sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Lido: A Janela Cor de Morango

Aconteceu por puro acaso, mas calhou lindamente. Falar deste conto de Ray Bradbury imediatamente na sequência desta história umbiguista de Inês Pedrosa é ideal para exemplificar o motivo por que a ficção científica, quando boa, consegue ser muitíssimo superior ao mainstream banal. Porque os dois contos têm em comum o facto de se centrarem no domínio dos sentimentos humanos e das relações homem-mulher. Só que enquanto uma dessas histórias gira em volta do umbigo de autora e protagonistas, a outra olha para fora, para as grandes questões do que significa ser-se humano neste vastíssimo universo em que vivemos.

Em A Janela Cor de Morango (bibliografia) estamos em Marte, no típico Marte bradburiano, habitável mas desértico, e encontramos como protagonistas um casal de colonos. À velha moda patriarcal, típica da década de 1950, ele trabalha, ela está em casa (e esta é a única faceta em que a história de Inês Pedrosa é francamente melhor... em parte por ser mais recente, sim, mas não só) e sofre de solidão e com saudades da Terra. Esta situação é usada por Bradbury para fazer uma reflexão, que não perdeu nada da sua pertinência com os mais 60 anos que decorreram desde a sua publicação, sobre o motivo por que a exploração de novas fronteiras está no âmago da condição humana. E sobre a aparentemente insanável contradição que existe entre isso e a necessidade igualmente forte de manter alguma ligação ao passado, de conservar raízes.

Diz-nos Bradbury que o segredo reside em levarmos as raízes connosco sempre que partirmos para outras paragens. Talvez assim seja, talvez não. No fundo, em termos literários pouco importa. O importante é Bradbury dizer-nos alguma coisa com o seu conto, além de o escrever tão bem como era seu hábito. Já a nossa amiga portuguesa fica-se por escrever bem.

E isto, longe de ser incomum, é habitual. A FC, a boa FC, a FC que não se limita ao escapismo, fala, pensa, discute, olha para fora. Já o mainstream contemporâneo limita-se com demasiada frequência a orbitar umbigos e está-se borrifando para toda a infindável riqueza que existe no exterior desses umbigos. É estéril. E, sendo estéril, é descartável. Por mim, descarto-o com todo o gosto.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Quartos de Hotel

Há muito quem diga que o escritor deve escrever sobre aquilo que conhece, como se a imaginação ou a capacidade efabulatória fossem palavras feias a banir dos dicionários. É uma ideia daninha, esta, porque deu e continua a dar origem a verdadeiros oceanos de banalidade umbiguista. E este conto de Inês Pedrosa é um excelente exemplo disso.

Quartos de Hotel é um conto episódico e quase inteiramente descritivo, composto por seis variações sobre o mesmo tema: um encontro sexual entre amantes, invariavelmente ligados à literatura (os dois ou só um deles), invariavelmente insatisfeitos, que serve invariavelmente para os retratar a breves pinceladas, tanto a eles como às relações que vivem. Se não o é logo a abrir, depressa se torna ululantemente óbvio que o umbigo da autora marca forte presença nestes quadros e que o conto é escrito a pensar sobretudo no limitado circulozinho de escritores, editores e gente das letras em que ela se move.

E é também um conto prodigioso. É prodigioso como algo tão breve consegue ser um tão eficaz gerador de bocejos.

As historietas são de uma banalidade burguesa absoluta e depressa se tornam repetitivas, as ironiazinhas com destinatário são muito menos subtis do que a autora julga, e antes de chegar a meio já eu estava a olhar para o contador de páginas a pensar "mas isto nunca mais acaba?"

Entendamo-nos bem: não, o conto não é mau. Inês Pedrosa tem a qualidade de não maltratar a língua portuguesa, de apresentar uma escrita boa o suficiente para não se poder achar realmente mau o que produz. O problema é ser muito, muito chato e irremediavelmente desinteressante. Haverá quem goste, claro; há sempre.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Lido: Livros que não deviam ter sido escritos – XIV

Claro que não poderia faltar, numa antologia de contos fantásticos sobre livros, um conto lovecraftiano. Chega pela pena de José Manuel Morais e faz também referência à ficção borgesiana, pois emula os falsos artigos sobre literatura e arcanas edições que Borges tanto escreveu. No caso, um artigo sobre um tal Aulus Cremutius Cordus, o qual teria escrito sobre os Grandes Antigos, ligando-os aos mitos gregos e a histórias de outras partes do mundo. No entanto, as limitações no tamanho das ficções que esta antologia de microficções tem, a pressa de enfiar o máximo possível de referências na mínima extensão de texto, provocada (em parte) por essas limitações, e o facto de Morais não ser nenhum Borges, longe disso, fazem com que este Livros que não deviam ter sido escritos – XIV esteja longe de ser dos melhores textos desta publicação. É conto demasiado ambicioso para o espaço e o material que tem à disposição, e falha precisamente por isso.

Contos anteriores deste livro:

Lido: A Hora do Lagarto

Pois é. Parece que Alexandra Pereira desistiu mesmo definitivamente de dedicar as suas histórias a este e aquele. Lá se vai um pouco do divertimento que este livro causa a quem o lê.

Mas falemos de A Hora do Lagarto. Trata-se de um conto em clima de Mil e Uma Noites, com prodígios à mistura e tudo (um tradutor flutuante, pelo menos), que relata o que acontece quando um príncipe real comete uma tremenda estupidez e se deixa capturar pelos árabes, os qual decidem exigir como resgate pela sua libertação uma parcela substancial de território. O assunto é discutido e debatido e acaba por se chegar a uma conclusão, após o que...

... o conto acaba.

E ponto final. Não ficamos a saber sequer que conclusão foi essa, não temos, apesar da abundância de detalhes sobre os procedimentos do debate, um sinal que seja sobre o que resulta de tudo aquilo. A autora demora-se durante várias páginas a construir tensão e enredo e depois deixa tudo suspenso. Deve ter-se divertido a imaginar a cara dos leitores quando chegassem ao fim e pensassem "então e o resto?!" Um divertimento sádico, convenhamos.

Sim, o conto está bem escrito, e desta vez até o tom empolado do discurso direto está bem aplicado. Mas não havia necessidade de deixar a malta tão pendurada, raios. Um final em aberto deve cerrar qualquer coisa. Assim é demais.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Lido: Vivo

Para mim, tanto enquanto leitor como enquanto gajo que às vezes até vai escrevendo umas coisas, o ideal na literatura é encontrar um equilíbrio tão perfeito quanto possível entre história, ideias e técnica literária, a qual inclui quer a habilidade narrativa, quer a capacidade no manejo da língua. Esse equilíbrio depende até certo ponto da história que se quer contar (algumas exigem mais enredo, outras mais forma, entre outras subtilezas) e é sempre complicado de encontrar. Mas quando se encontra... ah, quando se encontra!...

E em Vivo, infelizmente, Ricardo Lopes Moura não encontrou. O enredo é interessante e tem pormenores de execução bem conseguidos: um misterioso estranho impede um assassínio a tiro numa rua de Lisboa, acabando ferido com gravidade. E como o auxílio ao próximo é doença contagiosa, uma jovem, que não o conhecia de lado nenhum, acaba por se ver compelida a ajudá-lo, o que a faz mergulhar num enredo complicado que começa pela recusa do homem em ser levado para o hospital. Ela leva-o para casa e de repente dá por si sozinha pois o homem desaparece. A rapariga podia ter  deixado as coisas assim, mas não consegue, pois o mistério do homem a fascina, pelo que vai à sua procura. E encontra-o.

A história, uma noveleta que está algures entre a fantasia urbana e o horror, é boa, há pormenores interessantes, a reviravolta final é excelente, mas... mas falta-lhe qualquer coisa. E essa qualquer coisa é qualidade no manejo da língua.

