terça-feira, 18 de junho de 2019

Gerson Lodi-Ribeiro: Aventuras do Vampiro de Palmares

Construir romances-colagem é um exercício delicado, em especial quando as histórias que vão constribuir para a sua elaboração não são escritas à partida com a ideia de contribuírem para uma grande narrativa que as transcenda. Muitas vezes são-no, pois os autores, quando escrevem numa série, vão encaixando cada ideia que vão tendo num universo ficcional em que se esforçam por manter a coerência. Mas por vezes essas preocupações cedem primazia às necessidades narrativas de cada história em concreto, porque não existe a priori a vontade ou sequer a ideia de as fundir numa narrativa comum, e quando, mais tarde, essa ideia e essa vontade surgem, surgem também os problemas.

De resto, isto não é exclusivo de romances-colagem. São célebres no meio ligado à FC as séries problemáticas de alguns grandes escritores do género, iniciadas com grande pujança e qualidade e concluídas de forma mais ou menos pífia, com histórias pouco consistentes ou muito desnecessárias. Asimov, com os malabarismos a que teve de recorrer para fundir os universos da Fundação e dos robôs positrónicos, ou Clarke, com as suas sequelas, cada vez piores, de 2001, estão aí para não me deixarem mentir. No entanto, quando isto acontece numa série de obras mais ou menos independentes, o estrago tende a ser menor do que quando acontece num romance-colagem, porque basta desfrutar dos livros bons e ignorar os menos bons. Em romances-colagem não temos essa opção.

Por outro lado, os romances-colagem podem ser muito diferentes entre si e é problemático estabelecer padrões que se apliquem a todos. Eles variam no grau de alteração das histórias para se conformarem ao formato romance, por exemplo, indo daqueles que alteram muito pouco os contos de base, limitando-se fundamentalmente a acrescentar mais material, quando sequer chegam a tanto, até aos verdadeiros fix-ups, em que as histórias de base praticamente desaparecem, engolidas pela nova narrativa que se lhes sobrepõe. As Aventuras do Vampiro de Palmares, descai claramente para o lado da reduzida alteração, acrescentando-se novas histórias às anteriormente existentes, e mantendo-se estas em grande medida inalteradas. É uma estratégia arriscada e creio que, ao contrário do que acontece noutro livro seu em que seguiu a mesma estratégia (Xochiquetzal, de que falei há relativamente pouco tempo aqui), Gerson Lodi-Ribeiro não é aqui lá muito bem sucedido.

O problema principal, parece-me, é a falta de um verdadeiro fio condutor que sirva de arco narrativo para todo o livro. Começando este no nascimento do protagonista (na verdade começa antes, nos acontecimentos que vão levar ao seu exílio), um arco narrativo lógico terminaria na sua morte, ou então em algum acontecimento relevante o suficiente para levar a uma mudança de rumo fundamental na sua vida. Mas não é nada disso o que aqui temos, pelo contrário; o romance termina com uma história relativamente menor (em termos de percurso de vida do protagonista, não de qualidade), na qual ainda por cima é introduzida uma personagem com um potencial de desenvolvimento que não é concretizado.

Também a história inaugural (deixando de parte o prólogo; com ele incluído será a segunda) não contribui para a obtenção de um todo coeso. Muito mais descritiva do que a maior parte das restantes, esta história tem material suficiente para um romance autónomo, o qual poderia ser muitíssimo interessante se a narração descritiva e distanciada fosse intercalada com momentos de ação em proximidade, diálogo e conflito, à semelhança do que acontece com as melhores histórias do conjunto. Talvez se devesse ter começado por aí a publicação destas histórias, escrevendo e publicando primeiro esse romance e seguindo depois para as restantes, embora seja forçoso reconhecer que também essa opção acarretaria riscos: se esse livro não fosse bem sucedido, a publicação das restantes histórias poderia ficar comprometida.

De resto, pode perfeitamente dar-se o caso de ter sido muito isso o que aconteceu. É que a cronologia do Vampiro de Palmares não termina em finais do século XIX, como surge neste livro, e há mais material já publicado, ambientado nos séculos XX e XXI, e inclusivamente no futuro. É possível que a ideia tivesse sido (ou ainda seja) complementar este livro com outra obra semelhante ambientada em tempos mais recentes, uma espécie de segundo volume. No entanto, isto é mera especulação da minha parte; não tenho nenhuma informação que a suporte.

Quem tenha chegado até aqui pode estar a pensar que não gostei deste livro. Mas a verdade é que, embora possa dar essa ideia, ela não é verdadeira. Algumas das histórias são realmente muito boas e isso bastaria para não poder achar o livro mau. O que acho é que houve algumas escolhas na feitura deste romance-colagem que fizeram com que o resultado não fosse melhor que a soma das partes, como seria ideal, nem sequer igual à soma das partes, mas pior que a soma das partes. Mas como as partes são boas ou muito boas, este livro está entre o razoável e o bom. Talvez a atirar mais para o lado do bom que do razoável, até porque é muito possível que parte da minha opinião menos favorável se deva a eu já conhecer anteriormente as melhores histórias e por isso esperar mais do livro do que ele me deu, o que não acontecerá com um leitor que parta para a leitura sem nenhuma informação prévia sobre este universo ficcional.

Um leitor assim, provavelmente, deixar-se-á fascinar por todo o worldbuilding subjacente ao livro, tanto em termos de vampirismo (e licantropia) científico, quanto no que toca aos aspetos de história alternativa. É que são ambos muito bons. A forma como o autor afasta a sobrenaturalidade dos seus vampiros, o modo sólido como a biologia destas criaturas é descrita, mas sobretudo a credibilidade da cadeia de consequências que vai dar origem a esta cronologia alternativa, através da qual se abordam temas tão relevantes como o passado colonial de vários pontos das Américas, o racismo sistémico e a escravatura, podem perfeitamente levar muitos leitores a nem reparar nos problemas de que falo acima. Ou a não lhes dar importância.

Mas eu, que não sou um leitor assim, não só por já conhecer este universo mas até porque tenho vindo ao longo de anos a escrever (devagarinho) um livro nestes moldes, estive mais atento a outras coisas. E encontrei aqui armadilhas a que me convirá ficar atento para não correr o risco de me deixar enredar nelas. Sim, esta leitura foi-me muito útil. E isso é mais um ponto a seu favor.

Eis o que achei de cada uma das histórias, considerada isoladamente:
Este livro foi-me oferecido pelo autor.

Irmãos Grimm: As Três Penas

Quem julgasse que eu exagerei quando, na opinião sobre o conto anterior, falei repetidamente de clichés e elementos existentes em muitas outras histórias, bastar-lhe-ia pegar neste As Três Penas para ver como não houve exagero rigorosamente nenhum. Aqui se encontra um rei, de novo, com três filhos, de novo, o mais novo dos quais é simplório e recebe a alcunha de Tolo, de novo, e vão os três partir à aventura, de novo, e de novo há provas a ultrapassar. E de novo. E de novo.

Mais uma vez, e a crer na típica nota que sucede ao conto, também aqui os Irmãos Grimm não meteram grande prego ou estopa, ainda que esta história seja mais extensa do que a anterior. Um pouco mais extensa, mas menos do que parece, visto conter versos que, como se sabe, são coisas pouco económicas em termos de espaço. Outra semelhança é a ideia geral: o Tolo acaba por vencer as provas que os irmãos não são capazes de ultrapassar, graças à ingenuidade e à magia que encontra onde os outros nada veem. A diferença, subtil, é que ao passo que no conto anterior parece ser o bom coração o principal responsável pelo sucesso do Tolo (outro Tolo? o mesmo? boa pergunta), aqui este está mais dependente da sorte (ou da simples fé, para os que se inclinem para aí) do que de qualquer outra qualidade.

Mas no fim de contas, este também é um conto banal, cheio de elementos reciclados de outras histórias. Uma variante de muitas variantes, que se esquece rapidamente.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Em maio falou-se de...

E cá estamos nós em junho, o que quer dizer que mais um mês ficou para trás e é tempo de darmos uma vista de olhos ao que foi sendo lido e comentado por aí na internet lusófona, no que toca a material de ficção científica ou relacionado mais ou menos de perto com o género. E este mês houve uma surpresa que é ao mesmo tempo uma estreia e uma novidade.

Mas antes, o blá blá blá de sempre. Quem caia aqui de paraquedas e não saiba o que é isto (e queira saber), pode dar um saltinho ao primeiro destes posts onde tem mais informação. Quem esteja interessado em dar uma vista de olhos por todos, passados, presentes e futuros, só tem de ir à tag leituras fc que lá os encontrará. E quem quiser saber o que eu tenho a dizer sobre estar listas que aqui estão em baixo, é só puxar o texto para o fim delas que lá terá os meus comentários. Para já, fiquem com as listas:

Ficção portuguesa:
  1. Lisboa Oculta, org. ??
  2. Nunca Mais, de João Barreiros (conto)
  3. O Invisível, a sua Sombra e o seu Reflexo, de António Bizarro
  4. Rebeldes, de Ana Cláudia Dâmaso
  5. Somos Felizes, de Sara Farinha (conto)
  6. Arrábida 8, de Pedro G. P. Martins (conto)
  7. Universal, Limitada, de Isabel Cristina Pires
  8. Bang!, nº 3, ed. Rogério Ribeiro e Luís Corte Real
  9. Os Exploradores da Lua, de Pedro de Sagunto
  10. Ensaio Sobre a Cegueira / Ensayo Sobre la Ceguera, de José Saramago (2x)
  11. Contra a Demagogia, de Luís Filipe Silva (conto)
  12. Des-Sincronicidades, de Luís Filipe Silva (conto)
  13. Rapsódia sem Dó (Maior), de Luísa Marques da Silva (conto)
  14. Proxy, org. Anton Stark
  15. A Batalha da Escuridão, de Bruno Martins Soares
Ficção brasileira:
  1. Aqui quem Fala é da Terra, org. André Caniato e Jana Bianchi
  2. Dezoito de Escorpião, de Alexey Dodsworth
  3. Sencientes, de Day Fernandes (conto)
  4. Charlotte Sometimes, de Fábio Fernandes (conto)
  5. Projeto 94, de Rodrigo Fonseca
  6. Caçada Cósmica, de José M. S. Freire
  7. Homo Tempus, de F. E. Jacob (2x)
  8. O Código de Camões, de Beto Junqueyra
  9. Tangentes da Realidade, de Jeronymo Monteiro
  10. Ninguém Nasce Herói, de Eric Novello
  11. Morcego do Mar, de Gerson Lodi-Ribeiro (conto)
  12. Afrofuturismo, org. Junno Sena
  13. Favela Gótica, de Fabio Shiva
  14. Fanfic, de Braulio Tavares
Ficção internacional:
  1. A Vida, o Universo e Tudo o Mais, de Douglas Adams
  2. Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes!, de Douglas Adams (2x)
  3. O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams
  4. O Restaurante no Fim do Universo, de Douglas Adams
  5. O Salmão da Dúvida, de Douglas Adams
  6. Opostos, de Jennifer L. Armentrout
  7. Chuva, Chuva, Vá Embora!, de Isaac Asimov (conto)
  8. Fundação, de Isaac Asimov
  9. Fundação e Império, de Isaac Asimov
  10. Fundação e Terra, de Isaac Asimov
  11. O Bardo Imortal, de Isaac Asimov (conto)
  12. O Cair da Noite, de Isaac Asimov (conto)
  13. Os Robôs e o Império, de Isaac Asimov
  14. Um Dia, de Isaac Asimov (conto)
  15. Visões de Robô, de Isaac Asimov
  16. A História de uma Serva / O Conto da Aia, de Margaret Atwood (2x)
  17. Oryx e Crake, de Margaret Atwood
  18. 4, 3, 2, 1, de Paul Auster
  19. Faca de Água, de Paolo Bacigalupi
  20. Ship Breaker, de Paolo Bacigalupi
  21. The Drowned Cities, de Paolo Bacigalupi
  22. Tool of War, de Paolo Bacigalupi
  23. Raízes do Mal, de Gwenda Bond
  24. Antologia da Literatura Fantástica, org. Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo
  25. Mentes Poderosas, de Alexandra Bracken
  26. Despertar, de Octavia E. Butler (2x)
  27. A Guerra das Salamandras, de Karel Čapek
  28. A União dos Universos, de Francis Carsac
  29. A Seleção, de Kiera Cass
  30. País das Maravilhas, de Michael Chadbourn (conto)
  31. Síndrome Fasciolar Cerebral dos Carteiros, de Stepan Chapman (conto)
  32. The Deaths of Tao, de Wesley Chu
  33. Todo o Tempo do Mundo, de Arthur C. Clarke (conto)
  34. Matéria Escura, de Blake Crouch
  35. Vox, de Christina Dalcher
  36. Realidades Adaptadas, de Philip K. Dick (2x)
  37. Um Tempo Aceitável, de Madeleine l'Engle
  38. Count Zero, de William Gibson
  39. Mona Lisa Overdrive, de William Gibson
  40. Neuromancer, de William Gibson
  41. Crianças do Éden, de Joey Graceffa
  42. Feed, de Mira Grant
  43. Uma Coisa Absolutamente Fantástica, de Hank Green
  44. Os Despossuídos, de Ursula K. Le Guin
  45. Duna, de Frank Herbert
  46. Messias de Duna, de Frank Herbert
  47. O Legado, de Amie Kaufman e Meagan Spooner
  48. Flores Para Algernon, de Daniel Keyes (3x)
  49. O Bazar dos Sonhos Ruins, de Stephen King
  50. O Concorrente, de Stephen King
  51. Exo, de Fonda Lee
  52. Canção de Ninar Venusiana, de Paul Leonard
  53. Além do Planeta Silencioso, de C. S. Lewis
  54. Aquela Fortaleza Medonha, de C. S. Lewis
  55. Perelandra, de C. S. Lewis
  56. Nas Montanhas da Loucura e Outras Histórias de Terror, de H. P. Lovecraft
  57. O Chamado de Cthulhu, de H. P. Lovecraft
  58. Legend, de Marie Lu
  59. O Jogo do Coringa, de Marie Lu
  60. Às Cegas, de Josh Malerman
  61. Santuário dos Ventos, de George R. R. Martin e Lisa Tuttle
  62. Os Seis Finalistas, de Alexandra Monir
  63. Mundo em Caos, de Patrick Ness (2x)
  64. Starters, de Lissa Price
  65. As Escalas da Injustiça, de Gary Russell
  66. Skyward, de Brandon Sanderson
  67. Troopers da Morte, de Joe Schreiber
  68. Frankenstein, de Mary Shelley
  69. Seca, de Neil Shusterman e Jarrod Shusterman (3x)
  70. As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift
  71. The Big Book of Science Fiction, org. Jeff VanderMeer e Ann VanderMeer
  72. Twenty Thousand Leagues Under the Sea, de Jules Verne
  73. Matadouro-Cinco, de Kurt Vonnegut (2x)
  74. Artemis, de Andy Weir (2x)
  75. A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells
  76. A Máquina do Tempo, de H. G. Wells
  77. The Invisible Man, de H. G. Wells
  78. Nós, de Evgueni Zamiatine
Não-ficção brasileira:
  1. A Invenção do Monstro, de Francisco Vugman
Não-ficção internacional:
  1. O Zen e a Arte da Escrita, de Ray Bradbury
  2. Romantic Outlaws, de Charlotte Gordon
Este foi um mês especial, porque não só os comentários a ficção portuguesa ultrapassaram mais uma vez (a terceira) os dez, como aquele número de 15 bateu uma vez mais o recorde mensal. E graças a outro mês relativamente fraco nos comentários à ficção brasileira, maio de 2019 é o primeiro mês desde que eu faço isto em que houve mais comentários a ficções portuguesas do que a brasileiras. E eu só sou responsável por quatro desses comentários. Destaques? Saramago, com dois comentários a um seu romance, e Luís Filipe Silva, com dois comentários a dois contos. Se isto continuasse assim daqui para o futuro era ótimo. Mas também é improvável (e o que já apareceu em junho não é animador).

Como digo acima, o mês foi relativamente fraco na ficção brasileira, pois 14 títulos (e seriam 13 sem a minha participação) está muito abaixo dos meses mais profícuos e é pela primeira vez inferior aos números portugueses. Por outro lado, se contarmos apenas os livros, i.e., excluindo os contos, os números brasileiros continuam a ser melhores que os portugueses e, ao contrário destes, continuam a ultrapassar o número de 10, que eu acho o mínimo admissível. O destaque do mês é F. E. Jacob, graças aos dois comentários que o seu romance recebeu.

Em termos de ficção traduzida, o mês foi razoável, pois os 78 títulos ainda estão longe dos meses mais abundantes mas são cerca de uma dezena a mais que nos meses anteriores. É curiosa a inexistência de grandes febres de leitura (ou de marketing, talvez), livros lidos mais ou menos ao mesmo tempo por muita gente, pois o máximo de comentários a uma obra só foi neste mês de 3. Isto talvez tenha reflexo no maior número de obras diferentes que foram alvo de comentário, mas se tem parece-me razoavelmente reduzido. Os destaques do mês foram Douglas Adams, com 6 comentários a 5 obras (o Dia da Toalha é em maio, e está explicado), Isaac Asimov, com 9 comentários a outras tantas obras (muitas das quais contos) e Paolo Bacigalupi, com 4 comentários a outras tantas obras.

E é tudo o que tenho a dizer sobre maio. Dentro de um mês, mais dia, menos dia, cá aparecerá outro post destes. Até lá.

Esopo: Fábulas de Esopo Ilustradas

Ora aqui está um livro que faz parte dos grandes clássicos e cujo título não podia ser mais ilustrativo. Fábulas de Esopo Ilustradas é, com efeito, um livro de fábulas ou pequenas historietas de fundo moral (com o tamanho de miniconto ou vinheta), em prosa, cuja autoria se atribui a Esopo, um escravo grego que graças à sua verve e inteligência conseguiu elevar-se a uma posição incomum entre escravos. E ilustradas porque, bem, esta edição é profusamente ilustrada, com ilustrações antigas, as quais não acompanham todas as histórias mas quase.

Note-se que falo aqui de "fábulas ou pequenas histórias" por um motivo: é que nem todas as historietas incluem a antropomorfização de animais ou outras de entidades que é característica das fábulas. Mas todas as 115 têm um fundo moral ou alegórico.

Esta edição, como vem assinalado na capa, foi "traduzida e adaptada por Carlos Pinheiro". Este, segundo julgo saber, será um professor do ensino secundário, e a sua função terá sido sobretudo a adaptação da maioria das histórias, previamente publicadas em português em 1848, à grafia moderna, e a tradução de um punhado de outras de versões inglesas datadas do século XIX e do início do século XX. É possível que também tenha produzido algumas das morais da história, seguindo o exemplo do autor (anónimo) da tradução portuguesa de 1848. Esta tradução oitocentista, já agora, está digitalizada e disponível na internet, por exemplo aqui.

Estas morais da história, de resto, são a meu ver o principal ponto fraco desta edição. Em primeiro lugar porque não são necessárias: a maioria das fábulas é de tal forma clara nos seus princípios moralizadores que a explicação incluída à parte se torna muito redundante. E em segundo lugar porque o caráter beato das morais da história detrai relativamente às fábulas propriamente ditas, chegando até a levar a dúvidas quanto à fidedignidade da tradução. Esopo foi grego, nascido mais de seiscentos anos antes de cristo, numa época em que a religião dominante entre o seu povo era politeísta e tinha uma hierarquia celeste encimada por Zeus. Falar de santos, do Deus cristão, ou até de Júpiter, o equivalente romano de Zeus, são marcas graves de anacronismo, e as notazinhas morais explicativas estão repletas delas. Pior: elas até surgem nas fábulas propriamente ditas.

É certo que é bastante claro que há neste livro um certo objetivo pedagógico, e é possível que o seu público alvo sejam crianças razoavelmente pequenas, caso em que parte da objeção acima fica prejudicada. Mas só parte: fazer proselitismo católico com base em textos de um grego politeísta parece-me no mínimo antiético, seja qual for o grupo etário envolvido.

Também é certo que em 1848, possivelmente, seria inevitável fazê-lo, dado o peso que a igreja católica tinha entre nós. Afinal de contas, a Inquisição só tinha sido extinta cerca de vinte anos antes. Mas estamos no século XXI, Portugal é um estado laico, e se calhar é mais que tempo de dar a Esopo, ao tempo de Esopo e às ideias de Esopo, inclusivamente as religiosas, o respeito que lhes é devido.

Sim, porque estas historietas têm mostrado uma resiliência notável, o que só por si basta para as elevar a um pedestal bastante elevado. Não é uma nem duas as que ressurgem em compilações de contos populares feitas dois milénios (ou mais) mais tarde, ainda que bastante alteradas. Pese embora o caráter cínico que muitas mostram, e uma forma de ver o mundo como se nele nada mais houvesse que lobos e candidatos a lobos, sempre prontos a devorar o primeiro incauto, que poderá ser muito natural num homem que nasceu escravo numa sociedade em muitos aspetos muito bárbara mas que hoje em dia não é particularmente educativa (especialmente se descontextualizada), há em muitas destas historinhas intemporalidade e universalidade suficientes para explicar a sua sobrevivência até aos dias de hoje.

Tudo somado, este livro é bom? Se tivermos em linha de conta a sua antiguidade, se o enquadrarmos no seu tempo e nas circunstâncias do seu autor, sem qualquer dúvida. Nos tempos civilizados em que vivemos (embora não tanto como às vezes parece e seria desejável) parte da sua relevância perdeu-se ou está em vias de se perder (se tudo correr bem), mas esta é uma das obras formadoras da vertente mais popular da cultura europeia. Deve ser lido. Com o espírito crítico bem desperto, mas deve ser lido.

Este livro está disponível em ebook, em vários locais da internet e pelo menos em dois formatos (PDF e epub), bastando procurar pelo título. Por exemplo: aqui.

domingo, 16 de junho de 2019

Roberto Mendes (ed.): Dagon 3 (#leiturtugas)

Há três tipos diferentes de fanzines e revistas literários. Um, que é bem exemplificado em Portugal pela extinta revista Ficções, dedica-se sobretudo ou exclusivamente a publicar contos, e por vezes histórias mais longas de forma serializada. O outro, de que a revista Blimunda é bom exemplo, tem um foco importante em material ensaístico de vário tipo, do artigo à entrevista, passando por uma série de outras coisas. Mas na ficção científica e fantasia portuguesa (e, na verdade, lusófona), o tipo que predomina é o terceiro, que tenta equilibrar a vertente ensaística e a ficcional.

E quase sempre acontece que as publicações mantêm uma certa consistência na abordagem que preferem seguir. A Dagon (um fanzine razoavelmente sofisticado — aquilo a que os gringos chamam semiprozine — iniciativa de Roberto Mendes) é que nem por isso. Se em alguns números tem uma componente ensaística relevante, em outros, como este número 3, esta quase desaparece e o conteúdo é quase integralmente constituído por ficção.

Esta não é muito boa. Ou por outra, um dos dois contos é bom, o outro é muito fraco. E para além deles, o fanzine contém apenas um editorial e um breve artigo sobre o artista que produziu a capa (a qual nada tem a ver com nenhum dos contos, diga-se), seguido de uma galeria de outras ilustrações feitas por ele. Bastante boas, convenhamos, mas não chegam para compensar aquilo que de menos bom ficou para trás. Tudo somado, esta publicação não ultrapassa o razoável.

Eis o que achei dos dois contos:

Leiturtugas da semana #24

Mais uma semana de Leiturtugas, desta feita sem a minha participação. Mas houve quem participasse, nomeadamente o Artur Coelho, o qual publicou a sua opinião sobre o mais recente número da Granta em Língua Portuguesa, o 3. Dedicado ao futuro, este número desta revista publicada pela Tinta da China e editada pelo Pedro Mexia podia ter bastante mais FC do que a que tem, aparentemente, mas sempre terá umas tangentes, pelo que o Artur sobe a 5c1s.

E não esteve sozinho, pois também a Tita publicou duas pequenas opiniões (mais desenvolvidas em vídeo, como é hábito dela) sobre dois álbuns de BD portuguesa, ambos de Filipe Melo e Juan Cavia e ambos publicados pela Tinta da China: Comer/Beber e Os Vampiros. Como a BD conta sempre como sem FC (e neste caso os álbuns não têm mesmo FC), a Tita passa a 5c4s.

E por esta semana estamos conversados. Na próxima haverá mais. Até lá.

sábado, 15 de junho de 2019

Irmãos Grimm: A Rainha das Abelhas

Já aqui falei várias vezes de contos em que três personagens com características diferentes, frequentemente irmãs, são confrontadas com os mesmos desafios, dos quais se saem (ou não se saem) de forma diferente. Trata-se de um dos mais comuns clichés das histórias populares, e esta, A Rainha das Abelhas, é mais uma que se baseia nesse cliché.

Aqui, os Irmãos Grimm não parecem ter mexido muito. O conto é curto, com meras duas páginas e meia, e narra a história de três irmãos, príncipes, os dois primeiros maus e irresponsáveis, e o terceiro, a que chamam Tolo, com bom coração. Os dois primeiros partem em busca de aventuras e, quando não regressam, o terceiro vai à sua procura, encontra-os, impede-os de fazer variadas malfeitorias a uma série de animaizinhos humildes entre os quais, sim, contam-se abelhas. E depois é hora de serem capturados e postos à prova, prova essa que os dois primeiros são incapazes de ultrapassar e pagam-no sendo transformados em pedra, mas o terceiro ultrapassa graças ao auxílio da bicharada que antes poupara e lhe paga o favor.

Este é, como de resto é norma nas histórias que se servem deste cliché, um conto cautelar, advertindo contra a arrogância e a maldade, ainda que também possa ser interpretado como defendendo a ideia de que mais vale um bom tolo que um mau não tolo. Mas é, sobretudo, um conto bastante banal, repleto de elementos encontrados em (muitos) outros contos.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Blindsight

Ler este livro foi mais ou menos acidental. O que pretendia ler era o terceiro e último da série Rifters, também do Peter Watts, e peguei neste Blindsight, distraído, julgando ser o livro certo. Pus-me a ler. Não era. Mas não consegui pô-lo de lado.

Estou em crer que o principal motivo para isso é tratar-se de uma boa e hard ficção científica espacial, e eu já andar com saudades de ler uma boa e hard ficção científica espacial — a última que tinha lido foi O Jogo Final, do Card, já há mais de um ano. Mas este romance é mais hard que o livro de Card. Não sei bem é se é melhor. Mas olhem que é bem capaz de ser.

Uma coisa é certa: é menos juvenil. Povoado pela mesma espécie de personagens quebradas que Watts apresenta na série Rifters, protagonizado por um homem que, num mundo de seres humanos melhorados, sofreu a amputação de um hemisfério cerebral para curar uma epilepsia violenta, este romance mergulha profundamente na velha questão tão típica da ficção científica: o que significa ser humano? E fá-lo, como também é muito típico da ficção científica, principalmente em pano de fundo, apesar de Watts por vezes chamar as questões filosóficas a primeiro plano.

Quando aí surgem, no primeiro plano, elas vão fazer companhia a uma história de Primeiro Contacto nos confins do Sistema Solar, que em certos momentos faz lembrar Stanislaw Lem e a sua ideia recorrente de que a inteligência alienígena não se limita a ser estranha, é mesmo incognoscível. Não tanto o Lem de Solaris, talvez, mas de certeza o Lem de Fiasco. Ou de A Voz do Dono, de certa forma.

Sim, há alienígenas. O livro praticamente começa com uma estranha forma de intrusão alienígena no planeta, enchendo os céus terrestres de microssondas que ardem na atmosfera e emitem uma enorme quantidade de informação para o espaço, localização indeterminada. Seguem-se anos de pausa e depois uma emissão claramente artificial que é captada por uma sonda terrestre, aparentemente oriunda de um cometa no cinturão de Kuiper. E toca a enviar naves para lá. Mas quando a história começa a sério é quando uma nave tripulada é súbita e bruscamente desviada do cometa para um ponto mais distante na nuvem de Oort. O que está lá? Um gigante gasoso até aí desconhecido. E em órbita desse gigante gasoso? Uma estrutura alienígena, gigantesca e praticamente incompreensível. Que os tripulantes da nave vão tentar compreender.

E esses tripulantes são gente estranha. O protagonista de cérebro amputado já referenciado, incapaz de empatia e obrigado a analisar racionalmente os sinais comportamentais dos companheiros para conseguir interagir socialmente com eles, é apenas um, e nem sequer o mais estranho. Também há uma mulher com personalidades múltiplas, por exemplo, cada qual com as suas particularidades e as suas especialidades. Mas quem leva a palma a todos os outros é o vampiro.

Sim, o vampiro.

No mundo futuro de Watts há vampiros. Não sobrenaturais, atenção: naturais. E não deixa de ser curioso que eu tenha pegado neste livro enquanto lia o do Gerson Lodi-Ribeiro com uma ideia semelhante. Não idêntica, que os vampiros de Watts são uma espécie verdadeira, resultante da evolução predatória e hematófaga de um ramo da humanidade, mas extinta, apenas devolvida à existência porque por algum motivo que não chega a ficar inteiramente claro se decidiu fazê-lo por intermédio de engenharia genética e clonagem.

Para uma expedição daquelas, no entanto, uma expedição que terá de lidar com o desconhecido e o imponderável, um vampiro é o ideal. Porque é uma criatura mais inteligente que os humanos normais, ou mesmo que os aditivados. Porque tem uma mente diferente, mais declaradamente predatória, mais fria na análise e implacável na ação. Quase tão alienígena como as dos alienígenas.

Pelo menos é essa a ideia a priori. A realidade... bem...

A realidade é que os alienígenas são muito alienígenas. Encontrados bem longe da Terra, em órbita de um planeta gigante até aí desconhecido, mergulhado nas profundezas sem luz da Nuvem de Oort, os alienígenas constroem uma estação espacial, ou uma nave espacial, dotada de tecnologia aparentemente viva e capaz de manipular a seu bel-prazer campos magnéticos extraordinariamente intensos. Mas quem são? O que são? O que pretendem? Será possível comunicar com eles? Encetar relações pacíficas?

O grosso do enredo narra as várias tentativas e fases por que passa o contacto entre as duas espécies, e as duas naves, da simples troca de mensagens a uma sucessão de ilusões e intrusões que vão acabar por chegar a um desfecho praticamente inevitável. Simultaneamente, Watts usa a natureza colonial dos alienígenas, a par das características invulgares dos tripulantes da nave terrestre, para explorar a fundo o que se entende por consciência, livre-arbítrio e inteligência, quais os seus limites, e até que ponto são influenciadas pela capacidade dos nossos sentidos se aperceberem do mundo. É que se os terrestres são estranhos, os ETs são-no muito mais. Watts, sempre biólogo marinho mesmo quando escreve sobre o espaço, baseia-se nos pólipos para criar uma espécie de alienígenas tecnológicos desprovida de sistema nervoso central e da maior parte dos órgãos de sentidos que nos são familiares. E acaba a escrever sobre a cegueira.

É por via da cegueira que este romance mais se aproxima das obras de Lem que refiro acima. Porque cada uma das duas espécies (mas especialmente a humana) está limitada àquilo que os respetivos sistemas sensoriais lhe permite captar. Não que seja incapaz de se aperceber tecnologicamente do resto, mas há milhões de anos de evolução a adaptar as vias de raciocínio a determinadas características sensoriais, tratando-as como absolutas, ao ponto de deixar as pobres criaturas dotadas dessas vias de raciocínio completamente cegas para tudo aquilo que lhes fuja. E isso tem consequências quando enfrentamos um choque de cegueiras.

Este é um romance complexo, sofisticado e inteligente sobre as nossas limitações enquanto seres humanos e sobretudo enquanto seres biológicos, um ótimo exemplo do que a ficção científica consegue ser quando quem a escreve sabe o que está a fazer. Não direi que é excelente, mas digo que é muito bom, mesmo muito bom, e que lhe falta um niquinho de nada para ser mesmo excelente. Ótima leitura para todos os que não se deixam desencorajar pela FC mais densa no que toca a terminologia científica. Recomendo vivamente. E ainda por cima é uma ótima e recomendável leitura que está livremente disponível na internet, aqui, numa série de formatos. Eu cá li o livro em epub.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Valter Marques: Interplanetas

Eu pertenço assumidamente àquele grupo de leitores que entre a forma literária e o conteúdo da literatura pendem para este último. Mas não sou radical. Ou seja, sou perfeitamente capaz de apreciar uma peça literária sobretudo pela sua forma, desde que o conteúdo não seja nulo ou absolutamente desinteressante. E, mais importante do que isso, pela parte que me toca há poucas coisas que mais contribuem para destruir a fruição de uma história do que as falhas no manejo da linguagem. Isto é, eu prefiro o conteúdo à forma, sim, mas há um limiar mínimo de forma abaixo do qual as coisas pura e simplesmente não funcionam.

E uma das coisas que mais me irrita a experiência de leitura são os saltos contínuos e sem qualquer justificação entre tempos narrativos. Sem qualquer justificação, sublinhe-se: por vezes há efeitos literários que necessitam desse tipo de salto, justificando-o; uma analepse pode ser escrita no pretérito mais-que-perfeito, por exemplo, funcionando como bolha num texto genericamente escrito noutro pretérito ou no presente. Mas quando não existe justificação para a história andar constantemente a saltar entre narrativa no presente e no passado, eu trepo paredes.

E sim, foi precisamente isso o que aconteceu neste Interplanetas (bibliografia). Um exemplo ao calhas (itálicos meus), entre muitos possíveis: «BRUUM! Dolores desperta com o estrondo. Escuta. Agora que estava acordada, começou a ter dúvidas se ouvira o tal barulho ou se fora um produto do seu sonho.»

Esta é uma falha que para mim é grave na prosa de Valter Marques. E não é a única; apesar de se tratar de um autor com algum potencial, esse potencial não estava ainda desenvolvido quando escreveu e publicou esta história, tanto em termos de prosa propriamente dita, como no que toca ao desenvolvimento do enredo, pois esta história deixa uma enorme sensação de coisa indecisa, que não sabe bem o que quer ser.

Começa como conto intimista, sobre uma mulher que está farta da vida que leva e resolve simplesmente partir para parte incerta. A páginas tantas transforma-se em história de terror mas sem realmente conseguir criar uma ligação emocional com quem lê (ou pelo menos com este leitor), quando ela entra numa estranha carruagem de um estranho comboio, na qual inicialmente se acha sozinha e da qual não consegue sair, e onde algum tempo mais tarde recebe a companhia de lobisomens. Mais adiante aparecem os ares de ficção científica que explicam o título: aquilo onde a mulher entrara, afinal, é a "composição ferroviária InterPlanetas, com destino à Grande Nebulosa de Fartolon". E o conto termina de forma desastrosa, com o autor a inserir-se nele sem qualquer motivo, a não ser ironizar-se autor famoso e peneirento.

O resultado de tudo isto é uma história que tem alguns elementos interessantes mas é muito pior do que esses elementos a poderiam levar a ser. Um conto bastante mauzinho.

Conto anterior desta publicação:

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Fernão Mendes Pinto: E Tais Pancadas Tem a Costa da China

Toda a gente tem lacunas na sua cultura geral e eu, evidentemente, não sou nenhuma exceção. Há livros que apesar de há muito tempo me despertarem curiosidade, por um motivo ou por outro ainda não li, e alguns desses livros são daqueles clássicos que toda a gente devia ler (outros são clássicos mais privados, e outros não são nem uma coisa nem a outra). Um desses livros é a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto.

Pois bem: já não me falta tudo. É que este E Tais Pancadas tem a Costa da China, um dos livrinhos genericamente dedicados ao mar publicados pela Expo'98, é um excerto da Peregrinação. Não em versão original, mas numa versão de Maria Alberta Menéres, ainda que esta se pareça ter limitado a transportar o português quinhentista de Fernão Mendes Pinto para os nossos dias.

Não sei, naturalmente, até que ponto este texto é representativo da Peregrinação como um todo, ainda que por algumas coisas que tenho lido por aí (principalmente antes de ler isto) até parece sê-lo bastante. Relato de viagens e aventuras, este livrinho descreve vários episódios de conflitos, batalhas, tempestades, raptos, saques e resgates levados a cabo por uma frota portuguesa, tripulada em parte por povos aliados, em vários pontos das costas chinesas. Se todo o livro de Fernão Mendes Pinto for assim, será decerto muitíssimo interessante.

Por isso, creio eu, enquanto estava a ler as páginas desta publicação fui sendo repetidamente assaltado por uma interrogação: por que estranho motivo, havendo este material de base e um manancial de outras grandes aventuras marítimas, quer nos sisudos livros de história, quer em páginas de enciclopédias e noutro material de divulgação mais genérico, praticamente não existe em Portugal uma tradição de literatura de aventuras em terras exóticas? Semelhante à que existe no Reino Unido ou em França? Material, decididamente, não nos falta; na verdade até temos um período mais amplo do que eles para explorar. Portanto por que raios nunca o explorámos?!

Não tenho resposta para isto. Mas é bem possível que as razões sejam as mesmas que levaram à quase inexistência de outras formas de contar histórias mais centradas no enredo do que na forma literária ou na exploração intimista (ou umbiguista) da psicologia das personagens, como a ficção científica ou a fantasia. O certo é que por este exemplo já fica claro que Fernão Mendes Pinto sabia juntar as duas coisas, enredo e forma, o que só aumenta a perplexidade por tão poucos outros autores terem tentado fazer o mesmo. Depois de o ler, fiquei com mais vontade de ler mesmo a Peregrinação. Este é um bom livrinho.

Este livro foi disponibilizado gratuitamente em PDF pelo Instituto Camões e pode ser descarregado, por exemplo, daqui. (Os restantes volumes da coleção estão acessíveis neste link).

terça-feira, 11 de junho de 2019

Maria de Menezes: Tour de Main

Uma das coisas em que a literatura, nomeadamente a fantástica, tem sido fértil nos últimos anos são as releituras e adaptações dos contos de fadas. E geralmente não de uns contos de fadas quaisquer, pois raros são os contos e romances criados com essa base que fogem dos contos mais conhecidos, seja por via das versões originais, seja por via das adaptações mais ou menos disneycas que eles foram tendo ao longo das décadas. E não me citem, mas desconfio que mais por via das segundas que das primeiras.

Não surpreenderei ninguém, suponho, se disser que este Tour de Main (bibliografia), de Maria de Menezes, é uma dessas releituras.

E é uma releitura moderna, apesar de não perder a marca de fantasia. Uma releitura da história da Cinderela na qual a jovem Cinderela (que mantém o nome) não é uma desgraçada que tenta sobreviver sob o jugo da madrasta e das filhas desta, mas uma betinha muito betinha que se limita a não ter pachorra para aturar "as bruxas" mas tirando isso tem uma rica vidinha de privilégio. Privilégio esse que se estende "às bruxas", naturalmente, as quais são tão ou mais betinhas do que ela. Umas perfeitas tias de Cascais, távere?

Nisto aparece a fada, aflitinha, porque a piquena Cinderela tem de ir a uma fêsta qualquer no Algarve, onde vai estar um príncipe, távere?, e ela tem de ir que é pa casar com ele e viver a vida toda em caturraira. Cinderela não está muito pelos ajustes, não percebe que raio de mulher é aquela que lhe aparece de repente à frente e o que anda ela a fazer a gatos e outras coisas, transformando isto em aquilo e aquilo em aqueloutro, muito fartinha. O tom é, sim, humorístico. E sim, o conto está bem escrito. Mas a repetição de gags (como do gato, que é transformado em cocheiro podre de bom e não para de tentar levar a Cinderela para a cama... não tive paciência para contar, mas esse gag repete-se muitas vezes) faz com que depressa se torne também cansativo, pior do que poderia ser.

Sim, este conto tinha potencial para ser bastante melhor. A desconstrução do velho conto de fadas e do machismo a ele inerente em clima de poder feminino («Quero lá saber do príncipe! Eu tenho vida própria!» é algo que a protagonista não diz mas podia perfeitamente ter dito) é intrinsecamente interessante, mas as gracinhas repetitivas e com pouca graça soterram esse interesse em camadas de irrelevância, mesmo admitindo que a mesma subjetividade do humor que me levou a encontrar pouca graça nas gracinhas poderá levar outros leitores a rebolar de riso incontrolável. O conto não é mau. Mas também não me parece que seja bom.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Irmãos Grimm: O Campónio

E mais uma vez, idiotas.

Desta feita, no entanto, e contrariamente ao que é hábito nos contos dos Irmãos Grimm, a história é vagamente subversiva. O Campónio do título é um camponês pobre, o único da sua aldeia, cheia de camponeses ricos. Por ser o único pobre era desprezado por todos os demais, mas no decorrer da história vamo-nos apercebendo de que, não sendo ele propriamente uma inteligência, ainda que seja dotado de alguma astúcia e manha, os camponeses ricos da aldeia é que eram um verdadeiro bando de cretinos que se deixavam enganar com qualquer manigância, por mais básica que fosse.

Digo ali em cima que o conto é vagamente subversivo, mas é muito claramente um conto cruel, pois a moral da história parece ser que a estupidez é fatal. Não é moral com que eu antipatize, confesso, porque muitas vezes é mesmo. Mas, bolas, escusava de morrer a aldeia inteira, não? É que é assim que este conto popular acaba, um conto que não tem magia desde que não achemos que uma aldeia inteira de gente rica mas muito, muito burra só pode existir por artes mágicas: toda a aldeia morre afogada e o campónio, único herdeiro de todos os outros (porquê? O conto não diz), e que os engana fatalmente sem o menor peso na consciência, fica rico.

E sim, não se enganam, também é um conto que oculta atrás do humor uma quantidade nada irrelevante de cinismo. Não é propriamente uma história educativa, esta, ainda que talvez tenha sido essa a ideia original.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 9 de junho de 2019

Leiturtugas da semana #23

E de novo fui eu quem inaugurou esta semana a lista de posts integrados nas Leiturtugas, com a minha opinião sobre o livro de Contos de Eça de Queirós, que li numa edição já com várias décadas dos livros de bolso da Europa-América. O livro tem fantástico, tem fantasia, mas não tem ficção científica, pelo que eu passo a 3c6s.

Mas esta semana não estive sozinho, que a Carla Ribeiro veio fazer-me companhia publicando a sua opinião sobre O Outro Lado de Z, um álbum de banda desenhada de Nuno Duarte e Mosi publicado por uma série de gente: Kingpin Books, Comic Heart e G. Floy. A BD é de fantasia, mas mesmo que fosse de FC as BDs contariam sempre como sem FC, pelo que a Carla passa a 1c1s.

E por esta semana é só. Ah, e passo-vos a bola, caros participantes, porque eu de momento não tenho nenhuma leiturtuga na calha imediata, pelo que agora é convosco durante uns tempos.

sábado, 8 de junho de 2019

Jorge Luis Borges: O Livro de Areia

E cá estamos nós às voltas com a noção do infinito e os paradoxos fantásticos que Jorge Luis Borges tão genialmente foi tecendo à volta dela e ao longo de toda a sua obra.

E "genialmente" não é uma palavra posta aqui por acaso: este O Livro de Areia é um conto rigorosamente genial. Em cuja meia dúzia de páginas Borges cria o objeto infinito da vez e explora as consequências da sua posse para o seu protagonista/narrador. O objeto infinito da vez é, claro, o livro de areia, que não é propriamente de areia pois a areia aqui é uma analogia. O livro parece um livro comum, mas contém todas as páginas possíveis de todos os livros possíveis, uma quantidade tão inumerável como os grãos de areia que existem no universo. O problema? Nunca se sabe que páginas estão de momento acessíveis antes de o abrir e, uma fez fechado, é impossível voltar a encontrar o ponto em que se fechou.

Tudo isto confere ao livro uma raridade absoluta, e por conseguinte um valor também absoluto. E o protagonista desta história age em conformidade, adquirindo-o. Mas há uma espécie de maldição na posse de coisas valiosas, e essa maldição tem consequências. Borges não foge delas, bem pelo contrário, e o final da sua história é tão inevitável quanto inesperado. Tudo magnífico. Este é um grande conto.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Rosário Carvalhosa: A Porta Verde

Quando peguei no livro cuja capa apresento aqui ao lado e decidi trazê-lo para casa, fi-lo motivado principalmente por uma curiosidade: será que entre estes contos haverá algum relacionado com a literatura fantástica? E, ao primeiro conto, pimba, cá está.

(Foi isso e o preço: 2€)

Rosário Carvalhosa, como de resto todos os autores aqui incluídos, segundo se depreende do prefácio do organizador da antologia, é estreante nestas andanças. E não se sai mal da estreia, pesem embora algumas fragilidades aqui e ali. A Porta Verde é um conto interessante de fantástico rural, contado sob múltiplos pontos de vista, os quais incluem não só pessoas como também objetos e umas criaturinhas mágicas chamadas "gafanas". E esta parte mais narrativa do todo está francamente bem conseguida, incluindo elementos de narrador pouco confiável, mudanças de entendimento sobre os factos com a mudança dos pontos de vida, etc.

Esta história, que tem quase um tom infanto-juvenil mas não o é declaradamente, e mesmo com a pequena mancheia de fragilidades que revela, anuncia boas coisas para as histórias subsequentes. Veremos se o anúncio se concretiza.

Italo Calvino: História de Orlando Louco por Amor

Nesta História de Orlando Louco por Amor, Italo Calvino dificulta um pouco mais o desafio a que se propôs, usando a técnica de contar histórias através das cartas de tarot para fazer referência direta a uma obra célebre da literatura medieval italiana, o épico de Matteo Maria Boiardo Orlando Innamorato.

E sai-se muito bem da empreitada, tecendo uma história de amor e violência e cavalaria medieval, que pelo que sei é fiel à obra de Boiardo, ainda que certamente não a todos os seus pormenores. Não haverá aqui muita criatividade na elaboração do enredo, mas ela é enorme na forma de adaptar uma mão de cartas a esse enredo e de o contar através dessa mão de cartas. Se é certo que algumas das histórias que já ficaram para trás não me impressionaram lá muito para além da prestidigitação do tarot como instrumento narrativo, não posso dizer o mesmo desta. Esta impressionou-me mesmo.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Pedro Mexia: Defensor do Vínculo

Mais um conto publicado pelo DN e mais um autor que eu nunca tinha lido, o qual escreve sobre uma atividade (profissão?) de que eu nunca tinha ouvido falar. O que é, em si mesmo, interessante. Tal como interessante é verificar que tal se sai na prosa alguém cujo renome nas letras nacionais foi construído enquanto produtor de poesia.

São vários, portanto, os motivos de interesse apriorísticos que eu pude encontrar neste Defensor do Vínculo, de Pedro Mexia, um conto sobre um homem que tem a atividade que o título designa e consiste na tentativa de defender o vínculo do casamento católico contra as tentativas de dissolução de casais desavindos. Porque a igreja católica continua a não reconhecer o divórcio, pois entende que o casamento é sagrado, e não é porque um casal se divorcia civilmente que pode considerar o casamento desfeito caso se tenha casado (também) por via religiosa. Terá que procurar obter a dissolução do casamento, o que tem regras próprias e, segundo julgo ter percebido, envolve uma espécie de julgamento para avaliar se as regras são cumpridas. O defensor do vínculo será, assim, uma espécie de advogado de defesa dos sacramentos.

Para apimentar a coisa, este defensor do vínculo está com dúvidas, ou se calhar simplesmente deprimido, e o ex-casal exibe uma atitude que força a verosimilhança. Mexia vai fazendo avançar o enredo (enfim, o que aqui existe de semelhante a um enredo) de forma sonolenta e sinuosa, com frases intermináveis carregadas, como talvez fosse inevitável, de jargão jurídico e salpicadas de tiradas vagamente filosóficas. O resultado talvez seja fascinante para a malta do direito e/ou da teologia, mas está longe de o ser para mim. Não são temas que me interessem, e a abordagem de Mexia deu-me fundamentalmente sono. O conto não é mau, Mexia escreve bem, ainda que não me agrade por aí além a verbosidade sinuosa dos seus parágrafos (apesar de tudo não é nenhum Saramago, o Mexia), mas para mim funcionou como um belo soporífero. Muito me surpreenderia se ainda me lembrasse de alguma coisa sobre ele daqui a um ano.

Lido: Assessor Para Assuntos Fúnebres

Ah. O Gerson Lodi-Ribeiro trocou-me as voltas. Ao ler Morcego do Mar, a novela que antecede esta noveleta, sabendo que o protagonista destas histórias teria de vir parar a Londres para servir como Assessor Para Assuntos Fúnebres (bibliografia), deparando com navios ingleses na Baía de Boston, prontos para regressar à pátria, e assistindo ao desaparecimento do Vampiro de Palmares, supus que seria essa a forma que o Gerson tinha arranjado para levar o seu protagonista até lá. Mas não. O hiato entre uma história e outra é demasiado grande para isso, e esta história começa com uma rápida revista dos lugares por onde andou o Vampiro até ir dar à capital do Reino Unido.

E segue-se uma história com bastante interesse sobre quem poderá realmente ser o famigerado Jack the Ripper, que relação poderá haver ou deixar de haver entre ele e o Vampiro de Palmares e o que daí poderá resultar. De todas as histórias de que se compõe este romance-colagem, esta é aquela em que a ficção científica surge de forma mais clara, embora nenhum conhecedor do género possa supor que qualquer destas histórias tenha como base outra coisa que não a FC. Para não irmos mais longe, a ideia básica de naturalização dos vampiros, apresentando-os como criaturas filhas da evolução biológica e dotadas de capacidades extraordinárias e sobre-humanas mas não sobrenaturais, é inteiramente uma ideia de ficção científica.

E porque é nesta história que a FC aparece de forma mais clara? Porque o autor pega no mistério do Extripador e em alguns pormenores desse mistério, deita no caldeirão a ideia-base de naturalização de velhas histórias sobrenaturais, nomeadamente as dos vampiros, e postula que há mais uma criatura folclórica cuja base é igualmente natural, embora não deste planeta: o lobisomem. E mexe a mistura assim conseguida.

O resultado é uma história muito interessante, mas que no entanto é mais sobre o alienígena metamórfico preso há milénios na Terra depois de a sua nave se ter despenhado do que propriamente sobre o Vampiro de Palmares. É a história da investigação deste sobre aquele, é certo, mas o protagonista é o investigado, não o investigador. No fundo, esta história é uma espécie de espelho de O Vampiro de Nova Holanda. Ambas têm um mistério que em ambas acaba desvendado; em ambas uma criatura mitológica como que ganha corpo natural ao mesmo tempo que se mantém oculta da população geral, mantendo secreta a história secreta; em ambas o vampiro de Palmares marca presença, mas enquanto na presente história ele funciona como meio para a descoberta da natureza e atos do alienígena-lobisomem, na história ambientada em Nova Holanda são outros que funcionam como meio para a descoberta da natureza e atos seus, do Vampiro.

E é aí que esta história, no contexto deste livro e na posição que nele ocupa, se torna ineficaz. Isso, contudo, é conversa para quando for avaliar o livro como um todo. Aqui fala-se da história em si mesma, e essa é boa.

Contos anteriores deste livro:

Escrita de maio


Então, pá, acabaste a tal novela? Acabaste? Hã? Hã?, pergunta, ansiosíssimo, ninguém.

Não, não acabei. Nem um capítulo dela acabei durante o mês de maio, apesar de lhe ter acrescentado mais de 3900 palavras. Umas 12 páginas. É possível que este capítulo venha a precisar de sofrer algum desbaste durante a(s) revisão(ões), até porque ainda está bem longe de terminar. A produção do ano vai numas 50 páginas, nem todas pertencentes a este texto, mas a vasta maioria sim. Essa é a parte boa. Essa e o facto de já ir no sexto mês consecutivo de escrita regular. E de já ter escrito mais só este ano do que tudo o que escrevi desde 2013.

A parte má é que isto de escrever à volta de quatro mil palavras por mês é demasiado lento para me ver livre em tempo útil de algumas das histórias que tenho na cabeça. Há por aqui pelo menos dois romances, e assim nem daqui a dez anos. Mas pronto, é melhor que nada. E, agora que acabei uma tradução (falta a revisão), vou ter mais tempo livre, pelo que pode ser que a coisa acelere.

No fim de junho veremos se acelerou mesmo, e quanto. Até lá.

Ah, sim, ia-me esquecendo. Decidi que quando acabar isto vai haver uma surpresazinha. Não sei bem ainda qual, nem o modo concreto de a concretizar, passe o pleonasmo, mas é mais uma cenourinha para espevitar o burrico. Arre bicho!

domingo, 2 de junho de 2019

Lido: Contos (#leiturtugas)

Para quem gosta de literatura fantástica e conhece Eça de Queirós como um (grande) romancista realista, a primeira coisa que salta à vista quando se lê estes Contos (bibliografia) é a quantidade relativamente grande de contos fantásticos que a coletânea contém. Não são a maioria, longe disso, mas encontrar-se 4 contos fantásticos numa coletânea de Eça será algo inesperado para quem leva uma vida a ouvir dizer que isso de ficção científica e fantasia é literatura menor que nenhum escritor sério perderia tempo a cultivar.

(E sim, há quem continue a dizê-lo, mesmo depois do nosso único Nobel da literatura ter sido essencialmente um escritor de literatura fantástica que até com a ficção científica namorou, o que eu acho, francamente, espantoso. Não que ele o seja, atenção; que quem continue a dizê-lo o faça.)

Pois bem, Eça cultivou. À sua maneira, naturalmente, indo buscar inspiração aos mitos bíblicos, aos mitos helénicos, a velhas lendas e histórias populares. Isto é, o fantástico de Eça, ao contrário do que acontece com muitos fantasistas modernos cuja inspiração é mais nórdica e anglo-saxónica que latina, está muito enraizado na cultura portuguesa e nos elementos que confluíram para a sua criação. É tão profundamente português como tudo o resto em Eça, apesar do eterno aborrecimento do autor com a pequenez pátria, o qual, diga-se de passagem, também é extremamente português.

E são em geral bons contos, ainda por cima. Os fantásticos e também os outros. Seria de esperar? Sim, até certo ponto, porque se é certo que Eça é um dos nossos grandes romancistas — há quem diga que o maior de todos e eu percebo porquê — não é menos certo que um grande romancista nem sempre corresponde a um grande contista. E vice-versa.

E creio que isso acontece com Eça. Embora os contos sejam em geral bons, raros foram os que realmente me impressionaram. Em parte, creio, porque vários destes contos são mais estudos de personagem do que propriamente narrativas destinadas a contar uma história, ao passo que nos romances Eça faz ambas as coisas com mestria. Em parte, talvez, porque há em vários uma certa dissonância entre a qualidade literária, no que toca ao puro tratamento da linguagem, e aquilo que mais apela ao meu gosto enquanto leitor. E em parte porque um ou dois destes textos me parecem corresponder a experiências não inteiramente bem sucedidas.

Por outro lado, esta opinião menos bem impressionada também talvez tenha algo a ver com quem Eça é. Não há volta a dar-lhe: quando pegamos nos textos dos gigantes, estamos sempre à espera do sublime, e se não o encontramos, porque a verdade é que as pessoas são simplesmente humanas e nem tudo o que fazem está ao nível da sua melhor produção, mesmo quando é na mesma francamente bom, a avaliação final acaba por sofrer com o excesso de expetativa. E estes contos são em geral bons. Não são, certamente, tão bons como os melhores romances de Eça, mas são bons.

Eis o que achei de cada conto:
Este livro é proveniente da biblioteca dos meus pais.

Irmãos Grimm: Os Dois Irmãos

Não, não, contrariamente ao que poderão supor (se forem muito distraídos ou muito sarcásticos), Os Dois Irmãos desta história não são os Irmãos Grimm que a escreveram amalgamando uma série de histórias diferentes.

Trata-se de um conto incaracteristicamente longo sobre dois irmãos que não podiam ser mais diferentes um do outro. O rico era mau e ourives; o pobre era bom e fabricava vassouras. O enredo começa a marchar quando o pobre encontra uma pena de ouro que leva ao rico, despertando-lhe a cobiça, e segue-se uma história complexa em que entram os dois filhos gémeos do irmão pobre, o pássaro de ouro que tinha perdido a pena e depois perdeu a vida, um caçador que adota os gémeos depois do pai (que era bom, mas pelos vistos não muito) os ter abandonado na floresta, o que não os impede de viverem uma vida cheia de aventuras e de princesas e de prodígios. E eis que os dois irmãos originais passam o testemunho aos dois irmãos com que a história termina, e siga a banda a retumbar rua fora. E no fim, claro, tudo acaba em bem, à boa maneira dos contos de fadas.

O que achei mais interessante nesta história foi ter reparado num facto curioso: a complexidade não contribui em nada para a tornar mais marcante. Pelo contrário, até. Isso talvez aconteça em parte porque os Grimm a construíram a partir de elementos díspares, e por isso lhe falta um fio condutor realmente sólido, mas creio que só se encontra aqui parte da explicação. A outra parte, e talvez a parte maior, tem a ver com a própria natureza deste tipo de história. Elas tendem a funcionar tanto melhor quanto mais despojadas se mostrarem de elementos acessórios, quanto mais claras e objetivas forem não só no enredo mas também na moral subjacente. Ao contrário da maior parte da literatura, que funciona tanto melhor quanto mais complexa e/ou subtil se mostrar, as histórias populares pedem simplicidade. Não que não se possa incutir-lhes complexidade ou subtileza, mas quando isso acontece geralmente deixam de ser histórias populares e passam a ser outra coisa.

Esta história, como já terão compreendido, não é grande coisa. Os Grimm, para terem tido real sucesso nesta sua empreitada, deviam ter assumido que estavam já a escrever outra coisa, não uma história popular, tratando as várias histórias que usaram para costurar nesta mais como inspiração do que como fio condutor. Não o fazendo, ficaram com um Frankenstein literário. Um Frankenstein literário de 21 páginas que se esquecem bem depressa.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas da semana #22

Mais uma semana de leiturtugas, e mais uma vez é a mim que cabe fazer as honras do projeto, desta feita através de uma opinião sobre outro dos ebooks publicados pelo DN há uns anos. É ele Cidade Líquida, um conto de João Tordo com elementos fantásticos. Com elementos fantásticos mas sem sinal de FC, pelo que passo a 3c5s.

E de novo é só. Para a semana haverá mais.

sábado, 1 de junho de 2019

Lido: 26 Macacos e Também o Abismo

Ora aqui está uma história francamente bem contada.

É nisso que este 26 Macacos e Também o Abismo (bibliografia) realmente se destaca: a forma hábil com que a americana Kij Johnson, que nunca antes me tinha passado pelas mãos, vai desenrolando o novelo deste conto, ora lançando aqui uma afirmação insólita que espevita a curiosidade sobre o que poderá estar ela a contar, ora deixando cair acolá uma explanação que responde a duas ou três dúvidas ao mesmo tempo que cria mais duas ou três e deslocando-se sinuosamente para trás e para a frente no tempo, muitas vezes atrás dos seus macacos.

Sim, os macacos são vinte e seis, e de uma variedade de espécies, aos quais há que se somar a tratadora / ilusionista que com eles apresenta um número de desaparecimento em banheira, numa daquelas feiras que percorrem os Estados Unidos. Se bem que a tratadora de pouco trate e as ilusões que a ilusionista vende sejam mais a ilusão da inexistência de magia do que a da sua existência. É que, para sua grande confusão, e por mais que lhe espevite futilmente a curiosidade, os macacos desaparecem mesmo da banheira onde se recolhem, voltando a aparecer horas mais tarde, no autocarro que os transporta de uma cidade à seguinte, sem que ninguém saiba por onde andaram. Só eles, talvez.

É a história do mistério e o lento e sinuoso desvendar do que desse mistério a mulher foi sabendo que funciona como motor do conto. E também a história de como ela deu por si responsável por aquele número, herdando-o de uma forma compulsória do seu antigo dono, o qual lho vende por um dólar, e de como acaba por se livrar dele, anos mais tarde, de uma forma muito semelhante. Uma história contada com grande competência, como ficou expresso acima. Gostei bastante deste conto. Talvez não tenha gostado muito, mas sim, gostei bastante. É bastante bom.

Carla Ribeiro: Duelo

Com a ressalva habitual sobre eu pouco perceber de poesia, e patati, e patata, este Duelo (bibliografia) da Carla Ribeiro foi um texto que me agradou bastante mais que o anterior. Em parte, talvez, por estar escrito em verso livre, o que torna menos óbvias eventuais deficiências técnicas que o poema pudesse ter. Mas também em parte, e talvez na maior parte, porque o tom dramático do texto condiz com aquilo que conta, um duelo fantasmagórico, sobrenatural, entre uma entidade masculina e outra feminina, que evoca outras coisas bastante mais terrenas. Este texto traz em si uma aura de verdade, de coisa genuína. Não sei bem se é o suficiente para eu gostar mesmo dele, mas é mais que suficiente para não o achar "fracote" como achei o primeiro.

Texto anterior deste livro:

Lido: O Disco

Não deixa de ser curioso que Jorge Luis Borges tenha vários contos em que explora o imaginário e as paisagens das Ilhas Britânicas, frequentemente de braço dado com a fantasia e a história. E é curioso porque existe fora dos setores hegemónicos do género uma corrente que pugna pela "nacionalização" do fantástico, por um fantástico mais genuinamente ligado ao contexto próprio de cada literatura e escritor, e Borges até o fez muitas vezes. Mas nunca se coibiu de situar as suas ficções onde lhe desse na real gana. É precisamente essa, parece-me, a abordagem mais saudável. Sim, convém que quem escreve não se esqueça de quem é e de onde vem mas, tendo essa base como ponto de partida, a liberdade de criar deve ser o valor fundamental.

Como já terão compreendido pelo introito, O Disco é um desses contos. Muito curto, apenas com 3 páginas, e incompletas, é contado na primeira pessoa por um lenhador, e Borges consegue com grande habilidade introduzir na história a informação geográfica e cronológica necessária para a situar, se bem que convenha ter alguma noção da história britânica para a compreender.

Nesta ambientação introduz Borges o fantástico que lhe é mais habitual, por intermédio de uma abstração matemática. Aqui não é à noção do infinito ou aos objetos fractais que Borges dá existência digamos, palpável, mas a um círculo euclidiano, que tem apenas um lado, sob a forma de um disco trazido por um viajante que um belo dia vai bater à porta do lenhador. O disco, embora invisível, é o que basta para que o viajante chame rei a si mesmo e para despertar a cobiça do lenhador, o qual age em conformidade com essa cobiça. Mesmo nunca tendo visto o disco, só um rapidíssimo reflexo de luz.

Este é mais um belíssimo conto, muito bem construído e muito bem escrito, pese embora a sua brevidade. Muito bom.

Contos anteriores deste livro: