É curioso como Stephen King consegue em vários dos seus livros escrever histórias que podem ser encaradas como horror sobrenatural ou ficção científica dependendo da maneira como se olha para elas. Não é o único a fazê-lo, evidentemente, pois as interseções entre o horror e a FC são abundantes e antigas, não só na literatura mas também noutras formas de arte. Mas, ao contrário de muitos outros autores comummente associados ao horror, cujas sobrenaturalidades não deixam lugar a dúvidas, King fá-lo de forma quase tão consistente como Lovecraft.
E fá-lo neste Buick 8, Um Carro Perverso (bibliografia), por exemplo. O título português, de resto, é bastante mau. Nada há no título original de From a Buick 8 que permita deduzir perversidade, e a que existe no texto é mais impressão subjetiva de algumas das personagens do que coisa minimamente objetiva. O título original, que significa simplesmente "De um Buick 8", deixa todas as interpretações em aberto, e isso não acontece por acaso (ainda que o motivo principal seja a ligação a Bob Dylan), pelo que a tentativa de forçar uma interpretação através do título em português não só é francamente má como desrespeita a vontade do autor. E não, não estou a bater na tradutora: este título tem toda a cara de opção editorial.
O que o Buick 8 é com toda a certeza é um portal para outro mundo. Ou melhor, não propriamente um portal para algures, mas um que conecta bidirecionalmente a Terra a outro mundo. Que mundo? Não se sabe. Não fica claro. Pode ser um mundo alienígena, situado algures neste vasto universo, pode ser um mundo paralelo ao nosso, situado noutro universo, pode ser um qualquer mundo infernal, demoníaco, o texto do romance dá azo a todas estas interpretações. As duas primeiras são de ficção científica, a terceira não é.
Essa indefinição não é casual. É precisamente esse o tema do romance: o que se desconhece e, mais do que isso, o que não se pode conhecer. Nesse sentido, este livro aproxima-se de vários livros de Lem, de Solaris a Fiasco, e também de um outro romance que li há muito pouco tempo, Blindsight, de Peter Watts, embora a abordagem seja aqui bastante diferente. Enquanto o incognoscível de Lem e Watts se encontra no espaço, o de King aparece um belo dia numa bomba de gasolina da Pensilvânia sob a forma de um carro que, se não fosse o seu condutor ter desaparecido, deixando-o abandonado, e o carro ter uma ou outra característica estranha, poderia considerar-se banalíssimo.
Mas há as características estranhas e o desaparecimento do condutor, portanto o carro é apreendido pela polícia estadual, metido num barracão... e começam a acontecer coisas estranhas com ele. Coisas ainda mais estranhas que as primeiras. Espetáculos de luzes, aparecimento de bizarras e repugnantes criaturas que rapidamente se decompõem emitindo odores nauseabundos... e desaparecimentos vários de coisas e criaturas que se encontravam à sua volta. Incluindo um polícia.
A história é-nos contada porque décadas depois do carro ter aparecido o filho de um polícia morto num acidente e desde o início profundamente mergulhado na investigação possível à natureza daquela coisa começa a fazer biscates na esquadra em busca de informações sobre o pai. E os colegas do pai vão-no pondo ao corrente do que sabem, das coisas que aconteceram com o Buick, das coisas que o pai fez e das coisas que os outros fizeram. É uma história longa, contada a várias vozes, e em grande medida inconclusiva porque apesar de se terem passado décadas desde o abandono (se é que o foi de facto) do carro na bomba de gasolina, ninguém conseguiu penetrar muito no mistério do Buick.
Perto do fim, o rapaz quase é apanhado pelo carro-portal, resistindo apenas porque um dos colegas do pai o agarra, amarrado a uma corda que outros colegas seguram, fornecendo-nos um vislumbre do lugar que existe do outro lado. Este é tão esquemático e limitado que também está aberto a interpretações, ou seja, traz em si muito pouca informação — uma espécie de prado numa espécie de colina, cores estranhas e pouco mais. De novo, não é por acaso. Mas para mim este vislumbre sustenta a aproximação do livro à ficção científica: o lugar que se vislumbra tem todas as características de um sítio real no mundo natural.
Há quem deteste esta indefinição, este deixar as coisas em aberto e sujeitas a interpretações; eu, aqui, gosto bastante, uma vez que ela contribui em grande medida para a eficácia do livro. Numa história sobre o incognoscível pouco sentido faria definir aquilo que só pode ficar indefinido, compreender o que não se pode compreender. Este livro é bastante bom. A narração é pausada mas apesar disso não tem a palha que se encontra em alguns dos outros livros de Stephen King, antes segue o modo naturalmente sinuoso do contar oral de histórias, em especial quando estas são contadas por vários contadores, como acontece aqui. E a informação que acaba por ser fornecida, sendo insuficiente para o leitor ficar com certezas, é no entanto mais que suficiente para ter suspeitas e construir opiniões. Ou seja: King teceu o seu romance bastante bem. Não perfeitamente, até porque a perfeição é tão inatingível como o Buick 8 é incognoscível, mas sim, bastante bem.
Este livro veio da biblioteca dos meus pais.
sexta-feira, 19 de julho de 2019
Anderson Petroni: Suculência / Asas / Cortante
Sobre estes três "haicais" de Anderson Petroni tenho a dizer muito do que disse sobre os cinco de Aline Aimée: não são propriamente haicais porque não respeitam parte das regras, nomeadamente as métricas. Eu chamar-lhes-ia apenas poemas ultrabreves de três versos. E gostei mais dos de Petroni, sobretudo do segundo, Asas. A imagem nele esboçada é verdadeiramente bela. Cortante também me pareceu bastante interessante; em contraste, Suculência deixou-me indiferente.
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terça-feira, 16 de julho de 2019
Italo Calvino: História do Indeciso
Não sei ainda se será característica das histórias contadas já não no castelo mas na taberna, mas pelo menos esta História do Indeciso é narrada de forma mais livre que a maior parte das histórias contadas no castelo. Italo Calvino não abandona o tarot como fio condutor e motor dos enredos, claro, mas nesta história a narração está mais liberta de constrangimentos, ao ponto de haver trechos em que o leitor quase se esquece de que tudo se baseia em cartas pousadas numa mesa.
Aqui encontramos, como o título indica, um indeciso. Alguém que, confrontado com as encruzilhadas da vida, hesita em escolher um caminho, sobrecarregado de dúvidas sobre qual será o melhor e o que poderá perder ao não seguir aqueles que não seguir. Muitíssimo bem escrita (sim, gostei ainda mais do texto de Calvino neste conto do que é hábito), esta é uma história longa para o que é hábito neste livro, com muito em comum com as histórias populares, incluindo um certo ar arquetípico das situações e personagens.
E no fim depara com o seu duplo, um duplo simétrico, farto de ter a vida adiada à espera que ele tome as decisões que, por contraste, lhe determinem o rumo. Uma ideia brilhante. Diria mesmo que quase borgesiana.
Este conto é magnífico.
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Aqui encontramos, como o título indica, um indeciso. Alguém que, confrontado com as encruzilhadas da vida, hesita em escolher um caminho, sobrecarregado de dúvidas sobre qual será o melhor e o que poderá perder ao não seguir aqueles que não seguir. Muitíssimo bem escrita (sim, gostei ainda mais do texto de Calvino neste conto do que é hábito), esta é uma história longa para o que é hábito neste livro, com muito em comum com as histórias populares, incluindo um certo ar arquetípico das situações e personagens.
E no fim depara com o seu duplo, um duplo simétrico, farto de ter a vida adiada à espera que ele tome as decisões que, por contraste, lhe determinem o rumo. Uma ideia brilhante. Diria mesmo que quase borgesiana.
Este conto é magnífico.
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Terence M. Green e Andrew Weiner: Vinte e Dois Passos Para o Apocalipse
E cá está o conto que menos me agradou neste número da IAM.
