quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Lido: The Difference Between Fiction and Life

Também não incluído em nenhuma das edições em português de Bruce Holland Rogers, este The Difference Between Fiction and Life é um conto que nada tem de fantástico cujo fulcro se encontra na frase que o encerra. Trata de uma historinha de predação no reino animal, centrada numa infeliz mariposa que primeiro é apanhada pela teia de uma aranha ausente e aí fica a debater-se futilmente, o que acaba por atrair a atenção de uma vespa, com consequências que... bem... vem na última linha. Esta é aquilo que transforma um mero e breve relato sobre a vida e a morte entre a fauna na reflexão bastante profunda e igualmente irónica sobre a natureza da literatura que o título logo sugere. Outro bom conto.

Outras histórias divulgadas na newsletter de Bruce Holland Rogers:

Lido: O Astronauta

Há muito quem pense que a ficção científica se dedica a tentar prever o futuro. Escreveram-se e continuam a escrever-se rios de artigos a falar das "previsões acertadas" ou dos "erros" que a FC supostamente teria cometido ao longo da sua história, e as tecnologias avançadas são quase inevitavelmente descritas como "de ficção científica" ou vêm acompanhadas de frases como "não é ficção científica, mas realidade". Mas isto, lamento dizer, vem de gente que das coisas só percebe a superfície.

Porque se rasparmos a camada superficial, a FC não é isso e nunca o foi. A FC é, e sempre foi, sobre o presente de quando é escrita, embora o seja de várias formas, por vezes sobre os temas relevantes apenas no presente e por isso passageiros, por vezes sobre temas mais perenes como a condição humana, usando o futuro ou os planetas distantes como uma espécie de ambientes experimentais onde esses temas podem ser explorados de uma forma mais pura, sem o ruído inerente à complexidade do planeta em que vivemos, ou mais extrema, por conseguinte de uma forma que os realça.

O Astronauta (bibliografia), mais um bom conto de Ray Bradbury, é um destes últimos. Situado em ambiente doméstico e familiar, contado sob o ponto de vista de um filho de astronauta que sonha com as estrelas e com um dos periódicos regressos do pai, é um conto que tem como tema não o futuro ou a tecnologia, mas a dinâmica disfuncional da família de um herói, regularmente abandonada, e o coração dilacerado deste, dividido entre a vontade de ficar com os seus e a paixão pelas estrelas, que o leva a não poder deixar de voltar a partir.

Podia não ser um conto de FC. E na verdade, parte do seu impacto (e parte do motivo por que se mantém relevante apesar do que descreve já ter deixado de ser ficção científica há décadas) deve-se precisamente a isso. A situação não depende de o homem ser astronauta, mesmo que o fascínio pelo espaço a ajude e esse facto tenha impacto em alguns pormenores da narrativa: famílias abandonadas por homens demasiado absorvidos pela profissão são coisa de séculos, especialmente em sociedades patriarcais, nas quais às mulheres está reservada a família e aos homens a saída para o mundo. O espaço podia ter sido substituído pela guerra (e é provável que fosse essa a inspiração principal: o conto é de 1951) ou por muitas outras situações. É por isso que é tão fácil reconhecer a situação e o dilema e é em parte por isso que a história resulta tão bem.

A outra parte, claro, cabe à mestria de Bradbury, ao ponto de vista que escolhe, à forma como constrói a narrativa, à poesia das suas palavras. Mas nem tudo são rosas: Bradbury era um conservador e por isso não se vislumbra aqui sinal de contestação aos tradicionais papéis atribuídos aos sexos, bem mais vivos nos anos 50 do que hoje. Este conto não é misógino, como outras obras de FC da época são (há na mulher uma enorme dignidade), mas é certamente machista. A verdade, contudo, é que não há muitas neste período que não o sejam.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Lido: Antologia do Conto Português Contemporâneo

No já longínquo ano de 1984, Álvaro Salema recebeu a incumbência de organizar uma Antologia do Conto Português Contemporâneo, a ser publicada institucionalmente pelo Instituto de Cultura e Língua Portuguesa. O objetivo não era tanto vendê-la ao público, mas apoiar a ação pedagógica no campo do ensino de português como língua estrangeira e divulgar a literatura portuguesa no estrangeiro, nomeadamente servindo de base para a tradução para outras línguas, e eventual publicação, das obras reunidas. Para tal, Salema reuniu um conjunto de 30 contos de outros tantos autores, abrangendo um período — e os respetivos estilos e correntes — que vai de 1926 a 1982.

A qualidade no manejo da língua é, nestes contos, tão elevada como seria de esperar numa publicação deste género. E a qualidade literária mais genérica, que inclui não só este manejo mas outras facetas da criação literária, é também bastante elevada, pesem embora as oscilações naturais num conjunto heterogéneo de contos e a presença de um conto muito mau, perfeito erro de casting... ou talvez não, talvez a sua inclusão tenha sido apenas fruto de o compilador sentir a necessidade de não ignorar a abordagem literária que esse conto corporiza: há vários contos excelentes, os muito bons são mais e a grande maioria é de bom para cima, sendo poucos os apenas razoáveis.

Algo surpreendente para mim foi a quantidade de histórias fantásticas que esta antologia contém. Como disse numa das opiniões individualizadas aos contos, já contava com a presença de algum fantástico, por já conhecer alguns dos contos de publicações como a Antologia do Conto Fantástico Português, entre outras. Mas não o esperava em tão grande profusão. Julguei que talvez houvesse aqui uns 5 ou 6 contos fantásticos, no máximo. Nunca imaginei que eles fossem 13; mais de um terço do total.

Em geral, portanto, esta foi uma boa leitura. Mais: foi uma leitura surpreendentemente relevante para o principal motivo que me levou a fazê-la — alimentar o Bibliowiki. E sim, creio que se trata mesmo de um apanhado muito interessante da produção contística portuguesa daqueles cinquenta anos e picos; interessante o suficiente para extravasar o mero âmbito pedagógico que esteve na sua génese. Quem quiser ler bons contos portugueses, tem-nos aqui com fartura.