Quem costuma ler a Lâmpada decerto saberá que eu estou longe de ser a pessoa mais ligada à forma literária que se poderá encontrar por aí. Saberá que entre a forma e o conteúdo tendo a dar alguma preponderância ao conteúdo. Mas a verdade é que o texto de Lopes Moura é aqui demasiado frágil para o conteúdo deste conto, e estraga-o. Não por completo; a noveleta não é má. Mas é significativamente pior do que poderia ser com um texto mais competente. As ideias estão lá. A execução é que deixa a desejar.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Desafio

Quando um leitor contemporâneo se põe a ler antologias ou coletâneas antigas de ficção científica já conta à partida (se não for tolinho) encontrar histórias com temas, abordagens ou ambientes caídos em desuso no género há várias décadas. Mas também conta, pelo menos se conhecer a época de publicação da dita antologia ou coletânea, encontrar histórias que, na época dessa publicação, fossem razoavelmente modernas.

Ora, não é isso o que Ney Moraes apresenta com o seu Desafio. Apesar de este conto estar bem escrito e razoavelmente bem concebido, já era antiquado quando foi escrito no início dos anos 60. Conta a história de um homem que encontra um companheiro invulgar numa viagem de autocarro, e este, quando a páginas tantas sai algo abruptamente do veículo, deixa lá ficar um manuscrito incompleto. Um manuscrito que relata uma daquelas histórias de génio isolado que tão comuns eram na FC do início do século XX, o qual teria inventado uma estranha máquina cuja verdadeira natureza nunca chega a ficar clara, o que deixa o passageiro-protagonista leitor mergulhado em insatisfação.

Tudo nesta história, do estilo ao tema, passando pela estrutura, remete para a ficção científica e o horror de há cem anos ou mais, o que torna o conto bastante anacrónico. Não mau, mas anacrónico. E não me parece que se trate de anacronia propositada usada como artifício literário, o que se bem feito até poderia melhorar o conto. Não. Tudo indica que estamos perante outro fenómeno: um autor que não conhece a ficção científica mais sua contemporânea, ou então conhece e não gosta dela. E isso não melhora o conto.

Contos anteriores deste livro:

Livros de 2017

As resoluções de ano novo são mesmo feitas para não cumprir, não é? No ano passado, tinha praticamente arrancado o post equivalente a este com a resolução de ser aquele o último ano que acaba com uma enorme pilha de opiniões por escrever e publicar. Pois é. A deste ano é ainda maior, se possível. Não só porque só consegui acabar de falar de 2016 em outubro deste ano (sim), como principalmente porque tive dois extensos períodos em que a vida se intrometeu tão violentamente em tudo o resto que escrevi muito pouco.

A vantagem (?) é que nesses períodos também li muito pouco.

Sim. O ano foi mau. Sob quase todos os aspetos.

Sob o aspeto leituras, li significativamente menos que no ano anterior e, em média, o que li foi pior. Mas disso falarei mais adiante; primeiro os números. Li um total de 28 publicações, entre livros e revistas, em papel ou digitais. Os livros lidos por lazer (que incluem aqueles que leio por curiosidades várias relacionadas com o Bibliowiki, que vão em crescimento) foram 22, com uma proporção muito elevada de material lusófono que este ano foi, e de longe, maioritário, somando 18 publicações portuguesas e brasileiras.

A lista completa é a seguinte:

1- Antologia do Conto Português Contemporâneo, org. Álvaro Salema (contos mainstream e fantásticos);
2- Adeus, Portugal!, de Paula de Lemos (novela humorística e fantástica);
3- Brinca Comigo! e outras estórias fantásticas com brinquedos, org. Miguel Neto (contos de ficção científica e horror)
4- Continhos de Alfarrobeira, de Alexandra Pereira (contos mainstream e fantásticos);
5- Starfish, de Peter Watts (romance de ficção científica);
6- Reportagem Especial, de Bruno Pinto, Penim Loureiro e Quico Nogueira (BD didática);
7- As Atribulações de Jacques Bonhomme, de Telmo Marçal (contos de ficção científica);
8- Quartos de Hotel, de Inês Pedrosa (conto mainstream);
9- A Escolha de Hobson, de João Barreiros, Ana Ferreira, Ana Margarida Gil, Ângelo Claro, Carina Figueiras, Filipa Jales, Hugo Oliveira, Marta Ribeiro (novela de ficção científica);
10- Antologia Fénix de Ficção Científica e Fantasia 1, org. Marcelina Gama Leandro e Álvaro de Sousa Holstein (contos de ficção científica e fantástico);
11- Bajo el Signo de Alpha, de vários (contos de ficção científica);
12- Dama Polaca Voando Em Limusine Preta, de Lídia Jorge (conto mainstream);
13- Barnabé, de André Belo, Celso Martins, Daniel Oliveira, Pedro Aires Oliveira e Rui Tavares (crónicas e humor sobretudo políticos);
14- F de Foguete, de Ray Bradbury (contos de ficção científica);
15- Habitable Planets for Man, de Stephen H. Dole (exoplanetologia e exobiologia);
16- Lisboa no Ano 2000, de Melo de Matos (conto/artigo de ficção científica/futurologia);;
17- Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, de Manuel Ferreira (estudo literário);
18- A Casa do Eremita, de José Murta Lourenço (romance mainstream);
19- Acho Que Posso Ajudar, de David Machado (conto juvenil de fantasia);
20- A Cerimónia, de João Bonifácio (conto mainstream);
21- Além do Tempo e do Espaço, de vários (contos de ficção científica);
22- A Máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares (romance mainstream);

Li também 4 revistas, duas integral ou predominantemente lusófonas, as outras duas com material integral ou predominantemente traduzido. A lista foi:

23- Ficções, nº 7 (contos mainstream e fantásticos);
24- Isaac Asimov Magazine, nº 2 (contos de ficção científica);
25- Dagon n.º 2 (contos e artigos de ficção científica e fantasia);
26- Pulp Feek, nº 1 (contos e artigos de fantasia);

E por obrigação laboral, foram lidos dois livros, ambos valentes calhamaços:

27- Fool's Quest, de Robin Hobb (romance de fantasia);
28- Stranger in a Strange Land, de Robert A. Heinlein (romance de ficção científica)

A ficção científica predominou uma vez mais, mas desta vez não chegou à maioria absoluta: foram 12 as publicações de ficção científica ou que incluem quantidades significativas de FC. Mas a FC predomina porque o resto foi muitíssimo variado, da BD a estudos literários, do mainstream a um estudo científico, da política à fantasia. E isso é bom.

O que não é lá muito bom é a qualidade global e relativamente baixa daquilo que li. Não houve nada que me deixasse de queixo caído, houve muito menos boas leituras do que no ano passado e mais coisas que achei apenas medianas ou mesmo más. Mas houve boas leituras. A melhor talvez tenha sido os continhos do Bruce Holland Rogers que não constam desta lista por serem contos avulso (e não foi essa a única leitura avulso que houve durante o ano; está aqui uma opinião sobre outra, aqui sobre outra e houve mais algumas que "li" na diagonal, o suficiente para ficar com uma ideia geral mas não para opiniões mais sustentadas e que por isso não conto como leitura propriamente dita mas até acaba por ser, de certa forma. Ou seja, não li o que consta das listas acima) mas, à parte as coisas avulso, terei de mencionar F de Foguete de Ray Bradbury como a melhor leitura do ano, seguindo-se-lhe As Atribulações de Jacques Bonhomme, de Telmo Marçal, e Starfish, de Peter Watts. Não deixa de ser curioso que num ano em que as leituras de FC não foram maioritárias, sejam de FC todas as melhores. Também é curioso, mas num sentido menos positivo, que num ano em que a literatura lusófona dominou por completo a lista de leituras só haja um livro lusófono entre os três melhores.

É este, naturalmente, o que leva a palma do melhor livro lusófono do ano, seguindo-se Acho que Posso Ajudar, de David Machado (uma boa surpresa) e a Antologia do Conto Português Contemporâneo organizada por Álvaro Salema.

