Há três tipos diferentes de fanzines e revistas literários. Um, que é bem exemplificado em Portugal pela extinta revista Ficções, dedica-se sobretudo ou exclusivamente a publicar contos, e por vezes histórias mais longas de forma serializada. O outro, de que a revista Blimunda é bom exemplo, tem um foco importante em material ensaístico de vário tipo, do artigo à entrevista, passando por uma série de outras coisas. Mas na ficção científica e fantasia portuguesa (e, na verdade, lusófona), o tipo que predomina é o terceiro, que tenta equilibrar a vertente ensaística e a ficcional.
E quase sempre acontece que as publicações mantêm uma certa consistência na abordagem que preferem seguir. A Dagon (um fanzine razoavelmente sofisticado — aquilo a que os gringos chamam semiprozine — iniciativa de Roberto Mendes) é que nem por isso. Se em alguns números tem uma componente ensaística relevante, em outros, como este número 3, esta quase desaparece e o conteúdo é quase integralmente constituído por ficção.
Esta não é muito boa. Ou por outra, um dos dois contos é bom, o outro é muito fraco. E para além deles, o fanzine contém apenas um editorial e um breve artigo sobre o artista que produziu a capa (a qual nada tem a ver com nenhum dos contos, diga-se), seguido de uma galeria de outras ilustrações feitas por ele. Bastante boas, convenhamos, mas não chegam para compensar aquilo que de menos bom ficou para trás. Tudo somado, esta publicação não ultrapassa o razoável.
Eis o que achei dos dois contos:
domingo, 16 de junho de 2019
Leiturtugas da semana #24
Mais uma semana de Leiturtugas, desta feita sem a minha participação. Mas houve quem participasse, nomeadamente o Artur Coelho, o qual publicou a sua opinião sobre o mais recente número da Granta em Língua Portuguesa, o 3. Dedicado ao futuro, este número desta revista publicada pela Tinta da China e editada pelo Pedro Mexia podia ter bastante mais FC do que a que tem, aparentemente, mas sempre terá umas tangentes, pelo que o Artur sobe a 5c1s.
E não esteve sozinho, pois também a Tita publicou duas pequenas opiniões (mais desenvolvidas em vídeo, como é hábito dela) sobre dois álbuns de BD portuguesa, ambos de Filipe Melo e Juan Cavia e ambos publicados pela Tinta da China: Comer/Beber e Os Vampiros. Como a BD conta sempre como sem FC (e neste caso os álbuns não têm mesmo FC), a Tita passa a 5c4s.
E por esta semana estamos conversados. Na próxima haverá mais. Até lá.
E não esteve sozinho, pois também a Tita publicou duas pequenas opiniões (mais desenvolvidas em vídeo, como é hábito dela) sobre dois álbuns de BD portuguesa, ambos de Filipe Melo e Juan Cavia e ambos publicados pela Tinta da China: Comer/Beber e Os Vampiros. Como a BD conta sempre como sem FC (e neste caso os álbuns não têm mesmo FC), a Tita passa a 5c4s.
E por esta semana estamos conversados. Na próxima haverá mais. Até lá.
sábado, 15 de junho de 2019
Irmãos Grimm: A Rainha das Abelhas
Já aqui falei várias vezes de contos em que três personagens com características diferentes, frequentemente irmãs, são confrontadas com os mesmos desafios, dos quais se saem (ou não se saem) de forma diferente. Trata-se de um dos mais comuns clichés das histórias populares, e esta, A Rainha das Abelhas, é mais uma que se baseia nesse cliché.
Aqui, os Irmãos Grimm não parecem ter mexido muito. O conto é curto, com meras duas páginas e meia, e narra a história de três irmãos, príncipes, os dois primeiros maus e irresponsáveis, e o terceiro, a que chamam Tolo, com bom coração. Os dois primeiros partem em busca de aventuras e, quando não regressam, o terceiro vai à sua procura, encontra-os, impede-os de fazer variadas malfeitorias a uma série de animaizinhos humildes entre os quais, sim, contam-se abelhas. E depois é hora de serem capturados e postos à prova, prova essa que os dois primeiros são incapazes de ultrapassar e pagam-no sendo transformados em pedra, mas o terceiro ultrapassa graças ao auxílio da bicharada que antes poupara e lhe paga o favor.
Este é, como de resto é norma nas histórias que se servem deste cliché, um conto cautelar, advertindo contra a arrogância e a maldade, ainda que também possa ser interpretado como defendendo a ideia de que mais vale um bom tolo que um mau não tolo. Mas é, sobretudo, um conto bastante banal, repleto de elementos encontrados em (muitos) outros contos.
Contos anteriores deste livro:
Aqui, os Irmãos Grimm não parecem ter mexido muito. O conto é curto, com meras duas páginas e meia, e narra a história de três irmãos, príncipes, os dois primeiros maus e irresponsáveis, e o terceiro, a que chamam Tolo, com bom coração. Os dois primeiros partem em busca de aventuras e, quando não regressam, o terceiro vai à sua procura, encontra-os, impede-os de fazer variadas malfeitorias a uma série de animaizinhos humildes entre os quais, sim, contam-se abelhas. E depois é hora de serem capturados e postos à prova, prova essa que os dois primeiros são incapazes de ultrapassar e pagam-no sendo transformados em pedra, mas o terceiro ultrapassa graças ao auxílio da bicharada que antes poupara e lhe paga o favor.
Este é, como de resto é norma nas histórias que se servem deste cliché, um conto cautelar, advertindo contra a arrogância e a maldade, ainda que também possa ser interpretado como defendendo a ideia de que mais vale um bom tolo que um mau não tolo. Mas é, sobretudo, um conto bastante banal, repleto de elementos encontrados em (muitos) outros contos.
Contos anteriores deste livro:
Lido: Blindsight
Ler este livro foi mais ou menos acidental. O que pretendia ler era o terceiro e último da série Rifters, também do Peter Watts, e peguei neste Blindsight, distraído, julgando ser o livro certo. Pus-me a ler. Não era. Mas não consegui pô-lo de lado.
Estou em crer que o principal motivo para isso é tratar-se de uma boa e hard ficção científica espacial, e eu já andar com saudades de ler uma boa e hard ficção científica espacial — a última que tinha lido foi O Jogo Final, do Card, já há mais de um ano. Mas este romance é mais hard que o livro de Card. Não sei bem é se é melhor. Mas olhem que é bem capaz de ser.
Uma coisa é certa: é menos juvenil. Povoado pela mesma espécie de personagens quebradas que Watts apresenta na série Rifters, protagonizado por um homem que, num mundo de seres humanos melhorados, sofreu a amputação de um hemisfério cerebral para curar uma epilepsia violenta, este romance mergulha profundamente na velha questão tão típica da ficção científica: o que significa ser humano? E fá-lo, como também é muito típico da ficção científica, principalmente em pano de fundo, apesar de Watts por vezes chamar as questões filosóficas a primeiro plano.
Quando aí surgem, no primeiro plano, elas vão fazer companhia a uma história de Primeiro Contacto nos confins do Sistema Solar, que em certos momentos faz lembrar Stanislaw Lem e a sua ideia recorrente de que a inteligência alienígena não se limita a ser estranha, é mesmo incognoscível. Não tanto o Lem de Solaris, talvez, mas de certeza o Lem de Fiasco. Ou de A Voz do Dono, de certa forma.
Sim, há alienígenas. O livro praticamente começa com uma estranha forma de intrusão alienígena no planeta, enchendo os céus terrestres de microssondas que ardem na atmosfera e emitem uma enorme quantidade de informação para o espaço, localização indeterminada. Seguem-se anos de pausa e depois uma emissão claramente artificial que é captada por uma sonda terrestre, aparentemente oriunda de um cometa no cinturão de Kuiper. E toca a enviar naves para lá. Mas quando a história começa a sério é quando uma nave tripulada é súbita e bruscamente desviada do cometa para um ponto mais distante na nuvem de Oort. O que está lá? Um gigante gasoso até aí desconhecido. E em órbita desse gigante gasoso? Uma estrutura alienígena, gigantesca e praticamente incompreensível. Que os tripulantes da nave vão tentar compreender.
E esses tripulantes são gente estranha. O protagonista de cérebro amputado já referenciado, incapaz de empatia e obrigado a analisar racionalmente os sinais comportamentais dos companheiros para conseguir interagir socialmente com eles, é apenas um, e nem sequer o mais estranho. Também há uma mulher com personalidades múltiplas, por exemplo, cada qual com as suas particularidades e as suas especialidades. Mas quem leva a palma a todos os outros é o vampiro.
Sim, o vampiro.
No mundo futuro de Watts há vampiros. Não sobrenaturais, atenção: naturais. E não deixa de ser curioso que eu tenha pegado neste livro enquanto lia o do Gerson Lodi-Ribeiro com uma ideia semelhante. Não idêntica, que os vampiros de Watts são uma espécie verdadeira, resultante da evolução predatória e hematófaga de um ramo da humanidade, mas extinta, apenas devolvida à existência porque por algum motivo que não chega a ficar inteiramente claro se decidiu fazê-lo por intermédio de engenharia genética e clonagem.
Para uma expedição daquelas, no entanto, uma expedição que terá de lidar com o desconhecido e o imponderável, um vampiro é o ideal. Porque é uma criatura mais inteligente que os humanos normais, ou mesmo que os aditivados. Porque tem uma mente diferente, mais declaradamente predatória, mais fria na análise e implacável na ação. Quase tão alienígena como as dos alienígenas.
Pelo menos é essa a ideia a priori. A realidade... bem...
A realidade é que os alienígenas são muito alienígenas. Encontrados bem longe da Terra, em órbita de um planeta gigante até aí desconhecido, mergulhado nas profundezas sem luz da Nuvem de Oort, os alienígenas constroem uma estação espacial, ou uma nave espacial, dotada de tecnologia aparentemente viva e capaz de manipular a seu bel-prazer campos magnéticos extraordinariamente intensos. Mas quem são? O que são? O que pretendem? Será possível comunicar com eles? Encetar relações pacíficas?
O grosso do enredo narra as várias tentativas e fases por que passa o contacto entre as duas espécies, e as duas naves, da simples troca de mensagens a uma sucessão de ilusões e intrusões que vão acabar por chegar a um desfecho praticamente inevitável. Simultaneamente, Watts usa a natureza colonial dos alienígenas, a par das características invulgares dos tripulantes da nave terrestre, para explorar a fundo o que se entende por consciência, livre-arbítrio e inteligência, quais os seus limites, e até que ponto são influenciadas pela capacidade dos nossos sentidos se aperceberem do mundo. É que se os terrestres são estranhos, os ETs são-no muito mais. Watts, sempre biólogo marinho mesmo quando escreve sobre o espaço, baseia-se nos pólipos para criar uma espécie de alienígenas tecnológicos desprovida de sistema nervoso central e da maior parte dos órgãos de sentidos que nos são familiares. E acaba a escrever sobre a cegueira.
É por via da cegueira que este romance mais se aproxima das obras de Lem que refiro acima. Porque cada uma das duas espécies (mas especialmente a humana) está limitada àquilo que os respetivos sistemas sensoriais lhe permite captar. Não que seja incapaz de se aperceber tecnologicamente do resto, mas há milhões de anos de evolução a adaptar as vias de raciocínio a determinadas características sensoriais, tratando-as como absolutas, ao ponto de deixar as pobres criaturas dotadas dessas vias de raciocínio completamente cegas para tudo aquilo que lhes fuja. E isso tem consequências quando enfrentamos um choque de cegueiras.
Este é um romance complexo, sofisticado e inteligente sobre as nossas limitações enquanto seres humanos e sobretudo enquanto seres biológicos, um ótimo exemplo do que a ficção científica consegue ser quando quem a escreve sabe o que está a fazer. Não direi que é excelente, mas digo que é muito bom, mesmo muito bom, e que lhe falta um niquinho de nada para ser mesmo excelente. Ótima leitura para todos os que não se deixam desencorajar pela FC mais densa no que toca a terminologia científica. Recomendo vivamente. E ainda por cima é uma ótima e recomendável leitura que está livremente disponível na internet, aqui, numa série de formatos. Eu cá li o livro em epub.
Estou em crer que o principal motivo para isso é tratar-se de uma boa e hard ficção científica espacial, e eu já andar com saudades de ler uma boa e hard ficção científica espacial — a última que tinha lido foi O Jogo Final, do Card, já há mais de um ano. Mas este romance é mais hard que o livro de Card. Não sei bem é se é melhor. Mas olhem que é bem capaz de ser.
Uma coisa é certa: é menos juvenil. Povoado pela mesma espécie de personagens quebradas que Watts apresenta na série Rifters, protagonizado por um homem que, num mundo de seres humanos melhorados, sofreu a amputação de um hemisfério cerebral para curar uma epilepsia violenta, este romance mergulha profundamente na velha questão tão típica da ficção científica: o que significa ser humano? E fá-lo, como também é muito típico da ficção científica, principalmente em pano de fundo, apesar de Watts por vezes chamar as questões filosóficas a primeiro plano.
Quando aí surgem, no primeiro plano, elas vão fazer companhia a uma história de Primeiro Contacto nos confins do Sistema Solar, que em certos momentos faz lembrar Stanislaw Lem e a sua ideia recorrente de que a inteligência alienígena não se limita a ser estranha, é mesmo incognoscível. Não tanto o Lem de Solaris, talvez, mas de certeza o Lem de Fiasco. Ou de A Voz do Dono, de certa forma.
Sim, há alienígenas. O livro praticamente começa com uma estranha forma de intrusão alienígena no planeta, enchendo os céus terrestres de microssondas que ardem na atmosfera e emitem uma enorme quantidade de informação para o espaço, localização indeterminada. Seguem-se anos de pausa e depois uma emissão claramente artificial que é captada por uma sonda terrestre, aparentemente oriunda de um cometa no cinturão de Kuiper. E toca a enviar naves para lá. Mas quando a história começa a sério é quando uma nave tripulada é súbita e bruscamente desviada do cometa para um ponto mais distante na nuvem de Oort. O que está lá? Um gigante gasoso até aí desconhecido. E em órbita desse gigante gasoso? Uma estrutura alienígena, gigantesca e praticamente incompreensível. Que os tripulantes da nave vão tentar compreender.
E esses tripulantes são gente estranha. O protagonista de cérebro amputado já referenciado, incapaz de empatia e obrigado a analisar racionalmente os sinais comportamentais dos companheiros para conseguir interagir socialmente com eles, é apenas um, e nem sequer o mais estranho. Também há uma mulher com personalidades múltiplas, por exemplo, cada qual com as suas particularidades e as suas especialidades. Mas quem leva a palma a todos os outros é o vampiro.
Sim, o vampiro.
No mundo futuro de Watts há vampiros. Não sobrenaturais, atenção: naturais. E não deixa de ser curioso que eu tenha pegado neste livro enquanto lia o do Gerson Lodi-Ribeiro com uma ideia semelhante. Não idêntica, que os vampiros de Watts são uma espécie verdadeira, resultante da evolução predatória e hematófaga de um ramo da humanidade, mas extinta, apenas devolvida à existência porque por algum motivo que não chega a ficar inteiramente claro se decidiu fazê-lo por intermédio de engenharia genética e clonagem.
Para uma expedição daquelas, no entanto, uma expedição que terá de lidar com o desconhecido e o imponderável, um vampiro é o ideal. Porque é uma criatura mais inteligente que os humanos normais, ou mesmo que os aditivados. Porque tem uma mente diferente, mais declaradamente predatória, mais fria na análise e implacável na ação. Quase tão alienígena como as dos alienígenas.
Pelo menos é essa a ideia a priori. A realidade... bem...
A realidade é que os alienígenas são muito alienígenas. Encontrados bem longe da Terra, em órbita de um planeta gigante até aí desconhecido, mergulhado nas profundezas sem luz da Nuvem de Oort, os alienígenas constroem uma estação espacial, ou uma nave espacial, dotada de tecnologia aparentemente viva e capaz de manipular a seu bel-prazer campos magnéticos extraordinariamente intensos. Mas quem são? O que são? O que pretendem? Será possível comunicar com eles? Encetar relações pacíficas?
O grosso do enredo narra as várias tentativas e fases por que passa o contacto entre as duas espécies, e as duas naves, da simples troca de mensagens a uma sucessão de ilusões e intrusões que vão acabar por chegar a um desfecho praticamente inevitável. Simultaneamente, Watts usa a natureza colonial dos alienígenas, a par das características invulgares dos tripulantes da nave terrestre, para explorar a fundo o que se entende por consciência, livre-arbítrio e inteligência, quais os seus limites, e até que ponto são influenciadas pela capacidade dos nossos sentidos se aperceberem do mundo. É que se os terrestres são estranhos, os ETs são-no muito mais. Watts, sempre biólogo marinho mesmo quando escreve sobre o espaço, baseia-se nos pólipos para criar uma espécie de alienígenas tecnológicos desprovida de sistema nervoso central e da maior parte dos órgãos de sentidos que nos são familiares. E acaba a escrever sobre a cegueira.
É por via da cegueira que este romance mais se aproxima das obras de Lem que refiro acima. Porque cada uma das duas espécies (mas especialmente a humana) está limitada àquilo que os respetivos sistemas sensoriais lhe permite captar. Não que seja incapaz de se aperceber tecnologicamente do resto, mas há milhões de anos de evolução a adaptar as vias de raciocínio a determinadas características sensoriais, tratando-as como absolutas, ao ponto de deixar as pobres criaturas dotadas dessas vias de raciocínio completamente cegas para tudo aquilo que lhes fuja. E isso tem consequências quando enfrentamos um choque de cegueiras.
Este é um romance complexo, sofisticado e inteligente sobre as nossas limitações enquanto seres humanos e sobretudo enquanto seres biológicos, um ótimo exemplo do que a ficção científica consegue ser quando quem a escreve sabe o que está a fazer. Não direi que é excelente, mas digo que é muito bom, mesmo muito bom, e que lhe falta um niquinho de nada para ser mesmo excelente. Ótima leitura para todos os que não se deixam desencorajar pela FC mais densa no que toca a terminologia científica. Recomendo vivamente. E ainda por cima é uma ótima e recomendável leitura que está livremente disponível na internet, aqui, numa série de formatos. Eu cá li o livro em epub.
sexta-feira, 14 de junho de 2019
Valter Marques: Interplanetas
Eu pertenço assumidamente àquele grupo de leitores que entre a forma literária e o conteúdo da literatura pendem para este último. Mas não sou radical. Ou seja, sou perfeitamente capaz de apreciar uma peça literária sobretudo pela sua forma, desde que o conteúdo não seja nulo ou absolutamente desinteressante. E, mais importante do que isso, pela parte que me toca há poucas coisas que mais contribuem para destruir a fruição de uma história do que as falhas no manejo da linguagem. Isto é, eu prefiro o conteúdo à forma, sim, mas há um limiar mínimo de forma abaixo do qual as coisas pura e simplesmente não funcionam.
E uma das coisas que mais me irrita a experiência de leitura são os saltos contínuos e sem qualquer justificação entre tempos narrativos. Sem qualquer justificação, sublinhe-se: por vezes há efeitos literários que necessitam desse tipo de salto, justificando-o; uma analepse pode ser escrita no pretérito mais-que-perfeito, por exemplo, funcionando como bolha num texto genericamente escrito noutro pretérito ou no presente. Mas quando não existe justificação para a história andar constantemente a saltar entre narrativa no presente e no passado, eu trepo paredes.
E sim, foi precisamente isso o que aconteceu neste Interplanetas (bibliografia). Um exemplo ao calhas (itálicos meus), entre muitos possíveis: «BRUUM! Dolores desperta com o estrondo. Escuta. Agora que estava acordada, começou a ter dúvidas se ouvira o tal barulho ou se fora um produto do seu sonho.»
Esta é uma falha que para mim é grave na prosa de Valter Marques. E não é a única; apesar de se tratar de um autor com algum potencial, esse potencial não estava ainda desenvolvido quando escreveu e publicou esta história, tanto em termos de prosa propriamente dita, como no que toca ao desenvolvimento do enredo, pois esta história deixa uma enorme sensação de coisa indecisa, que não sabe bem o que quer ser.
Começa como conto intimista, sobre uma mulher que está farta da vida que leva e resolve simplesmente partir para parte incerta. A páginas tantas transforma-se em história de terror mas sem realmente conseguir criar uma ligação emocional com quem lê (ou pelo menos com este leitor), quando ela entra numa estranha carruagem de um estranho comboio, na qual inicialmente se acha sozinha e da qual não consegue sair, e onde algum tempo mais tarde recebe a companhia de lobisomens. Mais adiante aparecem os ares de ficção científica que explicam o título: aquilo onde a mulher entrara, afinal, é a "composição ferroviária InterPlanetas, com destino à Grande Nebulosa de Fartolon". E o conto termina de forma desastrosa, com o autor a inserir-se nele sem qualquer motivo, a não ser ironizar-se autor famoso e peneirento.
O resultado de tudo isto é uma história que tem alguns elementos interessantes mas é muito pior do que esses elementos a poderiam levar a ser. Um conto bastante mauzinho.