Quanto a mim, eis o que achei de cada um deles:
Este livro foi obtido na internet, numa versão em PDF disponibilizada gratuita e legalmente pelo Instituto Camões.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Lido: Perro de Luz

Um problema grave de que esta antologia em PDF sofre é ter tantos erros de paginação que alguns contos, que até talvez tivessem algum interesse se bem editados, se tornam praticamente ilegíveis. Perro de Luz é um desses contos. Gerardo Sifuentes cria nele uma história com muito de ciberpunk, a qual parece ser ambientada num futuro longínquo em que a cidade — seja ela qual for... talvez uma cidade global — se transformou num labirinto cavernícola semiarruinado, subdividido em níveis não se percebe bem se provenientes de um crescimento para cima ou para baixo, para o subsolo. Mas tudo é vago, apesar de todo o tecnobabble de FC, muitíssimo piorado pelos tais erros de edição (e são-no certamente, porque não é este o único conto que atacaram, apesar de não terem atacado todos) que transformam o conto em meia dúzia de muito confusos blocos de texto sólido, os quais incluem diálogos e conjuntos de espaços que se sucedem alguns pontos finais e muito provavelmente deveriam ter sido fins ou inícios de parágrafos.

No entanto, creio, e só creio porque a paginação torna a leitura tão penosa que é difícil ter certezas, creio, dizia, que não é só isso a causar problemas no conto. Ele também parece sofrer de um outro problema que tende a acometer os escritos de futuro mais ou menos longínquo feitos por autores demasiado inábeis para tornar compreensível a extravagância inerente ao que está muito afastado da experiência humana contemporânea. Um bom escritor torna compreensíveis e agradáveis de ler até histórias sobre a morte térmica do Universo. Um mau por vezes tenta, por vezes nem isso. E Sifuentes parece que nem isso.

Mas, repito, isto é o que me parece depois de me faltar a paciência para analisar detidamente a parede de texto em que este conto foi transformado. Li tudo mas confesso que li pela rama. Se tivesse tido essa paciência, a vontade para abrir caminho à catanada por esta impenetrável selva de palavras, é possível que a opinião final fosse diferente. Não creio que seja provável, mas possível certamente é.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Lido: Silverfish, o Último Inquilino

Silverfish, o Último Inquilino, de Manuel Mendonça, provavelmente o mais curto dos contos desta antologia, é um conto muito vagamente de ficção científica — passa-se num futuro em que os ebooks terão substituído por completo os livros físicos; não que isso tenha algum verdadeiro impacto na história — sobre uma entidade que parece incorporar as características principais dos peixinhos-de-prata. A narrativa é desconexa e apressada, o que talvez não seja sempre defeito mas pelo menos exige que o autor mostre que sabe o que está a fazer, o que Mendonça está muito longe de alcançar. Pelo contrário; a própria prosa é frágil, o final talvez estivesse claro na mente do autor mas para a do leitor mais parece uma frase vagamente mística (refere-se a um obscuro texto tibetano), atirada para ali sem grande propósito, e tudo termina deixando muitíssimo a desejar. O texto mais fraco da antologia até ao momento, e a grande distância do segundo pior.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 11 de novembro de 2017

Lido: O Destruidor de Mundos

Quem junta as qualidades de ser leitor habitual de ficção científica e conhecedor das ciências biológicas conhece bem a frustração que a primeira atividade costuma causar quando é posta em confronto com a segunda. Sabe bem que a ficção científica, genericamente, apesar de muitas vezes mostrar um cuidado quase obsessivo (pelo menos na vertente hard) com o rigor científico na parte físico-matemática da extrapolação, trata quase sempre a biologia com displicência, quando não com ignorância aberta e despreocupada.

Pois esta novela, O Destruidor de Mundos (bibliografia), é um belo exemplo do que acima fica dito. Charles Sheffield era físico e matemático, além de escritor de FC, o que explica que a biologia não fosse seu forte. Mas não ponhamos o carro à frente dos bois. Voltemos ao início.

Sheffield cria nesta novela uma história de mistério, centrada no desaparecimento de um homem. A princípio parece uma simples história de detetives, pois a mulher contrata uma detetive privada, a qual se põe a investigar as poucas pistas de que dispõe. Depressa aparece um novo elemento na história, a filatelia, explorado com algum detalhe e que vai abrir à heroína novas vias de investigação e lhe vai trazer um muito útil coadjuvante. Mas é por intermédio dos selos que tudo começa a ganhar contornos cada vez mais estranhos, aparecendo na história uma organização secreta que usa certos selos (que não são propriamente selos) como discreto método de identificação e comunicação e, seguindo a pista a essa organização, detetive e coadjuvante acabam por viajar até às Montanhas Rochosas, onde acham que talvez consigam encontrar o desaparecido.

E encontram. Mas também encontram aquilo que faz desta história ficção científica. E a razão da conversa inicial sobre a biologia e a FC. E se acham que isto até aqui já tem muito spoiler, deixem já de ler porque daqui para diante vai ter muitos mais.

O que encontram são instalações secretas de pesquisa, desenvolvidas pela tal sociedade secreta dos selos, nas quais se está a desenvolver um projeto de investigação inspirado por aqueles globos fechados que se vendem por aí, chamados ecosferas, nos quais um minúsculo ecossistema aquático autossustentável sobrevive sem qualquer contacto com o exterior. A ideia é desenvolver algo de semelhante em escala maior, capaz de sustentar pessoas, com vista à sua utilização na colonização do espaço. Mas tudo é feito num sistema de tentativa e erro, e os erros são numerosos; as primeiras ecosferas falharam e foram destruídas, as experiências em curso são pouco animadoras. Mas há uma exceção: uma das ecosferas mostra grande potencial e vai-se desenvolvendo com pujança. E é aqui que Sheffield põe a pata na poça biológica.

É que para que a sua história resulte, Sheffield tem de postular o impossível: uma evolução ultrarrápida de todo um ecossistema, capaz de, em meras horas, mudar radicalmente de estado — e nem se trata de resultado de contaminação alienígena, como em vários contos do João Barreiros; tudo resulta de manipulação da biologia local. Já vimos isto em vários sítios (o exemplo mais conhecido talvez seja o filme Evolution, que tem pelo menos a atenuante de ser uma comédia... e de ser contaminação alienígena), e é sempre disparatado, não sendo esta novela exceção.

Tirando isso, a história até resulta. É eficazmente movida pelo mistério do desaparecimento do homem, que se mantém até perto do fim, momento em que já outro motor tomou o controlo da narrativa: o mistério da investigação que se está a fazer nas instalações onde os protagonistas acabam e a ameaça que aparece quando é ventilada a ideia de organismos ultra agressivos arranjarem maneira de sair do ecossistema fechado em que se desenvolveram e entrar em contacto (e em confronto) com aquele que sustenta a vida humana. A prosa, não sendo nada de especial, é eficaz. Tudo somado, quem não seja particularmente sensível a pontapés grosseiros no rigor biológico terá provavelmente motivos para achar esta novela boa. Eu achei-a razoável, não mais que isso.

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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Lido: Boca da Trompete

Alexandra Pereira regressa com mais dedicatórias, sendo que as deste conto devem ser as primeiras a encontrar sem quaisquer problemas destinatário leitor, uma vez que as dedicadas são duas amigas da autora.

Quanto ao que realmente interessa, Boca da Trompete, assim mesmo no feminino, por estranho que soe, é um conto fantástico bastante surrealista, com uns pozinhos de onírico, ambientado numa estrada perto da Boca do Inferno, Cascais, onde Alexandra Pereira coloca um estranho sucedido: o falecimento por atropelamento ciclista de Dizzy Gillespie, trompetista de jazz (ou pelo menos de um Dizzy Gillespie, trompetista de jazz). E descreve-o com profusão de pormenores e uma galeria castiça de personagens que nele participam ou o testemunham. É isso, aliás, que faz o conto.

E é um bom conto, não só por estar escrito com a habitual competência salpicada de poesia e ironia que Alexandra Pereira costuma mostrar em prosa corrida, mas também porque a história está bem concebida, com um jogo hábil entre aquilo que faz sentido lógico no contexto de uma prosa que se quer realista e os elementos fantásticos, proféticos, que nela se entrelaçam e porque até tem, imaginem só, diálogos bem feitos. Sim. Alexandra Pereira, afinal, sabe criar diálogos em que se sente gente a falar. Diálogos sem purpurinas literatas e com os oralismos terra-a-terra das pessoas reais. Muito bem. Assim é que é.

Contos anteriores deste livro:

Lido: A Man of the Theatre

A revista científica britânica Nature publica regularmente (embora com alguns hiatos) desde 1999 pequenas histórias de ficção científica, muitas delas escritas por autores de relevo no género, um pouco à semelhança do que se fez em Portugal com a Omnia, nos anos 80 (que por sua vez foi inspirada por igual abordagem por parte da americana Omni). Há alguns anos (ver nota), parte destas histórias foi disponibilizada pela revista na web, em ficheiros pdf, e eu descarreguei-os e deixei-os no meu disco à espera de oportunidade ou vontade para lhes pegar e os ler. Durante anos.

(Nota: Hoje, todas estas histórias estão disponíveis no site da revista, não só em html mas também em pdf)

A Man of the Theatre, de Norman Spinrad, é uma dessas histórias, datada de 2005. Ambientada num futuro (naturalmente) em que o teatro está obsoleto, substituído por espetáculos bem mais imersivos em realidade virtual, a história consiste de divagações por parte de um velho homem de teatro, desgostado e revoltado com a decadência da sua arte e decidido a fazer um derradeiro gesto adequadamente dramático para fazer lembrar ao mundo que essa arte existe.

É uma boa história, mas apenas boa. Tem o tal problema típico das histórias que procuram condensar mundos complexos em uma ou duas páginas e por isso acabam por se resumir a uma longa explanação do ambiente para situar o leitor, dedicando pouco ou nenhum espaço a verdadeiro enredo. Histórias assim têm de ser muito bem feitas para terem real impacto, e não creio que esta o seja. Não é má, é interessante, mas falta-lhe algo para chegar ao muito bom.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Lido: Second Sight

Mais uma das pequenas vinhetas de Bruce Holland Rogers, e esta também não teve edição em português. Second Sight é daquelas histórias de horror que parecem servir de ilustração ao célebre adágio "cuidado com o que pedes, porque pode ser-te concedido"... e até está escrita em segunda pessoa e tudo.

O protagonista, você, é alguém que tem um objetivo: ver fantasmas. Para isso, encontra uma loja vazia e espera até que, à meia noite, soa uma voz que lhe explica como o fazer... e avisa que vez fantasmas não é como imagina. Mas o protagonista, você, é obstinado, e faz o que há a fazer para ver fantasmas. E vê fantasmas. E, como tinha sido prevenido, não é como imagina, o que naturalmente tem consequências.

Esta é mais uma historinha inteligente e subtil, bem escrita, precisamente o que quem o conhece espera do autor.

Outras histórias divulgadas na newsletter de Bruce Holland Rogers:

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Lido: O Foguete

Em O Foguete (bibliografia), Ray Bradbury regressa ao puro maravilhamento dos primeiros contos deste livro, mas aqui a abordagem é diferente. Fiorello Bodoni é pobre mas tem o sonho do espaço. Todos na sua família o têm, aliás; aquela vontade de partir e viajar entre os planetas, ver coisas novas, ter uma aventura. Mas Fiorello Bodoni é pobre. Não tem dinheiro para um foguete, e por isso está condenado, ele e toda a família, a permanecer a vida inteira preso à terra. Até que um dia tem uma ideia e gasta nela todas as parcas economias, comprando num ferro-velho um velho foguete avariado.

Este é um conto sobre o poder da imaginação, sobre como, à falta de capacidade para termos as experiências reais, podemos sempre optar por simulações e, com uma ajudinha da imaginação, ficamos felizes na mesma. Se fosse escrito mais tarde, este conto provavelmente contaria com realidades virtuais ou sistemas de imersão, mas é um conto de 1950, e portanto a saída que a personagem de Bradbury encontra para o seu dilema assemelha-se mais a uma atração de feira particularmente sofisticada.