Vinte e Dois Passos Para o Apocalipse (bibliografia) divide-se, naturalmente, em vinte e um curtíssimos capítulos (o vigésimo segundo será o apocalipse propriamente dito, supõe-se), constituídos sobretudo por diálogos entre uma panóplia de personagens que se veem impelidas a fazer coisas mais ou menos contra a sua vontade, assim um pouco à semelhança do que acontece com as personagens dos Encontros Imediatos do Terceiro Grau, filme que aparentemente terá tido algum impacto sobre os autores. Autores esses que eu nunca tinha lido, julgo. Terence M. Green, de resto, só tem por enquanto esta obra no Bibliowiki, enquanto Andrew Weiner tem mais duas, nenhuma das quais me passou pelas mãos até agora.
Tudo gira em volta de Plutão, onde desperta uma entidade gigantesca cuja real natureza não chega a ficar inteiramente clara mas é pelas personagens tratada por "deus". E esse despertar reflete-se na Terra, levando os "escolhidos" aos seus atos semi-involuntários e à montagem de uma expedição tripulada ao planeta. Há religiões novas que aparecem do nada, há muita loucura aparente. Há pitadas de filosofia e de teologia e há uma leve sugestão de horror cósmico a la Lovecraft. Mas tudo pintado em rápidas pinceladas, que o conto não é muito extenso, e com pouca profundidade.
E é aí que reside a sua grande falha. Tudo sabe a esboço, a coisa pouco palpável, pouco sólida. Há uma série de pormenores que se minimamente explicados ou enquadrados talvez pudessem parecer mais que tolices mas que não o chegam a ser. E o conto fica gratuito, uma construção etérea que se desfaz com um sopro. Numa publicação com menos histórias realmente boas, talvez não destoasse tanto, mas nesta destoa. Este conto é fraquinho.
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Vinte e Dois Passos Para o Apocalipse (bibliografia) divide-se, naturalmente, em vinte e um curtíssimos capítulos (o vigésimo segundo será o apocalipse propriamente dito, supõe-se), constituídos sobretudo por diálogos entre uma panóplia de personagens que se veem impelidas a fazer coisas mais ou menos contra a sua vontade, assim um pouco à semelhança do que acontece com as personagens dos Encontros Imediatos do Terceiro Grau, filme que aparentemente terá tido algum impacto sobre os autores. Autores esses que eu nunca tinha lido, julgo. Terence M. Green, de resto, só tem por enquanto esta obra no Bibliowiki, enquanto Andrew Weiner tem mais duas, nenhuma das quais me passou pelas mãos até agora.
Tudo gira em volta de Plutão, onde desperta uma entidade gigantesca cuja real natureza não chega a ficar inteiramente clara mas é pelas personagens tratada por "deus". E esse despertar reflete-se na Terra, levando os "escolhidos" aos seus atos semi-involuntários e à montagem de uma expedição tripulada ao planeta. Há religiões novas que aparecem do nada, há muita loucura aparente. Há pitadas de filosofia e de teologia e há uma leve sugestão de horror cósmico a la Lovecraft. Mas tudo pintado em rápidas pinceladas, que o conto não é muito extenso, e com pouca profundidade.
E é aí que reside a sua grande falha. Tudo sabe a esboço, a coisa pouco palpável, pouco sólida. Há uma série de pormenores que se minimamente explicados ou enquadrados talvez pudessem parecer mais que tolices mas que não o chegam a ser. E o conto fica gratuito, uma construção etérea que se desfaz com um sopro. Numa publicação com menos histórias realmente boas, talvez não destoasse tanto, mas nesta destoa. Este conto é fraquinho.
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Camila de Sá (cinco haicais sem títulos)
Confesso que nunca percebi o apelo dos haicais, mas essa incompreensão levou-me há algum tempo a tentar perceber o que está na sua origem e qual a sua filosofia de base. O que me levou também a informar-me sobre as suas características. E isso leva-me a dizer que estes "haicais" de Camila de Sá não são haicais.
É que os haicais são uma forma poética muito meticulosa. Três versos e nem mais um, o que toda a gente sabe, mas também uma métrica precisa composta por pentassílabo-heptassílabo-pentassílabo, detalhe que escapa a muita gente. Incluindo, aparentemente, à autora destes cinco. Sim, que nenhum respeita a métrica.
Quanto ao resto, deixam-me tão frio como quaisquer outros haicais. Ainda não foi desta que descobri algum haicai que realmente me agradasse. Talvez um dia...
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É que os haicais são uma forma poética muito meticulosa. Três versos e nem mais um, o que toda a gente sabe, mas também uma métrica precisa composta por pentassílabo-heptassílabo-pentassílabo, detalhe que escapa a muita gente. Incluindo, aparentemente, à autora destes cinco. Sim, que nenhum respeita a métrica.
Quanto ao resto, deixam-me tão frio como quaisquer outros haicais. Ainda não foi desta que descobri algum haicai que realmente me agradasse. Talvez um dia...
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domingo, 14 de julho de 2019
Leiturtugas da semana #27
E eis que depois de um interregno de duas semanas cá temos de volta as Leiturtugas. Desta vez, elas chegam pela mão da Cristina Alves, que publicou a sua opinião sobre o conto In Vino Veritas, de João Ventura, publicado na antologia Winepunk. FC, claro, pelo que a Cristina sobe a 5c2s.
E por esta semana é só. Vêm aí mais coisas na semana que vem? Esperemos que sim. Até lá.
E por esta semana é só. Vêm aí mais coisas na semana que vem? Esperemos que sim. Até lá.
sábado, 13 de julho de 2019
Zhang Tianyi: O Senhor Hua Wei
O Senhor Hua Wei é um homem muito ocupado e extremamente dedicado à causa pública. Chinês, naturalmente, mas não chinês dos atuais chineses da República Popular, pois o conto de Zhang Tianyi foi escrito e publicado antes da Segunda Guerra Mundial e portanto antes também da implantação do regime maoísta. E a ação do conto é contemporânea da sua publicação, numa época em que a China, ainda imperial, se encontrava já sob ameaça japonesa e havia que mobilizar a população contra essa ameaça. É a isso o que se dedica o Senhor Hua Wei, correndo no seu riquexó de reunião em reunião em reunião e em reunião, ficando minutos em cada uma, debitando as suas pérolas de sabedoria em todas, sempre as mesmas, e indo-se embora para a próxima.
Trata-se, obviamente, de uma sátira. O homem é um perfeito inútil, não faz rigorosamente nada de produtivo, mas faz questão de marcar presença em todos os comités, grupos de trabalho, associações, sociedades, o diabo a quatro, que haja na cidade. Tudo a bem da nação, porque sem ele, diz ele, o país irá inevitavelmente soçobrar sob o jugo japonês. E fica numa fúria sempre que algo acontece sem o seu prévio beneplácito, mexendo todos os cordelinhos de que dispõe para sabotar o trabalho dos outros e voltar a colocar-se à cabeça. Voltando à mesma cegarrega inútil de sempre
Conheço gente assim, oh se conheço.
Divertido, acutilante e bastante curto, este é dos tais contos eminentemente recomendáveis.
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Trata-se, obviamente, de uma sátira. O homem é um perfeito inútil, não faz rigorosamente nada de produtivo, mas faz questão de marcar presença em todos os comités, grupos de trabalho, associações, sociedades, o diabo a quatro, que haja na cidade. Tudo a bem da nação, porque sem ele, diz ele, o país irá inevitavelmente soçobrar sob o jugo japonês. E fica numa fúria sempre que algo acontece sem o seu prévio beneplácito, mexendo todos os cordelinhos de que dispõe para sabotar o trabalho dos outros e voltar a colocar-se à cabeça. Voltando à mesma cegarrega inútil de sempre
Conheço gente assim, oh se conheço.
Divertido, acutilante e bastante curto, este é dos tais contos eminentemente recomendáveis.
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sexta-feira, 12 de julho de 2019
Italo Calvino: A Taberna
Tal como acontece com O Castelo, este A Taberna também é um texto introdutório, no qual Italo Calvino explica e descreve a premissa e o ambiente que estão na génese das histórias que se irão seguir; aquela é idêntica, pessoas que se reúnem e se descobrem impossibilitadas de comunicar a não ser por gestos e com cartas de tarot; este plebeíza-se e é agora uma taberna. Menos desenvolvido que O Castelo, até porque este texto já ficou para trás e já explica boa parte do que de outra forma seria necessário explicar, A Taberna é um texto mais desordenado que aquele, mais sensorial, o que não será por acaso pois o próprio ambiente o é. Além de estar muito bem escrito, é plenamente eficaz no seu propósito e nada mais se lhe pode exigir.
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quinta-feira, 11 de julho de 2019
Carina Castro: Garoa Sobre Mário
Deste Garoa Sobre Mário de Carina Castro, um poema chuvoso, posso dizer que gostei particularmente do uso que a autora faz da aliteração. O poema parece pensado de propósito para aliterar. Quase. E a penúltima frase é um exemplo do que nele se pode encontrar.
Também posso dizer que o verso livre não lhe retira o ritmo, como por vezes acontece. É qualidade. Tirando isso, não tenho grande coisa a acrescentar. Foi um poema que me agradou medianamente, o que não é mau.
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Também posso dizer que o verso livre não lhe retira o ritmo, como por vezes acontece. É qualidade. Tirando isso, não tenho grande coisa a acrescentar. Foi um poema que me agradou medianamente, o que não é mau.
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Steven Utley: Minha Mulher
Continuando o que fui dizendo quando falei do conto anterior desta revista, outra qualidade da ficção científica normalmente ignorada por quem a desconhece é falar de assuntos polémicos muito antes de eles subirem a primeiro plano nas preocupações gerais da sociedade. Os exemplos são demasiado numerosos para enumerar, mas neste conto de Steven Utley podem encontrar-se logo dois: a violência conjugal e que direitos há sobre cadáveres passíveis de serem ressuscitados e quem tem tais direitos.
O primeiro dificilmente podia estar mais na ordem do dia, não só em Portugal como no mundo inteiro, de tal forma que nem vale a pena explicar porquê. Já o segundo, embora já seja relevante para os dias que correm, terá uma premência maior quando, num futuro mais ou menos próximo, seja possível reanimar pessoas que para todos os efeitos estão mortas, não só aquelas cujos corpos foram preservados criogenicamente, mas também as outras, ou pelo menos algumas das outras. Note-se que não sigo se mas quando. Não é por acaso, embora essa discussão não caiba aqui.
Aqui cabe falar-se do conto. Não é por acaso que Minha Mulher (bibliografia) tem este título, uma daquelas raras ocasiões em que a tradução para a língua portuguesa ainda o torna mais adequado ao texto do que o original em inglês. O protagonista do conto é um homem, riquíssimo, inconformado com a morte da mulher, e que por isso contrata cientistas de ponta para a ressuscitarem enquanto vai convivendo com o seu fantasma em realidade virtual. O processo é novo, não testado, de êxito incerto e ilegal, mas ele não quer saber: quer ter a mulher de volta e pronto. E não admite recusas nem hesitações. As coisas ou são como ele quer ou alguém vai ter problemas.
O que move a história é a progressiva descoberta da natureza do homem, da natureza do processo (que nunca chega a ficar inteiramente claro, mas não é preciso; basta que fique clara a sua incerteza) e do motivo da morte da mulher. É um conto concebido para a surpresa, e é provável que mesmo tendo tido cuidado para não o revelar demasiado já tenha aqui deixado demasiadas pistas. Nesse aspeto, está muito bem concebido. Na relevância dos temas que aborda, e até na forma como os aborda, também. Onde para mim falha um pouco é no texto propriamente dito. É por isso que não o acho um conto muito bom. Mas é bom.
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O primeiro dificilmente podia estar mais na ordem do dia, não só em Portugal como no mundo inteiro, de tal forma que nem vale a pena explicar porquê. Já o segundo, embora já seja relevante para os dias que correm, terá uma premência maior quando, num futuro mais ou menos próximo, seja possível reanimar pessoas que para todos os efeitos estão mortas, não só aquelas cujos corpos foram preservados criogenicamente, mas também as outras, ou pelo menos algumas das outras. Note-se que não sigo se mas quando. Não é por acaso, embora essa discussão não caiba aqui.
Aqui cabe falar-se do conto. Não é por acaso que Minha Mulher (bibliografia) tem este título, uma daquelas raras ocasiões em que a tradução para a língua portuguesa ainda o torna mais adequado ao texto do que o original em inglês. O protagonista do conto é um homem, riquíssimo, inconformado com a morte da mulher, e que por isso contrata cientistas de ponta para a ressuscitarem enquanto vai convivendo com o seu fantasma em realidade virtual. O processo é novo, não testado, de êxito incerto e ilegal, mas ele não quer saber: quer ter a mulher de volta e pronto. E não admite recusas nem hesitações. As coisas ou são como ele quer ou alguém vai ter problemas.
O que move a história é a progressiva descoberta da natureza do homem, da natureza do processo (que nunca chega a ficar inteiramente claro, mas não é preciso; basta que fique clara a sua incerteza) e do motivo da morte da mulher. É um conto concebido para a surpresa, e é provável que mesmo tendo tido cuidado para não o revelar demasiado já tenha aqui deixado demasiadas pistas. Nesse aspeto, está muito bem concebido. Na relevância dos temas que aborda, e até na forma como os aborda, também. Onde para mim falha um pouco é no texto propriamente dito. É por isso que não o acho um conto muito bom. Mas é bom.
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quarta-feira, 10 de julho de 2019
Patrícia Vieira de Faria: Orfandade / Moldura
Também sobre estes poemas de Patrícia Vieira de Faria não tenho muito a dizer. Parece que acontece quando não gosto muito mas não há nada de objetivo a explicar porquê. Coisas. Orfandade é um poema sobre uma crise existencial e Moldura é um poema de amor que até poderia ser visto como poema fantástico se fosse encarado sob um ângulo suficientemente literal, pois descreve alguém que amarra destinos e orienta sonhos ligando com uma caneta as sardas que o amante tem nas costas. De nenhum tenho motivo para falar mal, ambos me parecem pelo menos razoavelmente bem feitos, mas nenhum ressoou cá dentro.
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terça-feira, 9 de julho de 2019
Sebastião Ribeiro: Cônjuges / Expect(a/o)re
E volto a gostar mais, embora não igualmente, destes dois poemas. Sebastião Ribeiro tem imagens que me parecem ótimas, ainda que por estes dois exemplos pareça ser mais ou menos monotemático (é óbvio que dois poemas não chegam nem de perto nem de longe para dizer que assim é mesmo; mas estes dois apontam para aí): ambos são sobre relações. Cônjuges é sobre a infelicidade conjugal e é um poema que me agradou bastante. Já Expect(a/o)re é sobre a dúvida que se instala numa relação amorosa (sê-lo-á?) e agradou-me significativamente menos, até porque há nele uma incoerência que não sei se foi propositada mas não parece: o poema é posto na pena do lado da relação que tem dúvidas e é dirigido ao outro lado, que na primeira estrofe é tratado por você e daí para a frente (com alguma insegurança interpretativa na terceira) passa a sê-lo por tu. É esquisito e soa mal.
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Fabiola Weykamp: Roma, 1978
Sobre este Roma, 1978, um poema de Fabíola Weykamp, não tenho realmente nada de substantivo a dizer. Pareceu-me mauzinho mas nem sei ao certo porquê. Ainda por cima até é um texto que ideologicamente me agrada: um poema pacifista. Mas o certo é que não gostei. Mistérios...
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segunda-feira, 8 de julho de 2019
Catarina do Espírito Santo: Conto Bizantino
O lugar é Bizâncio, a cidade que provavelmente se chamaria oficialmente Constantinopla na época em que esta história decorre e muito mais tarde viria a tomar o nome de Istambul. O tempo é meados do século XV, às vésperas da queda perante a invasão otomana. O protagonista é um veneziano, ou pelo menos alguém que viveu em Veneza, e que se encontra na cidade com um objetivo bem definido: compilar todo o conhecimento humano.
Com esta base, Catarina do Espírito Santo desenvolve um conto inteligente, que até tem um levíssimo cheirinho a ficção científica (demasiado leve para que se possa sequer pensar em incluí-lo no género) por intermédio de uma rapariga veneziana que se corresponde com o protagonista e é por ele tratada como "a visionária". Porque o Conto Bizantino poderá ser bizantino, mas só marginalmente é sobre Bizâncio; trata-se, isso sim, de uma história cujo tema é algo muito contemporâneo: que efeitos tem sobre a sociedade a disponibilização livre e acessível de toda a informação do mundo?
A autora aborda a ideia de uma forma anacrónica, mas por isso mesmo francamente interessante. Sendo esse o projeto do seu protagonista, animado da ideia utópica de que o resultado só poderia ser o melhor possível, de que estando toda a informação disponível para todos a ignorância e os males que esta gera só poderiam desaparecer, Catrina do Espírito Santo arranja-lhe uma admiradora antagonista, cética relativamente à capacidade humana para absorver e realmente compreender toda essa informação. Para a gerir. O protagonista chama-lhe visionária porque ela lhe descreve o futuro que vê — o futuro em que nós vivemos —, um futuro em que as massas se mantêm tão irracionais e desinformadas como sempre, e em que os problemas se conservam, teimosos e resistentes.
Este, caros compinchas, é um conto muito bom. Não só é inteligente como ainda por cima está muito bem escrito.
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Com esta base, Catarina do Espírito Santo desenvolve um conto inteligente, que até tem um levíssimo cheirinho a ficção científica (demasiado leve para que se possa sequer pensar em incluí-lo no género) por intermédio de uma rapariga veneziana que se corresponde com o protagonista e é por ele tratada como "a visionária". Porque o Conto Bizantino poderá ser bizantino, mas só marginalmente é sobre Bizâncio; trata-se, isso sim, de uma história cujo tema é algo muito contemporâneo: que efeitos tem sobre a sociedade a disponibilização livre e acessível de toda a informação do mundo?
A autora aborda a ideia de uma forma anacrónica, mas por isso mesmo francamente interessante. Sendo esse o projeto do seu protagonista, animado da ideia utópica de que o resultado só poderia ser o melhor possível, de que estando toda a informação disponível para todos a ignorância e os males que esta gera só poderiam desaparecer, Catrina do Espírito Santo arranja-lhe uma admiradora antagonista, cética relativamente à capacidade humana para absorver e realmente compreender toda essa informação. Para a gerir. O protagonista chama-lhe visionária porque ela lhe descreve o futuro que vê — o futuro em que nós vivemos —, um futuro em que as massas se mantêm tão irracionais e desinformadas como sempre, e em que os problemas se conservam, teimosos e resistentes.
Este, caros compinchas, é um conto muito bom. Não só é inteligente como ainda por cima está muito bem escrito.
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domingo, 7 de julho de 2019
Aline Aimée: Ondula e Renasce / Impulso Im/pele / O Peso da Tua Letra
E se não retirei grande coisa dos poemas do Davi Araújo, já não posso dizer o mesmo destes três poemas da Aline Aimée. Continuo sem perceber grande coisa disto, sublinhe-se à cabeça, mas gostei bastante da forma irreverente com que a Aline decompõe e recompõe as palavras, salpicando os seus versos de neologismos, de uma forma que me fez lembrar um pouco o Mia Couto. Os versos dela ressoam bastante mais em mim, e geram imagens que são mais sugeridas que expressas.
Curiosamente, é mais complicado decifrá-los. Nenhum dos três tem título; vêm identificados apenas pelos primeiros versos respetivos. Mas estes até que dão indicações razoavelmente sugestivas relativamente ao assunto de cada um. Ondula e Renasce parece ser sobre a dança e a vida, Impulso Im/pele sugere uma espécie de autorretrato razoavelmente autodepreciativo, O Peso da Tua Letra aparenta ter como tema o desvendar do poeta pela poesia.
Ou não; talvez tudo isto esteja errado.
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Curiosamente, é mais complicado decifrá-los. Nenhum dos três tem título; vêm identificados apenas pelos primeiros versos respetivos. Mas estes até que dão indicações razoavelmente sugestivas relativamente ao assunto de cada um. Ondula e Renasce parece ser sobre a dança e a vida, Impulso Im/pele sugere uma espécie de autorretrato razoavelmente autodepreciativo, O Peso da Tua Letra aparenta ter como tema o desvendar do poeta pela poesia.
Ou não; talvez tudo isto esteja errado.
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Onésimo Teotónio Almeida: Jean-Charles, Amor de Calções
Eu percebo. A tentação é forte. Sendo o escritor um escritor, e antes disso um leitor, é simplesmente natural que escreva sobretudo com a sua própria condição em mente. Daí a abundância de textos literários a enaltecer os livros, um dos clichés mais queridos de certa franja de leitores (mas que não deixa por isso de ser cliché, tão banal como qualquer outro). E daí a existência de textos como este.
Porque este conto de Onésimo Teotónio Almeida é um conto de escritor absolutamente consciente de o ser, e ainda por cima escritor imbuído daquelas ideias típicas do mainstream sobre a importância relativa da caracterização de personagens, o enredo e o trabalho da língua. Apesar de pôr o contrário na pena de um dos seus narradores.
Estes são dois, que o conto é epistolar "à moderna", sendo construído não por cartas mas por mensagens de email, por vezes com os respetivos anexos. Trocadas entre um orientador de tese e o seu orientando, um holandês estudante de literatura portuguesa, centram-se no que explica o título de Jean-Charles, Amor de Calções: o filho do orientador e as suas tiradas de uma ironia corrosiva, que pelos vistos são sua característica desde a mais tenra infância. O orientando tenta convencê-lo de que tal personagem vale pelo menos um conto e insta-o a escrevê-lo, coisa a que o orientador resiste enquanto envia ao outro sucessivas mensagens carregadas de ditos do jovem "Jean-Charles" (com aspas; ele não se chama realmente Jean-Charles) e cheias de recomendações para se deixar de ilusões sobre a possibilidade de uma mera personalidade dar um conto e avançar mas é com a tese, pois o tempo passa e ela não se faz sozinha.
Ironicamente, é isso mesmo o que Onésimo Teotónio Almeida faz com a mera personalidade: um conto. Talvez queira com isso dizer que as fórmulas existem para serem violadas, talvez queira mostrar que tudo depende da abordagem. Quer certamente fazer um comentário muito consciente à teoria literária. E fá-lo com plena eficácia. A questão que fica é: e isso interessa a alguém que não seja também escritor e/ou estudioso de literatura?
Desconfio que nem por isso, francamente. Eu não desgostei; percebi a ideia, acho, até porque também escrevo de vez em quando, e as tiradas do puto são frequentemente bastante engraçadas. Não engraçadas de gargalhada, talvez (ou talvez não; eu soltei uma e não me custa a crer que haja quem solte mais), mas de sorriso com certeza. Mas desconfio que para muitos leitores, quiçá a maioria, isso não chega. Nem a mim chegou para realmente gostar, pois existe nestes contos de escritor-para-escritores um isolamento em redoma feita de palavras que me desagrada com insistência. Como se o mundo fosse irrelevante e só a literatura importasse. De modo que este conto sai da minha leitura com carimbo de mediano. Escapa. Não está mal.
Porque este conto de Onésimo Teotónio Almeida é um conto de escritor absolutamente consciente de o ser, e ainda por cima escritor imbuído daquelas ideias típicas do mainstream sobre a importância relativa da caracterização de personagens, o enredo e o trabalho da língua. Apesar de pôr o contrário na pena de um dos seus narradores.
Estes são dois, que o conto é epistolar "à moderna", sendo construído não por cartas mas por mensagens de email, por vezes com os respetivos anexos. Trocadas entre um orientador de tese e o seu orientando, um holandês estudante de literatura portuguesa, centram-se no que explica o título de Jean-Charles, Amor de Calções: o filho do orientador e as suas tiradas de uma ironia corrosiva, que pelos vistos são sua característica desde a mais tenra infância. O orientando tenta convencê-lo de que tal personagem vale pelo menos um conto e insta-o a escrevê-lo, coisa a que o orientador resiste enquanto envia ao outro sucessivas mensagens carregadas de ditos do jovem "Jean-Charles" (com aspas; ele não se chama realmente Jean-Charles) e cheias de recomendações para se deixar de ilusões sobre a possibilidade de uma mera personalidade dar um conto e avançar mas é com a tese, pois o tempo passa e ela não se faz sozinha.
Ironicamente, é isso mesmo o que Onésimo Teotónio Almeida faz com a mera personalidade: um conto. Talvez queira com isso dizer que as fórmulas existem para serem violadas, talvez queira mostrar que tudo depende da abordagem. Quer certamente fazer um comentário muito consciente à teoria literária. E fá-lo com plena eficácia. A questão que fica é: e isso interessa a alguém que não seja também escritor e/ou estudioso de literatura?
Desconfio que nem por isso, francamente. Eu não desgostei; percebi a ideia, acho, até porque também escrevo de vez em quando, e as tiradas do puto são frequentemente bastante engraçadas. Não engraçadas de gargalhada, talvez (ou talvez não; eu soltei uma e não me custa a crer que haja quem solte mais), mas de sorriso com certeza. Mas desconfio que para muitos leitores, quiçá a maioria, isso não chega. Nem a mim chegou para realmente gostar, pois existe nestes contos de escritor-para-escritores um isolamento em redoma feita de palavras que me desagrada com insistência. Como se o mundo fosse irrelevante e só a literatura importasse. De modo que este conto sai da minha leitura com carimbo de mediano. Escapa. Não está mal.
Dean Whitlock: Iridescência
Quem não conhece ficção científica tende a avaliá-la por aquilo que costuma aparecer no cinema, e normalmente pelo pior, no sentido de mais raso e superficial, que aparece no cinema, julgando a FC, toda a FC, pelos efeitos especiais e sessões de pancadaria mais ou menos tecnológica que a maioria dos filmes contém. Quem conhece ficção científica, claro, sabe que o género vai muito além disso e, não raro, irrita-se com essa imagem básica que o cinema lhe cola.
E depois põe-se a mostrar coisas. Coisas como este conto de Dean Whitlock, por exemplo.
Como muitas outras obras de ficção científica, Iridescência (bibliografia) é um conto sobre o outro. Mas pode-se falar do outro das mais variadas formas, e a ficção científica fá-lo desde sempre, do monstro incompreendido de Mary Shelley ou dos marcianos conquistadores de Wells à panóplia de outros da ficção científica moderna, que replicam as mesmas abordagens e mais algumas. A de Whitlock é dupla e debruça-se sobretudo sobre a dualidade entre a violência e a não-violência, e o valor e utilidade (ou não) de cada uma.
Aqui, estamos num futuro indefinido pós Primeiro Contacto. O protagonista é um humano, ex-polícia (acabado de se demitir), que para na rua a ver um alienígena fazer bolhas de sabão de uma forma especialmente artística. E que testemunha depois uma agressão por parte de um segundo alienígena, de outra espécie particularmente abrutalhada, contra a arte do primeiro. E que intervém, o que tem como consequência passar a alvo de uma agressão quase mortífera, e isso tem como consequência que o primeiro alienígena o acolhe em casa para cuidar dele até recuperar a saúde. E ganhando assim um companheiro. Mas os dois não se livram do agressor, que se põe a persegui-los, o que leva a um desenlace trágico.
O alienígena das bolhas é adepto da não-violência e da cedência como estratégia. Ao longo da leitura vamo-nos apercebendo de que não o foi sempre, de que existe qualquer coisa no seu passado, ou talvez nas suas inclinações mais íntimas, que o empurra para o outro lado, mas no presente da história é essa a sua abordagem. O humano, como bom ex-polícia, acredita que a violência é necessária. E Whitlock usa essa dicotomia e o desenrolar da história para refletir sobre a questão. Profundamente. Sem a carga de ideias preconcebidas que uma história equiparável a esta mas escrita em modo realista traria inevitavelmente consigo. E esta é uma das grandes qualidades da ficção científica: permitir depurar as questões até à sua essência, afastando delas todo o ruído que as rodeia no mundo real. O resultado? Varia. Às vezes é bom, outras mau. Como tudo. Neste caso é ótimo. Este é um conto muito bom.
Contos anteriores desta publicação:
E depois põe-se a mostrar coisas. Coisas como este conto de Dean Whitlock, por exemplo.
Como muitas outras obras de ficção científica, Iridescência (bibliografia) é um conto sobre o outro. Mas pode-se falar do outro das mais variadas formas, e a ficção científica fá-lo desde sempre, do monstro incompreendido de Mary Shelley ou dos marcianos conquistadores de Wells à panóplia de outros da ficção científica moderna, que replicam as mesmas abordagens e mais algumas. A de Whitlock é dupla e debruça-se sobretudo sobre a dualidade entre a violência e a não-violência, e o valor e utilidade (ou não) de cada uma.
Aqui, estamos num futuro indefinido pós Primeiro Contacto. O protagonista é um humano, ex-polícia (acabado de se demitir), que para na rua a ver um alienígena fazer bolhas de sabão de uma forma especialmente artística. E que testemunha depois uma agressão por parte de um segundo alienígena, de outra espécie particularmente abrutalhada, contra a arte do primeiro. E que intervém, o que tem como consequência passar a alvo de uma agressão quase mortífera, e isso tem como consequência que o primeiro alienígena o acolhe em casa para cuidar dele até recuperar a saúde. E ganhando assim um companheiro. Mas os dois não se livram do agressor, que se põe a persegui-los, o que leva a um desenlace trágico.
O alienígena das bolhas é adepto da não-violência e da cedência como estratégia. Ao longo da leitura vamo-nos apercebendo de que não o foi sempre, de que existe qualquer coisa no seu passado, ou talvez nas suas inclinações mais íntimas, que o empurra para o outro lado, mas no presente da história é essa a sua abordagem. O humano, como bom ex-polícia, acredita que a violência é necessária. E Whitlock usa essa dicotomia e o desenrolar da história para refletir sobre a questão. Profundamente. Sem a carga de ideias preconcebidas que uma história equiparável a esta mas escrita em modo realista traria inevitavelmente consigo. E esta é uma das grandes qualidades da ficção científica: permitir depurar as questões até à sua essência, afastando delas todo o ruído que as rodeia no mundo real. O resultado? Varia. Às vezes é bom, outras mau. Como tudo. Neste caso é ótimo. Este é um conto muito bom.
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sábado, 6 de julho de 2019
Em junho falou-se de...
E cá estamos nós, com mais um mês chegado ao fim e mais uma lista do que se foi falando por aí sobre FC e coisas aparentadas durante o mês anterior. Foi um mês fracote para as coisas portuguesas, ainda que o seja só para os padrões mais recentes; há um ano, teria sido dos melhores. Mas antes...
... mas antes a tal conversa que quem é habitué já conhece mas de quem caiu aqui de paraquedas precisa. O que são estas postas de pescada, o que se pretende com elas e que limitações têm está explicado na primeira que foi publicada, e há uma tag, "leituras fc", que reúne todas as já publicadas, esta incluída, e as que no futuro vierem a existir. Já a seguir há listas do que foi sendo mencionado e os meus comentários sobre essas listas estarão no fim do post. E siga para as listas.
Ficção portuguesa:
O Brasil está estável, alguns degraus abaixo do que esteve há uns meses. São 15 títulos, aos quais poderá somar-se um 16º que inclui textos brasileiros, portugueses e traduzidos; no mês passado tinham sido 14. Uma coisa curiosa entre os brasileiros é a grande quantidade (relativa) de antologias que são publicadas, lidas e comentadas por lá. Mas os destaques não são antológicos. Cabem a B. Demétrius, graças aos 3 comentários que o seu livro recebeu (provavelmente com marketing à mistura) e a Gerson Lodi-Ribeiro, com 2 comentários a 2 títulos, ainda que um esteja incluído no outro e ambos tenham vindo aqui da Lâmpada.
O que teve uma grande subida, mas mesmo assim sem bater recordes, foram os comentários a títulos traduzidos. 94 é bastante mais que os 78 do mês passado, o qual já tinha sido mais movimentado neste capítulo que os meses anteriores. Destacam-se Douglas Adams (ainda), com 6 comentários a cinco obras, Isaac Asimov, com 5 comentários a outras tantas obras, Philip K. Dick, com 5 comentários a 4 obras, Ursula K. Le Guin, com 6 comentários a 3 obras, Kurt Vonnegut, com 5 comentários a 2 obras, e Andy Weir, com 6 comentários a um só romance. Curioso que com a exceção de Weir todos estes autores têm vários títulos na lista, o que mostra consistência, não a corrida ao best-seller. Parece-me bem assim, embora saiba que as editoras talvez não gostem tanto.
Para terminar, uma nota para livros de fora do habitual espaço luso-brasileiro; um deles vem de Angola, o país africano que mais material próximo da ficção científica nos tem dado, e com edições portuguesas (ainda que eu conheça um autor moçambicano que parece ter várias ficções científicas publicadas no seu país, Carlos dos Santos, nenhuma delas saiu cá), e foi logo comentado duas vezes. O outro é galego, apanhado nas minhas buscas regulares porque "distopia" (ao contrário de "ficção científica") é igual nas duas variantes (e em mais algumas línguas).
Tudo somado, não foi um mês muito mau. Veremos o próximo. Até lá.
... mas antes a tal conversa que quem é habitué já conhece mas de quem caiu aqui de paraquedas precisa. O que são estas postas de pescada, o que se pretende com elas e que limitações têm está explicado na primeira que foi publicada, e há uma tag, "leituras fc", que reúne todas as já publicadas, esta incluída, e as que no futuro vierem a existir. Já a seguir há listas do que foi sendo mencionado e os meus comentários sobre essas listas estarão no fim do post. E siga para as listas.
Ficção portuguesa:
- 25 de Abril, Corte e Costura, de João Cerqueira
- Desleais, de Ana Cláudia Dâmaso
- As Crianças Nunca Mentem, de Cristina Flora (conto)
- Interplanetas, de Valter Marques (conto)
- A Batalha da Escuridão, de Bruno Martins Soares
- Laura and the Shadow King, de Bruno Martins Soares
- Por Mundos Divergentes, org. Anton Stark
- A Taverna, nº 1, ed. ??
- Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, org. Roberto de Sousa Causo
- LOG#1525, de B. Demétrius (3x)
- Extemporâneo, de Alexey Dodsworth
- Oneironautas, de Fabio Fernandes e Nelson de Oliveira
- O Código de Camões, de Beto Junqueyra
- Além do Invisível, de Cristina Lasaitis (conto)
- Às Moscas, Armas!, de Nelson de Oliveira
- Elevador 16, de Rodrigo de Oliveira
- O Silêncio dos Livros, de Fausto Luciano Panicacci
- Assessor Para Assuntos Fúnebres, de Gerson Lodi-Ribeiro (conto)
- Aventuras do Vampiro de Palmares, de Gerson Lodi-Ribeiro
- Cão 1 Está Desaparecido, de Lady Sybylla (conto)
- Páginas do Futuro, org. Braulio Tavares
- 2084: Mundos Cyberpunks, org. Lidia Zuin
- Lenguluka, de Onofre dos Santos (2x)
- As Mulleres da Fin do Mundo, de Daniel Asorey
- Dagon, nº 3, ed. Roberto Mendes
- Granta, nº 3, ed. Pedro Mexia
- Star Wars: A Trilogia, org. ??
- A Vida, o Universo e Tudo Mais, de Douglas Adams
- Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes!, de Douglas Adams
- O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams (2x)
- O Restaurante no Fim do Universo, de Douglas Adams
- Praticamente Inofensiva, de Douglas Adams
- 2.430 D.C., de Isaac Asimov (conto)
- Eu, Robô, de Isaac Asimov
- Fundação, de Isaac Asimov
- Segunda Fundação, de Isaac Asimov
- Sonhar é Assunto Particular, de Isaac Asimov (conto)
- Maddadão, de Margaret Atwood (2x)
- Oryx e Crake, de Margaret Atwood (2x)
- Use of Weapons, de Iain M. Banks
- Raízes do Mal, de Gwenda Bond (4x)
- O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges
- Inesquecível, de Alexandra Bracken (3x)
- Laranja Mecânica, de Anthony Burgess
- Laços de Sangue, de Octavia E. Butler (3x)
- História de Astolfo na Lua, de Italo Calvino (conto)
- O Mundo Resplandecente, de Margaret Cavendish
- A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada, de Becky Chambers
- Canções da Terra Distante, de Arthur C. Clarke
- Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke
- O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke
- Jogador nº 1, de Ernest Cline
- A Passagem, de Justin Cronin
- Vox, de Christina Dalcher (3x)
- Blade Runner, de Philip K. Dick (2x)
- Espaço Eletrônico, de Philip K. Dick
- O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick
- O Tempo Desconjuntado, de Philip K. Dick
- Home From the Shore, de Gordon R. Dickson
- Uma Dobra no Tempo, de Madeleine l'Engle
- Tempo Real, de Lawrence Watt-Evans (conto)
- O Periférico, de William Gibson
- Crianças do Éden, de Joey Graceffa
- A Mãe das Moscas, de Jacob Grey
- Uma Coisa Absolutamente Fantástica, de Hank Green (2x)
- A Curva do Sonho, de Ursula K. Le Guin
- Os Despossuídos / Os Despojados, de Ursula K. Le Guin (4x)
- Planeta do Exílio, de Ursula K. Le Guin
- Guerra sem Fim, de Joe Haldeman (2x)
- O Navio Além do Tempo, de Heidi Heilig
- Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein
- Duna, de Frank Herbert
- Imperador-Deus de Duna, de Frank Herbert
- Serotonina, de Michel Houellebecq
- Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
- O Legado, de Amie Kaufman e Meagan Spooner
- Flores Para Algernon, de Daniel Keyes (2x)
- Os Olhos do Dragão, de Stephen King
- Além do Planeta Silencioso, de C. S. Lewis
- Aquela Fortaleza Medonha, de C. S. Lewis
- Perelandra, de C. S. Lewis
- A Sombra Vinda do Tempo, de H. P. Lovecraft
- O Depoimento de Randolph Carter, de H. P. Lovecraft (conto)
- A Estrela da Meia Noite, de Marie Lu
- Bobby Bate à Porta, de Josh Malerman (conto)
- Máquinas Como Eu, de Ian McEwan (2x)
- Um Conto de Natal, de China Miéville (conto)
- Utopia, de Thomas More
- Mundo em Caos, de Patrick Ness (2x)
- The Malice, de Peter Newman
- Binti, de Nnedi Okorafor
- Home, de Nnedi Okorafor
- The Night Masquerade, de Nnedi Okorafor
- 1984, de George Orwell (2x)
- Medo Clássico, vol. II, de Edgar Allan Poe
- Esperando os Olimpianos, de Fredrik Pohl (conto)
- A Revolta de Atlas, de Ayn Rand
- System Shock, de Justin Richards
- The Sands of Time, de Justin Richards
- Sedução Mortal, de J. D. Robb
- Ano Um, de Nora Roberts
- Divergente, de Veronica Roth
- As Brigadas Fantasma, de John Scalzi
- Encarcerados, de John Scalzi
- A Serpente do Velho Nilo, de Charles Sheffield (conto)
- A Nuvem, de Neal Shusterman
- Fragmentados, de Neal Shusterman
- Seca, de Neal Shusterman e Jarrod Shusterman (2x)
- Outros Tempos, Outros Mundos, de Robert Silverberg
- Android Karenina, de Lev Tolstoi e Ben H. Winters
- Space Opera, de Catherynne M. Valente
- The Big Book of Science Fiction, org. Jeff VanderMeer e Ann VanderMeer
- Cama de Gato, de Kurt Vonnegut
- Matadouro-Cinco, de Kurt Vonnegut (4x)
- Blindsight, de Peter Watts
- Artemis, de Andy Weir (6x)
- A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells
- Muito Barulho por Nada, de Connie Willis (conto)
- Sign of Chaos, de Roger Zelazny
- As Horas Vermelhas, de Leni Zumas
- 21 Lições Para o Século 21, de Yuval Noah Harari
O Brasil está estável, alguns degraus abaixo do que esteve há uns meses. São 15 títulos, aos quais poderá somar-se um 16º que inclui textos brasileiros, portugueses e traduzidos; no mês passado tinham sido 14. Uma coisa curiosa entre os brasileiros é a grande quantidade (relativa) de antologias que são publicadas, lidas e comentadas por lá. Mas os destaques não são antológicos. Cabem a B. Demétrius, graças aos 3 comentários que o seu livro recebeu (provavelmente com marketing à mistura) e a Gerson Lodi-Ribeiro, com 2 comentários a 2 títulos, ainda que um esteja incluído no outro e ambos tenham vindo aqui da Lâmpada.
O que teve uma grande subida, mas mesmo assim sem bater recordes, foram os comentários a títulos traduzidos. 94 é bastante mais que os 78 do mês passado, o qual já tinha sido mais movimentado neste capítulo que os meses anteriores. Destacam-se Douglas Adams (ainda), com 6 comentários a cinco obras, Isaac Asimov, com 5 comentários a outras tantas obras, Philip K. Dick, com 5 comentários a 4 obras, Ursula K. Le Guin, com 6 comentários a 3 obras, Kurt Vonnegut, com 5 comentários a 2 obras, e Andy Weir, com 6 comentários a um só romance. Curioso que com a exceção de Weir todos estes autores têm vários títulos na lista, o que mostra consistência, não a corrida ao best-seller. Parece-me bem assim, embora saiba que as editoras talvez não gostem tanto.
Para terminar, uma nota para livros de fora do habitual espaço luso-brasileiro; um deles vem de Angola, o país africano que mais material próximo da ficção científica nos tem dado, e com edições portuguesas (ainda que eu conheça um autor moçambicano que parece ter várias ficções científicas publicadas no seu país, Carlos dos Santos, nenhuma delas saiu cá), e foi logo comentado duas vezes. O outro é galego, apanhado nas minhas buscas regulares porque "distopia" (ao contrário de "ficção científica") é igual nas duas variantes (e em mais algumas línguas).
Tudo somado, não foi um mês muito mau. Veremos o próximo. Até lá.
sexta-feira, 5 de julho de 2019
Davi Araújo: Alter et Idem / Liberdade de Expressão
Já disse por aqui muitas vezes, e repito mais uma vez: não percebo grande coisa de poesia. Tenho umas luzes, mas são de poucos lúmen (que com a variedade de económicas os watts deixaram de ser úteis para ter ideia da luminosidade). E por isso é sempre com um certo embaraço que falo aqui de poemas.
Especialmente de poemas como estes. Davi Araújo faz poemas formalmente corretos, com ritmo, com prosápia, com palavras bem escolhidas e postas nos seus lugares, mas que falham em estabelecer uma ligação comigo, emocional ou qualquer outra. Por isso não sei bem que diga deles. Descrevê-los? Bem... Alter et Idem é um poema sobre o efeito que a literatura tem sobre o eu, ou pelo menos sobre um eu possível, e Liberdade de Expressão mais parece uma brincadeira em que a musicalidade das palavras é muito mais relevante do que o seu significado.
Basta?
Provavelmente não, mas é o que temos.
Especialmente de poemas como estes. Davi Araújo faz poemas formalmente corretos, com ritmo, com prosápia, com palavras bem escolhidas e postas nos seus lugares, mas que falham em estabelecer uma ligação comigo, emocional ou qualquer outra. Por isso não sei bem que diga deles. Descrevê-los? Bem... Alter et Idem é um poema sobre o efeito que a literatura tem sobre o eu, ou pelo menos sobre um eu possível, e Liberdade de Expressão mais parece uma brincadeira em que a musicalidade das palavras é muito mais relevante do que o seu significado.
Basta?
Provavelmente não, mas é o que temos.
Hei de ler
E porque não? Se mostrei os livros que tenho em leitura ao dealbar do mês (ou tinha, vá), porque não mostrar também aqueles que provavelmente começarei a ler durante julho? Ou possivelmente. Se calhar falar em possibilidades é melhor que em probabilidades, que isto tem algum planeamento, com certeza, mas também tem imprevistos.
Cá eu estou particularmente curioso com a antologia dos 7 Contos Ilustr.s e também com o Meg, embora este também me dê uma certa cagufa. Cheira-me a uma daquelas coisas feitas de propósito para o cinema, e por isso um bocadinho patetas. Mas veremos.
Cá eu estou particularmente curioso com a antologia dos 7 Contos Ilustr.s e também com o Meg, embora este também me dê uma certa cagufa. Cheira-me a uma daquelas coisas feitas de propósito para o cinema, e por isso um bocadinho patetas. Mas veremos.
quinta-feira, 4 de julho de 2019
David Rafael Silva: O Tapete Mágico
Pouco percebo de poesia, mas sei que uma das necessidades da poesia é a precisão da linguagem e isto aplica-se tanto àqueles poemas com métrica, rima e demais camisas de sete varas quanto aos que se constroem com verso livro. E o David Rafael Silva não tem essa precisão na linguagem. Ou pelo menos não a teve quando escreveu sobre O Tapete Mágico (bibliografia). O resultado são uns versejos bem intencionados sobre o valor da imaginação para uma criança (e só, David?), consubstanciada nas histórias mágicas da fantasia, mas que não passam das boas intenções. As palavras não têm ritmo, não soam bem, são banais e, por vezes, algo desconexas; as rimas, que nem seriam necessárias, soam muitas vezes forçadas. E por aí fora. Este texto é mau.
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Escrita de junho
Sim, é verdade, isto acelerou mesmo. Junho terminou com cerca de 9100 palavras acrescentadas à novela que tenho andado a escrever. São 25 páginas, talvez um pouco mais. É mais do que em qualquer outro mês desde que recomecei a escrever. Muito mais. Mais que o dobro, na verdade.
E no entanto, nem sequer acabei o capítulo que já vinha dos meses anteriores. É um capítulo muito grande, o maior de todos, e de longe, e provavelmente acabará por sofrer algum desbaste. Mas não muito: é central, sob vários aspetos. O que quer dizer que isto arrisca-se fortemente a deixar de ser novela e passar a romance, pelo menos em tamanho (porque a estrutura continua a ser de novela). Está com mais de 35 mil palavras, mais de 80 páginas de manuscrito, as quais são um pouco maiores que as de um livro médio, pelo que num livro isto teria já quase 100 páginas. O mais certo é que não chegue a ser tão grande como Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, que tem 47 mil palavras, mas é possível que não fique muito longe. Afinal, faltam ainda dois capítulos...
Já não me arrisco é a fazer previsões quanto a quando terei isto acabado. Era para já ter, mas não esperava que crescesse tanto. Acho que me falta mais ou menos tanto quanto escrevi este mês, mas pode ser que acabe por escrever mais. Portanto, olhem: se calhar acabo em julho, se calhar só em agosto, e se a coisa continuar a inchar pode ser que só em setembro. Veremos.
Daqui a um mês digo como foi.
terça-feira, 2 de julho de 2019
Vou lendo
Não sei se isto vai passar a ser coisa regular, mensal, mas este mês apeteceu-me pôr aqui uma galeriazinha das capas dos livros e publicações em leitura no primeiro dia do mês. Muitas já vocês as viram por aí nos comentários aos contos, mas há algumas que ainda não apareceram. Veem-nas agora.
E então? Alguma destas capas lhes desperta especial curiosidade?
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E então? Alguma destas capas lhes desperta especial curiosidade?
Italo Calvino: Todas as Outras Histórias
Todas as Outras Histórias é isso mesmo: todas as outras histórias que se podem obter a partir de uma tiragem de tarot, ou melhor, da tiragem de tarot que terá originado as histórias anteriores. É um texto bastante confuso, cheio de sequências de cartas e personagens e histórias contadas de forma muito resumida, para o seguimento da qual talvez fosse necessário lê-la com as cartas distribuídas à frente. Sim, o conto é antecedido por uma página ilustrada com a respetiva tiragem, mas esta consegue ser mais confusa que a história: as imagens são muito pequenas e estão representadas a preto e branco; nada disto contribui para deixá-la clara. E a minha ignorância muito assumida sobre o tarot também não.
Apesar disso, é um conto eficaz a transmitir a principal ideia que Italo Calvino quer com ele transmitir: a de que qualquer tiragem de tarot permite deduzir (ou imaginar) uma miríade de histórias. E isto, digo eu, tanto se aplica às cartas quando usadas para o fim para que ele as usa, a criação literária, como quando são usadas na cartomancia mais clássica.
Por outro lado, lá está, é um bocado gaveta de bugigangas, aquelas gavetas que toda a gente tem em casa e para onde vai atirando tudo o que não tem lugar nas outras. Está bem escrito, claro, e outra coisa não se esperaria de Calvino, apresenta num fogacho uma porção de personagens e de histórias que muitas vezes apetece descobrir melhor, mas, provavelmente por isso mesmo, esteve longe de me encher as medidas.
Contos anteriores deste livro:
Apesar disso, é um conto eficaz a transmitir a principal ideia que Italo Calvino quer com ele transmitir: a de que qualquer tiragem de tarot permite deduzir (ou imaginar) uma miríade de histórias. E isto, digo eu, tanto se aplica às cartas quando usadas para o fim para que ele as usa, a criação literária, como quando são usadas na cartomancia mais clássica.
Por outro lado, lá está, é um bocado gaveta de bugigangas, aquelas gavetas que toda a gente tem em casa e para onde vai atirando tudo o que não tem lugar nas outras. Está bem escrito, claro, e outra coisa não se esperaria de Calvino, apresenta num fogacho uma porção de personagens e de histórias que muitas vezes apetece descobrir melhor, mas, provavelmente por isso mesmo, esteve longe de me encher as medidas.
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segunda-feira, 1 de julho de 2019
H. G. Wells: Um Sonho do Armagedão
Se me pedissem para rotular este conto de H. G. Wells, a expressão que eu teria de usar é "ficção científica onírica". Porque ao contrário do que acontece nos seus romances de FC mais conhecidos (A Guerra dos Mundos, A Máquina do Tempo, A Ilha do Dr. Moreau, O Homem Invisível), cujo combustível é a tensão entre a tecnologia — mesmo que biológica, como nos dois últimos casos — e aqueles que a dominam por um lado e a sociedade em geral por outro, em Um Sonho do Armagedão estamos basicamente no mundo dos sonhos, o que aliás o próprio título já revela.
Não que essa tensão esteja aqui ausente. O conto é daquelas histórias clássicas da viragem do século XIX para o XX (quase precisamente: o conto foi publicado em 1901), em que o narrador se limita a contar ao leitor uma história tal como lhe foi contada a ele por um terceiro. Neste caso, o terceiro é um homem perturbado que conhece numa viagem de comboio, o qual lhe relata uns sonhos particularmente vívidos que teve durante algum tempo... uns sonhos em que ele é uma pessoa diferente. Uma pessoa futura.
Detalhe da maior importância: o homem é capaz de descrever com precisão as paisagens de regiões de Itália nas quais nunca esteve e que o narrador reconhece porque ele viajou por lá. Wells consegue assim gerar no leitor a ideia de que aquilo que o homem sonha não é sonho mas realidade, de que ele está de alguma forma ligado oniricamente com um futuro verdadeiro. De resto, é essa a opinião do homem, apesar de deparar com o ceticismo do companheiro de viagem.
E o que o homem descreve é a descida ao inferno da guerra de um mundo aparentemente unificado que há décadas, talvez há gerações, desconhece tal flagelo. Tudo devido à ambição e sede de vingança de um líder carismático mas tresloucado e à inação do homem que poderia detê-lo — o próprio alter ego futuro do passageiro de comboio. Wells cria assim uma ficção científica pacifista que alerta para o perigo de ficar de braços cruzados quando os monstros ganham relevância e protagonismo, décadas antes de uma II Guerra Mundial que pareceu concretizar tudo o que Wells temia.
E o pior?
O pior é que o alerta vai ganhando uma relevância crescente nos dias de hoje, mais de um século depois da publicação desta história.
Conto anterior desta publicação:
Não que essa tensão esteja aqui ausente. O conto é daquelas histórias clássicas da viragem do século XIX para o XX (quase precisamente: o conto foi publicado em 1901), em que o narrador se limita a contar ao leitor uma história tal como lhe foi contada a ele por um terceiro. Neste caso, o terceiro é um homem perturbado que conhece numa viagem de comboio, o qual lhe relata uns sonhos particularmente vívidos que teve durante algum tempo... uns sonhos em que ele é uma pessoa diferente. Uma pessoa futura.
Detalhe da maior importância: o homem é capaz de descrever com precisão as paisagens de regiões de Itália nas quais nunca esteve e que o narrador reconhece porque ele viajou por lá. Wells consegue assim gerar no leitor a ideia de que aquilo que o homem sonha não é sonho mas realidade, de que ele está de alguma forma ligado oniricamente com um futuro verdadeiro. De resto, é essa a opinião do homem, apesar de deparar com o ceticismo do companheiro de viagem.
E o que o homem descreve é a descida ao inferno da guerra de um mundo aparentemente unificado que há décadas, talvez há gerações, desconhece tal flagelo. Tudo devido à ambição e sede de vingança de um líder carismático mas tresloucado e à inação do homem que poderia detê-lo — o próprio alter ego futuro do passageiro de comboio. Wells cria assim uma ficção científica pacifista que alerta para o perigo de ficar de braços cruzados quando os monstros ganham relevância e protagonismo, décadas antes de uma II Guerra Mundial que pareceu concretizar tudo o que Wells temia.
E o pior?
O pior é que o alerta vai ganhando uma relevância crescente nos dias de hoje, mais de um século depois da publicação desta história.
Conto anterior desta publicação:
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