Deixando para trás os contos ultracurtos, Carina Portugal regressa a histórias mais elaboradas com este Pintado a Sangue. E regressa bastante bem.
E regressa levando-nos à Rússia, aparentemente oitocentista, onde uma jovem toma posse de uma casa onde encontra múltiplos avisos de assombração. Mas ela, prática, cética e desembaraçada, não lhes liga. Aqui chegado, o leitor pode ter desculpa se imaginar que já sabe onde a história vai dar: a uma história de fantasmas clássica, na qual o ceticismo da rapariga é destruído por um paroxismo de terror sobrenatural. Mas não é esse o caminho que a autora segue, e é muito por isso que este é um bom conto.
Não que as fragilidades na escrita de Carina Portugal, já por várias vezes mencionadas, tenham desaparecido. Elas estão lá, ainda que atenuadas, incluindo alguns detalhes em que só quem saiba como as coisas funcionam chega a reparar. Por exemplo, a protagonista recebe o nome de Selena Yelizarov, o que me informa que a Carina não sabe que os apelidos russos são alterados consoante o género. Um homem poder-se-ia chamar Yelizarov, mas uma mulher teria de ser Yelizarova.
Mas a narrativa é segura, o desenvolvimento da trama mantém com eficácia o mistério que gera a curiosidade e a vontade de continuar a ler, as várias curvas que o enredo vai fazendo trazem quase sempre alguma surpresa mas mesmo assim fazem todo o sentido no contexto da história, e o final é bastante bom. Este é, com falhas e tudo, um dos melhores contos deste livro.
Textos anteriores deste livro:
terça-feira, 4 de dezembro de 2018
segunda-feira, 3 de dezembro de 2018
Lido: O Senhor das Janelas Verdes
Já o tinha dito e, porque vem a propósito, repito: muitos contos populares soam a histórias muito antigas que ao longo dos anos foram incorporando uns elementos e perdendo outros, e um subconjunto desses contos parece ter ganho uma camada mais ou menos espessa de mitologia cristã. É o caso deste O Senhor das Janelas Verdes que além disso, não sei se por influência de Adolfo Coelho (mas duvido), até que não é mau enquanto literatura propriamente dita.
A história é mais uma das muitas em que há uma princesa casadoira mas caprichosa, que só aceita casar com quem seja capaz de satisfazer uma certa condição (e é curioso que tantas histórias tradicionais apresentem princesas caprichosas, quando a história as mostra mais sujeitas aos caprichos das conveniências políticas dos pais que outra coisa). Mas quando lhe aparece o Senhor das Janelas Verdes a satisfazer essa condição a princesa mesmo assim não fica satisfeita, apela à Nossa Senhora, esta intervém a seu favor e após mais algumas peripécias tudo acaba em bem com a princesa casada com outra pessoa (uma pessoa que lhe dá o valor que merece, isto é, que a ama por ser bela... e assim se deseducam as criancinhas...) e feliz.
Há neste conto uma elaboração da prosa que não é muito comum neste livro, mas não deixa de ser um conto algo desconexo, em que o elemento cristão parece enxertado um pouco à pressão para contentar o pároco da aldeia (OK, ele foi recolhido em Coimbra... mas percebem a ideia). Não me parece ser dos contos mais interessantes e/ou que mais pano deem para mangas que aqui se podem encontrar.
Contos anteriores deste livro:
A história é mais uma das muitas em que há uma princesa casadoira mas caprichosa, que só aceita casar com quem seja capaz de satisfazer uma certa condição (e é curioso que tantas histórias tradicionais apresentem princesas caprichosas, quando a história as mostra mais sujeitas aos caprichos das conveniências políticas dos pais que outra coisa). Mas quando lhe aparece o Senhor das Janelas Verdes a satisfazer essa condição a princesa mesmo assim não fica satisfeita, apela à Nossa Senhora, esta intervém a seu favor e após mais algumas peripécias tudo acaba em bem com a princesa casada com outra pessoa (uma pessoa que lhe dá o valor que merece, isto é, que a ama por ser bela... e assim se deseducam as criancinhas...) e feliz.
Há neste conto uma elaboração da prosa que não é muito comum neste livro, mas não deixa de ser um conto algo desconexo, em que o elemento cristão parece enxertado um pouco à pressão para contentar o pároco da aldeia (OK, ele foi recolhido em Coimbra... mas percebem a ideia). Não me parece ser dos contos mais interessantes e/ou que mais pano deem para mangas que aqui se podem encontrar.
Contos anteriores deste livro:
sábado, 1 de dezembro de 2018
Leiturtugas: pontapé de partida
Chegou dezembro, portanto vá, vamos lá arrancar com isto.
Como ninguém mais comentou sobre o nome, decido eu e fica Leiturtugas. Já pus uma busca permanente no google; espero que dê com o que for sendo publicado.
Para o logotipo, tive uma ideia que é capaz de ficar engraçada, mas vamos a ver quando e se consigo arranjar tempo e habilidade para a pôr em prática. Para já, arranca mesmo sem logo.
O meu passo seguinte será criar uma página específica para este projeto aqui na Lâmpada. Ainda não decidi ao certo o que lá vou pôr, mas uma breve explicação do projeto e uma lista de participantes parecem-me um bom ponto de partida. Vou começar por pôr lá quem já declarou vontade de aderir (eu, o Artur "Intergalactic Robot" Coelho e a Cristina "Rascunhos" Alves, para já... houve mais pessoas a manifestar interesse mas não a dizer taxativamente que sim, vão participar). Seria bom que quem se quisesse também juntar me informasse disso para que o/a acrescente. E, já agora, me dissesse se pretende cumprir os mínimos do Leiturtugas ou vai apontar à versão light, a Leiturtuguinhas.
No que toca a divulgação, estou a contar fazer um post de apanhado por semana, provavelmente aos domingos. Imagino que para começar seja suficiente (até calculo que haja semanas sem nada, e portanto sem post), e depois logo veremos.
E mais uma nota: isto não é projeto de portugueses, é projeto para a leitura de ficção portuguesa. Se algum não-português quiser aderir, é totalmente bem-vindo.
E está aberta a coisa. Toca a ler.
Como ninguém mais comentou sobre o nome, decido eu e fica Leiturtugas. Já pus uma busca permanente no google; espero que dê com o que for sendo publicado.
Para o logotipo, tive uma ideia que é capaz de ficar engraçada, mas vamos a ver quando e se consigo arranjar tempo e habilidade para a pôr em prática. Para já, arranca mesmo sem logo.
O meu passo seguinte será criar uma página específica para este projeto aqui na Lâmpada. Ainda não decidi ao certo o que lá vou pôr, mas uma breve explicação do projeto e uma lista de participantes parecem-me um bom ponto de partida. Vou começar por pôr lá quem já declarou vontade de aderir (eu, o Artur "Intergalactic Robot" Coelho e a Cristina "Rascunhos" Alves, para já... houve mais pessoas a manifestar interesse mas não a dizer taxativamente que sim, vão participar). Seria bom que quem se quisesse também juntar me informasse disso para que o/a acrescente. E, já agora, me dissesse se pretende cumprir os mínimos do Leiturtugas ou vai apontar à versão light, a Leiturtuguinhas.
No que toca a divulgação, estou a contar fazer um post de apanhado por semana, provavelmente aos domingos. Imagino que para começar seja suficiente (até calculo que haja semanas sem nada, e portanto sem post), e depois logo veremos.
E mais uma nota: isto não é projeto de portugueses, é projeto para a leitura de ficção portuguesa. Se algum não-português quiser aderir, é totalmente bem-vindo.
E está aberta a coisa. Toca a ler.
Lido: Dia da Marmota
Há uma série de obras de vários géneros fantásticos, mas sobretudo de ficção científica, que lidam com bolsas de tempo cíclico. Sabem como é? Aquelas situações em que as personagens são forçadas a repetir uma e outra vez o mesmo dia, semana, mês, ano, etc., geralmente tendo disso consciência, por vezes inconscientes do facto à parte uma incómoda sensação de déjà vu. É um tema comum o suficiente para ter chegado à televisão e ao cinema e tem uma relação por vezes íntima com as viagens no tempo.
Luiz Bras serve-se da ideia neste Dia da Marmota, cujo título é referência a uma festa norte-americana em que se usa marmotas como uma espécie de oráculos sobre a duração do inverno. Não que essa festa tenha grande influência na narrativa, para além de esta usar uma marmota como uma espécie de senhora do tempo. O conto pouco mais é do que uma sucessão de ciclos de cinco minutos que se repetem milhares de vezes sem que ninguém disso se dê conta.
É muito difícil fazer-se isto literariamente de forma que resulte. Conheço vários exemplos que não resultaram. Mas Bras consegue fazer com que a sua historinha resulte, em parte por encaixar a ideia em apenas duas páginas de texto, e por lhe somar um muito Borgesiano elemento de recursividade. Não creio que este seja um dos seus melhores contos, mas é bom.
Textos anteriores deste livro:
Luiz Bras serve-se da ideia neste Dia da Marmota, cujo título é referência a uma festa norte-americana em que se usa marmotas como uma espécie de oráculos sobre a duração do inverno. Não que essa festa tenha grande influência na narrativa, para além de esta usar uma marmota como uma espécie de senhora do tempo. O conto pouco mais é do que uma sucessão de ciclos de cinco minutos que se repetem milhares de vezes sem que ninguém disso se dê conta.
É muito difícil fazer-se isto literariamente de forma que resulte. Conheço vários exemplos que não resultaram. Mas Bras consegue fazer com que a sua historinha resulte, em parte por encaixar a ideia em apenas duas páginas de texto, e por lhe somar um muito Borgesiano elemento de recursividade. Não creio que este seja um dos seus melhores contos, mas é bom.
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sexta-feira, 30 de novembro de 2018
Lido: A Corte do Ar
Há livros que têm tudo para dar certo. Um cenário imaginativo, personagens com potencial, uma história igualmente cheia de potencialidades, por aí fora. Basta arranjar um bom fio condutor, juntar as peças num todo coerente, descobrir a dimensão certa para esse todo melhor fazer sentido (conto? romance? série?) e escrever. Escrever bem.
Há livros que têm tudo para dar certo e dão. Outros, talvez em maior número, têm tudo para dar certo e apesar disso não dão. Há qualquer coisa que falha, por vezes várias qualquer-coisas, e o resultado fica aquém, por vezes muito aquém, das potencialidades que teria à partida. E quando isso acontece, o sabor a potencial desperdíçado que fica ao terminar a leitura é francamente desagradável.
A Corte do Ar (bibliografia) tinha tudo para dar certo. Uma sociedade complexa onde coexistem, com pessoas aparentemente iguais a qualquer de nós, criaturas diversificadas, incluindo uma espécie de caranguejos inteligentes e grandes robôs movidos aparentemente a vapor; vários países, cada um com a sua própria organização política e social, umas mais absurdas que outras, umas mais semelhantes que outras a caricaturas de sistemas políticos vindos direitinhos do mundo real, e dentro deles fações diversas; uma tensão subjacente que vai cresscendo à medida que os interesses e propósitos de um verdadeiro exército de personagens vão chocando, e por aí fora. Em suma, uma ambientação rica e imaginativa.