Conto anterior desta publicação:
E uma das coisas que mais me irrita a experiência de leitura são os saltos contínuos e sem qualquer justificação entre tempos narrativos. Sem qualquer justificação, sublinhe-se: por vezes há efeitos literários que necessitam desse tipo de salto, justificando-o; uma analepse pode ser escrita no pretérito mais-que-perfeito, por exemplo, funcionando como bolha num texto genericamente escrito noutro pretérito ou no presente. Mas quando não existe justificação para a história andar constantemente a saltar entre narrativa no presente e no passado, eu trepo paredes.
E sim, foi precisamente isso o que aconteceu neste Interplanetas (bibliografia). Um exemplo ao calhas (itálicos meus), entre muitos possíveis: «BRUUM! Dolores desperta com o estrondo. Escuta. Agora que estava acordada, começou a ter dúvidas se ouvira o tal barulho ou se fora um produto do seu sonho.»
Esta é uma falha que para mim é grave na prosa de Valter Marques. E não é a única; apesar de se tratar de um autor com algum potencial, esse potencial não estava ainda desenvolvido quando escreveu e publicou esta história, tanto em termos de prosa propriamente dita, como no que toca ao desenvolvimento do enredo, pois esta história deixa uma enorme sensação de coisa indecisa, que não sabe bem o que quer ser.
Começa como conto intimista, sobre uma mulher que está farta da vida que leva e resolve simplesmente partir para parte incerta. A páginas tantas transforma-se em história de terror mas sem realmente conseguir criar uma ligação emocional com quem lê (ou pelo menos com este leitor), quando ela entra numa estranha carruagem de um estranho comboio, na qual inicialmente se acha sozinha e da qual não consegue sair, e onde algum tempo mais tarde recebe a companhia de lobisomens. Mais adiante aparecem os ares de ficção científica que explicam o título: aquilo onde a mulher entrara, afinal, é a "composição ferroviária InterPlanetas, com destino à Grande Nebulosa de Fartolon". E o conto termina de forma desastrosa, com o autor a inserir-se nele sem qualquer motivo, a não ser ironizar-se autor famoso e peneirento.
O resultado de tudo isto é uma história que tem alguns elementos interessantes mas é muito pior do que esses elementos a poderiam levar a ser. Um conto bastante mauzinho.
Conto anterior desta publicação:
quinta-feira, 13 de junho de 2019
Fernão Mendes Pinto: E Tais Pancadas Tem a Costa da China
Toda a gente tem lacunas na sua cultura geral e eu, evidentemente, não sou nenhuma exceção. Há livros que apesar de há muito tempo me despertarem curiosidade, por um motivo ou por outro ainda não li, e alguns desses livros são daqueles clássicos que toda a gente devia ler (outros são clássicos mais privados, e outros não são nem uma coisa nem a outra). Um desses livros é a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto.
Pois bem: já não me falta tudo. É que este E Tais Pancadas tem a Costa da China, um dos livrinhos genericamente dedicados ao mar publicados pela Expo'98, é um excerto da Peregrinação. Não em versão original, mas numa versão de Maria Alberta Menéres, ainda que esta se pareça ter limitado a transportar o português quinhentista de Fernão Mendes Pinto para os nossos dias.
Não sei, naturalmente, até que ponto este texto é representativo da Peregrinação como um todo, ainda que por algumas coisas que tenho lido por aí (principalmente antes de ler isto) até parece sê-lo bastante. Relato de viagens e aventuras, este livrinho descreve vários episódios de conflitos, batalhas, tempestades, raptos, saques e resgates levados a cabo por uma frota portuguesa, tripulada em parte por povos aliados, em vários pontos das costas chinesas. Se todo o livro de Fernão Mendes Pinto for assim, será decerto muitíssimo interessante.
Por isso, creio eu, enquanto estava a ler as páginas desta publicação fui sendo repetidamente assaltado por uma interrogação: por que estranho motivo, havendo este material de base e um manancial de outras grandes aventuras marítimas, quer nos sisudos livros de história, quer em páginas de enciclopédias e noutro material de divulgação mais genérico, praticamente não existe em Portugal uma tradição de literatura de aventuras em terras exóticas? Semelhante à que existe no Reino Unido ou em França? Material, decididamente, não nos falta; na verdade até temos um período mais amplo do que eles para explorar. Portanto por que raios nunca o explorámos?!
Não tenho resposta para isto. Mas é bem possível que as razões sejam as mesmas que levaram à quase inexistência de outras formas de contar histórias mais centradas no enredo do que na forma literária ou na exploração intimista (ou umbiguista) da psicologia das personagens, como a ficção científica ou a fantasia. O certo é que por este exemplo já fica claro que Fernão Mendes Pinto sabia juntar as duas coisas, enredo e forma, o que só aumenta a perplexidade por tão poucos outros autores terem tentado fazer o mesmo. Depois de o ler, fiquei com mais vontade de ler mesmo a Peregrinação. Este é um bom livrinho.
Este livro foi disponibilizado gratuitamente em PDF pelo Instituto Camões e pode ser descarregado, por exemplo, daqui. (Os restantes volumes da coleção estão acessíveis neste link).
Pois bem: já não me falta tudo. É que este E Tais Pancadas tem a Costa da China, um dos livrinhos genericamente dedicados ao mar publicados pela Expo'98, é um excerto da Peregrinação. Não em versão original, mas numa versão de Maria Alberta Menéres, ainda que esta se pareça ter limitado a transportar o português quinhentista de Fernão Mendes Pinto para os nossos dias.
Não sei, naturalmente, até que ponto este texto é representativo da Peregrinação como um todo, ainda que por algumas coisas que tenho lido por aí (principalmente antes de ler isto) até parece sê-lo bastante. Relato de viagens e aventuras, este livrinho descreve vários episódios de conflitos, batalhas, tempestades, raptos, saques e resgates levados a cabo por uma frota portuguesa, tripulada em parte por povos aliados, em vários pontos das costas chinesas. Se todo o livro de Fernão Mendes Pinto for assim, será decerto muitíssimo interessante.
Por isso, creio eu, enquanto estava a ler as páginas desta publicação fui sendo repetidamente assaltado por uma interrogação: por que estranho motivo, havendo este material de base e um manancial de outras grandes aventuras marítimas, quer nos sisudos livros de história, quer em páginas de enciclopédias e noutro material de divulgação mais genérico, praticamente não existe em Portugal uma tradição de literatura de aventuras em terras exóticas? Semelhante à que existe no Reino Unido ou em França? Material, decididamente, não nos falta; na verdade até temos um período mais amplo do que eles para explorar. Portanto por que raios nunca o explorámos?!
Não tenho resposta para isto. Mas é bem possível que as razões sejam as mesmas que levaram à quase inexistência de outras formas de contar histórias mais centradas no enredo do que na forma literária ou na exploração intimista (ou umbiguista) da psicologia das personagens, como a ficção científica ou a fantasia. O certo é que por este exemplo já fica claro que Fernão Mendes Pinto sabia juntar as duas coisas, enredo e forma, o que só aumenta a perplexidade por tão poucos outros autores terem tentado fazer o mesmo. Depois de o ler, fiquei com mais vontade de ler mesmo a Peregrinação. Este é um bom livrinho.
Este livro foi disponibilizado gratuitamente em PDF pelo Instituto Camões e pode ser descarregado, por exemplo, daqui. (Os restantes volumes da coleção estão acessíveis neste link).
terça-feira, 11 de junho de 2019
Maria de Menezes: Tour de Main
Uma das coisas em que a literatura, nomeadamente a fantástica, tem sido fértil nos últimos anos são as releituras e adaptações dos contos de fadas. E geralmente não de uns contos de fadas quaisquer, pois raros são os contos e romances criados com essa base que fogem dos contos mais conhecidos, seja por via das versões originais, seja por via das adaptações mais ou menos disneycas que eles foram tendo ao longo das décadas. E não me citem, mas desconfio que mais por via das segundas que das primeiras.
Não surpreenderei ninguém, suponho, se disser que este Tour de Main (bibliografia), de Maria de Menezes, é uma dessas releituras.
E é uma releitura moderna, apesar de não perder a marca de fantasia. Uma releitura da história da Cinderela na qual a jovem Cinderela (que mantém o nome) não é uma desgraçada que tenta sobreviver sob o jugo da madrasta e das filhas desta, mas uma betinha muito betinha que se limita a não ter pachorra para aturar "as bruxas" mas tirando isso tem uma rica vidinha de privilégio. Privilégio esse que se estende "às bruxas", naturalmente, as quais são tão ou mais betinhas do que ela. Umas perfeitas tias de Cascais, távere?
Nisto aparece a fada, aflitinha, porque a piquena Cinderela tem de ir a uma fêsta qualquer no Algarve, onde vai estar um príncipe, távere?, e ela tem de ir que é pa casar com ele e viver a vida toda em caturraira. Cinderela não está muito pelos ajustes, não percebe que raio de mulher é aquela que lhe aparece de repente à frente e o que anda ela a fazer a gatos e outras coisas, transformando isto em aquilo e aquilo em aqueloutro, muito fartinha. O tom é, sim, humorístico. E sim, o conto está bem escrito. Mas a repetição de gags (como do gato, que é transformado em cocheiro podre de bom e não para de tentar levar a Cinderela para a cama... não tive paciência para contar, mas esse gag repete-se muitas vezes) faz com que depressa se torne também cansativo, pior do que poderia ser.
Sim, este conto tinha potencial para ser bastante melhor. A desconstrução do velho conto de fadas e do machismo a ele inerente em clima de poder feminino («Quero lá saber do príncipe! Eu tenho vida própria!» é algo que a protagonista não diz mas podia perfeitamente ter dito) é intrinsecamente interessante, mas as gracinhas repetitivas e com pouca graça soterram esse interesse em camadas de irrelevância, mesmo admitindo que a mesma subjetividade do humor que me levou a encontrar pouca graça nas gracinhas poderá levar outros leitores a rebolar de riso incontrolável. O conto não é mau. Mas também não me parece que seja bom.
Contos anteriores deste livro:
Não surpreenderei ninguém, suponho, se disser que este Tour de Main (bibliografia), de Maria de Menezes, é uma dessas releituras.
E é uma releitura moderna, apesar de não perder a marca de fantasia. Uma releitura da história da Cinderela na qual a jovem Cinderela (que mantém o nome) não é uma desgraçada que tenta sobreviver sob o jugo da madrasta e das filhas desta, mas uma betinha muito betinha que se limita a não ter pachorra para aturar "as bruxas" mas tirando isso tem uma rica vidinha de privilégio. Privilégio esse que se estende "às bruxas", naturalmente, as quais são tão ou mais betinhas do que ela. Umas perfeitas tias de Cascais, távere?