Pelo lado do mau, houve dois livros que se destacaram dos demais. Ou melhor: duas publicações. A pior leitura do ano foi sem dúvida o número 1 da Pulp Feek. A segunda pior foi Adeus, Portugal!, de Paula de Lemos. Para a terceira pior, que já não está propriamente no campo dos maus mas está no campo das leituras que me deixaram entre indiferente e insatisfeito, a competição é renhida, mas acho que vou optar por Quartos de Hotel, de Inês Pedrosa. Tudo lusófono, como se vê. Este ano, ao contrário do último, foram as leituras portuguesas e brasileiras a puxar mais a qualidade para baixo. Pelo que tenho na pilha rápida, é possível que isso mude em 2018. E também há a esperança de a vida me passar menos rasteiras e eu conseguir por conseguinte ler mais.

Daqui a um ano veremos.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Lido: A Bullfight in Mérida

Termina este grupo de continhos de Bruce Holland Rogers com mais um que não teve tradução para português, A Bullfight in Mérida. Trata-se de outro conto muito curto, em que o que mais impressiona é a abordagem a uma história com fantasma incluído, o fantasma da avó do narrador, cuja vida Rogers conta a largas pinceladas enquanto vai assistindo (ou vão: não é só ele que está entre o público, o fantasma da avó também está) a uma tourada em Mérida. Esta, a tourada, é usada não só como pano de fundo mas também como termo de comparação com a vida que vai contando, retratando com o auxílio dela uma mulher sofrida, uma mulher que, por assim dizer, passou a vida a ser espetada por bandarilhas. Embora este não seja dos contos de Rogers que mais me agradam, é-me impossível não tirar o chapéu (também fantasmagórico) à subtileza com que ele sugere uma vida inteira, servindo-se não só da ação mas também do cenário, e tudo em pouco mais de uma página. Bruce Holland Rogers é mesmo muito bom na extensão ultracurta. Mesmo muito bom.

Outras histórias divulgadas na newsletter de Bruce Holland Rogers:

Lido: Aqui Haverá Tigres

Quando se pensa em planetas vivos na ficção científica é impossível escapar-se à imagem de Solaris, de Stanislaw Lem, pois esse deverá ser o mais bem desenvolvido, complexo e enigmático exemplo que a FC nos legou. Mas não é o único, longe disso, e houve vários outros autores que desenvolveram essa mesma ideia de diversas formas. Um desses autores foi Ray Bradbury.

O planeta vivo que Bradbury nos apresenta em Aqui Haverá Tigres (bibliografia) é, sob muitos aspetos, quase o oposto do de Solaris. Onde este é inacessível, um labirinto de mistério, o de Bradbury é acolhedor, respondendo de imediato a todos os desejos, conscientes ou inconscientes, dos tripulantes da nave exploratória que nele pousa. Mas existe uma ligação clara entre este conto e o romance do polaco: ambos os planetas vivos são usados para reflexões muito pertinentes sobre a natureza humana.

Bradbury usa para isso um tripulante que, ao deparar com o desconhecido, sente medo, ao contrário dos camaradas, que se lhe entregam com plena confiança. Um tripulante que não dispensa as armas, para se defender (e aos outros) da miríade de perigos que imagina, e que é também usado por Bradbury para mais uma das suas críticas à ciência: o homem é um cientista, adepto de uma forma intrusiva, ou mesmo agressiva, de investigação e amostragem. E isso vai ter para ele as suas consequências. Graves.

A ideia é clara e recorrente nas histórias de Bradbury (está muito presente, por exemplo, nos seus contos marcianos): devemos mostrar respeito pelos lugares que nos são alheios e pelas pessoas ou coisas que neles habitam e procurar não perturbar os equilíbrios que lhes são próprios, caso contrário haverá consequências de que provavelmente não iremos gostar. É uma ideia que em Bradbury tende a assumir contornos anticientíficos mas que na verdade não o é; Bradbury limita-se a mostrar uma consciência ecológica precoce, numa época em que a maior parte da ciência ainda não a tinha. Este conto é de 1951, bem mais antigo do que outras obras de FC que mostram o mesmo tipo de preocupações como Duna, de Herbert, ou Floresta é o Nome do Mundo, de Le Guin, escritos já em épocas em que a consciência ecológica começava não só a penetrar na linguagem da ciência mas a ser ativamente promovida por ela. É, portanto, possível que, se Bradbury tivesse escrito este conto mais tarde, tivesse afastado dele pelo menos parte do anticientificismo. Não me parece provável, francamente, mas possível é.

De resto, trata-se de mais um bom conto, tão bem escrito como seria de esperar do autor nesta fase da carreira. Não pertence ao grupo das obras-primas, nem ao das que o são quase, mas é bom.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Lançamentos de FC de 2017 (segundo o FCL)

Uma das coisas que ganhei ao transferir o Ficção Científica Literária do serviço que usava antes, o scoop.it, para blogue, foi uma muito maior flexibilidade na forma de lidar com os diversos tipos de conteúdo que aparecem na internet. Isso permitiu-me, entre outras coisas, separar melhor o que é resenha do que é artigo do que é podcast ou vidcast do que é nota de lançamento. E isso, por sua vez, permitiu-me fazer o que se segue: uma lista completa dos lançamentos ou reedições de literatura de ficção científica na língua portuguesa.

Fazem-se necessárias algumas notas prévias.

O FCL adota uma definição bastante lata do que conta como ficção científica. Aparece por lá não só o que é indubitavelmente FC, como aquilo que se limita a roçar pela FC, seja por usar temas que geralmente são típicos de ficção científica (como histórias de viagem no tempo, por exemplo), seja por tratar-se de coletâneas de histórias de autores conhecidos por trabalharem por vezes no género ou perto dele (casos de Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Zamiatine ou Mário-Henrique Leiria), seja simplesmente porque as sinopses ou as notas de lançamento levam a suspeitar que a obra pode eventualmente relacionar-se com a FC.

Existe, além disso, alguma insegurança cronológica, que faz com que nem todos estes lançamentos sejam realmente de 2017. Normalmente, isso tem a ver com notas de lançamento atrasadas, posts que saem em janeiro sobre livros publicados no dezembro anterior, ou então antecipadas, posts de dezembro que dizem respeito a edições do janeiro ou fevereiro seguintes. Por vezes é mais complicado, como no caso do Terrarium, que teve um pré-lançamento no Fórum Fantástico de 2016 mas cujo lançamento oficial só teve lugar já em 2017.

E além disso, os lançamentos que são apanhados pelo Ficção Científica Literária não englobam todos os lançamentos realmente existentes, portanto fica o alerta para não encararem esta lista como de algum modo definitiva. Eu próprio falei há pouco tempo aqui na Lâmpada de um lançamento português deste ano (e de mais de outros anos) que não foi, pura e simplesmente, divulgado, e poucos dias depois encontrei outro em que ninguém parece ter também reparado. Haverá com toda a certeza mais, tanto em Portugal como no Brasil.

Em parte isto deve-se à edição por vanity-presses, cujo empenho em divulgar o que editam é diretamente proporcional ao dinheiro que têm investido e dependente da venda dos livros (zero, porque eles são pagos pelos autores), mas em parte deve-se à péssima ideia de demasiados autores e editores de manterem as suas edições em circuito fechado nos facebooks e goodreads da vida. A sério: não façam isso. Se publicarem as coisas na rede aberta podem com toda a facilidade divulgá-las nas redes fechadas, ao passo que o inverso raramente é verdadeiro. Fechando-se estão a limitar-se. Os blogues existem e, ao contrário do que alguns parecem julgar, estão longe de estar mortos. Usem-nos.

E sem mais delongas, pois tudo aquilo de que me consigo lembrar neste momento está já esclarecido, aqui fica a lista. Para o ano há mais.

