quarta-feira, 13 de abril de 2016

Lido: Histórias Extraordinárias

Histórias Extraordinárias (bibliografia, embora o conteúdo desses livros varie) é uma coletânea de Edgar Allan Poe, que reúne um total de 19 contos distribuídos por dois volumes. É uma compilação de uma parte significativa da prosa curta de Poe (estão publicados certa de 70 contos), incluindo os seus contos mais importantes, e que por isso são publicados e republicados não só em antologias, aqui e ali, mas também em todas as compilações genéricas da sua ficção curta, o que tem como consequência que um leitor que procure conhecê-la, à ficção curta, vai acabar por lê-los e relê-los várias vezes em vários sítios diferentes.

Não que isso seja aborrecido, pois os contos são de facto bons, quase todos, sendo alguns excelentes, e por isso as releituras são prazerosas, salvo casos particulares de histórias que dependem demasiado do primeiro impacto para terem todo o efeito desejado sobre quem lê. E quando vêm servidos por uma tradução competente, como é o caso, menos aborrecidos ainda se tornam.

Este é, pois, um bom livro. Ou dois bons livros, se for esse o ponto de vista. Livro(s) repleto(s) de boas histórias, bem traduzidas e várias delas muitíssimo influentes. Histórias principalmente de horror, mas também policiais, de fantasia, de humor e até de ficção científica. Histórias que, se não são suficientes para um conhecimento completo da obra deste autor, são-no para se ter uma ideia muito concreta de quem ele foi e do seu impacto em vários géneros literários.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:

Primeiro Volume
Segundo Volume
Estes livros foram comprados.

Lido: A Coroa dos Deuses

A Coroa dos Deuses (bibliografia) é o segundo romance da série da Alex 9 do Bruno Martins Soares. Se estão lembrados, já aqui falei do primeiro e não me mostrei particularmente contente com a leitura, mas manifestei a esperança de que as coisas melhorassem nas duas partes da história que ainda aí vinham.

E de facto na segunda melhoraram significativamente.

Esta segunda parte mostra não só uma prosa bastante mais sólida, com menos falhas (embora ainda tenha algumas), como um conjunto de personagens bastante mais bem definido, desenvolvendo-se a história já não numa miríade de pontas mais ou menos soltas espalhadas por todo o lado mas num punhado de núcleos que, por isso mesmo, ficam muito mais bem definidos. E quando falo em núcleos refiro-me não só às personagens, como à própria geografia.

E a própria história, embora seja uma sequência direta da anterior, voltando a saltar entre um Sistema Solar futurista (agora mais na Terra que em Marte) e um planeta distante, o qual começa a mostrar-se não inteiramente medieval mas misto, com a intrusão de artefactos de alta tecnologia na parte da história que aí decorre, tem também um desenvolvimento mais sólido e, desta vez, termina no fim de um verdadeiro arco narrativo secundário, o que cria uma conclusão satisfatória para o volume independente em que também foi publicada.

Ou terminaria se não fosse aquele epílogo, em jeito de "não perca as cenas dos próximos capítulos", com uma série de cenas desgarradas com pouca ligação aparente com o que ficou para trás. Percebo a intenção, mas pareceu-me muito desnecessário: não é preciso dizer-nos que vem aí mais; a própria história se encarregou disso e há o pormenorzito das duzentas e tal páginas que faltam para concluir o livro.

Acresce a isto uma ênfase menor na ação simples, uma descrição mais eficaz das cenas de combate, já não concentrada unicamente nos atos mas também nos porquês dos atos, e estamos perante um romance que, ao contrário do anterior, já é bastante razoável. Se o terceiro mantiver este nível ou o melhorar, este livro acabará por ser uma leitura agradável, embora para mim tenha a pecha, que julgo que não perderá até ao fim, de ser uma história deliberadamente concebida e contada com uma pegada muito pulp, que não é propriamente da minha predileção.

A ver vamos se assim será. Siga a leitura.

Romance anterior deste livro:

terça-feira, 12 de abril de 2016

Lido: Escola de Mulheres

Escola de Mulheres é uma peça de Molière e, aqui chegada, a mancheia de meia dúzia que costuma ler este blogue deve estar a coçar a cabeça e a pensar "Mas ca raio?! Que faz este tipo a ler teatro?! Não uma peçazita numa antologia, ou um sketch noutra, mas teatro-teatro?!"

Resposta: gosto de ler de tudo um pouco; convém, para se poder comparar e ter pelo menos uma ideia do que se fala. Mas é verdade que em certos géneros um pouco é mesmo pouco. Um desses géneros é o teatro. Nunca gostei muito do teatro propriamente dito (o seu caráter artificioso sempre me desagradou), mas li algumas peças na minha fase furiosamente omnívora, no fim da adolescência, e não falo só das leituras de Gil Vicente obrigatórias ou aconselhadas na escola. Gil Vicente sempre me divertiu (um dia ainda o hei de reler), mas do resto também não gostei muito; faltava sempre qualquer coisa àqueles textos, o que é natural, visto que se destinam a ser representados. Por outro lado, nenhum deles era de Molière, e Molière é Molière.

Pois este Escola de Mulheres é uma comédia mundana, cujo protagonista é um homem, em extremo cioso da lisura da sua testa, que por isso decide que há de arranjar uma ingénua, encarcerá-la num casarão sem lhe dar instrução que lhe possa abrir os olhos para o mundo, para assim obter um casamento feliz e livre de cornos. E claro que as coisas correm mal.

