quinta-feira, 4 de julho de 2019

David Rafael Silva: O Tapete Mágico

Pouco percebo de poesia, mas sei que uma das necessidades da poesia é a precisão da linguagem e isto aplica-se tanto àqueles poemas com métrica, rima e demais camisas de sete varas quanto aos que se constroem com verso livro. E o David Rafael Silva não tem essa precisão na linguagem. Ou pelo menos não a teve quando escreveu sobre O Tapete Mágico (bibliografia). O resultado são uns versejos bem intencionados sobre o valor da imaginação para uma criança (e só, David?), consubstanciada nas histórias mágicas da fantasia, mas que não passam das boas intenções. As palavras não têm ritmo, não soam bem, são banais e, por vezes, algo desconexas; as rimas, que nem seriam necessárias, soam muitas vezes forçadas. E por aí fora. Este texto é mau.

Textos anteriores deste livro:

Escrita de junho


Sim, é verdade, isto acelerou mesmo. Junho terminou com cerca de 9100 palavras acrescentadas à novela que tenho andado a escrever. São 25 páginas, talvez um pouco mais. É mais do que em qualquer outro mês desde que recomecei a escrever. Muito mais. Mais que o dobro, na verdade.

E no entanto, nem sequer acabei o capítulo que já vinha dos meses anteriores. É um capítulo muito grande, o maior de todos, e de longe, e provavelmente acabará por sofrer algum desbaste. Mas não muito: é central, sob vários aspetos. O que quer dizer que isto arrisca-se fortemente a deixar de ser novela e passar a romance, pelo menos em tamanho (porque a estrutura continua a ser de novela). Está com mais de 35 mil palavras, mais de 80 páginas de manuscrito, as quais são um pouco maiores que as de um livro médio, pelo que num livro isto teria já quase 100 páginas. O mais certo é que não chegue a ser tão grande como Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, que tem 47 mil palavras, mas é possível que não fique muito longe. Afinal, faltam ainda dois capítulos...

Já não me arrisco é a fazer previsões quanto a quando terei isto acabado. Era para já ter, mas não esperava que crescesse tanto. Acho que me falta mais ou menos tanto quanto escrevi este mês, mas pode ser que acabe por escrever mais. Portanto, olhem: se calhar acabo em julho, se calhar só em agosto, e se a coisa continuar a inchar pode ser que só em setembro. Veremos.

Daqui a um mês digo como foi.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Vou lendo

Não sei se isto vai passar a ser coisa regular, mensal, mas este mês apeteceu-me pôr aqui uma galeriazinha das capas dos livros e publicações em leitura no primeiro dia do mês. Muitas já vocês as viram por aí nos comentários aos contos, mas há algumas que ainda não apareceram. Veem-nas agora.


E então? Alguma destas capas lhes desperta especial curiosidade?

Italo Calvino: Todas as Outras Histórias

Todas as Outras Histórias é isso mesmo: todas as outras histórias que se podem obter a partir de uma tiragem de tarot, ou melhor, da tiragem de tarot que terá originado as histórias anteriores. É um texto bastante confuso, cheio de sequências de cartas e personagens e histórias contadas de forma muito resumida, para o seguimento da qual talvez fosse necessário lê-la com as cartas distribuídas à frente. Sim, o conto é antecedido por uma página ilustrada com a respetiva tiragem, mas esta consegue ser mais confusa que a história: as imagens são muito pequenas e estão representadas a preto e branco; nada disto contribui para deixá-la clara. E a minha ignorância muito assumida sobre o tarot também não.

Apesar disso, é um conto eficaz a transmitir a principal ideia que Italo Calvino quer com ele transmitir: a de que qualquer tiragem de tarot permite deduzir (ou imaginar) uma miríade de histórias. E isto, digo eu, tanto se aplica às cartas quando usadas para o fim para que ele as usa, a criação literária, como quando são usadas na cartomancia mais clássica.

Por outro lado, lá está, é um bocado gaveta de bugigangas, aquelas gavetas que toda a gente tem em casa e para onde vai atirando tudo o que não tem lugar nas outras. Está bem escrito, claro, e outra coisa não se esperaria de Calvino, apresenta num fogacho uma porção de personagens e de histórias que muitas vezes apetece descobrir melhor, mas, provavelmente por isso mesmo, esteve longe de me encher as medidas.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 1 de julho de 2019

H. G. Wells: Um Sonho do Armagedão

Se me pedissem para rotular este conto de H. G. Wells, a expressão que eu teria de usar é "ficção científica onírica". Porque ao contrário do que acontece nos seus romances de FC mais conhecidos (A Guerra dos Mundos, A Máquina do Tempo, A Ilha do Dr. Moreau, O Homem Invisível), cujo combustível é a tensão entre a tecnologia — mesmo que biológica, como nos dois últimos casos — e aqueles que a dominam por um lado e a sociedade em geral por outro, em Um Sonho do Armagedão estamos basicamente no mundo dos sonhos, o que aliás o próprio título já revela.

Não que essa tensão esteja aqui ausente. O conto é daquelas histórias clássicas da viragem do século XIX para o XX (quase precisamente: o conto foi publicado em 1901), em que o narrador se limita a contar ao leitor uma história tal como lhe foi contada a ele por um terceiro. Neste caso, o terceiro é um homem perturbado que conhece numa viagem de comboio, o qual lhe relata uns sonhos particularmente vívidos que teve durante algum tempo... uns sonhos em que ele é uma pessoa diferente. Uma pessoa futura.

Detalhe da maior importância: o homem é capaz de descrever com precisão as paisagens de regiões de Itália nas quais nunca esteve e que o narrador reconhece porque ele viajou por lá. Wells consegue assim gerar no leitor a ideia de que aquilo que o homem sonha não é sonho mas realidade, de que ele está de alguma forma ligado oniricamente com um futuro verdadeiro. De resto, é essa a opinião do homem, apesar de deparar com o ceticismo do companheiro de viagem.

E o que o homem descreve é a descida ao inferno da guerra de um mundo aparentemente unificado que há décadas, talvez há gerações, desconhece tal flagelo. Tudo devido à ambição e sede de vingança de um líder carismático mas tresloucado e à inação do homem que poderia detê-lo — o próprio alter ego futuro do passageiro de comboio. Wells cria assim uma ficção científica pacifista que alerta para o perigo de ficar de braços cruzados quando os monstros ganham relevância e protagonismo, décadas antes de uma II Guerra Mundial que pareceu concretizar tudo o que Wells temia.

E o pior?

O pior é que o alerta vai ganhando uma relevância crescente nos dias de hoje, mais de um século depois da publicação desta história.