Ficção brasileira:
  1. A Alcova da Morte, de Enéias Tavares, Nikelen Witter e A. Z. Cordenonsi
  2. A Caminho do Azul Sereno, de Veronica Rossi
  3. A Invasão, de João Geraldo Gouvêa (ebook)
  4. A Última Árvore, de Luiz Bras (ebook)
  5. Anacrônicos, de Luiz Bras (conto em ebook)
  6. Armadilha do Tempo, de Francisco Scattolin (ebook)
  7. As Aventuras de Honey Bel, de Miguel Carqueija
  8. Ativista, de Joe de Lima
  9. Cada Tempo Tem a Tragédia que Merece, de Thiago Martins
  10. Caminho para o Purgatório, de Marcelo A. Galvão (ebook)
  11. Depois do Fim do Mundo, de Alexandre Callari
  12. Despertar de um Sonho, de Melissa de Sá (ebook)
  13. Diário Simulado, de Delson Neto (ebook)
  14. Dicionário de Línguas Imaginárias, de Olavo Amaral
  15. Dragão de Gaia, de Joe de Lima (ebook) 
  16. Dunya, de Tibor Moricz (ebook)
  17. Encruzilhada do Paraíso, de Marcelo A. Galvão (ebook)
  18. Erva Venenosa, de Rogério Amaral de Vasconcellos (ebook)
  19. Escuridão, de L. F. Faria
  20. Exidium, de Gabriel G. Sampaio
  21. Filamentos Iridescentes, de Tibor Moricz (ebook)
  22. Fio Puxado, de Rodrigo Assis Mesquita (ebook) 
  23. Galáxias Ocultas, org. Rô Mierling
  24. Gog Magog, de Patrícia Melo
  25. Limbographia, de Roberto Schima
  26. Magos, org. Ana Lúcia Merege 
  27. Memórias Pós-Humanas de Quincas Borba, de Sid Castro (ebook)
  28. Mitos Modernos, org. Andriolli Costa, Leonardo Tremeschin e Lucas Rafael Ferraz
  29. Mundos Paralelos, org ? 
  30. Natal Fantástico, org. Ademir Pascale e Gian Danton (ebook; contém também fição portuguesa)
  31. Navegadores Psicodélicos, de João Geraldo Gouvêa (ebook) 
  32. Nêmesis - A Vingança dos Deuses, de Cid Castro (ebook)
  33. Ninguém Nasce Herói, de Eric Novello 
  34. O Castelo dos Homens Mecânicos, de Miguel Carqueija e Melanie Evarino (ebook) 
  35. O Cosmos e Nós Dois, de Vinícius Almeida
  36. O Guardião do Tempo, de Augusto Cury (publicado em Portugal
  37. O Herdeiro Supremo, de Silvano Colli
  38. O Olho Mortal, de Miguel Carqueija (ebook)
  39. O Palácio dos Prazeres, de Ricardo Santos (ebook) 
  40. O Último Gargalo de Gaia, org. Mário Bentes
  41. Octopusgarden, de Gerson Lodi-Ribeiro 
  42. Oráculo de Cristal, de Rodrigo Galves
  43. Pietra, de Beatriz Castro
  44. Projeto 94, de Rodrigo Fonseca
  45. Realidades Cabulosas: Ano 1, org. Lucas Rafael Ferraz e Rodrigo Rahmati (ebook; contém também ficção portuguesa)
  46. Reino Imaginário, org. Miguel Carqueija (ebook) 
  47. Sob a Sua Árvore, de Rodrigo Rahmati (ebook)
  48. Teslapunk, org. Marcelo Coelho (ebook)
  49. Viagem na Maionese, de Laís Manfrini (ebook)

Ficção portuguesa:
  1. A Guerra de Samuel, de Paulo Varela Gomes 
  2. ABN da Pessoa com Universo ao Fundo, de Leonor Sampaio da Silva
  3. Almanaque Steampunk 2017, org. ?
  4. Anjos, de Carlos Silva
  5. As Nuvens de Hamburgo, de Pedro Cipriano 
  6. Comandante Serralves: Expansão, org. ?
  7. Contos do Gin-Tonic e Outros Preparados Inéditos, de Mário-Henrique Leiria 
  8. Crazy Equóides, de João Barreiros
  9. Em Busca do Cyborg Comunista, de Gil Nunes
  10. Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago
  11. Ficção, de Mário-Henrique Leiria 
  12. Meio Homem, Metade Baleia, de José Gardeazabal
  13. Morrer na América, de Pedro Neves Marques 
  14. O Algoritmo do Poder, de Pedro Barreto
  15. O Desejo e Outros Demónios, de António Bizarro
  16. O Homem Domesticado, de Nuno Gomes Garcia
  17. O Livro Sagrado da Factologia, de Rui Zink
  18. O Motor do Caos e da Destruição, de António Bizarro 
  19. O Planeta Branco, de Miguel Sousa Tavares
  20. Orlando e o Rinoceronte, de Alexandra Lucas Coelho
  21. Os Monstros que nos Habitam, org. ?
  22. Peónia Vermelha, de André de Oliveira 
  23. Segunda Vez, de Gaspar Trevo (ebook) 
  24. Sinal de Vida, de José Rodrigues dos Santos
  25. Terrarium, de João Barreiros e Luís Filipe Silva

Ficção angolana:
  1. A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, de José Eduardo Agualusa (publicado em Portugal e no Brasil)
  2. Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa (publicado em Portugal)

Ficção macaense:
  1. Morri, org. António Falcão

Poesia brasileira:
  1. Gravidade Zero, de Alexandre Guarnieri

Não-ficção brasileira:
  1. A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil, de Kátia Regina Souza
  2. Almanaque da Arte Fantástica Brasileira 2016, de Cesar Silva (ebook)
  3. Jornada das Estrelas, de Salvador Nogueira e Susana Alexandria
  4. O Fantástico e seus Arredores: Figurações do Insólito, org. Maria Zilda da Cunha e Lígia Menna (ebook)

Ficção traduzida:

Edições brasileiras
  1. 30 e Poucos Anos e uma Máquina do Tempo, de Mo Daviau
  2. 1984, de George Orwell
  3. A Batalha de WondLa, de Tony DiTerlizzi
  4. A Cruz de Fogo, parte I, de Diana Gabaldon
  5. A Cruz de Fogo, parte II, de Diana Gabaldon 
  6. A Estrela da Meia-Noite, de Marie Lu
  7. A Expansão, de Ezekiel Boone 
  8. A Floresta Sombria, de Cixin Liu 
  9. A Fúria, de Alexander Gordon Smith
  10. A História do Futuro de Glory O'Brien, de A. S. King
  11. A Ilha, de Aldous Huxley 
  12. A Ilha Misteriosa, de Jules Verne
  13. A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, de Becky Chambers
  14. A Mão do Homem Morto, org. George R. R. Martin
  15. A Máquina do Tempo, de H. G. Wells 
  16. A Quinta Estação, de N. K. Jemisin
  17. A Revolta de Atlas, de Ayn Rand
  18. A Roda da Eternidade, de Neil Gaiman, Michael Reaves e Mallory Reaves 
  19. A Terra da Noite, de William Hope Hodgson
  20. A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne 
  21. Advogado do Diabo, de Jonathan Maberry
  22. Agente do Caos, de Kami Garcia
  23. Armadilhas no Egito, de Marc Cantin e Isabel 
  24. As Brigadas Fantasma, de John Scalzi 
  25. As Crônicas de Marte, org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
  26. Ás na Manga, org. George R. R. Martin
  27. Battlefront: Companhia do Crepúsculo, de Alexander Freed 
  28. Belas Adormecidas, de Stephen King e Owen King 
  29. Blade Runner, de Philip K. Dick
  30. Busca e Destruição, de Jay Bonansinga
  31. Caçador em Fuga, de George R. R. Martin, Gardner Dozois e Daniel Abraham 
  32. Cama de Gato, de Kurt Vonnegut
  33. Cara a Cara com Gladiadores, de Marc Cantin e Isabel 
  34. Carbono Alterado, de Richard Morgan 
  35. Cidade de Selvagens, de Lee Kelly
  36. Chronos: Viajantes do Tempo, de Rysa Walker
  37. Como Parar o Tempo, de Matt Haig
  38. Contos, volume 1, de H. P. Lovecraft
  39. Contos Reunidos do Mestre do Horror Cósmico, de H. P. Lovecraft
  40. Crave a Marca, de Veronica Roth
  41. Desintegrados, de Neal Shusterman
  42. Deuses Renascidos, de Sylvain Neuvel
  43. Dívida de Honra, de Chuck Wendig
  44. Duna, de Frank Herbert 
  45. Escrito a Fogo, de Marcus Sakey
  46. Espaço sem Limites, de Megan Crewe
  47. Estranheza Mortal, de J. D. Robb
  48. Evolução, de Timothy Zahn 
  49. Filhos de Duna, de Frank Herbert
  50. Frankenstein, de Mary Shelley
  51. Frankenstein: Edição Comentada, de Mary Shelley 
  52. Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe
  53. Imperador-Deus de Duna, de Frank Herbert
  54. Inesquecível, de Jessica Brody 
  55. Kindred: Laços de Sangue, de Octavia Butler 
  56. Legado de Sangue, de Claudia Gray
  57. Leia: Princesa de Alderaan, de Claudia Gray
  58. Levana, de Marissa Meyer
  59. Leviatã Desperta, de James S. A. Corey
  60. Luta de Valetes, org. George R. R. Martin
  61. Matéria Escura, de Blake Crouch
  62. Medo Clássico, de Edgar Allan Poe 
  63. Medo Clássico, volume 1, de H. P. Lovecraft
  64. Messias de Duna, de Frank Herbert
  65. Meus Dias com Você, de Clare Swatman
  66. Mulheres Perigosas, org. Gardner Dozois e George R. R. Martin
  67. Não Vai Acontecer Aqui, de Sinclair Lewis
  68. Nós, de Yevgeny Zamyatin
  69. O Advogado do Diabo, de Jonathan Maberry
  70. O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon
  71. O Ceifador, de Neal Shusterman
  72. O Conto da Aia, de Margaret Atwood
  73. O Espírito da Ficção Científica, de Roberto Bolaño
  74. O Homem Invisível, de H. G. Wells 
  75. O Lance do Charada, de Alex Irvine
  76. O Livro do Juízo Final, de Connie Willis 
  77. O Mapa do Tempo, de Heidi Heilig
  78. O Porão de Edison, de Neal Shusterman e Eric Elfman 
  79. O Projeto Jane Austen, de Kathleen A. Flynn
  80. O Reciclador, de David D. Levine
  81. O Resgate no Mar, parte II, de Diana Gabaldon
  82. O Terceiro Testamento, de Cristopher Galt 
  83. Origem, de Dan Brown 
  84. Originais, de Jennifer L. Armentrout
  85. Os Cavaleiros dos Dinossauros, de Victor Milán
  86. Os Crimes da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe
  87. Os Despossuídos, de Ursula K. Le Guin 
  88. Os Últimos Jedi, de Jason Fry 
  89. Perseguição ao Jedi, de Michael Reaves e Maya Kaathryn Bohnhoff
  90. Piquenique na Estrada, e Arkádi e Boris Strugátski
  91. Portal do Tempo, de A. C. Crispin 
  92. Quando Escolheram por Mim, de Lauren Miller
  93. Quando o Futuro é o Inimigo, de Pintip Dunn
  94. Rio de Sofrimento, de Christopher Golden
  95. Robô Selvagem, de Peter Brown
  96. Sangue por Sangue, de Ryan Graudin 
  97. Senhor das Moscas, de William Golding
  98. Solaris, de Stanislaw Lem
  99. Sonho de Prata, de Neil Gaiman, Michael Reaves e Mallory Reaves 
  100. Star Wars: Legends (box), de Ryder Windham
  101. Thrawn, de Timothy Zahn
  102. Todos os Pássaros no Céu, de Charlie Jane Anders 
  103. Tormenta de Fogo, de Brandon Sanderson
  104. Três Contos de Ficção Científica, de H. G. Wells (ebook)
  105. Trilogia do Sprawl (box), de William Gibson
  106. Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein
  107. Um Milhão de Mundos com Você, de Claudia Gray
  108. Uma Dobra no Tempo, de Madeleine l'Engle 
  109. Uma Guerra Americana, de Omar El Akkad
  110. Underground Airlines, de Ben H. Winters
  111. Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, de Christie Golden
  112. Viúva Negra: Vermelho Eterno, de Margaret Stohl
  113. William Wenton e o Ladrão de Lurídio, de Bobbie Peers
  114. Zero K, de Don DeLillo

Edições portuguesas
  1. 4, 3, 2, 1, de Paul Auster
  2. A Banheira das Viagens no Tempo, de Jo Nesbø
  3. À Boleia Pela Galáxia, de Douglas Adams 
  4. A Coroa, de Kiera Cass
  5. A Cruz de Fogo, de Diana Gabaldon 
  6. A Estrada Subterrânea, de Colson Whitehead
  7. A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells
  8. A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells
  9. A Rapariga que Sabia Demais, de M. R. Carey
  10. A Revolta de Atlas, de Ayn Rand
  11. A Sétima Praga, de James Rollins 
  12. A Súbita Aparição de Hope Arden, de Claire North 
  13. A Torre Negra, de Stephen King
  14. A Última Estrela, de Rick Yancey
  15. A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne 
  16. Antes do Futuro, de Jay Asher e Carolyn Mackler 
  17. As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift
  18. As Vinte Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne
  19. Assassin's Creed, de Christie Golden
  20. Autoridade, de Jeff VanderMeer 
  21. Como Parar o Tempo, de Matt Haig 
  22. Dark Net, de Benjamin Percy
  23. Ficção Curta Completa, volume 1, de H. G. Wells
  24. Forças do Mercado, de Richard Morgan 
  25. Frankenstein, de Mary Shelley
  26. Gravar as Marcas, de Veronica Roth
  27. Gregor - A Quarta Profecia, de Suzanne Collins
  28. Gregor - A Última Profecia, de Suzanne Collins 
  29. Heresia, de Christie Golden
  30. Imitação Mortal, de J. D. Robb
  31. Mulheres Perigosas, org. George R. R. Martin e Gardner Dozois 
  32. Normal, de Warren Ellis 
  33. Nova Antologia Pessoal, de Jorge Luis Borges
  34. Nunca me Deixes, de Kazuo Ishiguro
  35. O Contágio, de Megan Abbott 
  36. O Coração é o Último a Morrer, de Margaret Atwood
  37. O Efeito Rosie, de Graeme Simsion
  38. O Espírito da Ficção Científica, de Roberto Bolaño
  39. O Fim de Onde Partimos, de Megan Hunter
  40. O Homem Duplo, de Philip K. Dick
  41. O Homem Invisível, de H. G. Wells
  42. O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse
  43. O Milésimo Andar, de Katharine McGee
  44. O Norte e Outros Contos, de Zamiatine
  45. O Prestígio, de Christopher Priest
  46. O Silêncio das Filhas, de Jennie Melamed
  47. Origem, de Dan Brown
  48. Os Cavalos de Abdera e Mais Forças Estranhas, de Leopoldo Lugones
  49. Os Despojados, de Ursula K. Le Guin
  50. Os Imperfeitos, de Cecelia Ahern 
  51. Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe, de Edgar Allan Poe
  52. Os Melhores Contos de Howard Phillips Lovecraft, volume 6, de H. P. Lovecraft
  53. Os Passageiros do Tempo, de Alexandra Bracken 
  54. Os Pássaros no Fim do Mundo, de Charlie Jane Anders 
  55. Os Raptores-do-Paraíso, de Jay Jay Burridge
  56. Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, de Philip K. Dick 
  57. Reino do Amanhã, de J. G. Ballard
  58. Relatório Minoritário e Outros Contos, de Philip K. Dick
  59. Revolta, de Kass Morgan 
  60. Rutura Mortal, de J. D. Robb
  61. Sobrevive, de Alexandra Oliva
  62. Um Mundo de Pernas para o Ar, de Elan Mastai
  63. Utopia, de Thomas More
  64. William Wenton e o Cripto-Portal, de Bobbie Peers

Não-ficção traduzida:

Edições brasileiras
  1. Contatos Imediatos do Terceiro Grau: Uma História Visual, de Michael Klastorin
  2. Coração Assombrado, de Lisa Rogak
  3. Os Arquivos Secretos do Homem de Aço, de Matthew K. Manning
  4. Os Arquivos Secretos do Homem-Morcego, de Matthew K. Manning

Edições portuguesas
  1. Homo Deus, de Yuval Noah Harari (futurologia)