Continuei sem gostar muito, é certo. O texto é divertido, mas continua a faltar-lhe o que falta a todos: a parte cénica. E além disso, Molière foi tão influente e escreveram-se tantas comédias de costumes depois dele, que esta peça já perdeu há muito a frescura que poderá ter tido. Assim pensei ao acabá-la, mas foi ao pensar isto que se instalou o assombro.

É que Molière nasceu em 1622, há quase quatrocentos anos, e só viveu 51. E este texto é não só bastante profundo como quase feminista! Só não o é mesmo porque a emancipação da rapariga se dá por via sentimental, acabando ela casada e conforme aos ditames da sociedade patriarcal, o que explicará que, em vez de ter sido proibida e enterrada no fundo do baú das obras subversivas, tenha sido um sucesso. A frescura que poderá ter tido, pensava eu? Que poderá? Não. A frescura que teve mesmo, com absoluta certeza.

Bastou-me ler isto para perceber o porquê de Molière ser Molière. Acho que este é o melhor elogio que se pode dar a um artista. E quando as coisas chegam a esse ponto, o gosto pessoal, no fim de contas, pouca relevância tem.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Lido: Na Europa Tropical

Na Europa Tropical, de Artur Manuel Pires, é daqueles contos nostálgicos sobre a infância que tão do agrado são dos leitores nostálgicos. Não é o meu caso; nostalgia pela infância é doença de que não sofro, e isso retira-me logo do centro do alvo de público a que esta história se dirige.

Às vezes, quando o escritor é particularmente bom, capaz de infundir na obra novidade ou surpresa, sejam estas de perspetiva, enredo ou tratamento literário da língua, contos desta espécie conseguem impressionar até leitores normalmente imunes a este tipo de umbiguismos desfasados no tempo. Pires, embora o esforço seja meritório — o conto tem uma estrutura interessante, analéptica, e um enredo irónico à volta de um tesouro enterrado por dois rapazes, amigos de infância, que poderia causar embaraço (e daí...) aos adultos em que os rapazes se transformaram caso fosse descoberto por terceiros alheios à sua história de vida, e que portanto estes vão procurar localizar e recuperar o mais discretamente possível — não chega bem a esse ponto. Fica-se pela condição de continho simpático, de que nostálgicos provavelmente gostarão mas que me deixou em grande medida indiferente. Achei-o um conto razoável, não mais.

Contos anteriores desta publicação:

sábado, 9 de abril de 2016

Lido: Asas

Asas (bibliografia) é mais um conto fantástico de Mário de Sá-Carneiro onde, de novo, o narrador em primeira pessoa vai encontrar uma personagem particularmente excêntrica, talvez louca, um artista enredado numa frenética busca por um qualquer supremo objetivo artístico. Neste caso, a personagem que se descreve no conto é um poeta russo, e a sua obsessão artística é atingir uma tal pureza das palavras que elas se tornem imunes à ação da gravidade.

À primeira vista, a ideia não passa de um daqueles arroubos poéticos que, com alguma reflexão, depressa se mostram muito disparatados. No entanto, Sá-Carneiro usa-a para desenvolver uma reflexão sobre aquilo que a seu ver será a essência da arte. Uma reflexão à primeira vista inteiramente realista, mesmo sem descontar os exageros de narrador e personagem, mas que no final do conto se vem a revelar fantástica. Também isto não é novo nestes contos e novelas, mas aqui Sá-Carneiro leva a técnica ao limite das possibilidades, pois o fantástico só aparece na última página de um conto que ocupa 16, sem que isso faça com que deixe de ser fundamental para a história.

Este é outro bom conto. Não é certamente a melhor história de Sá-Carneiro, mas também está longe de ser a pior.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Lido: O Compadre Lobo e a Comadre Raposa

O Compadre Lobo e a Comadre Raposa é outra história popular em jeito de fábula, protagonizada por lobos, raposas e pessoas. Aqui, o lobo volta ao papel de ingénuo que já tinha mostrado em histórias anteriores, mas a criatura traiçoeira e maligna é o homem, mesmo tendo com o lobo e com a raposa (que pouco aparece, e quando o faz é sem a astúcia habitual) relações de compadrio. É uma história curiosa por isso mesmo: em vez da simples antropomorfização dos animais, que é marca de qualquer fábula, os quais depois agem na história com a espécie de personalidades que a lenda lhes associa, e ora não interagem de todo com os seres humanos, ora, quando o fazem, são os primeiros a seguir por maus caminhos, aqui os animais são basicamente vítimas da canalhice das pessoas, primeiro explorados e logo mutilados, e mesmo quando tentam vingar-se o resultado acaba por ser mau. Curiosa inversão esta, que coloca como vilão o bicho que conta a história. Costuma ser ao contrário.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Efeito Colateral

Efeito Colateral é uma vinheta de Luiz Bras que apesar de ter leves toques de ficção científica é sobretudo um conto de horror. Cria, num texto de qualidade literária evidente, uma curiosa cosmogonia na qual a vida surge como coisa ameaçada, de sobrevivência incerta, coisa amaldiçoada por uma vingança friíssima, antiquíssima, que a qualquer momento (esta noite mesmo?) pode desabrochar em violência incontrolável, vinda das mais insuspeitas e inertes coisas. Um apocalipse.