É outro conto bastante bom, sim, embora eu o julgue um degrauzinho abaixo dos anteriores. Mas também é mais um conto que me deixa uma certa amargura ao fundo da consciência quando tento perceber para onde foi este otimismo pelo futuro, o que aconteceu à esperança que nestas ficções de Bradbury subsiste mesmo em situações de carência. É mais fácil escrever ficção sombria em ambientes desesperantes? É: o conflito dramático está criado à partida. Mas Bradbury prova (se fosse preciso) que essa não é a única forma de fazer boa FC e boa literatura em geral. E enquanto espécie estamos desesperadamente carentes de algum otimismo, nem que seja na ficção.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 7 de outubro de 2017

Lido: Anthology of European Speculative Fiction

Há cerca de um ano, quando fui pela segunda vez nomeado para um prémio da European Science Fiction Society, escrevi que "tenho alguma simpatia pelo voluntarismo dos prémios da ESFS. [...] Mas a verdade é que a relevância do prémio é praticamente nula, e será sempre nula enquanto não existir mesmo um mínimo de contacto entre o que se vai fazendo no campo da ficção especulativa nos vários países europeus, o que está muito, muito longe de acontecer." Poderia ter acontecido, mas não aconteceu, que alguém me tivesse vindo mostrar esta Anthology of European Speculative Fiction como prova de que esse mínimo de contacto já existe, o que teria tido como resposta uma rotunda negativa. Não que iniciativas como esta não possam ser semente de qualquer coisa, mas são no máximo só semente, não são a própria coisa. Quando eu falo em "um mínimo de contacto" refiro-me a edições regulares e variadas, mesmo se escassas, de obras de ficção especulativa europeia nas várias línguas da Europa, que possam servir para termos todos alguma noção, ainda que vaga, do que se vai fazendo nos outros países. Uma antologia em inglês não basta, uma publicação regular em inglês como a ISF Magazine, que coeditou este ebook, também não. Poderão ser um início. Mas, como se viu, nem isso terão sido. Parece faltar por completo uma condição determinante para uma iniciativa destas ter alguma hipótese de dar frutos: interesse.

Assim, ficam as obras em si mesmas. E esta, organizada pelo romeno Cristian Tamas e pelo português Roberto Mendes, não é má, até porque inclui alguns bons contos (sobretudo o de Aliette de Bodard e, a alguma distância, o de Jetse de Vries), mas é muito irregular. Muito irregular.

O que me causa mais estranheza são algumas opções tomadas pelos organizadores. Não sei se terá havido constrangimentos relacionados com as histórias que foram propostas para a antologia e com autores que poderiam ter participado mas não quiseram fazê-lo, mas parece-me que uma antologia deste tipo, que tem claramente a ambição de servir de montra internacional do que se faz atualmente na Europa, deveria esforçar-se por apresentar a melhor ficção possível. Não sei se se esforçou e não conseguiu. Mas o facto é que a par de boas histórias, escritas por autores experientes e de qualidade, surgem histórias bastante amadoras, que ainda por cima nem sequer representam adequadamente o que se faz nos respetivos países, o que se comprova por haver aqui histórias muito melhores de autores das mesmas nacionalidades.

E também me causam uma certa estranheza as ausências. Há três autores romenos, duas portuguesas, dois britânicos, um que talvez seja holandês ou belga, um finlandês, um ucraniano e até dois que nasceram nos EUA, um dos quais com nome italiano e a outra com nome, vivência e nacionalidade franceses. Mas onde estão os espanhóis? Os polacos? Os alemães? Os russos? Tudo nacionalidades que, à parte talvez os espanhóis, têm tradições fortes e reconhecidas na ficção especulativa mundial e no entanto não parecem ter mostrado o menor interesse por esta iniciativa. Que é delas? Como é que uma iniciativa como esta pode prescindir de autores destes países?

São questões que me ficaram ao terminar esta leitura. Possivelmente haverá excelentes respostas para elas, mas parece-me que uma mostra da FC&F europeia só ficaria mais forte se fosse mais abrangente e consistente em termos de qualidade.

Por outro lado, como digo sempre que tenho oportunidade, a publicação de uma antologia já vale a pena desde que inclua pelo menos um conto muito bom ou dois ou três "meramente" bons. E esta inclui, portanto ainda bem que existe.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Este livro eletrónico foi distribuído gratuitamente.

Lido: Llegar a la Orilla

Após um início auspicioso, a antologia em que se insere o conto Llegar a la Orilla, de Guillermo Lavín, tinha vindo a desiludir mas com este conto voltou a terreno positivo. Inspirado por Ray Bradbury e pelo ciberpunk, este é um conto bem escrito, ambientado num futuro distópico, sobre um rapaz pobre que tem uma ambição: receber uma bicicleta moderna pelo natal. Mas é pobre: o pai, trabalhador não especializado, ficou viciado anos antes ao ser-lhe implantado um chip que era exigido pelo contrato celebrado com a companhia que o empregava, estoira boa parte do parco dinheiro que ganha para alimentar o vício, e por isso não tem possibilidade de lhe dar o que ele quer. Quando o compreende, decide ser ele a dar um presente ao pai, algo que lhe iria facilitar sobremaneira a vida. Mas como, se não tem dinheiro?

Bem... há sempre uma solução.

É um conto bem escrito, como já tinha dito. Também é um conto bem concebido, com bom ritmo e o tamanho certo para a história que conta, uma ambientação interessante e personagens credíveis, ainda que haja que forçar um pouco a suspensão da descrença para engolir a ideia de chips que causam dependência e entram em curto-circuito ao serem implantados. Aprovado.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Lido: Escotilha

Foi pura casualidade, mas aparecem aqui na Lâmpada duas opiniões seguidas a contos com ambiente de space opera, pois é precisamente o que Carlos Silva nos traz em Escotilha. Numa espécie de inversão da ideia usada por João Barreiros em vários dos seus contos e que esteve também na génese de Terrarium, a de uma Terra repleta de alienígenas refugiados de regiões mais interiores da galáxia, em êxodo, a fugir de qualquer coisa, Carlos Silva apresenta o início do êxodo da humanidade, expulsa da Terra depois de perder uma guerra com uma espécie alienígena.

O conto é contado da perspetiva de um comandante alienígena, a assistir ao êxodo, e espantado com o facto de uma das naves terrestres de maiores dimensões ser usada para transportar livros. E podia ser um conto mais interessante se o Carlos não tivesse sido obrigado a gastar tanto espaço a despejar informação sobre o cenário para conseguir situar o leitor, servindo-se mesmo de um dos truques mais surrados da FC, ainda que de uma forma razoavelmente subtil, conhecido internacionalmente pela expressão "as you know, Bob". E creio que não teria outra alternativa para encaixar esta ideia num conto tão curto; ou seja, não me parece que o problema esteja na execução mas na própria adequação da ideia a um texto deste tamanho.

A consequência é parecer-me que esta história não é das melhores. Para o ser precisaria de mais espaço para respirar.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Lido: O Céu é uma Estrada Aberta

Pode o potencial de um escritor ser avaliado pelo primeiro conto que publica? Quem, por exemplo, leu os primeiríssimos contos de George R. R. Martin, e eu li, certamente concordará comigo que não. Nada nesses contos fazia prever que anos mais tarde ele seria um dos escritores mais interessantes e aclamados do género. Mas é possível que cada caso seja um caso e em alguns casos a resposta seja sim. Dave Wolverton, por exemplo, ajuizando por este seu O Céu é uma Estrada Aberta (bibliografia) inaugural, seria um escritor com grande potencial.

Não que o conto seja excelente, longe disso, mas está entre o razoável e o bom. É decerto melhor e tem mais conteúdo do que os primeiros contos de Martin, pelo menos. Escrito num ambiente de space opera que faz lembrar ora o universo de Star Wars ora o de Duna, é um conto que reflete sobre a moralidade de assassinar um assassino genocida. Wolverton mostra já um domínio seguro da narrativa e a maturidade suficiente para entregar ao leitor a informação necessária, nem a mais, nem a menos, no momento certo. O protagonista é um escravo que trafica uma substância altamente explosiva chamada cobahite, capaz de arrasar continentes inteiros e, embora as restantes personagens me pareçam algo unidimensionais, o protagonista, árabe de um planeta distante, muçulmano, está bem caracterizado e é razoavelmente complexo.

Uma estreia auspiciosa, portanto. E, de facto, desde este conto publicado em 1985 e os dias de hoje, Dave Wolverton tem tido uma carreira razoavelmente produtiva, usando para boa parte da qual o pseudónimo David Farland. Mas não parece ter produzido nada em que realmente se revele o potencial sugerido neste conto. Muitos trabalhos derivativos, na FC (especialmente na space opera) e na fantasia, livros integrados no universo de Star Wars, uma ligação longa com L. Ron Hubbard (é ele o editor de muitas das antologias Writers of the Future) e pouco mais indicam um escritor com sucesso comercial mas sem verdadeira importância. Portanto a resposta à pergunta que abre este texto, se calhar, continua a ser "não."

Seja como for, este conto em particular tem real interesse.

Contos anteriores desta publicação:

Lido: Cristais Como Nós

Imagem verde e negra ali ao lado e quem está por dentro já sabe: aí vem mais um conto da Alexandra Pereira com mais uma dose de dedicatórias mais ou menos passíveis de encontrarem o alvo, algures nos corredores da vida. Desta feita são dois os contemplados: um Rui Horta que assim de repente não estou a ver quem seja (será o coreógrafo? Na volta...) e um tal Eduardo Agualusa que se lhe antepusermos um José não tem mistério.

O conto é realismo mágico que só não é puro porque o conto contém também elementos razoavelmente fortes de surrealismo. Fazendo jus ao título de Cristais Como Nós (que tem um subtítulo mais misterioso, Aula de Geologia Social), fala de uma família na qual "a mãe é transparente, o pai transparente e o filho cor de vidro" e que vive no Bronx. E aproveita o falar dessa família concreta para descrever todo um mundo transparente que existirá, invisível, a par do opaco.

Contrariamente ao anterior, este conto é bom. Porque não se deixa levar por exageros de lirismo (o qual não deixa de estar presente), porque está carregado de ironia, porque se utiliza da ideia do mundo transparente paralelo para lançar penetrantes alfinetadas à sociedade em que vivemos (teoricamente será àquela em que vivem os habitantes do Bronx, Nova Iorque, mas para todos os efeitos práticos a diferença para a nossa não é grande) e às barreiras entre os grupos sociais. Não fosse a prosa por vezes tão enovelada, poderia mesmo achá-lo muito bom. Não só mas também porque é um daqueles casos de utilização bem sucedida dos mecanismos característicos da literatura fantástica para matutar sobre o presente bem concreto das coisas.

Alexandra Pereira oscila bastante de conto para conto (e quem não oscila?). Este é um ponto alto.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Lido: O Segredo da Masmorra

Quando se fala em fantasia, em especial na sua variante mais ou menos épica, uma das primeiras coisas que vem à mente é a palavra "trilogia". Mas apesar de ser mais ou menos padrão do género a produção de vastíssimos volumes de texto para contar histórias que muitas vezes nem necessitariam deles, quando não se limitam, nos piores casos, a ser cópias levemente alteradas de obras anteriores e igualmente palavrosas, a verdade é que existe fantasia em formatos mais pequenos. Incluindo o conto.

Este O Segredo da Masmorra de uma tal Cinthia Goch que ou muito me engano ou é pseudónimo (na verdade, com brasileiros e os estranhos nomes que às vezes têm nunca se sabe), é um desses contos. Derivativo, pouco original e preocupado apenas com criar cenas de ação e perigo, o que reconheço que está plenamente de acordo com a proposta pulp da publicação em que se insere, o conto começa com um elfo em fuga de uma masmorra de um conde maligno, o qual recebe inesperadamente um estranho companheiro: um outro prisioneiro em fuga, que parece atacado de amnésia.

Ora bem: como quem acompanha a Lâmpada já deve fazer uma vaga ideia por esta altura, eu não gosto de pulp — com poucas exceções. Mas, mesmo sem gostar, consigo distinguir o bom pulp, com histórias bem construídas, bem encadeadas, e personagens que apesar de rasas (no pulp é muitíssimo raro que não o sejam) agem de forma consistente com as situações e as poucas características que os autores lhes incutem, e o mau pulp, em que nada disto acontece.

E esta história de Cinthia Goch está mais perto do segundo do que do primeiro, mesmo sendo o texto em si razoável. Há demasiados acontecimentos gratuitos, demasiado deus ex machina, demasiada conversa em momentos de perigo, que no entanto a autora não consegue fazer com que pareça iminente, e há sobretudo a sensação geral de que estamos perante um texto de uma autora inexperiente não só na escrita mas também na própria leitura. Esta é uma história fraca. Não francamente má, porque não deixa de ter algumas pequenas qualidades, mas fraca.

Lido: Outsiders

Regressando às pequenas histórias de Bruce Holland Rogers, Outsiders também está inédita em português e, lendo-a, percebe-se razoavelmente porquê: é uma daquelas histórias quintessencialmente americanas, com marcas de oralismo complicadas de traduzir. Passa-se nas montanhas, provavelmente nas Rochosas ou em alguma cordilheira próxima, e a protagonista é uma mulher que vive na região mas não é de lá, tendo-se mudado alguns anos antes. A consequência é estar numa espécie de limbo de aceitação, pois para os verdadeiros locais permanece marcada como forasteira. Até um belo dia em que um grupo de estudantes aparece na terra para estudar umas luzes fantasmagóricas que, diz-se, aparecem naquela zona e ela, ao agir de forma a defender os assuntos e segredos da terra contra o mundo exterior, conquista finalmente a aceitação plena dos demais.

Um conto bastante bom, construído com a delicadeza e subtileza que quem já o leu acaba por esperar de Bruce Holland Rogers. Um conto de um fantástico todoroviano, no sentido em que a existência ou não de fantasmagorias na história está sujeita a interpretação.

Outra história divulgada na newsletter de Bruce Holland Rogers:

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Lido: A Buzina de Neblina

Há na nossa espécie uma curiosa atitude de algo que não é bem paixão mas está entre ela, o assombro e o temor, para com os dinossauros. O exemplo mais óbvio dessa atitude é a popularidade alcançada pelo Parque Jurássico, do Crichton, e sobretudo pela sua adaptação cinematográfica, mas há uma vasta quantidade de obras com os dinossauros como tema, inclusive na ficção de língua portuguesa, por intermédio do Gerson Lodi-Ribeiro e da sua série de FC e história alternativa sobre uma civilização de dinossauros.

Ray Bradbury tem também várias obras com dinossauros como protagonistas ou personagens secundárias e algumas são clássicos absolutos da FC. O conto Um Som de Trovão será certamente a melhor dessas histórias, mas este A Buzina de Neblina (bibliografia) não lhe fica muito atrás.

É um conto muitíssimo bem escrito e melancólico sobre a solidão. Acompanha uma noite especial no ano, num farol, partilhada por dois faroleiros, aquele que está de serviço e o que o vai substituir. O faroleiro efetivo introduz o colega a um fenómeno que tem vindo a acompanhar ao longo dos últimos anos sem o revelar a ninguém porque se o tivesse feito ninguém teria acreditado. Porquê? Porque tem a ver com um monstro que surge vindo dos abismos, atraído pela sereia que o farol usa para alertar os navios durante momentos de nevoeiro cerrado. Provavelmente influenciado pelas histórias à volta do Monstro de Loch Ness e possivelmente também pelas velhas lendas de monstros marinhos contadas por marinheiros desde que existe tal ocupação, o que é nele realmente extraordinário é a forma como Bradbury conduz a narrativa e a enche de poesia sem a tornar pedante ou aborrecida.

Nas histórias de monstros, estes aparecem normalmente para incutir medo no leitor ou na assistência. Nesta história não; o que fica ao terminar-se a leitura é pena. Pena de uma pobre criatura presa na sua solidão de animal fora do seu tempo, desesperadamente à procura de alguma outra criatura da mesma espécie para poder finalmente reproduzir-se. Ano após ano.

Sim, este é um conto magnífico.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Lido: Almanaque Steampunk 2012

Os almanaques são um tipo de publicação caída em desuso que faz todo o sentido ressuscitar no contexto retrofuturista inerente ao steampunk. Misto de revista e livro, têm — os exemplos físicos que conheço, pelo menos — deste a encadernação e daquela o tipo de conteúdo genérico que não se limita à típica sucessão de histórias, por vezes intercaladas por ilustrações, da maior parte das antologias.

O Almanaque Steampunk, aqui na edição de 2012, faz, portanto, todo o sentido. Constituído por contos e por uma série de outros textos que vão do horóscopo ao artigo jornalístico, passando pela crónica de costumes e pelos anúncios, os quais no fundo são quase todos outras tantas obras de ficção curta (contos, portanto) com estruturas incomuns, reproduz fielmente a estrutura dos almanaques de antanho e traz como brinde a publicação de alguns textos de qualidade. Mesmo que inclua também outros bastante fracos.

Mas a sensação que estes textos mais deixaram foi a de potencial desaproveitado, a de que as ideias neles contidas, se bem aproveitadas, dariam textos mais longos muito mais interessantes do que as ficções muito curtas que acabaram por ser mesmo produzidas. Bem sei que a publicação não se prestava a textos mais longos do que os que foram nela publicados, e bem sei também, até por experiência própria, que é mais fácil, que dá uma satisfação mais imediata, gastar um quarto de hora ou meia hora a escrever uma vinhetazinha de uma página ou duas (ou cinco minutos num miniconto) do que gastar dias ou meses às voltas com as complexidades de uma noveleta ou novela (ou até anos, por vezes, no caso de romances) que, ainda por cima, não há nenhuma garantia de acabarem por se ver publicadas e lidas. Mas mesmo assim, o travo que fica é um bocado amargo.