Periódicos:

Edições brasileiras
  1. Conexão Literatura, nº 21
  2. Conexão Literatura, nº 22
  3. Conexão Literatura, nº 23 
  4. Conexão Literatura, nº 28 
  5. Conexão Literatura, nº 29 
  6. Conexão Literatura, nº 30
  7. Juvenatrix, nº 190 
  8. Juvenatrix, nº 191
  9. LiteraLivre, nº 1
  10. LiteraLivre, nº 2
  11. LiteraLivre, nº 3
  12. LiteraLivre, nº 4
  13. LiteraLivre, nº 5 
  14. Megalon, nº 72
  15. Somnium, nº 113
  16. Tempos Fantásticos, nº 0
  17. Trasgo, nº 13
  18. Trasgo, nº 14
  19. Trasgo, nº 15
  20. Trasgo, nº 16
  21. Zzzumbido, nº 3

Lido: Isaac Asimov Magazine, nº 2

É curioso mas sintomático: embora inclua uma história do próprio Isaac Asimov, monstro sagrado entre os monstros sagrados da FC, essa história não merece chamada de capa nesta revista, publicada no Brasil em 1990, ficando esta reservada para uma outra história que usa Asimov como protagonista. E de facto, embora isto talvez possa ser por muitos considerado heresia, o conto de Isaac Asimov que aqui se pode ler é dos menos interessantes deste conjunto de dez histórias. Pelo menos, está longe de ser o melhor; essa distinção cabe, a meu ver, à história de Nancy Kress, Renascimento. Está, até, algo longe de pertencer ao conjunto dos três melhores, composto pelo conto supracitado e pelas histórias de Bruce Sterling (Dori Bangs) e Kathe Koja (As Energias do Amor).

Mas também está muito longe de ser a pior das histórias desta Isaac Asimov Magazine, nº 2 (bibliografia), porque o conto de Hilary Rettig que ocupa essa posição (Aos Olhos de um Alienígena) está muito, muito abaixo de todos os outros. O conto de Asimov está, pois, na média. É um representante adequado do que este número da revista apresenta: contos em geral interessantes, entre o razoável e o bom, com um conto mais fraco e vários muito bons, numa mistura agradavelmente heterogénea em estilos, subgéneros e abordagens que é, afinal, aquilo que se quer encontrar numa publicação deste género (e é mesmo, caros amantes da uniformidade: uma refeição variada é imprescindível para se poder dar aos leitores a oportunidade de descobrir novas coisas que talvez lhes possam agradar e esse é o principal diferencial das revistas de contos e das coletâneas multiautorais).

E o que isto quer dizer é que este é um número da revista bastante bom. Lá no Goodreads hesitei bastante entre dar-lhe três estrelinhas (i.e., "gostei") ou quatro ("gostei muito") e se houvesse três e meia teria sido essa a minha escolha. Mas não há, e acabei por optar por quatro porque, no fim de contas, a leitura da revista acabou por ressoar um pouco mais comigo do que se tivesse lido os contos isoladamente.

E quanto a estes, eis o que achei de cada um deles:

domingo, 31 de dezembro de 2017

Números de fim de ano no Ficção Científica Literária

Não conhecem o Ficção Científica Literária?

É um projeto que eu tenho há algum tempo, destinado a divulgar o que se vai publicando por aí em língua portuguesa sobre a ficção científica na literatura e à volta dela. Desenvolvido originalmente no scoop.it, transferi-o para blogue em maio deste ano porque o scoop.it ganhou a mania de fazer alterações que me prejudicavam o trabalho sem dar cavaco nem resposta.

Desde maio deste ano, portanto, venho publicando lá links para o que vou encontrando por aí sobre FC, em português e na rede aberta (isto é, fora de facebooks, goodreads, skoobs e quejandos), agrupados em conjuntos de cinco ou até preencher o espaço que o Blogger destina a etiquetas. Ao todo, já foram publicados 476 posts. Isso corresponde a uns 2200 links. Ou seja: no espaço destes oito meses (ou menos: não comecei logo a 1 de maio), consegui detetar mais de 2200 artigos e posts em português, relacionados de alguma forma com a ficção científica na literatura, e com toda a certeza haverá mais em que eu não reparei.

A 16 de dezembro comecei também a incluir nas etiquetas informação sobre as publicações que publicam o material. Essa parte da coisa tem, portanto, apenas meio mês de existência. Mas a lista de publicações já chegou às 104.

A maior parte do material é brasileiro, naturalmente. Não só o Brasil tem bastante mais gente que Portugal e é, além de Portugal, o único país lusófono que parece ter uma blogosfera literária (ou uma internet, em geral) minimamente desenvolvida, como atravessa um boom de publicação de ficção científica, tanto produzida lá como traduzida. Dos 476 posts publicados no FCL, 453 fazem alguma referência ao Brasil. Os que fazem referência a Portugal são 391, e embora haja alguma diferença em opiniões e notícias de lançamentos, ela deriva muito em especial da muito menor produção portuguesa de artigos, e da inexistência de podcasts e quase inexistência de vídeos, pelo menos que sejam divulgados na rede aberta.

Seja como for, estes são números que deviam deixar a pensar quem anda constantemente a queixar-se de que não há nada, não se faz nada, não se diz nada, não nada. Devia haver mais? Devia. Devia sempre. Em quantidade, em qualidade e em variedade. Mas daí a não haver nada vai uma distância considerável.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Lido: Mundos em Mundos

Não creio que já tivesse lido algum conto de Vítor Frazão antes deste Mundos em Mundos, um continho muito breve e muito dialogante sobre livros. Obviamente. O conto insere-se na publicação em que se insere, afinal.

É uma fantasia divertida que tem como ideia base a de que ao lermos estamos a experimentar a história que lemos. Não, não, não estão a perceber: estamos literalmente a experimentar a história que lemos. Por isso, o conto abre com o protagonista a cair de dentro de um exemplar do Moby Dick, ensopado até aos ossos, e segue-se uma conversa entre ele e a irmã, a qual consiste basicamente de uma série de sugestões mal-intencionadas do que ler a seguir, e termina com um remate cómico bem amanhado que provoca um sorriso ao mesmo tempo que explica o motivo das más intenções da maninha.

Não é nenhuma obra prima, obviamente, mas é uma historieta engraçada e bem conseguida.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Lido: Linguagem Óptica

"Imagine o senhor uma terra de côncavo e convexo alternados". Assim começa mais um conto de Alexandra Pereira (e sem dedicatória! Fartou-se?) e basta esse começo para se lançar forte a suspeita: será fantástico?

É.

Linguagem Óptica é um conto inspirado pelas histórias populares, recolhendo delas alguns truques típicos, como o situar a ação num reino distante e perdido no tempo, usado como caso exemplar para a moral da história. Mas é apenas inspirado por elas, não pretende emulá-las. É bastante mais desenvolvido do que o que é comum encontrar-se nessas histórias, escrito numa linguagem significativamente mais rebuscada, e a moral, embora presente, não é nem tão vincada nem tão despida de ambiguidades. Fala de um reino com os seus problemas, boa parte dos quais causados por intolerâncias de vária índole: xenofobias, racismos, machismos/feminismos (que a autora põe em plano idêntico), por aí fora. O rei decide resolver esses problemas decretando a obrigatoriedade de todos os intolerantes usarem lentes corretivas mágicas, capazes de conformar as pessoas odiadas pelos súbditos aos parâmetros definidos pelos seus preconceitos: pretos tornados brancos (e brancos pretos), mulheres masculinizadas (e homens feminizados), etc., etc.

E depois as coisas correm mal.

É mais um conto bem escrito e razoavelmente bem concebido, muito embora me pareça que a primeira parte, o que decorre até o rei ter a sua ideia, é demasiado extensa para o desenvolvimento da segunda, que é o fulcro da história. Esse é um fator de desagrado, mas há outro mais importante para o leitor que eu sou: Alexandra Pereira trata todos os "preconceitos" como se fossem equivalentes, quando na realidade não são. Machismo não é equivalente a feminismo; racismo de brancos contra negros não equivale a racismo de pretos contra brancos. Isto fez-me torcer o nariz a esta história. Não se trata de um mau conto; na verdade, para o género, até o acho bom pois faz bem o que pretende fazer e é, sem dúvida, interessante. Mas...

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Lido: Os Sete Corvos

De volta às histórias dos Irmãos Grimm. E esta, Os Sete Corvos, não tem muito que se lhe diga. É mais um conto composto, amalgamado pelos Grimm a partir de duas histórias diferentes, e descreve as desventuras de uma família de pai, mãe e sete filhos que desejava uma filha. Quando a pequena finalmente nasce, o pai manda os filhos buscar água a um poço e estes atrasam-se tanto que o pai, num acesso de raiva, deseja que todos se transformassem em corvos. O que acontece. O resto é uma muito rápida crónica das aventuras da pequena, que parte em busca dos irmãos assim que tem idade para isso, e o que o conto tem de mais interessante é a raridade de ter como principal protagonista uma rapariga aventureira. Tudo em pouco mais de duas páginas, o que contribui para que esteja longe de ser memorável.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Lido: Da Mayor Speriencia

Na ficção científica lusófona são relativamente poucas as ficções que têm no tratamento do texto o seu fulcro essencial e menos ainda as que o fazem bem feito, não só no que toca ao tratamento do texto propriamente dito mas também no não descurar da história. Este Da Mayor Speriencia é, por isso, uma absoluta raridade. Estamos em Portugal, nos idos de mil e trezentos, em pleno reinado de El-Rei D. Fernando, e este, regressado de uma expedição de caça por bandas que mais tarde viriam a ficar conhecidas como Beira Alta, relata por escrito um estranho encontro com mais estranha ainda criatura que dir-se-ia não poder pertencer à divina criação.

O notável deste conto é estar escrito com um respeito profundo pelas crónicas da época, obedecendo-lhes não só em estilo, mas também em vocabulário e até em grafia, relatando um encontro entre um nobre medieval e um extraterrestre acabado de sair de um disco voador, sob o ponto de vista do primeiro, com todas as limitações e os erros de perspetiva a isso inerentes. Mais notável ainda é ter-nos sido tal obra legada por um escritor brasileiro que não é conhecido pela generalidade das pessoas interessadas por FC, não só em Portugal como, suspeito, até no seu Brasil natal: Nilson Martello.

Porque este, meus caros, é um conto muitíssimo bom, provavelmente o melhor conto de FC ufológica que eu já li. É para mim incompreensível que não seja mencionado com maior frequência.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Lydia's Orange Bread

Lydia's Orange Bread é mais uma das historinhas de Bruce Holland Rogers que mereceram tradução para português e foram lidas e comentadas aqui na Lâmpada nos já algo distantes idos de 2011. E que deliciosa historinha esta é! Como de resto já então eu pensava, que o que o Jorge de há seis anos escreveu poderia ter escrito hoje.

Outras histórias divulgadas na newsletter de Bruce Holland Rogers:

domingo, 24 de dezembro de 2017

Lido: Os Exilados

E por falar em Marte...

A ficção especulativa, ou literatura fantástica em sentido lato, ou literaturas do imaginário, chame-se-lhe como se prefira, tem várias facetas. Mas se algumas obras estão bem definidas enquanto ficção científica, fantasia, horror, etc., outras há que resistem a serem encaixotadas univocamente num dos (sub)géneros. Assim surgem os híbridos. Frankenstein, de Mary Shelley, por exemplo, é uma obra de horror mas também de ficção científica, na mesma medida em que as obras da franquia Star Wars podem ter a aparência superficial de ficção científica mas a estrutura e muitos dos temas são típicos da fantasia. E poderia dar muitos mais exemplos, tanto na literatura como fora dela.

Em Os Exilados (bibliografia), Ray Bradbury apresenta um desses híbridos. O conto abre com três estranhas bruxas a fazer bruxedos, e sem a conversa sobre híbridos que está ali em cima o mais certo era que quem estivesse a ler isto coçasse a cabeça, confuso, sem perceber bem o que terão três bruxas a ver com Marte.

Pois a resposta começa a desenhar-se à segunda página, quando deparamos com uma nave espacial em rota para Marte, na qual estranhos acontecimentos se vão sucedendo, e percebemos que as bruxas são apenas uma forma de defesa de Marte contra a invasão terrestre. Mas é mais do que isso, pois a Terra futura que Bradbury nos esboça é, mais uma vez, o reino do racionalismo científico onde não existe espaço para a imaginação, e todos os grandes escritores de horror gótico, ou pelo menos os seus fantasmas, estão exilados em Marte. Este assalto do racionalismo, retratado como frio e desumano, contra a imaginação corporizada pelo Halloween e pela literatura que lá vai buscar inspiração é um tema recorrente nas ficções bradburianas, transformando, em certa medida, algumas das suas ficções científicas em ficções anticientíficas.

O problema, no entanto, é outro. O problema é o mesmo que acomete todos os autores que escrevem repetidamente sobre os mesmos temas ou das mesmas formas: as suas ficções tornam-se repetitivas e previsíveis. Bradbury tem sobre muitos a vantagem de ser um escritor magnífico, mas mesmo assim contos como este ressentem-se quando quem os lê já conhece bastante bem a sua obra.

E é em boa parte por isso que não creio que este conto seja dos melhores do autor.

Contos anteriores deste livro:

Lido: As Atribulações de Jacques Bonhomme

Nos bons velhos tempos do e-nigma, depois de ter editado uma antologia de contos curtos, intitulada O Planeta das Traseiras, que foi recebida com algum agrado, tive uma ideia: e que tal pegar nestes contos sobre Marte, abrir nova convocatória para contos mais extensos sobre o mesmo tema para se lhes irem juntar, usar a promissora tecnologia do print-on-demand e pôr cá fora um livro físico, uma antologia de ficção científica e fantasia que tivesse em Marte o seu fulcro?

E como era meu hábito, da ideia à execução foi um curto passo. Abri a convocatória, recebi um conto bastante bom de um autor desconhecido, que aceitei imediata e entusiasticamente... e o projeto foi morrendo lentamente com a passagem dos meses porque nunca mais recebi nenhum outro com qualidade suficiente para ser publicado. A convocatória nunca chegou a ser encerrada; limitou-se a morrer suave e discretamente como quem cai num sono profundo para nunca mais despertar.

Esse autor era Telmo Marçal.

E é por isso com alegria e, confesso, uma certa dosezinha de orgulho que reencontro esse conto neste As Atribulações de Jacques Bonhomme (bibliografia), livro produzido em condições de profissionalismo que o meu projeto antológico não poderia ter tido.

Vem acompanhado por mais onze histórias, entre o conto curto e a noveleta, todas elas bastante bem escritas, todas elas fortes, narrativamente falando, e todas elas muito, muito negras, em absoluta distopia. Na verdade, várias destas histórias têm ambientes e narrativas tão semelhantes que deixam a suspeita de pertencerem ao mesmo universo ficcional e formarem uma série. E mesmo as outras não se afastam muito dessa atmosfera sombria. É bom? É, sim senhor. Em certos casos é até muito bom. Mas há um problema: as histórias talvez sejam demasiado semelhantes umas às outras, ao ponto de se começarem a tornar repetitivas e por isso previsíveis. Se a existência de uma série fosse assumida e Marçal tivesse arranjado algum arco narrativo capaz de reunir pelo menos metade destas histórias num todo maior e numa narrativa mais vasta, isso talvez pudesse ter sido evitado ou pelo menos suavizado, transformando este livro num dos melhores livros de sempre da ficção científica portuguesa. Mas o Telmo não o fez, não sei se por não ter conseguido, se por nem sequer se ter lembrado de tal coisa.

O resultado é um livro bastante bom mas que ao fim de alguns contos se torna repetitivo e por isso perde um pouco de interesse. Não é uma obra-prima? Não, não creio que seja. Mas é bom o suficiente para figurar por mérito próprio em qualquer lista das boas publicações de FC portuguesa das últimas décadas.

Eis o que achei de cada uma das histórias:
Este livro foi comprado.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Lido: Los Crímenes que Conmovieron al Mundo

Los Crímenes que Conmovieron al Mundo é um conto muito mau, rematando da pior forma possível esta antologia de ficção científica mexicana. Não que as ideias o sejam, propriamente. O conto é um relato das tragédias causadas pela moda de implantar interfaces para chips no cocuruto da cabeça das pessoas, na segunda metade deste século, o que, sem ter nada de genial, até poderia resultar num conto ou noveleta com algum interesse. O problema é estar escrito como uma redação escolar, literariamente indigente, infodump puro. Não há uma personagem, não há um diálogo, não há um enredo minimamente interessante. Só há descrição, que nem sequer está disfarçada de artigo científico ou de imprensa, o que lhe poderia dar um pouco de interesse literário. Nada. É como se um miúdo que nunca tivesse escrito ficção na vida resolvesse aplicar as técnicas para escrever redações aprendidas na escola e achado o resultado suficiente.

Não posso saber se José Luis Velarde só é capaz disto ou foi aqui particularmente infeliz: nunca tinha lido nada dele. Mas sei que o exemplo que aqui apresenta não me dá nenhuma vontade de descobrir. Este foi dos piores contos que li em todo o ano.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Manuais Escolares

Em contraste com o conto anterior, este Manuais Escolares tem um final simplesmente perfeito, a rematar com grande qualidade outra divertida história de fantasia sobre uma aprendiza de demónio que foi castigada pela mãe por excesso de travessura. A historinha pouco mais é que uma conversa entre a protagonista e o irmão, mas Raquel da Cal (de quem eu nunca tinha lido nada) escreve-a bem, com bom ritmo e boa e credível aplicação do discurso direto através do qual (não só mas principalmente) entrega a informação necessária sem infodumps, e não mais que a informação necessária. Bastaria isto para a história já ser boa, mas aquele final consegue transformá-la num dos melhores contos desta antologia. O que ele tem de pior é o título, pouco inspirado e não muito adequado ao conteúdo.

De vez em quando há boas surpresas. E também é para isto que servem as antologias.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Lido: A Maldição de Hemingway

Decerto já viram esta imagem verde e negra aqui ao lado e, se têm acompanhado a Lâmpada nos últimos tempos, sabem que aí vem mais uma opinião a mais um dos contos da Alexandra Pereira. Pois acertaram em cheio.

Este é outro conto sem dedicatória, mas para variar tem um mote: uma notícia do Público, que decerto lhe terá servido de inspiração, sobre um incêndio que destruiu o museu Hemingway nas Baamas. Ou seja, é um conto sem dedicatória explícita, mas com dedicatória implícita; percebe-se logo a abrir que Pereira pretende prestar uma pequena homenagem a mais um dos seus escritores favoritos.

E é o que faz. O título, A Maldição de Hemingway, aponta para histórias de fantástico sobrenatural ou de horror, e realmente é isso o que aqui temos. De uma forma sinuosa no tempo e no espaço, Alexandra Pereira apresenta uma história bem contada que começa pela morte da mãe do protagonista, a qual lhe terá sugerido não muito tempo antes que o pai, que ele não conhecera, tinha sido o escritor americano. Depois da morte da mãe, ele começa a ver o fantasma de Hemingway. Aliás, não só a vê-lo: a ser por ele assediado para que cumpra uma sua vontade: a destruição daquela casa predileta nas Baamas, pois a seu ver fora conspurcada por um fluxo constante de turistas e estava farto. Tinha de a ver destruída e, sendo fantasma, não podia fazê-lo ele.

Um enredo interessante, um português de uma qualidade globalmente boa (há uns pormenores que me desagradam, mas são pormenores), uma estrutura narrativa não inteiramente linear, ainda que não muito sofisticada. Um bom conto.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Lido: História do Grão-de-Milho

Se este fosse um dos contos dos Irmãos Grimm, seria (re)composto com uns bocadinhos daqui e outros dali e formaria um todo enxuto e despido de badalhoquices. Mas é um dos contos recolhidos por Adolfo Coelho e por isso não só nos aparece incompleto, pois a pessoa que lho contou não se lembrava de parte da história e por isso deu um salto na narrativa, como tem como única concessão ao bom gosto e à decência novecentista o facto de não escrever por extenso a palavra "caga" na exclamação "C... aí! C... aí!"

A História do Grão-de-Milho é, claro, um conto fantástico (vertente maravilhoso), cujo protagonista é filho milagroso de um casal que o pediu a Nossa Senhora, por terem-se passado demasiados anos sem filhos, de forma tão desesperada que o aceitariam mesmo que fosse do tamanho de um grão de milho. Dando provas de infinita bondade (ou se calhar não), a milagreira subdivindade deu-lhes mesmo um filho do tamanho de um grão de milho e o que move a história são os problemas e vantagens que a criança tem por ser tão pequena. No fim, tudo acaba em bem.

O conto é etnograficamente interessante, fazendo-me lembrar um pouco um conto infantil que me leram em miúdo, O Pequeno Polegar (e este é dos dos Grimm), mas literariamente nem por isso, e não só por causa da solução de continuidade.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Um Casamento Perfeito

A ficção científica de meados do século passado inclui uma corrente inteira de obras centradas na ideia de sociedades mecânicas e determinísticas, geridas por gigantescos computadores infalíveis, nas quais cada detalhe está predeterminado "cientificamente" e não há lugar nem para a imaginação nem para a liberdade individual. É uma ideia caída em desuso, até pela própria evolução da ciência que entretanto integrou noções probabilísticas e princípios de incerteza, afastando-se também ela deste tipo de inflexibilidade. De vez em quando a ideia ainda aparece por aí, mas de forma anacrónica, o que tem como consequência que histórias deste género sejam no fundamental datadas pelos seus pressupostos básicos.

Um Casamento Perfeito (bibliografia) é uma dessas histórias. Nela, André Carneiro desenvolve uma distopia clássica, que seria integralmente mecânica e determinística se não fossem os elementos subversivos que se dedicam a colocar uns grãozinhos na engrenagem. O enredo gira em volta de um casamento, claro, e da vida em comum dos casados. Como é natural, a união é determinada pelo computador que tudo vê e tudo decide, mas o casamento é turbulento e gera sentimentos fortes. É o contraste entre essa turbulência e a expetativa de perfeição qualquer coisa que fosse determinada pelo computador que serve de motor à narrativa e, nisso, Carneiro é bastante bem sucedido. No entanto, não gostei por aí além do conto. Há nele um certo ludismo que me desagrada, apesar de compreender bem a sua origem (o pseudo-cientificismo das ditaduras da época e de décadas anteriores, com certeza) e o estilo que Carneiro aqui apresenta, muito descritivo e bastante seco, também não é muito do meu agrado.

Ou seja, este é um conto muito datado e que eu só acharia um pouco mais que razoável mesmo se não o fosse.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Missy Victoria

Muitas histórias de literatura fantástica, ou pelo menos daquela literatura fantástica mais especulativa e menos seguidora de fórmulas, têm na sua génese uma pergunta: e se? Este continho de Bruce Holland Rogers, Missy Victoria, respeita plenamente essa regra. E se, parece interrogar-se, os nomes determinassem a personalidade de quem os tem? E se, por causa disso, houvesse um sistema judicial dedicado a corrigir situações problemáticas de personalidade e relacionamentos através da mudança dos nomes? Como seria?

Rogers explica como seria, partindo de uma situação em que Missy está com problemas por causa do filho mais velho, Nick, o qual aparentemente anda a vandalizar a escola, para grande desagrado da (muito chata) sogra, Alice. E o resultado é uma historinha muito divertida, telenovelesca mas em bom, cuja principal virtude, para mim, é a maneira como Rogers consegue em apenas cinco páginas fazer-nos retratos credíveis das três personagens mais importantes. E pelo menos o miúdo tem esse retrato feito por duas vezes, pois depressa se torna claro que vai ser condenado a mudar de nome. E talvez não seja o único.

Esta é uma história divertida em que, mais que o resultado final propriamente dito, o que realmente sobressai é a perícia do escritor.

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