O Barreiros tem um conto (na verdade até tem mais que um) no qual explora este tipo de ambiente e ameaça — O Caçador de Brinquedos — e é dos melhores contos que ele escreveu, mas a abordagem de Bras é não só muito mais curta, mas bem diferente. Dá pano para mangas, o tema, e embora estas mangas sejam curtas, o que de resto é padrão de todo o livro (raríssima é a história que ultrapassa as duas páginas), o resultado é também bastante bom.

Textos anteriores deste livro:

Lido: A Rosa Caramela

A Rosa Caramela é um daqueles contos de Mia Couto que se centram numa personagem com qualquer coisa que a torna simultaneamente invulgar e igual a toda a gente, e em que as relações interpessoais desempenham papel de relevo. Aqui vamos encontrar a Rosa Caramela, mulata de muitas mulatezas, corcunda mas linda, que se apaixona, noiva, espera e desespera. Mas a história, que assim contada parece feia, uma história de abandono e preconceito, acaba resgatada, história de amor, de redenção, história bonita.

Mia Couto tem aquele seu jeito típico de contar histórias. Quem o conhece depressa as reconhece, e às vezes basta uma frase como aquela que abre este conto: "Dela se conhecia quase pouco." É um jeito muito bom e, embora esta história não seja das melhores que já lhe li, está cheia desse jeito. E isso, sem bastar para tudo, basta para muita coisa.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Lido: Tlön, Uqbar, Orbis Tertius

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius (bibliografia) é um conto de Jorge Luis Borges, com um certo cheirinho a ficção científica, parcialmente sobre substituição de universos. Trata-se de uma história pseudofactual, na qual entra como personagem o amigo de Borges, Bioy Casares, e que conta como eles os dois, juntos, descobrem uma estranha entrada enciclopédica, referente ao país de Uqbar... que só existe no volume da enciclopédia pertencente a Casares. Com a curiosidade desperta pelo insólito caso, os dois põem-se a investigar o mistério de Uqbar, a que depressa se soma um segundo mistério, o de Tlön, que já não surge numa mera entrada enciclopédica mas descrito numa enciclopédia inteira, resumida no conto de forma breve mas suficiente para se perceber com clareza o seu caráter plenamente absurdo. As explicações sobre como tais livros ou partes de livro ganharam existência compõem uma parte do conto, o qual acaba em plena metaliteratura, o que neste caso equivale a dizer em plena mistura entre realidade e ficção. Curiosa coincidência: Começos, conto lido há muito pouco tempo, parece dialogar com este conto de Borges.

Trata-se de um conto cerebral, dotado de uma dose significativa de ironia, até política. Uma construção intelectual pura. E sim, é um conto muitíssimo bom.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Lido: Deleituras

Deleituras, conto de estreia de Óscar de Sá, é um daqueles contos simpáticos, escritos por apaixonados pela leitura para outros apaixonados pela leitura. Neste caso, trata a história de como uma prostituta portuense, tão bronca e inculta como o cliché manda, acolhe um cliente regular, pobretanas, que cisma que lhe dá de pagar os serviços com livros. E ela, em parte pensando vendê-los mais tarde, em parte sabe-se lá porquê, aceita. E depois de aceitar torna-se leitora, e de leitora acaba com tamanha paixão por livros e um vocabulário tão rico que até já troca insultos mais espinhudos por expressões como "néscio de merda" ou "oblato."

O conto é simpático, como digo acima, e está muito bem para um estreante. Mas também o achei demasiado óbvio, com demasiados chavões, tanto no ambiente chulo como nas personagens, como no velhíssimo chavão de apresentar o livro como coisa mágica, capaz de redimir todos os irredimíveis, demasiado inverosímil, até, para realmente gostar dele. Um conto que poderia perfeitamente ter sido escrito há quarenta, cinquenta, sessenta anos ou mais. Um conto, em suma, muitos furos abaixo do que é costume encontrar-se na Ficções. Não um mau conto; um conto que até é, repito, bom para conto de estreia. Mas um conto insatisfatório.

Contos anteriores desta publicação:

sábado, 26 de março de 2016

Lido: O Homem dos Sonhos

O Homem dos Sonhos (bibliografia) é mais um conto fantástico de Mário de Sá-Carneiro que, dominando nele o autor a tendência para florear em demasia a prosa que mostrou em contos anteriores, volta a ser francamente bom. De novo escrito em primeira pessoa por um narrador que depara com personagens curiosas no decorrer da vida, um narrador intelectual da alta burguesia ociosa que vagueia pelos ambientes cosmopolitas das capitais europeias e sempre seguido de perto pela depressão, desta feita o protagonista é um homem que o narrador conhece em Paris, de que nunca chega a saber o nome mas que julga ser russo, e que o assombra pela extravagância de se mostrar genuinamente feliz. A explicação para tal felicidade, depressa acabamos por saber, é não ser deste mundo. Não o ser propriamente, pelo menos.

O exercício que Sá-Carneiro aqui faz é bastante interessante, ponto em contraponto o mundo real e o mundo onírico e imaginando que alguém tem a capacidade de os fundir, de viver num e sonhar o outro ou vice-versa, independentemente de qual seja qual. Ou quase. E fá-lo muito bem, com ritmo, com as frases de efeito poético que tão abundantemente usa em outros textos (a ponto de os dominar; a ponto de os quase destruir) dominadas, usadas a preceito e nos lugares certos, sem nunca lhe fugirem do controlo. Assim, sim. Esta é uma história bem contada, bem escrita, com uma boa ideia (uma ideia de escritor, se me entendem a entrelinha) bem desenvolvida. Como não gostar?

Contos anteriores deste livro:

Lido: Raposinha Gaiteira

Raposinha Gaiteira é, claro, mais uma história popular cuja protagonista é uma raposa. Trata-se de uma fábula que conta uma história de enganos na qual a raposa, claro, é a representação da astúcia e da inteligência manhosa e o lobo, seu compadre, é a vítima que cai sempre nas matreirices da raposa. O curioso aqui é que a raposa também começa por ser vítima de um engano, perpetrado por um outro compadre seu, um grou, que depois como que despoleta não só a vingança como todas as outras manigâncias que se seguem. Uma historinha curiosa, sem quase nada de lengalenga e, no contexto das histórias incluídas no livro até aqui, invulgarmente bem estruturada.

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segunda-feira, 21 de março de 2016

Lido: Relatório Sobre a Probabilidade A

Relatório Sobre a Probabilidade A (bibliografia) é um bizarríssimo romance de ficção científica de Brian Aldiss. Ou algo de parecido.

Porque chamar-lhe romance pode ser esticar o termo um pouco além do seu alcance. Este Relatório é, de facto, um relatório. Relata com minúcia obsessiva e bastante repetitiva o que vai fazendo um tal G, cuja vida é observar discretamente o que se vai passando numa banalíssima e mui britânica casa e suas redondezas. Tudo, cada objeto, cada personagem, cada movimento, é descrito com todos os detalhes. Só G. não. G. é uma inicial e um par de olhos e uma vida absurda, pouco mais.

Esta descrição obsessiva, que viola sistematicamente todas as regras que os miúdos aprendem nas oficinas de escrita criativa, depressa ganha novos níveis, quando nos apercebemos de que G., o observador, está por sua vez a ser observado o que, de resto, explica a existência do relatório. É o relatório da observação de G. e do universo em que ele se insere, ou pelo menos da parte deste que está visível para quem produz o relatório, através de alguma espécie de janela interdimensional mal compreendida.

E novas camadas surgem quando se sabe que por sua vez essas pessoas, se é que de pessoas se trata verdadeiramente, estão a ser observadas por outras pessoas (?) em outro universo, subtilmente diferente dos anteriores, e estas por outras, e por aí fora sugerindo-se, mas sem o afirmar taxativamente, uma infinidade de universos contidos uns nos outros, uma espécie de interminável cebola de universos, e interligados por janelas de observação.

Porém, esta sucessão de observadores, sendo embora o tema principal deste livro (o que está adequadamente espelhado na capa), ocupa relativamente poucas páginas. Talvez pudesse ocupar mais, deixando um pouco mais de lado o bendito relatório, que consegue ser muitíssimo maçudo. Embora inteligente, não é leitura fácil e leve, esta. Exige paciência, e a verdade é que ao chegar o fim do livro não me senti lá muito recompensado pela paciência. Fiquei mesmo com a sensação de ter sido alvo de uma elaborada partida, de que Aldiss se estaria a rir baixinho, trocista, atrás de uma cortina. De que este Relatório Sobre a Probabilidade A, no fundo, terá sido um grande gozo, apesar de ter subjacente uma ideia bastante válida, filosófica, psicológica e até politicamente. De que Aldiss se terá sentado um belo dia à frente da máquina de escrever ou do papel e pensado, entre gargalhadinhas de gozo antecipado: "Ora bem, vamos lá agora a ver qual é o livro mais chato que consigo escrever e ainda ser lido."

Sim, acho que Aldiss enquanto troll explica muito deste livro. Não é preciso ter grande imaginação para arranjar outras formas bem mais interessantes de vincar as mesmas ideias que este livro vinca. E eu só posso tirar-lhe o chapéu. Sim senhor, caro Brian, conseguiste. Escreveste mesmo um livro chatíssimo e conseguiste mesmo arrastá-lo durante cerca de 150 páginas na maior parte das edições (esta, de letras miudinhas e páginas largas, tem menos umas 30). E eu li-o de fio a pavio. Eu e mais uma porção de gente. E queres saber? Até gostei dele, mais ou menos. Não muito, mas, eh pá, um bocado.

Muito bem. Recebe os meus parabéns.

Mas acho que é preciso ter-se um sentido de humor retorcido para se ler este livro e realmente gostar dele. Não é, de forma alguma, livro adequado a toda a gente. É livro para uma minoria de leitores razoavelmente desaparafusados da cabeça. No mínimo tanto quanto eu, mas desejavelmente mais. Portanto, em termos de recomendações, só posso dizer: "Não bates bem? Então é possível que gostes. Mas estás por tua conta; eu não assumo quaisquer responsabilidades."

Terão de se contentar com isso.

Este livro foi comprado.

Lido: Lixão

Lixão é um microconto de quatro frases de Luiz Bras, entre a ficção científica e o horror, sobre o que acontece quando um homem (ou mulher, que também o pode ser) cai numa fossa futurística, possivelmente inspirada pelo compactador de lixo do primeiro filme de Star Wars. É um continho curioso, mas não me satisfez, em parte por ter demasiado presente essa referência. Mas só em parte, pois é cada vez mais raro o microconto que o faz.

Textos anteriores deste livro:

Lido: Começos

Começos é um interessante e muito surreal conto metaliterário de Robert Coover, do qual nunca tinha lido nada. É americano. Trata-se de um daqueles contos muito conscientes de serem literatura, o que pode ser catastrófico, em especial quando se levam demasiado a sério. Mas neste caso não é, longe disso, pois este conto é dos que se levam a sério não levando, ou não levam levando, pois os paradoxos, a forma como a literatura que o protagonista escreve se interliga com a literatura que o protagonista vive na literatura que o autor escreve, são aquilo que lhe dá vida. Ah, sim, e o humor. Doses pesadas de leveza humorística, por vezes sombria (o conto começa com a informação de que o protagonista/autor "para poder começar foi viver sozinho para uma ilha e matou-se a tiro"), outras mais límpida, a qual, ligada a outras formas de apresentar o inesperado, vão levando quem lê, levemente, páginas fora. Acho provável que vocês não estejam a perceber nada do que estou aqui a dizer, o que também tem o seu quê de paradoxal, porque se lessem o conto perceberiam, mas se o lessem aquilo que aqui escrevo tornar-se-ia plenamente inútil. Sim, estou a sorrir.

E sim, gostei desta história, embora pouco nela seja história. Talvez por eu próprio também escrever, coisas diferentes, e por isso saber umas coisas sobre os começos em literatura. É esse o tema base: os começos em literatura. De tal forma que não seria estranho que alguém dissesse que esta história é composta por começos, mesmo quando o seu tema é a condição do escritor. Porque também é. Confusos?

Ainda bem. Já perceberam tudo.

Contos anteriores desta publicação:

sábado, 19 de março de 2016

Lido: Mistério

Mistério (bibliografia) é mais um conto fantástico de Mário de Sá-Carneiro que não me agradou muito porque, embora atenuados, tem muitos dos defeitos que encontrei em A Grande Sombra. É certo que não há neste conto tanto exagero de literatura como na novela que o antecede, mas também aqui existe um burilamento excessivo, demasiado preocupado com o efeito das frases e imagens e ignorando em grande medida o todo. A melhor forma que encontro para descrever a sensação que me causam estas histórias demasiado cheias de texto é sentir-me perante um bosque que o escritor promete construir mas, em vez de o povoar de árvores, detém-se a esculpir e a pintar detalhadamente um ramo de flores aqui, outro ali, deixando no final as flores com o máximo detalhe e as árvores apenas esboçadas.

E não há também nele uma tão longa e tão arrastada descrição dos estados de alma do protagonista como em A Grande Sombra, mas essa forma de umbiguismo descritivo também aqui se faz sentir. Tal como também existem outras características comuns à história anterior e a outras, características essas que já não encaro como defeitos: o protagonista é um artista ocioso e solitário, a loucura e as ideias suicidas nunca andam muito distantes, há sugestões razoavelmente sólidas de atração homossexual, ainda que ilibada pela descoberta de uma rapariga ideal, e a história desenrola-se em registo realista quase até ao fim, só assumindo contornos fantásticos no desfecho ou perto dele. É aqui que aparece o mistério a que o título faz referência, claramente inspirado pelo conceito romântico do amor perfeito enquanto fusão de duas almas gémeas, que Sá-Carneiro leva às últimas consequências. Sem grande surpresa, foi o desfecho a parte que mais me agradou no conto que, globalmente, achei apenas razoável.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 18 de março de 2016

Lido: A Raposa e o Lobo

A Raposa e o Lobo é uma historinha popular um pouco estranha porque parece mais uma amálgama de episódios de histórias diferentes do que uma história propriamente dita. Apesar de ter unidade no sentido de ser contada em tom de fábula e ter por protagonistas uma raposa e um lobo, há nela uma certa incoerência, como se juntasse em si várias fábulas diferentes, construídas à volta da raposa e do lobo (ou só da raposa, ou só do lobo).

Por outro lado, é das histórias mais desenvolvidas que constam do livro até agora, afastando-se declaradamente da lengalenga a que muitas das demais se remetem, ao mesmo tempo que mostra, de novo, potencial para o horror e um forte pendor iconoclasta e irónico. Não é a primeira destas histórias a fazê-lo e desconfio que não será, nem de perto, a última.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 8 de março de 2016

Os números das mulheres do fantástico

Os números contam muitas histórias, embora seja conveniente saber lê-los para que as histórias que contam sejam verdadeiramente compreendidas. É de números que se faz a ciência, ainda que não toda a ciência (mas cada vez mais), e os números também são fundamentais para quando queremos pensar a sério em outras áreas da vida humana.

Recentemente, tem havido por este mundo fora, mas muito em particular, pela virulência utilizada, nos Estados Unidos, quem defenda que já não é preciso maior promoção da participação feminina no âmbito da literatura fantástica, quando não dizem mesmo que já se foi longe de mais, que já está tudo despido de "virilidade" e entregue a "mariquices". Isto ouve-se mais nos EUA, mas também se ouve noutras latitudes, inclusive, por vezes, nas de língua portuguesa. O Brasil, sim, mas também Portugal.

Para contrapor a essas ideias usam-se com frequência números. Porque os números, só por si, as destroem. E eu tenho, no Bibliowiki, uma ótima fonte de números. Querem ver?

Neste momento estão listados no Bibliowiki um total de 3930 autores de ficção científica, fantasia, horror e outras vertentes da literatura fantástica publicados em língua portuguesa. Ainda faltam muitos, é certo, mas a amostra é grande e tudo indica que representativa. Sabem quantos desses autores são mulheres? 939. Cerca de um quarto do total.

(Curiosamente, no momento em que escrevo estas linhas, há exatamente o mesmo número de tradutores e de tradutoras: 658. A minha profissão é igualitária, mas isso não apaga a desproporção nos outros números.)

Mas há contas ainda mais interessantes.

Quem leu livros como O Homem Invisível ou histórias como O Homem que Vendeu a Lua está habituado a títulos iniciados com "O Homem Que" ou "O Homem," que são um reflexo óbvio do género que protagoniza as histórias. Esses títulos são muito comuns na literatura fantástica em geral e na de ficção científica em particular, e o Bibliowiki tem neste momento um total de 214 páginas que começam por "O Homem".

Sabem quantas começam com "A Mulher"?

Não fazem uma ideiazinha?

OK, eu digo.

São 23.

Sim. Vinte e três.

Com números destes nas mãos, quem poderá em sã consciência defender que já se fez tudo o que há para fazer pela igualdade de género no âmbito da literatura fantástica?

E sim, é verdade, nem tudo é responsabilidade dos homens. A menor participação feminina é um facto, e o Infinitamente Improvável que o diga. Mas, francamente, temos no mínimo dos mínimos a responsabilidade de não apregoar disparates. Sim, nós, os homens, continuamos a ser grandemente dominantes no género, o que é tanto mais bizarro quanto é bastante evidente que elas leem mais do que nós (basta olhar para o Goodreads) e sim, há ainda muito a fazer para se começar a equilibrar as coisas. Assumamos isso de uma vez por todas com total clareza.

Até porque bebés chorões de um metro e setenta, que berram que lhes estão a roubar os brinquedos, não merecem o respeito de ninguém.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Lido: Os Homens Preferem as Mais Jovens

Os Homens Preferem as Mais Jovens é uma deliciosa historinha de ficção científica que conta, mirabolantemente, diria mesmo rocambolescamente, o que acontece quando um viajante do tempo farto da vida decide voltar atrás no tempo para assassinar a mãe antes de o dar à luz, coisa que a mulher, horrorizada, tenta por todos os meios impedir. E tudo acaba num gigantesco nó, como não poderia deixar de ser. Gigantesco e não só: também muitíssimo divertido.

Com pouco mais de uma página, esta história tem tudo o que uma história de viagens no tempo deve ter, a começar pelos paradoxos, e ainda uma valente dose de bom humor. De se tirar o chapéu.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 6 de março de 2016

Lido: Existe um Homem que Tem o Costume de me Dar com um Guarda-Chuva na Cabeça

Existe um Homem que Tem o Costume de me Dar com um Guarda-Chuva na Cabeça, de Fernando Sorrentino, é um daqueles contos cujo título diz quase tudo. É narrado em primeira pessoa por um homem que conta como outro lhe apareceu um dia na vida para lhe dar pancadas na cabeça com um guarda-chuva, sem ser possível demovê-lo ou impedi-lo de o fazer, de noite ou de dia, fizesse chuva, fizesse sol, nevasse ou ventasse, nas situações mais públicas ou na maior das intimidades. Divertido e insólito, este é um conto de um imaginativo surrealismo e a primeira incursão pelo fantástico que se encontra neste número da Ficções. E, sendo bastante curto, também tem a extensão certa: como é daqueles contos que se esgotam na ideia, dificilmente manteria o interesse se se prolongasse por mais páginas, a menos, claro, que outras ideias se viessem somar a esta. Não creio que esteja aqui uma obra-prima, nem nada do género, mas é um conto divertido e bem concebido, portanto está aprovado.

Contos anteriores desta publicação:

sábado, 5 de março de 2016

Lido: Lisboa no Ano 2000

Lisboa no Ano 2000 (bibliografia) é uma antologia de ficção científica organizada por João Barreiros, mas não uma antologia como as outras. Normalmente, quando se pensa numa compilação de contos de vários autores, pensa-se em contos isolados ou englobados de uma forma mais ou menos coerente num tema genérico. Aqui, a ideia é outra. Aqui, a ideia é a construção de um universo partilhado, dentro do qual os autores desenvolvem as suas ficções.

Não é inédito, claro. Não só tem antecedentes lá fora, como já tínhamos exemplos na ficção científica de língua portuguesa, entre os quais se destaca o projeto Intempol, idealizado por Octavio Aragão. Mas em Portugal, que eu saiba, é a primeira vez que se faz algo do género e o resultado é francamente bom.

Aqui, o fulcro é uma ideia do João Barreiros, que pegou nas especulações futuristas de vários autores da viragem do século XIX para o XX, que imaginavam futuros dominados pela tecnologia de ponta do tempo, a eletricidade, temperou-a com doses generosas das suas obsessões literárias, tirou o chapéu, a boina, o barrete e o capachinho a Nicola Tesla, enquanto lhe fazia uma profundíssima vénia, misturou tudo com outras ideias meio espiritualistas, muito em voga entre finais de oitocentos e inícios de novecentos, e criou um universo ficcional sólido o suficiente para servir de alicerce para outros autores nele e com ele brincarem.

E eles fizeram-no em geral bem, criando — não que a competição seja muita — o melhor livro retrofuturista português.

Retroquê, perguntam? Retrofuturista. É uma forma de ficção científica que reimagina passados, presentes ou futuros possíveis (ou nem tanto) se a evolução tecnológica tivesse seguido caminhos diferentes daqueles que seguiu no mundo real. E subdivide-se numa profusão de subgéneros. Ficções em que a forma dominante de maquinaria funciona a vapor (e/ou, funciona segundo os princípios e/ou a estética dominantes na época do vapor) são ficções steampunk; ficções inspiradas pela era atómica chamam-se atompunk, e por aí fora.

Aqui, temos um presente (bem... um passado próximo) alternativo em que, espiritualismo à parte, tudo tem inspiração nos aparelhos elétricos dos pioneiros do aproveitamento da energia elétrica para uso humano. Ou seja, tudo isto é retrofuturismo eletropunk tingido de horror.

Ao longo de vários anos, fui dizendo que a melhor antologia de ficção científica e fantástico escrita originalmente em português que eu conhecia era a Por Universos Nunca Dantes Navegados, justificando a opinião com a inexistência nela de maus contos, coisa demasiado rara nas nossas antologias, e com o equilíbrio na qualidade das histórias. Com a publicação de Vaporpunk, a Universos perdeu o Brasil mas manteve-se dominante em Portugal. Teve um abanão quando saiu Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa mas resistiu porque, embora esta seja francamente boa enquanto trabalho de edição, a qualidade de demasiados dos seus contos deixa bastante a desejar. Mas não resistiu a Lisboa no Ano 2000.

Porque Lisboa no Ano 2000 também não tem contos maus. Porque tem uma mancheia de contos bons ou muito bons. Porque os melhores são de melhor qualidade média do que os melhores da Universos. Porque, ao contrário da Universos, Lisboa no Ano 2000 é mais do que a mera soma das histórias que a compõem.

Lisboa no Ano 2000 é um livro bastante bom. Mesmo que algumas destas histórias mostrem falhas, mesmo que alguns dos autores estejam ainda bastante verdes, ombreando com outros muito mais experientes e com muito maior domínio de todos os aspetos da arte de contar histórias, há um patamar mínimo de qualidade que está sempre presente, há uma estrutura que ajuda a disfarçar ou pelo menos a apoiar fragilidades e há algo que está ausente de quase todas as antologias que eu já li: a sensação de que restam ainda muito mais histórias para contar no complexo mundo aqui criado. Também isso é bom.

E como, mesmo sendo maior que as partes, a antologia não deixa de as ter, eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Este livro foi comprado.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Lido: A Grande Sombra

A Grande Sombra (bibliografia), mais uma novela fantástica de Mário de Sá-Carneiro, regressa a algumas das suas obsessões. Tem aspetos bastante interessantes, mas eles são subjugados por algumas características que fazem com que este seja, na minha opinião, o pior dos textos de Sá-Carneiro lidos até este ponto, excetuando apenas algumas das curtíssimas experiências iniciais.

A história é mais uma vez contada de forma diarística, pela pena de um homem que descreve o que de mais importante vai acontecendo na sua vida e, longamente, muito longamente, o que vai na sua mente. Esse é um dos problemas desta história: durante longuíssimas páginas ela, a história, não existe; há apenas as ruminações plenas de umbigo de um homem quase absolutamente centrado em si mesmo, presunçoso, e repleto de ennui (tem mesmo de ser assim em francês) burguês. Só começa a haver história propriamente dita quando ele comete um homicídio... e isso acontece à página 27 de um texto que, nesta edição, ocupa 51 páginas. Até aí...

Bem, até aí vão acontecendo algumas coisas, é certo. Mas são coisas desconexas, rápidas descrições de uma ou outra cena cujo único interesse reside em ajudar a caracterizar o estado de espírito (muito pouco são, como facilmente se imagina) do protagonista e servir de pretexto para uma elaboração e poetização da prosa que sobrepõe, de uma forma que chega a ser agressiva, a frase de efeito poético, tantas vezes pouco ou nada densa em substância, a alguma espécie de enredo. E esse é outro problema, e bastante grave. De facto, aqui Sá-Carneiro comete quase todos os pecados que caem dentro da definição anglo-saxónica de purple prose, um domínio total, hiperadjetivado, floreadíssimo, da forma sobre o conteúdo. E ainda por cima de uma forma francamente desagradável para a minha sensibilidade literária.

De resto, voltamos às obsessões mórbidas, à loucura e a uma certa fluidez de sexualidade, ou pelo menos de atração, que já estavam patentes em muitas (a morbidez, a loucura) ou em algumas (as sugestões de homossexualidade) das histórias anteriores. Após o assassínio de uma mulher que o atraíra, durante um ato sexual, o protagonista e narrador surpreende-se por se achar livre de suspeitas em vez de preso e condenado pelo crime, e isso revigora-o. Mas mais tarde conhece um homem misterioso e sente-se misteriosamente atraído por ele, passando a acompanhá-lo para todo o lado até chegar à conclusão de que o homem que o atrai e a mulher que matara estão interligados (ou até que de certa forma se fundem) de uma forma enigmática. Fantástica.

Essa é das coisas mais interessantes nesta novela, mas não a mais interessante. Creio que essa taça terá de ser entregue a um recurso estilístico de que Sá-Carneiro aqui se serve de uma forma surpreendente, embora não tão eficaz como poderia ser sem o excesso de poetização do texto. É que muitos são os sentimentos, os atos, os pensamentos, que vêm associados a cores, o que resulta num texto muito sinestético e cria imagens no mínimo intrigantes e ocasionalmente bastante fortes.

Em todo o caso, esses pontos de interesse não chegam. Os defeitos desta novela são demasiado pesados. Não consigo sequer achá-la razoável.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 3 de março de 2016

E então? Que me aconselham?

Ora bem, despachadas as opiniões sobre os álbuns de BD que li no ano passado (estão aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, para quem ainda não as tinha visto), e sabendo umas coisas sobre a minha relação com a BD ao longo dos anos, estando portanto razoavelmente bem cientes dos meus gostos, digam-me lá: o que me recomendam que arranje e leia a seguir?

É escusado recomendarem este cavalheiro aqui ao lado, claro; ele é a base da minha fraca bedefilia. Também não adianta muito recomendarem-me o que conheço melhor, Tintim, Lucky Luke, essas coisas. Também não vale a pena virem-me aconselhar Marvel ou DC, que super-heróis com as cuecas por cima das fatiotas não são, decididamente, material que me encha as medidas. Mas e fora isso? O que há por aí que me possa surpreender pela positiva e, idealmente, que seja mais ou menos fácil de encontrar?

Sim, que depois da surpresa globalmente tão positiva que foi a minha experiência com a BD no ano passado, e depois de ter descoberto que a BD é o antídoto ideal para aquelas alturas em que o cansaço do texto corrido é tanto que não apetece ler uma página (coisa que acontece de vez em quando a quem trabalha com texto, suponho; às tantas satura. Pelo menos eu sofro disso) quero continuar a ler BD e a descobrir coisas. Mas quais?

Fãs de BD, sintam-se desafiados. A caixa de comentários é vossa.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Lido: Sharaz-De

Sharaz-De é um assombro. Sim, eu sei que ao longo destas opiniões sobre os álbuns de BD da Levoir que comprei (não comprei a coleção completa; este é o último) fui dizendo e repetindo que não me sentia avalizado para opinar mais detalhadamente sobre a parte gráfica da coisa, mas este álbum de Sergio Toppi torna completamente impossível não o fazer. Porque ele é, sobretudo, grafismo. E que grafismo, caramba!

Mas vamos voltar um pouco atrás.

Sharaz-De é uma compilação de onze histórias retiradas das Mil e Uma Noites, e Sharaz-De, a Sherazade de Toppi, é quem as conta ao seu rei cruel, salvando-se assim noite após noite. Histórias fantásticas, quase todas, cheias de magia, de djinns, de gigantes e de uma espécie crudelíssima de justiça, o tipo impiedoso de justiça que prevalece em terras e tempos impiedosos.

As histórias têm um fascínio muito próprio, o que não é de espantar sendo como são as 1001 Noites a mais célebre obra literária proveniente da cultura árabe. Mas Toppi soma a esse fascínio uma arte a que só posso chamar deslumbrante. Quase sempre em página inteira, pouco ligando à tradição da banda desenhada que manda dividir as páginas em quadrados e retângulos, contendo cada qual a sua cena (na verdade, quando usa os típicos quadrinhos da BD rara é a ocasião em que a cena neles contida não os extravasa, ligando-os aos outros ou a alguma cena de fundo), umas vezes a cores, outras a preto e branco, Toppi cria um luxo de livro que é uma delícia para os olhos.

Não sei quão inovador é isto, esta espécie de transformação de um álbum de BD num livro de ilustrações por vezes quebradas em quadros e ocasionalmente acompanhadas por um ou outro balão. O texto introdutório, infelizmente, não ajuda a ficar a saber. Não sei se tem percursores, se tem outros cultores, anteriores ou posteriores, se tem resultados ainda melhores. Mas sei que cada uma destas imagens me fascinou, mais até, muito mais até, do que o texto das histórias que, de resto, acompanham na perfeição. Acompanham? Não, a palavra não é essa. A palavra é interligam, pois palavra e imagem entretecem-se de uma forma que também me pareceu rara.

Eu já disse várias vezes, e repito, que pouco percebo de BD. Mas achei este livro absolutamente soberbo. Que belíssima compra!

terça-feira, 1 de março de 2016

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Marshall Ryan Maresca

Marshall Ryan Maresca está presente nesta antologia com um só conto, intitulado

Jump the Black. Trata-se de um conto muito interessante de ficção científica que, como a boa FC muitas vezes faz, está profundamente enraizado nos acontecimentos e preocupações do tempo de todos nós e do espaço que o autor habita. Fazendo lembrar alguns dos contos do nosso João Barreiros, mostra-nos uma Terra futura, após o contacto com inteligências alienígenas e por isso repleta de alienígenas de várias espécies. Maresca situa a sua história algures nos Estados Unidos do nosso tempo, ou pelo menos faz o seu protagonista ter vivido por algum tempo em San Antonio, Texas, não por acaso uma cidade fronteiriça com o México. Porque é precisamente disso que o conto trata: de fronteiras, de dificuldades económicas, de oportunidades e da vontade de fazer qualquer coisa para partir em busca de uma vida melhor. Mesmo que quem detém o poder não queira deixar. De emigração, em suma, pouco importa se legal ou ilegal, para fora de um buraco sem futuro, para algum lugar que é visto como uma espécie de salvação.

Hoje em dia, tanto no primeiro mundo como nos restantes, sabemos todos muitíssimo bem de que está Maresca aqui a falar... embora muitas vezes muitos de nós não queiram saber. Mas este conto força-nos a confrontar a realidade dos outros, dos que no mundo real imigram, porque o sítio atrasado e sem futuro que ele nos apresenta se chama Terra, este planeta em que vivemos, e é lá fora, no espaço, onde os alienígenas dominam, que os desesperados julgam existir as oportunidades. Aqui, neste futuro imaginado, o espaço é os Estados Unidos (e a Europa) do mundo contemporâneo, a Terra o inferno de onde toda a gente quer fugir, mas os problemas e as ambições são os mesmos.

Sim, este conto conta uma história, a história de um candidato à emigração. E de uma forma bastante terra-a-terra; não se trata de nenhum panfleto. Mas não deixa por isso de ser um conto completamente político. E ainda bem que o é.