Nisto aparece a fada, aflitinha, porque a piquena Cinderela tem de ir a uma fêsta qualquer no Algarve, onde vai estar um príncipe, távere?, e ela tem de ir que é pa casar com ele e viver a vida toda em caturraira. Cinderela não está muito pelos ajustes, não percebe que raio de mulher é aquela que lhe aparece de repente à frente e o que anda ela a fazer a gatos e outras coisas, transformando isto em aquilo e aquilo em aqueloutro, muito fartinha. O tom é, sim, humorístico. E sim, o conto está bem escrito. Mas a repetição de gags (como do gato, que é transformado em cocheiro podre de bom e não para de tentar levar a Cinderela para a cama... não tive paciência para contar, mas esse gag repete-se muitas vezes) faz com que depressa se torne também cansativo, pior do que poderia ser.
Sim, este conto tinha potencial para ser bastante melhor. A desconstrução do velho conto de fadas e do machismo a ele inerente em clima de poder feminino («Quero lá saber do príncipe! Eu tenho vida própria!» é algo que a protagonista não diz mas podia perfeitamente ter dito) é intrinsecamente interessante, mas as gracinhas repetitivas e com pouca graça soterram esse interesse em camadas de irrelevância, mesmo admitindo que a mesma subjetividade do humor que me levou a encontrar pouca graça nas gracinhas poderá levar outros leitores a rebolar de riso incontrolável. O conto não é mau. Mas também não me parece que seja bom.
Contos anteriores deste livro:
segunda-feira, 10 de junho de 2019
Irmãos Grimm: O Campónio
E mais uma vez, idiotas.
Desta feita, no entanto, e contrariamente ao que é hábito nos contos dos Irmãos Grimm, a história é vagamente subversiva. O Campónio do título é um camponês pobre, o único da sua aldeia, cheia de camponeses ricos. Por ser o único pobre era desprezado por todos os demais, mas no decorrer da história vamo-nos apercebendo de que, não sendo ele propriamente uma inteligência, ainda que seja dotado de alguma astúcia e manha, os camponeses ricos da aldeia é que eram um verdadeiro bando de cretinos que se deixavam enganar com qualquer manigância, por mais básica que fosse.
Digo ali em cima que o conto é vagamente subversivo, mas é muito claramente um conto cruel, pois a moral da história parece ser que a estupidez é fatal. Não é moral com que eu antipatize, confesso, porque muitas vezes é mesmo. Mas, bolas, escusava de morrer a aldeia inteira, não? É que é assim que este conto popular acaba, um conto que não tem magia desde que não achemos que uma aldeia inteira de gente rica mas muito, muito burra só pode existir por artes mágicas: toda a aldeia morre afogada e o campónio, único herdeiro de todos os outros (porquê? O conto não diz), e que os engana fatalmente sem o menor peso na consciência, fica rico.
E sim, não se enganam, também é um conto que oculta atrás do humor uma quantidade nada irrelevante de cinismo. Não é propriamente uma história educativa, esta, ainda que talvez tenha sido essa a ideia original.
Contos anteriores deste livro:
Desta feita, no entanto, e contrariamente ao que é hábito nos contos dos Irmãos Grimm, a história é vagamente subversiva. O Campónio do título é um camponês pobre, o único da sua aldeia, cheia de camponeses ricos. Por ser o único pobre era desprezado por todos os demais, mas no decorrer da história vamo-nos apercebendo de que, não sendo ele propriamente uma inteligência, ainda que seja dotado de alguma astúcia e manha, os camponeses ricos da aldeia é que eram um verdadeiro bando de cretinos que se deixavam enganar com qualquer manigância, por mais básica que fosse.
Digo ali em cima que o conto é vagamente subversivo, mas é muito claramente um conto cruel, pois a moral da história parece ser que a estupidez é fatal. Não é moral com que eu antipatize, confesso, porque muitas vezes é mesmo. Mas, bolas, escusava de morrer a aldeia inteira, não? É que é assim que este conto popular acaba, um conto que não tem magia desde que não achemos que uma aldeia inteira de gente rica mas muito, muito burra só pode existir por artes mágicas: toda a aldeia morre afogada e o campónio, único herdeiro de todos os outros (porquê? O conto não diz), e que os engana fatalmente sem o menor peso na consciência, fica rico.
E sim, não se enganam, também é um conto que oculta atrás do humor uma quantidade nada irrelevante de cinismo. Não é propriamente uma história educativa, esta, ainda que talvez tenha sido essa a ideia original.
Contos anteriores deste livro:
domingo, 9 de junho de 2019
Leiturtugas da semana #23
E de novo fui eu quem inaugurou esta semana a lista de posts integrados nas Leiturtugas, com a minha opinião sobre o livro de Contos de Eça de Queirós, que li numa edição já com várias décadas dos livros de bolso da Europa-América. O livro tem fantástico, tem fantasia, mas não tem ficção científica, pelo que eu passo a 3c6s.
Mas esta semana não estive sozinho, que a Carla Ribeiro veio fazer-me companhia publicando a sua opinião sobre O Outro Lado de Z, um álbum de banda desenhada de Nuno Duarte e Mosi publicado por uma série de gente: Kingpin Books, Comic Heart e G. Floy. A BD é de fantasia, mas mesmo que fosse de FC as BDs contariam sempre como sem FC, pelo que a Carla passa a 1c1s.
E por esta semana é só. Ah, e passo-vos a bola, caros participantes, porque eu de momento não tenho nenhuma leiturtuga na calha imediata, pelo que agora é convosco durante uns tempos.
Mas esta semana não estive sozinho, que a Carla Ribeiro veio fazer-me companhia publicando a sua opinião sobre O Outro Lado de Z, um álbum de banda desenhada de Nuno Duarte e Mosi publicado por uma série de gente: Kingpin Books, Comic Heart e G. Floy. A BD é de fantasia, mas mesmo que fosse de FC as BDs contariam sempre como sem FC, pelo que a Carla passa a 1c1s.
E por esta semana é só. Ah, e passo-vos a bola, caros participantes, porque eu de momento não tenho nenhuma leiturtuga na calha imediata, pelo que agora é convosco durante uns tempos.
sábado, 8 de junho de 2019
Jorge Luis Borges: O Livro de Areia
E cá estamos nós às voltas com a noção do infinito e os paradoxos fantásticos que Jorge Luis Borges tão genialmente foi tecendo à volta dela e ao longo de toda a sua obra.
E "genialmente" não é uma palavra posta aqui por acaso: este O Livro de Areia é um conto rigorosamente genial. Em cuja meia dúzia de páginas Borges cria o objeto infinito da vez e explora as consequências da sua posse para o seu protagonista/narrador. O objeto infinito da vez é, claro, o livro de areia, que não é propriamente de areia pois a areia aqui é uma analogia. O livro parece um livro comum, mas contém todas as páginas possíveis de todos os livros possíveis, uma quantidade tão inumerável como os grãos de areia que existem no universo. O problema? Nunca se sabe que páginas estão de momento acessíveis antes de o abrir e, uma fez fechado, é impossível voltar a encontrar o ponto em que se fechou.
Tudo isto confere ao livro uma raridade absoluta, e por conseguinte um valor também absoluto. E o protagonista desta história age em conformidade, adquirindo-o. Mas há uma espécie de maldição na posse de coisas valiosas, e essa maldição tem consequências. Borges não foge delas, bem pelo contrário, e o final da sua história é tão inevitável quanto inesperado. Tudo magnífico. Este é um grande conto.
Contos anteriores deste livro:
E "genialmente" não é uma palavra posta aqui por acaso: este O Livro de Areia é um conto rigorosamente genial. Em cuja meia dúzia de páginas Borges cria o objeto infinito da vez e explora as consequências da sua posse para o seu protagonista/narrador. O objeto infinito da vez é, claro, o livro de areia, que não é propriamente de areia pois a areia aqui é uma analogia. O livro parece um livro comum, mas contém todas as páginas possíveis de todos os livros possíveis, uma quantidade tão inumerável como os grãos de areia que existem no universo. O problema? Nunca se sabe que páginas estão de momento acessíveis antes de o abrir e, uma fez fechado, é impossível voltar a encontrar o ponto em que se fechou.
Tudo isto confere ao livro uma raridade absoluta, e por conseguinte um valor também absoluto. E o protagonista desta história age em conformidade, adquirindo-o. Mas há uma espécie de maldição na posse de coisas valiosas, e essa maldição tem consequências. Borges não foge delas, bem pelo contrário, e o final da sua história é tão inevitável quanto inesperado. Tudo magnífico. Este é um grande conto.
Contos anteriores deste livro:
sexta-feira, 7 de junho de 2019
Rosário Carvalhosa: A Porta Verde
Quando peguei no livro cuja capa apresento aqui ao lado e decidi trazê-lo para casa, fi-lo motivado principalmente por uma curiosidade: será que entre estes contos haverá algum relacionado com a literatura fantástica? E, ao primeiro conto, pimba, cá está.
(Foi isso e o preço: 2€)
Rosário Carvalhosa, como de resto todos os autores aqui incluídos, segundo se depreende do prefácio do organizador da antologia, é estreante nestas andanças. E não se sai mal da estreia, pesem embora algumas fragilidades aqui e ali. A Porta Verde é um conto interessante de fantástico rural, contado sob múltiplos pontos de vista, os quais incluem não só pessoas como também objetos e umas criaturinhas mágicas chamadas "gafanas". E esta parte mais narrativa do todo está francamente bem conseguida, incluindo elementos de narrador pouco confiável, mudanças de entendimento sobre os factos com a mudança dos pontos de vida, etc.
Esta história, que tem quase um tom infanto-juvenil mas não o é declaradamente, e mesmo com a pequena mancheia de fragilidades que revela, anuncia boas coisas para as histórias subsequentes. Veremos se o anúncio se concretiza.
(Foi isso e o preço: 2€)
Rosário Carvalhosa, como de resto todos os autores aqui incluídos, segundo se depreende do prefácio do organizador da antologia, é estreante nestas andanças. E não se sai mal da estreia, pesem embora algumas fragilidades aqui e ali. A Porta Verde é um conto interessante de fantástico rural, contado sob múltiplos pontos de vista, os quais incluem não só pessoas como também objetos e umas criaturinhas mágicas chamadas "gafanas". E esta parte mais narrativa do todo está francamente bem conseguida, incluindo elementos de narrador pouco confiável, mudanças de entendimento sobre os factos com a mudança dos pontos de vida, etc.
Esta história, que tem quase um tom infanto-juvenil mas não o é declaradamente, e mesmo com a pequena mancheia de fragilidades que revela, anuncia boas coisas para as histórias subsequentes. Veremos se o anúncio se concretiza.
Italo Calvino: História de Orlando Louco por Amor
Nesta História de Orlando Louco por Amor, Italo Calvino dificulta um pouco mais o desafio a que se propôs, usando a técnica de contar histórias através das cartas de tarot para fazer referência direta a uma obra célebre da literatura medieval italiana, o épico de Matteo Maria Boiardo Orlando Innamorato.
E sai-se muito bem da empreitada, tecendo uma história de amor e violência e cavalaria medieval, que pelo que sei é fiel à obra de Boiardo, ainda que certamente não a todos os seus pormenores. Não haverá aqui muita criatividade na elaboração do enredo, mas ela é enorme na forma de adaptar uma mão de cartas a esse enredo e de o contar através dessa mão de cartas. Se é certo que algumas das histórias que já ficaram para trás não me impressionaram lá muito para além da prestidigitação do tarot como instrumento narrativo, não posso dizer o mesmo desta. Esta impressionou-me mesmo.
Contos anteriores deste livro:
E sai-se muito bem da empreitada, tecendo uma história de amor e violência e cavalaria medieval, que pelo que sei é fiel à obra de Boiardo, ainda que certamente não a todos os seus pormenores. Não haverá aqui muita criatividade na elaboração do enredo, mas ela é enorme na forma de adaptar uma mão de cartas a esse enredo e de o contar através dessa mão de cartas. Se é certo que algumas das histórias que já ficaram para trás não me impressionaram lá muito para além da prestidigitação do tarot como instrumento narrativo, não posso dizer o mesmo desta. Esta impressionou-me mesmo.
Contos anteriores deste livro:
segunda-feira, 3 de junho de 2019
Pedro Mexia: Defensor do Vínculo
Mais um conto publicado pelo DN e mais um autor que eu nunca tinha lido, o qual escreve sobre uma atividade (profissão?) de que eu nunca tinha ouvido falar. O que é, em si mesmo, interessante. Tal como interessante é verificar que tal se sai na prosa alguém cujo renome nas letras nacionais foi construído enquanto produtor de poesia.
São vários, portanto, os motivos de interesse apriorísticos que eu pude encontrar neste Defensor do Vínculo, de Pedro Mexia, um conto sobre um homem que tem a atividade que o título designa e consiste na tentativa de defender o vínculo do casamento católico contra as tentativas de dissolução de casais desavindos. Porque a igreja católica continua a não reconhecer o divórcio, pois entende que o casamento é sagrado, e não é porque um casal se divorcia civilmente que pode considerar o casamento desfeito caso se tenha casado (também) por via religiosa. Terá que procurar obter a dissolução do casamento, o que tem regras próprias e, segundo julgo ter percebido, envolve uma espécie de julgamento para avaliar se as regras são cumpridas. O defensor do vínculo será, assim, uma espécie de advogado de defesa dos sacramentos.
Para apimentar a coisa, este defensor do vínculo está com dúvidas, ou se calhar simplesmente deprimido, e o ex-casal exibe uma atitude que força a verosimilhança. Mexia vai fazendo avançar o enredo (enfim, o que aqui existe de semelhante a um enredo) de forma sonolenta e sinuosa, com frases intermináveis carregadas, como talvez fosse inevitável, de jargão jurídico e salpicadas de tiradas vagamente filosóficas. O resultado talvez seja fascinante para a malta do direito e/ou da teologia, mas está longe de o ser para mim. Não são temas que me interessem, e a abordagem de Mexia deu-me fundamentalmente sono. O conto não é mau, Mexia escreve bem, ainda que não me agrade por aí além a verbosidade sinuosa dos seus parágrafos (apesar de tudo não é nenhum Saramago, o Mexia), mas para mim funcionou como um belo soporífero. Muito me surpreenderia se ainda me lembrasse de alguma coisa sobre ele daqui a um ano.
São vários, portanto, os motivos de interesse apriorísticos que eu pude encontrar neste Defensor do Vínculo, de Pedro Mexia, um conto sobre um homem que tem a atividade que o título designa e consiste na tentativa de defender o vínculo do casamento católico contra as tentativas de dissolução de casais desavindos. Porque a igreja católica continua a não reconhecer o divórcio, pois entende que o casamento é sagrado, e não é porque um casal se divorcia civilmente que pode considerar o casamento desfeito caso se tenha casado (também) por via religiosa. Terá que procurar obter a dissolução do casamento, o que tem regras próprias e, segundo julgo ter percebido, envolve uma espécie de julgamento para avaliar se as regras são cumpridas. O defensor do vínculo será, assim, uma espécie de advogado de defesa dos sacramentos.
Para apimentar a coisa, este defensor do vínculo está com dúvidas, ou se calhar simplesmente deprimido, e o ex-casal exibe uma atitude que força a verosimilhança. Mexia vai fazendo avançar o enredo (enfim, o que aqui existe de semelhante a um enredo) de forma sonolenta e sinuosa, com frases intermináveis carregadas, como talvez fosse inevitável, de jargão jurídico e salpicadas de tiradas vagamente filosóficas. O resultado talvez seja fascinante para a malta do direito e/ou da teologia, mas está longe de o ser para mim. Não são temas que me interessem, e a abordagem de Mexia deu-me fundamentalmente sono. O conto não é mau, Mexia escreve bem, ainda que não me agrade por aí além a verbosidade sinuosa dos seus parágrafos (apesar de tudo não é nenhum Saramago, o Mexia), mas para mim funcionou como um belo soporífero. Muito me surpreenderia se ainda me lembrasse de alguma coisa sobre ele daqui a um ano.
Lido: Assessor Para Assuntos Fúnebres
Ah. O Gerson Lodi-Ribeiro trocou-me as voltas. Ao ler Morcego do Mar, a novela que antecede esta noveleta, sabendo que o protagonista destas histórias teria de vir parar a Londres para servir como Assessor Para Assuntos Fúnebres (bibliografia), deparando com navios ingleses na Baía de Boston, prontos para regressar à pátria, e assistindo ao desaparecimento do Vampiro de Palmares, supus que seria essa a forma que o Gerson tinha arranjado para levar o seu protagonista até lá. Mas não. O hiato entre uma história e outra é demasiado grande para isso, e esta história começa com uma rápida revista dos lugares por onde andou o Vampiro até ir dar à capital do Reino Unido.
E segue-se uma história com bastante interesse sobre quem poderá realmente ser o famigerado Jack the Ripper, que relação poderá haver ou deixar de haver entre ele e o Vampiro de Palmares e o que daí poderá resultar. De todas as histórias de que se compõe este romance-colagem, esta é aquela em que a ficção científica surge de forma mais clara, embora nenhum conhecedor do género possa supor que qualquer destas histórias tenha como base outra coisa que não a FC. Para não irmos mais longe, a ideia básica de naturalização dos vampiros, apresentando-os como criaturas filhas da evolução biológica e dotadas de capacidades extraordinárias e sobre-humanas mas não sobrenaturais, é inteiramente uma ideia de ficção científica.
E porque é nesta história que a FC aparece de forma mais clara? Porque o autor pega no mistério do Extripador e em alguns pormenores desse mistério, deita no caldeirão a ideia-base de naturalização de velhas histórias sobrenaturais, nomeadamente as dos vampiros, e postula que há mais uma criatura folclórica cuja base é igualmente natural, embora não deste planeta: o lobisomem. E mexe a mistura assim conseguida.
O resultado é uma história muito interessante, mas que no entanto é mais sobre o alienígena metamórfico preso há milénios na Terra depois de a sua nave se ter despenhado do que propriamente sobre o Vampiro de Palmares. É a história da investigação deste sobre aquele, é certo, mas o protagonista é o investigado, não o investigador. No fundo, esta história é uma espécie de espelho de O Vampiro de Nova Holanda. Ambas têm um mistério que em ambas acaba desvendado; em ambas uma criatura mitológica como que ganha corpo natural ao mesmo tempo que se mantém oculta da população geral, mantendo secreta a história secreta; em ambas o vampiro de Palmares marca presença, mas enquanto na presente história ele funciona como meio para a descoberta da natureza e atos do alienígena-lobisomem, na história ambientada em Nova Holanda são outros que funcionam como meio para a descoberta da natureza e atos seus, do Vampiro.
E é aí que esta história, no contexto deste livro e na posição que nele ocupa, se torna ineficaz. Isso, contudo, é conversa para quando for avaliar o livro como um todo. Aqui fala-se da história em si mesma, e essa é boa.
Contos anteriores deste livro:
E segue-se uma história com bastante interesse sobre quem poderá realmente ser o famigerado Jack the Ripper, que relação poderá haver ou deixar de haver entre ele e o Vampiro de Palmares e o que daí poderá resultar. De todas as histórias de que se compõe este romance-colagem, esta é aquela em que a ficção científica surge de forma mais clara, embora nenhum conhecedor do género possa supor que qualquer destas histórias tenha como base outra coisa que não a FC. Para não irmos mais longe, a ideia básica de naturalização dos vampiros, apresentando-os como criaturas filhas da evolução biológica e dotadas de capacidades extraordinárias e sobre-humanas mas não sobrenaturais, é inteiramente uma ideia de ficção científica.
E porque é nesta história que a FC aparece de forma mais clara? Porque o autor pega no mistério do Extripador e em alguns pormenores desse mistério, deita no caldeirão a ideia-base de naturalização de velhas histórias sobrenaturais, nomeadamente as dos vampiros, e postula que há mais uma criatura folclórica cuja base é igualmente natural, embora não deste planeta: o lobisomem. E mexe a mistura assim conseguida.
O resultado é uma história muito interessante, mas que no entanto é mais sobre o alienígena metamórfico preso há milénios na Terra depois de a sua nave se ter despenhado do que propriamente sobre o Vampiro de Palmares. É a história da investigação deste sobre aquele, é certo, mas o protagonista é o investigado, não o investigador. No fundo, esta história é uma espécie de espelho de O Vampiro de Nova Holanda. Ambas têm um mistério que em ambas acaba desvendado; em ambas uma criatura mitológica como que ganha corpo natural ao mesmo tempo que se mantém oculta da população geral, mantendo secreta a história secreta; em ambas o vampiro de Palmares marca presença, mas enquanto na presente história ele funciona como meio para a descoberta da natureza e atos do alienígena-lobisomem, na história ambientada em Nova Holanda são outros que funcionam como meio para a descoberta da natureza e atos seus, do Vampiro.
E é aí que esta história, no contexto deste livro e na posição que nele ocupa, se torna ineficaz. Isso, contudo, é conversa para quando for avaliar o livro como um todo. Aqui fala-se da história em si mesma, e essa é boa.
Contos anteriores deste livro:
Escrita de maio
Então, pá, acabaste a tal novela? Acabaste? Hã? Hã?, pergunta, ansiosíssimo, ninguém.
Não, não acabei. Nem um capítulo dela acabei durante o mês de maio, apesar de lhe ter acrescentado mais de 3900 palavras. Umas 12 páginas. É possível que este capítulo venha a precisar de sofrer algum desbaste durante a(s) revisão(ões), até porque ainda está bem longe de terminar. A produção do ano vai numas 50 páginas, nem todas pertencentes a este texto, mas a vasta maioria sim. Essa é a parte boa. Essa e o facto de já ir no sexto mês consecutivo de escrita regular. E de já ter escrito mais só este ano do que tudo o que escrevi desde 2013.
A parte má é que isto de escrever à volta de quatro mil palavras por mês é demasiado lento para me ver livre em tempo útil de algumas das histórias que tenho na cabeça. Há por aqui pelo menos dois romances, e assim nem daqui a dez anos. Mas pronto, é melhor que nada. E, agora que acabei uma tradução (falta a revisão), vou ter mais tempo livre, pelo que pode ser que a coisa acelere.
No fim de junho veremos se acelerou mesmo, e quanto. Até lá.
Ah, sim, ia-me esquecendo. Decidi que quando acabar isto vai haver uma surpresazinha. Não sei bem ainda qual, nem o modo concreto de a concretizar, passe o pleonasmo, mas é mais uma cenourinha para espevitar o burrico. Arre bicho!
domingo, 2 de junho de 2019
Lido: Contos (#leiturtugas)
Para quem gosta de literatura fantástica e conhece Eça de Queirós como um (grande) romancista realista, a primeira coisa que salta à vista quando se lê estes Contos (bibliografia) é a quantidade relativamente grande de contos fantásticos que a coletânea contém. Não são a maioria, longe disso, mas encontrar-se 4 contos fantásticos numa coletânea de Eça será algo inesperado para quem leva uma vida a ouvir dizer que isso de ficção científica e fantasia é literatura menor que nenhum escritor sério perderia tempo a cultivar.
(E sim, há quem continue a dizê-lo, mesmo depois do nosso único Nobel da literatura ter sido essencialmente um escritor de literatura fantástica que até com a ficção científica namorou, o que eu acho, francamente, espantoso. Não que ele o seja, atenção; que quem continue a dizê-lo o faça.)
Pois bem, Eça cultivou. À sua maneira, naturalmente, indo buscar inspiração aos mitos bíblicos, aos mitos helénicos, a velhas lendas e histórias populares. Isto é, o fantástico de Eça, ao contrário do que acontece com muitos fantasistas modernos cuja inspiração é mais nórdica e anglo-saxónica que latina, está muito enraizado na cultura portuguesa e nos elementos que confluíram para a sua criação. É tão profundamente português como tudo o resto em Eça, apesar do eterno aborrecimento do autor com a pequenez pátria, o qual, diga-se de passagem, também é extremamente português.
E são em geral bons contos, ainda por cima. Os fantásticos e também os outros. Seria de esperar? Sim, até certo ponto, porque se é certo que Eça é um dos nossos grandes romancistas — há quem diga que o maior de todos e eu percebo porquê — não é menos certo que um grande romancista nem sempre corresponde a um grande contista. E vice-versa.
E creio que isso acontece com Eça. Embora os contos sejam em geral bons, raros foram os que realmente me impressionaram. Em parte, creio, porque vários destes contos são mais estudos de personagem do que propriamente narrativas destinadas a contar uma história, ao passo que nos romances Eça faz ambas as coisas com mestria. Em parte, talvez, porque há em vários uma certa dissonância entre a qualidade literária, no que toca ao puro tratamento da linguagem, e aquilo que mais apela ao meu gosto enquanto leitor. E em parte porque um ou dois destes textos me parecem corresponder a experiências não inteiramente bem sucedidas.
Por outro lado, esta opinião menos bem impressionada também talvez tenha algo a ver com quem Eça é. Não há volta a dar-lhe: quando pegamos nos textos dos gigantes, estamos sempre à espera do sublime, e se não o encontramos, porque a verdade é que as pessoas são simplesmente humanas e nem tudo o que fazem está ao nível da sua melhor produção, mesmo quando é na mesma francamente bom, a avaliação final acaba por sofrer com o excesso de expetativa. E estes contos são em geral bons. Não são, certamente, tão bons como os melhores romances de Eça, mas são bons.
Eis o que achei de cada conto:
(E sim, há quem continue a dizê-lo, mesmo depois do nosso único Nobel da literatura ter sido essencialmente um escritor de literatura fantástica que até com a ficção científica namorou, o que eu acho, francamente, espantoso. Não que ele o seja, atenção; que quem continue a dizê-lo o faça.)
Pois bem, Eça cultivou. À sua maneira, naturalmente, indo buscar inspiração aos mitos bíblicos, aos mitos helénicos, a velhas lendas e histórias populares. Isto é, o fantástico de Eça, ao contrário do que acontece com muitos fantasistas modernos cuja inspiração é mais nórdica e anglo-saxónica que latina, está muito enraizado na cultura portuguesa e nos elementos que confluíram para a sua criação. É tão profundamente português como tudo o resto em Eça, apesar do eterno aborrecimento do autor com a pequenez pátria, o qual, diga-se de passagem, também é extremamente português.
E são em geral bons contos, ainda por cima. Os fantásticos e também os outros. Seria de esperar? Sim, até certo ponto, porque se é certo que Eça é um dos nossos grandes romancistas — há quem diga que o maior de todos e eu percebo porquê — não é menos certo que um grande romancista nem sempre corresponde a um grande contista. E vice-versa.
E creio que isso acontece com Eça. Embora os contos sejam em geral bons, raros foram os que realmente me impressionaram. Em parte, creio, porque vários destes contos são mais estudos de personagem do que propriamente narrativas destinadas a contar uma história, ao passo que nos romances Eça faz ambas as coisas com mestria. Em parte, talvez, porque há em vários uma certa dissonância entre a qualidade literária, no que toca ao puro tratamento da linguagem, e aquilo que mais apela ao meu gosto enquanto leitor. E em parte porque um ou dois destes textos me parecem corresponder a experiências não inteiramente bem sucedidas.
Por outro lado, esta opinião menos bem impressionada também talvez tenha algo a ver com quem Eça é. Não há volta a dar-lhe: quando pegamos nos textos dos gigantes, estamos sempre à espera do sublime, e se não o encontramos, porque a verdade é que as pessoas são simplesmente humanas e nem tudo o que fazem está ao nível da sua melhor produção, mesmo quando é na mesma francamente bom, a avaliação final acaba por sofrer com o excesso de expetativa. E estes contos são em geral bons. Não são, certamente, tão bons como os melhores romances de Eça, mas são bons.
Eis o que achei de cada conto:
- Singularidades de uma Rapariga Loura
- Um Poeta Lírico
- No Moinho
- Civilização
- O Tesouro
- Frei Genebro
- Adão e Eva no Paraíso
- A Aia
- O Defunto
- José Matias
- A Perfeição
Irmãos Grimm: Os Dois Irmãos
Não, não, contrariamente ao que poderão supor (se forem muito distraídos ou muito sarcásticos), Os Dois Irmãos desta história não são os Irmãos Grimm que a escreveram amalgamando uma série de histórias diferentes.
Trata-se de um conto incaracteristicamente longo sobre dois irmãos que não podiam ser mais diferentes um do outro. O rico era mau e ourives; o pobre era bom e fabricava vassouras. O enredo começa a marchar quando o pobre encontra uma pena de ouro que leva ao rico, despertando-lhe a cobiça, e segue-se uma história complexa em que entram os dois filhos gémeos do irmão pobre, o pássaro de ouro que tinha perdido a pena e depois perdeu a vida, um caçador que adota os gémeos depois do pai (que era bom, mas pelos vistos não muito) os ter abandonado na floresta, o que não os impede de viverem uma vida cheia de aventuras e de princesas e de prodígios. E eis que os dois irmãos originais passam o testemunho aos dois irmãos com que a história termina, e siga a banda a retumbar rua fora. E no fim, claro, tudo acaba em bem, à boa maneira dos contos de fadas.
O que achei mais interessante nesta história foi ter reparado num facto curioso: a complexidade não contribui em nada para a tornar mais marcante. Pelo contrário, até. Isso talvez aconteça em parte porque os Grimm a construíram a partir de elementos díspares, e por isso lhe falta um fio condutor realmente sólido, mas creio que só se encontra aqui parte da explicação. A outra parte, e talvez a parte maior, tem a ver com a própria natureza deste tipo de história. Elas tendem a funcionar tanto melhor quanto mais despojadas se mostrarem de elementos acessórios, quanto mais claras e objetivas forem não só no enredo mas também na moral subjacente. Ao contrário da maior parte da literatura, que funciona tanto melhor quanto mais complexa e/ou subtil se mostrar, as histórias populares pedem simplicidade. Não que não se possa incutir-lhes complexidade ou subtileza, mas quando isso acontece geralmente deixam de ser histórias populares e passam a ser outra coisa.
Esta história, como já terão compreendido, não é grande coisa. Os Grimm, para terem tido real sucesso nesta sua empreitada, deviam ter assumido que estavam já a escrever outra coisa, não uma história popular, tratando as várias histórias que usaram para costurar nesta mais como inspiração do que como fio condutor. Não o fazendo, ficaram com um Frankenstein literário. Um Frankenstein literário de 21 páginas que se esquecem bem depressa.
Contos anteriores deste livro:
Trata-se de um conto incaracteristicamente longo sobre dois irmãos que não podiam ser mais diferentes um do outro. O rico era mau e ourives; o pobre era bom e fabricava vassouras. O enredo começa a marchar quando o pobre encontra uma pena de ouro que leva ao rico, despertando-lhe a cobiça, e segue-se uma história complexa em que entram os dois filhos gémeos do irmão pobre, o pássaro de ouro que tinha perdido a pena e depois perdeu a vida, um caçador que adota os gémeos depois do pai (que era bom, mas pelos vistos não muito) os ter abandonado na floresta, o que não os impede de viverem uma vida cheia de aventuras e de princesas e de prodígios. E eis que os dois irmãos originais passam o testemunho aos dois irmãos com que a história termina, e siga a banda a retumbar rua fora. E no fim, claro, tudo acaba em bem, à boa maneira dos contos de fadas.
O que achei mais interessante nesta história foi ter reparado num facto curioso: a complexidade não contribui em nada para a tornar mais marcante. Pelo contrário, até. Isso talvez aconteça em parte porque os Grimm a construíram a partir de elementos díspares, e por isso lhe falta um fio condutor realmente sólido, mas creio que só se encontra aqui parte da explicação. A outra parte, e talvez a parte maior, tem a ver com a própria natureza deste tipo de história. Elas tendem a funcionar tanto melhor quanto mais despojadas se mostrarem de elementos acessórios, quanto mais claras e objetivas forem não só no enredo mas também na moral subjacente. Ao contrário da maior parte da literatura, que funciona tanto melhor quanto mais complexa e/ou subtil se mostrar, as histórias populares pedem simplicidade. Não que não se possa incutir-lhes complexidade ou subtileza, mas quando isso acontece geralmente deixam de ser histórias populares e passam a ser outra coisa.
Esta história, como já terão compreendido, não é grande coisa. Os Grimm, para terem tido real sucesso nesta sua empreitada, deviam ter assumido que estavam já a escrever outra coisa, não uma história popular, tratando as várias histórias que usaram para costurar nesta mais como inspiração do que como fio condutor. Não o fazendo, ficaram com um Frankenstein literário. Um Frankenstein literário de 21 páginas que se esquecem bem depressa.
Contos anteriores deste livro:
Leiturtugas da semana #22
Mais uma semana de leiturtugas, e mais uma vez é a mim que cabe fazer as honras do projeto, desta feita através de uma opinião sobre outro dos ebooks publicados pelo DN há uns anos. É ele Cidade Líquida, um conto de João Tordo com elementos fantásticos. Com elementos fantásticos mas sem sinal de FC, pelo que passo a 3c5s.
E de novo é só. Para a semana haverá mais.
E de novo é só. Para a semana haverá mais.
sábado, 1 de junho de 2019
Lido: 26 Macacos e Também o Abismo
Ora aqui está uma história francamente bem contada.
É nisso que este 26 Macacos e Também o Abismo (bibliografia) realmente se destaca: a forma hábil com que a americana Kij Johnson, que nunca antes me tinha passado pelas mãos, vai desenrolando o novelo deste conto, ora lançando aqui uma afirmação insólita que espevita a curiosidade sobre o que poderá estar ela a contar, ora deixando cair acolá uma explanação que responde a duas ou três dúvidas ao mesmo tempo que cria mais duas ou três e deslocando-se sinuosamente para trás e para a frente no tempo, muitas vezes atrás dos seus macacos.
Sim, os macacos são vinte e seis, e de uma variedade de espécies, aos quais há que se somar a tratadora / ilusionista que com eles apresenta um número de desaparecimento em banheira, numa daquelas feiras que percorrem os Estados Unidos. Se bem que a tratadora de pouco trate e as ilusões que a ilusionista vende sejam mais a ilusão da inexistência de magia do que a da sua existência. É que, para sua grande confusão, e por mais que lhe espevite futilmente a curiosidade, os macacos desaparecem mesmo da banheira onde se recolhem, voltando a aparecer horas mais tarde, no autocarro que os transporta de uma cidade à seguinte, sem que ninguém saiba por onde andaram. Só eles, talvez.
É a história do mistério e o lento e sinuoso desvendar do que desse mistério a mulher foi sabendo que funciona como motor do conto. E também a história de como ela deu por si responsável por aquele número, herdando-o de uma forma compulsória do seu antigo dono, o qual lho vende por um dólar, e de como acaba por se livrar dele, anos mais tarde, de uma forma muito semelhante. Uma história contada com grande competência, como ficou expresso acima. Gostei bastante deste conto. Talvez não tenha gostado muito, mas sim, gostei bastante. É bastante bom.
É nisso que este 26 Macacos e Também o Abismo (bibliografia) realmente se destaca: a forma hábil com que a americana Kij Johnson, que nunca antes me tinha passado pelas mãos, vai desenrolando o novelo deste conto, ora lançando aqui uma afirmação insólita que espevita a curiosidade sobre o que poderá estar ela a contar, ora deixando cair acolá uma explanação que responde a duas ou três dúvidas ao mesmo tempo que cria mais duas ou três e deslocando-se sinuosamente para trás e para a frente no tempo, muitas vezes atrás dos seus macacos.
Sim, os macacos são vinte e seis, e de uma variedade de espécies, aos quais há que se somar a tratadora / ilusionista que com eles apresenta um número de desaparecimento em banheira, numa daquelas feiras que percorrem os Estados Unidos. Se bem que a tratadora de pouco trate e as ilusões que a ilusionista vende sejam mais a ilusão da inexistência de magia do que a da sua existência. É que, para sua grande confusão, e por mais que lhe espevite futilmente a curiosidade, os macacos desaparecem mesmo da banheira onde se recolhem, voltando a aparecer horas mais tarde, no autocarro que os transporta de uma cidade à seguinte, sem que ninguém saiba por onde andaram. Só eles, talvez.
É a história do mistério e o lento e sinuoso desvendar do que desse mistério a mulher foi sabendo que funciona como motor do conto. E também a história de como ela deu por si responsável por aquele número, herdando-o de uma forma compulsória do seu antigo dono, o qual lho vende por um dólar, e de como acaba por se livrar dele, anos mais tarde, de uma forma muito semelhante. Uma história contada com grande competência, como ficou expresso acima. Gostei bastante deste conto. Talvez não tenha gostado muito, mas sim, gostei bastante. É bastante bom.
Carla Ribeiro: Duelo
Com a ressalva habitual sobre eu pouco perceber de poesia, e patati, e patata, este Duelo (bibliografia) da Carla Ribeiro foi um texto que me agradou bastante mais que o anterior. Em parte, talvez, por estar escrito em verso livre, o que torna menos óbvias eventuais deficiências técnicas que o poema pudesse ter. Mas também em parte, e talvez na maior parte, porque o tom dramático do texto condiz com aquilo que conta, um duelo fantasmagórico, sobrenatural, entre uma entidade masculina e outra feminina, que evoca outras coisas bastante mais terrenas. Este texto traz em si uma aura de verdade, de coisa genuína. Não sei bem se é o suficiente para eu gostar mesmo dele, mas é mais que suficiente para não o achar "fracote" como achei o primeiro.
Texto anterior deste livro:
Texto anterior deste livro:
Lido: O Disco
Não deixa de ser curioso que Jorge Luis Borges tenha vários contos em que explora o imaginário e as paisagens das Ilhas Britânicas, frequentemente de braço dado com a fantasia e a história. E é curioso porque existe fora dos setores hegemónicos do género uma corrente que pugna pela "nacionalização" do fantástico, por um fantástico mais genuinamente ligado ao contexto próprio de cada literatura e escritor, e Borges até o fez muitas vezes. Mas nunca se coibiu de situar as suas ficções onde lhe desse na real gana. É precisamente essa, parece-me, a abordagem mais saudável. Sim, convém que quem escreve não se esqueça de quem é e de onde vem mas, tendo essa base como ponto de partida, a liberdade de criar deve ser o valor fundamental.
Como já terão compreendido pelo introito, O Disco é um desses contos. Muito curto, apenas com 3 páginas, e incompletas, é contado na primeira pessoa por um lenhador, e Borges consegue com grande habilidade introduzir na história a informação geográfica e cronológica necessária para a situar, se bem que convenha ter alguma noção da história britânica para a compreender.
Nesta ambientação introduz Borges o fantástico que lhe é mais habitual, por intermédio de uma abstração matemática. Aqui não é à noção do infinito ou aos objetos fractais que Borges dá existência digamos, palpável, mas a um círculo euclidiano, que tem apenas um lado, sob a forma de um disco trazido por um viajante que um belo dia vai bater à porta do lenhador. O disco, embora invisível, é o que basta para que o viajante chame rei a si mesmo e para despertar a cobiça do lenhador, o qual age em conformidade com essa cobiça. Mesmo nunca tendo visto o disco, só um rapidíssimo reflexo de luz.
Este é mais um belíssimo conto, muito bem construído e muito bem escrito, pese embora a sua brevidade. Muito bom.
Contos anteriores deste livro:
Como já terão compreendido pelo introito, O Disco é um desses contos. Muito curto, apenas com 3 páginas, e incompletas, é contado na primeira pessoa por um lenhador, e Borges consegue com grande habilidade introduzir na história a informação geográfica e cronológica necessária para a situar, se bem que convenha ter alguma noção da história britânica para a compreender.
Nesta ambientação introduz Borges o fantástico que lhe é mais habitual, por intermédio de uma abstração matemática. Aqui não é à noção do infinito ou aos objetos fractais que Borges dá existência digamos, palpável, mas a um círculo euclidiano, que tem apenas um lado, sob a forma de um disco trazido por um viajante que um belo dia vai bater à porta do lenhador. O disco, embora invisível, é o que basta para que o viajante chame rei a si mesmo e para despertar a cobiça do lenhador, o qual age em conformidade com essa cobiça. Mesmo nunca tendo visto o disco, só um rapidíssimo reflexo de luz.
Este é mais um belíssimo conto, muito bem construído e muito bem escrito, pese embora a sua brevidade. Muito bom.
Contos anteriores deste livro:
quarta-feira, 29 de maio de 2019
Lido: Cidade Líquida (#leiturtugas)
Nunca tinha lido nada do João Tordo e não fiquei propriamente bem impressionado com este Cidade Líquida, um conto de 11 páginas sobre as relações meio fantasmagóricas entre um professor de filosofia e um cineasta que admira e a certa altura acaba por conhecer.
Aquilo que mais me distanciou deste conto foi, contrariamente ao que é hábito em mim, o próprio estilo narrativo, embora o enredo também não tenha ajudado. Tordo escreve sobretudo em frases curtas, sincopadas de uma forma que rapidamente se torna cansativa. Há alguns achados, é certo, pormenores de linguagem de enorme qualidade que provavelmente explicam o motivo por que o autor é tão celebrado, mas o todo aborreceu-me bastante, mesmo sendo o conto razoavelmente curto. Não imagino conseguir chegar ao fim de um romance escrito desta forma (e um dia hei de tentar, para ver se chego ou não).
A história em si é fragmentada, tanto em momentos quanto naquilo que parece ser a perceção subjetiva da realidade. Há algumas sugestões mais ou menos claras de homossexualidade, que parece nunca ser mais que latente, há aquele ambiente de boémia e de crise existencial que é bem capaz de ser o maior cliché de todos em histórias que girem à volta de personagens intelectuais e há, no final, uma irrupção razoavelmente subtil e não menos razoavelmente todoroviana do fantástico na história por intermédio de uma personagem que o protagonista vê mas não pode ver porque está morta há anos.
Tudo somado, esta é uma história bem escrita, mesmo que o estilo não me agrade, mas bastante vazia. Uma daquelas histórias que se chega ao fim e a pergunta que fica é "e daí?" Logo seguida por "que ganhei eu por ter lido isto?" E a resposta é "pouca coisa", e isso não é bom. Nada bom, mesmo.
Aquilo que mais me distanciou deste conto foi, contrariamente ao que é hábito em mim, o próprio estilo narrativo, embora o enredo também não tenha ajudado. Tordo escreve sobretudo em frases curtas, sincopadas de uma forma que rapidamente se torna cansativa. Há alguns achados, é certo, pormenores de linguagem de enorme qualidade que provavelmente explicam o motivo por que o autor é tão celebrado, mas o todo aborreceu-me bastante, mesmo sendo o conto razoavelmente curto. Não imagino conseguir chegar ao fim de um romance escrito desta forma (e um dia hei de tentar, para ver se chego ou não).
A história em si é fragmentada, tanto em momentos quanto naquilo que parece ser a perceção subjetiva da realidade. Há algumas sugestões mais ou menos claras de homossexualidade, que parece nunca ser mais que latente, há aquele ambiente de boémia e de crise existencial que é bem capaz de ser o maior cliché de todos em histórias que girem à volta de personagens intelectuais e há, no final, uma irrupção razoavelmente subtil e não menos razoavelmente todoroviana do fantástico na história por intermédio de uma personagem que o protagonista vê mas não pode ver porque está morta há anos.
Tudo somado, esta é uma história bem escrita, mesmo que o estilo não me agrade, mas bastante vazia. Uma daquelas histórias que se chega ao fim e a pergunta que fica é "e daí?" Logo seguida por "que ganhei eu por ter lido isto?" E a resposta é "pouca coisa", e isso não é bom. Nada bom, mesmo.
terça-feira, 28 de maio de 2019
Italo Calvino: História de um Ladrão de Sepulturas
Nesta História de um Ladrão de Sepulturas, Italo Calvino combina elementos díspares mas já conhecidos para criar um continho interessante de três páginas sobre aquilo que o título indica. Usando a técnica de enredos movidos a tarot, obviamente, Calvino vai buscar a história do feijoeiro mágico e as suas próprias Cidades Invisíveis e conta a história de um jovem que andava a roubar sepulturas até que desce a uma na qual encontra uma árvore em crescimento rápido, que por sua vez o leva a uma cidade nas nuvens.
O que esta história tem de mais interessante é o elemento alegórico que Calvino consegue incutir-lhe, apesar das limitações que se impõe e dos elementos algo recauchutados que utiliza. Não que seja incomum que histórias deste género incluam a alegoria na sua composição (as histórias tradicionais estão cheias dela, por exemplo), mas aqui ela é introduzida de uma forma que quando surge é algo surpreendente e isso contribui para dar vida à história.
O resultado é um continho que me pareceu melhor do que os anteriores, por estar menos dependente do artifício para funcionar, e porque o próprio artifício é aqui um pouco diferente do que aparece nas histórias antecedentes (o contador gesticula, não se limita a pousar cartas na mesa). E também, talvez, por ser mais curto, o que o torna mais objetivo?... Talvez. Não sei bem.
Contos anteriores deste livro:
O que esta história tem de mais interessante é o elemento alegórico que Calvino consegue incutir-lhe, apesar das limitações que se impõe e dos elementos algo recauchutados que utiliza. Não que seja incomum que histórias deste género incluam a alegoria na sua composição (as histórias tradicionais estão cheias dela, por exemplo), mas aqui ela é introduzida de uma forma que quando surge é algo surpreendente e isso contribui para dar vida à história.
O resultado é um continho que me pareceu melhor do que os anteriores, por estar menos dependente do artifício para funcionar, e porque o próprio artifício é aqui um pouco diferente do que aparece nas histórias antecedentes (o contador gesticula, não se limita a pousar cartas na mesa). E também, talvez, por ser mais curto, o que o torna mais objetivo?... Talvez. Não sei bem.
Contos anteriores deste livro:
Lido: Rapsódia sem Dó (Maior)
No meu ideal, a literatura é melhor quando tudo funciona em pleno, e o que este pleno significa é que todos os aspetos de que é feita a criação literária estão a dar o contributo mais apropriado para o resultado final. Não o maior, necessariamente, mas o mais apropriado. Não existe uma receita; é história a história que se avalia o grau de adequação de cada contributo, porque cada história tem as suas próprias exigências. Um dos contos labirínticos e cerebrais de Borges seria totalmente destruído se o autor tivesse tentado introduzir nele um estudo sentimental de personagem, por exemplo, ao passo que muitas das ficções curtas de Eça têm nesse tipo de estudo o seu principal sustentáculo, e perderiam, e muito, se a páginas tantas lhes caísse em cima uma estrutura matemático-filosófica a brincar com o infinito. Tudo é relativo.
Por vezes, estas destruições totais hipotéticas acontecem mesmo, até em coisas publicadas. Já me passaram pelos olhos, por exemplo, histórias carregadas de boas ideias mas mal escritas ao ponto de se tornarem ilegíveis, e passam-me com alguma frequência pelos olhos histórias muito bem escritas mas completamente vazias de conteúdo. Mas é mais comum que a destruição seja relativa, que as coisas falhem não ao ponto da ruína total mas apenas o suficiente para que a história fique algo longe de atingir o seu potencial.
E foi precisamente o que aconteceu com Rapsódia sem Dó (Maior) (bibliografia). Neste conto, Luísa Marques da Silva consegue arranjar uma técnica narrativa francamente interessante, incomum e bastante bem conseguida. A história é contada de forma fragmentária, através de depoimentos das várias personagens que a protagonizam. Não é bem epistolar, pois não se trata de cartas, mas é semelhante. Consegue até fazer transparecer em cada depoimento a personalidade de cada personagem, apesar de essas personalidades tenderem a ser algo unidimensionais: uma é socióloga e é só nessa qualidade que escreve, outra é adolescente e tudo quanto escreve está carregado de clichés teen, outro é poeta e só escreve em verso, etc. Mas apesar disso, a técnica é interessante o suficiente e está suficientemente bem aplicada para que bastasse haver uma boa história para contar e o resultado seria bom.
E o problema é precisamente esse: a boa história não existe.
No seu lugar o que existe é uma historieta que tem claramente a ambição de ser divertida mas à qual não achei graça alguma (sim, eu sei, o humor é sempre subjetivo), sobre uma bizarra família — dos quatro filhos só um é humano; os outros são um orc, uma elfa e um minotauro — que depara, em Tavira, com uma nave alienígena que se despenha e logo em seguida é alvejada por uma segunda nave alienígena, seguindo-se uma aventura que podia ter algum interesse se fizesse algum sentido.
Mas faz muito pouco. Suponho que talvez pudesse funcionar como aventura infanto-juvenil, uma daquelas fantasias científicas destrambelhadas que por vezes se encontram em desenhos animados ou em BD, mas parece-me que tal como aqui se encontra nem isso, pois precisaria de ser muito menos expositiva do que é. De ter uma ação mais explícita e menos cortada por apartes. No final, o que fica é o já nosso bem conhecido sabor a oportunidade perdida. Pena.
Conto anterior deste livro:
Por vezes, estas destruições totais hipotéticas acontecem mesmo, até em coisas publicadas. Já me passaram pelos olhos, por exemplo, histórias carregadas de boas ideias mas mal escritas ao ponto de se tornarem ilegíveis, e passam-me com alguma frequência pelos olhos histórias muito bem escritas mas completamente vazias de conteúdo. Mas é mais comum que a destruição seja relativa, que as coisas falhem não ao ponto da ruína total mas apenas o suficiente para que a história fique algo longe de atingir o seu potencial.
E foi precisamente o que aconteceu com Rapsódia sem Dó (Maior) (bibliografia). Neste conto, Luísa Marques da Silva consegue arranjar uma técnica narrativa francamente interessante, incomum e bastante bem conseguida. A história é contada de forma fragmentária, através de depoimentos das várias personagens que a protagonizam. Não é bem epistolar, pois não se trata de cartas, mas é semelhante. Consegue até fazer transparecer em cada depoimento a personalidade de cada personagem, apesar de essas personalidades tenderem a ser algo unidimensionais: uma é socióloga e é só nessa qualidade que escreve, outra é adolescente e tudo quanto escreve está carregado de clichés teen, outro é poeta e só escreve em verso, etc. Mas apesar disso, a técnica é interessante o suficiente e está suficientemente bem aplicada para que bastasse haver uma boa história para contar e o resultado seria bom.
E o problema é precisamente esse: a boa história não existe.
No seu lugar o que existe é uma historieta que tem claramente a ambição de ser divertida mas à qual não achei graça alguma (sim, eu sei, o humor é sempre subjetivo), sobre uma bizarra família — dos quatro filhos só um é humano; os outros são um orc, uma elfa e um minotauro — que depara, em Tavira, com uma nave alienígena que se despenha e logo em seguida é alvejada por uma segunda nave alienígena, seguindo-se uma aventura que podia ter algum interesse se fizesse algum sentido.
Mas faz muito pouco. Suponho que talvez pudesse funcionar como aventura infanto-juvenil, uma daquelas fantasias científicas destrambelhadas que por vezes se encontram em desenhos animados ou em BD, mas parece-me que tal como aqui se encontra nem isso, pois precisaria de ser muito menos expositiva do que é. De ter uma ação mais explícita e menos cortada por apartes. No final, o que fica é o já nosso bem conhecido sabor a oportunidade perdida. Pena.
Conto anterior deste livro:
domingo, 26 de maio de 2019
Leiturtugas da semana #21
Uma semana de intervalo nestes posts de divulgação das Leiturtugas, que na semana passada não houve nenhuma para divulgar, e cá estão eles de volta. Resolvi começar a numerá-los, para não terem todos o mesmo título, e descobri que este é já o 21º.
E fui eu o responsável pela leiturtuga da semana, ao publicar a minha opinião sobre o número 3 da revista Bang!, que na época era editada pelo Luís Corte-Real e pelo Rogério Ribeiro e foi, como sempre, publicada pela Saída de Emergência. É uma publicação que contém histórias de ficção científica, pelo que eu subo a 3c4s.
Para a semana haverá mais, que eu sei que vêm aí coisas.
E fui eu o responsável pela leiturtuga da semana, ao publicar a minha opinião sobre o número 3 da revista Bang!, que na época era editada pelo Luís Corte-Real e pelo Rogério Ribeiro e foi, como sempre, publicada pela Saída de Emergência. É uma publicação que contém histórias de ficção científica, pelo que eu subo a 3c4s.
Para a semana haverá mais, que eu sei que vêm aí coisas.
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