Este livro de Stephen Hunt tinha tudo para dar certo. A verdade, porém, é que não dá.
Porquê? Por vários motivos, mas sobretudo por questões relacionadas com o enredo e com a escrita propriamente dita.
O enredo tem vários problemas. O principal, a meu ver, é contrastar sobremaneira com o caráter imaginativo da ambientação. Por um lado é, na sua essência, demasiado simples: dois jovens que não se conhecem são perseguidos ao longo de meio mundo por serem especiais, o que vai sendo deixado claro aos poucos. Apesar das peripécias, a história é absolutamente previsível, pois é claro desde o início que os dois vão acabar por se encontrar e vão ser fulcrais para um enfrentamento final mais ou menos apocalíptico. E as peripécias são demasiadas vezes desleixadas, pois Hunt usa e abusa do famigerado deus ex-machina sempre que se mete nalgum assado de que não sabe bem como sair. A impressão geral que fica é de um enredo construído um pouco em cima do joelho, deficientemente pensado e pior planeado.
A escrita tem problemas que a meu ver são piores. Nos diálogos, sobretudo, Hunt usa um tom de tal forma artificial que chega a tornar o texto quase insuportável. As personagens não conversam: discursam. Não dizem coisas: soltam diatribes. É possível que em parte isso seja uma tentativa de tornar o texto mais próximo de um certo tom vitoriano em voga entre uma parte dos escritores que se dedicam ao steampunk, mas a verdade é que não resulta (e a tradução não ajuda): o resultado, longe de ser evocativo, é extraordinariamente maçador o que, num livro com mais de 500 páginas, é fatal.
Tudo somado, este foi um livro custoso de se ler. Como sou teimoso e não gosto de deixar livros a meio (é preciso serem mesmo muito maus) cheguei até ao fim, mas foram várias as ocasiões em que pensei que se calhar me estava a apetecer ler qualquer coisa e, quando olhava para ele, ou desistia ou me punha a ler contos em outros livros. Não o posso considerar mau porque a ambientação é rica o suficiente para lhe dar um certo encanto, mas sem dúvida digo que o achei francamente aborrecido e em parte por isso demorei longos meses a acabá-lo (e também me atrasou outras leituras; foram mais as vezes que perdi as ideias de ler do que aquelas em que me lancei aos contos). A palavra mais correta para o descrever é, suponho, insatisfatório.
Este livro foi comprado.
Há livros que têm tudo para dar certo e dão. Outros, talvez em maior número, têm tudo para dar certo e apesar disso não dão. Há qualquer coisa que falha, por vezes várias qualquer-coisas, e o resultado fica aquém, por vezes muito aquém, das potencialidades que teria à partida. E quando isso acontece, o sabor a potencial desperdíçado que fica ao terminar a leitura é francamente desagradável.
A Corte do Ar (bibliografia) tinha tudo para dar certo. Uma sociedade complexa onde coexistem, com pessoas aparentemente iguais a qualquer de nós, criaturas diversificadas, incluindo uma espécie de caranguejos inteligentes e grandes robôs movidos aparentemente a vapor; vários países, cada um com a sua própria organização política e social, umas mais absurdas que outras, umas mais semelhantes que outras a caricaturas de sistemas políticos vindos direitinhos do mundo real, e dentro deles fações diversas; uma tensão subjacente que vai cresscendo à medida que os interesses e propósitos de um verdadeiro exército de personagens vão chocando, e por aí fora. Em suma, uma ambientação rica e imaginativa.
Este livro de Stephen Hunt tinha tudo para dar certo. A verdade, porém, é que não dá.
Porquê? Por vários motivos, mas sobretudo por questões relacionadas com o enredo e com a escrita propriamente dita.
O enredo tem vários problemas. O principal, a meu ver, é contrastar sobremaneira com o caráter imaginativo da ambientação. Por um lado é, na sua essência, demasiado simples: dois jovens que não se conhecem são perseguidos ao longo de meio mundo por serem especiais, o que vai sendo deixado claro aos poucos. Apesar das peripécias, a história é absolutamente previsível, pois é claro desde o início que os dois vão acabar por se encontrar e vão ser fulcrais para um enfrentamento final mais ou menos apocalíptico. E as peripécias são demasiadas vezes desleixadas, pois Hunt usa e abusa do famigerado deus ex-machina sempre que se mete nalgum assado de que não sabe bem como sair. A impressão geral que fica é de um enredo construído um pouco em cima do joelho, deficientemente pensado e pior planeado.
A escrita tem problemas que a meu ver são piores. Nos diálogos, sobretudo, Hunt usa um tom de tal forma artificial que chega a tornar o texto quase insuportável. As personagens não conversam: discursam. Não dizem coisas: soltam diatribes. É possível que em parte isso seja uma tentativa de tornar o texto mais próximo de um certo tom vitoriano em voga entre uma parte dos escritores que se dedicam ao steampunk, mas a verdade é que não resulta (e a tradução não ajuda): o resultado, longe de ser evocativo, é extraordinariamente maçador o que, num livro com mais de 500 páginas, é fatal.
Tudo somado, este foi um livro custoso de se ler. Como sou teimoso e não gosto de deixar livros a meio (é preciso serem mesmo muito maus) cheguei até ao fim, mas foram várias as ocasiões em que pensei que se calhar me estava a apetecer ler qualquer coisa e, quando olhava para ele, ou desistia ou me punha a ler contos em outros livros. Não o posso considerar mau porque a ambientação é rica o suficiente para lhe dar um certo encanto, mas sem dúvida digo que o achei francamente aborrecido e em parte por isso demorei longos meses a acabá-lo (e também me atrasou outras leituras; foram mais as vezes que perdi as ideias de ler do que aquelas em que me lancei aos contos). A palavra mais correta para o descrever é, suponho, insatisfatório.
Este livro foi comprado.
Lido: O Preço dos Ovos
O Preço dos Ovos é das pouquíssimas histórias incluídas neste livro de Adolfo Coelho que têm todo o ar de caso acontecido, mesmo que possivelmente alterado com o passar dos anos e a sucessão de contadores (quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto, e coiso e tal).
Fala de uma dívida, de um credor que se tentou aproveitar da dívida para obter aquilo a que não tinha direito, e da forma astuta como o devedor se livrou da ameaça que sobre ele pairava. Tudo sem magias, intervenções divinas ou coisas do género. Tudo em plano realista. E tudo a ressoar a coisa não só possível, não só acontecida, mas bem conhecida. Afinal, dívidas e credores a tentar aproveitar-se das dívidas para obter aquilo a que não têm direito são o pão-nosso de cada dia na vida das nações.
Esta é, pois, uma história que pese embora a sua ambientação rural e antiga facilmente se adapta aos dias de hoje e que facilmente reconhecemos. Uma história interessante, apesar de eu preferir quando elas trazem consigo algo fora do comezinho quotidiano.
Contos anteriores deste livro:
Fala de uma dívida, de um credor que se tentou aproveitar da dívida para obter aquilo a que não tinha direito, e da forma astuta como o devedor se livrou da ameaça que sobre ele pairava. Tudo sem magias, intervenções divinas ou coisas do género. Tudo em plano realista. E tudo a ressoar a coisa não só possível, não só acontecida, mas bem conhecida. Afinal, dívidas e credores a tentar aproveitar-se das dívidas para obter aquilo a que não têm direito são o pão-nosso de cada dia na vida das nações.
Esta é, pois, uma história que pese embora a sua ambientação rural e antiga facilmente se adapta aos dias de hoje e que facilmente reconhecemos. Uma história interessante, apesar de eu preferir quando elas trazem consigo algo fora do comezinho quotidiano.
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quinta-feira, 29 de novembro de 2018
Lido: A Cartola Mágica
A Cartola Mágica é o último dos minicontos que Carina Portugal preferiu aglomerar num conjunto de minificções. E é mais um conto humorístico não particularmente bem sucedido, embora desta vez não seja o título a estragar o conjunto.
O protagonista é um mágico que, como a história é de fantasia, tem mesmo poderes. Mas mesmo assim o truque de magia corre mal (já agora, se o mágico tem mesmo poderes, faz "truques" porquê? Não devia fazer magia propriamente dita?) à conta de um coelho caprichoso e de umas quantas palavras impensadas, proferidas no calor da irritação, mas cheias de consequências. Porque, lá está, o mágico tem poderes.
Percebe-se que a ideia básica desta história é mostrar, de forma divertida, como aquilo que se diz impensadamente tem consequências. Mas o tamanho do conto não se adequa bem à abordagem seguida e ao que se quer com ele dizer. Precisava de mais espaço, no mínimo o dobro, provavelmente mais, para construir alguma tensão e depois rebentá-la com alguma punchline eficaz. Mas não tem nada disso, e portanto fica-se pela ideia e pouco mais. Não é mau, atenção. É... chocho.
Textos anteriores deste livro:
O protagonista é um mágico que, como a história é de fantasia, tem mesmo poderes. Mas mesmo assim o truque de magia corre mal (já agora, se o mágico tem mesmo poderes, faz "truques" porquê? Não devia fazer magia propriamente dita?) à conta de um coelho caprichoso e de umas quantas palavras impensadas, proferidas no calor da irritação, mas cheias de consequências. Porque, lá está, o mágico tem poderes.
Percebe-se que a ideia básica desta história é mostrar, de forma divertida, como aquilo que se diz impensadamente tem consequências. Mas o tamanho do conto não se adequa bem à abordagem seguida e ao que se quer com ele dizer. Precisava de mais espaço, no mínimo o dobro, provavelmente mais, para construir alguma tensão e depois rebentá-la com alguma punchline eficaz. Mas não tem nada disso, e portanto fica-se pela ideia e pouco mais. Não é mau, atenção. É... chocho.
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Lido: Pulp Feek, nº 2
Em março deste ano falei (muito atrasado) da opinião com que fiquei após a leitura do número 1 da Pulp Feek, e muito do que aí digo aplica-se também e esta Pulp Feek nº 2. Em particular, o que digo sobre a ideia geral do periódico, sobre a ideia de serializar quase todo o conteúdo e sobre a abordagem pulp. Nesse mesmo post prometo também para o número dois um desenvolvimento maior da ideia da publicação e, como o prometido é devido, aqui está ele.
Quando falei do nº 1 disse que a ideia base desta publicação era, por um lado, abordar as histórias de uma forma pulp e, por outro, publicá-las maioritariamente de forma serializada. Acrescentei que havia ainda um terceiro elemento, pois o comentário ao número 1 não era suficiente para que este elemento se percebesse sem grandes explicações adicionais. Agora, se vos disser que o número 1 contém apenas histórias de fantasia épica e espada e magia, ao passo que este só contém histórias de ficção científica, já se torna simples: cada número é especializado no género que cobre.