Outra insuficiência desta publicação, que no entanto reconheço ser de difícil solução, é a da incoerência (até ortográfica) entre os vários textos, que destrói a pretendida ilusão de se tratar de publicação feita num virar de século XIX-XX tecnologicamente ultradesenvolvido. Um almanaque deste tipo funcionaria bastante melhor num sistema de universo partilhado do que neste esquema, em que cada autor faz a sua proposta baseada no seu próprio worldbuilding. Quando estes chocam, e fazem-no com frequência, a publicação entra em dissonância e isso faz com que o todo acabe por ser pior do que a soma das partes.

Obviamente, para fazer as coisas de outra forma os editores teriam de chamar os autores para trabalharem sobre um conjunto de ideias predefinidas (por eles ou pelos próprios autores) e manter um controlo apertado sobre a pertinência dos vários aportes que sem dúvida lhes chegariam. E isso não é nada fácil, em particular quando não há alguém universalmente respeitado que possa servir de árbitro e juiz como aconteceu na antologia Lisboa no Ano 2000. Sem isso, mais que provavelmente, a alternativa seria entre não fazer e fazer assim. Concordo que é melhor fazer assim. Mas um tipo pode sonhar.

Em suma: é uma antologia (sim, sendo quase tudo ficção eu chamo a isto antologia, mesmo com todas as ambiguidades dos almanaques) com interesse e falhas, que incluiu alguns bons contos, o que só por si faz com que a sua existência valha a pena.

Eis o que achei dos vários textos que constam do livro:

Lido: Dólares para una Ganga

Já o disse e repito-o agora. Ler textos destinados a ser representados não é das atividades que mais me agradem porque lhes costuma faltar boa parte do que constitui a parte literária num texto literário e lhes falta também o que eleva (ou não, conforme) esses textos a outro nível artístico com o trabalho dos outros envolvidos na aplicação prática desse tipo de texto em cinema, vídeo ou teatro.

Por isso não é de espantar que não me tenha agradado por aí além este Dólares para una Ganga. É que não se trata de um conto, mas de um argumento para cinema ou TV. Gabriel González Meléndez, o autor, cria uma história fantástica a roçar de muito perto o horror, centrada numa cartomante e numa mulher que a consulta por causa de um problema que envolve o marido e uma bruxa. Outra bruxa.

A história é bastante banal, o que é mais um motivo para não me ter agradado particularmente, mas julgo que até poderia dar uma curta bastante boa se fosse muito bem transposta para as imagens em movimento. Este é um se bastante grande, no entanto. E como ao ler este texto não se avaliam potencialidades em outros media mas apenas aquilo que está escrito, ele não sai da minha leitura com nota positiva.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 30 de setembro de 2017

Lido: O Tomo de M

Uma das formas clássicas de fazer a fusão entre a forma de contar histórias típica da fantasia e a ficção científica é ambientá-las num futuro distante, no qual um apocalipse qualquer fez regredir a tecnologia e a sociedade a formas de organização medievais ou ainda mais antigas, estando os elementos mágicos da história a cargo de velhos artefactos tecnológicos que, apesar de ainda se encontrarem mais ou menos funcionais, funcionam segundo princípios que as personagens deixaram por completo de conhecer.

Foi isso mesmo o que Ricardo Dias fez com o seu O Tomo de M, um continho interessante no qual um tal Krumm, o Magnífico, invade um templo dos bruxos de antigamente só para roubar um livro que, segundo as histórias, continha toda a sabedoria dos antigos. Não estando particularmente bem escrito, este conto, a escorrer ironia por vários poros, é no entanto francamente engraçado e tem o seu ponto alto no final, quando o leitor percebe o que realmente significa aquele M.

Contos anteriores deste livro:

Lido: As Energias do Amor

Há um tipo de história que, suspeito, os escritores gostam muito mais de escrever do que os seus leitores de ler: histórias sobre escritores, as suas crises existenciais, as suas dúvidas e inseguranças, as suas relações com outros escritores. São quase sempre histórias com uma percentagem de umbigo razoavelmente elevada, isto é, histórias em que a personagem-escritor é um alter-ego pouco disfarçado do escritor-escritor. E deixem-me sublinhar que não estou a falar no ar: eu próprio sou culpado de ter cometido uma história destas, portanto sei o que leva alguém que escreve a fazê-lo: O Deus das Gaivotas. Essa história, escrita em parceria com o meu pai, tem uma personagem rebelde em luta com o escritor que a escreve, e se a personagem rebelde é quase toda do meu velhote, o escritor é quase todo meu.

Serve isto principalmente para explicar que não sou imune à atração que o tema exerce e por isso talvez não seja o mais comum dos leitores quando chega a hora de pensar sobre uma história desse género. Pois é precisamente o que As Energias do Amor (bibliografia) é.

Mas embora o tema seja comum, as roupagens de que se reveste são as mais variadas. O conto das duas gerações de Candeias é uma espécie de exercício fantástico metaliterário. Já Kathe Koja, por seu lado, fez ficção científica. O seu protagonista é um escritor (naturalmente) frustrado (e há tantos neste tipo de história), que está obcecado com uma obra inacabada de um outro escritor, já falecido, ao ponto de se ter decidido a acabá-la, para o que se depara com um problema bicudo: não a compreende bem.

Mas estamos no futuro, e há solução: basta-lhe contactar o falecido, pois neste futuro que Koja nos apresenta existe a possibilidade de criar, antes da morte, uma cópia fiel da personalidade do futuro morto, armazenando-a em computador para poder interagir com os fãs. É um processo caro e raro, e por isso o falecido não está integralmente acessível a toda a gente, o que cria mais uma dificuldade ao nosso protagonista. Escritores, especialmente os frustrados, não costumam ser lá muito abonados. É principalmente isso o que faz mover a primeira parte da história: as iniciativas que o protagonista desenvolve para obter um contacto o mais completo possível com o seu ídolo. A segunda parte é principalmente sobre literatura, especificamente sobre o conteúdo que ela pode ter, e também sobre os limites da existência.

Nunca tinha ouvido falar de Kathe Koja, tendo só depois de ler esta história ficado a saber que é escritora com mais de duas décadas de carreira sólida, mas gostei do que li. É um conto inteligente e bem escrito, embora julgue que se prolonga um tudo-nada em demasia, o que fez com que não me tenha enchido propriamente as medidas. Mas sim, por aqui está aprovada.