Conto anterior desta publicação:

domingo, 30 de junho de 2019

Leiturtugas da semana #26

Ora bem, esta semana não houve leiturtugas mas, como acaba hoje o primeiro semestre do ano, está na altura de fazer um balanço do projeto. Cá vai tabela.
 
Publicação Já cumprido Falta cumprir Mês de início
O Senhor Luvas objetivo ultrapassado janeiro
Ideias de Leitora 1c4s 1 (2c) fevereiro
A Lâmpada Mágica 4c6s 2 (2c) janeiro
O Prazer das Coisas 5c4s 3 (1c) janeiro
As Leituras do Corvo 1c1s 4 (2c) janeiro
So Happy with Less - 5 (2c) março
Intergalactic Robot 5c1s 6 (1c) janeiro
Rascunhos 4c2s 6 (2c) janeiro
O Blog do Jauch 2c1s 9 (4c) janeiro
Words a la Carte - 10 (5c) março
Atmosfera dos Livros - 12 (6c) janeiro
Faces de Marisa - 12 (6c) janeiro

O Marco, que cumpriu os objetivos ainda antes de chegar ao meio do ano, está de parabéns. Para isso contribuiu que as regras da coisa permitam integrar-se nela contos individuais, claro, mas todos os outros são livres de fazer o mesmo, se quiserem. Alguns, como eu e o Artur, optaram por só integrar aqui publicações completas, ainda que eu também cá tenha alguns contos, quando foram publicados isoladamente, mas isto é uma opção individual.

Há outros participantes que estão também muito perto de acabar: eu, a Maria e a Tita. À Tita falta falar de uma só FC e mais duas coisas quaisquer (ou três FCs, se preferir), a mim falta falar de duas FCs. À Maria falta também falar de duas FCs; para ela cumprir os objetivos das leiturtuguinhas terá de chegar às 7 opiniões. E também pode seguir em frente para as Leiturtugas, se preferir.

Outros, pelo contrário, estão muito atrasados. Sobretudo os quatro participantes que ainda não publicaram nenhuma opinião. Mas temos aí o verão. Tenho esperança que ele seja bem aproveitado.

No fim de setembro voltamos a fazer contas. Até lá.

sábado, 29 de junho de 2019

Gregory Benford: Toda a Cerveja de Marte

A ficção científica sempre foi demasiado otimista quanto ao desenvolvimento das viagens espaciais, sobrestimando a capacidade da tecnologia para ultrapassar os obstáculos e a vontade política e económica para o fazer e subestimando as dificuldades desse tipo de empreendimento e, tantas vezes, a mera dimensão das distâncias envolvidas em qualquer voo que não se limite às vizinhanças da Terra.

Assim, é há muito dado adquirido na FC que após as primeiras missões robóticas de Marte se seguiriam inevitável e brevemente missões tripuladas. Mas que encontrariam ao chegar lá? Gregory Benford dá aqui uma resposta possível.

E não, apesar do título deste conto ser Toda a Cerveja de Marte (bibliografia), não é cerveja. É vida.

Todo o conto se desenrola no interior de uma espécie de tanque pressurizado, tripulado por um pequeno grupo de exploradores cuja função é investigar a origem e natureza dos equívocos resultados obtidos pelas sondas automáticas quanto à presença de moléculas orgânicas no solo marciano. De notar que na época em que foi escrito estas eram apenas sondas estáticas, pois ainda não se tinha chegado à época dos rovers. Assim, parte do enredo está desatualizado devido à grande quantidade de ciência marciana produzida desde os anos 80. Mas esse facto não anula a possibilidade de algo de semelhante ao que aqui se descreve poder vir a acontecer.

É uma missão tensa na zona do Vallis Marineris. Os tripulantes têm opiniões diferentes quanto ao rumo ideal a seguir e a discórdia só se exacerba à medida que os dias passam e não encontram nada. Mas depois encontram. E quanto mais avançam, mais encontram. Há vida em Marte, ou pelo menos numa região limitada de Marte. E o conto termina quando se descobre a sua origem.

Este é daqueles contos de FC hard nos quais as questões técnicas e puramente científicas têm preponderância sobre o resto. Nem toda a FC hard é assim, e eu prefiro quando não é, como no caso do romance Blindsight do Peter Watts que comentei por aqui há pouco tempo. Na verdade é mais do que preferência: tenho chegado à conclusão de que a que não é assim, isto é, aquela que vai mais fundo nos dilemas humanos do que a que se dedica sobretudo a explorar problemas científicos e tecnológicos, tem tendência a envelhecer melhor. Mas isto não quer dizer que ache este conto mau. Não o é, pelo contrário. É um conto bastante interessante sobre as consequências involuntárias do que fazemos ou do que não fazemos. Ou da ignorância.

Contos anteriores desta publicação:

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Connie Willis: Muito Barulho Por Nada

É um deprimente espelho da época que vivemos que este conto de Connie Willis seja, de longe, a mais atual de todas as histórias contidas no início deste número da IAM e provavelmente também a mais atual de todas as que ainda faltam para o acabar. Muito Barulho Por Nada (bibliowiki), um título que remete imediatamente a Shakespeare e à sua peça Much Ado About Nothing mas está longe de ser uma boa tradução do título original, Much Ado About (Censored), é um texto de ficção científica satírica sobre o que se perde com a estupidez da censura social.

A protagonista do conto é uma professora de literatura que se prepara para dar Shakespeare aos seus alunos. Mas primeiro tem de passar vários dias a fazer trabalhos preparatórios. Que trabalhos preparatórios?, perguntarão. Estudar o que houver a ser estudado sobre o dramaturgo inglês a fim de melhor conseguir transmitir a sua essência aos alunos?, sugerirão. Não. Nada disso.

Remover tudo o que nas suas peças tivesse sido considerado ofensivo por alguém. Incluindo peças inteiras.

E decididamente não falta gente que se ofende com coisas. Um Movimento Nacional Contra Frases Interrogativas censura todas as frases que o sejam, uma Comissão para a Prevenção de Envenenamentos censura o envenenamento do pai do Hamlet por poder levar desequilibrados a fazer o mesmo, a Frente de Libertação da Mulher censura qualquer frase e personagem que possa trazer alguma sugestão de machismo, o Conselho Nacional de Cutelaria censura tudo o que possa sugerir que as espadas são perigosas, e etc., e por aí fora, e mais grupos e grupelhos a censurar isto e aquilo e aqueloutro.

Soa-vos familiar?

Pois.

O resultado de tanto corte é o que seria de esperar: a destruição completa da obra. E é essa a mensagem: a censura nunca é inócua. Tem sempre efeitos que vão muito para lá daquilo que se pretende suprimir, e legitima que outros grupos, com interesses diferentes, utilizem as mesmas táticas. Censurando, abrimos as portas a também nós sermos censurados. Sim, este conto é uma sátira de FC. Mas também é uma história profundamente política sobre algo muitíssimo relevante para os tempos que correm e para a nossa vida em sociedade. Boa FC, portanto. E também divertida e amarga. Connie Willis no seu melhor.

Contos anteriores desta publicação:

quarta-feira, 26 de junho de 2019

António Pedro Saraiva: Das Visitações

Já tivemos contos inspirados em Borges, em Carroll, nos Grimm (ou talvez na Disney), e eis que temos mais um conto com inspiração em... Borges. Mais que inspiração, na verdade, pois deste conto de António Pedro Saraiva pode-se dizer com propriedade que merece por inteiro o título de pastiche.

Infelizmente para o leitor que sou, não é um pastiche dos contos borgesianos que mais me agradam, mas dos que menos me agradam. De novo, tal como acontece com a Aventura Borgiana do Nuno Fonseca. De resto, são vários os pontos de contacto entre as duas obras. Das Visitações (bibliografia) também é um pseudofactual que usa Borges e/ou a sua obra como fio condutor. Aqui, temos um pseudoensaio académico sobre um manuscrito místico de um tal Cícero Pendragon, que terá sido descoberto por Borges durante investigações que o argentino teria levado a cabo.

Não tendo gostado por aí além deste conto, porque é raríssimo eu gostar por aí além de pseudofactuais, sejam eles quais forem e escritos por quem forem, devo dizer que Saraiva foi bastante eficaz no seu pastiche. Nesse sentido, o conto é bastante bom. Lê-se praticamente como um pseudofactual do próprio Borges, com a linguagem ensaística e a mistura de erudição e referências, umas falsas outras verdadeiras, que os caracterizam, e logra semear na mente do leitor a dúvida sobre se o que está a ler é ficção ou não ficção. Eu não gostei lá muito, mas o autor está de parabéns.

Contos anteriores deste livro:

Ana Alves Oliveira: Aniversário

Os três ou quatro que costumam ler o que aqui se escreve já deverão saber que há algumas coisas que decididamente me desagradam na literatura, e que uma dessas coisas é encontrar nela fiozinhos demasiado óbvios a tentar laçar e depois manipular os sentimentos do leitor. Não só essa falta de jeito me deixa imune ao impacto sentimental que se pretende atingir, como me irrita. E é principalmente por isso que este Aniversário é o primeiro conto deste livro de que decididamente não gostei.

Ainda por cima, Ana Alves Oliveira resolve contar uma história americana já contada milhares de vezes por autores que a conhecem melhor e mais de perto: a história de um veterano de guerra, no caso a do Afeganistão, que regressa traumatizado e mergulha no alcoolismo e na mendicância. Não a escreve mal, o trabalho da língua é em geral correto, e os flashbacks (num conto destes convém ser em inglês) estão razoavelmente bem inseridos na narrativa, mas todo o conto soa a falso, a coisa feita artificialmente para puxar ao choradinho. Não. Assim, não.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 25 de junho de 2019

Charles Sheffield: A Serpente do Velho Nilo

Não sei se foi de propósito, mas este número da Isaac Asimov Magazine está cheio de Egito: depois de Esperando os Olimpianos, em boa parte ambientado nas margens do Nilo, eis que este A Serpente do Velho Nilo (bibliografia) é fiel ao título e também tem o rio egípcio como pano de fundo.

Mas aqui o ambiente tem mais fantasia, ainda que este conto de Charles Sheffield não deixe de ser de ficção científica. Estamos entre arqueólogos e engenheiros hidráulicos, numa corrida contra o tempo para concluir as escavações num certo vale que os arqueólogos julgam ter grande significado por lá se encontrar enterrado algo que não se sabe bem o que é (há opiniões divergentes, as quais geram tensões fortes, especialmente entre os dois arqueólogos principais) antes da data aprazada para que as águas do Nilo inundem o vale a fim de fornecer irrigação a explorações agrícolas fundamentais para alimentar um Egito crescentemente sobrepovoado.

A trama complica-se quando chega ao local uma mulher que diz ser filha de um dos dois arqueólogos rivais, a qual depressa se transforma em objeto de desejo não só do outro arqueólogo, mas também do engenheiro, especialmente quando dá um espetáculo de dança fantasiada de serpente do velho Nilo, uma antiga deusa local. Sim, esta história não passaria nos testes de machismo: só tem uma personagem feminina, e esta só serve realmente à trama como objeto do desejo masculino. De tal forma que é esse desejo que leva ao desenlace trágico (e mágico, ou pelo menos fantástico no sentido em que procura deixar o leitor na dúvida sobre o que realmente acontece), que no entanto culmina com uma descoberta arqueológica de grande importância.

Apesar disso, o enredo não deixa de ser bem construído, o que torna o conto interessante. Não muito bom, parece-me, mas interessante.

Contos anteriores desta publicação:

Fernando de Sousa Pereira: Fada

De Fada (bibliografia) gostei mais do que do texto anterior e também do que do primeiro. Fernando de Sousa Pereira é eficaz a criar um poemazinho de fantasia com pegada infanto-juvenil, daqueles que se leem bem em voz alta a um miúdo pequeno, ou até naquelas sessões em escolas e bibliotecas em que atores contam histórias e declamam poemas para deleite da petizada. Não posso dizer que tenha gostado muito deste poema, até porque já não sou público-alvo há uns aninhos, mas não desgostei.

Textos anteriores deste livro:

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Italo Calvino: História de Astolfo na Lua

Nesta História de Astolfo na Lua, Italo Calvino foge um pouco à técnica que tem utilizado para construir estas histórias, afastando-se até certo ponto da narrativa dedutiva em que cada carta posta na mesa é motivo de especulação e análise para o narrador ir reconstruindo a história que quem descarta quer contar, entre muitas hesitações e incertezas. Aqui, estas reduzem-se bastante e as dúvidas sobre o significado de cada carta transformam-se sobretudo em dúvidas sobre que varta virá a seguir. É tão legítimo contar a história assim como da forma anterior, obviamente, mas não consegui evitar uma certa sensação de batota.

Quanto ao conto em si, é uma visita de Calvino à proto ficção científica medieval e renascentista, coisa que ele também faz com frequência nas Cosmicómicas ainda que sob uma abordagem bastante diferente. O conto tem ligação direta com o conto anterior, uma vez que também Astolfo é personagem dos poemas épicos de Boiardo (e não só, pois ambos têm base em lendas mais antigas), e é para tentar recuperar o juízo de um Orlando enlouquecido que Astolfo parte para a Lua montado num cavalo alado. Mas só encontra um deserto.

À parte a sensação de batota referida acima, este conto é muito bom, literariamente falando. A narrativa, privada das dúvidas e hesitações do decifrar da história através das cartas de tarot (ou pelo menos com elas atenuadas), fica mais fluida e o conto ganha mais ritmo, mantendo-se tão bem escrito como os restantes.

Contos anteriores deste livro:

Comecei a fazer isto e agora vou precisar de ajuda


Ora bem, se forem ao Bibliowiki, mais especificamente a esta página, verão o que esta imagem aqui por cima retrata: o início de algo que me parece bastante útil, uma forma rápida para se ver quem são e o que fizeram e quando as pessoas ligadas à FC em Portugal. Um Quem É Quem. Para já é só à FC, e em Portugal, porque é aquilo que eu conheço melhor. E mesmo assim já vi que vou precisar da vossa ajuda.

Comecei por mim, porque sei exatamente o que fiz e quase exatamente quando, não precisando, portanto, de fazer nenhuma investigação prévia, mas já aí, e apesar disso, deparei com dificuldades. É que quis, por me parecer particularmente útil, dividir a atividade de cada pessoa em várias capacidades e em três graus: esporádica, regular e intensa. Mas... como separar umas das outras? Que critérios usar para que o esquema fique razoavelmente rigoroso?

OK, é certo que a atividade de tradutor costuma ser bem separada da de autor (e quando não é, nas adaptações, sempre tenho posto no Bibliowiki os adaptadores como coautores, portanto faz sentido continuar a fazê-lo), mas quando se chega a coisas como "ensaísta" ou "divulgador" começam a aparecer áreas cinzentas. E há sempre áreas cinzentas nos graus de atividade. Como diferenciar uma atividade regular de uma intensa? Uma esporádica de uma regular? Com que critérios, que terão forçosamente de ser diferentes para as várias atividades?

E mais tarde haverá outro problema. Para já, a preocupação básica foi arranjar gente ativa nas vertentes de que me lembrei (e poderá vir a haver outras? Eis mais uma dúvida) e autores que me permitissem esticar desde o início a tabela até à sua dimensão máxima (ou quase) porque estar a fazê-lo mais tarde implica muito mais trabalho, mas estas tabelas não são para toda a gente, e mais tarde ou mais cedo confrontar-me-ei com uma decisão sobre que nível de presença de cada indivíduo no género, tanto quantitativo como qualitativo (?), é necessário e suficiente para ele ser aqui incluído. De momento confesso que não faço a mais pequena ideia.

Preciso, portanto, de opiniões. Fundamentadas, de preferência, para ter bases mais sólidas para pesar os prós e os contras de cada uma.

Guy de Maupassant: Amor

Guy de Maupassant é um dos grandes nomes do conto fantástico francês do século XIX, provavelmente o maior de todos, mas está longe de ter sido escritor apenas de fantástico sobrenatural. Este conto, Amor, é prova disso mesmo; trata-se de um conto naturalista, realista, sobre a caça.

Um conto sobre caça intitulado Amor?!

Sim. Porque o conto não é apenas sobre caça.

Muito bem escrito, como é típico de Maupassant, boa parte da narrativa do conto fala dos preparativos para a caça e da relação (de amor, também) do protagonista por tal atividade. A madrugada, verdadeiramente gélida, é o pano de fundo para uma caçada aos patos que vai terminar de forma abrupta. Este é dos tais contos em que uma porção significativa da eficácia depende da surpresa do final, pelo que não vo-lo revelarei, dizendo apenas que é um final forte, adequadamente romântico para o título e toda a ambiência da história, e que depende de uma característica que a lenda atribui aos patos mas na realidade não se-lhes aplica (aplica-se a gansos e cisnes, não a patos): acasalarem para a vida.

Pelo que, no fundo, esta é uma história sobre amores cruzados, sobre como e até que ponto um amor pode afetar outro. E isso contribui para fazer com que este conto seja bastante bom.

domingo, 23 de junho de 2019

Leiturtugas da semana #25

E eis que chega ao fim mais uma semana, e mais uma vez há leiturtugas a divulgar. Eu tinha dito que isto ia agora ficar por vossa conta porque eu não tinha nenhuma na calha para breve, mas enganei-me. Tinha-me esquecido de que a opinião sobre esta ainda não tinha saído. Saiu agora. E assim a primeira leiturtuga desta semana foi minha, com uma opinião sobre o número 3 do fanzine Dagon, dirigido e publicado pelo Roberto Mendes. Tem muito pouca FC mas tem alguma, pelo que eu passo a 4c6s. Mais duas coisas com FC e estão cumpridos os objetivos.

Mas não fui só eu a contribuir. A Cristina Alves, depois de me consultar sobre se a BD entra nisto ou não (entra), decidiu incluir no projeto um livro de BD que tinha comentado na semana anterior: Mar de Aral, da dupla José Carlos Fernandes e Roberto Gomes, coedição da G Flory e da Comic Heart. E mais: a consulta veio a propósito da opinião que publicou esta semana sobre o livro Laura and the Shadow King, autoedição do Bruno Martins Soares via Amazon. Este último tem FC e a BD também, mas as BD vão sempre para a parte sem FC, pelo que a Cristina passa a 4c2s.

Irmãos Grimm: Contos da Infância e do Lar, Volume I

Sessenta e três. São sessenta e três os contos que os Irmãos Grimm recolheram e trabalharam e anotaram e a editora resolveu incluir neste primeiro volume de três dos Contos da Infância e do Lar. São muitos contos, com muitos elementos repetidos devido à incessante fertilização cruzada típica da literatura de raiz oral, pois como se sabe quem conta um conto acrescenta um ponto. Ou retira. Ou vai buscá-lo a outros contos que já conhece porque sempre é mais simples do que inventar de raiz e é mais fácil de decorar.

É esta repetição que constitui o principal ponto fraco de uma compilação como esta quando é lida como outro livro qualquer. Porque compilações destas não devem ser lidas como outro livro qualquer. Não devem ser lidas do princípio até ao fim, sistematicamente, um conto após outro e após outro e após outro. Não. Lidas assim acabam por se tornar cansativas (a menos que sejam curtas, coisa que esta decididamente não é) e a experiência de leitura ressente-se.

Um livro como este é feito para ser estudado por gente interessada em mergulhar a fundo nas histórias tradicionais, sejam académicos ou não, ou então para estar na estante à espera que alguém pegue nele, leia uma ou duas histórias, provavelmente escolhidas ao calhas, possivelmente em voz alta, para serem escutadas por miúdos ou graúdos, e o devolva ao lugar até à próxima vez que lhe chega o apetite de ler mais duas ou três histórias.

Mas claro que eu o li de fio a pavio, começando pelo princípio e terminando no fim.

E o resultado disso é que vou ter de descansar pelo menos alguns meses destas histórias antes de pegar no segundo volume. Independentemente da qualidade desta edição, que é muito elevada, tradução incluída, o que obviamente abre excelentes perspetivas para os outros dois volumes. É necessário porque já imagino o que aí vem: mais histórias repletas de elementos repetidos, mais trios, mais reis, príncipes e princesas.

E também mais crueldade, porque se há coisa que impressiona ao ler os originais dos Irmãos Grimm e compará-los com muitas das adaptações mais ou menos delicodoces feitas mais tarde é a enorme crueldade que se encontra nos originais. Fruto de um tempo diferente, provavelmente. Fruto também da cultura tradicional germânica, quem sabe? O certo é que quando comparamos estas histórias com os contos populares portugueses do Adolfo Coelho não encontramos nestes uma crueldade tão intensa, embora ela também lá esteja. Os portugueses são mais brandos que os alemães, e também mais iconoclastas, ainda que tudo isso também possa ser mais efeito dos compiladores e muitas vezes retocadores das histórias do que propriamente do material de base. Mas especulo. Para o poder afirmar com segurança seria necessário fazer um estudo aprofundado que misturasse literatura, etnologia e sociologia e fosse buscar mais fontes que estas duas, e isso é areia muito excessiva para a minha pequena camioneta. Foi essa a impressão com que fiquei (e foi essa uma das fontes de interesse que encontrei nas histórias dos dois livros), agora se é verdadeira ou não, não faço a mínima ideia. O que sei é que, cansativo ou não, este o livro é bastante bom e inclui várias histórias que se tornaram clássicos absolutos. Isso basta.

Eis o que achei de cada um dos contos deste livro:
Este livro foi comprado.

Claudia Brabetz Cameira: A Viagem da Giulia Tarossi

Há uma corrente de pensamento que defende que um escritor deve escrever sobre aquilo que conhece, e há quem retire daí a ideia de que a melhor escrita é autobiográfica. É a perspetiva umbiguista. Cá por mim, discordo. Mais que discordar, custa-me a perceber os mecanismos mentais que poderão levar alguém a achar a sua própria vida tão relevante que certamente irá despertar interesse suficiente nas pessoas para as levar a querer ler ficções autobiográficas (ou memórias, as quais são tendencialmente não ficcionais). Para mim, ficção interessante é sobretudo imaginação, empatia, procura do outro, mesmo reconhecendo como inevitável que os autores deixem parte de si em tudo o que escrevem.

E é precisamente isso o que Claudia Brabetz Cameira, italiana radicada em Portugal, faz neste A Viagem de Giulia Tarossi. O que significa que eu não gostei, certo?

Bem... não. Errado. Todas as regras têm as suas exceções, e gostei muito mais deste conto do que esperei gostar depois de perceber que ele era autobiográfico. Porque a autora usa o seu percurso de vida, usa a forma como abandonou o seu país de origem porque se apaixonou por outro, para refletir sobre isso mesmo, o modo como o lugar onde nascemos só nos define até certo ponto, como outros lugares podem acabar por ter mais a ver connosco, podem ressoar mais harmonicamente com o núcleo de quem somos.

E isso, numa época em que a xenofobia reergue a sua feia (e tão, tão estúpida) cabeça como há muito não se via, é de toda a relevância. E por isso, de baixo do umbiguismo característico das ficções autobiográficas, surgem nesta coisas absolutamente relevantes e universais. E além disso, o conto está bastante bem escrito, pesem embora uma ou duas frases um pouco estranhas, provavelmente resquícios do facto do português não ser a primeira língua da autora. Esta foi uma boa surpresa.

Conto anterior deste livro:

sábado, 22 de junho de 2019

Sérgio Nuno Ferreira Guerreiro: Mulher Aranha

Dada a natureza oblíqua da poesia, identificar um poema como "fantástico" tende a ser tarefa mais complicada e incerta do que quando se está a falar de textos em prosa (e estes por vezes já o são bastante). E, pior, redutora, porque os poemas vivem de imagens e o facto de estas, quando tomadas ao pé da letra, poderem parecer fantásticas não significa que o sejam de facto ou que o poema o seja. E este é um problema que, vou desde já suspeitando, será recorrente na primeira parte deste livro, dedicada a textos poéticos.

É certamente um problema deste Mulher Aranha (bibliografia). Neste texto — de que vou desde já adiantando que não gostei muito — Sérgio Nuno Ferreira Guerreiro traça um paralelo entre a perigosidade das fêmeas de aranha e as fêmeas humanas, usando aquelas para falar destas, obtendo como resultado um poema que à primeira vista é fantástico (ou até de terror) mas se visto mais de perto talvez seja apenas uma espécie de parábola. Não creio que tenha sido muito bem sucedido no esforço, especialmente nos aspetos formais da criação poética, mas este texto sempre tem algum interesse. Pouco, acho.

Textos anteriores deste livro:

Aldous Huxley: O Génio e a Deusa

Aquela malta que acha que se devem seguir à risca os conselhos que recebe nos cursos de escrita criativa, se pegasse neste livro, tinha uma apoplexia. Felizmente, eu pouco ligo ao receituário, e pelos vistos quem aceitou para publicação este livro de Aldous Huxley também não quer saber dele. Show, don't tell? Bah. Que se mostre se assim resulta, que se conte se é melhor assim, que se misturem as duas coisas conforme dê mais gozo e gere mais e melhor efeito. As regras só servem para serem quebradas.

E Huxley quebra-as, ainda que me pareça mais provável que nunca tenha sequer ouvido falar delas. E se ouvisse o mais certo seria rir-se. Aqui não há praticamente nada que seja mostrado, tudo é contado ao longo de pouco mais de 200 páginas pouco densas, a longa narração de uma conversa praticamente unidirecional na qual o narrador em primeira pessoa ouve contar uma história.

É uma técnica muito comum na literatura oitocentista e do início do século XIX, na qual quem narra o livro, geralmente em primeira pessoa, funciona apenas como recetáculo e transmissor de uma história alheia. Neste O Génio e a Deusa, o narrador escuta a história da boca de um dos participantes numa enredada história sentimental que começa quando ele, à época um jovem físico educado numa família puritana e religiosa, é contratado como assistente de outro físico famoso chamado Maartens. Este e a família acolhem-no em casa, numa solução que deveria ser provisória mas rapidamente passa a definitiva, e o livro debruça-se quase exclusivamente sobre a dinâmica sentimental (e perto do fim também sexual) existente dentro da família e entre esta e o jovem.

Enquanto conta a história, Huxley aproveita para tecer uma série de considerações sobre os mais variados temas, da sexualidade à religião, passando por uma porção de outras coisas. A morte, e a relação que as pessoas estabelecem com ela, estão muito presentes, pois a mortalidade é, a par da paixão e da dependência sentimental, a principal fonte dos sentimentos que se cruzam entre as personagens. Estas são um grupo de perturbados: o físico famoso, sentimentalmente dependente da mulher, que a páginas tantas se convence de que esta está a trai-lo e por isso adoece gravemente, a mulher, provavelmente a mais sã de todas aquelas pessoas, que não trai o marido (provavelmente) enquanto se mantém por longe a cuidar da mãe moribunda mas acaba mesmo por trai-lo quando volta para casa depois da mãe morrer, o assistente, virgem, cheio de noções românticas e puritanas sobre as relações humanas que se perde de amores pela mulher do patrão, inicialmente platónicos, e acaba a dormir regularmente com ela sem que com isso consiga mais que acrescentar a culpa à sua perturbação, e a filha adolescente do casal que se imagina poetisa e apaixonada pelo assistente e depois fica despeitada por ser rejeitada, o que acaba por levar ao desenlace trágico da história.

Um pouco envelhecido, pois parte das questões que aborda têm vindo a mostrar alguma tendência a perder a centralidade que tinham há sessenta e tal anos, este livro deve ser bastante mais interessante para quem goste de histórias construídas com base em relacionamentos cruzados, e nas crises sentimentais que tais cruzamentos tendem a gerar, do que foi para mim, que geralmente me aborreço com elas. Apesar dessa peculiaridade do meu gosto literário (e não só; isto estende-se a outras formas de contar histórias) não me aborreci por completo, pois há aqui algumas discussões razoavelmente filosóficas que não deixam o sono instalar-se. Não me custa a crer, portanto, que haja quem ache este livro bastante bom. Para mim foi apenas mediano.

Este livro vem da biblioteca dos meus pais.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Lawrence Watt-Evans: Tempo Real

A ideia de Lawrence Watt-Evans (autor que leio pela primeira vez) talvez fosse deixar o leitor na dúvida sobre a real natureza do protagonista e narrador em primeira pessoa que arranjou para este seu conto. Este está convicto de que viajou no tempo, para o passado, para os nossos tempos (ou por outra, para os anos 80, contemporâneos desta história), e de que a sua função é assegurar-se de que ninguém mexe com a linha temporal porque se o fizesse as consequências poderiam ser terríveis. E por isso, sempre que sente que alguém está a fazer mudanças no fluxo do tempo (através de umas dores de cabeça aparentemente direcionais), põe-se à caça do atrevido. E se o encontra, o desgraçado está arrumado. Pois nada pode intrometer-se no Tempo Real (bibliografia).

Talvez fosse essa a ideia. É o que se depreende da forma como a história está construída e é narrada segundo o ponto de vista do homem. Este deteta um alarme, o que equivale a dizer que tem uma dor de cabeça, e põe-se à caça, aproveito os tempos mortos da caçada para transmitir ao leitor a informação necessária para compreender a história. E aquela tentativa final de transformar o narrador num daqueles narradores indignos de confiança, que tanto podem estar a falar verdade como não, ou cuja verdade pessoal não é exatamente a verdade verdadeira, só reforça que a ideia era essa.

Mas se eu falo de tentativa é por uma razão. É que se a ideia era mesmo essa, falhou por completo. Porque há uma e só uma solução para o enigma da natureza do protagonista que não gera inconsistências lógicas. A outra gera, logo é falsa. E é por isso que este conto me parece bastante fraco.

Ah, sim, já agora: a solução falsa faria com que a história fosse FC; a verdadeira faz com que não seja.

Conto anterior desta publicação:

Cristina Flora: As Crianças Nunca Mentem

E depois da fanfic (pouco fan, conceda-se) da Cinderela, passamos à fanfic da Alice. Que Alice? A do Lewis Carroll, naturalmente; a do País das Maravilhas.

Estamos em clima de ficção científica. Cristina Flora põe o seu conto a abrir com um jardim artificial baseado num modelo antigo do século XXI, situando-o no futuro. E o conto segue com livros digitais (que já temos), espécies extintas (que também temos com fartura, embora não cravos, orquídeas, malmequeres, etc.), minhocas telecomandadas, e a coisa arranca de vez quando a criança que protagoniza esta história decide que vai fazer uma máquina do tempo. Ninguém acredita. Mas As Crianças Nunca Mentem (bibliografia), não é? Pois. Diz que não.

É aqui que a ficção científica se fica pelo clima. É que apesar de nunca ninguém ter alcançado tal feito, a miúda que protagoniza esta história constrói mesmo uma máquina do tempo (não se fica a saber como, claro), ou pelo menos uma máquina de qualquer coisa, capaz de a transportar para o País das Maravilhas. Tudo movido quase exclusivamente a diálogos, com uma pegada declaradamente infanto-juvenil (com ênfase na parte mais infantil) e ternurenta. Decididamente, não sou o público-alvo desta história, e não vejo a necessidade ou a vantagem de introduzir nela elementos de ficção científica que depois não são usados realmente para nada. Não é um mau conto, mas parece andar um bocado à deriva, querendo ser qualquer coisa que não é mas sem querer realmente sê-lo, por paradoxal que isto possa parecer. Não é mau conto, mas é fracote.

Contos anteriores deste livro:

Jorge Luis Borges: O Livro de Areia

Não, não estou gago. É só a velha mania que tantos autores têm de dar os mesmos títulos a contos e às coletâneas de que esses contos fazem parte e que tanta chatice (e páginas de desambiguação) me tem dado no Bibliowiki. Ataca por igual bons autores e autores maus e autores assim-assim (quando são sequer os autores a determinar os seus títulos, que às vezes são mais os editores que eles) e mesmo quando são bonzinhos e agregam aos títulos um apêndice do género de "e outras histórias" não é raro que à reedição n alguém se esqueça dele.

Bastante diversificado, como de resto é de comum nas coletâneas de Jorge Luis Borges, há neste O Livro de Areia histórias magníficas lado a lado com outras que ficam aquém do que um leitor razoavelmente fã do autor argentino espera dele, há o fantástico mais típico de Borges junto de contos realistas, de contos históricos, e até de um conto lovecraftiano e outro de ficção científica, e quanto à geografia em que têm lugar, ora estamos na Argentina natal do autor, ora saltamos para a Europa de Leste, e daí para a Inglaterra, para o Uruguai, para os Estados Unidos ou para tempos e lugares menos definidos.

Em comum, há a prosa concisa e precisa de Borges, despida de floreados inúteis e carregada de erudição e de uma certa atmosfera fantástica que até assoma ao de leve nos contos realistas. Mas o que realmente se destaca são os melhores contos. Ulrica é um assombro, A Noite das Mercês é ótimo, O Espelho e a Máscara é excelente, O Disco é magnífico e O Livro de Areia justifica absolutamente ter sido destacado para o título da compilação. Quem dera a muitos contistas ter apenas uma história com esta qualidade em cada um dos seus livros; Borges aqui tem várias. E isso chega e sobra para o livro ser muito bom.

Eis o que achei de cada história aqui contida:
Este livro foi comprado.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

História alternativa: toda a gente a faz, ninguém a lê

Bandeira da República Socialista Soviética de Portugal e Adjacências

É para mim cada vez mais espantoso o facto de Portugal não ter um sólido e pujante mercado de literatura de história alternativa, porque se há coisa que cada vez falta menos é gente a fazer história alternativa a cada oportunidade que lhe apareça. Ou a cada meia oportunidade. Já me lembrei de uma explicação provável, a de que a pulsão para a história alternativa poderá estar inversamente relacionada com a quantidade de livros lidos ao longo da vida, mas mesmo assim continua a parecer-me estranho. Mesmo uma relação inversa dessas deixaria uma margem suficiente para se publicarem por ano vários sucessos de vendas baseados em alguma espécie de ucronia.

Há outra explicação; pode ser doença. Se calhar é doença. Chamemos-lhe ucronite para simplificar.

O último ataque generalizado de ucronite aconteceu a propósito das comemorações do Dia D, o desembarque aliado na Normandia. É um dia muito importante para o desenrolar da II Guerra Mundial e para a história subsequente do planeta e detém recordes que provavelmente nunca mais serão ultrapassados. Isto só por si basta e sobra para lhe garantir um lugar de destaque na história universal... mas há quem não se contente com isso, se deixe contaminar pela ucronite (ou pela ignorância) e debite disparates sobre ter "inaugurado a libertação da Europa" e asneiras do género. Ouvi esta num noticiário da RTP e reagi, no facebook, assim:
Eu cá acho excelente que se comemore o desembarque na Normandia.

Agora que se diga que "inaugura a libertação da Europa", sem ser numa peça de propaganda pura e simples, convenhamos que é tosco.

O dia D foi 6 de junho de 1944.

Nesse dia, já o Exército Vermelho tinha corrido com os alemães da Rússia e da Ucrânia e combatia na Polónia oriental, na Belorrússia e nos bálticos.

Nesse dia, a libertação de Itália ia já tão avançada que os alemães tinham perdido Roma dois dias antes. Também as grandes ilhas mediterrânicas estavam já todas libertadas, incluindo a Córsega.

E isto são os factos históricos, não é a propaganda. Factos históricos esses que todos, e muito em especial os jornalistas, temos obrigação de reportar.

Em vez disso, a RTP papagueia a baboseira da libertação da Europa ter começado no Dia D.

Depois dizem-se muito preocupados com as notícias falsas, enquanto dão "notícias" como quem só aprendeu história nos filmes de Hollywood.

Raio que os parta, pá.
(Alguns dias mais tarde, o Miguel do Vento Sueste foi mais longe, publicando também no facebook uma longa lista de momentos em que as forças do Eixo foram travadas ou forçadas a recuar, começando com a batalha aérea de setembro de 1940 em que a força aérea britânica abateu mais de 50 aviões alemães e que terá levado à suspensão da invasão de Inglaterra, passando pelas grandes batalhas em que o exército vermelho trava os alemães, entre 1941 e 1943, pelas sucessivas derrotas do Eixo no norte de África em 1942 e início de 1943, pela invasão da Sicília em julho de 1943, pelo início da libertação de França com a recuperação da Córsega no outono de 1943 e por vários outros momentos até finalmente se chegar ao tal "momento decisivo" do Dia D em junho de 44.)

Não reparei se o post do Miguel viralizou, mas o meu sim, embora não muito, tendo sido partilhado duas dezenas de vezes e recebido mais de meia centena de polegarzinhos para cima. E, claro, em algumas das partilhas gerou discussão, na qual não podia faltar mais história alternativa.

Alguns apoiam a baboseira, fazendo a história alternativa de que sim senhor, foram os EUA a começar a libertar a Europa no Dia D, fazendo de conta que nenhuma das vitórias aliadas anteriores ao desembarque na Normandia existiu. Nada de Frente Leste, nenhuma frente italiana, népia de derrota nazi em África, nada de nada. E naturalmente, nesta história alternativa as tropas que desembarcaram em França a 6 de junho de 1944 eram todas americanas, sem exceção, ou, vá lá, quando admitem alguma exceção, os americanos teriam tido de andar a salvar os ingleses ou os canadianos, que só teriam conseguido acobardar-se assim que chegaram à praia.

Outros vão ainda mais longe na história alternativa, reconhecendo que, sim, existia uma frente leste e, sim, os russos já estavam a ter vitórias sobre vitórias contra os nazis, mas dizendo que por isso mesmo é que o Dia D corresponde à libertação da Europa, porque sem ele os russos viriam por aí fora, levando tudo à frente até Lisboa. Esquecem a frente italiana, porque não convém ao enredo que arranjam, fazem de conta que não percebem que estão a defender o salazarismo e o franquismo, e se alguém lhes apresenta argumentos contra um tal cenário enfiam os dedos nos ouvidos e cantarolam lalalala-lalalala-lalala.

E por aí fora, numa série de variedades e variações.

Há sobretudo duas coisas que me incomodam nesta pulsão pela história alternativa por parte de gente que não lê história alternativa.

Uma é a falta de qualidade do cenário ucrónico que arranjam. Um bom cenário de história alternativa procura ser sólido, procura analisar as consequências lógicas e prováveis de um determinado acontecimento se ter dado de forma diferente. De um atentado falhado ter tido sucesso ou vice-versa, de uma batalha renhida ter tido outro vencedor, de uma inovação ignorada ter tido reconhecimento ou de uma inovação reconhecida ter sido ignorada. Ou até de um viajante no tempo ter pisado uma borboleta. Mas estas ucronias tiradas da cartola por quem não lê história alternativa são invariavelmente de más a péssimas.

Os Estados Unidos salvam a Europa sozinhos, derrotando sozinhos o poderio militar alemão, apesar de travarem simultaneamente outra guerra no Pacífico, de terem uma logística incomparavelmente mais complexa para porem homens e armas no teatro de guerra e até inferioridade em material durante a maior parte da guerra, tanto em quantidade como em qualidade. É estúpido. No mundo real, o desembarque na Normandia foi das batalhas mais violentas e mortíferas de toda a II Guerra Mundial, apesar dos nazis estarem a combater em outras duas frentes, uma das quais muito extensa, e muitíssimo dispendiosa em homens e material durante os anos que antecederam o Dia D, e não nos esqueçamos dos atos de sabotagem da Resistência francesa (e não só) nas vias de abastecimento. Sem o desgaste provocado pela Frente Leste e, em menor escala, pela frente italiana, o desembarque na Normandia teria sido basicamente impossível, mas isso não detém a fantasia destes americanófilos de pacotilha.

Segundo outros, o desembarque na Normandia foi a forma de evitar outra história alternativa ligeiramente melhor, mas ainda bastante má. Dizem eles que sem o Dia D os russos vinham por aí fora e cobriam a Europa inteira com uma imparável maré vermelha, levando tudo à frente. É o disparate oposto ao primeiro, porque mais uma vez ignora as necessidades e limitações da logística militar, já para não falar da tolice de pensarem que durante a II Guerra havia três forças em confronto e não duas. A verdade é outra: os aliados eram mesmo aliados, russos incluídos, e houve quase desde o início cooperação ao mais alto nível entre Moscovo e as capitais ocidentais, incluindo fornecimento de material enquanto a União Soviética montava (e deslocava) à pressa a sua estrutura industrial.

E como bem se viu no Iraque pós invasão americana, conquistar território é bem diferente de mantê-lo ocupado. Ora, para chegarem à Península Ibérica os russos teriam primeiro de passar pela Alemanha cheia de uma população em grande medida intoxicada pela propaganda nazi, onde certamente enfrentariam resistência suficiente para terem de lá estacionar uma quantidade significativa de efetivos. Foi o que as quatro potências aliadas fizeram no fim da guerra, de resto, e se esse esforço tivesse caído apenas sobre os russos pura e simplesmente não haveria capacidade para invadir a Península Ibérica, até porque atravessar uma Europa inteira destruída pela guerra para trazer material, combustível e mantimentos até à Península seria um esforço hercúleo.

Mas a verdade é que esta pulsão pela história alternativa movida a americanofilia primária ou a anticomunismo igualmente primário também me diverte. É que, sabem?, esta queda direitola pela falsificação da história escorre ironia por todo o lado:

É tão profundamente... estalinista!

Frederik Pohl: Esperando os Olimpianos

Não sei se quando Frederik Pohl arregaçou as mangas para escrever Esperando os Olimpianos (bibliografia) pretendia dar uma lição sobre a natureza (e o interesse) da história alternativa e da ficção científica ou se se limitou a deixar-se entusiasmar pela ideia, mas o que é certo é que esta noveleta é uma aula sobre o que é, sobretudo, e em parte também para que serve tanto a história alternativa em particular como a ficção científica em geral. E também é uma daquelas histórias de escritores, que tantos escritores tanto gostam de escrever e tanto agrada a outra gente ligada à literatura: uma história sobre o mundo dos escritores e dos editores. Tudo numa história de história alternativa. E de ficção científica.

E é uma história de HA e de FC bastante bem feita. Abre com os problemas de um escritor mediano de ficção científica em Londres (o género não tem esse nome, mas percebe-se o que é), cheio de esperança em ver o seu último romance aceite pelo editor e lançado de repente aos leões quando o descobre recusado. Aqui há na história elementos um pouco estranhos e notas de futurismo que levam o leitor a achar estar perante uma história típica de FC de futuro relativamente próximo, na qual as coisas se passam basicamente como se passam no presente (no presente do autor quando a escreveu, em finais dos anos 80, mas em grande medida também no presente dos nossos dias).

Mas depois, de repente, o leitor percebe que não, o que está a ler não é uma história de FC de futuro relativamente próximo. É uma história de história alternativa, passada num presente alternativo em que o Império Romano perdurou até aos dias de hoje. Sem as invasões bárbaras, sem Idade Média, neste mundo alternativo a tecnologia avançou mais rapidamente do que na nossa linha de tempo, e já existem colónias espaciais, inclusivamente à volta das estrelas mais próximas.

Mas o que faz mover a história, além dos problemas do protagonista escritor que procura desesperadamente arranjar algo sobre que escrever a tempo de não ficar sem cheta e cheio de dívidas (e atenção, que no Império Romano havia escravatura, a qual perdura tanto quanto o próprio império... e uma das formas de alguém acabar em escravo é tendo dívidas impossíveis de pagar), é o primeiro contacto. Não com uma espécie alienígena, mas com todo um conjunto delas, uma espécie de federação galática... um panteão completo: os olimpianos. Estes vêm a caminho, depois de encetarem contactos por mensagens de rádio. E ninguém quer fazer nada que possa ofendê-los. Mais um problema para um autor cujo último livro, esse mesmo que foi recusado, é uma sátira na qual emburrece os alienígenas.

Ora acontece que o bom do escritor decide viajar para a província romana do Egito em busca de inspiração e, por casualidade, encontra um velho amigo, também escritor mas, ao contrário dele, cientista de renome, e consulta-o na esperança do amigo lhe fornecer alguma ideia útil. É este quem lhe sugere escrever uma história alternativa, conceito que não entra na cabeça do protagonista. Imaginar que as coisas se passaram de outra forma?! Mas se não se passaram assim!... Vai ser esta incompreensão que Pohl utiliza para explicar o conceito e os seus méritos e gasta nisso uma boa porção do texto, à mistura com uma relação romântica do protagonista com a filha do amigo escritor e cientista, que calha ser historiadora.

Tudo isto muito bem feito (à parte, talvez, a paixão instantânea, mas enfim...), com cada peçazinha no sítio que lhe é próprio. E tendo em conta que o final, que não revelarei, é ao mesmo tempo surpreendente e inteiramente previsível, estamos perante uma novela de primeira água.