E isso tem como consequência que a serialização, que noutra publicação qualquer se faz em números consecutivos, aqui não. Para se ler a sequência da história x é necessário esperar até ao número seguinte dedicado ao género da história x, o que torna a demora muito maior e exacerba todos os defeitos da ideia de serializar ficção. Se a ideia de subdividir uma publicação periódica em edições especializadas não é necessariamente má, a ideia de o fazer numa publicação que coloca um foco grande na serialização da ficção é péssima.
Consequentemente, claro que não vou comentar os dois inícios de contos que aqui se encontram, além de dizer que o primeiro, do Alaor Rocha, é prometedor, pois a qualidade da escrita, pelo menos, parece estar vários degraus acima dos outros textos que li até agora (parcial ou completamente) nesta publicação. Na verdade, os textos de ficção pareceram-me em geral mais interessantes do que os do número 1. Mas lá está: dois deles, sendo apenas inícios, pouco contam para as contas globais. E como em sentido inverso os artigos me pareceram mais fracos do que os do primeiro número, a apreciação geral deste número não é boa. Também não é má, propriamente, mas...
Eis o que achei do único conto completo desta edição:
Esta publicação esteve disponível gratuitamente online, aqui, mas parece já não ser possível encontrá-la.
Quando falei do nº 1 disse que a ideia base desta publicação era, por um lado, abordar as histórias de uma forma pulp e, por outro, publicá-las maioritariamente de forma serializada. Acrescentei que havia ainda um terceiro elemento, pois o comentário ao número 1 não era suficiente para que este elemento se percebesse sem grandes explicações adicionais. Agora, se vos disser que o número 1 contém apenas histórias de fantasia épica e espada e magia, ao passo que este só contém histórias de ficção científica, já se torna simples: cada número é especializado no género que cobre.
E isso tem como consequência que a serialização, que noutra publicação qualquer se faz em números consecutivos, aqui não. Para se ler a sequência da história x é necessário esperar até ao número seguinte dedicado ao género da história x, o que torna a demora muito maior e exacerba todos os defeitos da ideia de serializar ficção. Se a ideia de subdividir uma publicação periódica em edições especializadas não é necessariamente má, a ideia de o fazer numa publicação que coloca um foco grande na serialização da ficção é péssima.
Consequentemente, claro que não vou comentar os dois inícios de contos que aqui se encontram, além de dizer que o primeiro, do Alaor Rocha, é prometedor, pois a qualidade da escrita, pelo menos, parece estar vários degraus acima dos outros textos que li até agora (parcial ou completamente) nesta publicação. Na verdade, os textos de ficção pareceram-me em geral mais interessantes do que os do número 1. Mas lá está: dois deles, sendo apenas inícios, pouco contam para as contas globais. E como em sentido inverso os artigos me pareceram mais fracos do que os do primeiro número, a apreciação geral deste número não é boa. Também não é má, propriamente, mas...
Eis o que achei do único conto completo desta edição:
Esta publicação esteve disponível gratuitamente online, aqui, mas parece já não ser possível encontrá-la.
quarta-feira, 28 de novembro de 2018
Lido: O Robô que Desenha Monstros
E de repente, eis que Luiz Bras se deixa de hibridismos e apresenta um conto (bastante longo para este livro, com as suas três páginas completas) de pura ficção científica. O título, O Robô que Desenha Monstros, já o deixava adivinhar, mas o texto mesmo assim é surpreendente: é que este conto não é apenas FC, é FC hard.
Fala de robôs replicantes e da sua evolução, pois no universo criado neste conto cada geração de robôs constrói a geração seguinte, aperfeiçoando-a. O resultado é ao mesmo tempo surpreendente e absolutamente lógico. Mas, e isto é curioso, não é tão ameaçador do que se poderia supor (e do que é hábito neste tipo de ficções científicas em que a tecnologia foge ao controlo humano). A ameaça existe, mas é razoavelmente benigna, como se, no fundo, os robôs ultrassofisticados das sucessivas gerações desejassem apenas o que qualquer adolescente quer. Expressar-se. Ser relevantes. Os robôs de Bras, no fundo, são filhos da humanidade e é como filhos rebeldes que agem, contestando o status quo mas sem qualquer desejo real de destruir os pais e as obras destes. E é isso o que torna este conto muito curioso. Muito curioso mesmo.
Textos anteriores deste livro:
Fala de robôs replicantes e da sua evolução, pois no universo criado neste conto cada geração de robôs constrói a geração seguinte, aperfeiçoando-a. O resultado é ao mesmo tempo surpreendente e absolutamente lógico. Mas, e isto é curioso, não é tão ameaçador do que se poderia supor (e do que é hábito neste tipo de ficções científicas em que a tecnologia foge ao controlo humano). A ameaça existe, mas é razoavelmente benigna, como se, no fundo, os robôs ultrassofisticados das sucessivas gerações desejassem apenas o que qualquer adolescente quer. Expressar-se. Ser relevantes. Os robôs de Bras, no fundo, são filhos da humanidade e é como filhos rebeldes que agem, contestando o status quo mas sem qualquer desejo real de destruir os pais e as obras destes. E é isso o que torna este conto muito curioso. Muito curioso mesmo.
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terça-feira, 27 de novembro de 2018
Lido: O(s) Fantasma(s) de Fernando Pessoa em O Ano da Morte de Ricardo Reis
Parte das minhas leituras, que raramente ou nunca registo ou comento em lado nenhum por achar que me falta capacidade técnica para tal, compõe-se de artigos e teses sobre temas variados que me despertam a curiosidade. Astronomia, planetologia, biologia, literatura, linguística, por aí fora. Normalmente são coisas que encontro enquanto procuro outras coisas na internet (é frequente fazer buscas tanto para obter informação necessária às minhas traduções, quanto para coisas extra-trabalho, como o Bibliowiki ou a minha ficção — essa raridade), me fazem arrebitar as orelhas e guardo para ler mais tarde, e tenho-me farto de aprender coisas assim, mesmo que a maior parte da informação tenha uma certa tendência a passar-me bem alto por cima da cabeça, em especial quando o tema é mais esotérico (a linguística e as várias variantes da astronomia, em especial, são especialistas em fazer-me sentir ignorante).
Mas cheguei há pouco tempo à conclusão de que não preciso de grande capacidade técnica para fazer apreciações superficiais sobre algumas dessas coisas. Não é necessário ter grande capacidade técnica para apresentar a tese x e dizer que ela se debruça sobre a coisa y e me interessou pelos motivos a, b ou c. E não só não é necessário ter grande capacidade técnica para fazer isso, como é inteiramente possível que esse tipo de opinião seja útil a alguém com interesses semelhantes. Talvez seja demasiado estar a fazer isso com artigos, salvo algumas exceções particularmente relevantes ou interessantes, mas coisas maiores? Porque não?
Entram na conversa O(s) Fantasma(s) de Fernando Pessoa em O Ano da Morte de Ricardo Reis. Trata-se de uma tese de mestrado em literatura portuguesa, defendida por Barbara Juršič (ou Barbara Juršič Terseglav), cujo nome aponta para paragens não lusófonas. E aponta bem: é eslovena.
Fala o livro (pois trata-se de um livro, ainda que não muito grosso com as suas 121 páginas), como é hábito neste tipo de trabalhos, cujos títulos são quase sempre descritivos de forma bastante objetiva, dos vários fantasmas e das várias facetas de fantasmagoria que se podem encontrar no romance de Saramago O Ano da Morte de Ricardo Reis. Achei algum interesse nessa discussão, ainda que a minha leitura desse livro esteja demasiado longínqua no tempo (li-o vai para três décadas) para poder realmente aferir se concordo ou discordo do que a autora defende, mas aquilo que mais me interessou nesta leitura não foi isso: foi a discussão (sobretudo prévia) sobre o que é o fantástico literário e de que forma este livro em concreto se enquadra nele. Há aí bastante informação geral e uma perspetiva que achei útil.
Outra coisa que achei bastante curiosa, embora não propriamente informativa, foi o tom do texto. OK, é um texto académico. É um texto, portanto, que se esforça por ser objetivo e distanciado, apresentando as ideias e as conclusões que advêm dessas ideias de uma forma tão rigorosa e alicerçada quanto possível. E no entanto, é um texto carregadinho de amor.
Amor pela literatura, sem dúvida, pela palavra até, mas sobretudo amor pelo livro estudado e provavelmente também pelo autor José Saramago. Algures na trajetória de vida da eslovena Barbara Juršič, ela ter-se-á apaixonado pela prosa de Saramago, ou por aquela prosa de Saramago. É possível que tenha sido isso o que a levou a aprender português e depois a vir fazer um mestrado a Portugal, mas é certo que ela ama o livro que estudou. Transparece nas entrelinhas do texto um carinho que me parece inconfundível. E isso fez-me sorrir.
E isso fez-me compreender que retirei desta leitura mais do que esperava à partida. Às vezes acontece.
Se alguém se interessar, ela está disponível aqui.
Mas cheguei há pouco tempo à conclusão de que não preciso de grande capacidade técnica para fazer apreciações superficiais sobre algumas dessas coisas. Não é necessário ter grande capacidade técnica para apresentar a tese x e dizer que ela se debruça sobre a coisa y e me interessou pelos motivos a, b ou c. E não só não é necessário ter grande capacidade técnica para fazer isso, como é inteiramente possível que esse tipo de opinião seja útil a alguém com interesses semelhantes. Talvez seja demasiado estar a fazer isso com artigos, salvo algumas exceções particularmente relevantes ou interessantes, mas coisas maiores? Porque não?
Entram na conversa O(s) Fantasma(s) de Fernando Pessoa em O Ano da Morte de Ricardo Reis. Trata-se de uma tese de mestrado em literatura portuguesa, defendida por Barbara Juršič (ou Barbara Juršič Terseglav), cujo nome aponta para paragens não lusófonas. E aponta bem: é eslovena.
Fala o livro (pois trata-se de um livro, ainda que não muito grosso com as suas 121 páginas), como é hábito neste tipo de trabalhos, cujos títulos são quase sempre descritivos de forma bastante objetiva, dos vários fantasmas e das várias facetas de fantasmagoria que se podem encontrar no romance de Saramago O Ano da Morte de Ricardo Reis. Achei algum interesse nessa discussão, ainda que a minha leitura desse livro esteja demasiado longínqua no tempo (li-o vai para três décadas) para poder realmente aferir se concordo ou discordo do que a autora defende, mas aquilo que mais me interessou nesta leitura não foi isso: foi a discussão (sobretudo prévia) sobre o que é o fantástico literário e de que forma este livro em concreto se enquadra nele. Há aí bastante informação geral e uma perspetiva que achei útil.
Outra coisa que achei bastante curiosa, embora não propriamente informativa, foi o tom do texto. OK, é um texto académico. É um texto, portanto, que se esforça por ser objetivo e distanciado, apresentando as ideias e as conclusões que advêm dessas ideias de uma forma tão rigorosa e alicerçada quanto possível. E no entanto, é um texto carregadinho de amor.
Amor pela literatura, sem dúvida, pela palavra até, mas sobretudo amor pelo livro estudado e provavelmente também pelo autor José Saramago. Algures na trajetória de vida da eslovena Barbara Juršič, ela ter-se-á apaixonado pela prosa de Saramago, ou por aquela prosa de Saramago. É possível que tenha sido isso o que a levou a aprender português e depois a vir fazer um mestrado a Portugal, mas é certo que ela ama o livro que estudou. Transparece nas entrelinhas do texto um carinho que me parece inconfundível. E isso fez-me sorrir.
E isso fez-me compreender que retirei desta leitura mais do que esperava à partida. Às vezes acontece.
Se alguém se interessar, ela está disponível aqui.
Lido: O Polegarzinho
O Polegarzinho, ou O Pequeno Polegar, como estava intitulado no livro em que conheci esta história pela primeira vez, é um dos contos da minha infância. Não nesta versão dos Irmãos Grimm, mas numa versão um pouco diferente, mais longa, ilustrada (não profusamente, como os livros muito infantis costumam ser, mas ilustrada) e destinada ao público infantil. Quando o conheci ainda nem sabia ler — o conto foi-me lido pelos meus pais — mas mais tarde li-o várias vezes, até o saber quase de cor. Com o passar dos anos esqueci-me quase completamente dele, mas ao reencontrá-lo aqui houve coisas que voltaram com grande clareza à memória. E, apesar de me ter parecido desde que comecei a leitura que algo não era exatamente como devia ser (isto é, que havia diferenças entre esta versão e a "minha"), a sensação de familiaridade foi intensa.
O Polegarzinho é um miúdo que nasce a um casal até aí estéril, mas tão pequeno que nunca chega a ultrapassar o tamanho de um polegar. No entanto, apesar do tamanho, é um miúdo extraordinariamente esperto e desembaraçado, e não hesita quando chega a hora de partir à aventura. Nesta versão dos Grimm, é também mais que um pouco vigarista, mas não me lembro dessa faceta na "minha" versão, o que pode significar que não existe ou que existe e eu na época não a captei. Acho que um dia vou ter de reler os meus velhíssimos livros de contos infantis.
Com uma história tão entranhada na substância que me construiu não é fácil fazer uma avaliação de qualidade ou relevância, e nem vou tentar. Não vale a pena. Concluo dizendo apenas que mesmo nesta versão comparativamente abreviada dos Grimm é um conto invulgarmente complexo para o que é costume nas histórias populares, em especial tendo em conta que esta não é daquelas histórias que os Grimm compuseram a partir de duas ou três que acharam complementares.
Contos anteriores deste livro:
O Polegarzinho é um miúdo que nasce a um casal até aí estéril, mas tão pequeno que nunca chega a ultrapassar o tamanho de um polegar. No entanto, apesar do tamanho, é um miúdo extraordinariamente esperto e desembaraçado, e não hesita quando chega a hora de partir à aventura. Nesta versão dos Grimm, é também mais que um pouco vigarista, mas não me lembro dessa faceta na "minha" versão, o que pode significar que não existe ou que existe e eu na época não a captei. Acho que um dia vou ter de reler os meus velhíssimos livros de contos infantis.
Com uma história tão entranhada na substância que me construiu não é fácil fazer uma avaliação de qualidade ou relevância, e nem vou tentar. Não vale a pena. Concluo dizendo apenas que mesmo nesta versão comparativamente abreviada dos Grimm é um conto invulgarmente complexo para o que é costume nas histórias populares, em especial tendo em conta que esta não é daquelas histórias que os Grimm compuseram a partir de duas ou três que acharam complementares.
Contos anteriores deste livro:
Lido: O Retrato da Princesa
Toda a gente sabe que a única qualidade realmente importante nas mulheres, e entre elas especialmente nas princesas, é a beleza, não é? Não é? Que raio estão todas as pessoas sensatas aí ao fundo a dizer que não? Ora esta! Calem-se, sim? Deixem falar a tradição!
E a tradição está bem retratada neste O Retrato da Princesa, mais um dos continhos de duas páginas recolhidos por Adolfo Coelho. Tem por tema um noivado real (naturalmente), que entrou em problemas porque a princesa não correspondia em formosura ao retrato pelo qual o príncipe se apaixonara. Sim, porque a personalidade das princesas se resume a serem bonitas. Evidentemente. Mas no fim tudo se resolve, que a princesa sempre era uma boazona com tudo no lugar, estava era enfeitiçada para parecer feiosa. Com a destruição do feitiço (ou, neste mundo não mágico que é o nosso, com um bom "makeover" e umas plásticas), fica tudo bem e eles vivem felizes para sempre, porque como se sabe a única coisa necessária para um casal ser feliz é a noiva ser boazona.
Ah, patriarcado, patriarcado...
Contos anteriores deste livro:
E a tradição está bem retratada neste O Retrato da Princesa, mais um dos continhos de duas páginas recolhidos por Adolfo Coelho. Tem por tema um noivado real (naturalmente), que entrou em problemas porque a princesa não correspondia em formosura ao retrato pelo qual o príncipe se apaixonara. Sim, porque a personalidade das princesas se resume a serem bonitas. Evidentemente. Mas no fim tudo se resolve, que a princesa sempre era uma boazona com tudo no lugar, estava era enfeitiçada para parecer feiosa. Com a destruição do feitiço (ou, neste mundo não mágico que é o nosso, com um bom "makeover" e umas plásticas), fica tudo bem e eles vivem felizes para sempre, porque como se sabe a única coisa necessária para um casal ser feliz é a noiva ser boazona.
Ah, patriarcado, patriarcado...
Contos anteriores deste livro:
segunda-feira, 26 de novembro de 2018
Lei(tur)tugas (literatugas?), última(?) iteração
Como seria de esperar, o meu último post sobre este assunto gerou mais uma série de conversas e perguntas, as quais levaram a mais algumas reflexões e estas a novos balizamentos do projeto, e estes levaram a mais este post. Idealmente, o último antes do arranque (que em parte por causa disso já não farei em novembro e sim em dezembro). Retoques que se façam necessários ou aconselháveis poderão ser feitos depois da coisa começar.
Comecemos pelo início, como é de bom tom.
O nome
Chamaram-me a atenção para um facto incómodo na ideia de chamar ao grupo LeiTugas: faz lembrar coisas de leis. É provável que sem aquela maiúscula ali no meio, e/ou sem a divisão entre "lei" e "tugas" no putativo logotipo, essa associação nunca tivesse surgido, mas é das tais coisas que depois de ver se torna impossível desver.
Ou seja: se calhar é melhor arranjar-se outro nome.
Uma ideia possível é esticar o nome original, para LeiturTugas. Tem uma vantagem: é palavra que não existe no google, pelo que seria muito simples encontrar-se as publicações integradas no grupo. Tem uma desvantagem: a ideia de leitugas surgiu por bastar mudar uma letra para se transformar em leituras (e vice-versa), e com leiturtugas essa associação imediata desaparece.
Ela manter-se-ia com LiteraTugas, que mudando uma letra se tranforma em literaturas. Desvantagens: existem alguns resultados no google, ainda que poucos e fáceis de diferenciar de coisas relacionadas com este projeto, e o nome deixa de ficar tão diretamente associado à leitura, passando a ser mais genérico.
Pessoalmente, talvez prefira LeiturTugas. E vocês?
E incluir mainstream e outros géneros?
Bem, a ideia era limitar a coisa à literatura fantástica, e eu prefiro que assim fique. Mas se a malta quiser mesmo incluir uma coisa ou outra de mainstream (ou de policial, literatura histórica e por aí fora) na parte de leituras sem FC, porque não? Suponho que os fãs de outros géneros fantásticos não gostem muito da ideia, mas como é possível que haja alguns leitores que gostem de ler ficção científica mas não sejam muito amigos de ler fantasia, horror ou outras vertentes do fantástico talvez faça sentido abrir-lhes as portas.
E a BD de FC? Está num bom momento...
Pois está. Por isso mesmo, parece-me, não precisa do estímulo de um projeto deste género para a espevitar. Além disso, vejo um obstáculo de monta à entrada da BD numa coisa destas: embora haja algumas pessoas que leem e opinam sobre BD concomitantemente à literatura, a maioria das publicações sobre BD, que eu tenha visto, fazem-se em veículos especializados, onde a literatura simplesmente não entra. Ora, se a ideia é estimular a leitura e comentário de obras literárias de FC portuguesa, permitir que a BD as substitua não me parece boa ideia.
Por outro lado, excluir pura e simplesmente a BD desta iniciativa também é capaz de não o ser. Portanto, proponho um compromisso: BD sim, mas integrada na parte das leituras sem FC, mesmo que a BD seja de FC.
Resumindo
Ou seja: a ideia retocada com os vossos comentários e perguntas será então ler e comentar, no mínimo:
- 6 ou mais obras literárias com FC por ano e
- obras literárias sem FC (com ênfase nos outros géneros especulativos) e/ou de BD em número suficiente para que, somadas às que têm FC, o total seja 12 leituras/comentários por ano.
(sendo que essas obras literárias tanto podem ser romances e outros livros como contos individuais.)
E quem só conseguir ficar-se pela versão light da coisa (leiturtuguinhas?), é igual, só que em vez de 6 são 3 e em vez de 12 são 6.
Estamos de acordo? Avançamos?
Comecemos pelo início, como é de bom tom.
O nome
Chamaram-me a atenção para um facto incómodo na ideia de chamar ao grupo LeiTugas: faz lembrar coisas de leis. É provável que sem aquela maiúscula ali no meio, e/ou sem a divisão entre "lei" e "tugas" no putativo logotipo, essa associação nunca tivesse surgido, mas é das tais coisas que depois de ver se torna impossível desver.
Ou seja: se calhar é melhor arranjar-se outro nome.
Uma ideia possível é esticar o nome original, para LeiturTugas. Tem uma vantagem: é palavra que não existe no google, pelo que seria muito simples encontrar-se as publicações integradas no grupo. Tem uma desvantagem: a ideia de leitugas surgiu por bastar mudar uma letra para se transformar em leituras (e vice-versa), e com leiturtugas essa associação imediata desaparece.
Ela manter-se-ia com LiteraTugas, que mudando uma letra se tranforma em literaturas. Desvantagens: existem alguns resultados no google, ainda que poucos e fáceis de diferenciar de coisas relacionadas com este projeto, e o nome deixa de ficar tão diretamente associado à leitura, passando a ser mais genérico.
Pessoalmente, talvez prefira LeiturTugas. E vocês?
E incluir mainstream e outros géneros?
Bem, a ideia era limitar a coisa à literatura fantástica, e eu prefiro que assim fique. Mas se a malta quiser mesmo incluir uma coisa ou outra de mainstream (ou de policial, literatura histórica e por aí fora) na parte de leituras sem FC, porque não? Suponho que os fãs de outros géneros fantásticos não gostem muito da ideia, mas como é possível que haja alguns leitores que gostem de ler ficção científica mas não sejam muito amigos de ler fantasia, horror ou outras vertentes do fantástico talvez faça sentido abrir-lhes as portas.
E a BD de FC? Está num bom momento...
Pois está. Por isso mesmo, parece-me, não precisa do estímulo de um projeto deste género para a espevitar. Além disso, vejo um obstáculo de monta à entrada da BD numa coisa destas: embora haja algumas pessoas que leem e opinam sobre BD concomitantemente à literatura, a maioria das publicações sobre BD, que eu tenha visto, fazem-se em veículos especializados, onde a literatura simplesmente não entra. Ora, se a ideia é estimular a leitura e comentário de obras literárias de FC portuguesa, permitir que a BD as substitua não me parece boa ideia.
Por outro lado, excluir pura e simplesmente a BD desta iniciativa também é capaz de não o ser. Portanto, proponho um compromisso: BD sim, mas integrada na parte das leituras sem FC, mesmo que a BD seja de FC.
Resumindo
Ou seja: a ideia retocada com os vossos comentários e perguntas será então ler e comentar, no mínimo:
- 6 ou mais obras literárias com FC por ano e
- obras literárias sem FC (com ênfase nos outros géneros especulativos) e/ou de BD em número suficiente para que, somadas às que têm FC, o total seja 12 leituras/comentários por ano.
(sendo que essas obras literárias tanto podem ser romances e outros livros como contos individuais.)
E quem só conseguir ficar-se pela versão light da coisa (leiturtuguinhas?), é igual, só que em vez de 6 são 3 e em vez de 12 são 6.
Estamos de acordo? Avançamos?
sábado, 24 de novembro de 2018
Lido: Laboratório Aleatório
Lembram-se daquela frase célebre que diz que, com tempo suficiente, um chimpanzé a escrever à máquina acabará inevitavelmente por escrever os Lusíadas? Ou coisa que se pareça? Pois este Laboratório Aleatório, mais um continho muito curto de Luiz Bras, é precisamente sobre isso. Ou pelo menos inspirado por isso.
O que o chimpanzé de Luiz Bras escreve, porém, não é os Lusíadas mas sim um aviso. E depois o (micro)conto acaba, espicaçando de forma divertida mas acutilante a conhecida cegueira da espécie humana para tudo o que é realmente importante. Sim, este é mais um daqueles continhos em que Luiz Bras consegue empacotar num invólucro extremamente reduzido uma quantidade notável de informação e ideias. Ou seja: é bastante bom. E ficção científica.
Textos anteriores deste livro:
O que o chimpanzé de Luiz Bras escreve, porém, não é os Lusíadas mas sim um aviso. E depois o (micro)conto acaba, espicaçando de forma divertida mas acutilante a conhecida cegueira da espécie humana para tudo o que é realmente importante. Sim, este é mais um daqueles continhos em que Luiz Bras consegue empacotar num invólucro extremamente reduzido uma quantidade notável de informação e ideias. Ou seja: é bastante bom. E ficção científica.
Textos anteriores deste livro:
Lido: Sombra
Em Sombra continuamos em território de minicontos, que Carina Portugal resolveu reunir a algumas vinhetas mais curtas e publicar como uma espécie de compilação dentro da compilação que é este livro. Não sei se gosto da ideia, francamente. Algumas destas histórias ganhariam mais se ladeadas por contos mais extensos do que incluídas num conjunto de histórias muito curtas, parece-me, e esta é uma delas.
É sobre uma sombra, obviamente. Uma sombra sobrenatural, ao que parece, que aparece e desaparece consoante a lua brilha ou é coberta pelas nuvens. Há um certo ambiente de mau agouro ou de perigo. Mas é só. O conto, embora esteja bem escrito, é demasiado curto para ir mais além. É demasiado curto e preocupa-se mais com a beleza da frase do que com o impacto de cada palavra.
Poderia ser um texto interessante intercalado entre dois contos mais longos e mais pesados. Um texto para descomprimir. O contraste ajudá-lo-ia. Assim, metido como está no meio de outros textos semelhantes, pelo menos em extensão, perde-se bastante. Foi conto que li e esqueci quase de imediato, e isso não é bom.
Textos anteriores deste livro:
É sobre uma sombra, obviamente. Uma sombra sobrenatural, ao que parece, que aparece e desaparece consoante a lua brilha ou é coberta pelas nuvens. Há um certo ambiente de mau agouro ou de perigo. Mas é só. O conto, embora esteja bem escrito, é demasiado curto para ir mais além. É demasiado curto e preocupa-se mais com a beleza da frase do que com o impacto de cada palavra.
Poderia ser um texto interessante intercalado entre dois contos mais longos e mais pesados. Um texto para descomprimir. O contraste ajudá-lo-ia. Assim, metido como está no meio de outros textos semelhantes, pelo menos em extensão, perde-se bastante. Foi conto que li e esqueci quase de imediato, e isso não é bom.
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quarta-feira, 21 de novembro de 2018
Lido: O Viajante
Entre os leitores de ficção científica há um grupo que só está contente com a última ideia inovadora, a ponta da ponta, e elege a novidade como medida absoluta de qualidade. Não pertenço nem nunca pertenci a esse grupo: gosto de uma boa história, gosto de coisas bem escritas e, embora as ideias desafiadoras possam contribuir para a criação (e desfrute) de uma boa história, tenho vastos motivos para crer que é perfeitamente possível criar histórias boas e bem escritas com base em ideias batidas. Ou seja, sim, as ideias novas e desafiadoras podem ser um fator para a criação de boas histórias, se quem as cria as souber usar, e por isso podem ser uma medida de qualidade. Mas não são a única, e muito menos são absoluta.
É por isso que quando deparo com uma história cheia de clichés vou à procura de outras facetas da criação ficcional antes de decidir se a história é boa ou não. Os clichés são usados de forma cliché, empilhando ideias batidas em cima de ideias batidas, ou com alguma novidade? A língua é bem ou maltratada? As personagens têm substância ou mal chegam a ser fantasmas de gente (ou de não-gente)? O ritmo narrativo é adequado ao tom da história ou choca com ele? E por aí fora. E cada resposta a cada uma destas questões contribui para a avaliação final.
O conto O Viajante, de Rafael Marx, é uma dessas histórias cheias de clichés. Num futuro longínquo, com a humanidade tão espalhada pelas estrelas (cliché) que o planeta original da espécie humana está esquecido (cliché, e particularmente tonto), é encontrado no espaço um artefato aparentemente alienígena (cliché), o qual vai ser investigado pelos cientistas do tempo que, curiosamente, parecem estar dotados de pouco mais capacidades tecnocientíficas do que os de hoje (cliché). E o que esse artefato é vai revolucionar a compreensão que a sociedade tem sobre si própria e o seu passado (cliché).
Com tantos clichés, o conto teria de estar muito bem escrito, ou pelo menos de os usar com imaginação e novidade, para poder ser bom. Infelizmente não é o que acontece. O mistério que Marx tenta prolongar até um final que se esforça para tornar surpreendente desaparece antes do conto chegar a meio quando o leitor se lembra de enredos semelhantes (incluindo até um dos filmes do Star Trek) e os liga ao título do conto. E a escrita, embora seja razoavelmente correta, está longe de ser isenta de falhas (inclusive algumas caricatas, em frases como "foi quando se encontrou, em aparente local de destaque, um objeto circular em local de destaque") e muito, muito longe de ser realmente boa. Tudo somado, o resultado é um conto bastante fraco, tanto enquanto FC, quanto no que toca às suas qualidades literárias.
É por isso que quando deparo com uma história cheia de clichés vou à procura de outras facetas da criação ficcional antes de decidir se a história é boa ou não. Os clichés são usados de forma cliché, empilhando ideias batidas em cima de ideias batidas, ou com alguma novidade? A língua é bem ou maltratada? As personagens têm substância ou mal chegam a ser fantasmas de gente (ou de não-gente)? O ritmo narrativo é adequado ao tom da história ou choca com ele? E por aí fora. E cada resposta a cada uma destas questões contribui para a avaliação final.
O conto O Viajante, de Rafael Marx, é uma dessas histórias cheias de clichés. Num futuro longínquo, com a humanidade tão espalhada pelas estrelas (cliché) que o planeta original da espécie humana está esquecido (cliché, e particularmente tonto), é encontrado no espaço um artefato aparentemente alienígena (cliché), o qual vai ser investigado pelos cientistas do tempo que, curiosamente, parecem estar dotados de pouco mais capacidades tecnocientíficas do que os de hoje (cliché). E o que esse artefato é vai revolucionar a compreensão que a sociedade tem sobre si própria e o seu passado (cliché).
Com tantos clichés, o conto teria de estar muito bem escrito, ou pelo menos de os usar com imaginação e novidade, para poder ser bom. Infelizmente não é o que acontece. O mistério que Marx tenta prolongar até um final que se esforça para tornar surpreendente desaparece antes do conto chegar a meio quando o leitor se lembra de enredos semelhantes (incluindo até um dos filmes do Star Trek) e os liga ao título do conto. E a escrita, embora seja razoavelmente correta, está longe de ser isenta de falhas (inclusive algumas caricatas, em frases como "foi quando se encontrou, em aparente local de destaque, um objeto circular em local de destaque") e muito, muito longe de ser realmente boa. Tudo somado, o resultado é um conto bastante fraco, tanto enquanto FC, quanto no que toca às suas qualidades literárias.
terça-feira, 20 de novembro de 2018
Lido: Rodamoinho, Talvez
E na sequência do que disse sobre o texto anterior, eis mais um conto/poema de Luiz Bras cuja mais fundamental natureza é o hibridismo.
Hibridismo, para começar, devido à sua natureza híbrida entre a prosa e a poesia. Hibridismo, também, por situar-se declaradamente num território entre a fantasia de sabor mágico-realista e a ficção científica. Hibridismo, ainda, por fazer a ponte entre a "literatura" tal como é entendida em certos círculos e o género, ou aquilo a que esses círculos chamam a "paraliteratura". E por fim hibridismo porque Rodamoinho, Talvez, é em si mesmo um texto híbrido, uma vez que não existe (ou existe de forma muito amputada, pelo menos) sem a obra literária a que faz referência direta: Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez.
E é isso o que tem de mais interessante, a meu ver: a forma como este conto/poema reinterpreta o grande romance de Garcia Márquez à luz da ficção científica, ou de uma certa abordagem à FC, entre a homenagem ao grande escritor e à sua obra e um erguer de bandeira ativista em prol da ideia de que a ficção científica tudo pode permear. Muito bom.
Textos anteriores deste livro:
Hibridismo, para começar, devido à sua natureza híbrida entre a prosa e a poesia. Hibridismo, também, por situar-se declaradamente num território entre a fantasia de sabor mágico-realista e a ficção científica. Hibridismo, ainda, por fazer a ponte entre a "literatura" tal como é entendida em certos círculos e o género, ou aquilo a que esses círculos chamam a "paraliteratura". E por fim hibridismo porque Rodamoinho, Talvez, é em si mesmo um texto híbrido, uma vez que não existe (ou existe de forma muito amputada, pelo menos) sem a obra literária a que faz referência direta: Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez.
E é isso o que tem de mais interessante, a meu ver: a forma como este conto/poema reinterpreta o grande romance de Garcia Márquez à luz da ficção científica, ou de uma certa abordagem à FC, entre a homenagem ao grande escritor e à sua obra e um erguer de bandeira ativista em prol da ideia de que a ficção científica tudo pode permear. Muito bom.
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segunda-feira, 19 de novembro de 2018
Lido: O Vampiro Pitosga
Mais um continho bastante curto, desta vez uma vinheta, este O Vampiro Pitosga mantém o mesmo clima dos contos anteriores deste livro de Carina Portugal, em que predomina o humor. E este é um bom conto estragado pelo título.
Ignorando o título, o conto é divertido e até está razoavelmente bem construído. Um vampiro prepara-se para se refastelar com uma opípara refeição: duas belas humanas, prontas para levarem uma dentadinha no pescoço cada uma, fornecendo ao vampiro litros e litros de saboroso sanguinho. Mas, como o título revela logo à partida, o vampiro é pitosga. Muito pitosga. E as dentadas não vão ter o efeito desejado.
Sem este título, este conto funcionaria bastante bem. Com o título, porém, depressa se torna demasiado previsível, destruindo a surpresa de que o humor sempre carece. Chega-se a metade do conto e já se sabe como ele vai acabar, de modo que quando o punch-line finalmente chega funciona mais como anticlímax do que como clímax. É pena; teria sido um ajuste tão pequeno e faria tanta diferença.
Textos anteriores deste livro:
Ignorando o título, o conto é divertido e até está razoavelmente bem construído. Um vampiro prepara-se para se refastelar com uma opípara refeição: duas belas humanas, prontas para levarem uma dentadinha no pescoço cada uma, fornecendo ao vampiro litros e litros de saboroso sanguinho. Mas, como o título revela logo à partida, o vampiro é pitosga. Muito pitosga. E as dentadas não vão ter o efeito desejado.
Sem este título, este conto funcionaria bastante bem. Com o título, porém, depressa se torna demasiado previsível, destruindo a surpresa de que o humor sempre carece. Chega-se a metade do conto e já se sabe como ele vai acabar, de modo que quando o punch-line finalmente chega funciona mais como anticlímax do que como clímax. É pena; teria sido um ajuste tão pequeno e faria tanta diferença.
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Lido: Os Figos Verdes
Desde que comecei a ler este livro de Adolfo Coelho ando numa dúvida constante relativa ao grau de alteração a que o autor da recolha terá sujeitado as histórias recolhidas. Desde o início me parece que será decerto menor que as alterações que os Irmãos Grimm fizeram às deles (chegando estes ao ponto de fundir histórias de proveniências diversas para criarem aquilo que no fundo são histórias novas), mas sempre achei muito duvidoso de que não houvesse nenhumas, ou quase.
Esta história deixa-me convicto de que as alterações terão sido mínimas, resumindo-se a retoques no português e pouco mais. Porquê? Porque esta história é única, pelo menos até agora, pelo surgimento de apartes, claramente marcas da expressão oral da contadora da história, e há uma nota do autor a explicar que se trata de "parenteses dirigidos pela narradora a quem a escutava".
E de que tratam Os Figos Verdes? De um rei com uma filha caprichosa, que meteu na cabeça que haveria de ter figos verdes em janeiro, o que leva, obviamente, o rei a prometer que quem lhos trouxesse casaria com ela ou seria ricamente recompensado. É, como se vê, daqueles contos em que há um teste a ultrapassar em troca de uma valiosa recompensa, os quais têm longos, ilustres e muito pagãos pergaminhos (ouvi falar de Hércules aí ao fundo?), embora neste a Nossa Senhora faça várias aparições. É uma história interessante, comparativamente complexa e, com as suas três páginas, longa para o que é comum nestas histórias. Um daqueles contos tradicionais que dão pano para fartura de mangas.
Contos anteriores deste livro:
Esta história deixa-me convicto de que as alterações terão sido mínimas, resumindo-se a retoques no português e pouco mais. Porquê? Porque esta história é única, pelo menos até agora, pelo surgimento de apartes, claramente marcas da expressão oral da contadora da história, e há uma nota do autor a explicar que se trata de "parenteses dirigidos pela narradora a quem a escutava".
E de que tratam Os Figos Verdes? De um rei com uma filha caprichosa, que meteu na cabeça que haveria de ter figos verdes em janeiro, o que leva, obviamente, o rei a prometer que quem lhos trouxesse casaria com ela ou seria ricamente recompensado. É, como se vê, daqueles contos em que há um teste a ultrapassar em troca de uma valiosa recompensa, os quais têm longos, ilustres e muito pagãos pergaminhos (ouvi falar de Hércules aí ao fundo?), embora neste a Nossa Senhora faça várias aparições. É uma história interessante, comparativamente complexa e, com as suas três páginas, longa para o que é comum nestas histórias. Um daqueles contos tradicionais que dão pano para fartura de mangas.
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sábado, 17 de novembro de 2018
Lido: O Congresso
Quem conhece a ficção de Jorge Luis Borges decerto saberá que duas das suas facetas mais importantes são, por um lado, a aplicação de ideias matemáticas à escrita ficcional (sobretudo a noção de infinito) e, pelo outro, a criação de factoides fictícios com ar de veracidade, de mistificações. E este O Congresso tem ambas.
Fala, naturalmente, de um congresso. Não um congresso real, mas sim um congresso projetado, o Congresso do Mundo, cujo objetivo seria, à revelia dos governos, reunir representantes de todas as facetas da humanidade para em conjunto tomar decisões sobre o seu futuro. É daquelas ideias utópicas que tem tudo para ter realmente passado pela cabeça de alguém na época em que a história se ambienta, inícios do século XX, e é nessa verosimilhança que Borges se apoia para sustentar a história. Esta, em forma de testemunho escrito por um dos organizadores, conta os sucessos e insucessos da ideia e as voltas que ela foi dando ao longo dos anos até dar em coisa nenhuma.
É um conto bastante interessante, através do qual Borges parece querer expressar o seu ceticismo perante ideias utópicas e impraticáveis, apesar de todas as boas vontades (e também porque raramente todas as pessoas envolvidas têm mesmo essa boa vontade). Não sendo dos contos dele que mais me agradaram e/ou impressionaram, a narrativa tem toda a qualidade e segurança que se pode esperar de um autor como Borges.
Contos anteriores deste livro:
Fala, naturalmente, de um congresso. Não um congresso real, mas sim um congresso projetado, o Congresso do Mundo, cujo objetivo seria, à revelia dos governos, reunir representantes de todas as facetas da humanidade para em conjunto tomar decisões sobre o seu futuro. É daquelas ideias utópicas que tem tudo para ter realmente passado pela cabeça de alguém na época em que a história se ambienta, inícios do século XX, e é nessa verosimilhança que Borges se apoia para sustentar a história. Esta, em forma de testemunho escrito por um dos organizadores, conta os sucessos e insucessos da ideia e as voltas que ela foi dando ao longo dos anos até dar em coisa nenhuma.
É um conto bastante interessante, através do qual Borges parece querer expressar o seu ceticismo perante ideias utópicas e impraticáveis, apesar de todas as boas vontades (e também porque raramente todas as pessoas envolvidas têm mesmo essa boa vontade). Não sendo dos contos dele que mais me agradaram e/ou impressionaram, a narrativa tem toda a qualidade e segurança que se pode esperar de um autor como Borges.
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quinta-feira, 15 de novembro de 2018
Lido: Crime
Luiz Bras parece gostar particularmente de coisas híbridas. A sua ficção científica raramente é só FC e o que não o é primordialmente muitas vezes inclui elementos de FC. Os textos em prosa vêm frequentemente carregados de poesia, e os textos que visualmente se assemelham a poemas poderiam muitas vezes escrever-se como prosa simples. E etc. Vários eteceteras. E este Crime é mais um desses textos híbridos.
É um poema? Se calhar é, sim. Um poema de versos longos rematado por um parágrafo em prosa, sobre... sobre o quê, ao certo? Sobre a identidade? Sobre a unidade fundamental de todas as coisas, talvez? O pretexto é um crime, mas Luiz Bras serve-se de surrealismo para sugerir, em amplas e vagas pinceladas, que tudo está interconectado de uma forma inextricável. Julgo eu. Parece-me.
E é bom? Parece-me (de novo a palavra) que sim. Está muito bem escrito, para começar e, se a ambiguidade, se uma certa forma impressionista de transmitir a ideia, eram aquilo que ele procurava fazer, fê-lo na perfeição. Mas não é texto que agrade a qualquer leitor, longe disso. É demasiado literário, em tudo o que a palavra implica.
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É um poema? Se calhar é, sim. Um poema de versos longos rematado por um parágrafo em prosa, sobre... sobre o quê, ao certo? Sobre a identidade? Sobre a unidade fundamental de todas as coisas, talvez? O pretexto é um crime, mas Luiz Bras serve-se de surrealismo para sugerir, em amplas e vagas pinceladas, que tudo está interconectado de uma forma inextricável. Julgo eu. Parece-me.
E é bom? Parece-me (de novo a palavra) que sim. Está muito bem escrito, para começar e, se a ambiguidade, se uma certa forma impressionista de transmitir a ideia, eram aquilo que ele procurava fazer, fê-lo na perfeição. Mas não é texto que agrade a qualquer leitor, longe disso. É demasiado literário, em tudo o que a palavra implica.
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quarta-feira, 14 de novembro de 2018
Lido: Ketchup
E se o continho anterior foi inteligente e divertido, neste Ketchup Carina Portugal não consegue ser nem uma coisa nem a outra. Mas tenta.
O problema é sobretudo a ideia ser mais que batida. Há anedotas com ela, há piadas com ela em filmes e noutros sítios. Não digo qual é, mas na verdade o título já deixa entrevê-la, e se disser que os protagonistas da história são tomates então...
Este é outro conto muito curto e bastante fraco, reforçando a minha ideia de que, com as exceções da praxe, a autora se sai melhor em extensões maiores.
Textos anteriores deste livro:
O problema é sobretudo a ideia ser mais que batida. Há anedotas com ela, há piadas com ela em filmes e noutros sítios. Não digo qual é, mas na verdade o título já deixa entrevê-la, e se disser que os protagonistas da história são tomates então...
Este é outro conto muito curto e bastante fraco, reforçando a minha ideia de que, com as exceções da praxe, a autora se sai melhor em extensões maiores.
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segunda-feira, 12 de novembro de 2018
Lido: Os Sete Anéis dos Sete Anões
Ah, um conto sobre a hipocrisia. De repente estamos na Terra Média ou em algum lugar do género, e alguém escreve uma breve carta a um tal Frodo. Só que algo corre mal com a tecnologia, e tudo o que esse alguém (Gandalf? Será?) escreve e rasura fica legível. Ora, o tom da parte não rasurada é um, e o da parte rasurada é outro bem diferente, o que Luiz Bras utiliza para belo efeito cómico. E no meio há Os Sete Anéis dos Sete Anões, que quem escreve a carta não faz ideia do que sejam, provavelmente porque pertencem a outra história. Mas isso também está rasurado.
E está tudo basicamente dito. O conto, de uma página, é uma fantasia cómica epistolar muito engraçada, ao mesmo tempo que também é uma experiência narrativa que não será inteiramente original mas é certamente invulgar. Este conto é mais divertido do que propriamente interessante, parece-me, mas contos assim também fazem falta. Aliás, diria até que nos dias de hoje fazem muita falta.
Textos anteriores deste livro:
E está tudo basicamente dito. O conto, de uma página, é uma fantasia cómica epistolar muito engraçada, ao mesmo tempo que também é uma experiência narrativa que não será inteiramente original mas é certamente invulgar. Este conto é mais divertido do que propriamente interessante, parece-me, mas contos assim também fazem falta. Aliás, diria até que nos dias de hoje fazem muita falta.
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domingo, 11 de novembro de 2018
Lido: No Moinho
Uma das coisas que eu mais aprecio na ficção do Eça de Queirós é a forma irónica como ele olha para as coisas e as pessoas, uma corrosiva ironia muito sua, tão, mas tão diferente da forma como a legião de imitadores que veio atrás tentou sem sucesso emulá-la. Essa ironia está bem patente na maior parte dos textos queirosianos que eu conheço... mas não em todos.
Neste No Moinho, por exemplo, ela não se pode dizer que seja inexistente mas é certamente escassa. Trata-se sobretudo de um retrato, mais uma vez. O retrato de uma mulher de província, prisioneira de um casamento sem amor, sem alegria e com doenças, mas contente com a, ou pelo menos resignada à, sua situação. Até ao dia em que um primo do marido, escritor célebre radicado em Lisboa, chega à aldeia em negócios e vem abalar o seu mundinho até às fundações.
Muitíssimo bem escrito, como é praticamente inevitável em Eça, este conto é sobretudo uma história romântica, com a ênfase nos sentimentos que é característica dessas histórias. Mas é uma história romântica à Eça: sem sentimentalismos nem exageros. O que para mim é ótimo, dada a alergia que tenho às histórias românticas com exageros sentimentais. Achei este conto bom, portanto, apesar de não me ter enchido as medidas.
Contos anteriores deste livro:
Neste No Moinho, por exemplo, ela não se pode dizer que seja inexistente mas é certamente escassa. Trata-se sobretudo de um retrato, mais uma vez. O retrato de uma mulher de província, prisioneira de um casamento sem amor, sem alegria e com doenças, mas contente com a, ou pelo menos resignada à, sua situação. Até ao dia em que um primo do marido, escritor célebre radicado em Lisboa, chega à aldeia em negócios e vem abalar o seu mundinho até às fundações.
Muitíssimo bem escrito, como é praticamente inevitável em Eça, este conto é sobretudo uma história romântica, com a ênfase nos sentimentos que é característica dessas histórias. Mas é uma história romântica à Eça: sem sentimentalismos nem exageros. O que para mim é ótimo, dada a alergia que tenho às histórias românticas com exageros sentimentais. Achei este conto bom, portanto, apesar de não me ter enchido as medidas.
Contos anteriores deste livro:
LeiTugas: vamos a isso?
Desde que lancei a ideia do Grupo LeiTugas, há cerca de um mês, fui tendo várias conversas sobre ela, tanto online como pessoalmente. Essas conversas, e as reflexões que elas me causaram, justificam que antes de pôr o grupo propriamente a funcionar discuta aqui algumas questões. Parte deste post repete perguntas que me fizeram e respostas que dei, com base na suposição de que questões e dúvidas que uma pessoa possa ter poderão ser compartilhadas por outras, e outra parte vem de reflexões que tive posteriormente com base em coisas que me foram dizendo ao longo dessas conversas e na evolução das minhas próprias ideias. A estrutura do post será mais ou menos a de uma FAQ para melhor ficar organizado. Começando pelo princípio.
O nome.
O nome do grupo (e o logotipo que abre este post) foi improvisado praticamente ao correr da pena e por isso está sujeito a alteração. É, como é óbvio, uma contração de "leituras portuguesas". Há conveniência em um grupo deste género ter um nome razoavelmente único, que possa ser usado como hashtag e sirva para fazer pesquisas no Google. Por aí, leitugas até funciona razoavelmente bem: existe uma planta chamada leituga, mas é uma planta pouco comum que não gera muito tráfego nem dá para criar confusões. Mas se alguém tiver ideia melhor, sou todo ouvidos.
Ah, sim, e o logotipo. Se alguém quiser fazer coisa melhor, o que cá para mim seria bastante fácil, faça favor.
Porquê equiparar o número de obras com FC ao de obras sem FC? Não seria melhor distribuir a coisa mais equitativamente pelos vários géneros?
A ideia é promover a leitura e o comentário de ficção científica, precisamente porque já há bastante mais pessoas a ler outros géneros dentro do grande guarda-chuva das literaturas não realistas e a FC tende a ficar para trás. Mas é bom que se compreenda o que eu entendo por "ler FC". Não é "ler apenas romances de FC pura e dura".
Nada impede, por exemplo que um fã de fantasia daqueles mais ferrenhos se delicie num mês com um suculento naco de 700 páginas de fantasia e no seguinte despache um continho de FC de página e meia para cumprir a quota.
E também é bom sublinhar que falar aqui em obras de FC é uma forma de falar em obras com FC. Coisas como o science fantasy (de que a série de Pern da Anne McCaffrey — ou o Star Wars — são bons exemplos) também contam, e há exemplos do género na FC portuguesa. Muitos dos contos da Isabel Cristina Pires ou do Artur Portela são science fantasy, apesar de a parte fantasia ser menos virada à fantasia épica e mais ao fantasismo mais típico do fantástico português. A série da Alex 9 do Bruno Martins Soares também é, e aqui a componente de fantasia é bastante mais épica do que é hábito.
Em geral, pretendo usar aqui o mesmo tipo de definição lata que tenho usado para o Ficção Científica Literária, onde muito do material que aparece está mais próximo de outros géneros mas contém também pitadas de FC. Por conseguinte, alternar uma obra com FC com uma obra sem FC é bastante menos FC-cêntrico do que pode parecer à primeira vista.
E é por isso, de resto, que é aceitável substituir obras sem FC por obras com FC (i.e., em vez de serem no mínimo 6 de cada ao longo de um ano poderem ser 7 ou 8 com FC e 4 ou 5 sem), mas o inverso não é.
E claro que quem quiser restringir a sua FC à FC pura e dura, também é inteiramente bem-vindo.
Mas há pouco material!
A falta de material é mais aparente que real. É verdade que o que se publica por ano é escasso, e que por isso quem quiser cingir-se apenas às últimas novidades poderá ter algumas dificuldades em cumprir (ou não; ver à frente), mas o certo é que já levamos anos suficientes disto para se ter publicado bastantes coisas. Só com os contos que estão online por aí quem quiser participar tem material para muitos anos (um conto de dois em dois meses dá 6 contos por ano; qualquer dos sites que publicou FC em conto, do da Simetria ao Fantasy&Co. tem material que dá para bastante mais que um ano).
Mesmo quem só lê em papel tem disponível material mais que suficiente para participar numa ideia como esta. Tenho vindo a compilar a lista de novidades do ano, à semelhança do que fiz no ano passado, e neste momento ela soma já 31 títulos. E mesmo removendo reedições e ebooks são bem mais que seis (são 21). É pouco, com certeza, mas é mais que suficiente para alimentar uma ideia como esta.
Mas não tenho tempo!
Oh, eu também não.
Mas a verdade é que não preciso de ter mais tempo do que o que tenho porque já faço o que se pretende que este grupo faça. Já leio e comento FC (e não-FC) portuguesa, pelo que não terei dificuldade em cumprir os objetivos que o grupo tem. Preciso apenas de me organizar um pouco melhor, e já agora dou um exemplo de como.
Vou arrancar com isto já este mês. Para novembro já tenho o que comentar; um livro português sobretudo de horror que está quase lido e tem vindo a ser comentado conto a conto nos últimos tempos. Certamente já sabem qual é. Ora, se os contos que falta ler forem como os que já estão lidos, e tudo indica que sim, é um livro sem FC. Ou seja: o próximo será com FC. Mas olhando para os livros que tenho em leitura e na pilha rápida para serem lidos a seguir, não há nenhum livro português de ou com FC. Solução: vou pegar num dos contos em ebook que aqui tenho, ainda não decidi qual, e será essa a minha LeiTuga de dezembro.
(Entretanto, depois de escrever o parágrafo acima mas antes de concluir e publicar este post, apareceu-me um conto de ficção científica nesse livro, o que revoluciona os planos. Mas decidi deixar o parágrafo inalterado como exemplo do que é possível fazer.)
Como eu, há várias pessoas que já fazem isto, embora nem sempre de uma forma particularmente organizada (mas mais sobre isto mais adiante), e que por isso não precisarão de mais tempo livre do que o que já gastam com a leitura e comentário.
Mais: a leitura de contos é inerentemente rápida, e os comentários a contos também o podem ser. Ou seja: quem não tiver muito tempo disponível mas quiser mesmo assim participar pode pelo menos ler e comentar um conto por mês (e volto a remeter para baixo) que não gastará com isso muito tempo. Há por aí contos bastante curtos mas interessantes, e ninguém obriga a só se lerem e comentarem os interessantes; uma das vantagens dos contos é que mesmo quando são chatos nunca o são tanto como certos romances (deixem-me: ontem consegui finalmente acabar de ler um chatíssimo tijolo de 500 páginas e ainda estou sob a influência).
Mas não será demasiado rígido? Uma obra por mês, assim, taxativamente? E se me apetecer saltar um mês?
OK, combinamos o seguinte: quem quiser e puder seguir o esquema rígido, siga-o. Isso fornecerá uma base mínima e regular de opiniões mensais. Quem não puder ou não quiser seguir o esquema rígido, pode orientar-se desta forma: se, no decurso de seis meses, ler e opinar sobre três obras com FC e três obras sem FC, pelo menos, está na mesma a cumprir as regras do grupo.
Mesmo assim não tenho tempo.
Posso sugerir uma versão light da ideia. Um subgrupo "Leituguinhas", para o pessoal que só conseguir fazer isto pela metade. Em vez de 6 obras com FC por ano, e outras tantas sem FC, exigem-se 3+3. Assim já dá?
Nem assim, pá. Nem assim.
Bem, então sugiro outra ideia para quem acha que nem assim consegue cumprir o que se pretende: associe-se a alguém, ou a vários alguéns, e criem um blog coletivo. Ou faça posts de convidados em algum blogue individual. A ideia é que o grupo Leitugas tenha como base as publicações, não as pessoas. Isto é, um blogue em que escrevam 3 ou 4 leitores conta como um, não como 3 ou 4, e por isso tem bastante mais facilidade em cumprir os "mínimos", pois divide as leituras entre esses 3 ou 4 leitores.
Pronto, está bem. E planeias orientar um pouco a escolha, sugerindo títulos específicos, ou pretendes antes dar liberdade a quem aderir, desde que respeite os parâmetros já enunciados?
Sem orientações, a menos que mas peçam explicitamente. A ideia é eu não gastar muito tempo com isto, mas se alguém tiver alguma dúvida sobre se a obra X tem ou não FC, ou não souber onde encontrar contos avulso, e coisas do género, posso responder a essas dúvidas (desde que saiba, naturalmente). Tirando isso, e além do respeito pelas regras de periodicidade, que convém existir para que a coisa resulte, a liberdade é total.
OK, convenceste-me. E agora?
Agora é criar o blogue, se ainda não existir, e começar a ler e a opinar. Quando se reunir um grupo pioneiro convém discutirmos entre nós como se processará a divulgação mútua, mas o melhor, para começar, talvez seja incluir no título ou no texto das publicações relacionadas com isto o nome do grupo, LeiTugas, possivelmente (também) em forma de hashtag, para serem mais fáceis de encontrar. Também convém informarem-me de que estão a participar. Estou a pensar criar uma página aqui na Lâmpada, a acrescentar às três que estão na barrinha ali em cima, onde se poderia fazer a gestão de quem está, de quem não está e de quem está em dia, vai adiantado ou vai atrasado, mas isso provavelmente irá esperar até podermos conversar sobre a parte da divulgação e da gestão do grupo. Penso também fazer alguns convites diretos a malta que faz, ou fez, crítica a coisas portuguesas, mas quem quiser participar não fique à espera do convite: não tenho ainda a certeza de que vou mesmo fazê-los. Eu lançarei a primeira opinião integrada nisto talvez daqui a uma semana ou duas. Ainda este mês, portanto. E quem tiver sugestões a fazer, faça-as.
Vamos a isso?
O nome.
O nome do grupo (e o logotipo que abre este post) foi improvisado praticamente ao correr da pena e por isso está sujeito a alteração. É, como é óbvio, uma contração de "leituras portuguesas". Há conveniência em um grupo deste género ter um nome razoavelmente único, que possa ser usado como hashtag e sirva para fazer pesquisas no Google. Por aí, leitugas até funciona razoavelmente bem: existe uma planta chamada leituga, mas é uma planta pouco comum que não gera muito tráfego nem dá para criar confusões. Mas se alguém tiver ideia melhor, sou todo ouvidos.
Ah, sim, e o logotipo. Se alguém quiser fazer coisa melhor, o que cá para mim seria bastante fácil, faça favor.
Porquê equiparar o número de obras com FC ao de obras sem FC? Não seria melhor distribuir a coisa mais equitativamente pelos vários géneros?
A ideia é promover a leitura e o comentário de ficção científica, precisamente porque já há bastante mais pessoas a ler outros géneros dentro do grande guarda-chuva das literaturas não realistas e a FC tende a ficar para trás. Mas é bom que se compreenda o que eu entendo por "ler FC". Não é "ler apenas romances de FC pura e dura".
Nada impede, por exemplo que um fã de fantasia daqueles mais ferrenhos se delicie num mês com um suculento naco de 700 páginas de fantasia e no seguinte despache um continho de FC de página e meia para cumprir a quota.
E também é bom sublinhar que falar aqui em obras de FC é uma forma de falar em obras com FC. Coisas como o science fantasy (de que a série de Pern da Anne McCaffrey — ou o Star Wars — são bons exemplos) também contam, e há exemplos do género na FC portuguesa. Muitos dos contos da Isabel Cristina Pires ou do Artur Portela são science fantasy, apesar de a parte fantasia ser menos virada à fantasia épica e mais ao fantasismo mais típico do fantástico português. A série da Alex 9 do Bruno Martins Soares também é, e aqui a componente de fantasia é bastante mais épica do que é hábito.
Em geral, pretendo usar aqui o mesmo tipo de definição lata que tenho usado para o Ficção Científica Literária, onde muito do material que aparece está mais próximo de outros géneros mas contém também pitadas de FC. Por conseguinte, alternar uma obra com FC com uma obra sem FC é bastante menos FC-cêntrico do que pode parecer à primeira vista.
E é por isso, de resto, que é aceitável substituir obras sem FC por obras com FC (i.e., em vez de serem no mínimo 6 de cada ao longo de um ano poderem ser 7 ou 8 com FC e 4 ou 5 sem), mas o inverso não é.
E claro que quem quiser restringir a sua FC à FC pura e dura, também é inteiramente bem-vindo.
Mas há pouco material!
A falta de material é mais aparente que real. É verdade que o que se publica por ano é escasso, e que por isso quem quiser cingir-se apenas às últimas novidades poderá ter algumas dificuldades em cumprir (ou não; ver à frente), mas o certo é que já levamos anos suficientes disto para se ter publicado bastantes coisas. Só com os contos que estão online por aí quem quiser participar tem material para muitos anos (um conto de dois em dois meses dá 6 contos por ano; qualquer dos sites que publicou FC em conto, do da Simetria ao Fantasy&Co. tem material que dá para bastante mais que um ano).
Mesmo quem só lê em papel tem disponível material mais que suficiente para participar numa ideia como esta. Tenho vindo a compilar a lista de novidades do ano, à semelhança do que fiz no ano passado, e neste momento ela soma já 31 títulos. E mesmo removendo reedições e ebooks são bem mais que seis (são 21). É pouco, com certeza, mas é mais que suficiente para alimentar uma ideia como esta.
Mas não tenho tempo!
Oh, eu também não.
Mas a verdade é que não preciso de ter mais tempo do que o que tenho porque já faço o que se pretende que este grupo faça. Já leio e comento FC (e não-FC) portuguesa, pelo que não terei dificuldade em cumprir os objetivos que o grupo tem. Preciso apenas de me organizar um pouco melhor, e já agora dou um exemplo de como.
Vou arrancar com isto já este mês. Para novembro já tenho o que comentar; um livro português sobretudo de horror que está quase lido e tem vindo a ser comentado conto a conto nos últimos tempos. Certamente já sabem qual é. Ora, se os contos que falta ler forem como os que já estão lidos, e tudo indica que sim, é um livro sem FC. Ou seja: o próximo será com FC. Mas olhando para os livros que tenho em leitura e na pilha rápida para serem lidos a seguir, não há nenhum livro português de ou com FC. Solução: vou pegar num dos contos em ebook que aqui tenho, ainda não decidi qual, e será essa a minha LeiTuga de dezembro.
(Entretanto, depois de escrever o parágrafo acima mas antes de concluir e publicar este post, apareceu-me um conto de ficção científica nesse livro, o que revoluciona os planos. Mas decidi deixar o parágrafo inalterado como exemplo do que é possível fazer.)
Como eu, há várias pessoas que já fazem isto, embora nem sempre de uma forma particularmente organizada (mas mais sobre isto mais adiante), e que por isso não precisarão de mais tempo livre do que o que já gastam com a leitura e comentário.
Mais: a leitura de contos é inerentemente rápida, e os comentários a contos também o podem ser. Ou seja: quem não tiver muito tempo disponível mas quiser mesmo assim participar pode pelo menos ler e comentar um conto por mês (e volto a remeter para baixo) que não gastará com isso muito tempo. Há por aí contos bastante curtos mas interessantes, e ninguém obriga a só se lerem e comentarem os interessantes; uma das vantagens dos contos é que mesmo quando são chatos nunca o são tanto como certos romances (deixem-me: ontem consegui finalmente acabar de ler um chatíssimo tijolo de 500 páginas e ainda estou sob a influência).
Mas não será demasiado rígido? Uma obra por mês, assim, taxativamente? E se me apetecer saltar um mês?
OK, combinamos o seguinte: quem quiser e puder seguir o esquema rígido, siga-o. Isso fornecerá uma base mínima e regular de opiniões mensais. Quem não puder ou não quiser seguir o esquema rígido, pode orientar-se desta forma: se, no decurso de seis meses, ler e opinar sobre três obras com FC e três obras sem FC, pelo menos, está na mesma a cumprir as regras do grupo.
Mesmo assim não tenho tempo.
Posso sugerir uma versão light da ideia. Um subgrupo "Leituguinhas", para o pessoal que só conseguir fazer isto pela metade. Em vez de 6 obras com FC por ano, e outras tantas sem FC, exigem-se 3+3. Assim já dá?
Nem assim, pá. Nem assim.
Bem, então sugiro outra ideia para quem acha que nem assim consegue cumprir o que se pretende: associe-se a alguém, ou a vários alguéns, e criem um blog coletivo. Ou faça posts de convidados em algum blogue individual. A ideia é que o grupo Leitugas tenha como base as publicações, não as pessoas. Isto é, um blogue em que escrevam 3 ou 4 leitores conta como um, não como 3 ou 4, e por isso tem bastante mais facilidade em cumprir os "mínimos", pois divide as leituras entre esses 3 ou 4 leitores.
Pronto, está bem. E planeias orientar um pouco a escolha, sugerindo títulos específicos, ou pretendes antes dar liberdade a quem aderir, desde que respeite os parâmetros já enunciados?
Sem orientações, a menos que mas peçam explicitamente. A ideia é eu não gastar muito tempo com isto, mas se alguém tiver alguma dúvida sobre se a obra X tem ou não FC, ou não souber onde encontrar contos avulso, e coisas do género, posso responder a essas dúvidas (desde que saiba, naturalmente). Tirando isso, e além do respeito pelas regras de periodicidade, que convém existir para que a coisa resulte, a liberdade é total.
OK, convenceste-me. E agora?
Agora é criar o blogue, se ainda não existir, e começar a ler e a opinar. Quando se reunir um grupo pioneiro convém discutirmos entre nós como se processará a divulgação mútua, mas o melhor, para começar, talvez seja incluir no título ou no texto das publicações relacionadas com isto o nome do grupo, LeiTugas, possivelmente (também) em forma de hashtag, para serem mais fáceis de encontrar. Também convém informarem-me de que estão a participar. Estou a pensar criar uma página aqui na Lâmpada, a acrescentar às três que estão na barrinha ali em cima, onde se poderia fazer a gestão de quem está, de quem não está e de quem está em dia, vai adiantado ou vai atrasado, mas isso provavelmente irá esperar até podermos conversar sobre a parte da divulgação e da gestão do grupo. Penso também fazer alguns convites diretos a malta que faz, ou fez, crítica a coisas portuguesas, mas quem quiser participar não fique à espera do convite: não tenho ainda a certeza de que vou mesmo fazê-los. Eu lançarei a primeira opinião integrada nisto talvez daqui a uma semana ou duas. Ainda este mês, portanto. E quem tiver sugestões a fazer, faça-as.
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