Contos anteriores desta publicação:

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Lido: Ana

Uma olhadela ao boneco que aqui está ao lado e o grupinho que está aí e vai acompanhando o que vai sendo publicado neste blogue já sabe duas coisas: que vamos a mais um conto da Alexandra Pereira e que ele vem antecedido de mais uma dedicatória. Desta vez o contemplado chama-se João Botelho, que a malta conhece do cinema e até pode eventualmente ter lido o continho a ele dedicado, e este, o conto, é fantástico.

Ana, assim se intitula ele, com três letrinhas apenas, é um conto sobre um rapaz ou jovem que chega a casa de uma mulher, descrita longa e poeticamente, em busca de uma outra pessoa com a qual teria trocado correspondência durante algum tempo. Segue-se um diálogo repleto de frases arroubadas, discursivas e, francamente, ridículas como "Desta sorte lhe peço que guarde essa carta com desvelo e não a dê a ninguém, nem mesmo a mim que a escrevi, pois é da Ana e uma afeição recíproca pode ela manter pelos meus escritos, a qual a senhora desconheça" durante o qual vimos a descobrir que a tal Ana que o rapaz diz que ama é filha da mulher com quem dialoga e desapareceu enquanto criatura humana, metamorfoseando-se noutra coisa, o que é, se excetuarmos alguns sinais discretos e ambíguos logo no início do conto, aquilo que o afasta da literatura realista.

Não é conto que faça grande sentido, é um conto com alguns erros que uma revisão eficaz devia ter apanhado (as velas não se "enfonam"; enfunam-se) mas o pior, o que realmente o estraga, são mesmo os diálogos. Depois deste conto e de um par de outros que ficaram para trás, solidificou-se em mim uma certeza: Alexandra Pereira devia ser proibida de escrever diálogos porque quando os escreve a qualidade dos seus contos despenca. Há uma linha fina entre a prosa poética e a prosa ridiculamente empolada (os ingleses chamam-lhe "purple prose"), que os bons escritores não ultrapassam e os maus sim. Alexandra Pereira não costuma ultrapassá-la... mas quando se põe a escrever diálogos ultrapassa-a sempre, porque aparentemente não sabe (ou não quer saber, o que talvez seja pior) que em diálogo escrito em discurso direto essa linha é bastante mais recuada do que no texto descritivo, narrativo ou até em diálogos expressos em discurso indireto.

Consequência: este conto é mau.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 24 de setembro de 2017

Lido: Ghost Writer

Há já um ror de anos, Bruce Holland Rogers usou um sistema de newsletter (para quem é novinho e/ou só conhece o facebook, é um sistema que envia com maior ou menor regularidade um email aos seus assinantes) para enviar pequenos contos aos fãs. Não sei ao certo quantos foram, pois julgo que não apanhei a coisa desde o início, mas sei que recebi nove. A alguns li na altura; outros não cheguei a ler, por falta de tempo e por não gostar de ler no écran do computador (e ainda não gosto; mas agora há tablets, e é diferente), mas juntei todos num pdf, e deixei-os à espera. Alguns vieram a ser traduzidos mais tarde e publicados em Portugal. Ghost Writer não foi um deles.

Trata-se de uma vinheta de horror que brinca com os dois significados da expressão ghost writer, a literal, de um escritor fantasma, e a mais comum, que designa aquelas pessoas discretamente contratadas para escrever os livros pretensamente escritos por figuras públicas ou por alguns autores particularmente populares e prolíficos.

E o horror está precisamente aí, pois ao protagonista desta história aplicam-se os dois significados da expressão, depois de o homem que o contratou para escrever a sua autobiografia, um falso xamã que entretanto parece ter aprendido umas coisinhas, o ter assassinado e anos mais tarde invocado do mundo dos mortos. Uma bela historinha, que tem um problema: é complicada de traduzir por depender tanto da ambiguidade da expressão inglesa que a titula.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Lido: O Fim do Começo

Há muito em comum entre F de Foguete e este O Fim do Começo (bibliografia). Para começar, e acima de tudo, o maravilhamento com o espaço e o futuro, com as grandes coisas que a humanidade quase se diria estar destinada a fazer no seu trajeto para fora do útero terrestre. Também o ponto de vista que, embora não seja idêntico, é semelhante; quando em F de Foguete o ponto de vista é o de um jovem que anseia por partir para o espaço até que parte, neste conto é o da família que fica para trás, o pai e a mãe (Desse mesmo jovem? De algum outro? Pouco importa, no fundo), entre o entusiasmado e o preocupado, mas a certamente a rebentar de orgulho. E a identificação de vários começos. O começo da vida adulta dos jovens astronautas é, em ambos os contos, clara parábola para o começo da vida adulta da nossa espécie, corporizado pelo início da sua expansão para fora do planeta-natal.

Porque é isso o que Ray Bradbury realmente faz com estes dois contos. A partida para o espaço é como a primeira aventura fora da casa paterna, os foguetões que desaparecem no azul do céu são como a partida dos filhos do seio familiar, rumo à independência e ao que o futuro lhes trouxer. Em ambos, esta ideia vive bem forte. Mas a forma diferente como é concretizada realça não só as semelhanças mas também as diferenças. Este conto não é tão bom como o primeiro, em parte por ser menos subtil, mais claro na sua premissa, digamos, ideológica, em parte por afastar a atenção do verdadeiro protagonista: o jovem que se vai embora rumo ao espaço. Aqui, acompanhamos a espera dos pais pelo momento da descolagem do foguete que levará o filho a uma estação espacial cuja descrição faz lembrar a que vimos no filme 2001, uma Odisseia no Espaço. Trepidante? Sim. Mas é uma trepidação interna às personagens, e não se comparará, sem dúvida, com a trepidação do próprio jovem.

Apesar disso, o conto é bom. E, lá está, dele se pode também dizer o que eu disse do outro. A FC precisa de mais histórias assim, a escorrer esperança de todas as linhas. O mundo precisa de mais histórias assim.

Conto anterior deste livro: