segunda-feira, 11 de março de 2019

Lido: Capitão Diabo das Geraes

Saltos no tempo, maiores ou menores, são praticamente uma inevitabilidade em romances-colagem deste género, pois uma das formas mais eficazes de fazer com que cada história de que a história maior se compõe tenha princípio, meio e fim é encerrar nela um episódio concreto. Especialmente quando o romance-colagem é concebido bastante tempo depois das histórias mais pequenas estarem feitas, como parece ter sido o caso.

Passaram-se bastantes anos desde os acontecimentos de O Vampiro de Nova Holanda. Os Três Brasis que deram nome à série foram-se desenvolvendo, o Brasil propriamente dito ainda sob controlo português, a Nova Holanda ainda sob controlo holandês e a República de Palmares, sua aliada, ainda um reino negro independente. Mas Gerson Lodi-Ribeiro não esquece que a passagem do tempo traz sempre consigo alterações na situação sociopolítica. Portugal, nesta época sob o controlo do Marquês de Pombal, interfere na política interna palmarina, fomentando uma guerra civil de cariz religioso entre a elite dominante, cristã, e uma guerrilha animista instalada na zona de fronteira, a sul.

E Palmares responde com o Capitão Diabo das Geraes.

Este é, como já terão adivinhado, o Vampiro de Palmares. À cabeça de um bando de bandidos, como houve vários e famosos na verdadeira história brasileira, o Capitão Diabo ataca as colunas que transportam minérios preciosos das zonas mineiras para as cidades portuárias, de onde seriam enviados para Lisboa. Apesar do disfarce de salteadores comuns, o objetivo é político: minar a confiança da metrópole na colónia brasileira e naqueles que põe a geri-la, bem como a confiança dos cidadãos da colónia nos dirigentes nomeados pela metrópole e, por extensão, na própria metrópole.

Com este rico pano de fundo, Gerson Lodi-Ribeiro constrói uma noveleta de enredo inteligente, razoavelmente movimentada, explorando de forma discreta as capacidades e limitações do protagonista que criou enquanto elabora com grande eficácia o seu edifício de história alternativa. Não fui verificar, mas não me parece que tenha sofrido grandes alterações a fim de ser incluída neste romance-colagem, mantendo assim intactas as suas características originais. Esta é mais uma história de grande qualidade, neste livro ou fora dele.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 10 de março de 2019

Lido: O Soldado que Foi ao Céu

Mais um conto recolhido em Ourilhe, mais um conto com um ar desconexo e apressado, o que provavelmente será consequência de Adolfo Coelho ter recolhido várias histórias junto do mesmo contador. Costumam ser histórias com potencial para elaboração, nem que seja apenas por mostrarem buracos a rogar por que os preencham com qualquer coisa. E este O Soldado que Foi ao Céu não é exceção.

Por entre os buracos e os saltos na história, consegue-se perceber que se trata de um conto fantástico sobre a morte e o destino. Em duas pinceladas, o enredo segue um soldado que é alvo de uma espécie de profecia que o leva a visitar uma capela sobrenatural, fantasmagórica, que já lá não está (ou está, mas muito arruinada, o que vai dar ao mesmo) dois dias depois, o que é bastante comum neste tipo de histórias. Mas tudo muito tosco e desconexo.

Literariamente, o conto é péssimo, mas está cheio de potencial.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas da semana

Esta semana, nas leiturtugas, voltou a haver publicações. É a vantagem de só se fazer a gestão dos projetos, porque se isto estivesse dependente de mim tinha ficado parado (avaria no computador, upgrade, início de um longo processo de reinstalação e pesonalização de software, só chatices...).

O Marco Lopes prossegue a sua análise aos contos da antologia Proxy, desta feita comentando o conto de Júlia Durand Modulação Ascendente. É ficção científica, como todos os da Proxy, pelo que o Marco está com 3c0s.

Mas quem tem esta semana a opinião mais desenvolvida (mais em vídeo que em texto, como é habitual) é a Tita, que fala de três obras: a BD Aristides de Sousa Mendes, Herói do Holocausto, de José Ruy, o romance de José Luís Peixoto Uma Casa na Escuridão (e sim, Tita, conta; há fantasia — por aquilo que dizes o livro parece ser de realismo mágico — e mesmo que não houvesse o Leiturtugas tem por obras dos géneros fantásticos preferência mas não exclusividade) e a antologia de história alternativa organizada por Octávio dos Santos, A República Nunca Existiu. Um livro com FC, dois sem, e a Tita passa a 4c2s.

Entretanto a Cristina Alves, do Rascunhos, estreou-se com um livro de BD (só falta a etiqueta, Cristina), Os Segredos de Loulé, de João Miguel Lameiras, João Ramalho-Santos e André Caetano. Embora esta BD seja de FC, as BDs vão todas para a coluna dos sem, pelo que a Cristina está com 0c1s.

Por fim, podem dar também as boas-vindas à Raquel Silva, do So Happy With Less, a mais recente adesão ao projeto.

domingo, 3 de março de 2019

Lido: O Zimbro

Assassínio, canibalismo, inveja, prodígios sortidos, punição cruel perante a indiferença (ou até a alegria) de todos, O Zimbro é mais um conto tradicional carregadinho de bons sentimentos.

Ou não. Se calhar não.

Encontram-se aqui muitos elementos já conhecidos de outros contos. A mulher estéril que deseja muito ter um filho e só consegue tê-lo mediante um encantamento, por exemplo, encontramo-la nas histórias do Polegarzinho. A criança branca como a neve está, já crescida (e de outro sexo), na história da Branca de Neve. A madrasta má encontra-se numa série de histórias, algumas mais que famosas, e aqui vai além de maltratar os enteados, como é frequente, e mata o seu. Por ciúmes. Porque ele, e não a sua filha, era o primogénito do marido. E a cantiga do pássaro a revelar os crimes também aparece aqui e ali, embora neste momento não esteja a conseguir situar concretamente algum exemplo. Só resta o canibalismo, pois aqui a madrasta dá o filho a comer ao pai, sem que este o saiba, e isso é uma crueldade que talvez não seja inaudita mas é certamente incomum.

E tudo isto é natural. A reutilização de elementos, a canibalização de histórias, o troca e baralha e volta a dar das peças são comuns na evolução da literatura popular. O mais curioso é que o resultado surge por vezes muito bem construído, muito "redondo", literariamente bem feito, como se as peças tivessem sido criadas especificamente para esse resultado (o que normalmente não é verdade). E este conto é precisamente assim: um conto bastante bom, literariamente, que os Grimm, na sua nota habitual, afirmam ser inteiramente proveniente de uma só fonte, apesar de localizarem este elemento aqui, aquele ali.

Claro que, estando nós a falar dos Irmãos Grimm, não é de excluir a probabilidade de essa qualidade se dever mais a eles, mais à forma como retocaram e complementaram o material de base, do que propriamente a este. Mesmo quando, como neste caso, afirmam que o conto vem do sítio tal, sem fazerem nenhuma menção a alterações. Mas para quem lê isso pouco importa. Venha de onde vier a qualidade, ela existe. Este é um bom conto fantástico de crime e castigo.

Contos anteriores deste livro:

Lido: O Ovo Partido

Mais um conto recolhido por Adolfo Coelho em Ourilhe, este O Ovo Partido tem em comum com o conto que o antecede um certo tom desconexo, ainda que menos acentuado. Mas pouco mais tem em comum com ele. Este é dos contos em que existe um crime e uma profecia de castigo futuro, que quem comete o crime prefere ignorar ou em que não acredita. No caso, um brasileiro rico (esta personagem do brasileiro rico parece ser realmente comum em histórias do século XIX, e se calhar anteriores) é assassinado pelo criado do pai da mulher que cobiça a fim de lhe ficar com o dinheiro, mas este ouve, no lugar do crime, vozes que lhe prometem que pagará por ele. E trinta anos mais tarde, pimba, lá vem a paga.

A moral da história é clara: a paga pode tardar mas não falha, e no fim das contas feitas ninguém engana o destino. É das tais ideias de senso comum que se olharmos com olhos de ver para o que se passa à nossa volta e para a história somos obrigados a constatar que é falsa. Mas estas histórias contadas à lareira tinham em parte do objetivo de contribuir para a paz social, levando as pessoas a não levantar ondas — mesmo quando por vezes o temperavam com irreverência para com os poderosos — e isso é bastante evidente em histórias como esta. Apesar disso, e de tudo o resto, esta é das tais histórias com potencial de desenvolvimento (e de subversão), embora tal como aqui aparece seja bastante fraca.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas da semana

Após um hiato, durante o qual as movimentações que houve no projeto não se refletiram em posts, estes regressaram esta semana, graças ao Marco Lopes, com o início de uma série dedicada aos contos da antologia Proxy, publicada pela Divergência. Coube o comentário da vez a Deuses Como Nós, de Vítor Frazão. O Marco passa a 2c0s.

Esta semana temos mais uma integrante no projeto (e há a probabilidade de chegarem mais em breve). Podem dar as boas-vindas à Maria do Ideias de Leitora.

sexta-feira, 1 de março de 2019

Escrita de fevereiro

imagem de Sergey Nivens
Em janeiro ameacei que era provável que a escrita avançasse mais depressa, agora que o trabalho que põe a comida na mesa entrou numa fase menos exigente, e foi realmente o que aconteceu, embora não tão depressa quanto seria de esperar, ou pelo menos desejável, que isto de resolver coisas que tinham ficado penduradas durante o tempo de maior azáfama é demorado (e chato; muito, muito chato).

Mas sempre deu para acabar duas coisas. Não, a novela que ando a escrever não foi uma dessas coisas. Mas acabei um dos seus capítulos, o mais longo até agora, e depois disso interrompi o trabalho nesse texto para escrever um conto curto. Este, que já está terminado e devidamente guardado na gaveta para marinar durante umas semanas (ou uns meses), ficou com pouco mais de 2500 palavras. E contando com a novela o total do mês ultrapassou ligeiramente as 4000. Continua a ser pouco? Continua, claro. São só umas 12 páginas, mais ou menos. Mas é mais, só em fevereiro, que ao longo de todo o ano de 2018.

(E 2018 tinha sido melhor que 2017, que por sua vez tinha sido melhor que 2016 e 2016 foi ligeiramente melhor que 2015. E em 2014 também escrevi menos que durante este mês. Tenho de regressar a 2013 para encontrar um ano mais produtivo do que o mês de fevereiro de 2019, e mesmo assim não muito mais: em 2019, com dois meses decorridos e dez no futuro, já escrevi mais que em todo o ano de 2013. A minha fase seca durou meia década. É muito por isso que estas parcas 4 mil palavras são para mim uma conquista.)

Para março as coisas afiguram-se complicadas. Obras em casa, o início de uma nova tradução, consultas e análises. É natural que os números recuem. Mas a ver vamos. Daqui a um mês cá estará outro post destes a dizer como foi.

Até lá.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Lido: A Moura Encantada

Quando peguei neste conto para o ler, tive durante breves instantes a esperança de que finalmente, quase a fechar o volume, nele surgisse algum sinal de Algarve. É que A Moura Encantada é o nome que se dá com frequência a uma das mais célebres (e belas) lendas algarvias e podia ser que fosse essa história que aqui se contava. Mas depressa me desenganei. Adolfo Coelho era beirão de uma forma quase militante, contam-se pelos dedos as vezes que sequer se aproximou do Tejo e, se bem me lembro, nem por uma vez o ultrapassou, esta é mais uma das muitíssimas histórias que recolheu em Ourilhe e nada tem a ver com a lenda algarvia, além de haver nela uma moura e de esta estar encantada.

É uma história algo desconexa, como de resto acontece de vez em quando aos contos recolhidos em Ourilhe, que pertence ao grupo de histórias que se baseiam num encanto que deve ser ultrapassado por um conjunto de três provas. Ao ultrapassá-las com sucesso, o candidato a príncipe ou a rei demonstra o seu valor e fica pronto para desposar a donzela. O facto de esta aqui ser moura em nada altera este esquema; a história podia ser contada a respeito de uma princesa qualquer do Norte da Europa e seria praticamente igual. E isto é o que ela tem de mais interessante, pois literariamente é muito fraca.

Contos anteriores deste livro:

Também já anda por aí...

... a segunda parte de Sangue & Fogo, a minha mais recente tradução do George R. R. Martin.

E não tenho muito a acrescentar ao que disse quando foi publicada a primeira parte.Não há assim tantas coisas que sejam específicas deste segundo volume, à parte o facto de ele se debruçar sobre um período diferente, com outros protagonistas e outras personagens secundárias.

Por outro lado, o facto de se debruçar sobre um período diferente, com outros protagonistas e outras personagens secundárias, leva a uma clara mudança de tom neste segundo volume. Se o primeiro corresponde sobretudo a uma época de esperança, prosperidade e consolidação do poder Targaryen em Westeros, este fala de um período conturbado, em que a velha dicotomia entre a grandeza e a loucura na família Targaryen, que já conhecemos desde a relação entre Daenerys e Viserys n'A Guerra dos Tronos, causa um sem-fim de problemas, uma guerra civil devastadora, a morte de muitos dragões e por aí fora. Não, descansem, não são spoilers: já tínhamos ouvido falar deste período ao longo das Crónicas de Gelo e Fogo e o que aqui existe de novo são os pormenores e uma solidificação das personagens, que deixam de ser protagonistas de velhas lendas para se transformarem em pessoas tridimensionais à boa maneira do George R. R. Martin.

E por falar em personagens tridimensionais, há uma, em especial, que me deu um particular prazer a traduzir. Os leitores vão neste livro travar conhecimento com mais um dos fabulosos anões de Martin. Este, conhecido como Cogumelo (compreenderão porque lhe chamam assim), é usado pelo meistre que escreve a história como fonte primária dos acontecimentos durante as épocas mais conturbadas. Mas o Cogumelo é um bobo da corte e por isso a sua narrativa é com frequência pouco digna de confiança (ou será, pelo contrário, a mais exata de todas?) e, com mais frequência ainda, escabrosa e escandalosa. O Cogumelo é um malicioso e essa malícia é muitas vezes simplesmente deliciosa. Faz lembrar o Tyrion, sim, com o mesmo tipo de verve rápida, mas ao mesmo tempo é diferente, mais grosseiro (ainda) mais irreverente (ainda). Julgo que se vai tornar com facilidade um favorito do pessoal.

E agora, que venha o próximo. Não me perguntem é quando, que sei tanto como vocês. Quando o Martin o escrever, suponho.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Lido: Fantasy & Science Fiction, nº 645

Embora nos ebooks exagere, uma vez que tenho coisas gravadas desde os anos 90, que ainda não li (nessa época ainda nem eram ebooks, pelo menos a maioria: eram páginas web), a verdade é que não é só em ebook que tenho coisas para ler há muito, muito tempo. A prova? Este número da Fantasy & Science Fiction, o 645, de dezembro de 2005, que anda por aí de pilha em pilha desde 2006. Há mais de 10 anos, portanto.

Contrariamente ao que por vezes acontece, no entanto, não saí da leitura a desejar tê-la feito mais cedo. Sim, é verdade que a revista inclui alguns contos bons, e portanto a leitura valeu a pena, mas não há aqui nenhum daqueles contos extraordinários que ficam realmente na memória. O que mais se aproxima disso é An Incident at the Luncheon of the Boating Party, de Allen Steele, mas só se aproxima desse objetivo, não o atinge. E nem a lista das outras histórias que me pareceram boas — Walpurgis Afternoon, The Cure e When the Great Days Came — é particularmente numerosa, sendo ultrapassadas pelas que não vão além da mediania.

Além da ficção, que compõe a parte de leão da revista, como é padrão deste tipo de publicação, este número inclui também artigos medianamente interessantes sobre livros (lançados na época, portanto já um pouco embafiados... mas aqui a culpa é exclusivamente minha) e filmes, mas tudo bastante mediano, nada que sobressaia. Saí da leitura com uma sensação de "OK, não foi mau", que é como quem diz "bem, podia ter sido melhor", que é bem capaz de ter sido amplificada pelo facto de todos os contos de que mais gostei estarem concentrados na primeira metade do volume.

Mas OK, não foi mau.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Esta revista foi comprada.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Lido: A Aia

Ah, dramas e facas e alguidares. O que seria da literatura portuguesa sem dramas e facas e alguidares? Se perguntassem a muita gente a resposta que obteriam iria provavelmente na linha de «não seria a mesma», ou coisa do género, querendo com isso dizer que teria menos interesse do que tem. Mas estão a perguntar-me a mim, não é? E eu, concordando que não seria a mesma, acrescento que seria melhor do que é. E isso é para mim claro quando comparo este A Aia com a generalidade dos contos que ficaram para trás neste livro de Eça de Queirós.

Sim, A Aia tem abundância de dramas e facas e alguidares. E está longe de ser um mau conto, atenção! Na verdade, entre as histórias com abundância de dramas e facas e alguidares que já me passaram pelos olhos é capaz de ser das melhores. Que digo? Não é capaz coisa nenhuma; é de certeza das melhores. Mas... podia ter menos dramas e facas e alguidares e mais de outras coisas e ficaria bem melhor. A meu ver, bem entendido.

Com alguma inspiração narrativa nos contos populares e provavelmente também na história de D. Sebastião, o conto é ambientado num reino medieval em que o rei morre a combater em paragens distantes, deixando uma mulher nova e um filho e herdeiro bebé. Mas tem um irmão bastardo, maligno e ambicioso, que depressa aproveita a oportunidade para tentar capturar o poder para si. Coisa que só pode fazer matando o legítimo herdeiro, evidentemente.

Do seu lado, o rei bebé tem a mãe e uma aia, que Eça nunca chega a dizer com todas as letras que é negra apesar de o deixar claro através das várias alusões que vai espalhando pelo texto a cabelos crespos, à escravatura ou à terra de que ela é proveniente. Uma aia que tem um filho da idade do rei bebé e que, apesar de ser escrava, ama a este como se seu fosse. E Eça perde aqui uma oportunidade para ser minimamente incisivo na questão da escravatura, pois apesar de pintar a aia escrava nas cores da total bondade, dá-lhe também uma fidelidade quase canina, perpetuando assim o mito do escravo grato ao dono, do escravo que se sente merecedor da sua condição. É à volta da aia que se desenrola a toda a tragédia do conto, e não se vislumbra nela um impulso de rebeldia, muito pelo contrário. O conto está concebido de forma a fazer pingar uma lagriminha às leitoras (sobretudo, uma vez que tem como principal tema a maternidade) sensíveis em honra do destino que caiu em sorte à pobrezinha da aia, coitadinha, tão boazinha, mas sem pôr minimamente em causa nenhuma relação de poder.

E isso compreender-se-ia e aceitar-se-ia num conto publicado lá pelos idos de mil e setecentos, ou assim. Mas num conto que veio a lume em 1902? Não. Mas não mesmo. Os queirosianos que me perdoem, mas este conto deixa muito a desejar em vários aspetos importantes.

Contos anteriores deste livro:

Lido: O Pássaro de Fitcher

Mais um conto construído pelos Irmãos Grimm a partir de material-base múltiplo, este O Pássaro de Fitcher é filho de duas histórias do Hesse e conta a queda de um feiticeiro malvado que andava pelas aldeias a raptar raparigas, enfeitiçando-as. E matando-as. Até ao dia em que a rapariga que raptou era inteligente, corajosa e desembaraçada.

Trata-se de uma história interessante, "redonda" e bem feita, como de resto é hábito nas adaptações de contos tradicionais que os Grimm fizeram. Mas aquilo que achei mais curioso nela foi a enorme proximidade do seu enredo com histórias sobre assassinos em série, tanto os ficcionais como os reais. Lê-se este conto e vêm inapelavelmente à mente cenas da série Mentes Criminosas, tornando muito claro qual a realidade que se revela por detrás da fantasia. Claro que existem nela aquelas coisas típicas das histórias populares, os grupos de três, os feitiços e os feiticeiros, tudo isso. Mas parece-me claro que o substrato é uma história de assassinato em série, provavelmente bem real, que a imaginação e crendice populares pintou de magia.

Neste conto, apesar de ele próprio ter interesse, o mais interessante é a sociologia que lhe subjaz.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Lido: O Preto e a Lâmpada de Santo António

Aos três ou quatro de vocês que têm seguido esta longa série de notas sobre os contos deste livro de Adolfo Coelho (eu sei, são muitas e a maioria pouco interesse têm) deverá bastar o título de O Preto e a Lâmpada de Santo António para perceberem que se trata de mais um conto racista, pois ele remete claramente para o do último conto declaradamente racista que aqui se acoita. E não se enganam. O racismo é neste um pouco menos intenso que no outro, é certo, mas está bem presente, e muito nos mesmos moldes. Mais uma vez, o protagonista preto é alguém que está em oposição a uma figura de autoridade eclesiástica, desta vez não um padre mas um sacristão, e mais uma vez o vemos quebrar as regras e ser punido por isso. Aqui, à pancada.

E no fundo por pouca coisa. O desgraçado do preto limitava-se a gostar de molhar o pão no azeite da lâmpada, e só o fazia depois de perguntar a Santo António se podia e não obter resposta. Merecia castigo? Claro que não. Mas levou na mesma com ele, em mais uma historinha muito, muito simples, muito, muito curta, e completamente vazia de elementos fantasiosos. Se não aconteceu podia ter acontecido, com racismo e tudo. E é muito, muito fraquinha.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Undr

Muitos escritores têm temas mais ou menos obsessivos, e, em particular quando o seu género de eleição é o conto, é frequente escreverem histórias atrás de histórias que pouco mais são que variações da mesma ideia e do mesmo tema. Jorge Luis Borges é assim; são célebres os seus labirintos, os seus pseudofactuais, etc. E por isso, julgo que não será nenhuma surpresa se vos disser que este Undr também se integra num tema comum a outras histórias. Na verdade, pouco mais é que uma variação de O Espelho e a Máscara.

Ou seja, o tema das duas histórias é o mesmo: a procura da mais absoluta pureza literária (e, sim, metafísica), de uma só palavra que englobe em si o significado do Todo. E nisso ganha um ambiente fantástico, apesar de nada de explícito (alguma magia, algum súbito surrealismo que ponha em causa a substância da realidade) aproximar o conto do género. Pelo contrário o lado explícito das coisas dificilmente podia ser mais solidamente ancorado à realidade histórica, pois Borges decide recorrer a um dos seus truques habituais, apresentando o conto como transcrição de um texto (inexistente, naturalmente) do século XI. E este é apresentado como uma crónica de viagens e aventuras, como tantas houve na época e em séculos posteriores.

É um bom conto, este, mas pareceu-me que O Espelho e a Máscara é um pouco melhor, tanto como conto propriamente dito, quanto como forma de explanação das ideias que Borges procura expressar em ambos.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Lido: As Viagens de Polegarzinho

Ah, mais um conto sobre o Polegarzinho. Fica assim desfeito parte do mistério que me fez estranhar o outro: parecer-me uma versão abreviada de um dos contos da minha infância. Aparentemente, o conto que eu li em miúdo foi uma fusão destes dois contos, eventualmente retirando umas partes e pondo outras. Mas só aparentemente: para ter certezas seria preciso reler aquele que para mim é o original (e já não me lembro lá muito bem de onde ele está... mas ainda deve andar cá por casa).

Mas adiante.

As Viagens de Polegarzinho, conto que já de si foi construído pelos Irmãos Grimm a partir de vários contos que, segundo eles, se complementam, é uma história de aventuras fantásticas vividas pelo minúsculo protagonista, cheio de peripécias para as suas quatro páginas. O Polegarzinho deste conto é uma personagem semelhante mas não idêntica à do outro. É menos vigarista, para começar, embora se mantenha corajoso e desembaraçado e, tal como no outro, apesar de se meter em variadíssimos assados ao longo das suas aventuras no fim acaba por se sair bem. Há nestes contos ecos do João Sem Medo, e neste há também o que me pareceu ser um eco longínquo da lenda de Jonas, aquele que foi engolido pela baleia (embora o bicho que engole o Polegarzinho seja uma prosaica vaca), e embora eu continue demasiado submerso no encanto que as histórias do Pequeno Polegar exerceram sobre mim antes mesmo de aprender a ler para ser realmente objetivo na forma como encaro estes contos, uma coisa é certa: dos mais de quarenta contos já lidos neste livro este inclui-se entre os que mais me divertiram.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Lido: A Beata e o Senhor dos Passos

Mais uma historinha com mais ar de coisa que podia ter acontecido do que propriamente de conto popular, esta A Beata e o Senhor dos Passos foi recolhida por Adolfo Coelho em Coimbra mas é mais tosca do que o normal nas histórias coimbrãs que se encontram neste livro.

É uma historieta marota que, mais uma vez, conta com a estupidez dos protagonistas (neste caso da protagonista) para funcionar. Uma beata era muito devota do Senhor dos Passos, e um sapateiro resolve aproveitar-se desse facto para, fazendo-se passar pelo alvo da devoção da beata e ajudado pelo aprendiz, se aproveitar dela. Mas as coisas só lhe correm de feição até certo ponto.

É mais uma historinha que pretende ser divertida mas só consegue ser básica. É humor à Malucos do Riso. Funciona com parte da população, claro, mas não funciona comigo.

Contos anteriores deste livro:

Lido: The 2055 Hugo Awards

A F&SF tem a tradição de apelar à criatividade dos seus leitores, organizando duas vezes por ano competições de pequenos textos, por vezes em prosa, por vezes em verso, sempre sujeitos a tema. Neste número, o tema foi The 2055 Hugo Awards, para o qual era solicitado que se imaginasse que categorias poderia haver nos prémios Hugo de 2055 e quais os prováveis vencedores. E o resultado foi bastante divertido.

Não é possível falar destes microtextos sem estragar a leitura. E sim, isto é algo a ter em conta, porque o resultado desta competição está disponível online no site da revista, aqui, e quem quiser verificar de que se trata pode fazê-lo. Todas as entradas me divertiram — incluindo a menção desonrosa, de Harlan Ellison — mas a que me levou a dar mesmo uma gargalhada foi a de Doug Mayo-Wells. Well done, sir! Não foi este autor a levar o primeiro prémio, porém; este coube a Meghan Davis. Os restantes autores premiados e publicados foram Joshua Gunter, Michael Canfield e Thornton Kimes.

Contos anteriores desta publicação:

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Lido: O Vampiro de Nova Holanda

Ah! Agora sim. Depois de um início morno, descritivo talvez em excesso e não muito bom, eis que finalmente este livro engrena com O Vampiro da Nova Holanda (bibliografia). Apesar de ter sido alterado para se adaptar ao formato de romance-colagem, sofrendo uma expansão e a amputação de um capítulo (quando falei de A Noiva e o Vampiro mencionei que já conhecia a história e julgava que ela fazia originalmente parte de um texto mais extenso mas não me lembrava de qual; era deste), esta é essencialmente a história que deu o pontapé de saída na série dos Três Brasis e conserva as características que tornaram o original uma das melhores noveletas da história alternativa lusófona. As grandes alterações que ela sofreu, de resto, nem foram feitas para este livro; esta é basicamente a versão que apareceu na coletânea Outros Brasis, já aí expandida em novela.

Ambientada no Recife, cidade que na linha história alternativa que Gerson Lodi-Ribeiro estabelece é a capital da Nova Holanda, acompanha uma investigação, por parte de três personagens diferentes, para determinar a autoria de uma série de crimes sangrentos que teriam tido lugar na cidade velha, pobre e habitada principalmente por portugueses e seus descendentes. Entre as vítimas conta-se a "noiva de Palmares" d'A Noiva e o Vampiro, i.e., uma negra, recém-trazida de África, cujo destino é tornar-se mulher de algum habitante de estatuto elevado de Palmares, a república negra que na imaginação de Gerson se desenvolve a partir do quilombo (local de refúgio de negros livres no Brasil esclavagista colonial, ora por fuga, ora por alforriamento) de Palmares, que existiu de facto mas aqui se desenvolve num estado independente e potente, aliado dos holandeses da Nova Holanda.

O assassino, claro, é o vampiro que já encontrámos antes no livro. E há aqui um detalhe interessante: no conto original, o clima de mistério, muito bem gerado e sustentado durante a maior parte do texto, é boa parte do que propele o interesse do leitor ao longo da narrativa. É boa parte do motivo por que o conto é realmente muito bom. Esse mistério reside na identidade e na natureza do assassino e, quando elas se revelam, o impacto é fantástico. Mas a integração do conto (agora novela) num romance-colagem altera fundamentalmente essa dinâmica. Já conhecemos o protagonista quando começamos a ler esta história e a sua permanência nas sombras ao longo de quase todo o texto não impede que ele esteja bem presente na mente do leitor. O impacto ressente-se, evidentemente. E para um leitor que só conheça esta versão, neste livro, é bastante provável que ela não pareça tão boa como é na realidade.

Por outro lado, há coisas que esse facto não afeta. O naipe de personagens interessantes, por exemplo, razoavelmente bem construídas, para personagens secundárias, e divertidas. Da princesa banta que não conhece o medo ao espadachim francês, filho de Cyrano de Bergerac, que julga que sabe muito quando nada sabe, passando por um inspetor da polícia holandesa da colónia de Nova Holanda que não se chama Van Helsig, propriamente (esse nome tão bem conhecido de quem é fã das histórias de vampiros), mas se chama Van Helsing. Entre outros. Julgo que as personagens, juntamente com um enredo bem construído e movimentado nos lugares certos e um texto de qualidade, bastam para que mesmo quem não conheça a história original considere esta novela boa. Porque o é.

Contos anteriores deste livro:

Lido: O Castelo

Isto devia ficar para a opinião sobre o livro propriamente dito, mas não é fácil explicar o que é este O Castelo sem explicar primeiro o que é o livro em que vem incluído. Italo Calvino, de resto, facilita a tarefa, pois ele próprio explica na apresentação que o prefacia. O Castelo dos Destinos Cruzados é uma experiência literária composta por contos cujos enredos são dirigidos por cartas de tarot. A fim de reunir os contos num todo que se quer coerente, e à semelhança do que fez em As Cidades Invisíveis, Calvino arranja uma narrativa que os engloba. N'As Cidades, usou conversas entre Marco Polo e Kublai Kan; aqui, concebeu um viajante que vai dar a um estranho castelo onde as pessoas contam histórias.

É isso o que explica neste texto. Trata-se de uma espécie de enunciado, que apresenta o protagonista e o lugar onde ele vai dar. Um lugar fantástico; um castelo surpreendente, onde se hospeda gente estranha, e onde é impossível falar. Abre-se a boca e a voz pura e simplesmente não sai. E daí as histórias serem contadas através do recurso às cartas de Tarot. É ao mesmo tempo uma saída claramente artificiosa e engenhosa, e a qualidade literária desta espécie de introdução, bastante elevada, abre as melhores perspetivas para as histórias propriamente ditas.

Venham elas.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Lido: A Morte Madrinha

Lembram-se d'O Senhor Padrinho? Foi o penúltimo conto deste livro a aparecer por aqui, portanto devem lembrar-se. Pois saibam que este A Morte Madrinha, conto que os Irmãos Grimm, nas suas habituais notas, não deixam inteiramente claro se está numa versão mais ou menos original, do Hessen, se surge em versão (re)construída por eles, pouco mais é que uma variante desse conto.

Aqui reencontramos o mesmo dilema do desgraçado do homem demasiado fértil que já não tem a quem pedir para lhe apadrinhar os filhos, aqui reencontramos a mesma subida na vida em resultado da escolha de padrinho e aqui reencontramos a mesma desgraça que surge em consequência dessa escolha. Bem, não a mesma desgraça, propriamente, mas uma desgraça. Seja como for, o enredo geral e as ideias genéricas são praticamente os mesmos, mas os pormenores divergem.

Diverge, sobretudo, a natureza de quem acaba por apadrinhar a criança. Se no outro conto era um feiticeiro, aqui a parada é mais alta, pois o homem recebe ofertas de Deus, que rejeita, do Diabo, que também rejeita, e finalmente da Morte, que aceita, sempre com ótimos argumentos. Mas como um conto cautelar não pode ser um conto cautelar sem que as coisas corram terrivelmente mal, é o que acontece aqui. Este é um conto interessante. Não muito, mas interessante.

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Lido: Conto do Fuso

Recolhido por Adolfo Coelho em Oliveira do Douro, este O Conto do Fuso é mais um dos muitos contos no fim deste livro que não só não têm qualquer elemento fantástico, como estão também desprovidos de boa parte daquilo que transforma um texto num conto, mais parecendo relatos mais ou menos atabalhoados de acontecimentos reais. Mesmo que, como neste caso, esses acontecimentos sejam algo inverosímeis.

Gira aqui a narrativa em volta de uma mulher preguiçosa, que devia fiar mas não fiava, enchendo-se de desculpas para não o fazer. Normalmente a desculpa envolvia fusos quebrados. E o marido, desgraçadinho, ia-lhe arranjando novos fusos, uns atrás dos outros, até que se fartou e meteu na cabeça que haveria de cortar um pinheiro e mandar fazer um de encomenda. Só que não era nenhum génio, o pobre homem, para não dizer que era parvo, e não houve nada que não lhe corresse mal nesse empreendimento.

Como facilmente se percebe, é mais um continho que pretende ser divertido, mas que também tem aspirações a história cautelar patriarcal. Não te cases com mulher preguiçosa, parece dizer, porque vais sofrer com isso. Mas essa mensagem dilui-se com a estupidez do marido; afinal de contas, ele não sofreria nem um décimo do que aqui sofre se não fosse tão palerma. O resultado é uma historinha tosca que nem consegue transmitir capazmente a moral da história que procura transmitir.

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Lido: Os Dois Mentirosos

Os Dois Mentirosos é mais uma historinha sem nenhum elemento fantástico, as quais, como de resto já disse por aí, parecem tornar-se mais abundantes à medida que este livro se encaminha para o fim. E esta é das que trazem consigo um certo sabor a coisa acontecida, a episódio verdadeiro.

Conta como dois irmãos muito pobres arranjaram maneira de vigarizar os povos das aldeias, fingindo um trazer grandes novidades, que contaria a troco de dinheiro, e confirmando o segundo essas novidades depois do primeiro se ir embora. E é só isso. Nada sobre o destino que levaram os irmãos, nenhum moral na história, apenas menos de uma página sobre uma vigarice campestre que podia perfeitamente ter acontecido, apesar da extravagância das histórias que os irmãos teriam contado.

Este é mais um conto com potencial para expansão; poderia resultar num conto interessante, coisa que não é tal como aqui está.

Contos anteriores deste livro:

Lido: O Espelho e a Máscara

Às vezes até parece que nestes últimos tempos, desde que me lancei à leitura de contos tradicionais, a estrutura e ambiente dessas histórias me perseguem. Encontro-as nos livros de histórias tradicionais, obviamente, mas também já as encontrei no livro do Eça que tenho andado a ler e agora encontro-as outra vez neste livro de Jorge Luis Borges.

Pois O Espelho e a Máscara é um conto bastante curto, fundamentalmente sobre a natureza da literatura, que vai buscar às histórias tradicionais, acima de tudo, o número três como esqueleto estrutural. Conta a história de três encontros entre o Alto Rei da Irlanda e um seu poeta, no primeiro dos quais o primeiro encomenda ao segundo uma obra capaz de imortalizar a sua vitória sobre os noruegueses. Um ano depois, o poeta entrega a obra mas, pese embora a sua perfeição estilística, ela é recusada por nada conter de seu, ser composta apenas por empréstimos de outros autores. Apesar da recusa, o rei recompensa o poeta com um espelho de prata. E um ano mais tarde lá regressa o poeta com nova obra, bem diferente, mais curta, original, perturbada e perturbadora. Esta o rei não recusa mas, enquanto recompensa o poeta com uma máscara de ouro, vai dizendo que sabe que o poeta é capaz de produzir algo melhor ao mesmo tempo que é introduzido no texto um elemento metaliterário, pois o rei diz que os dois são "figuras de uma fábula e é justo recordar que nas fábulas prima o número três". E lá vai o poeta e regressa um ano depois com uma terceira obra, um poema de uma só linha que só se atreve a murmurar em privado ao rei por grande insistência deste. Porque este último poema, recompensado com uma adaga, é o resultado da depuração da literatura até à perfeição, e isso é fatídico para ambos.

Este é outro conto excelente. Não lhe chamarei perfeito, até porque tem mais que uma linha, mas é um conto capaz de revelar como poucos a atitude que Borges tinha para com a literatura; A sua ideologia literária, chamemos-lhe assim. E fá-lo indo beber precisamente à mais profunda e antiga fonte da literatura: as histórias populares. O que constitui um nível de leitura em si mesmo mas ganha novos significados quando é combinado com o que vem escrito no conto. Borges gostava de labirintos, como é sabido, e aqui construiu um labirinto metaliterário de primeira qualidade.

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domingo, 10 de fevereiro de 2019

Lido: A Senhora Trudes

Embora muitos dos contos dos Irmãos Grimm sejam mais desenvolvidos do que os que se encontram na compilação do Adolfo Coelho, até por causa do costume que os alemães tinham de fundir e desenvolver as histórias que recolhiam, este livro não deixa de ter também historinhas muito pequenas e muito básicas. A Senhora Trudes, com menos de uma página de extensão, é uma dessas histórias.

Trata-se de um conto cautelar sobre o que pode acontecer às meninas teimosas que não obedecem aos pais. No caso da menina do conto, que meteu na cabeça que haveria de ir visitar a Senhora Trudes, contra a proibição dos pais, e claro que isso lhe foi fatal, que a Trudes era bruxa.

Esta é mais uma história com mais interesse sociológico que literário, pois literariamente é bastante fraca e previsível.

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Lido: A Senhora da Graça

A diferença entre conto popular e anedota nem sempre é fácil de avaliar, mas este A Senhora da Graça, recolhido por Adolfo Coelho em Coimbra, parece-me cair claramente na segunda categoria. Trata-se de uma daquelas anedotas que só funcionam porque os seus protagonistas são hilariantemente estúpidos, pois conta a história de um homenzinho que se deixa enganar pela mulher bêbada, a qual teimava que não tinha sido ela mas a gata a beber uma garrafa de vinho e o convenceu de que a Senhora da Graça haveria de lhe contar a verdade. Nem vos conto como.

Com menos de uma página, como qualquer anedota que se preze, é uma historinha sem quaisquer elementos fantásticos, por mais que o parvo que a protagoniza possa julgar o contrário. Razoável.

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