma simples outros problemas mais ou menos bicudos, que aparecem sempre quando chega a hora de decidir o que vem antes e o que vem depois. Mas isso faz com que valha pelos textos e praticamente só por eles, ainda que as introduções sobre cada autor ou projeto tenham bastante interesse em si mesmas (apesar de serem a parte menos divertida da coisa).
Ah, sim, e para mim teve ainda o interesse acrescido de vários destes textos poderem ser enquadrados na literatura fantástica. Já comprei pelo menos um livro por causa deste (Casos do Beco das Sardinheiras), e julgo que não ficarei por aqui. Também é para isto que as antologias servem, quando são bem sucedidas.
Quanto ao que os textos valem, eis a muito longa lista do que eu fui achando deles ao longo de quase dois anos de leitura:
- O Meu Dia de Trabalho
- Noções de Linguística
- História Trágico-Marítima
- Carreirismo
- Intervalo
- Noivado
- Rifão Quotidiano
- Telefonema
- A Família
- Aliança
- Ela Canta...
- Dizem que sou um chão
- O Álvaro Gosta Muito de Levar no Cu
- É Importante Foder (ou não Foder)?
- Vem, Vulva Antiqüíssima e Idêntica
- «O Acto Sexual é Para Ter Filhos» — Disse Ele
- Que Vergonha, Rapazes
- De «A Cordial Botelha»
- Escalfeta
- Chaval
- Pois
- Guichê
- Resposta Universal
- Excerto de O Libertino Passeia por Braga
- O Sótão da Minha Avó
- O Cavalo
- Luísa Estrela
- Excertos de O Que Diz Molero
- Glória e Morte
- De Como Fiz a Minha Iniciação Desportiva, Hesitando Entre a Arte de Guarda-Redes e a de Pedróbolo da Quinta do Lopes
- De Como um Tio me Levou ao Académica-Benfica e eu Bati Palmas a um Golo do Teixeira, Sem Saber que Era Gaffe
- De Como Lavoisier Mostrou uma Pistola a um Guarda-Redes e Este Passou o Jogo a Dar Saltos, que lhe Custaram Vários Golos Absolutamente Defensáveis
- Embutido
- Discurso Preliminar
- Problema com Vista a Orientar os Interesses Infantis Para as Realidades Cotidianas
- Fastos II
- É Imperioso
- Pelos Pentelhos
- O Alto
- Al Kindi
- Um Leque
- O que me Vale
- Somos uns Queixinhas!
- Louvor e Simplificação de Pacheco Pereira
- O Tombo da Lua
- A Pedra Preta
- Epílogo
- O Peido e a Matemática Elementar
- Fragmentos de As Bodas de Deus
- Extrato de Coca-Cola Killer
- Acerca de Música
- To Ser or not to Estar
- A Moda e a Sociedade
- Breve Introdução a uma Teoria dos $ímbolo$ da Riqueza
- Excertos de "O Guardador de Retretes"
- Sífilis
- O Rei / A Diarreia ................. O Dia Rei
- As Cidades e as Selvas
- Milagre
- Ao Rés do Orgasmo
- Foda Relatada
- Momento de Poesia
- Excertos de Cá Vai Lisboa
- Fim de Estação
- Um Dia na Noite
- (sem título)
- O Padre
- Neura
- Piropo
- Nomes da Nossa Terra que Urgiria Esquecer
- Um Bigode e Peras
- Gosto Muito de Palavrões
- Quando Cristo Desce à Terra
- Pedro e a Voz
- As(os) Noivas(os) de Santo(a) António(a)
- Bom Dia. Eu Queria Comprar um Telemóvel
- O Homem do «BMW»
- «A Greve dos Controladores de Voo»
- Nunca se Deve Deixar uma Criança
- A Coleção Barbara Azul
- Em Virgem
- Maria Andrade
- O Império das Lãs
- Duas Irmãs Solteironas
- É Preciso Agir
- A Mim
- Na Antiga Casa da Minha Avó
- Enquanto as Coisas Levianamente se Dizem
- Procimamente (Director's Cut)
- Aliás, Entende uma Coisa, Lilas
- Ainda Hoje Me Recordo
- Última Hora
- Penúltima Hora
- Primeira Mão
- Extrato de "Dádivas Divinas"
- O Carteiro
- O Roque e a Amiga
- A Revolta dos Pesos e Medidas
- Onanismo e Pornografia
- Carta VII
- Desconversa da Treta
- Pedrito de Portugal
- ΘΑΛΑΣΣΑ ΤΟΥ ΠΡΩΙΟΥ
- U Disscurssu de Karluss Karvalhass
- Que a Força Esteja Contigo
- A Minha Palavra Preferida
- Porque não Odeio o Sporting (nem Sequer o FCP, que Mereceria)
- O Código Tonicha
- Desconto de Natal
- TV & Movies Shop
- Profissão de Sonho
- Este é que é o Homem da Conspiração
- Estranho Silêncio
- Manter o Lugar Fresco, mas Seco
- Empata-Passeios, Para Quando Legislação?
- Entrevista a um Homem-Bomba
- Taxista de Aeroporto Aldraba-se a si Mesmo
- Guterres Lança Livro de Colorir
- Tuning e Vestir Fato de Treino ao Domingo Vão Pagar IRS
- Nova Divisão Administrativa do País Encanta Pela Simplicidade
- Manhãs e Tardes da Televisão Declaradas Zonas de Calamidade
- Edital
- Canal Parlamento Mulher
- Caixa Negra
- Comprei Haxixe em Marrocos!!! E Agora?
- Estou Sentado ao Lado do Miguel Sousa Tavares!!!! E Agora?!
- Agenda Política de Santana Lopes
- Agenda de Freitas do Amaral
- Agenda de Paulo Portas
- Que Viva, Pelo Menos, a Democracia
- A Educação Física
- As Unhas dos Pés
- A Bíblia e a Lista Telefónica
- Um Tigre não Bebe Tisanas
- Um Domingo Liberal Para Você, ó Excelência!
- Svengali
- O Fiasco do Milénio
- Afinal
- Nós, os Gordos
- O Chupão
- A Pátria em Cuecas
- O Ginásio
- Vozes
- Chamada
- Só Vejo Sifões à Minha Frente
- A Cotonete de Luís Figo
- Um Roupão Para José Sócrates
- Psht ó Chefe
- Jornalismo do Bom
- Conto de Natal
- (sem título - aforismos de Nuno Costa Santos)
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